Número total de visualizações de páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta sonho. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta sonho. Mostrar todas as mensagens

domingo, 13 de julho de 2025

A viagem de uma pena

  

   Era uma vez uma pena que se soltou de um pavão, muito bonita, comprida, brilhante, pousada na relva a apreciar a paisagem. 

     O que lhe chamou mais a atenção foi uma criança sorridente, do outro lado da margem a lançar um barquinho feito de esponja, colorido, leve. 

      Nunca tinha visto um barquinho daquele estilo. O menino lançou o barquinho, a cantarolar, baixinho, e disse: 

- Boa viagem, barquinho! Xau. 

      O barquinho começa a andar lentamente, porque o rio tinha pouca água, ao sabor desta, o menino acompanha os movimentos, parece estar a imaginar onde irá parar, levanta-se, e acompanha pela margem, olhando também para a paisagem à sua volta. 

      A pena entra na água mas está tão fria, que sai para se aquecer e apanhar sol, mas fica tão curiosa com o barquinho que vai pela relva a acompanhar a viagem do barquinho e o menino, maravilhada. 

      A sua imaginação começa a trabalhar, sobre para onde irá aquele barquinho, o que encontrará na água e fora dela. Será que alguém vai entrar no barquinho? Talvez um peixinho, um sapinho, uma rãzinha, uma borboleta, uma pedra, uma gota de água? Uma folha de uma árvore? Uma abelha? Ou será que já leva alguém lá dentro? Hummm...não, não vejo ninguém. Será que vai um passarinho a viajar no barquinho? Ou...uma pena, como eu? Será que vai o menino? Não...o menino não sabe lá! Ou, será que é uma armadilha para caçar algum animal? O menino tem ar de bonzinho, acho que não fazia isso. Talvez o barquinho encontre pedras grandes, como é que ele vai sair de lá? Pode ser difícil. 

       Vê o menino entrar na água, porque tal como a pena do pavão imaginava, o barquinho encontrou pedras altas e nem a água conseguia empurrá-lo. O menino pega no barquinho, e põe-no na parte mais lisa. Sai da água, e continua a ver para onde vai. A pena aparece e comenta consigo: 

- E se aparece um patinho, será que vai abocanhá-lo? 

        Aparece mesmo um patinho, o menino grita-lhe, quando se preparava para abocanhar o barquinho. 

- Nem penses! Isso não é para comeres! 

        O patinho não lhe mexe, mas segue atrás dele. Mais à frente, o barquinho fica a rodopiar num buraco com água entre rochas e não consegue sair. O patinho vai lá e empurra-o com o bico. 

- Obrigado, pato! - diz o menino 

- Pensei que ias gritar outra vez comigo. Eu já sabia que isto ia acontecer. - diz o pato 

- Desculpa! Obrigado. 

        O barquinho segue viagem, o pato atrás, a pena numa margem, e o menino na outra. A pena imagina: 

- E se aparece um rato que o quer comer? 

        Aparece mesmo um rato, que tenta morder o barquinho, mas o menino e o pato gritam: 

- Nem te atrevas! 

        O rato recua e encosta-se assustado à parede, logo a seguir esconde-se num buraco. Mais à frente, o barquinho passa por uma zona cheia de pedrinhas, e trepida demais. O patinho pega nele, o menino grita com o pato: 

- Larga isso! 

        Mas quando vê que o patinho tirou o barquinho de tantas pedras, sorriu: 

- Áh! Desculpa, patinho. Obrigado. 

        O barquinho segue, e todos o acompanham, até que para nas grades onde acaba o lago. O menino aprecia a paisagem, vê a pena de pavão na relva, molha os pés, vai buscá-la e põe-na no barquinho, para voltar para o mesmo sítio. A pena sente um bocadinho de medo, mas está toda refastelada. 

- Mas que barquinho tão agradável, tão macio...parece uma nuvem, ou uma espuma! Áh! Que gira paisagem, daqui! Senta-se, aprecia a paisagem, deita-se e vê o céu, a cor do céu, os pássaros, ouve o som da água, vê as árvores e os seus troncos com formas diferentes, as folhas verdes, de vários tamanhos, e tons, a abanar com o vento, como se fossem mãos a acenar. 

        Ela sorri e abana-se também, diz olá, vê a água, a sua cor, as pedrinhas, dezenas de peixes de vários tamanhos e cores, à volta do barco e dos lados. Ela ri, e fica com vontade de lhes tocar, como faz o menino que a acompanha, com os pezinhos na água. 

        Molha as mãos, e desata às gargalhadas quando toca nos peixes, porque são escorregadios, e nadam rápido. Alguns param aos seus pés e aceitam mimos, outros fogem. A pena também os vê nas rochas onde o barquinho ficou preso, para não rodopiar, o menino tira-o e põe-no na água. Faz o mesmo quando passa no monte de pedrinhas. 

        A pena vê flores bravas, e relva verde, esquilos a correr, coelhos bravos, cães a passear com os seus donos, pais a passear bebés, pessoas a andar de bicicleta, a pé, a jogar à bola. O menino também viu, enquanto deu o resto do passeio, relaxado, e no final, ele tira a pena do barquinho, atira-a a rir-se, para a relva, e tira o barquinho da água. 

        A pena fica triste e zangada, pela indelicadeza do rapaz. Vai embora e a pena ficou na dúvida se imaginou essa viagem, ou se a fez mesmo, porque já não viu o menino, nem o barquinho. 

- Será que sonhei, imaginei ou dei mesmo este passeio tão bom naquele barquinho? Porque é que ele tinha de estragar o passeio, ao tirar-me do barquinho e deixar-me aqui na margem? Depois de um passeio tão bom, ou...um sonho, imaginação, não sei...ele não devia ter feito isso! Põe-me no barquinho, e no fim atira-me assim para a relva, leva o barquinho, e eu fico aqui? Óh! Não gostei. Só gostei enquanto andei no barquinho. E o pato, onde está? Se calhar ficou lá atrás. Ele até foi simpático, cuidou do barquinho, livrou-o de alguns perigos. 

        A pena levanta-se, e recolhe-se bum buraquinho de um tronco, porque estava frio. Um passarinho pega na pena com o bico, e leva-a para o seu ninho, para cobrir os seus filhotes. 

        A pena fica assustada, mas quando percebe que é para aquecer passarinhos pequeninos, sente-se orgulhosa e deixa-se ser levada. 

Será que foi um sonho, imaginação ou realidade? 

Se vocês imaginassem um passeio num barquinho como estes, como seria? 

O que veriam? 

E se fossem a pena de pavão, como imaginariam o passeio do barquinho? 

E o que é que o barquinho encontraria? Um rio calmo, ou um rio cheio de obstáculos? 

Podem deixar nos comentários, se quiserem. 

                                              

                                 FIM 

                             Lara Rocha 

                                                                                                               12/Julho/2025 

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Incerteza quase certa - amor platónico

      



       Sabemos algumas coisas um do outro, mas não sei se algum dia virás...mas espero-te! Mesmo na incerteza quase certa, espero-te, porque enquanto existe incerteza, há alguma esperança de certeza, mesmo pequenina, existe, e mantém a vontade que venhas para a minha realidade acesa. 

        Não sei se algum dia te terei ao meu lado, como quase te sinto enquanto imagino que estás ao meu lado. Quando te imagino sinto uma breve esperança que aconteça. Por isso, mesmo na incerteza, de poder ser uma certeza incerta. espero-te! Em qualquer relação há incertezas, certas e incertas. Por isso, eu e tu somos humanos, mas pode alguma certeza, dentro da incerteza, uma certeza negada. 

        Não sei se algum dia nos envolveremos num abraço, num ou em muitos, como gostava! Na incerteza, existe alguma certeza, pelo menos no desejo. Mesmo assim, espero-te! Nunca se sabe! Não sei se algum dia os nossos corpos se fundirão um no outro, recheados de beijos longos, apaixonados, a sentir as batidas do coração um do outro, e a respiração excitante. 

      Mesmo assim, espero-te, mesmo sabendo que é quase impossível de acontecer. Entre o impossível, existe o quase, por isso, pode acontecer. 

     Espero-te! Espero por aquele dia que não se vai chegar, mas algum dia, se encontrares as chaves que perdi e entrares no meu coração, vais encontrar tesouros só teus. Mesmo assim, espero-te, porque nada é certo, tudo é certo e incerto. Por isso, espero-te! 

    Não sei se algum dia de sonho, os nossos lábios se tocarão, mas mesmo assim, espero-te, porque desejo, espero-te, ainda que fique pelo desejo.

 Não sei se algum dia as nossas mãos se entrelaçarão e sentirei a sua temperatura, a maciez da pele, a doçura do teu corpo encostado ao meu, e nós, em momentos só nossos. 

       Não sei se fico pelo desejar ou pela esperança incerta de vir a acontecer. Mesmo assim, espero-te! Não sei se algum dia sentirei a tua respiração junto de mim, e o teu coração a bater às vezes mais forte, outras vezes calmo, relaxado por estar ao meu lado, ou apaixonado por mim, e eu por ti. Mas ainda assim, espero-te! 

   Não sei se algum dia os nossos olhos falarão um com o outro, sem palavras, apenas na linguagem secreta deles, que só eles compreendem. Mesmo assim, espero-te, porque tudo pode acontecer, ou não. Ninguém sabe, mas a incerteza, ou a certeza incerta também estimula a vontade que aconteça, e dá força para esperar esse dia chegar. 

  Não sei se algum dia incerto, seremos com certeza um só, numa só alma, num só abraço, num só beijo, num só amor. Mesmo assim, espero-te, porque este esperar faz derreter o gelo deixado pelas muitas desilusões de amores não correspondidos, na incerteza dessa realidade, espero-te! 

  Não sei se alguma vez te terei...mesmo assim, espero por ti. Não sei se alguma vez de encontrarei, como te encontro na imaginação e nos sonhos, nos desejos, na fantasia, mesmo assim, na incerteza, há sempre uma esperança de certeza. 

    Não sei se alguma vez repararás em mim, mas mesmo assim espero-te, porque entre o não saber, e o imaginar que podes reparar em mim alguma vez, dá-me força para continuar a esperar por ti, ou por outra pessoa qualquer. 

     És um ensaio, para o meu autoconhecimento, mesmo assim, espero-te porque podes passar de rascunho a desenho de uma linda história de amor, quase impossível, mas entre o impossível está o quase, que pode ficar com im, e passar a ser possível. 

  Não sei se um dia te vou dizer, ou tu a mim....mas...espero-te Amor! Sim, espero por ti. Mas o esperar também cansa! Por isso, talvez um dia destes não espere mais por ti. Amor...encontramo-nos no sítio do costume. 

    Naquele lugar onde o nosso amor existe e é certo, onde tudo pode acontecer com certeza! Estou lá, estás lá, amor, para vivermos o nosso amor incerto, certo nesse lugar certo. 

Porque no lugar que desejava, e onde tanto esperei por ti, cansei, tu não reparaste em mim, os nossos corpos não se sentiram, nada aconteceu afinal. 

         Continuamos lá, eu adolescente, e tu ainda solteiro, só meu, só para mim. Esperava esperar-te, mas cansei de te esperar. 

     Continuas lá, num cantinho feliz da minha adolescência, onde não precisava de esperar por ti, estavas sempre lá, disponível para mim, a toda a hora, naquela fase onde achamos que tudo é possível. 

 Como somos inocentes, mas a idade da inocência até é gira, o pior é quando acordamos para a realidade, onde nunca nos vimos, nunca nos sentimos, numa fomos um do outro! Ajudaste no meu autoconhecimento. 

     Obrigada por todos os sonhos e fantasias que tive contigo, obrigada por me inspirares, obrigada por te ter conhecido, e mesmo distante...aprecio-te! 

  Claro que agora já não te espero, mas continuas a fazer parte de uma recordação feliz. E todos passamos por ela. 

Até qualquer dia, amor platónico, que acreditava ser real na certeza da incerteza. 

                                                                                      Lara Rocha 

                                                                                        2/4/2021


sábado, 2 de maio de 2020

A prendinha da estrela

          




Era uma vez uma menina, filha de artistas de circo, que andava sempre de um lado para o outro, numa caravana, que tinha o mínimo de condições para viver, e tanto ela como os pais viviam felizes, juntamente com os outros artistas.
         A menina adorava os espetáculos, e todos gostavam muito uns dos outros. Em muitos lugares onde ficavam na noite dos espetáculos, eram descampados, onde se viam muito bem as estrelas. A menina tinha por hábito ouvir e ler histórias.
        Enquanto ouvia as histórias imaginava o que lhe era dito, mas também inventava as suas próprias histórias, a partir do que ouvia, e outras muito diferentes. 
        Ela nem imaginava que havia uma estrela muito lá em cima que se transformava em cigarra e ficava muito perto dela para se deliciar com as histórias, tanto as que lhe contavam como as que ela criava.
        A estrelinha estava entre as cigarras e usava um bloquinho onde escrevia as frases que mais gostava, as palavras mais bonitas, as personagens e nomes que eram bondosas, ações e espaços das histórias que a faziam sonhar.
        Um dia a estrelinha ouviu dizer que a menina estava quase a fazer anos. Decidiu oferecer-lhe uma prendinha para retribuir o que aprendia com as histórias que ouvia. 
        Numa noite em que regressou a casa depois de ouvir mais uma história, e ter anotado umas palavras bonitas, a estrelinha foi ter com a sua mãe e a sua avó, que eram costureiras, e pediu ajuda.
         Explicou às duas que queria oferecer uma prenda especial à menina que contava histórias, e mostrou-lhes o bloco. 
        Perguntou se conseguiam concretizar esse presente. As duas gostaram tanto da ideia, ficaram tão orgulhosas desse gesto da estrelinha, que puseram logo mãos à obra, e a estrelinha ajudou.
       Fizeram uma linda manta, toda feita de fios de lã de lua, muito aconchegante, macia e quente. 
       Pregaram todas as palavras, frases, personagens, nomes, ações, espaços, que tinha gostado mais, e que a estrelinha tinha escrito no caderninho. 
       Enquanto pregavam, a estrelinha recontava a história, falava sobre o circo, os artistas, os espetáculos, e conversavam sobre eles.
      Ainda juntaram cotõezinhos de lãs azuladas, amarelas e salpicos de brilho das próprias estrelas. 
      Num instante, e quase sem dar por isso, a manta estava pronta! Olharam para a manta, aberta, soltaram uma grande exclamação, e abriram um enorme sorriso.
- Áh! Mas que bonita que está. - suspira a mãe orgulhosa
- Está perfeita! - Sorri a Avó
- Uau! Obrigada, Mamã...Obrigada, Avó! Vocês são mesmo fantásticas.
       Trocam abraços e beijos. Chega o dia de aniversário da menina, e houve espetáculo. A estrelinha entra sorrateira na caravana onde vive a menina, e pousa a mantinha em cima da cama dela, com um cartãozinho que dizia: «Obrigada pelo que aprendo com as tuas histórias! Adoro. Muitos parabéns, muita saúde, muitas felicidades, e até já!»
       A estrelinha transforma-se em cigarra, para ver a reação da menina. Quando o espetáculo acaba, estão todos eufóricos, muito felizes com a forma como tinha corrido, e fizeram uma festa surpresa à menina.
      Atuaram só para ela, os palhaços que ela mais gostava, riram muito, aplaudiram, cantaram os parabéns, dançaram, e as surpresas não ficaram por aqui. Quando se preparava para deitar, viu a mantinha em cima da cama, e o cartãozinho.
- Mamã... tenho aqui mais uma prenda... foste tu?
- Prenda...? Não... não sei do que estás a falar.
       A menina mostra a manta à mãe e o cartão.
- Não fui eu, nem nenhum de nós, tenho a certeza! Mas, que linda... está cheia de palavras, frases...Como fizeram isto?
      A menina lê o cartão à mãe. Batem à porta, aparece uma menina, linda, que nunca ninguém a tinha visto.
- Boa noite! Podemos ajudar...? - Pergunta a mãe da menina
- Boa noite. Estou à procura da menina que faz anos hoje.
- Sou eu! Mas, não nos conhecemos... - Diz a menina
         A estrelinha sorri:
- Tu não me conheces, mas eu conheço muito bem as tuas histórias, aprendo muito com elas. Esta manta que acabaste de receber, fui eu que te ofereci, onde estão as palavras, frases, cenários, nomes, pessoas, lugares que mais gostei.
- Está excelente. Mas como é que ouves as minhas histórias, se não nos conhecemos...?
- Não posso dizer.Gostaste da manta, é o mais importante para mim. Muitos parabéns, e continua a ler e a inventar as tuas histórias que adoro ouvir.
        A menina sorri.
- Muito obrigada. Mas como é que te chamas?
- Estrela.
- Áh! Eu sou a Diana. Não queres entrar...? Pode entrar, não pode, mãe?
- Sim, mas vê lá, já é tarde. Onde estão os teus pais, Estrela?
- Lá fora, na minha casa.
- Vê lá, não vão ficar preocupados?
- Não. Eles sabem que eu vim aqui.
- Está bem. Queres um bocadinho de bolo que sobrou?
- Acho que aceito. Obrigada.
       A estrela conversa com a menina, como se fosse tal e qual uma amiga dela, come o bolo.
- Hum, está muito bom, este bolo. Obrigada.
- Obrigada eu. - Diz a mãe
- Bom, vou voltar para a minha casa, e tu, Diana, não tarda muito, também vais dormir, não é?
- É. Por favor, volta mais vezes! - Confirma a Diana
- Claro que sim! - promete a estrela
        Trocam um abraço, e dois beijinhos.
- Obrigada pela prenda, e muito gosto em conhecer-te! - diz Diana
- Boa noite, dorme bem. Até já...Boa noite, pais da Diana! - diz a estrela
- Boa noite! - respondem os pais da Diana
       A estrela dá alguns passos e desaparece. Diana fica pensativa, nunca tinha visto aquela menina em lado nenhum, como é que ela sabia tanta coisa, ouvia as histórias, e ainda por cima deixou-lhe uma prenda tão bonita! 
       Ela e os pais deitam-se, a menina envolve-se na manta, deliciada com a maciez, e os brilhantes.
      Quando ela estava quase a dormir, a estrela volta a aparecer, pousada na sua manta, em forma de estrela iluminada. 
      Pediu à Diana que não gritasse, e que não se assustasse. Contou-lhe como a conhecia, e pediu que não contasse a ninguém, pois tinha medo que não acreditassem nela, ou que achassem ser da sua imaginação.
      Diana não contou nada, e a partir dessa noite, as duas tornaram-se grandes amigas, encontravam-se, a Diana contava e ouvia lindas histórias, conversavam, riam, faziam companhia uma à outra, brincavam, sem fazer barulho. 
      Às vezes escolhiam uma palavra da manta à sorte, ou uma frase, uma personagem, e recontavam ou inventavam essa história.
     De vez em quando, a estrela aparecia em forma de menina, principalmente de dia, quando a Diana brincava mais sozinha, ao ar livre, a ensaiar os números de circo e a ver os outros. Uma linda prenda de aniversário, e uma amizade.

E se vocês recebessem uma manta como a de Diana? Que palavras teria pregadas?

                                                                           FIM
                                                                           Lálá
                                                                      2/Maio/2020



          
            

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

O sonho mágico do rapaz mágico

           Era uma vez um jovem rapaz, bonito, elegante, que tinha nascido com um dom de fazer magia. Simpático, brincalhão, não falava por palavras mas tinha um coração bom e era tão expressivo, que através da mímica e do olhar, transmitia luz a quem o via. Às vezes aparecia com a cara pintada, outras vezes, não.  Queria distribuir alegria por todo o lado e o que gostava mais era de ver a expressão de surpresa e sorrisos de quem o via. Para isso, oferecia pequenas lembranças e conseguia que sorrissem.
           Passou por uma menina que ficou a olhar para ele, muito séria. Ele olhou para ela, sorriu, tirou o chapéu, ajoelhou-se e ofereceu uma flor maravilhosa, com pétalas brilhantes. Ele beijou delicadamente a flor, estendeu a mão para a menina, ofereceu-lhe a flor. A menina encantou-se com ele, abriu um lindo e aberto sorriso, agradeceu, e o rapaz levantou-se, feliz, com um sorriso de orelha a orelha, saltitou e soprou pequenas luzinhas em forma de pó. 
            Mais à frente, viu uma criança a chorar. Quando a criança o viu parou de chorar, olhou-o, o mágico sacudiu o chapéu e de lá saltou um balão em forma de lua cheia. O menino riu, e o rapaz sorriu. A mãe do bebé quase resmungou, mas quando viu o rapaz, ficou calada. O rapaz roda o chapéu no ar, e tira uma estrela que dava gargalhadas, tão engraçadas que a mãe do pequeno riu como já não acontecia há muito tempo. O seu filho até ficou surpreso e riu também. 
             Depois, passou por um homem que dormia debaixo de um banco de jardim, aquecido pelo candeeiro. O rapaz sentiu pena dele, e enquanto dormia, num toque mágico construiu-lhe uma casa pequena, mas toda mobilada, com alimentos, água e roupas. O homem acordou assustado, quase o agredia, mas o mágico indicou-lhe a casa. O senhor ficou tão emocionado que lhe pediu desculpa e entrou na sua nova casa. Nem queria acreditar no que estava a ver. O senhor nunca mais dormiu na rua. 
             Num hospital, o rapaz mesmo com muita vontade de chorar, sorria para todos, e oferecia do seu chapéu: bonecos, flores, brinquedos com música, luzinhas, borboletas que davam beijinhos, e com isso, conseguiu curar muitos doentes.
             A sua mãe vai ao quarto, e acorda-o: 
- Filho...está na hora de ires para a escola. 
- Mãe… eu quero ser mágico. 
- Sim, sim. A tua magia agora é estudares. 
- Mas, mãe…é a minha missão. Eu sonhei com isso! 
- A tua missão é estudares, para seres alguém. 
- Mas eu quero ser alguém...quero ser mágico. 
- Cala-te! Eu dou-te a magia. Magia é alguma profissão? Magia dá valor a alguém? Francamente. Não me voltes a falar nisso. 
- Claro que é uma profissão. Claro que faz de mim alguém...posso fazer bem a muita gente. 
- Esquece lá a magia e despacha-te! E ai de ti, que os professores digam que estás distraído. 
             O rapaz levanta-se, zangado. Arranja-se para ir para a escola, toma o pequeno almoço, sopra a mão e deixa uma flor para a mãe em cima da mesa. A mãe fica surpresa.
- Até logo, mamã. Amo-te. Ainda vais ter orgulho no teu filho. E na magia! 
             A mãe quase ralha com ele, porque não gosta que ele seja mágico, não quer reconhecer que o filho tem esse dom, e acha que é tudo um disparate da cabeça dele. Ele podia não ter o chapéu de mágico, e claro, todas as magias que ele sonhou, não se realizaram, mas...fazia magia de outra maneira! Com a sua simpatia, delicadeza, educação, sensibilidade, meiguice e amizade. A verdadeira magia deste rapaz estava na sua bondade. No que ele fazia despertar nos outros. Todos gostavam dele. Uns anos mais tarde, tirou um curso de magia, e outro curso para trabalhar como enfermeiro. Era feliz, e continuou a fazer grandes magias por ser como era. 

                                                                                     FIM 
                                                                                     Lálá 
                                                                              16/Janeiro/2019 
              

segunda-feira, 13 de junho de 2016

A aldeia de croché

Era uma vez uma senhora muito velhinha, há muitos anos atrás que se lembrou de ocupar o seu tempo livre, desde que era criança, e enquanto foi mais jovem, até as suas mãozinhas começarem a ficar encarquilhadinhas e doridas, fazendo peças em croché.
Esta atividade tinha começado com a sua bisavó, que já tinha ensinado á sua avó e à sua mãe, e esta última à senhora, muito comum na maioria das famílias. Todas as mulheres se reuniam na aldeia, de todas as idades, nas casas umas das outras, e nas eiras à sombra, ou nos campos, nos intervalos de outros trabalhos.
Era lindo ver tanta geração a fazer coisas tão bonitas, com tanta delicadeza, amor, gosto e perfeição, enquanto conversavam durante horas, riam, rezavam, cantavam, e depois de fazerem mais mil e uma coisas.
Cada uma fazia o que queria…toalhas, almofadas, rendas, apoios, lençóis, cobertas, paninhos para cestinhos, até que as gerações mais novas começaram também a inventar «pessoas» em croché, e a juntar outras materiais, para fazer bonecas de todo o tipo, lindas.
As bonecas pareciam mesmo «pessoas» umas enormes, outras médias e mais pequenas, com todos os pormenores: cabelos, olhos, nariz, boca, braços, mãos, dedos, pernas… almofadavam com espuma, penas ou restos de lãs, e tecidos, vestiam-nas com roupas em croché de outras cores, e até tinham sapatinhos em croché de todas as cores.
Nenhuma boneca era desperdiçada, mesmo aquelas que não eram tão perfeitas, ou que tinham alguns «erros» de construção, porque como quem as construía dizia…a sociedade também tem pessoas imperfeitas.
Esta ideia inspirou-as e construíram bonecas em croché com cadeiras de rodas, andarilhos, muletas, bengalas, óculos, membros mais curtos que outros…tal como elas viam entre as pessoas da cidade, e na própria aldeia.
Depois lembraram-se de experimentar fazer casas e meios de transporte, árvores, flores, montanhas e animais em croché. Gostaram tanto da experiência que foram experimentando cada vez mais coisas novas, e conseguiram construir uma verdadeira «cidade em croché».
Num dia em que se lembraram de juntar todas as peças que já tinham feito, perceberam que já tinham uma cidade, e quiseram expor. Todos ficaram muito surpresos e maravilhados.
As fadas foram as primeiras visitantes e adoraram, decidiram dar um prémio pela dedicação delas, e gosto, as peças de croché não eram simples pedaços de croché expostos e imóveis, puseram logo tudo em movimento com os seus poderes mágicos!
Todas as peças mexiam e faziam sons, principalmente as peças da natureza, parecia um presépio animado, e todas as mulheres que construíram esta cidade de croché ficaram muito felizes, parecia que tinham voltado a ser crianças.
O Presidente da Câmara divulgou pelas cidades, e a aldeia encheu-se de milhares de visitantes que fotografavam, queriam comprar tudo…mas como elas não queriam vender, os visitantes encomendavam e pagavam bem. Não tiveram mais sossego, mas também ganharam muito dinheiro.
Com esse dinheiro ajudaram-se uns aos outros, porque era uma aldeia pobre, no inicio, construíram coisas que faziam falta, melhoraram as condições das casas, mesmo assim continuaram a ser as pessoas simples que sempre foram, e a dedicar-se ao croché.
Foi assim que nasceu a Aldeia de Croché que fez para sempre as delícias de quem visitava…que pareciam voltar à infância e à magia. Mulheres inspiradoras, com mãos de fada, e amor pelo que faziam.     

E vocês?
Conhecem croché?
Conhecem alguém que faça croché?  
Conseguem imaginar uma cidade com pessoas e casas…tudo feito em croché?
Gostavam de visitar essa cidade?

FIM
Lálá

(13/Junho/2016)

sexta-feira, 15 de abril de 2016

a descoberta do gato

         

 Era uma vez um gato que vivia numa casa com uma família muito numerosa. De entre os filhos do casal, havia um rapaz que adorava pintar e desenhar, e tinha muito jeito. O gato recebia mimos de toda a família mas tinha uma relação mais próxima e mais especial com o rapaz que pintava. 
         Os dois ficavam na varanda fechada, espaçosa e envidraçada, quente, e com lareira que às vezes estava acesa. O rapaz sentado em frente ás telas, umas atrás das outras, de volta das tintas, e ás vezes parado a olhar para elas, talvez em busca de inspiração, e mergulhado nas cores, nos seus sonhos, desejos, imaginação e fantasias, que punha nas telas.
       O gato circulava pela varanda, umas vezes dormitava, outras vezes estendia-se em cima das almofadas que estavam no chão, outras vezes senta-se num cadeirão e parecia o dono daquilo tudo, quando tinha mais frio, deitava-se nas mantas aos pés da lareira e dormia.
          Mas o que ele gostava realmente...era de ver o rapaz a pintar. Seguia todos os movimentos, ficava em suspenso, e a sua cabeça acompanhava os braços do pintor...isto fazia-o tentar imaginar o que ia sair dali, parecia que era o gato que estava a desenhar ou a pintar. Muitas vezes acertava! E ficava encantado...quase hipnotizado com a beleza dos quadros do seu amigo humano. Miava, enroscava-se nas pernas do rapaz, ele pegava no gato ao colo para ver melhor, e perguntava-lhe sempre o que achava. 
       O gato não usava palavras, mas apreciava e transmitia isso ao dono de outra maneira, que ele entendia muito bem. Era só elogios. O gato imaginava como seria bom pintar, pois o seu dono ficava feliz sempre que pintava...e tinha um enorme desejo de experimentar, para ver se era fácil ou difícil, se conseguia fazer coisas tão bonitas como ele. 
          Mas como é que ele ia fazer isso? Não podia falar... Nem de propósito, um dia, o rapaz atirou uma folha para o chão, num momento em que estava muito zangado, e também caíram pincéis,e tintas. O gato nem queria acreditar...e num impulso começou a experimentar, imitando todos os movimentos que tinha visto o seu dono a fazer enquanto pintava. 
         O rapaz ficou a apreciar...o gato estava tão absorvido na pintura com o seu dono, que nem reparou que estava a ser visto. Pintou uma bela gata, muito perfeita, parecia quase uma fotografia. O dono ficou espantado, aplaudiu-o, o gato ficou assustado e depois riu-se...miou, como que a pedir desculpa, mas o dono ficou deliciado, achou lindo, maravilhoso e perfeito. O gato tinha acabado de descobrir um novo talento e pôde perceber nesse momento, como é que o seu dono se sentia. Desde esse dia, o seu dono pintava em conjunto com o gato, e quando não estava inspirado, o gato inventava sempre alguma coisa nova...Mas que grande artista! Passado uns tempos, já tinham tantos quadros, que quase não tinham espaço para eles, então foram vendê-los para ajudar a família. Eram quadros tão especiais que desapareciam no mesmo dia, e porque havia pessoas que não acreditavam que tinha sido o gato a pintar, o dono punha-o a pintar diante das pessoas, tudo o que elas quisessem. Elas ficavam sem palavras...aplaudiam, tiravam fotografias, e pagavam os quadros. O dono e o gato não tiveram mais sossego, mas era algo que eles adoravam fazer, tinham esse dom, e ajudaram mesmo muito a família. Nem o gato sabia que tinha jeito para a pintura...foi uma descoberta mágica! 
E se vocês tivessem um gato pintor...ou um gato que aprendesse os vossos talentos? Será que ele aprender alguma coisa convosco, ou ensinar-vos alguma coisa? 
Nós também somos assim...às vezes só descobrimos os nossos talentos para certas coisas, sem estarmos á espera. Experimentamos e descobrimos...e com os nossos amigos também! Não é? Já aprenderam coisas novas com os vossos amigos? Quais? Coisas que não sabiam que gostavam, ou que tinham jeito? 

Fim 
Lálá 
(15/Abril/2016) 

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Plantações


foto de Lara Rocha 

Era uma vez uma jovem rapariga que vivia numa casa pequenina, numa aldeia com poucos habitantes. Toda a gente a achava estranha porque ela falava sozinha, regava terra sem nada, sempre com um sorriso na cara. Ninguém lhe perguntava nada porque ainda a conheciam há pouco tempo e não queriam parecer demasiado coscuvilheiros, mas todos comentavam entre si.
Ela estava no jardim sem flores, a cantar com uma voz maravilhosa, a regar e passa uma menina encantada com a sua voz, e levava consigo um cãozinho numa cestinha que começa a ladrar e fica inquieto.
- Pára…já vamos. – Ralhe ela com o seu cão - Bom dia! Era você que estava a cantar? – Diz a menina
- Bom dia, querida…Ouviste-me a cantar…? Sim, era eu! Gosto muito de cantar enquanto rego!
- Sim. Adorei ouvi-la cantar. Tem uma voz mesmo muito bonita…parecia uma fada! – Diz a menina a sorrir.
- Obrigada! Acordaste cedo. Estás sozinha? Quer dizer, não estás sozinha porque estás com o teu amigo cãozinho, mas quero dizer…com um adulto da tua família…? – Pergunta a jovem a sorrir
- Sim, estou com o meu cãozinho, os adultos da minha família sabem que eu não me perco, nem vou para longe. Já conheço muito bem este sítio, e ele também. Eu acordo sempre cedo, e vou passear o meu cão, os grandes não têm tempo, e confiam em mim.
- Áh…muito bem. Mas não tens medo?
- Não! Aqui todos nos conhecemos, e nunca estou sozinha…passo sempre pelos meus vizinhos, ou primos, ou tios…ou Avós, ou irmãos dos meus avós…Passo por muitas casas. O meu amiguinho anjinho da guarda também está comigo. E você está sozinha aí?
- Também não estou totalmente sozinha. Os meus pais estão a viver na aldeia aqui ao lado, trabalham o dia todo, e esta casa foi oferta de uma tia. Eu venho cuidar da casa e do jardim, porque gosto muito deste espaço. E também nunca estou sozinha…
- Também tem o seu anjinho da guarda?
- Sim! Tenho.
- Olhe…o que está a regar?
- A terra.
- Mas isso não tem nada…
- Terá…! Estou a regar para isso.
- Áh…! E vai nascer alguma coisa?
- Sim, muita coisa.
- O que vai nascer?
- Tudo o que eu preciso.
- E o que é que precisa?
- Alimentos.
- Eu também preciso de alimentos.
- Todos precisamos. Até o teu amigo.
- Sim, mas ele não come tudo.
- Pois não. Não é uma pessoa.
- Pois. Vou andando. Até logo.
- Até logo…
A menina segue o seu caminho, e passa uma velhinha misteriosa com bom aspecto, andar vagaroso, que não era conhecida da aldeia, e saiu não se soube de onde…Observa a jovem e sorri.
- Bom dia!  
- Bom dia, jovem.
- Precisa de alguma coisa?
- Não. Obrigada. És nova aqui…não és?
- Sim. E a senhora?
- Sou qualquer coisa, menos nova…quer dizer…por fora…por dentro, continuo criança.
- Faz bem…é por isso que tem esse ar jovem.
- Pois é! Continua a fazer as tuas plantações, filha…faz de conta que não estou aqui.
A jovem sorri, e continua a regar, a remexer a terra e a velhinha silenciosa, a sorrir, sentada debaixo de uma árvore muito larga.
- Quer alguma coisa? – Pergunta a jovem
- Não, obrigada. Estás a plantar o teu sustento, certo?
- Sim. Muitos legumes e frutas…flores…árvores…muitas coisas.
- E sonhos?
- Sonhos? (A jovem ri) Não…esses não se plantam.
- Eu plantava sonhos na minha infância. – Diz a velhinha a sorrir
- E nasciam? – Pergunta a jovem irónica
- Nasciam. Cresciam e dividiam-se.
- A sério?
- Sim. Pela mão das estrelas que à noite desciam por um fiozinho da lua, iam tomar conta do meu jardim, e traziam com elas um raio de sol para cada plantação! – Lembra a velhinha
- Áh! Que lindo! – Diz a jovem a sorrir
- Era! Tu não plantas os teus sonhos?
- Não!
- Porque não?
- Porque…não existem sementes de sonhos.
- Existem! Existe tudo o que nós queremos. Sei que é difícil para ti acreditar nisso, mas… podias acreditar e experimentar. Gostas de sonhos?
- Gosto. Alguns…
- Então planta-os.
- Mas…como faço isso?
A velhinha tira umas pedras de cristal, redondas e transparentes.
- Olha para elas…com a pureza da criança que foste…deixa que ela encha esses cristais com sonhos, e planta-os…depois…rega-os, como regras outras coisas. – Explica a velhinha
- Está bem.
A jovem faz o que a velhinha disse, mesmo sem saber se ia acontecer, quis experimentar. A velhinha desaparece, rápida, misteriosa e silenciosamente…enquanto a jovem olha para os cristais e deixa que a criança que ela foi, encha os cristais de sonhos e desejos que ela queria que acontecessem.
Quando olhou, a senhora tinha desaparecido, e reparou que toda a terra do jardim estava cheia de brilho e cabecinhas a espreitar…eram as suas flores, legumes e árvores a nascer.
- Áh! O que é isto?
A jovem fica pensativa. Passa outro rapaz e pergunta:
- O que tem no seu jardim?
- Tudo o que preciso.
- E o que é tudo o que precisa?
- Legumes, frutas, flores e árvores…Queres ajudar-me?
- Eu…tenho de ir… até logo.
E sai rapidamente. A jovem ri.
- Não percebo porque é que toda a gente me pergunta o que tenho aqui plantado…este pedacinho de terra é igual aos outros.
E o dia passa rápido. À noite, a jovem vai dormir, e no jardim tudo o que ela tinha plantado e pensou que ia demorar o seu tempo, cresce enormemente por causa dos cristais que ela plantou, de estrelas que desciam por um fiozinho de lua, e traziam um raio de sol.
As frutas, os legumes e as árvores aparecem gigantes, cheios de folhas, suculentos, vistosos, carnudos. Tudo fresco, apetitoso, e as flores de todas as espécies, até raras, com cores lindas, enormes, como nunca se tinha visto antes em mais lado nenhum.
A velhinha enche o jardim com vários animais: lindas borboletas de todos os tamanhos e cores, passarinhos de várias espécies, com penas coloridas, cigarras e grilos, joaninhas, gatinhos, e cãezinhos bebés com a sua mãe, muito meigos, para lhe fazer companhia e protegê-la. Está tudo maravilhoso.     
Na manhã seguinte, a jovem acorda e nem quer acreditar no que está a ver.
- Eu estou a ver bem?
Sai porta fora e toca em tudo, cheira tudo, pega nos cãezinhos e enche-os de mimos, toma o pequeno-almoço com eles, dá-lhes de comer, e está muito surpresa com tudo o que vê no seu jardim. Apanha algumas coisas e prova.
- Hum…que delícia! Huuuummmm…que fresco…cheias de sumo…! Huummm…que cheirinho. Áh! Que rica sopa que eu vou fazer. E…agora para o almoço…Muito obrigada…Universo…Terra…não sei quem fez isto…muito obrigada mesmo! Que coisa fantástica. Mágica…! Uau!
Ela senta-se a ouvir os passarinhos, as cigarras e os grilos a cantar, a apreciar as cores das flores, a sentir os toques carinhosos das borboletas, e a ver as suas cores…a inspirar toda a beleza, cheiros e frescura do jardim, rodeada dos seus cãezinhos e os gatinhos a brincar.  
O seu jardim foi motivo de invejas e tentativas de maldades, mas estava sempre protegida, e deu uma grande lição a todos, porque era muito boa, e partilhava os seus produtos mágicos, com os seus vizinhos, quando tinha demasiado e quando sentia que lhes fazia falta.
Ela sabia que todos naquela aldeia eram muito pobres, famílias muito grandes, e nem sempre as terras produziam tudo o que eles precisavam, ou não produziam tanto… por causa da sua bondade, ela tinha cada vez mais surpresas, e cada vez mais coisas apetitosas no seu jardim.

FIM
Lálá

(30/Dezembro/2015)

domingo, 25 de outubro de 2015

O gato e o sol

      
                                                                        foto de Lara Rocha 

          Era uma vez uma gato vadio que adorava vaguear pela cidade, caminhar sem pressa pelos jardins, principalmente aqueles com vista privilegiada para o rio. Embora o vento fosse às vezes frio, ele também gostava muito de sentir os arrepios e ficar com o pelo espetado, com a aragem, e de levar com ele no focinho, porque arrastava perfumes deliciosos, que lhe abriam o apetite. e até o faziam sonhar...correr atrás de boa comida e encontrava! 
       Era um gato romântico e conquistador, solitário e sonhador, por isso, outra coisa que ele adorava fazer era vaguear pelos telhados, ver o pôr do sol, a lua, as estrelas e o nascer do sol. Não tinha sítio certo de dormir...umas vezes aterrava onde o cansaço lhe cotucava, ou quando o soninho chegava...tanto era nos jardins, debaixo de um banco, como nos telhados, nas soleiras das portas ou em carcaças de árvores, dentro de troncos. 
      Um dia o gato estava em cima de um telhado, de telhas quentes, que já conhecia muito bem, porque as pessoas davam - lhe mimos e comida, até tinham um ninho confortável para ele num anexo da casa, que era uma lavandaria. Em cima do telhado cheirava muito bem, pela chaminé...enquanto esperava para ver o que hoje lhe tocava jantar, olhou para o céu...procurou a lua e as estrelas, mas só viu muitas nuvens. 
       O cheiro da comida estava cada vez mais perto, e era cada vez melhor, tal como a sua fome. Desceu do telhado, e óh...que delicioso prato o esperava! A família deixou para ele à entrada da lavandaria, uma rica sopa forte, cheia de petiscos que ele adorava. Ficou consolado, e como comeu tudo...adormeceu pouco depois. Nesse dia já tinha andado muito, estava cansado.
      Acordou quase de manhã, o céu estava escuro, mas ele estava cheio de energia. decidiu subir ao telhado a ver se a luz tinha aparecido, ou se estava escondida. Estava bem visível...e cheia! À sua volta haviam estrelas, e uma pequenina claridade sobressaía no meio da escuridão. 
      Tudo silencioso...Mas num instante...começa a clarear o dia...a lua vai embora, as estrelas vão atrás dela, e o sol começa a aparecer devagarinho, envergonhado. O gato sorri...de repente, o sol transforma-se bum barco todo iluminado, onde vai a linda luz com as estrelas. O gato não acredita no que está a ver e solta uma grande exclamação. 
      Ele nunca tinha visto um barco assim...e o sol barco navega nas ondas, de todo o tipo: grossas e escuras, grandes e brancas, bem enroladas. Algumas vezes, o barco parece que desaparece...e volta a aparecer, outras vezes, aparece só um bocadinho do barco: 

- Óh não...será que o barco se afundou? Onde foi? Agora...parece que o barco está a arder...tem uma cor vermelha! (O gato fica inquieto...) E não se vê todo...O que aconteceu? A lua e as estrelas escaparam? Atiraram-se à água? Será que foi o vento? - Pergunta o gato e dos seus olhos até escaparam umas lágrimas. - Como é que eu vou viver aqui... sem o sol...a lua e as estrelas? - Lamenta o gato triste. 

          E desce do telhado, volta para o seu ninho.

- Eu gostava tanto da lua, do sol, e das estrelas...como é que o sol se transformou num barco? Será que foi só hoje? Ou já acontecia antes? Será que foi algum feitiço da lua? Óhhh... 

         E volta a dormir. Quando acorda vê muita claridade à sua frente, dá um grande salto assustado e sai da lavandaria. Mesmo por cima de si está um sol maravilhoso, lindo, luminoso, o céu muito azul e já estava a aquecer. 

Os meninos da casa estavam mergulhados na piscina a brincar felizes com a água e os adultos a apanhar sol. 

- Olá dorminhoco! - Dizem os meninos ao gato 

- Será que eles não viram a mesma coisa? 

       Tudo está como antes! Olha para cima, não vê o barco, com luz, que levava a lua e as estrelas, que aparecia e desaparecia, e parecia que tinha ardido, nem as ondas. 

- Afinal...o sol não desapareceu? Áh! Boa! E a lua e as estrelas...hummm...acho que...é dia...por isso...só está o sol! Então...eu...sonhei ou imaginei que aquilo estava a acontecer! Claro! Ainda bem...não queria nada que aquilo acontecesse. O mundo não existia de não houvesse sol...que horror...o sol é tão bom! Faz tanta falta. Obrigada Sol, por apareceres todos os dias...e por fazeres tão bem ao nosso planeta! Se mais ninguém te agradece...agradeço eu...que sou um gato, mas também sonho contigo, gosto e preciso de ti, querido sol! 

        Os gatos sonham e agradecem à maneira deles, e vocês, meninos, já pensaram como o sol é importante para nós? E para a nossa terra? Já agradeceram? 

FIM 
Lálá 
(24/Outubro/2015) 

domingo, 21 de junho de 2015

Mergulho


Era uma vez uma tartaruga jovem que vivia num aquário de uma casa, e hibernou. Os seus donos cansaram-se de a ver dentro da sua carapaça e levaram-na ainda a dormir para um monte.
Abriram a janela do carro e atiraram-na como se fosse uma pedra ou lixo, sem dó nem piedade de cima do monte. A tartaruga resvalou monte abaixo e pelo caminho acordou sobressaltada, estremeceu, sentiu tudo a andar a roda e ficou muito assustada. Só parou quando bateu contra o portão de uma casa. Abriu os olhos, saiu da sua casca, respirou, e olhou em volta.
- Onde estou? O que aconteceu? (boceja) Que acordar tão estranho…Ui…quer dizer… nem sei se já acordei ou se estive a dormir, nem quanto tempo estive a dormir. Óh…estou perdida. Não conheço este sítio! Ou conheço?
E caminha um pouco para reconhecer o sítio. Está confusa, anda à procura de alguma coisa familiar, ou até de água.
- Ai! Tenho as patas todas empenadas! Devo ter dormido mesmo muito…espera aí, onde estão os meus donos? Esta não é a minha casa! (Inspira e expira) Agora tenho a certeza que não estou onde estava. Na outra casa estava dentro de água, num sítio pequeno, até nem tinha grande luz…aqui…tenho muito espaço e não tenho água. Mas os meus donos? Onde estão? Onde foram? Foram eles que me mandaram para aqui? Mas porquê?
De repente ouve uma buzina de um carro. Dá um grito, fica gelada, arregala os olhos, e anda de um lado para o outro, sem saber o que é aquilo, ou para onde fugir.
São os donos da casa do portão onde ela bateu que chegaram com os filhotes das compras. O cão da família sente alguma coisa diferente, e logo que lhe abrem a porta, ele salta e vai atrás da tartaruga.
- Só faltava este também…ai…socorro!
O cão detecta a tartaruga e cheira.
- Áh, que nojo. Vai-te embora! Xô. – Ordena a tartaruga cheia de medo
Mas o cão insiste, e começa a ladrar sem parar.
- Cala-te! Estás a irritar-me! – Pede a tartaruga
Os pequenos vão ver o que se passa, porque é que o cão ladra sem parar. Quando chegam ao pé dele gritam em coro:
- Uma tartaruga!
- Áh! Que gira… - Diz a menina
- Como é que ela veio ter aqui? – Pergunta o menino
- Óh mãe…óh pai… - Gritam os meninos
O cão vai ter com os donos a ladrar. Os adultos vão ver.
- Olhem…uma tartaruga. – Diz o pai
- Hum…é muito estranho, uma tartaruga por aqui. - Comenta a mãe
- Se calhar fugiu de alguma casa.
- Ou foi largada…deitada fora. Às tantas ela estava a hibernar, e pensaram que ela estaria doente ou algo assim. – Diz o pai
- Coitadinha! – Diz a menina
- Óh mãe…vamos levá-la connosco! – Pedem os dois
- Não me parece boa ideia. – Diz a mãe
- Isto não dá trabalho nenhum nem suja a casa. – Diz o pai
-E onde a vais pôr? Tens que a alimentar, sabes o que é que ela come…? – Pergunta a mãe
- Vá lá, mamã…não a deixes aqui fora. – Diz a menina
- Pomo-la na piscina e num aquário. – Sugere o menino
- Isso mesmo. – Diz o pai
A mãe não quer, o pai e os filhos começam todos a protestar e a arranjar argumentos para acolherem a tartaruga. Discutem, negoceiam, resmungam, e tentam de todas as maneiras convencer a mãe a autorizar que levassem a tartaruga para casa.  
- Acho que é melhor fugir daqui…já está muita confusão! Antes que dêem cabo de mim! – Murmura a tartaruga.
A mãe para não se chatear mais autoriza a que levem a tartaruga para casa.
- Mas porque é que vocês ganham sempre! – Resmunga a mãe
- Porque tu és a melhor… - Dizem as crianças em coro
- Tu também gostas de animais. – Comenta o filho
- Vocês é que vão ter essa responsabilidade de tomar conta dela, eu já tenho muito que fazer. – Lembra a mãe
- Sim! – Dizem todos
Por isto, eles enchem a mãe de mimos.
- Boa! Estou salva…obrigada miúdos, obrigada senhor. - Diz a tartaruga aliviada e feliz.
Em casa, metem a tartaruga na piscina, e ela nada feliz, livre, enquanto o pai vai comprar um aquário e comida para ela.
- Áh! Este sim, é o meu meio…o meu mundo! Uau! Está fresquinha a água. Valeu a pena ter batido contra o portão, e ainda bem que aquele farrusco veio atrás de mim. Já nem sabia o que era água. Áh! Tanto espaço…
As crianças deliciam-se a ver a tartaruga na piscina, entram na piscina e brincam com ela felizes. O pai chega e mudam-na para o aquário com um cenário de fundo do mar e água. Ela fica encantada.
- Isto sim…é um aquário. Aqui não me importo de ficar! Gosto deste sítio. (ri) Parece que estou no fundo do mar…um sítio onde gostava de ir com certeza! Pode ser que estes donos vão à praia um dia destes e que me levem.
E o sonho da tartaruga realizou-se! Uns dias depois de se ter instalado na casa, os donos levaram-na no aquário para a praia, onde passaram uns belos dias, e a tartaruga teve a grande felicidade de experimentar com a sua família de humanos, a praia, o mar, e o mergulho.
A diferença é que a tartaruga não precisava de máscara de oxigénio para mergulhar como os seus donos, mas nunca se afastou deles…e quando eles voltavam à superfície, ela também voltava e instalava-se no seu aquário.
A tartaruga estava mesmo feliz, teve muita sorte, e sentia-se como se fosse mesmo parte da sua nova família. Davam-lhe carinho, atenção, e levavam-na para todo o lado onde fossem.
FIM
Lálá
(21/Junho/2015)