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sábado, 26 de outubro de 2013

O passeio atribulado da bruxinha

desenhado por Lara Rocha 

            Era uma vez uma bruxinha que numa bela noite de Outono, foi passear na sua vassoura. A vassoura encolhe-se, quando ouve a porta da sua casa terrífica a ranger.
– Ai, não posso acreditar! - suspira, estremece e murmura a vassoura 
– Lá vem ela…! - comenta o mocho a rir 
-  Ela e eu…boa sorte amiga! - diz o morcego 
– Onde vai a esta hora? - pergunta uma coruja 
– É melhor nem lhe perguntares. Ela detesta perguntas. - responde o mocho 
CORUJA 1 – É impossível esta mulher. - murmura a coruja 
           Bate a porta com o pé e o gato salta pela janela. Ela olha para trás.
– Onde vais? - pergunta a bruxinha 
– Vou...passear. - diz o gato 
– Nem penses que vais atrás de mim. - grita a bruxinha 
– Estás a dispensar-me? - pergunta o gato, surpreso 
– Estou. Não preciso de sombras…
– Isso é verdade…já és uma boa sombra! Eu sou um belo gato.
            A Bruxinha atira-lhe um raio. Ele esconde-se atrás de uma árvore.
– Olha que eu ponho-te a dormir na toca dos morcegos…! - ameaça a bruxinha 
– Vai, bruxosa horrorosa. - responde o gato 
– Obrigada. Assim está melhor. Dragões…tomem conta do palácio enquanto eu estou fora. - diz a bruxinha a rir, e ordena 
– Sim, princesa terrífica. - respondem os dragões em coro 
– Onde vais? - pergunta um dragão 
– Como te atreves a fazer-me uma pergunta dessas…? - grita a bruxinha 
            Atira-lhe um saco mal cheiroso. Todos começam a ficar com a cor verde e a tossir, e ficam sentados no chão.
– Que mau feitio…!  - comenta outro morcego 
– Vassoura…anda cá…! - grita a bruxinha 
– Sim, minha dona mal cheirosa…- responde a vassoura 
– És sempre simpática…! Que bom que detestaste o meu perfume. É novo. Até ficaste com inveja, não foi? Eu sei que sim. Vamos…! - ri a bruxinha 
– Sim, claro…onde quiseres…! - diz a vassoura 
– Já voltamos. - diz a bruxinha 
– Boa viagem…- dizem todos 
– E não voltes tão cedo… - resmunga um dragão 
            Todos riem.
– Eu sei que vão ter muitas saudades minhas…eu volto…! - diz a bruxinha a rir 
              Ela e a vassoura levantam voo. Os animais ficam a comentar.
– Coitada da vassoura. - comenta um mocho 
– Acredita…até eu tenho pena dela, mesmo quando ela me dá sapatadas…! Eu prefiro a vassoura do que aquela bruxaroca de meio quilo. - comenta outro mocho 
        Todos riem. A viagem começa por correr bem, com a Bruxinha a cantar, a rir, e a conversar alegremente com a vassoura. Entram num espaço com uma atmosfera muito estranha, cheia de luzes, e a vassoura fica aos soluços, até que para.
– Mas onde raio estamos…? - pergunta a bruxinha zangada 
– Ááááhhh…não sei…! - responde a vassoura 
– Como não sabes…? Tu é que me conduzes…anda…! Continua a andar…rápido…! Eu não te mandei parar, porque raio paraste? - grita a bruxinha muito zangada 
– Não consigo andar. - diz a vassoura 
– Como não consegues andar? Desgraçada…! Mexe-te!
– Estamos numa atmosfera com demasiada claridade.
– Áááááááááááhhhhhh….que horror! Como pudeste fazer isto comigo? Maldita! Fizeste de propósito…sabes muito bem que eu não suporto sítios com luz…que nojo…que terror…! Ááááááhhhh….vou dar cabo de ti. Anda…mexe-te! Se não…mando-te para a fogueira… - grita a bruxinha 
– Óh, não…! Eu não sei o que está a acontecer. - comenta a vassoura assustada 
– Não interessa o que está a acontecer…anda! Rápido…! Voa…voa…
          A vassoura começa aos soluços, e não consegue levantar voo. A bruxinha também começa a soluçar, sai de cima da vassoura, agarra nela, e bate com ela no chão a gritar. Ouve-se uma voz da vassoura a gemer, e a pedir ajuda.
– Ai…socorroooo…! - pede a vassoura 
– Acorda, sua maldita…mexe-te…! Temos de sair daqui.
– Não consigo!
– É claro que consegues. Pela nossa amizade…voa…vá lá…tira-nos daqui.
– Ai, tirem-nos daqui.
               E de uma janela voa uma abóbora que acerta na cabeça da Bruxinha. A Bruxinha larga a vassoura, e cai estática como uma vara no chão. Da janela ouvem-se risinhos pequeninos. A vassoura ri-se, e suspira de alívio.
– O meu pedido foi ouvido…boa…! Muito obrigada. - comenta a vassoura, feliz e a rir 
            A vassoura tenta acordar a Bruxinha. Ela abre os olhos, a gemer.
– Ai…onde estamos…! Áááááááááááhhhhhh…tanta luz…que nojo…! O que aconteceu?
– Não sei onde estamos.
– Incompetente…! Tens de saber, e de nos tirar daqui. Que porcaria é que me acertou na cabeça? - grita a bruxinha 
– Acho que foi…isso que está á tua beira.
– Maldição…uma abóbora horrorosa…! Que nojo. De certeza que foi aquela invejosa da minha prima. - grita a bruxinha 
– Fala o roto do esfarrapado…! Só ela é que é invejosa…! - ri a vassoura 
– De onde veio esta porcaria? - grita a bruxinha 
– Não sei. - ri a vassoura 
– Como não sabes? - pergunta a bruxinha muito zangada 
– Não vi.
– E deixaste este nojo bater-me na cabeça…? Incompetente! Onde estavas com a cabeça e com os olhos? 
– No chão…tu estavas a atirar-me contra o chão, e a sacudir-me, lembras-te? Como é que eu podia ver o que quer que fosse? Só via pedras a passar à velocidade de cometas á minha frente…!
– Pois é…mas mesmo assim, devias ter visto!
– Eu poderia ter visto, se não me tivesses batido.
– Eu tenho que encontrar o insuportável que atirou esta porcaria.
– É quase encontrar uma agulha num palheiro! Não se vê viva alma. - comenta a vassoura 
– Então de onde veio…do céu queres ver? - grita a bruxinha 
– Nunca saberemos!
– Que ódio…vou dar cabo de ti. - grita, zangada 
– Outra vez…? - resmunga a vassoura 
         A Bruxinha tenta bater outra vez na vassoura, mas de repente, vem uma rajada fortíssima de vento, em redemoinho, levanta e empurra a bruxinha e a vassoura daquele sítio para fora. Elas gritam, e vão ter a um descampado. Olham em volta.
– E agora…onde estamos? Sua vassouresca idiota…! - grita 
– Não sei.
– Ááááááááááhhhhhhhhhhhhhh…………! Não acredito nisto. Vou dar cabo de ti.
        Ela tenta fazer uma magia malévola, mas não consegue. Umas folhas de abóbora enrolam-se nos pés da Bruxinha e atrás de si, um espantalho dá-lhe um pontapé no rabo. Ela grita.
– Ai…o que é isto?
        O espantalho ri e bate palmas.
– Estás-te a rir de quê?
– Ai, que pedaço de mau caminho. - comenta o espantalho a rir 
– O quê?
– Há quanto tempo não via uma bruxa tão jeitosa. - sorri o espantalho 
– Mas que descaramento.
– Uau! - sorri o espantalho 
– Tira-me esta porcaria dos meus pés…e somos amigos. - grita a bruxinha 
– É para já.
           O espantalho liberta-a das folhas, e os dois olham-se fixamente. O espantalho segura-lhe na mão e beija-lha. Ela encolhe-se toda.
– Lhec. Que nojo. - estremece a bruxinha
– Obrigada. - sorri o espantalho 
– Parece que…já nos conhecemos! - sorri a bruxinha 
– Sim. Agora mesmo. Vamos…vou-te mostrar o sítio onde vivo. - sorri 
          E os dois caminham de mão dada. A vassoura fica a descansar. Três abóboras comentam a rir : 
– Ela não sabe com quem se meteu. 
- Pois não…
– Este só tem treta.
        Todas riem.
– Deixa lá…os dois merecem-se. Ela é horrível, e ele também. - comenta a vassoura a rir à gargalhada com as abóboras 
        No caminho, a bruxinha e o espantalho caem numa poça de lama. A bruxinha fica muito irritada, e começa a bater no espantalho. O espantalho grita.
– Desculpa…não sabia que aqui havia uma poça de lama. - diz o espantalho 
– Foi a pior poça onde alguma vez estive. E agora…? Então não sabias que aqui havia uma poça…como não sabias…? Vives aqui há tanto tempo…! - grita a bruxinha zangada 
– Sim, mas juro-te que não sabia.
– Idiota…incompetente! Palerma…! E agora quem vai lavar a minha roupa? - grita a bruxinha 
– Eu! - sorri o espantalho 
– Tu…? Claro…! - ri a bruxinha 
– Queres ver…?
– Tu queres é que eu fique em pele.
– Não…só estou a ser antipático contigo, e provocador. - assume o espantalho 
– Sim, é verdade…está bem…se dizes que és capaz…lava! - sorri a bruxinha 
        Ela tira as roupas, e tenta fazer magia para vestir outra, mas não consegue.
– Os meus poderes…? Porque não consigo vestir outra roupa?
– Esta zona não tem boa rede para captares os poderes.
– Áááááááááááhhhhhh…….que ódio. Eu vou destruir aquela vassoura estúpida. Incompetente…!
– És tão jeitosa de roupa e sem roupa. - sorri 
– Cala-te.
– Eu empresto-te a minha camisola. - sugere o espantalho a rir 
– Que nojo.
– Porquê? Cheiro mal…?
– Sim.
– Até parece que o teu perfume é melhor que o meu. - ri o espantalho 
– Muito melhor…!
– Dá cá a tua roupa…
        A bruxinha tira a roupa, nervosa e muito zangada, começa a chorar e a gritar
– Eu quero os meus poderes…! Eu quero sair daqui…
– Óh, princesa horrorosa…não fiques assim…vamos continuar o nosso passeio…se tivesses poderes…transformavas-me logo numa coisa nojenta ou horrível.
– Pois era. - chora a bruxinha 
– Anda conhecer o resto do espaço.
        Os dois vão de braço dado, a bruxa sem a sua roupa, e com a camisola do espantalho. Os dois conversam. Mais adiante, tão entretidos com a conversa que estavam, e tão ternos um com o outro, que não viram a quantidade de folhas de árvores que havia no chão. 
        Os dois escorregaram, e deram um grande trambolhão, enrolando-se um no outro, várias vezes, e gritando. A Bruxinha desata a bater no espantalho, e os dois envolvem-se numa luta, até que caem a um lago cheio de sapos. Os dois gritam, e param a olhar um para o outro. 
A Bruxa começa a gritar e a chorar, a bater na água e no espantalho.
– Cala-te…vais acordar os senhores. - recomenda o espantalho 
– Quero lá saber. Tira daqui…que nojo. - grita a bruxinha 
     Ela sai do lago, e muito zangada, a gritar e a chorar vai ter com a sua vassoura. Pelo caminho escorrega num pedaço de abóbora comida por passarinhos, e só para junto da vassoura a gritar.
– Maldição! Ááááááhhhh…maldita vassoura. Vamos embora…agora vê por onde vamos. Maldita…desgraçado…incompetente. 
– Hoje estás especialmente querida…a noite correu-te bem…! Até vens sem roupa, e a pingar…com pedaços de abóbora…- ri a vassoura às gargalhadas 
– Não digas mais nada. Vamos embora…despacha-te, antes que eu te desfaça. Para casa. - grita a bruxinha 
           A vassoura consegue voar novamente, e a Bruxinha vai quase a dormir. Ao chegar a casa, ninguém fala. Ela entra, fecha a porta, veste-se e vai para o seu quarto. A vassoura conta tudo aos outros. De repente, o espantalho aparece e bate à porta.
– Quem é? - pergunta a bruxinha 
– Sou eu…princesona horrorosa…! - responde o espantalho 
        Ela vai à janela, surpresa.
– O que estás aqui a fazer?
– Vim entregar-te a roupa.
            Ela sorri, desce, abre a porta, e recebe a roupa.
– Óh. Obrigada. Agora…podes ir embora. - sorri a bruxinha 
– Eu estava a gostar tanto de ti. - triste 
– Quero lá saber…volta para a tua casa. - grita, zangada 
– Está bem! Boa noite. - triste 
– Boa noite.
        A bruxinha fecha a porta na cara do espantalho. O espantalho fica muito triste a olhar para a janela. A bruxinha chega ao quarto, e vai à janela. Olha para o espantalho.
– Ainda estás aí?
– Sim…estou à tua espera.
– À minha espera para quê? Já me deste a roupa.
– Cuida bem do meu coração, pelo menos dele…que está junto da tua roupa.
– O quê?
           Ela olha para o seu vestido e tem lá um coração de palha a dar luz.
– Sim, é esse…!
– E porque o deixaste aqui? Leva-o…
– Ele não quer sair daí.
– Mas eu não o quero aqui.
– Ficou aí preso.
– Mas vais ter que o tirar.
     A bruxinha faz uma maldade ao coração, arranca-o e atira-o para o espantalho. O espantalho cai. A bruxinha desce a correr e vai ter com ele.
– Óh não…!
– Acabaste com ele…! - comenta o mocho 
– Coitadinho…ele cheio de mimos contigo, e tu…fazes isso com o coração dele. - critica a coruja 
– Olha que ele gostava mesmo de ti, e queria conquistar-te. - diz o morcego 
– Óhhh…eu não gostava dele…quer dizer…eu achava que não gostava, mas…acho que afinal…gosto…! Ei…acorda… (diz a bruxinha triste) 
         A Bruxinha põe o coração do espantalho no lugar. O espantalho abre os olhos. A bruxinha sorri. Todos suspiram a sorrir.
– Óhhh…que momento tão bonito! - comenta um gato emocionado 
– Ai…Adoro cenas românticas…! - diz uma coruja a sorrir, e a suspirar 
– Vamos ter festa… - diz o morcego feliz e entusiasmado
– Fica comigo, espantalho. Desculpa…! Eu afinal…acho que gosto de ti.
– Claro que sim, princesona…eu também gosto mesmo muito de ti. - diz o espantalho a sorrir
– Adorei o nosso passeio… - diz a bruxinha 
– Eu também! - diz o espantalho 
            Os dois entram abraçados no castelo. Os animais e a vassoura estão em estado de choque, e todos festejam. A Bruxinha e o Espantalho tornaram-se grandes amigos, namorados, e marido e mulher…felizes para sempre no castelo da Bruxinha.

FIM
Lálá
25/Outubro/2013



terça-feira, 22 de outubro de 2013

OS OLHOS AZUIS DAS ESTRELAS

Era uma vez dois olhos azuis, que desceram do espaço, enviados pelas estrelas. Os olhos iam para um boneco que estava a ser construído pelos duendes do Pai Natal, mas o vento forte desviou-os do caminho, mandado por uma bruxa invejosa.
            Os olhos tinham lágrimas, que fizeram muita força e tentaram segurar-se muito bem, mas o vento foi mais forte que elas, e arrancou-as dos olhos, espalhando-as por todo o lado. A sorte é que umas caíram em cima da relva, outras caíram em cima das flores e não se magoaram, mas assustaram-se e gritaram.
            Os olhos ficaram tristes e vazios, e como estava uma noite muito fria, as lágrimas congelaram, e transformaram-se em cristais de gelo. A malvada bruxa já se preparava para recolher todas as lágrimas de cristal e usá-las para os seus feitiços, ou desfazê-las com as suas gargalhadas sonoras e arrepiantes.
            Felizmente, as estrelas estavam muito atentas a tudo. Por isso…juntaram-se e pediram ajuda à Lua. Deram as mãos, a Lua lançou raios prateados, e as estrelas, raios de luz dourada, que envolveram as lágrimas num plástico invisível.
            A bruxa não conseguiu tocar nas lágrimas, porque quando tocava no plástico, apanhava choques e queimava-se. Ela gritava muito, e tentava usar os seus poderes para desfazer o plástico, mas não conseguiu.
            Ficou muito zangada, gritou, virou-se ao contrário, tentou lutar com o vento e não conseguiu porque quanto mais lutava com o vento, mais furioso ele ficava e mais empurrava. A bruxa voltou para o castelo.
            As estrelas tiraram o plástico e devolveram as lágrimas transformadas em cristais, aos olhos que estavam tristes, vazios e secos, quase sem cor…e com o regresso das lágrimas, que voltaram a ser lágrimas, os olhos ficaram outra vez cheios, brilhantes e felizes.
            O vento leva os olhos à fábrica do Pai Natal, onde está o boneco a ser construído com muito carinho, e espera os olhos azuis. O Pai Natal recebe-os, e põe os olhos azuis no boneco. Que lindo que ficou! É para uma menina muito especial! Feliz Natal.

Fim
Lálá
21/10/2013

            

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Coração de Avó



NARRADORA – Era uma vez uma boa senhora, que se chamava Nicole, já com uma certa idade, mas com um espírito ainda muito jovem. Dona Nicole adorava costurar e bordar. Vivia sozinha, mas tinha todos os dias a casa cheia de amigas que faziam o mesmo…passavam tardes inteiras a costurar e a conversar, faziam chás e bolinhos e riam muito. Às vezes passeavam juntas, menos quando estava mau tempo. Também adoravam tratar das flores. Como era pleno Inverno, o vento soprava forte e assobiava, que dava medo…abanava tudo. Chovia torrencialmente e trovejava. A senhora só tinha medo quando estava sozinha, mesmo assim, procurava fazer sempre alguma coisa que a distraísse. Enquanto costurava com a Dona Gabriela, e com a Dona Judite, a Dona Nicole olha para o calendário.
D. NICOLE – Falta pouco tempo para o Natal!
D. GABRIELA – É verdade!
D. JUDITE – O tempo passa a correr.
AS TRÊS – É verdade.
D. GABRIELA – Parece que foi ontem o Natal do ano passado…com os meus netos e os meus filhos…naquela montanha gelada…e já estamos noutro Natal.
D. JUDITE – É verdade. O tempo passa, e nós nem damos por isso.
AS TRÊS – É isso mesmo.
D. NICOLE – O meu Natal, este ano é aqui na minha casa…o ano passado foi na Serra da Estrela.
D. JUDITE – O meu vai ser na casa do meu filho Pedro, com os meus netos…é uma alegria.
D. GABRIELA – O Natal é tão bonito!
TODAS – Sim, é!
D. NICOLE – Muito diferente do nosso tempo!
TODAS – Felizmente.
D. GABRIELA – O nosso Natal era uma pobreza…agora é muito melhor…muito rico.
D. JUDITE – É verdade! O nosso Natal era uma pobreza, mas não faltava comida, nem calor humano, nem alegria, nem amor.
D. NICOLE – Era…! Estávamos em família, à lareira...quase à luz das velas…deitávamo-nos cedo…!
D. GABRIELA - Tudo era cozinhado naqueles potes, que lhe dava um sabor especial.
D. JUDITE – Agora é tudo falsificado…até o bacalhau às vezes já não é igual ao nosso.
TODAS – É verdade!
D. NICOLE – Agora…as crianças são carregadas de brinquedos, caríssimos, e pouco ou nada lhes ligam, ou estragam.
D. GABRIELA – Pois é! Mas eu continuo a adorar o Natal.
TODAS – Eu também.
D. NICOLE – Mas sabem uma coisa…?! Nesta altura também fico sempre um bocadinho triste…
D. JUDITE – Porque lembras-te do teu Natal e da tua família…é normal! Eu também…mas quando estou com eles esqueço as tristezas todas.
D. NICOLE – Não…não é só isso! É que lembro-me muito de quem não tem família nem prendas…não é que as prendas sejam mais importantes, mas toda a gente gosta de receber alguma coisa…! Lembro-me muito dos meninos pobres…! Sempre quis deixar uma prendinha a cada um, nos bairros pobres, e onde há crianças abandonadas…mas não tenho dinheiro, nem tenho mãos tão rápidas como tinha antes, para fazer tudo a tempo.
D. GABRIELA – Isso também me lembro, e agradeço tudo o que tenho…a família que tenho, a casa, o conforto, o calor, as amigas, a roupa, a comida…tudo!
D. JUDITE – Olhem…sabem que mais?! Em vez de estarmos aqui a ficar tristes, com as recordações, e a ter pena dos que não têm nada…em vez de ficarmos pelo desejo de ajudar…vamos pôr mãos à obra e fazer bonecas, saquinhos e roupas, para as crianças pobres e para as que estão nas instituições.
D. NICOLE (sorri) – Excelente ideia! Tens toda a razão!
D. GABRIELA – Amigas…isso é tudo muito bonito, uma excelente ideia, mas têm a certeza que vamos fazer tudo a tempo? Três gatas pingadas…de patas murchas…lentas…falta pouco…não sei se estão a ter a perfeita noção.
D. NICOLE – Fala por ti…!
D. JUDITE – Mas que desvalorização…! Não confias nas tuas capacidades? Sempre fizemos coisas tão bonitas…e estamos sempre a descobrir peças novas…!
D. NICOLE – Não sejas tão pessimista.
D. GABRIELA – Acho que já não temos idade para nos metermos em altas cavalarias.
D. NICOLE – O quê?
D. JUDITE – Isso até é pecado!
D. NICOLE – Isso é preguiça tua…!
D. JUDITE - Idade…? Qual idade…eu nem sei quantos tenho! Sei que Graças a Deus tenho mãozinhas e cabecinha para fazer o que mais gosto…o resto…não quero saber.
D. NICOLE – Pois claro! Tens toda a razão.
D. JUDITE – É preciso que haja boa vontade, e confiança.
D. NICOLE - É claro que vamos conseguir fazer tudo a tempo. Querem ver? E não vão ser só três gatas pingadas de pata murcha…! Seremos um gatil.
NARRADORA – Dona Nicole levanta-se e vai ao telefone. Liga para todas as suas amigas e pouco depois, todas aparecem na sua casa, cheias de felicidade, entusiasmadas, e com vontade de trabalhar. Todas concordaram e levaram consigo todos os tecidos e materiais que precisavam. Numa grande alegria, enquanto conversam e riem umas com as outras, fazem roupas, pijamas, casacos, calças, meias, camisolas, gorros, luvas, vestidos, saias, botinhas de agasalho, saquinhos, e bonecas de pano. Cada qual a mais bonita. Juntam-se todos os dias e quando reparam, quase sem dar por isso…muito bem-dispostas, já têm vários caixotes e sacos cheios com os seus miminhos para os meninos.  Antes da noite de Natal, o Pai Natal da aldeia, recolhe os caixotes e sacos, na casa da D. Nicole, e distribui pelas crianças das Instituições e dos bairros sociais mais pobres da aldeia, e da cidade. Todas estão felizes e orgulhosas. As crianças pobres que receberam as roupas e as bonecas ficaram ainda mais felizes, e pediram ao Pai Natal para visitar as senhoras e agradecer. O Pai Natal leva-as à casa da Dona Nicole, que está com a sua família e toca à campainha. Ela abre a porta e todos gritam com um grande sorriso…
TODOS – Feliz Natal, Avó Nicole!
NARRADORA – Dona Nicole sorri emocionada, e cada menino abraça e beija a senhora.
CRIANÇAS – Muito obrigada, Avó Nicole!
UMA CRIANÇA (sorridente) – Avó Nicole…este foi o melhor Natal da nossa vida. Estamos muito felizes e muito agradecidos!
D. NICOLE (sorridente) – Eu também estou muito feliz.
PAI NATAL (sorridente) – Hoh, Hoh, hoh…! Feliz Natal querida Avó Nicole! És um anjo.
D. NICOLE (ri) – Que anjo, o quê? Eu sou só uma mulher velha…com uma criança debaixo da pele.
PAI NATAL (sorri) – E que linda que é essa criança! Não pediste nada…
D. NICOLE (sorridente) – Este é o melhor presente que podia receber…ver estas crianças, pobres, com estrelas nos olhos de felicidade por tão pouco. E esta visita…este carinho todo…! Além da saúde…o resto já tenho!
PAI NATAL (sorridente) – É uma Avó de Luz…! Que alma linda!
DONA NICOLE (sorri) – Tenho Natal todo o ano no meu coração!
PAI NATAL (sorri) – É verdade!
DONA NICOLE – Entrem! Está muito frio.
NARRADORA – Mas os meninos ficam envergonhados.
TODOS – Boa Noite, e Feliz Natal.
UMA CRIANÇA – Venha visitar-nos mais vezes!
OUTRA CRIANÇA – Agora é a nossa Avó Nicole!
D. NICOLE (sorri) – Com muito gosto! Irei com certeza. Não querem entrar?
TODOS – Não, obrigada.
CRIANÇA 3 – A família, o amor, o carinho, a amizade, a saúde, a alegria, a união e a paz são os maiores presentes que podemos ter!  
E começam a cantar, com umas pilhas, e vão saindo:
«Noite feliz…noite feliz…o Senhor…Deus de Amor…Pobrezinho nasceu em Belém…Eis na lapa Jesus nosso bem…Dorme em Paz óh Jesus…dorme em paz óh Jesus.»
TODOS - Feliz Natal!
FIM
Lálá

(4/Outubro/2013)