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sábado, 25 de novembro de 2023

A bruxa boa distraída e o novo amigo

        Era uma vez uma bruxa que foi passear pelo parque da cidade, à noite, não era muito longe da sua casa, porque adorava ver as estrelas, ouvir o silêncio do espaço, e o vento quando havia. Até quando chovia e trovejava, ia para o parque. 

   À noite não reparavam nela, e podia pensar nos seus feitiços generosos, outros nem tanto, sem barulhos irritantes.

    De dia, quando a viam não eram simpáticos com ela, por isso, como era também uma grande sonhadora, gostava desse sítio para se inspirar, imaginar coisas novas. 

   Parecia estar sempre noutro planeta. Estacionou a vassoura no banco onde se sentou a ouvir o som do rio, e lá esteve a sonhar acordada, embalada pelo canto da água, das rãs e do vento entre as folhas. 

    Caminhou pelo parque, iluminado, devagar, mas não reparou que a sua vassoura tinha desaparecido, levada por um cãozinho vadio que passou, pensou que era um ramo de uma árvore e quis brincar. 

 Correu divertido pelo parque todo, a bruxa continuava mergulhada nos seus pensamentos, sonhos acordada, e bons feitiços para ajudar quem precisava, pessoas que lhe tinham pedido. 

   Tinha consigo um bloco e uma caneta, onde escrevia tudo o que se lembrava para cada caso, depois em casa consultava livros e acrescentava o resto que faltava. 

  Quando pensava voltar a casa, a sorrir, correu o parque todo atrás da vassoura. Já não se lembrava onde tinha estado sentada, olha para todos os bancos, em cima do banco e debaixo deles, nem sombra da vassoura. 

    Começa aos gritos: 

- A minha vassoura? Onde é que eu estava sentada? que nervos...não me lembro onde estava, ainda por cima, a vassoura desapareceu. Porquê?...A minha vassoura? E agora como vou para casa? Onde está a minha vassoura…! Não estava aqui mais ninguém, como é que ela desapareceu Áááááááááááhhhhhhh...malditos. 

   O cão ouve aqueles gritos, e vê-a a correr de um lado para o outro, a repetir a frase: 

- A minha vassoura? Onde está a minha vassoura...vassouraaaaa....lembra-te onde estiveste. Lembra-te criatura, onde deixaste a vassoura, onde estiveste sentada? - fala para ela própria

     O cão vai ter com ela, com a vassoura na boca: 

- Mas o que é isto? Quem te deu autorização de mexer na minha vassoura? Onde é que ela estava? Foste tu que a levaste. dá cá isso. 

 O cão larga a vassoura, assustado, porque reconheceu-a. 

- Au, Au, Au…, desculpe! Quero eu dizer. Pensei que era um tronco de uma árvore e quis brincar com ele, não sabia que era a sua vassoura. - diz o cão 

   A bruxa pega na vassoura irritada, e o cão encolhe-se, porque pensou que ia levar com ela, mas não. A bruxa pensou duas vezes, olhou para o cão, e sentiu pena dele. 

- De que casa vieste? 

- Sou vadio. 

- Óh, coitadinho! Não tens onde dormir?

- Durmo onde calha. Quando está frio, durmo ali debaixo, outras vezes, durmo debaixo dos bancos, ou nas árvores. 

- E onde comes? 

- Como o que as pessoas que passam me dão! também me dão alguns mimos, e já puseram ali cobertores para não me deitar no chão frio. Enrosco-me nele, e já dá para me cobrir. 

- Mas quem te abandonou? 

    O cão fica triste e soluça. 

- Desculpa, não te queria fazer lembrar coisas tristes! 

- Não faz mal...! Foi uma família que me pôs fora de casa, porque também iam para fora do país. 

- Mas que injustos. E largaram-te assim, na rua? 

- Sim. 

- Já há muito tempo? 

- Não sei. Não sei o que é isso. 

- Gostas de estar aqui? 

- Gosto. E a sra.?

   A bruxa dá um grito: 

- Senhora? Credo…! (o cão encolhe-se assustado) O que é isso? Chama-me soli e trata-me por tu. 

   Ela ri-se: 

- Desculpa, assustei-te! chega-te mais para a minha beira…! Aqui. 

  Aponta para o banco e senta-se. o cão senta-se à beira dela, a medo. Ela olha para ela, faz-lhe umas festas, e ele deita a cabeça no colo dela. Ela sorri, e continua a fazer-lhe mimos. 

- Gostei de ti. Queres vir para a minha casa? Sabes é que eu sou muito distraída, andava aqui, louca atrás da minha vassoura, foste tu que a levaste para brincar, e eu nem percebi que fizeste isso. Andei à procura do banco onde estive, corri o parque todo, e não me lembrava. sou esquecida, e distraída… sonhadora! Podias vir para a minha casa, eu cuido de ti, e tu cuidas de mim, ou não gostaste de mim? 

  Os mimos da bruxa deixam o pelo do cão todo brilhante, e o cão abre um grande sorriso, cheira e lambe as mãos da bruxa. ela ri-se: 

- Gosto de ti. às vezes assusta-me, mas gosto de ti. E tu não te importas de acolher um cão vadio? - diz o cão

- Não. 

- Óh, muito obrigada! Até estou um pouco envergonhado. 

- Envergonhado de quê? 

- Por ter mexido na tua vassoura, andaste à procura dela, e eu com ela, a brincar. Agora vais acolher-me. 

- Eu sei que não fizeste por mim, e eu também sou uma distraída, por isso é que podes ser uma boa ajuda para mim! 

  A bruxa explica os motivos ao cão, porque quer adotá-lo, o cão aceita.

- Prometo que vou cuidar muito bem de ti. - diz a bruxa 

- E eu prometo que também vou cuidar de ti, ser teu amigo, proteger-te, tomar conta de ti e da tua vassoura. e vou lembrar-te do que precisares. 

- Boa! Acredito que sim. Vamos?  

- Vamos! 

   bruxa leva o cão ao colo, pousados na vassoura, voam até casa da bruxa. O cão está um bocadinho assustado, ela dá banho ao cão, carinhosamente, penteia-lhe o pelo, seca-o com a toalha, alimenta-o, dá-lhe água, e prepara-lhe a cama. 

   O cão deita-se, numa cama bem confortável, macia, quente só para ele, perto dela, todo brilhante, a bruxa enche-o de mimos, ele retribui a lambe-la, e a encostar-se a ela, ela ri-se, dá-lhe algumas ordens, ensina-lhe algumas regras e rotinas, e deseja-lhe boa noite. 

   Os dois dormem uma noite maravilhosa, e de manhã, depois de uma boa dose de mimos, um belo pequeno almoço, e conversa animada, vem o passeio matinal. como prometido, o cão mais feliz do que nunca, protege a nova dona. 

  Umas pessoas menos simpáticas, olham de canto para a bruxa e para o cão. 

- Coitado do cão, a que mãos foi parar… - comenta uma senhora

- Ela vai transformá-lo em alguma coisa horrível. - diz outra

   O cão ladra-lhes, e rosna-lhes: 

- Não sejam assim! eu sou a nova dona dele, vocês não sabem o que aconteceu para estarem a julgar mal. É uma retribuição de favores, e carinho. - diz a bruxa 

- Pois! 

- Deve ser…!

- Está agora armada em boa. 

- Eu sou uma bruxa boa! se precisarem de mim, vemo-nos por aqui. 

  cão ladra chateado. A bruxa e o cão correm felizes pelo recinto, a rir, o cão segura na vassoura dela, na boca, para ela não a perder, nem se esquecer 0nde a pôs. 

   Todos os que passam ficam muito surpresos, ao ver os dois tão felizes, a brincar, a rebolar, a bruxa a abraçar o cão, e este a lambe-la , a pôr as patas em cima dela, e ela a rir à gargalhada com muitos mimos. 

   Os dois correm. 

- Ui, o que é que aconteceu? A bruxa com um cão, tão feliz... 

- Huuuuuummmm...Tenho pena do cão! 

   O cão ladra-lhes:

- Deixa-os falar. estão cheios de inveja! - diz a bruxa 

  cão não sai da beira dela, ladra, e depois regressam a casa. Os dois tornam-se grandes amigos, têm longas conversas, e o cão está sempre atento à bruxa distraída, que deixa as coisas dela em tudo quanto é sítio e não se lembra, mas felizmente tem o cão que não deixa escapar nada. 

  Ela trata muito bem o cão, e o cão é uma grande ajuda, além de um grande amigo, muito meigo, com quem ela conversa muito. 

   Quando está a fazer os seus feitiços bons, o cão não incomoda, fica deitado ou vai ao parque sozinho e volta, feliz.

   Foi assim que o cão vadio abandonado, ganhou uma nova dona que o adorava e tratava muito bem, ignorava os comentários menos simpáticos e ajudava quem precisava, quem podia. 

  Até nisso, o cão era uma ajuda, porque sentia as energias das pessoas, protegia a dona, que por ser tão distraída, às vezes achava que eram boas pessoas, mas na verdade não eram, o cão avisava-a. 

  Iam passear juntos todos os dias, quem passava menos simpático, ficava surpreso por ver o cão tão feliz com ela, tão amigo, e ela tanto ou mais feliz que ele. 

   Era uma amizade verdadeira, companheira, cheia de carinho, sinceridade, proteção, e felicidade. ele sabia quando ela não estava bem, e nesses momentos não a largava, demonstrava todo o carinho por ela. 

  Ela abraçava-o, e fazia-lhe festas, ficava bem melhor. Que sorte teve este cão!

                                        FIM 

                                   Lara rocha 

                               24/Novembro/2023

                                                                

        

        



quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

A jovem e o seu vizinho luminoso

            
Desenhado por Lara Rocha 


        Era uma vez uma jovem que para descansar os olhos da luz da cidade, ao entardecer, antes de entrar em casa, olhava para uma árvore cheia de buracos. 
       Ela sentia que aquela árvore tinha alguma coisa de especial, não sabia explicar. Já não era a primeira vez que ela tinha a sensação de ter visto a sair de um dos buracos um arco, com uma luzinha.
       Nunca deu importância, nem quis investigar, porque achou que era de cansaço, e que a sua mente procurava alguma coisa para relaxar, mesmo que não existisse. Ela sorria e voltava a entrar com outra energia.
       Um dia chegou do trabalho, olhou para a árvore, e viu outra vez o arco com a luzinha. Desta vez, quis ver de perto, para tirar dúvidas se era real, ou se estava a imaginar. Aproximou-se, e para sua grande surpresa...
- Áhhhhhhh!!! É real! Eu via mesmo este arco e uma luzinha. Que lindo! Mas como é que isto veio aqui parar...? De onde veio?
        Antes que a jovem continuasse a fazer mais perguntas, a luzinha começa a tocar, no arco, sem cordas.
- Mas, está a tocar sozinho, o arco?
        Era a luzinha que tocava maravilhosamente bem.
- Que música tão suave! Mas... como é que este arco dá música...?
        A luzinha aumenta de tamanho, e pisca, o arco continua a tocar. A luzinha mexe-se de um lado para o outro, roda no arco, desliza, como se estivesse a tocar cordas que não existiam. 
       A jovem estava tão deliciada a ver e a ouvir aquilo que quase não se mexia. Quando a luzinha para de tocar, ganha a forma de um lindo e pequeno pirilampo, que tocava num arco sem cordas, porque era ele que cantava e tocava, pois não tinha dinheiro para comprar um arco com cordas, como ele adorava poder ter.          
       Partilhou a sua história com a jovem, que gostou tanto dele, e ficou com pena dele, ofereceu fio de pesca e ajudou-o a pôr cordas no arco, bem presas e próximas umas das outras, como se fosse uma harpa.
      O pirilampo ficou tão feliz e tão agradecido à jovem, que quis logo experimentar. Ele nem queria acreditar que estava a tocar em fios verdadeiros.
      Tocou delicadamente em cada corda, primeiro, depois, soltou toda a sua alegria enquanto tocava músicas alegres, saltitando de fio em fio, dando cambalhotas, rodopios, saltinhos e até algumas lágrimas, que também o ajudaram a compor músicas.
        A jovem aplaudia e ria ao ver a felicidade do pequeno, com uma coisa tão simples, mas para ele era tudo. 
        O pirilampo nunca mais abandonou aquela árvore, e todos os dias, várias vezes ao dia, tocava para a jovem, como forma de agradecimento, conversava com ela, ajudava-a a adormecer, e fazia-lhe companhia.
        Em troca, ela dava-lhe abrigo, calor, alimentação e amizade, a ponto de acolher o pirilampo na sua sala de estar, ou no seu quarto, quando estava mais triste. 
        Às vezes a jovem cantava com ele, e outras vezes, os dois abraçavam-se, choravam juntos. Eram uma verdadeira família.

                                            FIM
                                            Lálá  
                                                                                                                            26/Fev/2020

sexta-feira, 25 de março de 2016

Acorda preguiçoso (adolescentes e adultos)

     
 Era uma vez um lindo e simpático palhacinho, ainda novo, muito divertido e brincalhão, que adorava ver as pessoas a rir. 

      Um dia, as coisas não correram bem, as pessoas que o viram não acharam piada às brincadeiras dele, e ele ficou muito triste, desanimado, e foi para casa. Tirou as pinturas, e o fato de palhacinho, sempre a chorar e murmurou.

- Que porcaria de palhaço que eu sou. Como é que agora vou ajudar os meus pais? Como é que eu lhes vou contar…que não presto…e que…não consigo fazer rir as pessoas? Eles vão ficar muito tristes comigo…vão ter vergonha de mim. (p.c) Vou desaparecer…! (p.c) Também…ninguém deverá sentir a minha falta. Que vergonha…

     Uma fadinha que o conhece, ao passar na sua janela, viu que ele estava a chorar e entrou, com pena dele. Pousou na sua mesinha de cabeceira, e diz.

- Nunca vi um palhacinho tão triste!

      O palhacinho olha para ela e pergunta.

- O que é que estás aí a fazer?

      A fadinha responde ofendida:

- Isso é maneira de falar com uma amiga?

      O palhacinho responde a chorar.

- Já não sou palhaço…nem sou teu amigo! (p.c) Não gosto mais de ti…tu disseste-me que ias estar sempre comigo…! (p.c) que…toda a gente ia gostar de mim…

      A fadinha fica ofendida, a sua luz fica mais fraca, e ela encolhe-se triste, sem dizer nada, e sai discretamente. Fica encostada à beirada da janela e murmura.

- Que mal agradecido! (p.c) Não sei que raio de bicho lhe mordeu…também…já não me interessa…! (p.c) Ele se quiser que compre um rabo e que fale para ele! (p.c) Fica aí com a tua telha seu ingrato…vou ver quem me merece.

     O palhacinho olha para a mesinha de cabeceira, a chorar mas a fadinha já não está lá. Ele para de chorar, fica de boca aberta e chama-a.

- Fadinha…fadinhaaaa…! (p.c) Óh fadinha…já foste embora? Desculpa…eu sei que fui injusto contigo…mas volta…eu preciso muito de ti!

   O palhacinho desata a chorar, aparece outra fadinha, entra e pergunta.

- Então…precisas de ajuda?

      O palhacinho grita-lhe zangado:

- Vai-te embora…! (p.c) Sai daqui…deixa-me estar.~

         A luz da fadinha apaga-se mas ela não sai de lá e insiste.

- Porque é que estás tão triste?

         O palhacinho responde brusco.

- Não tens nada a haver com isso!

         A fadinha insiste.

- Nunca vi um palhaço tão triste!

         O palhacinho responde triste.

- E depois…não posso estar triste? (p.c) Além disso já não sou palhaço, nem quero ser mais palhaço!

         A fadinha responde.

- Não acredito no que estou a ouvir! (p.c) Com esse jeito todo, e essa beleza natural…e não queres ser palhaço? Acho que vou ter que te dar um chapadão para aterrares.

         O palhacinho responde triste.

- De que é que me adianta ser bonito e ter jeito…? As pessoas já não gostam de mim! já não se riem do que eu faço!

         A fadinha ri-se e responde.

- És mesmo fraco!

         O palhacinho fica surpreso.

- Ei, eu sei que sou fraco, mas também escusavas de me dizer na cara. Mas…porque é que dizes que sou fraco?

         A fadinha responde.

- Então…?! (p.c) As pessoas que desistem à primeira situação que não corre bem…são fracas! (p.c) Como é que sabes que as pessoas já não gostam de ti? Perguntaste-lhes?

         O palhacinho responde.

- Não lhes perguntei, mas percebi pelas caras delas…não se riem, e fogem de mim! É porque não gostam de mim.

         A fadinha ri-se e pergunta.

- Que conclusão tão palerma. Tu gostas mesmo do que fazes?

         O palhacinho responde.

- Sim, estava a gostar muito de ver as pessoas felizes e a rir quando me viam! Mas deixaram de fazer isso.

         A fadinha pergunta.

- E o que é que tu lhes fizeste?

         O palhacinho responde:

- O mesmo de sempre…as mesmas brincadeiras que me ensinaram.

         A fadinha pergunta.

- E para onde foste?

         O palhacinho responde.

- Fui para os mesmos sítios de sempre…! Que me disseram para eu ir.

         A fadinha pergunta.

- E tu gostas de ir sempre para os mesmo sítios, fazer sempre as mesmas coisas?

         O palhacinho fica pensativo e responde.

- Humm…sim…são os sítios que conheço!

         A fadinha pergunta.

- E com certeza já conheces todas as pessoas que passam sempre nesses sítios, não?

         O palhacinho responde.

- Sim.

         A fadinha responde.

- Claro…sabes porque é que eles já não se riem das tuas brincadeiras?

         O palhacinho fica pensativo e responde.

- Não, mas se calhar é por não gostarem de mim.

         A fadinha zangada grita-lhe e ralha-lhe.

- Não, palerma, não é por não gostarem de ti, é por tu mostrares sempre as mesmas coisas, andares sempre nos mesmos sítios…!

         O palhacinho fica muito admirado, a fadinha acrescenta.

- Mas isso não é motivo para ficares tão triste e para deixares de ser palhaço.

         O palhacinho responde.

- Ai não? (p.c) Só se não for para ti. Se as pessoas não gostassem de ti, continuavas a ser palhaça…? Ou…fada…

         A fadinha responde.

- Claro que continuava a ser fada, palhaça…o que fosse! Há muita gente que não me aprecia, nem acredita em mim, mas eu continuo a fazer as mesmas coisas…porque gosto de mim como sou, e há sempre alguém que me aprecia e valoriza…além disso…adoro o que faço, independentemente dos outros gostarem ou não.

         O palhacinho responde.

- Mas…eu não sei fazer mais nada…

         A fadinha responde.

- Nunca experimentaste outras coisas, como é que sabes que não sabes fazer mais nada? (p.c) Só tens que inventar novas brincadeiras, mudar as roupas…mostrar coisas diferentes. Mas todas essas coisas novas que criares, tem de ser com amor e o gostar tem de começar em ti…tu tens de gostar primeiro e divertir-te primeiro. Tens de te sentir feliz com o que fazes.

         O palhacinho fica espantado e comenta.

- Para ti, é tudo tão fácil não é?

         A fadinha responde.

- E para ti também…tenho a certeza!

         O palhacinho responde.

- Eu…só sei fazer aquilo que me ensinaram.

         A fadinha ralha.

- O quê? Mas que palermice…não sejas preguiçoso…e…pensa…há muitas coisas diferentes que podes fazer para que as pessoas voltem a gostar das tuas brincadeiras. (p.c) Tu queres ajudar os teus pais e manos, certo?

         O palhacinho responde:

- Claro que sim. Mas desta maneira não vou conseguir…! como não gostam de mim, já ninguém me liga, não me dão dinheiro!

         A fadinha ralha.

- Sim, sentado aí, infeliz, e sem fazeres nada, claro que vai continuar tudo na mesma. Para ajudares a tua família não podes deixar de ser palhaço. Quer dizer…podes fazer outra coisa qualquer que não gostes e que te deixe infeliz…mas não vai trazer bom resultado, acredita! (p.c) Tendo esse talento natural…que não é para qualquer um…não deves desperdiçá-lo.

         O palhacinho fica admirado, pensativo.

- Não sei o que fazer!

         A fadinha responde.

- Claro que sabes! Só tens que pensar um bocadinho. (p.c) Tenho a certeza que te vai ocorrer alguma coisa boa…! (p.c) Pensa…! (p.c) Ou…quando fores dormir, pode ser que sonhes com alguma coisa.

         O palhacinho implora.

- Por favor, ajuda-me!

         A fadinha ri e responde.

- Não querias mais nada…?! Na, na, na…primeiro pensas tu, até porque eu posso ter umas ideias que não gostas.

         O palhacinho tenta novamente.

- Vá lá…tenho a certeza que já tens alguma ideia. Ajuda-me...estou tão triste que não consigo pensar.

         A fadinha ri e ralha.

- Ninguém te manda estar triste. Põe-te feliz e pensa. Não sejas preguiçoso. Não te vou dizer nada…tenho a certeza que vais ter alguma ideia boa.
    
     O palhacinho fica a pensar um bocadinho…a fadinha sai. O palhacinho grita: 

- Não vás embora.

         A fadinha responde.

- Estou aqui perto. Pensa…já volto.

      Na beirada da janela, a fadinha toca clarinete e o palhacinho ouve uma linda música tocada por ela. Ele sorri e acaba de ter uma ideia genial. 

       Abre a janela de repente, a fadinha assusta-se, saltita, larga o clarinete, a sua luz fica a piscar intermitente…e ela diz.

- Ai, que susto! Vais atirar-te da janela em vez de pensar?

         O palhacinho desata a rir e responde.

- Desculpa, não te queria assustar. Pensei que me tinhas visto.

         A fadinha ainda assustada responde.

- Não, quando toca, fico tão feliz que não vejo ninguém, nem nada. Mas…o que me querias?

         O palhacinho sorridente responde.

- Então eras tu que estavas a tocar essa música tão boa e tão bonita…!

         A fadinha responde.

- Sim, porque?

         O palhacinho sorridente responde.

- Acabei de ter uma ideia excelente.
         A fadinha responde sorridente.
- Áááhhh…ai foi? Ainda bem…qual?
         O palhacinho responde.
- Vou vestir-me com outra farda e tocar clarinete…! Podes ensinar-me a tocar?
         A fadinha saltita de alegria, sorri, a sua luz fica mais forte e ela responde.
- Mas que excelente ideia, querido! (p.c) É claro que te ensino a tocar…com todo o gosto! (p.c) Olha…e por esta excelente ideia que tiveste vou oferecer-te um fato novo!
       O palhacinho fica contente. A fadinha estala os dedos, e aparece um baú, onde tem um conjunto de fatos, cabeleiras e outros acessórios de palhaço diferentes. 
      A fadinha dá um clarinete ao palhacinho, e ensina-o a tocar. Ele aprende rápido. A fadinha bata-lhe palmas, e ensina-lhe novas brincadeiras, os dois riem muito, e ensina também a tocar outros instrumentos musicais diferentes. 
    Nos dias seguintes, o palhacinho volta para as ruas, apresenta sempre brincadeiras, roupas e acessórios diferentes, com a ajuda da fadinha que se transforma numa linda menina para atrair as atenções e brinca com ele e com as pessoas, toca com ele. 
    Todas as pessoas que assistem ficam encantadas com o palhacinho e com a beleza da fadinha, riem muito, cantam, dançam, batem muitas palmas, interagem alegremente com os dois, dão dinheiro ao palhacinho, muito mais do que ele estava habituado e muito mais do que antes. 
     É assim que ele consegue ajudar a família, que tem muito orgulho nele. Ainda bem que o nosso palhacinho não desistiu, só porque as pessoas não se riam dele. 
  É o que todos devemos fazer…às vezes basta uma pequena mudança, ou aproveitarmos para rentabilizar as nossas capacidades especiais para algumas coisas, e mostrar a quem nos vê, os nossos dons. 
    Para que sejamos felizes e para que nos sintamos felizes, assim também estamos a fazer nem que seja uma só pessoa feliz. Embora não pareça há sempre alguém que nos dá valor e que repare em nós, ou que se sente feliz com a nossa presença. 
   O importante é nunca desistirmos. Muitas vezes, à primeira situação que não corre como gostávamos, queríamos ou esperávamos…desistimos. 
    Mas esta não é a saída. Muito pelo contrário, ainda entramos mais no precipício. Portanto devemos fazer como o nosso amigo: ter boas ideias, apostar noutras coisas, inovar…mas nunca nos entregarmos à tristeza, e nunca desistir.

Fim

Lara Rocha 

(21/Maio/2011)







domingo, 12 de abril de 2015

A lenda do jardim adormecido

                                    
Foto tirada por Lara Rocha 

      Era uma vez um jardim cheio de flores, animais e árvores, onde não havia barulho nem movimentos, nem sons, nem cores. Só havia silêncio, um silêncio que arrepiava e dava medo. Até o vento quando passava por lá, muito raramente, corria o mais depressa que podia para sair rápido, pois aquele sítio não era saúde para ninguém. Até ele que às vezes é frio, sentia frio nesse jardim.
Além disto, era um jardim muito escuro, parecia ser sempre noite, aquelas noites sem estrelas, nem lua. O sol já não entrava lá há muitos anos, por isso, em muitos sítios até havia nevoeiro, humidade e vapores mal cheirosos.
Muito pouco gente sabia da existência do jardim, só os habitantes mais velhos dessa pequenina vila que só tinham ido lá quando eram ainda muito pequenos, depois ficaram com tanto medo que nunca mais voltaram.
Quando as crianças se portavam mal eram ameaçadas que iam para lá. Elas não conheciam o local, só sabiam que era parecido com o quarto escuro que os pais falavam, e por ser tão escuro, tinham medo.
Um dia, esse vale é visitado por uma fada que transportava consigo uma harpa, e ia montada num lindo unicórnio branco, brilhante, de olhos azuis. Era tão branco que iluminava o caminho porque a luz da lua reflectia nele e tornava-se mais forte. Ela gostava muito de passear à noite com o seu amigo, para se inspirar e construir novas músicas, descansar da confusão e da agitação do dia-a-dia.
De repente o unicórnio pára.
- O que foi amigo? Estás cansado?
- Não.
- Então, porque paraste?
- Sinto algum mistério no ar… as vibrações não são boas.
- Estás com medo?
- Não, mas desconfortável.
- Onde será aquele jardim adormecido?
- Pois…não sei.
- Se calhar estamos perto.
- Mas tu queres ir lá?
- Quero.
- Para quê?
- Para conhecer.
- Desculpa, acho que não é boa ideia.
- Porque não?
- Não sei explicar, só sei que não gosto das vibrações.
- Eu já venho.
- Vais entrar ali?
- Vou só ver…fica descansado.
- Se precisares chama-me.
- Está bem.
        O unicórnio fica inquieto, nervoso e preocupado…muito atento a todos os movimentos da fada. Ela voa e de cima vê o jardim.
- Acho que encontrei! – Grita ela para o unicórnio
        O unicórnio encontra uma entrada, muito escura, e entra. Ilumina o caminho.
- Isto parece um jardim. – Comenta a fada
- É… Mas eu não gosto deste jardim. Já percebi, as vibrações vinham daqui. - Diz o unicórnio
- Eu quero conhecer.
- Mas como vais conhecer? Não tem nada…só se vê escuro.
- De certeza que tem alguma coisa.
- Não me parece.
- A lenda diz que era um jardim, e ficou adormecido com o feitiço daquela duende muito ciumenta e solitária, que foi abandonada pelo seu elfo que se apaixonou por outra duende.
- Óh, mas que injustiça.
- Acontece!
- Eu acho que ela não devia ter ficado assim tão triste…haveriam muitos mais elfos disponíveis para ela.
- Ela devia amá-lo mesmo.
- Óh, não gosto dessa lenda. É triste.
- Tem o seu lado bonito…
- A lenda devia ter terminado com eles a voltarem um para o outro, porque era sinal que o amor era mais forte…
        A fada ri-se.
- És mesmo romântico.
- Sim, sou. Eu não abandonava a minha apaixonada.
- Isso eras tu, mas a ti também pode acontecer…podes apaixonar-te por outra unicórnia ou ela por outro.
- Óh, não…não quero isso.
- Às vezes não depende da vontade. Acontece.
        De repente ouve-se alguém que manda calar:
- Xiiiiiuuuuuu…
        A fada estremece. O unicórnio encolhe-se e estica-se. Os dois ficam quase estáticos.
- Acho que está aqui mais alguém… - Diz a fada baixinho
        Ela dá um pequenino acorde, suave na harpa. Ouve-se um grito:
- Ááááááhhhh…pouco barulho…vão-se embora.
        A fada baixa mais um pouco, e liga a sua lanterna.
- Quem está aí? – Pergunta a fada
        Ninguém responde. Ela continua a tocar a sua harpa. Todo o jardim fica encantado com o som da harpa, e muito devagar, começa a despertar…as árvores…uma de cada vez, depois as flores, uma por uma, e depois os animais. Estão um pouco assustados e perdidos.
A duende da lenda aparece sentada na berma de uma fonte que também começou a deitar água, e despertou todas as outras. Agora o jardim tem sons e movimentos: sons das árvores e das flores a bocejar, a espreguiçar-se, e a reconhecer o espaço, o som e o movimento dos animais que saem das tocas e dos troncos, chilreiam, guincham, e correm de um lado para o outro, e o leve som da água.
- Como é que entraste aqui? – Pergunta a duende da lenda
- Olá…és a duende da lenda?
- Lenda? Que lenda? Sou só uma duende. Eu quero saber como é que entraste aqui?
- Toda a gente me tinha falado de um jardim adormecido…e ao passear por aqui, percebi que havia alguma coisa de diferente.
- Que interessante…! É sinal que vês bem. E porque é que entraste?
- Porque quis ver como era, de perto.
- E o que é que diziam deste jardim?
- Diziam que este jardim ficou adormecido por causa da tristeza de uma duende que foi abandonada pelo seu elfo que se apaixonou por uma outra duende.
- Sim, foi verdade…não foi lenda. Essa de quem falam era eu.
- Áh! Deve ter sido muito triste…
- Claro! O jardim adormeceu com a minha tristeza…viveu comigo a tristeza, e adormeceu quando eu me cansei de chorar e de ficar triste. Eu também adormeci. Acordei agora com a tua harpa.
- Este jardim é muito escuro…
- Claro. Quando há tristeza, não há luz. A tua harpa despertou todos nós.
- Há quanto tempo estavam a dormir?
- Não faço a mais pequena ideia. Quando vim para aqui, perdi a noção do tempo, e de tudo. Deixei de existir, tal como este jardim.
        A luz da lua entra no jardim, e o unicórnio também, muito preocupado.
- Há quanto tempo não via a luz da lua! Que linda que é! Lembro-me que adorava ver a Lua. Vais ficar aí a pairar? Desce e senta-te aqui…! – Diz a duende
- Obrigada.
        As duas sentam-se, olham-se e sorriem:
- Que linda que és. E adoro esse instrumento que tocas.
- Harpa.
- Sim.
- Obrigada.
- Obrigada eu, por nos despertares.
        A duende conta tudo à fada. A fada e o unicórnio ouvem atentamente, umas vezes ficam tristes como a duende, outras vezes suspiram e sorriem.
- Que linda, mas triste história de amor. – Diz o unicórnio
- Foi feliz e linda enquanto durou, depois acabou. Já não sei há quanto tempo. – Diz a duende
- Dizem que vai mesmo há muito tempo. – Acrescenta a fada
        E de manhã bem cedo, o sol começa a entrar nesse jardim. A duende fecha os olhos.
- É o sol… - Diz ela
- Sim!
- O sol faz-nos muito bem! – Diz o unicórnio
- Estás habituada ao escuro, faz-te impressão. – Diz a fada
- Pois é. Mas passa já.
        Todo o jardim acorda, e transforma-se num lugar cheio de cores, além dos movimentos e sons que já se iam ouvindo.
- Não quero mais ficar triste, nem viver no escuro. Quero rir outra vez, brincar como fazia antes, e começar tudo de novo. – Diz a duende, feliz
        E a fada aplaude. O jardim festeja.
- Posso ir contigo? – Pergunta a fada
- Claro que sim…
        E as duas saem do jardim, montadas no unicórnio. No jardim, todos cantam, dançam, correm, trocam carinhos e elogios, conversam, refrescam-se nas fontes, saltitam, rirem muito. Até as fontes ganham mais força. Há milhares de cores e flores, árvores de todo o tipo, aves enormes, e outros pássaros de espécies raras.
O unicórnio corre com elas livremente, salta, depois vão a pé, exploram todo o jardim, e os campos, rebolam na relva, riem muito, não param um segundo. Os habitantes ainda não sabem o que aconteceu, mas vêem muita luz naquele jardim que avistavam sempre escuro.
- Áh! Olhem…há luz, ali. – Comenta uma senhora
- Ui, no jardim adormecido? – Pergunta outra senhora
- Sim!
- O que terá acontecido?
- Se calhar, o feitiço quebrou-se… - Diz uma menina
- Ou ele voltou para ela. – Diz outra menina
- E agora vão ser muito felizes… - acrescenta outra senhora
- Vamos lá visitar… - sugere um senhor
        E todos saem de casa. Vão visitar esse espaço…que agradável surpresa. Vêem o sol a dar nas flores e na água, parece que até dão luz. Afinal não tinha nada a ver com a lenda que contavam.
Andaram à procura da duende, na esperança que ela ainda estivesse lá, para que confirmasse a lenda, mas não tiveram essa sorte, porque ela andava a divertir-se e a reconhecer o espaço, depois de tanto tempo que dormiu e que viveu no escuro. A duende nunca mais parou…acompanhou a fada nos seus trabalhos, e como estava feliz. Adorava ajudá-la, e às vezes voltava ao jardim onde esteve muito tempo a dormir, só para visitar os amigos que viveram com ela a tristeza, e também dormiram.
Todos no jardim estavam muito felizes por ela. Agora, este jardim, que ficou adormecido, era um lugar muito visitado e apreciado.
        E vocês? O que acham?
Terá sido uma lenda, ou realidade?
Que personagem gostariam de ser? A fada, a duende, ou o unicórnio? O que faziam?  
        Se estivermos muito tempo na tristeza, ficamos adormecidos para tudo o que há de bonito à nossa volta, como a duende no jardim adormecido. A tristeza faz parte de nós, e da vida, mas é melhor não ficarmos muito tempo com ela. Precisamos de sol, e de luz.

                                       FIM
                                       Lálá
                                (12/Abril/2015)