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quinta-feira, 2 de julho de 2026

A fonte que viu nascer e desaparecer um amor

 


A fonte que viu nascer e desaparecer um amor 

    Era uma vez uma fonte que foi oferecida pelo namorado à sua amada, um ano após o namoro começar. 

    Viviam numa cidade diferente, mas próxima, encontravam-se pessoalmente uma vez por semana, falavam-se todos os dias, viam-se na webcam, conversavam, riam, trocavam mensagens, ligações.     

    Mesmo encontrando-se um dia por semana em cada cidade, faziam cada encontro valer a pena! De forma intensa, e o amor deles tinha tudo para correr bem, como foi o aconteceu. A fonte deitava água, enchendo a parede de pedra da mesma, como se fosse uma cascata. Um som delicioso, que era como uma espécie de presença dele, para ela, quando este emigrou. Apesar da distância, continuavam a ver-se e a falar todos os dias. 

    E quando ele voltava, os encontros eram românticos, havia confiança um no outro, sinceridade, dedicação, conversas, risos, apesar da tristeza de não se encontrarem pessoalmente tantas vezes, mas aguentaram dois anos. 

    A fonte era uma ponte invisível entre os dois, uma espécie de confidente, quando ela chorava de saudades. Esta parecia sentir, que a sua dona estava triste, havia quase uma fusão das suas lágrimas com a água da fonte, que a libertava. quando olhava para a fonte, e via a água a correr. 

    O amor entre os dois venceu a distância, durante dois anos, no último ano, a fonte parecia pressentir a dado momento que havia alguma coisa que não estava bem. Deitava água, mas começou a enfraquecer, a deitar menos água, já não escorria pela parede toda, até que começou a deitar apenas um fiozinho de água, mesmo com o recipiente cheio. 

    Ela não associou ao amor, mas quase no fim desse último ano, ele pediu-a em casamento,  ela aceitou, que seria quando as condições estavam criadas, estavam a trabalhar para isso, pouco antes, e depois desse pedido, as coisas pareciam ter arrefecido do lado dele. 

    Ela não pressionou, porque ele estava a trabalhar fora da cidade, longe, ele andava stressado, não se falavam todos os dias, nem se viam tanto, porque ele dizia que estava a trabalhar, a organizar as coisas, ela, na sua inocência e confiança, acreditou, apesar de ficar triste. 

    A pequena lâmpada que a fonte tinha, fundiu, e não havia possibilidade de arranjar outra. A água continuava pouca, até que ela suspeitou, e perguntou diretamente o que estava a acontecer. Se a tinha pedido em casamento, com anel e tudo, porque é que ele andava distante e irritado, mais desligado, parecia indiferente. 

    Ele decidiu abrir o que estava escondido...havia alguém interessado nele, mas ele afirmava que não era recíproco. Ela disse-lhe que ele não tinha que lhe dar troco, a esse alguém, se não houvesse reciprocidade. Na semana a seguir, ele disse que estava com dúvidas, e era melhor dar um tempo na relação. 

    Ela ficou revoltada, magoada, mas deu-lhe esse tempo, em que praticamente não se falaram. Poucos dias, porque no fim, ele assumiu que esse interesse era recíproco, o melhor era acabar, ou ela ir ter com ele, para falaram e fazerem um teste ao amor que os unia. 

    Ela ficou tão revoltada, com tanta raiva, que achou melhor não ir, e se ele queria acabar por muito que acabasse, se era o que ele queria, que acabasse. Acabou mesmo, houve muito cinismo de parte dele, e gozo fininho, ao convidá-la a ir à sua cidade conhecer a nova. 

    Ela insultou-o de tudo, despejou toda a raiva que sentia, por escrito, não baixou ao nível que ele queria ou achava que ela ia descer, pensou que ia atrás dele, mas ela não foi, caso contrário, não ia ser bom. Só tinha vontade de fazer loucuras, mas isso era o que ele queria. 

    Ela não conseguiu lidar com todo aquele ódio, toda aquela raiva e pensamentos assustadores, que caso não pedisse ajuda, ia ser muito mau, ia acabar mesmo muito mal. Pediu ajuda, e conseguiu adormecer esses maus sentimentos e pensamentos, que volta e meia despertavam, e ela voltava a pedir ajuda. 

    A fonte deixou de funcionar quando acabaram, tudo nela avariou. A fonte parece ter sentido o fim do namoro! Demorou muito tempo a lidar com esses sentimentos, com a raiva toda, o ódio, a vontade de vingança, pediu ajuda muitas vezes, aparentemente conseguiu lidar bem com esses sentimentos, principalmente nos palcos, e na escrita. 

    Surpreendeu muitas pessoas que pensavam que ela ia sofrer muito, ia perder o sono e o apetite, ou ia cometer loucuras, mas não. A ajuda que recebeu, emocional, foi mesmo muito importante, mas enquanto ele estava servido, e dois anos depois casou com a outra., ela não voltou a amar ninguém. 

    Já se passaram uma série de anos, a fonte continua a existir, sem funcionar, seca, com a rapariga, e ela, continua a existir, totalmente diferente de quem era, quando estava com o seu amor, enquanto durou. A saúde dela, pagou caro! 

    O seu coração tornou-se um cubo de gelo, fechada para esse tipo de amor, mas dá amor de outras formas, a quem mais precisa, com palavras, com presença, com carinho, dedicação, preocupação, amizade, quando outros viram as costas. 

    Arranjou bons amigos e amigas, nas artes, com quem ri muito, troca carinho, afeto, compreensão, acolhimento, e foi uma terapia, organização emocional, através da escrita, da dramatização, de outras personagens. 

    O amor romântico, pode não ser para sempre, mesmo que seja intenso, bom, em que fazem planos, sonham, plantam desejos, fantasias e passeiam, conversam, namoram, mas chega muitas vezes ao fim. O mais importante, apesar da dor, da revolta, da incompreensão, da tristeza, e muitas outras emoções que magoam, intoxicam, ficam as boas recordações, que foram muitas. 

    E o melhor de tudo, quando os maus sentimentos adormecem, consegue-se falar desse amor, a sorrir, de coisas boas que viveram, sítios bonitos por onde passaram, sem dor, uma linda história de amor que poderia ter corrido bem, como tudo indicava que sim, mas é porque não tinha de ser!

    Às vezes o amor romântico é fugaz, intenso, que nos faz acreditar que vai ser para sempre, mas tudo mudou ao longo dos anos, e podemos deixar de acreditar nesse a amor. Mesmo assim, ainda é possível libertá-lo do coração. 

    É uma ilusão pensar que se esquece um amor, envolvendo-se logo com outro. A não ser que seja um amor de ocasião, o coração precisa de descansar, de se curar, de se refazer, redescobrir, e a pessoa precisa de se reconstruir. 

    Quando acaba um amor, vai essa parte, essa pessoa que éramos, com o outro, nunca mais a vemos, nem somos essa pessoa, podemos ser melhores ou piores.. Nem todos temos feitio para uma vida a dois, nem paciência. 

    Não sabemos nada sobre o que é amor, nem o que é vida a dois. Muitas de nós, somos como a fonte, pressentimos que alguma coisa não está bem, mas a água continua a correr, a enfraquecer, até avariar, secar. Uma fonte premonitória, talvez! Coincidência, com as más energias? Foi pena não ter prenunciado antes do pedido de casamento, ou se calhar prenunciou-se, e ela não percebeu.  

                                                            FIM 

                                                        Lara Rocha 

                                                       2/Julho/2026 

    O que acham, meninas, senhoras? 

    Gostavam de ter assim uma fonte? 

    Se falasse era ainda melhor, não era? 

Podem deixar nos comentários, se quiserem. 

                                                           

    

 

A gratidão das abelhinhas

        Era uma vez uma aldeia onde as abelhas faziam uma grande festa, numa noite de Verão. Decorriam os preparativos para o momento, menos um calor irrespirável que elas não estavam à espera. 

    Costumava estar quente, mas não a esse ponto. Elas sentiam-se exaustas, quase não conseguiam voar, para recolher o que precisavam, e montar a festa. 

      Pelo caminho, como eram às dezenas, apoiavam-se umas nas outras, voavam encostadas, para se segurarem, e voarem o que conseguiam. Iam bebendo aos bocadinhos, quando encontravam bocadinhos de água das regas no chão. 

     De repente, viram um grande tanque, numa casa, com os donos metidos na água. Parecia que tinham visto um paraíso. Mas os donos, não. Começaram a gritar e a chutá-las, elas caíram redondas nas bermas, sem força. 

- Saiam daqui, suas brutas! - grita uma criança 

- Socorro, de onde saiu tanta abelha, é melhor chamar os bombeiros. - diz um adulto 

- Por favor… não nos matem, não… nos tratem mal...! Não...vos vamos...fazer...maaaallll.... - implora uma abelha com dificuldade. 

- Só...queremos...água fresca. - explica outra 

- A que...encontramos pelo caminho era muito pouca! 

- Por favor. Estamos...tão...cansadas...temos...a festa para preparar. 

- Que festa? - pergunta outro adulto 

- Uma...festa...típica, da nossa colónia de abelhas. 

- Estamos quase...sem força! Por favor! 

- Não...vos vamos fazer...mal. Só queremos água. 

- Estejam...à vontade. - diz outra abelha 

- Não vos queremos em cima de nós. - comenta uma senhora da casa 

- De certeza que não nos estão a comprar? - pergunta outro senhor da casa 

- Estamos a ser sinceras. 

- Bebem e vão embora? - pergunta um senhor 

- Sim. - respondem todas 

- Não estávamos à espera deste calor! - suspira uma abelha 

- Nem nós. - responde uma criança 

- Bebam, e refresquem-se, então! - autoriza a Dona da casa 

- Coitadas, elas realmente estão com ar abatido! Até caíram. 

- Não sei se isso não foi chantagem! 

- Não! - garantem as abelhas 

- Não vos vamos fazer mal. - garante outra abelha 

- Combinado…. 

- Estamos para ver. 

        As abelhas bebem com sofreguidão, quanto mais podem, molham-se, rebolam na água para refrescar todo o corpo, os donos da casa riem, voltam a beber, voltam a mergulhar, deliciadas.

- Que delícia de água! - diz uma abelha sorridente 

- Que privilégio ter esta água. - diz outra abelha 

- Não sabemos como vos agradecer! - diz outra abelha 

- Estamos como novas. - sorri outra abelha

- Como viram, não vos fizemos mal. - Comenta outra abelha 

- Querem levar água para a vossa festa? - pergunta a Dona da Casa 

- Podemos? - perguntam as abelhas

- Sim, claro. Ali da bica que é melhor. - responde a senhora 

- Óh! Muito obrigada. - dizem as abelhas em coro 

- Pedimos desculpa por ter incomodado ou assustado! - diz uma abelha 

- Não faz mal. Vão sossegadas, e voltem sempre que precisarem! - diz a Dona 

- Muito obrigada! 

 As abelhas, estão renovadas com tanta água que beberam, e os mergulhos. Voltam para casa, e pegam em baldes, põem garrafas dentro dos baldes. 

   Regressam a casa onde beberam aquela água e onde puderam refrescar-se. Enchem os baldes, e as garrafas, da bica, como sugeriu a Senhora. 

   As abelhas sorriram para os habitantes, beberam mais água, refrescaram-se, e foram embora carregadas de água. Perceberam que precisaram de mais, voltaram para encher mais. 

  Mais descansadas e aliviadas, frescas, descansam nas suas casas, mas sentiram que deveriam retribuir a generosidade das pessoas da casa, de alguma forma. Por não as ter matado, e por terem deixado levar água. 

  Conversaram sobre isso, e chegaram a uma ideia geral. Foram à Abelha Pasteleira, que cozinhava deliciosamente bem, fazia pratos com muito carinho, e doces, de fazer crescer água na boca, como a sua alma. 

  Explicaram o que queriam, e num instante, a Pasteleira, preparou tudo como o pedido, com toda a doçura, e delicadeza. Pegou nos favos de mel, dados pelas abelhas e preparou ricos doces à base de mel, com salpicos de pólens, pétalas de flores, em vários formatos, e quando ficou pronto, chamou as abelhas. 

  Elas ficaram maravilhadas com o que viram, e o perfume que vinha dos doces. Encantadas, combinaram outra recompensa, além dos doces, darem as mãos e escreverem a palavra: Gratidão! 

  Ensaiaram várias vezes. Puseram os docinhos divididos por cestinhos com lindos panos, muito mimosos. Regressaram à casa dos senhores, que estavam à sombra. 

 Muito surpresos, olharam para elas, com os cestinhos. Pousaram os cestinhos no chão, os senhores ficaram deliciados com o cheirinho. Uma abelha disse: 

- É para vocês! 

- E temos mais. 

  Os habitantes estão na expectativa. Elas dão as mãos, e formam a palavra Gratidão à sua frente. Os residentes soltam grandes exclamações, de espanto e encanto, aplaudem, sorriem. 

- Tão queridas! - sorri a dona da casa 

- Apresentamos a nossa gratidão, a vocês, que nos deixaram beber água e refrescar, levar mais água para a nossa festa, e por não nos terem matado! Trouxemos uns carinhos. Esperamos que gostem! 

- Não têm de quê! - sorri a Dona 

- Vocês prometeram que não nos faziam mal, e não fizeram, também precisam de água, e são importantes. 

- Pois. Somos sempre rotuladas de mazonas, mas temos as nossas funções como todos os animais e pessoas. 

- Claro! 

- Vamos provar. 

  A família levanta os paninhos, e fica encantada com os formatos dos bolos, além do perfume, quando provam, comem uns atrás dos outros de tão bons que são. As abelhas riem felizes. 

- Hummm…que delícia! 

- São mesmo bons. 

- Tem um cheirinho, e um sabor…! 

- Gratidão, nós, por estes mimos! - diz a filha do casal 

- Adoramos! - Dizem todos

- E podem voltar sempre que quiserem.  

- Muito obrigada! - dizem as abelhas em coro 

- Que bom que gostaram! - diz uma abelha a sorrir feliz 

- Adoramos! - dizem todos 

- Boa festa. - diz um senhor da casa 

- Obrigada. - dizem as abelhas 

- Vamos deixar-vos a saborear os bolos e a sombra. - diz uma abelha 

- Muito bem, voltem sempre! - dizem todos 

- A nossa eterna Gratidão por tudo. - dizem as abelhas 

- E nossa também! - dizem as pessoas. 

- Até breve, voltaremos. - diz uma abelha 

- Até breve, claro que sim, voltem sempre! - diz uma senhora 

     Os senhores da casa continuam a deliciar-se com os doces, e as abelhas vão para a sua casa, preparar a festança que acontece nessa noite. Elas ficaram tão agradecidas ao casal, e à família, que levam coisas que sobraram da festa, no dia seguinte. 

    A família agradece, e acolhe-as, deixando-as à vontade, para beberem, refrescarem-se, encherem água, respeitando-as, sem lhes fazer mal, e elas a eles. 

    Sentiram-se bem por reconhecer o bem que lhes fizeram, e as pessoas, felizes, por terem feito bem. 

                                                                FIM 

                                                            Lara Rocha 

                                                           2/Julho/2026 



quinta-feira, 18 de junho de 2026

Voa livre

 Voa livre 

O som do sino

Voa livre 

O meu pensamento. 

Voam livres os meus sonhos, 

As minhas palavras, 

As minhas vontades.  

Voam livres os meus dedos

Quando escrevem para ti! 

Voam livres as borboletas, 

Voam livres as recordações, 

Voam livres os desejos. 

Voa livre o sol da Primavera, 

As flores que nascem dela, 

Voa livre o vento que as acaricia. 

Voa livre o sol do Verão, 

Voam livres as areias, 

Os peixes, as gaivotas esfomeadas, 

As ondas, as conchas, os búzios, as algas. 

Voam livres as folhas das árvores no Outono, 

E as suas cores, 

As ervas, as espigas, os espantalhos, 

As castanhas e as nozes, 

As frutas que enfeitam as árvores. 

Voam livres os pássaros, 

Que fazem os ninhos, 

As gotas da chuva, os trovões, os flocos de neve. 

Voam livres 

As águas dos rios, das fontes, dos ribeiros, 

Das fendas das montanhas, das grutas naturais, 

Os sorrisos, as gargalhadas, os risos, as lágrimas. 

Voam livres 

Os abraços, os beijos, as mãos dadas, 

Voa livre a amizade, 

Voa livre a felicidade, a tristeza, a dor. 

Voa livre o amor e o carinho 

Em todas as suas formas. 

Voa a inocência, pureza, 

Voa livre os risos e o brilho dos olhos das crianças, 

Voa livre a sua imaginação nas brincadeiras, 

Voam as palavras nas histórias que inventam. 

Voa o frio do Inverno, 

Voam os dias pequenos, 

O sono prolongado da Natureza. 

Voam as velas que se acendem, as lareiras, as mantas 

Voam as luzes das ruas, das cidades, das casas. 

Voam as paixões, 

Voam as saudades e as recordações. 

Voam as estrelas 

Entre o céu infinito 

E a Terra a perder de vista. 

Voa livre a dança, 

Voa livre o teatro, 

Voa livre a pintura, 

Voam livres os sonhos e os pesadelos, 

Voam livres as palavras bonitas, 

Os poemas, as canções. 

Voam livres as emoções, 

Voa livre a bondade, a paz, 

Voa livre a simpatia, 

Voa livre a gratidão!

                                                FIM 

                                            Lara Rocha 

                                           18/Junho/2026                                            

E para vocês? O que voa? 

Podem deixar nos comentários, se quiserem.


                                




domingo, 17 de maio de 2026

Os melrinhos

 


Era uma vez um parque na cidade, um espaço muito verde, onde circulavam pessoas a pé, de bicicletas, skates, a passear cães, a correr. Além de muitas árvores, frondosas, que faziam sombra, com bancos para as pessoas se sentarem a ler, a descansar, a meditar, a escrever, havia laguinhos artificiais com patos, passarinhos de várias espécies, tamanhos, borboletas e melros. 

    Era uma paz, passear nesse parque, e os melros cantavam, tanto no chão, aos saltinhos, perto das pessoas, na berma dos lagos, outras vezes, nas árvores. Em manhãs de Primavera, Verão e Outono, o silêncio era quebrado por grupos grandes de crianças, e jovens, que iam com monitores fazer atividades. 

    Nesses momentos, os pássaros chilreavam, faziam as delícias de quem os ouvia, mas esses grupos faziam muito barulho. Gritavam, falavam muito alto, corriam, batiam palmas, riam à gargalhada, as aves ficavam nervosas, tentavam chilrear mais alto, para serem ouvidos, sem sucesso. 

    Saltavam de ramo em ramo, a chilrear, pousavam mesmo à frente dos jovens para serem vistos e ouvidos, mas eram ignorados. Isso deixava-os irritados, principalmente os melros que costumavam cantar maravilhosamente bem, melodias com variações de sons, intensidades e ritmos. 

    Estavam mais habituados a ter mais silêncio, e a ser o centro das atenções com os seus cantos; mas quando os jovens se juntavam, ficavam muito zangados, agitados, nervosos. Porque tinham de cantar no dobro da altura, e em vez de ser um chilrear calmo, melodioso, era nervoso, alterado, agitado. 

    Até os seus saltinhos eram diferentes, de galho em galho,  e no chão. Uma mãe que estava com um bebé pequenino ao colo, sentada num banco, ficou intrigada com aquela agitação dos pássaros.

    Perguntou alto: 

- Porque será que os pássaros hoje estão tão nervosos? Até os melros estão diferentes. 

    Um melrinho ficou deliciado ao ver aquela cena ternurenta da mãe, com o bebé tão pequenino, que parou aos seus pés a olhar para ela. 

- Olá! - disse a mãe

    O melrinho gira a cabecinha, a contemplar aquela beleza. 

- Olá, que linda que és! Que espécie de ave és? 

    A mãe ri e responde: 

- Obrigada, não sou uma ave, sou uma pessoa, um ser humano. 

- Áh! Desculpa, pensei que eras uma ave. E essa...cria...quer dizer...esse ser tão pequenino que tens no colo? É um animal?

    A mãe ri e responde: 

- Também não é um animal, é um bebé. Meu filho! 

- Áh! Que lindo! 

- Obrigada. 

- Ele canta? - pergunta o melro 

- Não, daqui a uns anos, poderá cantar, mas primeiro tem de falar. E pode não cantar tão bem como tu. 

- Óh! Que honra, muito obrigado. Ou...poderá cantar melhor, nunca se sabe! - diz o melro 

- Pois, quer dizer...vai cantar, se cantar, diferente de ti. 

- Sim. 

- Adoramos ouvir-te, mas hoje parecem muito agitados. - diz a mãe 

- Sim, hoje realmente estamos diferentes! Nervosos. Com vontade de de correr aquelas criaturas, que estão ali ao molho, com os outros grandes, a guinchar, a gritar, aos saltos, a correr, e ignoram-nos! Fazem um barulho infernal. E não nos ouvem! Paramos em frente a eles, a cantar, e eles nem olham para nós. Estão capazes de nos esmagar, ou correr à sapatada. Nós não gostamos daquele barulho. Detestamos quando o nosso espaço é invadido por barulhos como estes. Fazem mais barulho que um bando de...pássaros todos juntos. 

- Áh! Percebo. São grupos de jovens, crianças e adolescentes com os adultos a fazer atividades. Tens razão, Mas podes cantar na mesma! 

- Não conseguimos! Com este barulho, o nosso canto, fica alterado. 

- Pois! Isso já tinha reparado. Mas canta só para nós os dois, por favor! Nós não te irritamos, pois não? 

- Claro que não! Está bem, vou tentar. 

    O melro começa a cantar para a mãe do bebé melodiosamente, calmo, como costuma, a dobrar, a mãe parece percebê-lo, e sorri encantada. O bebé também sorri. Outros melros, ouvem o amigo a cantar para aquela mãe, sorriem, e juntam-se ao melro: 

- Podemos? - pergunta outro melro 

- Óh! Claro que sim. Por favor! 

  Meia dúzia de melros cantam em coro, abrem as asas, olham uns para os outros, como se estivessem num diálogo musical ou a dramatizar. Umas vezes cantam sozinhos, outras vezes os outros acompanham. 

  A mãe está maravilhada com aquele quase concerto musical para ela e para o bebé. Sorri, aplaude, os melros inclinam as cabecinhas, e abrem as asas, como se estivessem a fazer uma vénia. 

- Tão bonito! Muito obrigada. - diz a mãe a sorrir 

- De nada! Muito obrigado, nós. - responde o melro 

- Adoramos cantar para vocês! - diz outro melro 

- Obrigada. - sorri a mãe 

- Obrigado por nos ouvirem! - diz outro melro 

- É maravilhoso ouvir-vos! - diz a mãe 

- Esperamos que aqueles saiam rápido, com eles nunca conseguimos cantar na nossa perfeição! 

- murmura outro melro 

- Mas cantaram de forma perfeita, agora! - diz a mãe 

- Obrigado! - dizem todos 

- Sabemos que há pessoas que gostam de nos ouvir cantar, e nós sentimo-nos vaidosos, orgulhosos por gostarem de nos ouvir. - diz um melro 

- E com toda a razão! O vosso canto é maravilhoso, quase consigo imaginar que estão a dialogar ou a fazer alguma peça de teatro, a cantar ao desafio...é muito gito! - diz a mãe 

- E estamos! - respondem todos a sorrir 

- Vamos deixar-vos, com um até já. Precisamos de ir ao um dos laguinhos beber. - diz outro melro

- Claro! Com certeza. À vontade, mas voltam, está bem? Se não for hoje, outros dias estaremos aqui. - pede a mãe 

- Está bem, voltaremos, claro que sim! - diz outro melro 

- Daqui a pouco vamos para casa, mas voltamos nos próximos dias, o meu bebé também adora ouvir-vos. Gosto muito de estar aqui. - diz a mãe 

- Também estaremos aqui! - garante o melro 

- Andamos sempre por aqui. Obrigado por nos ajudarem a acalmar - diz outro melro 

- Ora essa. Igualmente. 

- Até logo! E não deixem de cantar, talvez daqui a pouco, os jovens vão embora e regressa o sossego para vocês. - lembra a mãe 

- É verdade! Oxalá que sim. Não gostamos que o nosso espaço seja invadido por barulho. - confessa outro melro 

- Claro, compreendo-vos! Eu também não gosto de muito barulho. Divirtam-se! Existem cantos do parque sossegados. - diz a mãe 

- Sim, vamos procurá-los. Obrigado, Até breve! - diz outro melro 

- Vemo-nos por aqui. 

    A mãe sai com o bebé, e os melros, orgulhosos, por poderem cantar as suas melodias com calma, harmoniosas, lindas, para alguém que os queria ouvir. Os sorrisos da mãe e do bebé, e as palmas para eles, foram a compensação. 

    Nos dias seguintes, os melros continuam a visitar a mãe e a cantar para quem os queria ouvir, mesmo na cidade, a receber aplausos, mesmo irritados quando há mais barulho do que o habitual, procuram sítios sossegados, para não ficarem nervosos. 

                                                                      FIM 

                                                                   Lara Rocha 

                                                                (17/Maio/2026) 

    E vocês, já ouviram melros a cantar? 

    Gostaram? Ou gostam de os ouvir? Onde? 

    Acham que eles conversam uns com os outros, quando os ouvem? Conseguem imaginar o que dirão? Podem deixar nos comentários, se quiserem. 

    Se nunca os ouviram, oiçam-nos, onde puderem, porque vale a pena! :) 

       

        


segunda-feira, 4 de maio de 2026

A lenda da Giralua


     Era uma vez uma linda égua, jovem, rejeitada e gozada pelas outras, por causa da sua cor de pelo ser igual à Lua, e pelo seu nome, Giralua: 

- És tão feia! Não sei como te chamam Giralua. A Lua é bonita, tu não tens nada de bonito! - comentava um cavalo. 

- Eu tinha vergonha de andar por aí a desfilar com essa cor. - dizia uma coelha com risinhos 

- Eu pintava logo o pelo, de outra cor! Que horror. - comenta um ouriço cacheiro 

- Parece uma anémica! - repara um pássaro cheio de cores

- Até é uma ofensa para a Lua que está lá em cima, saber que tem uma égua tão feia com uma parte do nome dela! - ri um canguru 

- Feiosa! Não tem ar de égua, sequer. Parece uma coisa deslavada. 

- É! Um pedaço de tecido tingido por lixivia ou estragado. - comenta uma cegonha 

    Ela não respondia, mas ficava triste e com vergonha de si mesma, mas toda a sua família era assim, era genético. As outras éguas e cavalos não a chamavam para brincar. Quando ela se aproximava, escorraçavam-na, gritavam-lhe, davam-lhe coices. 

- Sai daqui, óh criatura estranha! - diz uma égua castanha 

- Porque é que eu sou criatura estranha? - pergunta a égua Giralua 

- Porque tens o pelo dessa cor! 

- E depois? Vocês também não têm todos, nem todas as mesmas cores de pelos. Sou uma égua como vocês. 

- Não podes ser uma égua como nós, nenhuma de nós é feia, com o pelo dessa cor. 

- Ainda por cima, com esse nome!

- Parece que vens de outro planeta. 

- O meu pelo é assim, é genético. Toda a minha família é assim! - explica Giralua 

    As éguas e cavalos desatam a relinchar e a gritar, a correr assustados. 

- Uma doença....ááááhhhh.... sai daqui! - gritam todos 

- Não é nenhuma doença! É um sinal de toda a família, como vocês têm! São mais parecidos com o vosso pai, ou com a vossa mãe, têm coisas da vossa mãe, e coisas do vosso pai. Isso é que é genético. Não é nenhuma doença, muito menos contagiosa.

    Todos param a olhar para ela. 

- Não é contagiosa?

- Claro que não. Nem sequer é doença. 

- Tens a certeza? 

- Perguntem aos vossos pais. Há mais como eu! Como vocês. 

- Há? 

- Há! Noutras aldeias, e montes.

- É a única diferença de vocês, na cor do pelo! Todos os animais têm cores de pelos diferentes, dependendo da espécie, verdade? 

- Sim! - dizem todos pensativos 

- Uns são mais parecidos do que outros. 

- É! - dizem todos 

- Porque te chamas Giralua? 

- Porque os meus pais disseram que quando eu nasci, a Lua girou, mudou! E foi uma homenagem a ela! É tão bonita. Os meus pais adoram a Lua, e eu também. Como temos esta cor de pelo, deram esse nome. 

- Ááááhhh! - exclamam todos

    Olham para ela. 

- Sou igual a vocês, nos sentimentos, nas emoções, nos medos, nas alegrias, sonhos. Adoro companhia como vocês, correr e alimentar-me como vocês. 

- Ááááááhhhh….! - exclamam todos 

- Não sei porque me insultam, e porque fogem de mim, só porque eu tenho este pelo, que não é nada demais. Só muda a cor, diferente do vosso! Se a Lua é bonita, porque é que eu, tenho as cores parecidas com as dela, sou feia? 

    Faz-se silêncio. 

- Não dizem nada? Não são obrigados, mas gostava de saber! 

    Vira costas, e todos gritam: 

- Espera! 

    Vira-se para ela: 

- Sim? 

- Desculpa! - dizem em coro 

- Olhando bem para ti, és mesmo parecida connosco e com as cores da Lua. - diz uma égua 

- Pois! E nós, olhando uns para os outros, também somos todos diferentes! - acrescenta um cavalo 

- É verdade! - respondem em coro 

- Olha que nunca tínhamos pensado nisto! - diz outra égua 

- Pois não! - dizem todos 

- Mas tens toda a razão! És igual a nós, em tudo o que disseste, fazes tudo o o que nós fazemos, só muda a cor do pelo, mas isso...é só uma diferença! Na verdade, nem sabemos bem como és. - reconhece outro cavalo

- E magoamos-te, de certeza, ao dizermos que eras feia, não foi? 

- Foi! - confirma a Giralua

- O teu nome...pensando bem, até é bonito! Realmente, a Lua gira! 

- Pois é! - confirmam todos

- Desculpa-nos! Mostra-nos como és. Anda, junta-te a nós! 

    Giralua salta de alegria, a rir: 

- Obrigada. Só quero que respeitem a minha diferença exterior. Verão - como eu sou por dentro! 

    Giralua é acolhida por todos, abraça todos, corre, salta, conversa com todos, riem às gargalhadas, uns com os outros, e percebem que se precipitaram a insultar, e a fugir da Giralua. 

    Todos ganharam uma amiga que nunca tinham descoberto, porque só viam a cor diferente do seu pelo. Mas perceberam rapidamente, como ela era amorosa, querida, simpática, meiga, divertida, fazia rir, e tinha um riso contagiante, brincava, estava sempre pronta para dizer palavras simpáticas quando precisavam. 

    Conta a lenda que, aconteceu uma onda de calor, com um ar irrespirável, como nunca tinha acontecido, incêndios à volta, parecia que tudo ia derreter, incluindo os cavalos, e toda a aldeia. 

    Todos estavam recolhidos e quase a sufocar. Giralua olha para a Lua, nima noite, como fazia muitas vezes, preocupada, e as lágrimas caem -lhe dos olhos. Queria ajudar, mas não podia! A Lua que sempre tomou conta dela, olhava para ela, via tudo, ouvia tudo, conhecia-a bem, era uma espécie de madrinha com quem ela desabafava. 

    Nessa noite, a Lua Cheia disse-lhe: 

- Giralua...cavalga por toda a aldeia, com toda a tua força que puderes. 

- Mas...mas...até eu parece que estou sem força...e vou correr? Acho que não consigo! Está tudo a derreter! O que é que o meu cavalgar vai fazer? 

- Querida, faz o que eu te digo, e verás! Eu estou aqui. Vai! É claro que consegues. 

    A Giralua muito intrigada, levanta-se, olha para a Lua. Começa a caminhar, e a Lua lança raios de luz azul para Giralua. Giralua sente uma força poderosa, e começa a galopar, cheia de energia, como se estivesse ligada a uma tomada. 

- Anda! Com confiança. 

    A Giralua faz o que a Lua Cheia manda, sem saber o porquê, e para quê! Essa força da Lua, fê-la cavalgar confiante, curiosa para ver o que ia acontecer. Quando começa a cavalgar, e a saltar, atrás de si, o chão vai-se transformando em gelo, fontes de água corrente à porta de cada casa, fresca, pura,. 

- Bom trabalho, Giralua. Continua! - diz a Lua 

    Giralua continua a cavalgar, a rodar, a saltar, cheia de energia, e do seu pelo azul saem rajadas de vento fresco. 

- Boa, Giralua! Continua. 

    Por onde a Giralua passa, tudo à sua volta torna-se mais fresco, como num dia de Primavera. Alguns animais e pessoas vão à janela, e sentem uma grande diferença na aragem, aquela frescura, veem Giralua a correr, e a saltar, as fontes nas casas, com água. 

- Quem pôs isto aqui? 

- Como é que isto apareceu aqui? 

- Ui, gelo no chão? 

- Mas o que é que está a acontecer? 

- Áh! Que delícia este fresco...e água à porta! 

- Giralua, que energia é essa? 

- Continua, Giralua! - diz a Lua 

    Giralua ouve os comentários, e está tão incrédula como os habitantes, que viram de quem se tratava, quem estava a fazer aquelas mudanças tão maravilhosas. 

- Agora, vai aos campos, Giralua! - diz a Lua 

    Giralua vai aos campos. Olha para a Lua: 

- E agora? Olha como isto está? Como estão os meus amigos! 

- Não faz mal. Eu sei, corre pelos campos. - diz a Lua

- Está bem! 

    Giralua corre pelos campos, regando a relva e a palha, refrescando o espaço, e pedaços de gelo espalhados pelo chão, com fontes de água para se refrescarem e beberem. 

    Arregalam os olhos, ao ver que era Giralua, e no que estava a acontecer. 

- Estamos a sonhar, ou isto está mesmo a acontecer? - pergunta um cavalo quase sem força 

- Está mesmo a acontecer! - responde Giralua

    Os cavalos e as éguas, levantam-se, refrescam-se nas fontes, bebem água fresca, deitam-se, rebolam no gelo e na relva fresca salpicada. 

- Áh! Que maravilha! - Suspiram os cavalos e as águas, felizes. 

- Que delícia de água! - repara uma égua 

- É mesmo! 

- Ela tem poderes. - comenta um cavalo 

- Parece que sim! - concordam todos, baixinho 

- Como é que ela está a fazer isto tudo? - pergunta outro, baixinho 

- Não sei! Mas é fantástico, mágico. Salvou-nos! - diz uma égua 

- Pois foi. - dizem todos 

- Muito obrigada, Giralua! - dizem todos 

- Salvaste-nos. 

    Quando olha, a Giralua estava com o pelo igual aos outros cavalos, e éguas. Branco! Os animais assustam-se: 

- Giralua...Giralua...Giralua... - chamam e olham  para todo o lado, assustados, preocupados 

- O que é que fizeste à nossa amiga? - pergunta um cavalo

- Estou aqui! - responde a própria 

- O teu pelo está igual ao nosso! - diz uma égua de pelo branco 

- A sério? - pergunta Giralua

- Sim! - dizem todos 

- És uma linda égua branca, como nós! 

- Eu disse que era igual a vocês, o que me tornava diferente, era a cor do pelo, mas não sei porque ficou branco, agora. - diz Giralua 

- Salvaste-nos, Giralua! - diz outra égua 

    A Giralua, olha para a Lua, a Lua sorri-lhe: 

- Bom trabalho, minha Giralua. Em breve voltarás a estar com o pelo azul. Este é o troco de tudo o que acabaste de fazer, pela tua bondade, pela égua que és. 

    Giralua sorri. 

- Gratidão, querida Lua. 

- Estou sempre aqui. - diz a Lua 

    Os cavalos e as éguas ainda estão em choque, mas felizes. Um por um, abraça a Giralua, agradecem e brincam com ela, andam por cima do gelo, riem, deitam-se, bebem água, e os habitantes fazem o mesmo, sem saber como tudo estava tão diferente, tão bom, e felizes, porque a onda de calor tinha passado. 

    A lenda diz que Giralua tinha poderes,  o seu pelo voltou a ser azul, mas muitas vezes, tornava-se branco, sempre que havia ondas de calor, ou necessidade de ajudar, com a Lua a fazer o resto. 

    Passou a ser uma égua linda, respeitada por todos, adorada e acarinhada. O que realmente tinha mudado, era a cor do pelo, mas a sua ligação à Lua, e o que ela tinha ensinado a quem a humilhou, gozou com o seu nome, e a cor do seu pelo, foi real, e ficou com todos, segundo a lenda. 

                                                                                              FIM 

                    Lara Rocha

                                                                                      3/Maio/2026