A fonte que viu nascer e desaparecer um amor
Era uma vez uma fonte que foi oferecida pelo namorado à sua amada, um ano após o namoro começar.
Viviam numa cidade diferente, mas próxima, encontravam-se pessoalmente uma vez por semana, falavam-se todos os dias, viam-se na webcam, conversavam, riam, trocavam mensagens, ligações.
Mesmo encontrando-se um dia por semana em cada cidade, faziam cada encontro valer a pena! De forma intensa, e o amor deles tinha tudo para correr bem, como foi o aconteceu. A fonte deitava água, enchendo a parede de pedra da mesma, como se fosse uma cascata. Um som delicioso, que era como uma espécie de presença dele, para ela, quando este emigrou. Apesar da distância, continuavam a ver-se e a falar todos os dias.
E quando ele voltava, os encontros eram românticos, havia confiança um no outro, sinceridade, dedicação, conversas, risos, apesar da tristeza de não se encontrarem pessoalmente tantas vezes, mas aguentaram dois anos.
A fonte era uma ponte invisível entre os dois, uma espécie de confidente, quando ela chorava de saudades. Esta parecia sentir, que a sua dona estava triste, havia quase uma fusão das suas lágrimas com a água da fonte, que a libertava. quando olhava para a fonte, e via a água a correr.
O amor entre os dois venceu a distância, durante dois anos, no último ano, a fonte parecia pressentir a dado momento que havia alguma coisa que não estava bem. Deitava água, mas começou a enfraquecer, a deitar menos água, já não escorria pela parede toda, até que começou a deitar apenas um fiozinho de água, mesmo com o recipiente cheio.
Ela não associou ao amor, mas quase no fim desse último ano, ele pediu-a em casamento, ela aceitou, que seria quando as condições estavam criadas, estavam a trabalhar para isso, pouco antes, e depois desse pedido, as coisas pareciam ter arrefecido do lado dele.
Ela não pressionou, porque ele estava a trabalhar fora da cidade, longe, ele andava stressado, não se falavam todos os dias, nem se viam tanto, porque ele dizia que estava a trabalhar, a organizar as coisas, ela, na sua inocência e confiança, acreditou, apesar de ficar triste.
A pequena lâmpada que a fonte tinha, fundiu, e não havia possibilidade de arranjar outra. A água continuava pouca, até que ela suspeitou, e perguntou diretamente o que estava a acontecer. Se a tinha pedido em casamento, com anel e tudo, porque é que ele andava distante e irritado, mais desligado, parecia indiferente.
Ele decidiu abrir o que estava escondido...havia alguém interessado nele, mas ele afirmava que não era recíproco. Ela disse-lhe que ele não tinha que lhe dar troco, a esse alguém, se não houvesse reciprocidade. Na semana a seguir, ele disse que estava com dúvidas, e era melhor dar um tempo na relação.
Ela ficou revoltada, magoada, mas deu-lhe esse tempo, em que praticamente não se falaram. Poucos dias, porque no fim, ele assumiu que esse interesse era recíproco, o melhor era acabar, ou ela ir ter com ele, para falaram e fazerem um teste ao amor que os unia.
Ela ficou tão revoltada, com tanta raiva, que achou melhor não ir, e se ele queria acabar por muito que acabasse, se era o que ele queria, que acabasse. Acabou mesmo, houve muito cinismo de parte dele, e gozo fininho, ao convidá-la a ir à sua cidade conhecer a nova.
Ela insultou-o de tudo, despejou toda a raiva que sentia, por escrito, não baixou ao nível que ele queria ou achava que ela ia descer, pensou que ia atrás dele, mas ela não foi, caso contrário, não ia ser bom. Só tinha vontade de fazer loucuras, mas isso era o que ele queria.
Ela não conseguiu lidar com todo aquele ódio, toda aquela raiva e pensamentos assustadores, que caso não pedisse ajuda, ia ser muito mau, ia acabar mesmo muito mal. Pediu ajuda, e conseguiu adormecer esses maus sentimentos e pensamentos, que volta e meia despertavam, e ela voltava a pedir ajuda.
A fonte deixou de funcionar quando acabaram, tudo nela avariou. A fonte parece ter sentido o fim do namoro! Demorou muito tempo a lidar com esses sentimentos, com a raiva toda, o ódio, a vontade de vingança, pediu ajuda muitas vezes, aparentemente conseguiu lidar bem com esses sentimentos, principalmente nos palcos, e na escrita.
Surpreendeu muitas pessoas que pensavam que ela ia sofrer muito, ia perder o sono e o apetite, ou ia cometer loucuras, mas não. A ajuda que recebeu, emocional, foi mesmo muito importante, mas enquanto ele estava servido, e dois anos depois casou com a outra., ela não voltou a amar ninguém.
Já se passaram uma série de anos, a fonte continua a existir, sem funcionar, seca, com a rapariga, e ela, continua a existir, totalmente diferente de quem era, quando estava com o seu amor, enquanto durou. A saúde dela, pagou caro!
O seu coração tornou-se um cubo de gelo, fechada para esse tipo de amor, mas dá amor de outras formas, a quem mais precisa, com palavras, com presença, com carinho, dedicação, preocupação, amizade, quando outros viram as costas.
Arranjou bons amigos e amigas, nas artes, com quem ri muito, troca carinho, afeto, compreensão, acolhimento, e foi uma terapia, organização emocional, através da escrita, da dramatização, de outras personagens.
O amor romântico, pode não ser para sempre, mesmo que seja intenso, bom, em que fazem planos, sonham, plantam desejos, fantasias e passeiam, conversam, namoram, mas chega muitas vezes ao fim. O mais importante, apesar da dor, da revolta, da incompreensão, da tristeza, e muitas outras emoções que magoam, intoxicam, ficam as boas recordações, que foram muitas.
E o melhor de tudo, quando os maus sentimentos adormecem, consegue-se falar desse amor, a sorrir, de coisas boas que viveram, sítios bonitos por onde passaram, sem dor, uma linda história de amor que poderia ter corrido bem, como tudo indicava que sim, mas é porque não tinha de ser!
Às vezes o amor romântico é fugaz, intenso, que nos faz acreditar que vai ser para sempre, mas tudo mudou ao longo dos anos, e podemos deixar de acreditar nesse a amor. Mesmo assim, ainda é possível libertá-lo do coração.
É uma ilusão pensar que se esquece um amor, envolvendo-se logo com outro. A não ser que seja um amor de ocasião, o coração precisa de descansar, de se curar, de se refazer, redescobrir, e a pessoa precisa de se reconstruir.
Quando acaba um amor, vai essa parte, essa pessoa que éramos, com o outro, nunca mais a vemos, nem somos essa pessoa, podemos ser melhores ou piores.. Nem todos temos feitio para uma vida a dois, nem paciência.
Não sabemos nada sobre o que é amor, nem o que é vida a dois. Muitas de nós, somos como a fonte, pressentimos que alguma coisa não está bem, mas a água continua a correr, a enfraquecer, até avariar, secar. Uma fonte premonitória, talvez! Coincidência, com as más energias? Foi pena não ter prenunciado antes do pedido de casamento, ou se calhar prenunciou-se, e ela não percebeu.
FIM
Lara Rocha
2/Julho/2026
O que acham, meninas, senhoras?
Gostavam de ter assim uma fonte?
Se falasse era ainda melhor, não era?
Podem deixar nos comentários, se quiserem.


