Era uma vez uma aldeia onde as abelhas faziam uma grande festa, numa noite de Verão. Decorriam os preparativos para o momento, menos um calor irrespirável que elas não estavam à espera.
Costumava estar quente, mas não a esse ponto. Elas sentiam-se exaustas, quase não conseguiam voar, para recolher o que precisavam, e montar a festa.
Pelo caminho, como eram às dezenas, apoiavam-se umas nas outras, voavam encostadas, para se segurarem, e voarem o que conseguiam. Iam bebendo aos bocadinhos, quando encontravam bocadinhos de água das regas no chão.
De repente, viram um grande tanque, numa casa, com os donos metidos na água. Parecia que tinham visto um paraíso. Mas os donos, não. Começaram a gritar e a chutá-las, elas caíram redondas nas bermas, sem força.
- Saiam daqui, suas brutas! - grita uma criança
- Socorro, de onde saiu tanta abelha, é melhor chamar os bombeiros. - diz um adulto
- Por favor… não nos matem, não… nos tratem mal...! Não...vos vamos...fazer...maaaallll.... - implora uma abelha com dificuldade.
- Só...queremos...água fresca. - explica outra
- A que...encontramos pelo caminho era muito pouca!
- Por favor. Estamos...tão...cansadas...temos...a festa para preparar.
- Que festa? - pergunta outro adulto
- Uma...festa...típica, da nossa colónia de abelhas.
- Estamos quase...sem força! Por favor!
- Não...vos vamos fazer...mal. Só queremos água.
- Estejam...à vontade. - diz outra abelha
- Não vos queremos em cima de nós. - comenta uma senhora da casa
- De certeza que não nos estão a comprar? - pergunta outro senhor da casa
- Estamos a ser sinceras.
- Bebem e vão embora? - pergunta um senhor
- Sim. - respondem todas
- Não estávamos à espera deste calor! - suspira uma abelha
- Nem nós. - responde uma criança
- Bebam, e refresquem-se, então! - autoriza a Dona da casa
- Coitadas, elas realmente estão com ar abatido! Até caíram.
- Não sei se isso não foi chantagem!
- Não! - garantem as abelhas
- Não vos vamos fazer mal. - garante outra abelha
- Combinado….
- Estamos para ver.
As abelhas bebem com sofreguidão, quanto mais podem, molham-se, rebolam na água para refrescar todo o corpo, os donos da casa riem, voltam a beber, voltam a mergulhar, deliciadas.
- Que delícia de água! - diz uma abelha sorridente
- Que privilégio ter esta água. - diz outra abelha
- Não sabemos como vos agradecer! - diz outra abelha
- Estamos como novas. - sorri outra abelha
- Como viram, não vos fizemos mal. - Comenta outra abelha
- Querem levar água para a vossa festa? - pergunta a Dona da Casa
- Podemos? - perguntam as abelhas
- Sim, claro. Ali da bica que é melhor. - responde a senhora
- Óh! Muito obrigada. - dizem as abelhas em coro
- Pedimos desculpa por ter incomodado ou assustado! - diz uma abelha
- Não faz mal. Vão sossegadas, e voltem sempre que precisarem! - diz a Dona
- Muito obrigada!
As abelhas, estão renovadas com tanta água que beberam, e os mergulhos. Voltam para casa, e pegam em baldes, põem garrafas dentro dos baldes.
Regressam a casa onde beberam aquela água e onde puderam refrescar-se. Enchem os baldes, e as garrafas, da bica, como sugeriu a Senhora.
As abelhas sorriram para os habitantes, beberam mais água, refrescaram-se, e foram embora carregadas de água. Perceberam que precisaram de mais, voltaram para encher mais.
Mais descansadas e aliviadas, frescas, descansam nas suas casas, mas sentiram que deveriam retribuir a generosidade das pessoas da casa, de alguma forma. Por não as ter matado, e por terem deixado levar água.
Conversaram sobre isso, e chegaram a uma ideia geral. Foram à Abelha Pasteleira, que cozinhava deliciosamente bem, fazia pratos com muito carinho, e doces, de fazer crescer água na boca, como a sua alma.
Explicaram o que queriam, e num instante, a Pasteleira, preparou tudo como o pedido, com toda a doçura, e delicadeza. Pegou nos favos de mel, dados pelas abelhas e preparou ricos doces à base de mel, com salpicos de pólens, pétalas de flores, em vários formatos, e quando ficou pronto, chamou as abelhas.
Elas ficaram maravilhadas com o que viram, e o perfume que vinha dos doces. Encantadas, combinaram outra recompensa, além dos doces, darem as mãos e escreverem a palavra: Gratidão!
Ensaiaram várias vezes. Puseram os docinhos divididos por cestinhos com lindos panos, muito mimosos. Regressaram à casa dos senhores, que estavam à sombra.
Muito surpresos, olharam para elas, com os cestinhos. Pousaram os cestinhos no chão, os senhores ficaram deliciados com o cheirinho. Uma abelha disse:
- É para vocês!
- E temos mais.
Os habitantes estão na expectativa. Elas dão as mãos, e formam a palavra Gratidão à sua frente. Os residentes soltam grandes exclamações, de espanto e encanto, aplaudem, sorriem.
- Tão queridas! - sorri a dona da casa
- Apresentamos a nossa gratidão, a vocês, que nos deixaram beber água e refrescar, levar mais água para a nossa festa, e por não nos terem matado! Trouxemos uns carinhos. Esperamos que gostem!
- Não têm de quê! - sorri a Dona
- Vocês prometeram que não nos faziam mal, e não fizeram, também precisam de água, e são importantes.
- Pois. Somos sempre rotuladas de mazonas, mas temos as nossas funções como todos os animais e pessoas.
- Claro!
- Vamos provar.
A família levanta os paninhos, e fica encantada com os formatos dos bolos, além do perfume, quando provam, comem uns atrás dos outros de tão bons que são. As abelhas riem felizes.
- Hummm…que delícia!
- São mesmo bons.
- Tem um cheirinho, e um sabor…!
- Gratidão, nós, por estes mimos! - diz a filha do casal
- Adoramos! - Dizem todos
- E podem voltar sempre que quiserem.
- Muito obrigada! - dizem as abelhas em coro
- Que bom que gostaram! - diz uma abelha a sorrir feliz
- Adoramos! - dizem todos
- Boa festa. - diz um senhor da casa
- Obrigada. - dizem as abelhas
- Vamos deixar-vos a saborear os bolos e a sombra. - diz uma abelha
- Muito bem, voltem sempre! - dizem todos
- A nossa eterna Gratidão por tudo. - dizem as abelhas
- E nossa também! - dizem as pessoas.
- Até breve, voltaremos. - diz uma abelha
- Até breve, claro que sim, voltem sempre! - diz uma senhora
Os senhores da casa continuam a deliciar-se com os doces, e as abelhas vão para a sua casa, preparar a festança que acontece nessa noite. Elas ficaram tão agradecidas ao casal, e à família, que levam coisas que sobraram da festa, no dia seguinte.
A família agradece, e acolhe-as, deixando-as à vontade, para beberem, refrescarem-se, encherem água, respeitando-as, sem lhes fazer mal, e elas a eles.
Sentiram-se bem por reconhecer o bem que lhes fizeram, e as pessoas, felizes, por terem feito bem.
FIM
Lara Rocha
2/Julho/2026