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quinta-feira, 3 de outubro de 2024

O esquilo bondoso



    Era uma vez um esquilo que não parava um segundo!   Enquanto estava de olhos abertos, tinha sempre o que fazer, parecia ligado à tomada. 

   Corria de um lado para o outro, pedia aos trabalhadores no campo, que lhe emprestassem cestas, baldes, bacias, e desaparecia na floresta. 

    Os trabalhadores emprestavam-lhe, não sabiam para que era, mas achavam engraçada e misteriosa aquela correria toda. 

    Apanhava uma série de bolotas, pinhas, castanhas, folhas de Outono, enchia tudo o que podia, ficava com uma boa quantidade para si, para poder comer no Inverno, no conforto da sua casinha de árvore, e partilhar se precisasse. 

    Armazenava, mas distribuía por quem mais gostava, dizia que não podia perder tempo e tinha muito que fazer. 

    O que iria fazer um esquilo, com aquilo tudo? - perguntavam os trabalhadores 

    O esquilo fazia embrulhos de bolotas nas folhas que caiam das árvores, de várias cores, e oferecia aos outros esquilos, aos porcos que também comiam bolotas. 

    Deixava à porta dos trabalhadores tudo o que lhe emprestavam, com pequenos mimos, embrulhados nas folhas: pinhas que pintava com muitas cores diferentes, as cores do Outono.  

    Outras mais brilhantes, uvas com um tamanho grande, e um sabor delicioso, que eles desconheciam, maçãs grandes, bonitas e doces, castanhas grandes.

    Os trabalhadores ficavam muito surpresos, e numa tarde em que o esquilo passou a correr, perguntaram:

- Ei...obrigado por teres devolvido o nosso material! 

- De nada! Obrigado eu - diz o esquilo a sorrir 

- Onde vais a correr tanto? 

- Podemos ajudar? 

- Fica aqui um bocadinho connosco! 

- Ahhh...está bem! - diz o esquilo, um pouco cansado

- Mas, porque o trouxeste com isto tudo? - pergunta uma senhora 

- Para vos agradecer, e lembrar que é Outono! 

- Mas que coisas tão bonitas! - diz uma senhora 

- E são deliciosas! - diz outro senhor 

- Onde foste buscá-las? - pergunta outras senhora  

- Fui...por aí! O que interessa é que tenham gostado! - responde o esquilo 

- Claro que sim! - respondem todos 

- Mas gostávamos de saber onde é, para irmos apanhar também. - comenta outra senhora 

- Aaaaahhhh... eu trago-vos! 

- Mas que querido! - comenta uma senhora a sorrir 

- Que esquilo tão generoso! - diz uma menina 

- Também dou a quem precisa mais, sim. - confirma o esquilo 

- Então, estás convidado para a nossa festa. 

- Está bem! Obrigado. Quando é? E onde? 

    Os trabalhadores explicam tudo, contam a tradição, e o motivo da festa. O esquilo não fazia ideia, mas adorou ouvir tudo sobre a famosa tradição no Outono. 

    Depois de muita conversa: 

- Muito obrigado. Adorei saber tudo o que me contaram. Cá estarei. Se precisarem de alguma coisa de mim, eu ando sempre por aí.

- E andas sempre a correr? 

- Bem...quase sempre! Não posso perder muito tempo. Tenho muita coisa para fazer. Não sei andar de outra maneira - diz o esquilo 

- Mas também precisas de descansar! 

    Todos riem. 

- Sim, também descanso! Então...até já.

- Até já. - dizem todos 

    Lá vai o esquilo, e a festa começa a ser preparada. Sem que estivessem a contar, no dia da festa, de manhã bem cedo, o esquilo estava no largo, verdejante, a fazer a decoração das mesas, com coisas que tinha feito, parecido com os presentes que ofereceu aos trabalhadores.

    Cheio de energia, feliz, pinhas aqui, pinhas ali, pintadas de diferentes cores, castanhas espalhadas, uvas em cima de folhas de árvores, nozes ao natural, outras pintadas na casca de fora, lindas! Velas em cascas de nozes, e outros objetos decorativos que o esquilo tinha criado. 

    Quando os trabalhadores viram, nem queriam acreditar. 

- Ááhhhhh... que coisa mais linda! - suspiram 

- Obrigado! - diz o esquilo a sorrir 

- Mas não precisavas de ter este trabalho todo! 

- Fiz com todo o gosto, não foi trabalho nenhum. Trabalho têm vocês, a preparar as refeições e petiscos todos! 

- Sim, mas também fazemos com gosto. 

- Acredito! Estou curioso para provar - diz o esquilo

- Já está quase tudo pronto, daqui a bocadinho começamos a trazer. 

- Querem ajuda? 

- Não, obrigado! Já fizeste tanto. 

- Está bem. 

    Os trabalhadores estão maravilhados, e como o esquilo não consegue estar quieto, vai ajudar. Todos riem com a energia dele. 

    Depois de tudo pronto, começa a festa. Vestidos a rigor, muita música, muita animação, muita dança, muitos abraços, cantares, fotografias, petiscos, brincadeiras, jogos, o esquilo come de tudo, adora tudo, até não poder mais, como os trabalhadores. 

    Há momentos de contemplação da Natureza em silêncio, e agradecimento de cada um a tudo o que ela dá, tudo o que ela tem de maravilhoso. 

    Escrevem bilhetinhos, e põem aos pés de uma árvore, abraçam a árvore, acariciam-na, encostam-se a ela, dão as mãos à volta da árvore, de olhos fechados, e dizem em coro, em voz alta: «gratidão, Mãe Natureza por tudo o que nos dás!» 

    Largam as mãos, sorriem, aplaudem, e depois a animação continua noite dentro, com o esquilo sempre divertido, a fazer rir toda a gente, muita gargalhada e brincadeiras, a beber e a brindar com sumos de frutas, deliciosos, dançam, batem palmas, e a festa acaba com a chegada do nascer do sol, apreciado por todos. 

    O esquilo e os habitantes estão muito cansados e com sono, e cada um vai para sua casa. Depois de recuperados, ao fim do dia, comem o que sobrou, e ajudam a arrumar as coisas, com o esquilo todo elétrico. 

    O esquilo passa a ser visto como um amigo, um elemento de uma grande família, que visitava praticamente todos os dias, além da dele, mesmo no Inverno, com neve e frio, bem agasalhado, perguntava a todos se precisavam de alguma coisa. 

    Era muito bem recebido nas casas todas, ofereciam-lhe chá e biscoitos deliciosos. E no Natal voltavam a fazer uma grande festa, com a presença do esquilo, e os seus presentes tão lindos para cada um. 

    Estava sempre presente, e até apresentou a sua família, e amigos, aos trabalhadores, que nunca tinham visto tanto esquilo junto, e tão simpáticos como eram. 

    No Inverno ficava mais recolhido, a preparar presentes, mesmo assim, visitava a família e os amigos humanos. 

    Era um esquilinho mesmo bondoso! 

E vocês? 

Se fizessem uma festa no Outono, quem levariam? 

O que poriam nas mesas? 

Que produtos de Outono conhecem? 

Como seria essa festa? 

Podem deixar nos comentários, se quiserem :) 


                                            FIM 

                                      Lara Rocha 

                                       3/10/2024 

sábado, 2 de maio de 2020

A prendinha da estrela

          




Era uma vez uma menina, filha de artistas de circo, que andava sempre de um lado para o outro, numa caravana, que tinha o mínimo de condições para viver, e tanto ela como os pais viviam felizes, juntamente com os outros artistas.
         A menina adorava os espetáculos, e todos gostavam muito uns dos outros. Em muitos lugares onde ficavam na noite dos espetáculos, eram descampados, onde se viam muito bem as estrelas. A menina tinha por hábito ouvir e ler histórias.
        Enquanto ouvia as histórias imaginava o que lhe era dito, mas também inventava as suas próprias histórias, a partir do que ouvia, e outras muito diferentes. 
        Ela nem imaginava que havia uma estrela muito lá em cima que se transformava em cigarra e ficava muito perto dela para se deliciar com as histórias, tanto as que lhe contavam como as que ela criava.
        A estrelinha estava entre as cigarras e usava um bloquinho onde escrevia as frases que mais gostava, as palavras mais bonitas, as personagens e nomes que eram bondosas, ações e espaços das histórias que a faziam sonhar.
        Um dia a estrelinha ouviu dizer que a menina estava quase a fazer anos. Decidiu oferecer-lhe uma prendinha para retribuir o que aprendia com as histórias que ouvia. 
        Numa noite em que regressou a casa depois de ouvir mais uma história, e ter anotado umas palavras bonitas, a estrelinha foi ter com a sua mãe e a sua avó, que eram costureiras, e pediu ajuda.
         Explicou às duas que queria oferecer uma prenda especial à menina que contava histórias, e mostrou-lhes o bloco. 
        Perguntou se conseguiam concretizar esse presente. As duas gostaram tanto da ideia, ficaram tão orgulhosas desse gesto da estrelinha, que puseram logo mãos à obra, e a estrelinha ajudou.
       Fizeram uma linda manta, toda feita de fios de lã de lua, muito aconchegante, macia e quente. 
       Pregaram todas as palavras, frases, personagens, nomes, ações, espaços, que tinha gostado mais, e que a estrelinha tinha escrito no caderninho. 
       Enquanto pregavam, a estrelinha recontava a história, falava sobre o circo, os artistas, os espetáculos, e conversavam sobre eles.
      Ainda juntaram cotõezinhos de lãs azuladas, amarelas e salpicos de brilho das próprias estrelas. 
      Num instante, e quase sem dar por isso, a manta estava pronta! Olharam para a manta, aberta, soltaram uma grande exclamação, e abriram um enorme sorriso.
- Áh! Mas que bonita que está. - suspira a mãe orgulhosa
- Está perfeita! - Sorri a Avó
- Uau! Obrigada, Mamã...Obrigada, Avó! Vocês são mesmo fantásticas.
       Trocam abraços e beijos. Chega o dia de aniversário da menina, e houve espetáculo. A estrelinha entra sorrateira na caravana onde vive a menina, e pousa a mantinha em cima da cama dela, com um cartãozinho que dizia: «Obrigada pelo que aprendo com as tuas histórias! Adoro. Muitos parabéns, muita saúde, muitas felicidades, e até já!»
       A estrelinha transforma-se em cigarra, para ver a reação da menina. Quando o espetáculo acaba, estão todos eufóricos, muito felizes com a forma como tinha corrido, e fizeram uma festa surpresa à menina.
      Atuaram só para ela, os palhaços que ela mais gostava, riram muito, aplaudiram, cantaram os parabéns, dançaram, e as surpresas não ficaram por aqui. Quando se preparava para deitar, viu a mantinha em cima da cama, e o cartãozinho.
- Mamã... tenho aqui mais uma prenda... foste tu?
- Prenda...? Não... não sei do que estás a falar.
       A menina mostra a manta à mãe e o cartão.
- Não fui eu, nem nenhum de nós, tenho a certeza! Mas, que linda... está cheia de palavras, frases...Como fizeram isto?
      A menina lê o cartão à mãe. Batem à porta, aparece uma menina, linda, que nunca ninguém a tinha visto.
- Boa noite! Podemos ajudar...? - Pergunta a mãe da menina
- Boa noite. Estou à procura da menina que faz anos hoje.
- Sou eu! Mas, não nos conhecemos... - Diz a menina
         A estrelinha sorri:
- Tu não me conheces, mas eu conheço muito bem as tuas histórias, aprendo muito com elas. Esta manta que acabaste de receber, fui eu que te ofereci, onde estão as palavras, frases, cenários, nomes, pessoas, lugares que mais gostei.
- Está excelente. Mas como é que ouves as minhas histórias, se não nos conhecemos...?
- Não posso dizer.Gostaste da manta, é o mais importante para mim. Muitos parabéns, e continua a ler e a inventar as tuas histórias que adoro ouvir.
        A menina sorri.
- Muito obrigada. Mas como é que te chamas?
- Estrela.
- Áh! Eu sou a Diana. Não queres entrar...? Pode entrar, não pode, mãe?
- Sim, mas vê lá, já é tarde. Onde estão os teus pais, Estrela?
- Lá fora, na minha casa.
- Vê lá, não vão ficar preocupados?
- Não. Eles sabem que eu vim aqui.
- Está bem. Queres um bocadinho de bolo que sobrou?
- Acho que aceito. Obrigada.
       A estrela conversa com a menina, como se fosse tal e qual uma amiga dela, come o bolo.
- Hum, está muito bom, este bolo. Obrigada.
- Obrigada eu. - Diz a mãe
- Bom, vou voltar para a minha casa, e tu, Diana, não tarda muito, também vais dormir, não é?
- É. Por favor, volta mais vezes! - Confirma a Diana
- Claro que sim! - promete a estrela
        Trocam um abraço, e dois beijinhos.
- Obrigada pela prenda, e muito gosto em conhecer-te! - diz Diana
- Boa noite, dorme bem. Até já...Boa noite, pais da Diana! - diz a estrela
- Boa noite! - respondem os pais da Diana
       A estrela dá alguns passos e desaparece. Diana fica pensativa, nunca tinha visto aquela menina em lado nenhum, como é que ela sabia tanta coisa, ouvia as histórias, e ainda por cima deixou-lhe uma prenda tão bonita! 
       Ela e os pais deitam-se, a menina envolve-se na manta, deliciada com a maciez, e os brilhantes.
      Quando ela estava quase a dormir, a estrela volta a aparecer, pousada na sua manta, em forma de estrela iluminada. 
      Pediu à Diana que não gritasse, e que não se assustasse. Contou-lhe como a conhecia, e pediu que não contasse a ninguém, pois tinha medo que não acreditassem nela, ou que achassem ser da sua imaginação.
      Diana não contou nada, e a partir dessa noite, as duas tornaram-se grandes amigas, encontravam-se, a Diana contava e ouvia lindas histórias, conversavam, riam, faziam companhia uma à outra, brincavam, sem fazer barulho. 
      Às vezes escolhiam uma palavra da manta à sorte, ou uma frase, uma personagem, e recontavam ou inventavam essa história.
     De vez em quando, a estrela aparecia em forma de menina, principalmente de dia, quando a Diana brincava mais sozinha, ao ar livre, a ensaiar os números de circo e a ver os outros. Uma linda prenda de aniversário, e uma amizade.

E se vocês recebessem uma manta como a de Diana? Que palavras teria pregadas?

                                                                           FIM
                                                                           Lálá
                                                                      2/Maio/2020



          
            

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

A jovem e o seu vizinho luminoso

            
Desenhado por Lara Rocha 


        Era uma vez uma jovem que para descansar os olhos da luz da cidade, ao entardecer, antes de entrar em casa, olhava para uma árvore cheia de buracos. 
       Ela sentia que aquela árvore tinha alguma coisa de especial, não sabia explicar. Já não era a primeira vez que ela tinha a sensação de ter visto a sair de um dos buracos um arco, com uma luzinha.
       Nunca deu importância, nem quis investigar, porque achou que era de cansaço, e que a sua mente procurava alguma coisa para relaxar, mesmo que não existisse. Ela sorria e voltava a entrar com outra energia.
       Um dia chegou do trabalho, olhou para a árvore, e viu outra vez o arco com a luzinha. Desta vez, quis ver de perto, para tirar dúvidas se era real, ou se estava a imaginar. Aproximou-se, e para sua grande surpresa...
- Áhhhhhhh!!! É real! Eu via mesmo este arco e uma luzinha. Que lindo! Mas como é que isto veio aqui parar...? De onde veio?
        Antes que a jovem continuasse a fazer mais perguntas, a luzinha começa a tocar, no arco, sem cordas.
- Mas, está a tocar sozinho, o arco?
        Era a luzinha que tocava maravilhosamente bem.
- Que música tão suave! Mas... como é que este arco dá música...?
        A luzinha aumenta de tamanho, e pisca, o arco continua a tocar. A luzinha mexe-se de um lado para o outro, roda no arco, desliza, como se estivesse a tocar cordas que não existiam. 
       A jovem estava tão deliciada a ver e a ouvir aquilo que quase não se mexia. Quando a luzinha para de tocar, ganha a forma de um lindo e pequeno pirilampo, que tocava num arco sem cordas, porque era ele que cantava e tocava, pois não tinha dinheiro para comprar um arco com cordas, como ele adorava poder ter.          
       Partilhou a sua história com a jovem, que gostou tanto dele, e ficou com pena dele, ofereceu fio de pesca e ajudou-o a pôr cordas no arco, bem presas e próximas umas das outras, como se fosse uma harpa.
      O pirilampo ficou tão feliz e tão agradecido à jovem, que quis logo experimentar. Ele nem queria acreditar que estava a tocar em fios verdadeiros.
      Tocou delicadamente em cada corda, primeiro, depois, soltou toda a sua alegria enquanto tocava músicas alegres, saltitando de fio em fio, dando cambalhotas, rodopios, saltinhos e até algumas lágrimas, que também o ajudaram a compor músicas.
        A jovem aplaudia e ria ao ver a felicidade do pequeno, com uma coisa tão simples, mas para ele era tudo. 
        O pirilampo nunca mais abandonou aquela árvore, e todos os dias, várias vezes ao dia, tocava para a jovem, como forma de agradecimento, conversava com ela, ajudava-a a adormecer, e fazia-lhe companhia.
        Em troca, ela dava-lhe abrigo, calor, alimentação e amizade, a ponto de acolher o pirilampo na sua sala de estar, ou no seu quarto, quando estava mais triste. 
        Às vezes a jovem cantava com ele, e outras vezes, os dois abraçavam-se, choravam juntos. Eram uma verdadeira família.

                                            FIM
                                            Lálá  
                                                                                                                            26/Fev/2020

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

o menino e o papagaio especiais






            Era uma vez um menino que vivia numa aldeia, e passava parte das suas tardes a lançar um papagaio, de plástico, colorido, preso por um fio à sua mão, a correr livre e solto, feliz, com um grande sorriso a levar com o vento na cara que brincava com os seus cabelos encaracolados. Era um menino sorridente, e o papagaio não se cansava de voar ao sabor das suas corridas pelos campos. 
           Os dois conversavam muito, o papagaio contava ao menino coisas que via de cima, e o menino ouvia-o encantado, conseguia imaginar o que o papagaio descrevia. 
Um dia, o menino contou ao seu papagaio o seu desejo de levar uma luz que curasse doentes, aos lugares onde houvesse, e milhares de luzes para que houvesse paz no mundo. O papagaio riu, mas ficou pensativo. 
          Ambos sabiam que ia ser difícil isso acontecer, mas acreditavam que talvez um dia fosse possível acontecer, também não sabiam onde iam arranjar essas luzes tão poderosas, se os médicos não conseguiam curar todas as doenças! 
         Fizeram o seu dia-a-dia normal, as suas corridas e brincadeiras, conversas, e não pensaram mais no assunto. À noite, o menino não conseguia dormir, estava inquieto, dava voltas e mais voltas na cama, mexia e remexia, cobria-se, destapava-se, mas o sono não vinha. Ficou a pensar no seu desejo, e como poderia realizá-lo. Decidiu que iria pedir ajuda ao feiticeiro da aldeia. Sossegou, adormeceu e sonhou com o seu desejo. De manhã, foi a casa do feiticeiro, explicou-lhe o seu desejo, e o feiticeiro riu com vontade: 
- Meu filho, isso é o desejo do mundo inteiro, de todas as pessoas do bem que não praticam a guerra. Eu sou feiticeiro, mas não vou poder realizar esse teu desejo! Desculpa. 
- Porque não? 
- Porque não há nenhuma magia que eu possa fazer para que as pessoas maldosas deixem de pensar em guerra. 
- O amor não pode fazer isso? 
- Pode, mas não há amor assim...por aí, à venda. Tem de vir do coração de cada um de nós, juntamente com a felicidade, a bondade, a vontade de ser bom, e a humildade. O amor é mágico, mas os feiticeiros não podem fabricá-lo! Tem de partir de cada um, já tem de estar em cada um. 
- E os sorrisos? Os abraços? 
- Tudo isso é bom, é do bem, só existe nos corações, eu também não posso fabricar. 
- Porque não? 
- Porque isso também não há assim à venda, há dentro de algumas pessoas, as pessoas que fazem bem, no coração delas, eu não posso andar por aí a roubar bocadinhos de amor, de abraços, e sorrisos, ou outras coisas bonitas. 
- Mas não podes criar uma luz que transmita paz, e que se solte nos sítios que mais precisam? 
- Hummm...não sei. Acho que não! Mas, agora vai brincar, se eu conseguir digo qualquer coisa. 
- Está bem, obrigada. 
            O menino saiu, e o feiticeiro riu às gargalhadas. 
- Santa Inocência! Coitadinho... 
            E continuou a rir, mas de repente parou, pensativo: 
- Espera ai...ele é inocente, mas...uma luz que acalme... talvez consiga criar! Pelo menos para ele não ficar tão triste, e até pode ser que funcione! Uma luz que acalme...que transmita paz....
            Revirou vários livros, procurou, pediu inspiração, e conseguiu criar umas luzinhas muito leves, de cores muito suaves, que acreditava acalmarem. Chamou o menino e comunicou-lhe a invenção. O menino ficou todo iluminado com um sorriso de orelha a orelha. 
- Mas como vais lançar estas luzinhas? - Pergunta o feiticeiro 
- Presas no papagaio. 
- Áh! Está bem! Boa sorte...e vamos acreditar que vão funcionar. Pede ao vento que tas leve para os países em guerra. 
- Está bem! Muito obrigada. 
          O feiticeiro guarda as luzinhas todas num saco. 
- São lindas...! - Diz o menino quase hipnotizado
- Sim, são. - Diz o feiticeiro 
         O menino agradece mais uma vez, e vai logo ter com o seu amigo papagaio. Prendeu as luzinhas no papagaio, e explicou para pedir ao vento que as leve para longe, mas pelo caminho podia largar as luzinhas em muitos sítios onde havia pessoas doentes. O papagaio estava preparado, orgulhoso e feliz por levar umas luzinhas tão poderosas, que acreditava cumprirem o seu desejo. 
- Vai amigo! Boa sorte, estou aqui... vai-me dizendo para onde devo levar-te. 
- Combinado! 
          O menino corre de um lado para o outro, como sempre livre, leve, solto, feliz, e o papagaio voa ao sabor dos seus movimentos, dando indicações ao menino para onde virar. Em todos os sítios onde chegou e sabia que havia pessoas doentes, largou centenas de luzinhas, que seguiram o seu caminho, e foram ter com quem mais precisavam. As pessoas melhoraram e ficaram curadas. 
           Depois, pediu ao vento para levar as luzes para mais longe, onde havia guerra. As luzes voltaram para os campos do menino, umas semanas depois, todas furadas e fundidas, umas largas centenas. O menino nem queria acreditar! Os dois choraram destroçados, perceberam logo que a maldade tinha ganho nesses países, e que até desfizeram as luzes. Começaram a pensar em como estariam as pessoas...se as luzes estavam naquele estado...como não estariam as pessoas, e as crianças, as casas...tudo! 
- O feiticeiro tinha razão! O amor não se vende por aí, tem de vir do coração de cada um de nós, juntamente com a felicidade, a bondade, a vontade de ser bom, e a humildade. O amor é mágico, mas os feiticeiros não podem fabricá-lo! Tem de partir de cada um, já tem de estar em cada um. - Diz o menino ainda a chorar
 - Óh! E nós temos isso tudo, porque nos devolveram as luzes naquele estado? - Lamenta o papagaio 
- Porque não tinham o mesmo que tu, filho! - Diz o feiticeiro que apareceu de repente, sem se saber de onde. 
- Ai que susto...estava tão mergulhado na minha tristeza que não te vi chegar. Já viste o que aconteceu? As luzes que mandei para os países em guerra, voltaram todas furadas! - E desata outra vez a chorar. 
- Claro! Entendo a tua tristeza! Eu disse-te que não podia fabricar paz, tentei fazer umas luzes que despertassem a paz, mas a maldade é tanta que eles nem as viram, não perceberam para que eram! 
- As outras foram entregues, e resultaram! - Diz o menino a chorar 
- Pois! As que curaram. Porque essas pessoas precisam de amor, de abraços, de todos os ingredientes vindos de corações bons, puros, como o teu! O teu desejo era sincero e funcionou.- Diz o feiticeiro 
- Mas o meu desejo para a paz nos países em guerra também era sincero! - Garante o menino 
- Não tenho dúvidas disso. Mas o deles não era! Foi por isso que elas voltaram. - Diz o feiticeiro 
- Óh, estou tão triste! - Diz o menino
- Eu também. Tinha tanta esperança que iam funcionar! - Acrescenta o papagaio
- Parte dela funcionou! Deves sentir orgulho e ficar feliz por isso.- Diz o feiticeiro
- E a outra? - Pergunta o menino 
- Com a outra não podes fazer mais nada, filho! Não vais ser tu a mudar os corações de pedra, que só tem maldade! 
- Porque é que eles são assim? Já pensaram na quantidade de pessoas que...bem, nem quero imaginar como estarão as pessoas, as casas e tudo...se as luzes ficaram assim! 
- Pois! É melhor nem imaginar! Mas continua a pedir nas tuas orações, que haja paz. Pode ser que um dia chegue lá a tua luz, e a de muita gente, a luz da bondade, a luz do amor, do bem. Não podemos fazer mais nada, infelizmente. Apenas podemos espalhar essa luz tão bonita, pelos que estão mais perto de nós, e pelos que querem recebê-la! - Explica o feiticeiro
- Entendi. - Diz o menino
            E naquela tarde, o menino continua triste, arruma as luzes numa gruta, e por cima de cada uma delas deixa cair uma lágrima, tal como o papagaio que o ajuda a arrumar. À noite, chorou outra vez e pediu paz. Ele não conseguiu levar paz e luz aos países que estão em guerra, como queria, mas conseguiu distribuir a sua luz, pelas pessoas que mais precisavam à sua volta, a quem ele ajudava, sorria, abraçava, visitava, com quem brincava, e falava, a quem dava carinho, e a quem dizia palavras simpáticas.
           Ele era um menino bom! Depois da tristeza, voltou a ser o menino feliz que era, que corria livre pelos campos, e adorava que o vento brincasse com os seus cabelos, a fazer voar o seu amigo papagaio. 
           Nós também não podemos acabar com a guerra nos países lá muito longe, mas podemos levar as nossas luzinhas mágicas, às pessoas mais próximas de nós, do bem, com corações bons, ao fazermos pequeninas coisas por elas, como o menino! 
           Experimentem, e podem experimentar rezar também pela paz! A paz só podemos fazer por nós, connosco e com os outros à nossa volta, ela já existe em alguns corações. Vocês conhecem corações bons? 

Fim 
Lálá 
22/Janeiro/2018
 

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

A lenda da fechadura


fotografia de Lara Rocha 


Era uma vez uma praia como todas as praias…com areia, mar e rochas, que recebia muitas visitas porque tinha algo de diferente das outras. Esta tinha uma rocha com uma forma estranha, e uma fechadura, que nem sempre estava à mostra, mas não havia chave.

Muita gente que visitava esta praia, especialmente a rocha que tinha uma fechadura, dizia sentir vibrações diferentes, tanto ouviam um silêncio aterrador, gelado, como sentiam uma ventania de cortar a respiração e os ossos, só nesse canto da rocha.

Umas vezes conseguiam ouvir choros, gritos, uma voz que cantava melodias tristes e pesadas, outras vezes cantava doces, lindas e leves canções que pareciam músicas instrumentais, e percebiam que as ondas umas vezes ficavam serenas, outras vezes com um tamanho monstruoso que corria toda a gente da praia. Umas vezes passava água por baixo da rocha da fechadura, outras vezes não.

Era um mistério que muita gente tentava descobrir, mas não conseguiam. Só um marinheiro sabia o segredo, mas não o desvendava, porque gostava de ver tanta gente na praia curiosa, e que sentiam coisas como ele dizia.

O mistério era uma lenda muito antiga, embora alguns ainda mais antigos dissessem ser verdadeiro…contavam os marinheiros que era nesse lugar que se encontravam com a princesa dos mares.

Essa princesa era uma mulher demasiado linda, linda demais para ser verdadeira, elegante, muito sedutora, que despertava invejas em todas as outras princesas e seres marinhos, que queriam ser tão bonitas como ela.

Como não conseguiam seduzir os marinhos, porque na verdade eles gostavam mesmo dela, as outras aprenderam uns truques maldosos com a feiticeira dos mares, para conseguir conquistar, e tentaram roubar todos os marinheiros que puderam. Aos que iam pescar, elas formavam tempestades, apareciam a dançar, hipnotizavam-nos, e eles deixavam-se encantar.

A princesa não sabia de nada, nem precisava de fazer feitiços ou hipnotizar para que os marinheiros se encantassem por ela, sentia-se muito sozinha, porque na verdade ela salvava os marinheiros, e queria a companhia deles, porque sentia-se muito sozinha. Começou a achar muito estranho não aparecerem.

Uma vez ficou transparente e assistiu a tudo o que as outras fizeram. Ficou muito triste e com muita raiva, gritou até ficar quase sem voz, levantou ondas gigantes, revirou o mar todo com os seus movimentos de fúria, sacudiu os barcos, e todos os marinheiros caíram à água. As outras ficaram realmente apavoradas, e fugiram.

Ela pegou nos marinheiros e atirou-os todos para a areia numa grande ventania que formou com a sua raiva. Salvaram-se todos, mas ela ficou muito perturbada. Refugiou-se numa rocha para se acalmar. Nessa rocha…

Nessa rocha gritou tudo o que sentia, toda a sua raiva pela desilusão que as outras com quem ela se dava tão bem, e considerava quase família, lhe tinham provocado.

Como é que elas puderam fazer isso com ela…perguntou-se muitas vezes, e praguejou…a voz dela parecia um tremor de terra num túnel, que se ouvia na praia toda.

Depois de conseguir libertar a sua raiva, chorou tanto que as suas lágrimas formaram uma baía à volta da rocha. Por fim, completamente cansada calou-se, deitou-se na areia e adormeceu.

Os seus pais compreenderam o estado em que ela ficou, e deixaram-na lá ficar até recuperar forças. Cobriram-na, deixaram-lhe alimentos e bebidas, e roupas secas, e fecharam aquele canto com uma porta que abriram na pedra, para que ninguém a perturbasse, mas nunca a deixaram sozinha, estavam sempre vigilantes.

Depois de muitas horas a dormir, ela abriu os olhos, olhou em volta, não sabia onde estava, alimentou-se e bebeu, trocou de roupa que estava toda molhada, e ficou em silêncio.

Os pais foram vê-la e conversaram com ela, ouviram todas as suas revoltas, dores, tristezas, angustias, desilusões, tentaram consola-la, e ela voltou com eles para casa.

Nos dias seguintes, ela ainda ficou muito irritada, e nesses momentos, pegava na chave e refugiava-se no seu recanto, nessa rocha. Gritava, chorava, às vezes tanto que a água passava por baixo da porta e aparecia na praia.

Quando havia marinheiros em perigo, principalmente à noite, a princesa pegava neles, e acolhia-os no seu recanto, alimentando-os, dando-lhes de beber e cobrindo-os, fechava-lhes a porta na rocha, ficando assim protegidos até que amanhecesse para saírem em segurança, e falava com eles, de forma muito meiga, simpática, amigável. Eles adoravam-na, e depois não conseguiam libertar-se dela…iam ter com ela.   

A lenda foi rapidamente divulgada, porque um dia viram um velho marinheiro sentado à porta da rocha, e perguntaram-lhe o que estava ali a fazer…ele respondeu que estava à espera que a princesa do mar lhe abrisse a porta, que queria reencontrá-la ao fim de tantos anos.

Acharam que ele estava louco, ou a delirar, mas ele contou o que tinha acontecido há muitos anos atrás, quando a princesa o salvou e o fechou no seu recanto para o proteger.

Contou com tantos pormenores que quem o ouviu quase conseguiu ver e sentir. Como percebeu que estavam a duvidar dele, mostrou a fechadura na rocha que nesse dia estava à mostra, e sem água. Disse para fazerem silêncio, e ouviram vozes…o marinheiro sorriu e disse que ela estava ali com alguém.

Todos se arrepiaram porque realmente tinham ouvido vozes. Espreitaram pela fechadura, não viram nada, nem ouviram nada. Ele explicou que ela tinha ido embora…e na verdade…só se ouvia o vento, que parou de repente, e só se ouviu o silêncio.

De repente aparece um fiozinho de água por baixo da fechadura na rocha. O marinheiro sorriu e disse que aquele fiozinho de água eram umas lagrimazinhas da princesa do mar que o reconheceu…ele sabia que um dia destes iriam reencontrar-se, e conversar.

Todos os que ouviram arrepiaram-se, e o marinheiro entrou pela porta da rocha que se abriu, quando a maré ficou vasa. Sentou-se na areia e viu a princesa, a princesa fechou a porta, e quem ficou do lado de fora ouviu vozes, e gargalhadas…mas só viam o senhor pela fechadura.

Pensaram que ele estava a delirar, ou a sonhar…e foram embora, pensando como é que ele iria sair dali. Mas saiu, quando a princesa, depois de uma longa e animada conversa com o marinheiro que recordaram os tempos em que se encontraram, voltou para casa, com a promessa de se encontrarem mais vezes.

E o marinheiro voltou lá mais vezes. Ainda hoje, quando a maré vasa o marinheiro e quem vai visitar a praia vão a essa rocha da fechadura e ouvem vozes, quando a fechadura não está à mostra, sentem vibrações, e movimentos estranhos.

Há muitas pessoas que vão para esse sítio na esperança de ver e falar com essa princesa dos mares que era tão linda…mas nunca a veem…só os marinheiros conseguem vê-la e conversar com ela.

Os outros, apenas sentem, arrepiam-se, sentem-se estranhos, e ficam deixam-se levar pelo encanto do cantinho, ou da…lenda…ou será que foi mesmo verdade? Se calhar foi verdade para os marinheiros, pelo menos salvaram-se.

E vocês? Acham que foi lenda, ou pode ter acontecido na realidade? Será que foi imaginação dos marinheiros com o medo, para ganharem força de se salvarem? Ou será que essa princesa existiu mesmo…? Será que ela ainda existe? Porque é que acham que só os marinheiros a conseguem ver?

FIM

Lálá

(31/Agosto/2016)

quarta-feira, 23 de março de 2016

A bruxa irada



Era uma vez umas flores muito belas que viviam sossegadas no seu jardim. Certo dia, uma bruxa que odiava flores, perguntou ao seu namorado:
- Bruxão, monstrão…meu horroroso…quem é mais bonita…eu…ou aquelas coisas?
- Claro que és tu, minha horrorosidade monstrona. – Responde o namorado
- Pois claro! Eu sabia! É claro que não ias gostar daquelas pirosas, vaidosas, pois não?
- Claro que não! Eu só gosto de ti…quer dizer, odeio-te, minha monstruosa horrível.
        A bruxa desata a rir, e trocam carinhos. Entretanto, sem ela saber, e enquanto tomava o seu banho em lama quente, o namorado foi ter com as flores, ao jardim.
        Ele tinha dito à bruxa que não gostava de flores, mas mentiu! Na verdade, ele gostava mesmo muito das flores, e até ia ter com elas, disfarçado de vespa.
        As flores não sabiam quem ele era, mas gostavam dele…ele tinha sempre uma conversa muito agradável e simpática, era delicado. As flores nem imaginavam que era o monstro namorado da bruxa.
E por falar na bruxa…quando ela não viu o seu namorado em casa, e ele não respondia às suas chamadas, foi ao seu caldeirão ver se o descobria.
Quando a bola de cor de fogo do caldeirão abriu, ela viu o seu namorado disfarçado de vespa, de volta das flores de quem ela tinha tanta inveja e tanto detestava.
- Mas o que é isto? O que é que ele está a fazer de volta destas pirosas?
- Ele mentiu-te! – Soa uma voz
- Mentiu? Como assim?
- Mentiu! Disse-te que não gostava das flores, mas na verdade…gosta…e olha como! Olha para ele, vestido ou disfarçado de vespão, para andar à volta delas…! E mais…
- Mais? Não chegava mentir-me?
- Não! Mentiu-te, e chega! A mentira que ele te disse, não foi só essa, de que não gostava das flores…ele acha-as lindas!
- O quê?
- Isso mesmo…ele acha as flores muito mais bonitas do que tu!
- Não pode ser!
- É! Olha para ele, todo derretido com elas…
- Ááááhhh… (grita) não pode ser!  
- Pode! E é!
- Mas como é possível? Como é que ele fez isto comigo? Maldito! E malditas flores…
- Confessa lá…tu até gostas delas…
- Claro que não. Já me conheces bem…
- Estás ruída de inveja delas.
- Bom…claro…isso sim. Mas a culpa é dele.
- Pois. Ninguém diz o contrário. Porque estás tão ciumenta?
- E achas que não é para estar?
- Acho que não! Elas são só umas flores…tu és uma bruxa. Com as flores, nunca vai poder ter nada…e contigo…pode…e tem!
- Ele nunca me fez isto.
- Que tu saibas…
- Sabes de alguma coisa, que eu não sei?
- Não. Só sei tudo o que tu sabes.
- Huummm…
- Mas que saibamos, ele nunca te enganou, nem tu a ele.
- Eu já. Ele é que não soube!
- A sério? Ááááhhh…
- Claro.
- Conta-me…
- Noutra altura, agora não posso! Tenho de me concentrar no castigo… ele mentiu-me a dobrar… maldito!
        Fica tão nervosa, tão irritada e chateada, que grita, guincha, e pensa numa vingança.
- Malditas…e maldito! Vão ver…
        Prepara no caldeirão um castigo: uma valente tempestade! Primeiro, põe milhares de nuvens no céu, roxas, pretas, cinzentas, azuis-escuras, quase a rebentar. O sol fica completamente tapado.
- Ei…! – Dizem todas as flores
- O que aconteceu? – Pergunta uma flor
- Ficou noite, de repente? – Pergunta outra flor
- Não! – Dizem todas
        Olham para o céu.
- Parece que vai chover! – Diz o namorado da bruxa
- Pois! – Dizem todas
- Óh não! – Diz o namorado da bruxa
- O que foi? – Pergunta outra flor
        O namorado suspeita, mas disfarça:
- Áh! Acho que vamos ter de nos abrigar.
- Onde? – Perguntam as flores
- Acho que vamos ter de levar com ela! – Comenta outra flor
        A bruxa desata às gargalhadas, e grita, gira as mãos, e faz levantar uma forte ventania. A vespa que era o seu namorado, tenta voar, mas não consegue, e dá uma série de cambalhotas com o vento.
        As flores gritam e quase são arrancadas da terra, batem várias vezes na terra e choram muito assustadas, abraçam-se para tentar segurar-se.
        A vespa bate várias vezes nas árvores pelo jardim, e desata a chover, uma valente tromba de água. As flores ficam rodeadas de lama, e quando estavam quase a afogar-se, com tanta água, o namorado da bruxa chama uma nuvem amiga sua, e boa. Ela desce ao jardim e protege-as da chuva.
        A bruxa fica completamente histérica de raiva.
- Outra…? Mas que traidor…
        Castiga o namorado de várias maneiras, sacode-o, puxa-lhe as asas, aperta-o, tenta esmagá-lo, dá-lhe sapatadas através do vento, e forma-se trovoada. As flores não se molharam mais, com a nuvem a protegê-las. A bruxa puxa o namorado, todo amassado. Ele grita quando a vê:

- Olha o que me fizeste! Foste tu, não foste?
- Quem mais podia ser? Idiota…traidor…- grita a bruxa
- O quê?
- O quê? Pergunto eu… o que é que estavas a fazer de volta daquelas pirosas malditas? E disseste que não gostavas delas…
- Eu sabia que isso tinha garra tua.
        Ela dá-lhe um estalo e puxa-lhe os cabelos. Agarra-lhe no pescoço e grita-lhe:
- Mentiste-me! Maldito! Disseste que não gostavas daquelas nojentas, e afinal disfarças-te de vespa para andar de volta delas.
- Sou só amigo delas!
- Sou só amigo delas…que palerma! Odeio essa palavra. Isso é traição.
- Não. É amizade. Tu também tens amigos, e amigas, mas és minha namorada.
- Mas eu não me disfarço para ir ter com eles, e tu sabes quem são…tu disfarças-te de vespa para andar de volta delas. E ainda chamaste outra…para as defender…que ódio…
- Claro. Como é que eu ia chegar a elas? Que outra?
- Aquela nuvem. Não tinhas nada que te chegar a elas.
- Porquê?
- Porque eu odeio-as…são horrorosas…e tu, todo babado com elas…que nojo. Mentiste-me!
- Não menti…só não te disse!
- Estúpido. Não me disseste, e mentiste!
- Ciumenta.
- Claro que sou. E depois?
- E depois? É mau.
- É como nós. Podias gostar de outra coisa…de outra bruxa qualquer…agora…daquelas…francamente! Traíste-me.
- Não te traí. Amigas não são a mesma coisa que namoradas. Não sejas assim.
- Estás feito bonzinho agora…? Foram elas que te deram a volta à cabeça? Disseste que eu era a mais bonita, então porque foste atrás delas?
- E és. Mas as flores também são bonitas.
- Ainda confessas?
- Confesso. Acho-as bonitas, mas não podia dizer-te porque já sei que és muito ciumenta.
- Quem é mais bonita afinal?
- És tu! Mas elas também são, não és a única bonita…
- Palerma! Pelo menos agora não me mentiste…é a tua sorte…mas, ai de ti que vás outra vez ter com elas.
- Mas o que é que tem, ir ter com elas?
- Ainda perguntas? Não podes.
        Dá-lhe umas fustigadas.
- Ai! – Geme ele
- É para aprenderes que sou tua! E mais ninguém pode ser.
- Elas são minhas amigas.
- Não podem ser. Ou elas, ou eu.
- Que disparate. Então o nosso namoro fica por aqui.
- Vais atrás delas?
- Vou. Para ver se ganhas juízo.
        Ele sai a porta, e a bruxa faz uma série de maldades, para tentar destruir as flores e o namorado. Mas ele defende-se e defende sempre as amigas. Protege-as.
        Mais tarde, a bruxa sentiu falta do namorado e pediu-lhe que voltasse, prometendo que o deixava ser amigo das flores. Ele não acreditou nela, e não voltou.
        A bruxa cansou-se, e desistiu de chatear o rapaz, entregando-se à tristeza e à solidão. O choro dela ouvia-se muito longe, e estava a ficar doente, fraca.
Isto fez com que ela deixasse de ser má, e tornou-se também amiga das flores, que a ajudaram com pena dela. Assim, ganhou outra vez o amor do namorado.
        E foram felizes para sempre…com a amizade das flores, a quem a bruxa pediu desculpa. Ela deixou de ser má e de ser ciumenta.

FIM
Lálá 
(23/Fevereiro/2015)





A lenda do jardim silencioso

                                             foto de Lara Rocha 

Era uma vez um jardim, há muitos, muitos anos, que começou por ser um matagal de silvas, folhas secas, lixo, flores murchas e terra, sombras, árvores muito velhas e secas.
Era um sítio assustador para a maioria das pessoas que passavam por lá, mas nem se atreviam a entrar. Muita gente dizia que ouvia vozes, gritos, barulhos de feras, rugidos, uivos e outras coisas estranhas que arrepiavam a espinha.
Um dia, uma rapariga com uma cara bonita, mas muito histérica, misteriosa, de quem toda a gente fugia pelo seu aspecto, que só gritava, era má, estava sempre irritada, a resmungar, não era nada simpática, e era solitária, lembrou-se de entrar naquele jardim horrível.
Quando a viram entrar para lá, acharam que ela era uma bruxa e que iria fazer maldades…aliás, ela era a única que tinha conseguido entrar no jardim. Entrou e rapidamente desapareceu entre as enormes silvas. Os habitantes ouviram a voz estridente dela, e ficaram atentos, à escuta atrás das janelas.  
Olhou em volta, e gritou:
- Não gosto deste sítio.
O vento soprou, e ela respondeu:
- Isso. Quero mudar, tudo menos as silvas.
O vento falou outra vez, e ela respondeu:
- É. Faz o que eu mando e não me faças perguntas. Sim, quero mudar tudo, menos as silvas da entrada. Já te disse para não me fazeres perguntas.
O vento soprou forte, formaram-se redemoinhos e ventos de diferentes intensidades, trovoadas, chuvas, viam-se chamas altas, saia fumo.
Os habitantes ficaram muito assustados, ouviam barulhos estranhos, estridentes, estalidos, gargalhadas, trovões, e o jardim ficou desfeito. Só restaram as silvas como ela queria.
- Muito bem. Excelente trabalho. Agora…vais pôr tudo o que eu mandar.
Ela senta-se no chão, e começa a dizer palavras soltas, de coisas que ela quer ver no jardim. A cada palavra que diz, aparecem flores de todas as cores e tamanhos, folhas, árvores pequeninas e grandes, fontes de água corrente, cascatas, grutinhas pequeninas, com cristais, um lago com patos, e cisnes, pássaros raros, erva, sol e sombra, borboletas, joaninhas, e várias espécies de fadas, coelhos, pandas, lobos, um barquinho, e uma pequena montanha com muitas espécies de plantas.
Quem via por fora, não conseguia imaginar a beleza em que aquele espaço se tinha transformado. A jovem abriu um grande sorriso, aplaudiu, riu, cheirou todos os aromas fantásticos, e correu o jardim todo.
Enquanto isso conversou com o vento, e contou-lhe que aquele jardim era como o seu interior. Na verdade, por fora, ela era uma figura assustadora, porque a tristeza tomara conta dela, desde muito pequena.
Os seus pais tinham-na abandonado, quando era bebé, e deixaram-na entregue a uma senhora que conheciam, mas apesar de cuidar muito bem dela, ela sentia-se muito sozinha, rejeitada, abandonada, solitária, triste, e revoltada.
Nunca tinha conhecido ninguém que gostasse dela, e nunca a tinham ensinado a ser boa com os outros, a ser amiga dos outros. Ela só percebeu isso muito mais tarde, uns quantos anos depois…quando cresceu.
Ela era fria, distante, má, mas no fundo não gostava de ser assim, porque todos se afastavam. Ela quis mudar, e provar a todos os que pensavam que ela era uma bruxa, por ser tristonha, e por andar sempre vestida de escuro… que não era como pensavam.
O ar malvado dela, era uma máscara, uma defesa para ela não se magoar mais. O seu coração era mesmo um lindo jardim, mas nunca lhe tinham dado oportunidade de o mostrar, porque a julgavam pelo seu ar.
O vento ouviu-a muito atento e comovido, até deixou escapar umas lágrimas, e abraçou-a. Esse abraço, e aquele novo jardim mudaram a jovem por completo.
Ela tornou-se muito simpática, sorridente, tranquila, meiga, preocupada com os outros, até as cores das suas roupas ficaram mais claras.
Todos os que tinham medo dela, viram-na sair daquele jardim muito diferente. Nem parecia ela…ficaram muito surpresos, e não sabiam o que tinha acontecido, mas…não voltaram a ouvir gritos, nem estalidos, nem uivos, nem rugidos…
A rapariga começou a falar com toda a gente, a colaborar com todos e sempre que estava mais triste…ia para esse jardim, em vez de descarregar nas pessoas. Saía de lá como nova.
As silvas à entrada eram para proteger o jardim de invasores, ou de pessoas que pudessem estragar…aquele jardim era só dela, era o seu refúgio, a sua renovação, a sua força e luz.
Dizem que ela foi viver para o jardim. Muito tempo depois, muitas pessoas entraram no jardim à vontade, mas não a viram. Houve quem dissesse que ela estava no vento, que conversava com elas, outras diziam que a viam a dançar com os cisnes no lago, transformada em brilhantes na água, outras diziam que a ouviam a cantar juntamente com os pássaros, outras, sentiam a sua presença nas flores, outras, nos raios de sol que passeavam entre os ramos das árvores, e outras nas pequeninas grutas, transformada em cristais.
Mas todos saiam diferentes desse jardim, tal como aconteceu com ela. A rapariga era a paz que sentimos em todos os jardins, mas todos acreditavam que ela foi uma lenda, mesmo assim, ainda há histórias parecidas com as dela.


E o vosso jardim interior, como é? Acham que nos jardins onde vocês já foram, ou vão, pode estar a rapariga desta história? Onde? Descrevam-no…

Fim
Lálá
(23/Março/2016)