Número total de visualizações de páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta imaginação. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta imaginação. Mostrar todas as mensagens

domingo, 13 de julho de 2025

A viagem de uma pena

  

   Era uma vez uma pena que se soltou de um pavão, muito bonita, comprida, brilhante, pousada na relva a apreciar a paisagem. 

     O que lhe chamou mais a atenção foi uma criança sorridente, do outro lado da margem a lançar um barquinho feito de esponja, colorido, leve. 

      Nunca tinha visto um barquinho daquele estilo. O menino lançou o barquinho, a cantarolar, baixinho, e disse: 

- Boa viagem, barquinho! Xau. 

      O barquinho começa a andar lentamente, porque o rio tinha pouca água, ao sabor desta, o menino acompanha os movimentos, parece estar a imaginar onde irá parar, levanta-se, e acompanha pela margem, olhando também para a paisagem à sua volta. 

      A pena entra na água mas está tão fria, que sai para se aquecer e apanhar sol, mas fica tão curiosa com o barquinho que vai pela relva a acompanhar a viagem do barquinho e o menino, maravilhada. 

      A sua imaginação começa a trabalhar, sobre para onde irá aquele barquinho, o que encontrará na água e fora dela. Será que alguém vai entrar no barquinho? Talvez um peixinho, um sapinho, uma rãzinha, uma borboleta, uma pedra, uma gota de água? Uma folha de uma árvore? Uma abelha? Ou será que já leva alguém lá dentro? Hummm...não, não vejo ninguém. Será que vai um passarinho a viajar no barquinho? Ou...uma pena, como eu? Será que vai o menino? Não...o menino não sabe lá! Ou, será que é uma armadilha para caçar algum animal? O menino tem ar de bonzinho, acho que não fazia isso. Talvez o barquinho encontre pedras grandes, como é que ele vai sair de lá? Pode ser difícil. 

       Vê o menino entrar na água, porque tal como a pena do pavão imaginava, o barquinho encontrou pedras altas e nem a água conseguia empurrá-lo. O menino pega no barquinho, e põe-no na parte mais lisa. Sai da água, e continua a ver para onde vai. A pena aparece e comenta consigo: 

- E se aparece um patinho, será que vai abocanhá-lo? 

        Aparece mesmo um patinho, o menino grita-lhe, quando se preparava para abocanhar o barquinho. 

- Nem penses! Isso não é para comeres! 

        O patinho não lhe mexe, mas segue atrás dele. Mais à frente, o barquinho fica a rodopiar num buraco com água entre rochas e não consegue sair. O patinho vai lá e empurra-o com o bico. 

- Obrigado, pato! - diz o menino 

- Pensei que ias gritar outra vez comigo. Eu já sabia que isto ia acontecer. - diz o pato 

- Desculpa! Obrigado. 

        O barquinho segue viagem, o pato atrás, a pena numa margem, e o menino na outra. A pena imagina: 

- E se aparece um rato que o quer comer? 

        Aparece mesmo um rato, que tenta morder o barquinho, mas o menino e o pato gritam: 

- Nem te atrevas! 

        O rato recua e encosta-se assustado à parede, logo a seguir esconde-se num buraco. Mais à frente, o barquinho passa por uma zona cheia de pedrinhas, e trepida demais. O patinho pega nele, o menino grita com o pato: 

- Larga isso! 

        Mas quando vê que o patinho tirou o barquinho de tantas pedras, sorriu: 

- Áh! Desculpa, patinho. Obrigado. 

        O barquinho segue, e todos o acompanham, até que para nas grades onde acaba o lago. O menino aprecia a paisagem, vê a pena de pavão na relva, molha os pés, vai buscá-la e põe-na no barquinho, para voltar para o mesmo sítio. A pena sente um bocadinho de medo, mas está toda refastelada. 

- Mas que barquinho tão agradável, tão macio...parece uma nuvem, ou uma espuma! Áh! Que gira paisagem, daqui! Senta-se, aprecia a paisagem, deita-se e vê o céu, a cor do céu, os pássaros, ouve o som da água, vê as árvores e os seus troncos com formas diferentes, as folhas verdes, de vários tamanhos, e tons, a abanar com o vento, como se fossem mãos a acenar. 

        Ela sorri e abana-se também, diz olá, vê a água, a sua cor, as pedrinhas, dezenas de peixes de vários tamanhos e cores, à volta do barco e dos lados. Ela ri, e fica com vontade de lhes tocar, como faz o menino que a acompanha, com os pezinhos na água. 

        Molha as mãos, e desata às gargalhadas quando toca nos peixes, porque são escorregadios, e nadam rápido. Alguns param aos seus pés e aceitam mimos, outros fogem. A pena também os vê nas rochas onde o barquinho ficou preso, para não rodopiar, o menino tira-o e põe-no na água. Faz o mesmo quando passa no monte de pedrinhas. 

        A pena vê flores bravas, e relva verde, esquilos a correr, coelhos bravos, cães a passear com os seus donos, pais a passear bebés, pessoas a andar de bicicleta, a pé, a jogar à bola. O menino também viu, enquanto deu o resto do passeio, relaxado, e no final, ele tira a pena do barquinho, atira-a a rir-se, para a relva, e tira o barquinho da água. 

        A pena fica triste e zangada, pela indelicadeza do rapaz. Vai embora e a pena ficou na dúvida se imaginou essa viagem, ou se a fez mesmo, porque já não viu o menino, nem o barquinho. 

- Será que sonhei, imaginei ou dei mesmo este passeio tão bom naquele barquinho? Porque é que ele tinha de estragar o passeio, ao tirar-me do barquinho e deixar-me aqui na margem? Depois de um passeio tão bom, ou...um sonho, imaginação, não sei...ele não devia ter feito isso! Põe-me no barquinho, e no fim atira-me assim para a relva, leva o barquinho, e eu fico aqui? Óh! Não gostei. Só gostei enquanto andei no barquinho. E o pato, onde está? Se calhar ficou lá atrás. Ele até foi simpático, cuidou do barquinho, livrou-o de alguns perigos. 

        A pena levanta-se, e recolhe-se bum buraquinho de um tronco, porque estava frio. Um passarinho pega na pena com o bico, e leva-a para o seu ninho, para cobrir os seus filhotes. 

        A pena fica assustada, mas quando percebe que é para aquecer passarinhos pequeninos, sente-se orgulhosa e deixa-se ser levada. 

Será que foi um sonho, imaginação ou realidade? 

Se vocês imaginassem um passeio num barquinho como estes, como seria? 

O que veriam? 

E se fossem a pena de pavão, como imaginariam o passeio do barquinho? 

E o que é que o barquinho encontraria? Um rio calmo, ou um rio cheio de obstáculos? 

Podem deixar nos comentários, se quiserem. 

                                              

                                 FIM 

                             Lara Rocha 

                                                                                                               12/Julho/2025 

terça-feira, 27 de agosto de 2024

Porque não tocas, flauta?


Era uma vez um pequenino rapaz, que vivia numa pequena casa, no meio da floresta com a sua família. 

Um dia, no Natal, o seu Tio ofereceu-lhe uma flauta, mas só pegou nela quando era mais crescido, num fim de tarde com um pôr do sol gigante, umas cores que pareciam saídas de um quadro. 

O Tio explicou-lhe como se fazia, experimentou soprar, e não saiu nenhum som. 

Muito surpreso, tenta outra vez, e nada. Espreitou para a flauta, aparentemente não tinha nada que não a deixasse tocar. 

- Porque é que isto não toca, se eu estou a fazer como o tio disse? - pergunta o menino a olhar para a flauta 

De repente, soa uma voz pequenina: 

- Vai lavar essa flauta ali ao rio. 

- Mas, mas...quem é que está a falar? 

- Vai lavar essa flauta ali ao rio. 

- Mas ela não está suja. 

- Está! 

- Quem é que está a falar? 

- Vai lavar esse flauta ali ao rio. 

- Está bem, pronto, já que tanto insistes! Mas eu quero ver quem está a falar! 

- Primeiro vai lavar a flauta ao rio. 

- Já vou! 

O menino, sem perceber o porquê da insistência da voz em lavar a flauta no rio, molha-a na água, e esta começa a borbulhar. 

- A água está a borbulhar..! 

E de repente, do interior da flauta saem bolas de tintas de cores diferentes, pequeninas, que ao tocar na água aumentam de tamanho. Ficam tão grandes, e a pairar no ar que o menino até se assusta. 

- O que é isto? 

- São cores. Toca agora! - diz a voz 

O menino toca e sai um som estridente da flauta, as bolas estremecem, encolhem, como se ficassem arrepiadas. 

- Áh, mudaram de forma…! 

- Arrepiaram-se com o som. Toca melhor.- diz a voz 

- Mas como? 

- Como o teu tio te ensinou. 

- Eu fiz isso há bocado e não tocou nada, não saiu nenhum som. 

- Mas toca agora. - manda a voz 

- Não sei tocar. 

- Sabes sim - diz a voz 

O menino experimenta, e vê um peixinho transparente, de cristal a dar luz. Descobre que é a voz que ele ouvia, 

- Toca! 

- Foste tu que me mandaste lavar aqui a flauta? 

- Sim. 

- Áhhh...que lindo! Nunca te vi por aqui. De onde saíste? 

- Da flauta. 

- Era por tua causa que a flauta não tocava? 

- Era. Esta água está maravilhosa! 

- E como é que estavas numa flauta? 

- Para te ensinar a tocar. 

- Áh! E tu sabes tocar? 

- Sei. 

- E estas bolas que apareceram? 

- Já vais ver. Segue os meus movimentos... 

- Está bem. 

- Sopro para aqui? 

- Sim. 

O peixinho parece dançar, como se fosse um maestro ao mexer com as barbatanas, com um sorriso. As misteriosas bolas de cor, parecem ganhar vida própria, bailarinas, esticam, encolhem, aumentam, diminuem, mudam de cores, rebolam no ar, seguindo os sons. 

O menino fica tão encantado com aquele som, o peixinho e as bolas coloridas, que toca entusiasmado, mas a certa altura, as bolas cansam, o peixinho e o menino também. 

- Obrigada! Adorei. Podes vir aqui mais vezes, para me ensinares mais? 

- Sim, claro, vou ficar aqui. 

- Boa! E estas bolas para que servem? 

- Umas vão rebentar, com surpresas lá dentro, outras, vão dançar connosco, enquanto tocamos. 

- Áh! Que giro. E quando é que as bolas com surpresas vão rebentar? 

- Espera! 

- Vou ter de esperar? 

- Com certeza! 

- Mas eu queria saber agora. 

- Não! Ainda não podes, elas estão cansadas. 

- Está bem. 

- Vai descansar também. 

O menino obedece, janta com a família, vai dormir, e quando se deita no escuro, vê uma luz de presença ao seu lado. Assusta-se, mas fica encantado com ela.

- Não te assustes! Sou uma das bolas coloridas com surpresas. Rebentei. Vim fazer-te companhia, juntamente com a Lua e as estrelas! 

- Áh! Que linda, obrigado. 

- Vim inspirar-te e tomar conta de ti. 

- Está bem. E o que tem as outras bolas de cores? 

- Logo verás, ou quando elas quiserem, 

- Mas eu queria já! 

- Queres tudo já, não pode ser. 

- Pronto, está bem, eu espero. 

Os dois conversam, até o menino adormecer. No dia seguinte, cheio de sol e calor, volta a tocar flauta, junto ao rio, com as instruções do peixinho, e as bolas coloridas a dançar. A luz de presença continua com o menino, 

Nada acontece, tal como nos dias seguintes, até que...uma outra bola colorida, rebenta, e cobre todas as árvores, enche-as de frutos, e lindas cores. Folhas salpicadas de verde, vermelho, folhas vermelhas, folhas com salpicos de roxo e vermelho, amarelo, folhas verdes, folhas castanhas. Frutos como uvas lindas, enormes, penduradas nas ramas, maçãs vermelhas e amarelas, outras com cores misturadas, grandes, ouriços pendurados, e outros que caem, cheios de castanhas grandes.  

O menino assiste a tudo. 

- Qual era a surpresa desta bola que rebentou? 

- Olha bem para lá! Para as árvores! - recomenda o peixinho 

- Estão cheias de cores…! E aquelas cheias de frutos. - diz o menino  

- Quando é que isto acontece? - pergunta o peixinho 

- No...no...Outono? 

- Isso mesmo! - diz o peixinho 

- Então...começou o Outono, e a bola que rebentou, trouxe o Outono? 

- Sim! 

- Áh! Que lindo…! Uau, adoro aquelas cores, estão carregadas de frutos. 

O menino está maravilhado, tal como a família, ao ver aquelas cores e frutos. Continua a tocar, e uns dias depois, outra bola rebenta, Surge um cãozinho pequenino, do mais fofo que há, lindo, muito meigo, e outra bola rebenta, de onde sai a mãe do cãozinho, com mais três filhotes, igualmente lindos! O menino nem quer acreditar. 

Fica tão feliz, que continua a tocar, aquela flauta, e todos os dias, uma cor das bolas coloridas, faz com que o menino repare num aspeto bonito da Natureza, atrai passarinhos, borboletas, pirilampos, cuida muito bem dos cãezinhos que o adoram. 

Uma das bolas rebenta e faz com que ele repare na beleza da Lua Cheia, e nas estrelas, outra leva-o a apanhar chuva, feliz, a brincar com os animais, e a última, que rebenta, cobre tudo com um grosso manto branco, gelado, um vento cortante, que obriga a acender a lareira e a conviver com a família, com muitos petiscos, brincadeiras, gargalhadas.

Esta última bola, trouxe o Natal, e um irmãozinho bebé, para o menino, o seu desejo como prenda de Natal, de quem cuida com todo o carinho com a ajuda da mãe e do pai. 

E o menino continua a tocar, continuam a acontecer coisas mágicas, toda a família aplaude, quando o ouve. O tio, não cabe nele de orgulho. 

Era por isso que a flauta não tocava, mas quando a magia saiu, muitas coisas boas começaram a acontecer!  

E se fossem vocês a receber uma flauta que não tocasse? 

Porque não tocava? 

E se recebessem bolas surpresa, que rebentavam, o que é que elas trariam? 

Podem deixar nos comentários, se quiserem. 


                                        FIM 

                                 Lara Rocha 

                          26/Agosto/2024 



quarta-feira, 6 de julho de 2022

A flor da praia

     Era uma vez uma flor que apareceu misteriosamente numa duna da praia. 

  Não se sabe quem, ou como nasceu uma flor num sítio ventoso e árido, mas a realidade é que ela estava lá e sobrevivia. 

      Tinha sempre amigas gaivotas que a abrigavam quando estava feio, fazendo um círculo à sua volta, os pescadores regam-na sempre que é preciso e as plantas das dunas também a protegiam, fechando e encostando-se para a abrigar. 

       Ela tinha uma paisagem privilegiada, para o mar, sentia uma enorme curiosidade de experimentar sempre que ouvia as gaivotas, os pescadores e outras pessoas que iam à praia, falar do mar. 

        Só não queria incomodar para que a levassem ao mar. Sentia aquela aragem e cheirinho a maresia, a peixe, a sal, a algas. 

       Dormia sonecas embalada pelo som do movimento das ondas, via os barquinhos e as suas luzes, apreciava o pôr e o nascer do sol, as suas cores mágicas, as estrelas à noite. 

       Imaginava como seria estar na água, mas queria sentir a água. Um dia contou esse seu desejo às suas amigas gaivotas, e pouco tempo depois, estava um dia tão quente, que quase não se respirava, não se via ninguém na areia, um sol que crestava tudo. 

       As gaivotas também estavam tão cansadas com o calor que só conseguiam estar à sombra e na água. 

       Convidaram a flor para ir à agua. Ela disse logo que sim, e ficou tão feliz, que até lhe cairam umas lágriminhas. 

        As gaivotas lavaram-na no bico. Entraram no mar, e a flor nem conseguia acreditar. Primeiro estranhou e sentiu um bocadinho de medo, mas as gaivotas encheram-na de coragem: nadaram com ela, molharam-se várias vezes, brincaram com ela, saltitaram, riram, nadaram, boiaram. 

        A água estava agradavelmente quente, e calma, a flor adorou senti-la, juntamente com a aragem, o sal e o sol.  Viu peixes e tudo o que via do seu lugar parecia assustadoramente grande! Sentiu as cossegas das algas no seu pé e nas pétalas, e adorou a sensação.  

       Depois do banho e já mais fresca, as gaivotas voltaram a po-la na sua areia. Conversaram alegremente, a flor não tinha palavras para descrever o que tinha sentido, como estava feliz, nem sabia como agradecer às gaivotas por a terem levado a experimentar o mar, como tanto queria! 

       As gaivotas sentiram-se orgulhosas e tão felizes como a flor. Ficou a promessa de voltarem ao mar, muito em breve. 

       Esta flor vivia num belo sitio, e realizou o seu sonho. Foi sortuda! E vocês, já viram uma flor na praia? Se vissem esta flor ou outra, o que faziam? O que veriam? 

Podem deixar as vossas respostas nos comentários. 

                                       Fim

                                     Lara Rocha 

                                   6/Julho/2022 


 












sábado, 23 de outubro de 2021

Uma criança sentada à beira do rio


    
       


 Um dia uma criança imaginou...uma criança sentada à beira do rio, deixou que a sua imaginação mergulhasse naquelas águas, que pareciam lágrimas. Ele sabia que o mundo que pensava ser cor de rosa, cheio de amor, paz, igualdade, alegria, carinho, atenção, cheio de felicidade e coisas boas, afinal não existia. 

        Os adultos contavam cada coisa, que ele pensou que realmente não existia um mundo assim tão bom! Seria por isso que as águas para onde olhava pareciam lágrimas. Ele até achava que as águas liam os seus pensamentos, ou o seu coração e percebiam que estava triste. 

        A criança sentada à beira do rio, começou a imaginar...que era uma nuvem enorme, cheia de gotas. Cada gota que se desprendia dela tinha a sua função. Uma caiu numa testa, acariciou os olhos e a cara de alguém que não conseguia chorar. 

        Outras regaram terras secas onde não havia alimento e depois delas caírem nessa terra, tiveram o que comer. Outras curaram doentes, outras aliviaram dores, outras desataram nós nas gargantas e outras cicatrizaram corações feridos. 

        Outras transformaram-se em luz, e fizeram povos em guerra, dar as mãos e chorar pela paz. Outras fizeram companhia e transformaram-se em vozes amigas para quem sofre. Outras brilharam em olhos felizes, e em sorrisos sinceros.

        Ficou tão feliz com o que imaginou, que deixou cair algumas lágrimas naquelas águas, e ondularam-nas. Se tudo isto não fosse um sonho e se cada um tivesse lágrimas como estas, o mundo seria mais humano. 

        Haveria mais paz, amor e felicidade. Mas foi só imaginação de uma criança, que se misturou com as águas que viu, ao que juntou a sua vontade de um dia isto acontecer. 

E vocês, leitores, se fossem como esta criança que se sentou à beira do rio e imaginou um mundo melhor, o que imaginavam? 

                                                    FIM 

                                                Lara Rocha 

                                              28/Agosto/2015 

domingo, 20 de setembro de 2020

As árvores e os balões

         


       Era uma vez um jardim de uma cidade, que parecia igual aos outros, com árvores enormes, umas mais frondosas do que outras, e todas estavam imóveis, aparentemente! Sim, aparentemente imóveis, porque quando não havia ninguém nas ruas, e reinava o silêncio da noite, estas árvores divertiam-se a jogar aos balões. 

        Isso mesmo! Todos os dias, algumas crianças deixavam fugir balões, para grande tristeza delas, que voavam das suas pequeninas mãos, ou dos vendedores, e repousavam nos ramos das árvores, lá em cima, onde não se conseguia chegar.

        Uma das árvores, que era mais sensível, quando os balões chegavam aos seus ramos, desprendia-os, sacudindo-se, ou com a ajuda de outros ramos mais fininhos, e devolvia o balão ao pequenito. 

        Mas nem todas faziam o mesmo, porque também elas adoravam balões e faziam verdadeiros torneios com equipas, entre si. Atiravam vários balões ao mesmo tempo, umas para as outras. 

        Um mocho era o árbitro, e juiz de ar. Dava-se ao trabalho de contar quantas vezes os balões não tocavam em nenhuma árvore, e se saíssem fora daquele espaço onde estavam, ou furassem balões de propósito por estarem zangadas, era-lhes mostrada uma pequena lâmpada vermelha que alguém tinha deixado no parque. 

        As árvores divertiam-se muito, riam, partilhavam os balões, mas também se zangavam, discutiam, ralhavam umas com as outras quando não corria como esperavam. O mocho não admitia que chamassem nomes feios, e castigava se houvesse lutas entre elas. 

        Por cada jogo, somavam pontos e ganhavam elogios. No fim de cada jogo tinham de trocar abraços, encostando e entrelaçando os ramos mais finos, agitando as folhas com as outras equipas, e o mocho seguia com os seus olhos, cada movimento, cada troca de abraço.

        De vez em quando, faziam campeonatos de jogos de balões, que voavam sem parar, de forma desorganizada, violenta e apressada, com a ansiedade e vontade de todas ganharem. O mocho ficava nervoso, e tonto dos olhos, mandava parar os jogos, obrigava-as a relaxar e a jogar com juízo, caso contrário ninguém se entendia e deixava de ser jogo. 

        Ficavam tão nervosas e entusiasmadas que nem ouviam o árbitro. Nessas alturas,  recolhia todos os balões e lançava um forte piar, que quase parecia mais agudo do que os apitos. As árvores arrepiavam-se até à raiz, estremeciam e pareciam congelar. 

        Quando o mocho percebia que estavam mais calmas, dizia: 

- Vamos voltar ao torneio, com juízo, se não, ficam todas sem pontos. 

        Mais calmas, voltavam a jogar divertidas, com os balões até ficarem completamente vazios. Ao nascer do sol, as árvores continuavam no mesmo sítio, e afinal...estes jogos de balões, aconteceram na imaginação de um menino que olhou para uma árvore cheia de balões entalados nos ramos, uns mais cheios, outros mais vazios. 

        Ficou muito curioso sobre o que aconteceria aos balões que fugiam. Para onde iriam? Será que as árvores também gostavam de balões, e de jogar com eles? E vocês? O que acham que acontece aos balões que fogem? Para onde irão? Serão atacados por aves? Ou voarão até se esvaziarem? 

        Podem deixar as vossas respostas nos comentários :) 

                                                          FIM 

                                                          Lálá 

                                                   16/Setembro/2020

       

domingo, 4 de março de 2018

O castelinho na tua mão



         Era uma vez uma menina que foi para a praia com a sua família, num dia quente de Verão, com muito sol.
         Logo que pousaram as coisas na areia, a menina pediu aos pais para ir para a água, os pais deixaram porque havia muitas possas e o mar estava longe.
         Foi a correr, e entrou devagar, primeiro molhou os pés, viu caranguejos pequeninos, estrelas-do-mar coladas nas rochas, e peixinhos.
         Molhou as pernas até aos joelhos, e depois até à barriga, até que mergulhou mesmo. Nadou, e quando olha para o lado, vê um rapaz a construir alguma coisa na areia. Saiu da água, e foi ter com ele.
O rapaz sorri-lhe.
- Olá, estás sozinha, pequena? - pergunta ele
- Olá. Não, os meus pais estão lá em cima, ali...com as minhas tias. E tu?
- Eu estou sozinho.
- Como te chamas?
- Chamo-me João, e tu?
- Eu chamo-me Sofia.Onde estão os teus pais?
- Estão na minha casa. Ali.
- Porque é que eles não vieram para a praia?
- Porque não quiseram. Está muito calor.
- O que estás a fazer?
- Estou a brincar com a areia.
- Tu já és muito crescido, não podias brincar com a areia. Os crescidos não brincam.
- Achas?
- Acho.
- Não sei porque não podem brincar. Quem te disse isso?
- Todos os grandes dizem.
- Fazem mal, se não brincam. Eu sou crescido, mas brinco na mesma, e não tenho vergonha. Fico feliz por brincar.
- Eu também.
- Claro, todas as crianças gostam de brincar.
- Mas os crescidos, quando vamos à escola dizem que já não podemos brincar.
- Isso é mesmo injusto! Não te acredites neles.
- Não nos deixam brincar, é por isso que eu gosto mais dos dias em que não vou à escola, quando estou de férias, porque só nesses dias é que posso brincar. O que vais construir?
- Já vais ver.
            O rapaz constrói um castelo em areia, e enquanto isso fala com a menina. No fim, ela solta uma grande exclamação:
- Áh! Que lindo.
- É um castelo de areia.
- Está maravilhoso.
- Obrigado.
- Como conseguiste fazer um castelo que parece quase verdadeiro, daqueles de princesas e príncipes, reis e rainhas...?
- Já construí muitos! Mas o mar lavou-o para longe.
- E tu não conseguiste segurá-lo?
- Não! Ele foi mais rápido.
- Nem te perguntou se podia levá-lo?
- Não!
- Óh, deves ter ficado triste!
- Não.
- Eu gostava de ter um castelo assim!
- Gostavas?
- Gostava, mas de certeza que não consigo construir um castelo assim.
- Porque não?
- Não sei.
- Então eu vou oferecer-te este!
             A menina sorri.
- Como é que vais fazer isso? Não posso levar esse castelo assim.
- Este é um castelo mágico.
- É mágico? Porquê?
- Porque tu gostaste dele, e eu vou pô-lo na tua mão, para que possas levá-lo.
- Mas ele não se desfaz quando o puseres na minha mão?
- Não! Porque só tu vais vê-lo, e vais poder levá-lo para todo o lado que quiseres.
- A sério? Quem está lá?
- Isso não sei. Vais poder descobrir isso tudo...de certeza que vais encontrar no castelo muita gente Queres ver? Estende a mão.
            O rapaz sopra para o castelo e este aparece na mão da menina, em tamanho pequeno.
- Áh! Tu fizeste magia...ele está aqui.
- Eu disse-te que era um castelo mágico.
- Que lindo! Mas, e agora como é que eu vou poder levá-lo para todo o lado? E como é que não vão vê-lo? Eu estou a vê-lo.
- Se lhe soprares ele desaparece, para poderes fazer tudo o que tens de fazer, e quando quiseres que ele aparece, olhas para a tua mão, pensas na palavra castelo, sopras e ele volta a aparecer.
- Mas como é que eu vejo quem vive lá?
- Podes pedir que o castelo aumente, para um tamanho que consigas entrar, e ver quem está lá.
- Áh! Que giro! Obrigada.
- Acho que vem aí alguém à tua procura.
- Óh, pois é. É a minha tia. Vou para ali...obrigada pelo castelo. Vejo-te por aqui outro dia.
- Sim, quem sabe! Diverte-te. E não te esqueças que o castelo está na tua mão. Não deixes de brincar, mesmo que os adultos não deixem, não lhes faças a vontade. Estuda, mas não te esqueças de brincar.
- Como é que eu faço isso? Eles estão sempre a tomar conta e a ver o que faço...
- Brinca quando eles não estiverem a ver. É para isso que serve esse castelo na tua mão.
- Está bem. Obrigada.
              A pequena vai ter com a tia, brinca com ela, fala, ri, toma banho, mergulha, corre, enche-se de areia, e na hora mais perigosa vai para casa. No fim do almoço, vai para o seu quarto, está muito curiosa para saber quem vive no castelo da sua mão. Enquanto os adultos descansam, ela também se deita, mas olha para a sua mão, pensa na palavra castelo, sopra e ele aparece tão grande, como o espaço do seu quarto. Ela abre um grande sorriso. Bate à porta do castelo, e é recebida por simpáticos guardas, cheios de energia, sorridentes, com roupas coloridas e elegantes:
- Olá visitante, bem-vinda
             Fazem uma vénia e estendem a mão à menina. Levam-na a passear pelo castelo, entre lindos jardins, floridos, flores de todas as cores, espécies, com chilreares diferentes, pássaros de muitas espécies e penas fantásticas, borboletas de muitos tamanhos, formas e cores. As princesas estão à janela, e a menina vai ter com elas.
- Olá! - Dizem as princesas
- Olá! -  Diz a menina
- Anda ter connosco. - Convida uma princesa
- A vista daqui é maravilhosa! - Diz outra princesa
            Os guardas acompanham a menina até às princesas,  que oferecem um chá à menina, apresentam os reis, as rainhas, os príncipes, as outras princesas, e as divisórias do castelo. A menina fica encantada com o que vê. Ouve alguém a chamar, e diz:
- Óh...vou ter de ir embora, mas volto daqui a bocado, está bem?
- Sim, está bem. Nós estamos sempre aqui. Aparece!
- Até já!
- Até já!
             A menina volta para o seu quarto, sorridente, sopra para o castelo e este desaparece. Mas afinal ninguém a tinha chamado. Então, volta a pensar no castelo e olha para a mão. O castelo aparece, e a menina conhece o resto do castelo. Depois desse dia, sempre que a menina queria ir ao castelo, este aparecia, e quando soprava, desaparecia. A menina não se esqueceu do que o rapaz da praia lhe disse, por isso, quando as aulas começaram depois das férias, ela já era muito amiga das princesas, brincava muito com elas, passeava pelo castelo, lanchava com elas, e elas também conheceram o quarto da menina. Viveram muitas aventuras e os adultos nunca descobriram que ela brincava às escondidas, porque eles não deixavam brincar.
             E vocês também têm um castelinho na vossa mão? Como é esse castelo? Quem vive lá? 

FIM 
Lálá 
(4/Março/2018) 

sexta-feira, 23 de junho de 2017

A luzinha de presença

     

Era uma vez uma menina que tinha muito medo do escuro. Sempre que tinha de ir para a cama gritava, resistia, lutava, inventava mil e uma coisas para fazer até cair mesmo com sono. Quando acordava de noite, via tudo escuro e a sua imaginação começava a trabalhar. Parecia que o seu quarto era invadido por seres monstruosos, horríveis, que a assustavam, diziam mal dela, provocavam-na e obrigavam-na a gritar. 
        Saía do seu quarto a correr, para o quarto dos pais, os pais iam com ela ao quarto, acendiam a luz e mostravam-lhe debaixo da cama, nos armários, nas gavetas, em todos os sítios que não havia ninguém, estava tudo sossegado, e ela tinha era de fechar os olhos e dormir. Ela achava aquilo tudo muito misterioso. 
      Os pais voltavam a deitá-la, faziam-lhe carinhos, e quando adormecia, apagavam a luz, e voltavam a sair. Acordava outra vez, e lá estava outra vez o seu quarto cheio de criaturas assustadoras, vindas das gavetas, das portas, das janelas, cada qual o mais feio, debaixo da cama, uns que lhe puxavam os cabelos, outros que a descobriam, outros que lhe tiravam a chupeta, outros que lhe tiravam a almofada. 
        Gritava outra vez, e lá ia a mãe a correr, acendia a luz, ela estava muito assustada, mas a mãe não via nada no quarto, a não ser o que já existia. A mãe ficava com ela até adormecer e voltava a apagar a luz. Quando percebeu que era tudo imaginação da menina, e o medo do escuro, deixou de ir ter com ela. 
         A mãe ensinou-a que sempre que ela sentisse medo, ou achasse que aquelas criaturas estavam no quarto, acendia a luz, porque elas tinham medo de luz. A menina voltou a sentir medo, acendeu a luz, e não é que a mãe tinha razão? As criaturas que a assustavam tinham mesmo muito medo do escuro. 
        No seu aniversário, a mãe ofereceu à menina uma luz de presença, fraquinha, pequenina, de colocar na tomada para quando ela acordasse e olhasse em volta, percebesse que estava em segurança no quarto, e que não havia monstros nenhuns. Era uma luz azul clarinha, onde até o João Pestana gostava de repousar um bocadinho e aquecer-se, quando ia levar os frasquinhos com pó de sono e sonhos. 
          Uma noite, a menina viu o João Pestana pousado na lâmpada e perguntou-lhe: 
- Olá João...o que fazes aqui?
- Olá! O mesmo de sempre. 
- E o que é o mesmo de sempre? 
- É trazer-te soninho e sonhos!  
- Mas trazes coisas que eu não gosto, não trazes? 
- Eu? Trago coisas que não gostas? Como assim? O quê? 
- Tu trazes criaturas horrendas que se metem em tudo quanto é sítio aqui no quarto e depois atacam-me, puxam-me os cabelos, puxam-me a chupeta, puxam-me a almofada, gritam-me, chamam-me nomes feios, fazem-me gritar. 
          O João Pestana dá uma sonora gargalhada. 
- Ai, que susto! O que foi isso?
- Isso o quê? 
- Esse barulho, não ouviste? 
- Foi uma gargalhada minha! - Diz o João Pestana 
- E porque é que te riste assim? Foi para me assustar? 
- Não. 
- Também fazes parte das criaturas horríveis que me assustam?
- Também não! Nem sei do que estás a falar. 
- Nunca ouviste falar de umas figuras assustadoras, feias, malvadas, no quarto das crianças?
- Não. Também nunca falei com eles. Só deixo os frasquinhos, e depois eles que se arranjem. 
- Será que elas só vêm ter comigo? 
- Não sei! 
- Mas se não és tu que as trazes...quem as trará? 
- Não sei! Vou continuar o meu serviço. Gosto muito da tua lâmpada. 
- Gostas? 
- Gosto. 
- O que tem de especial? 
- É bonita, e aquece-me. 
- Tu também tens frio?
- Tenho, claro. 
- Mas não vais levá-la pois não?
- Não! 
- É que desde que a tenho, os monstros não voltaram. 
- Ainda bem...Boa noite! 
- Óh, espera! 
- O que foi?
- Achas que esses monstros estão aí nessa lâmpada? 
- Claro que não! Aqui nesta lâmpada, só tem a sua luz. 
- De certeza? 
- Sim. 
- Consegues ver? 
- Consigo! Não está aqui nada, nem ninguém. Agora, tenho de ir...Dorme bem! 
- Espera! 
- O que foi?
- Então se calhar elas têm mesmo medo da luz! 
- Talvez. E tu, tens medo do escuro?
- Tenho! 
- Então é por isso que eles aparecem! 
- Como assim? 
- Esses monstros aparecem quando os meninos têm medo do escuro! 
- Ah! Então conhece-los? 
- Acho que sim... Mas agora fecha os olhos que eles também não aparecem. 
- Não?
- Não! 
- Como é que sabes? 
- É o que dizem! 
- Então também já os conheces? 
- Não! Já ouvi falar neles, por outras crianças, mas eu nunca os vi. Nunca falei com eles. 
- Não tens medo do escuro?
- Não! Agora dorme... 
- Espera! 
- O que foi? 
- O que é que os outros meninos dizem deles? 
- Óh, não sei, não decorei, mas acho que são coisas parecidas com o que tu dizes. 
- Como é que sabes? 
- É o que todos dizem. Dorme! 
- Espera... 
- O que foi? 
- Eles também têm luzes como as minhas? 
- Sim, alguns. 
- E os monstros aparecem? 
- Acho que não. 
- E aos outros que não têm luzes? 
- Acho que aparecem, pelo menos é o que dizem! Agora, fecha os olhos, e dorme...eu tenho de continuar o meu trabalho. 
- Espera! 
- O que foi agora? 
- Espera mais um bocadinho! 
- Não posso. 
- Vá lá! Porque é que estás com tanta pressa de ir embora? 
- Porque ainda tenho muitas casas para onde ir. Daqui a pouco é tarde. 
- Não é nada, para nós crianças não existe tarde, são sempre horas de tudo, e ficamos muito zangados quando temos de interromper o que estamos a fazer, para te fazermos a vontade! Dormir...detestamos dormir. 
- Mas dormir é preciso, e eu só faço isso para vosso bem, porque vos faz bem, e porque me mandam. 
- Quem é que te manda? 
- Os vossos pais e outras pessoas que não conhecem. 
- E para que é que eles te mandam fazer isso?
- Porque vocês crianças precisam de descansar, e eles também. 
- Tu também dás sono aos grandes? 
- Claro.
- Mas eles ainda não estão a dormir. 
- Pois não, dormem mais tarde. 
- Porquê? 
- Porque não conseguimos distribuir sono e sonhos por toda a gente ao mesmo tempo, as crianças têm de dormir mais tempo, e precisam mais, por isso damos primeiro às crianças. 
- Não é justo! 
- Dorme! Boa noite, descansa... 
- Espera! 
- O que foi? 
- Faz-me companhia até eu adormecer. 
- Mas ainda vais demorar a adormecer...e eu tenho mais o que fazer. 
- Como é que sabes que vou demorar a adormecer?
- Porque estás com vontade de conversar. 
- Não, se ficares só um bocadinho à minha beira, eu adormeço rápido. 
- Posso ficar aqui na lâmpada? 
- Não. Anda mais perto de mim. 
- Óh...! 
- O que foi? Viste alguma criatura das que te falei? 
- Não. Para que queres que eu vá para a tua beira até adormeceres? 
- Quero sentir-te! 
- Para quê? 
- Para ter a certeza que tu existes. 
- Ora essa, é claro que existo, acho que não preciso de ir para a tua beira, para saberes que existo. 
- Vá lá! 
- Vocês são muito estranhos...pessoas! 
- Tu não és uma pessoa?
- Sou...mas não como vocês. 
        O João Pestana aproxima-se, e a menina sorri:
- Sim, já percebi que existes mesmo...mas aquelas criaturas... 
- Não está aqui mais ninguém: só eu, tu e aquela luz maravilhosa.
- Boa noite, obrigada! Volta um dia destes para conversarmos mais, e para te aqueceres ali na lâmpada. 
- Está bem. Um dia destes. Enquanto isso, dorme descansada. 
- Tens a certeza que os monstros não vão aparecer aqui no quarto? 
-Tenho! 
- Prometes? 
- Prometo! 
- Olha, podes vir aqui aquecer-te mais no fim do trabalho, mas não deixas os monstros entrar aqui, está bem? 
- Está bem! 
- Se os vires, dá-lhes uma sova! 
- Está bem. 
- Prometes? 
- Prometo! 
- Eu não gosto deles! 
- Eles não entram aqui. 
- Tens a certeza? 
- Tenho!
- Como? 
- Eles não gostam da tua luz de presença! 
- Não? 
- Não! 
- Tens a certeza? 
- Tenho.
- Toma conta de mim, se os vires avisa-me. 
- Está bem. 
- Obrigada, boa noite.
- Boa Noite

        A menina boceja, sorri e adormece. O João Pestana sorri respira de alívio, e sai. Quando a menina acordava via a luzinha de presença e não via os monstros. Era uma luzinha mágica que fazia desaparecer os monstros, porque eles têm medo da luz e adoram o escuro. 

                                                                 Fim 
                                                                 Lálá

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

A lenda da fechadura


fotografia de Lara Rocha 


Era uma vez uma praia como todas as praias…com areia, mar e rochas, que recebia muitas visitas porque tinha algo de diferente das outras. Esta tinha uma rocha com uma forma estranha, e uma fechadura, que nem sempre estava à mostra, mas não havia chave.

Muita gente que visitava esta praia, especialmente a rocha que tinha uma fechadura, dizia sentir vibrações diferentes, tanto ouviam um silêncio aterrador, gelado, como sentiam uma ventania de cortar a respiração e os ossos, só nesse canto da rocha.

Umas vezes conseguiam ouvir choros, gritos, uma voz que cantava melodias tristes e pesadas, outras vezes cantava doces, lindas e leves canções que pareciam músicas instrumentais, e percebiam que as ondas umas vezes ficavam serenas, outras vezes com um tamanho monstruoso que corria toda a gente da praia. Umas vezes passava água por baixo da rocha da fechadura, outras vezes não.

Era um mistério que muita gente tentava descobrir, mas não conseguiam. Só um marinheiro sabia o segredo, mas não o desvendava, porque gostava de ver tanta gente na praia curiosa, e que sentiam coisas como ele dizia.

O mistério era uma lenda muito antiga, embora alguns ainda mais antigos dissessem ser verdadeiro…contavam os marinheiros que era nesse lugar que se encontravam com a princesa dos mares.

Essa princesa era uma mulher demasiado linda, linda demais para ser verdadeira, elegante, muito sedutora, que despertava invejas em todas as outras princesas e seres marinhos, que queriam ser tão bonitas como ela.

Como não conseguiam seduzir os marinhos, porque na verdade eles gostavam mesmo dela, as outras aprenderam uns truques maldosos com a feiticeira dos mares, para conseguir conquistar, e tentaram roubar todos os marinheiros que puderam. Aos que iam pescar, elas formavam tempestades, apareciam a dançar, hipnotizavam-nos, e eles deixavam-se encantar.

A princesa não sabia de nada, nem precisava de fazer feitiços ou hipnotizar para que os marinheiros se encantassem por ela, sentia-se muito sozinha, porque na verdade ela salvava os marinheiros, e queria a companhia deles, porque sentia-se muito sozinha. Começou a achar muito estranho não aparecerem.

Uma vez ficou transparente e assistiu a tudo o que as outras fizeram. Ficou muito triste e com muita raiva, gritou até ficar quase sem voz, levantou ondas gigantes, revirou o mar todo com os seus movimentos de fúria, sacudiu os barcos, e todos os marinheiros caíram à água. As outras ficaram realmente apavoradas, e fugiram.

Ela pegou nos marinheiros e atirou-os todos para a areia numa grande ventania que formou com a sua raiva. Salvaram-se todos, mas ela ficou muito perturbada. Refugiou-se numa rocha para se acalmar. Nessa rocha…

Nessa rocha gritou tudo o que sentia, toda a sua raiva pela desilusão que as outras com quem ela se dava tão bem, e considerava quase família, lhe tinham provocado.

Como é que elas puderam fazer isso com ela…perguntou-se muitas vezes, e praguejou…a voz dela parecia um tremor de terra num túnel, que se ouvia na praia toda.

Depois de conseguir libertar a sua raiva, chorou tanto que as suas lágrimas formaram uma baía à volta da rocha. Por fim, completamente cansada calou-se, deitou-se na areia e adormeceu.

Os seus pais compreenderam o estado em que ela ficou, e deixaram-na lá ficar até recuperar forças. Cobriram-na, deixaram-lhe alimentos e bebidas, e roupas secas, e fecharam aquele canto com uma porta que abriram na pedra, para que ninguém a perturbasse, mas nunca a deixaram sozinha, estavam sempre vigilantes.

Depois de muitas horas a dormir, ela abriu os olhos, olhou em volta, não sabia onde estava, alimentou-se e bebeu, trocou de roupa que estava toda molhada, e ficou em silêncio.

Os pais foram vê-la e conversaram com ela, ouviram todas as suas revoltas, dores, tristezas, angustias, desilusões, tentaram consola-la, e ela voltou com eles para casa.

Nos dias seguintes, ela ainda ficou muito irritada, e nesses momentos, pegava na chave e refugiava-se no seu recanto, nessa rocha. Gritava, chorava, às vezes tanto que a água passava por baixo da porta e aparecia na praia.

Quando havia marinheiros em perigo, principalmente à noite, a princesa pegava neles, e acolhia-os no seu recanto, alimentando-os, dando-lhes de beber e cobrindo-os, fechava-lhes a porta na rocha, ficando assim protegidos até que amanhecesse para saírem em segurança, e falava com eles, de forma muito meiga, simpática, amigável. Eles adoravam-na, e depois não conseguiam libertar-se dela…iam ter com ela.   

A lenda foi rapidamente divulgada, porque um dia viram um velho marinheiro sentado à porta da rocha, e perguntaram-lhe o que estava ali a fazer…ele respondeu que estava à espera que a princesa do mar lhe abrisse a porta, que queria reencontrá-la ao fim de tantos anos.

Acharam que ele estava louco, ou a delirar, mas ele contou o que tinha acontecido há muitos anos atrás, quando a princesa o salvou e o fechou no seu recanto para o proteger.

Contou com tantos pormenores que quem o ouviu quase conseguiu ver e sentir. Como percebeu que estavam a duvidar dele, mostrou a fechadura na rocha que nesse dia estava à mostra, e sem água. Disse para fazerem silêncio, e ouviram vozes…o marinheiro sorriu e disse que ela estava ali com alguém.

Todos se arrepiaram porque realmente tinham ouvido vozes. Espreitaram pela fechadura, não viram nada, nem ouviram nada. Ele explicou que ela tinha ido embora…e na verdade…só se ouvia o vento, que parou de repente, e só se ouviu o silêncio.

De repente aparece um fiozinho de água por baixo da fechadura na rocha. O marinheiro sorriu e disse que aquele fiozinho de água eram umas lagrimazinhas da princesa do mar que o reconheceu…ele sabia que um dia destes iriam reencontrar-se, e conversar.

Todos os que ouviram arrepiaram-se, e o marinheiro entrou pela porta da rocha que se abriu, quando a maré ficou vasa. Sentou-se na areia e viu a princesa, a princesa fechou a porta, e quem ficou do lado de fora ouviu vozes, e gargalhadas…mas só viam o senhor pela fechadura.

Pensaram que ele estava a delirar, ou a sonhar…e foram embora, pensando como é que ele iria sair dali. Mas saiu, quando a princesa, depois de uma longa e animada conversa com o marinheiro que recordaram os tempos em que se encontraram, voltou para casa, com a promessa de se encontrarem mais vezes.

E o marinheiro voltou lá mais vezes. Ainda hoje, quando a maré vasa o marinheiro e quem vai visitar a praia vão a essa rocha da fechadura e ouvem vozes, quando a fechadura não está à mostra, sentem vibrações, e movimentos estranhos.

Há muitas pessoas que vão para esse sítio na esperança de ver e falar com essa princesa dos mares que era tão linda…mas nunca a veem…só os marinheiros conseguem vê-la e conversar com ela.

Os outros, apenas sentem, arrepiam-se, sentem-se estranhos, e ficam deixam-se levar pelo encanto do cantinho, ou da…lenda…ou será que foi mesmo verdade? Se calhar foi verdade para os marinheiros, pelo menos salvaram-se.

E vocês? Acham que foi lenda, ou pode ter acontecido na realidade? Será que foi imaginação dos marinheiros com o medo, para ganharem força de se salvarem? Ou será que essa princesa existiu mesmo…? Será que ela ainda existe? Porque é que acham que só os marinheiros a conseguem ver?

FIM

Lálá

(31/Agosto/2016)

segunda-feira, 13 de junho de 2016

A aldeia de croché

Era uma vez uma senhora muito velhinha, há muitos anos atrás que se lembrou de ocupar o seu tempo livre, desde que era criança, e enquanto foi mais jovem, até as suas mãozinhas começarem a ficar encarquilhadinhas e doridas, fazendo peças em croché.
Esta atividade tinha começado com a sua bisavó, que já tinha ensinado á sua avó e à sua mãe, e esta última à senhora, muito comum na maioria das famílias. Todas as mulheres se reuniam na aldeia, de todas as idades, nas casas umas das outras, e nas eiras à sombra, ou nos campos, nos intervalos de outros trabalhos.
Era lindo ver tanta geração a fazer coisas tão bonitas, com tanta delicadeza, amor, gosto e perfeição, enquanto conversavam durante horas, riam, rezavam, cantavam, e depois de fazerem mais mil e uma coisas.
Cada uma fazia o que queria…toalhas, almofadas, rendas, apoios, lençóis, cobertas, paninhos para cestinhos, até que as gerações mais novas começaram também a inventar «pessoas» em croché, e a juntar outras materiais, para fazer bonecas de todo o tipo, lindas.
As bonecas pareciam mesmo «pessoas» umas enormes, outras médias e mais pequenas, com todos os pormenores: cabelos, olhos, nariz, boca, braços, mãos, dedos, pernas… almofadavam com espuma, penas ou restos de lãs, e tecidos, vestiam-nas com roupas em croché de outras cores, e até tinham sapatinhos em croché de todas as cores.
Nenhuma boneca era desperdiçada, mesmo aquelas que não eram tão perfeitas, ou que tinham alguns «erros» de construção, porque como quem as construía dizia…a sociedade também tem pessoas imperfeitas.
Esta ideia inspirou-as e construíram bonecas em croché com cadeiras de rodas, andarilhos, muletas, bengalas, óculos, membros mais curtos que outros…tal como elas viam entre as pessoas da cidade, e na própria aldeia.
Depois lembraram-se de experimentar fazer casas e meios de transporte, árvores, flores, montanhas e animais em croché. Gostaram tanto da experiência que foram experimentando cada vez mais coisas novas, e conseguiram construir uma verdadeira «cidade em croché».
Num dia em que se lembraram de juntar todas as peças que já tinham feito, perceberam que já tinham uma cidade, e quiseram expor. Todos ficaram muito surpresos e maravilhados.
As fadas foram as primeiras visitantes e adoraram, decidiram dar um prémio pela dedicação delas, e gosto, as peças de croché não eram simples pedaços de croché expostos e imóveis, puseram logo tudo em movimento com os seus poderes mágicos!
Todas as peças mexiam e faziam sons, principalmente as peças da natureza, parecia um presépio animado, e todas as mulheres que construíram esta cidade de croché ficaram muito felizes, parecia que tinham voltado a ser crianças.
O Presidente da Câmara divulgou pelas cidades, e a aldeia encheu-se de milhares de visitantes que fotografavam, queriam comprar tudo…mas como elas não queriam vender, os visitantes encomendavam e pagavam bem. Não tiveram mais sossego, mas também ganharam muito dinheiro.
Com esse dinheiro ajudaram-se uns aos outros, porque era uma aldeia pobre, no inicio, construíram coisas que faziam falta, melhoraram as condições das casas, mesmo assim continuaram a ser as pessoas simples que sempre foram, e a dedicar-se ao croché.
Foi assim que nasceu a Aldeia de Croché que fez para sempre as delícias de quem visitava…que pareciam voltar à infância e à magia. Mulheres inspiradoras, com mãos de fada, e amor pelo que faziam.     

E vocês?
Conhecem croché?
Conhecem alguém que faça croché?  
Conseguem imaginar uma cidade com pessoas e casas…tudo feito em croché?
Gostavam de visitar essa cidade?

FIM
Lálá

(13/Junho/2016)