Era uma vez um parque na cidade, um espaço muito verde, onde circulavam pessoas a pé, de bicicletas, skates, a passear cães, a correr. Além de muitas árvores, frondosas, que faziam sombra, com bancos para as pessoas se sentarem a ler, a descansar, a meditar, a escrever, havia laguinhos artificiais com patos, passarinhos de várias espécies, tamanhos, borboletas e melros.
Era uma paz, passear nesse parque, e os melros cantavam, tanto no chão, aos saltinhos, perto das pessoas, na berma dos lagos, outras vezes, nas árvores. Em manhãs de Primavera, Verão e Outono, o silêncio era quebrado por grupos grandes de crianças, e jovens, que iam com monitores fazer atividades.
Nesses momentos, os pássaros chilreavam, faziam as delícias de quem os ouvia, mas esses grupos faziam muito barulho. Gritavam, falavam muito alto, corriam, batiam palmas, riam à gargalhada, as aves ficavam nervosas, tentavam chilrear mais alto, para serem ouvidos, sem sucesso.
Saltavam de ramo em ramo, a chilrear, pousavam mesmo à frente dos jovens para serem vistos e ouvidos, mas eram ignorados. Isso deixava-os irritados, principalmente os melros que costumavam cantar maravilhosamente bem, melodias com variações de sons, intensidades e ritmos.
Estavam mais habituados a ter mais silêncio, e a ser o centro das atenções com os seus cantos; mas quando os jovens se juntavam, ficavam muito zangados, agitados, nervosos. Porque tinham de cantar no dobro da altura, e em vez de ser um chilrear calmo, melodioso, era nervoso, alterado, agitado.
Até os seus saltinhos eram diferentes, de galho em galho, e no chão. Uma mãe que estava com um bebé pequenino ao colo, sentada num banco, ficou intrigada com aquela agitação dos pássaros.
Perguntou alto:
- Porque será que os pássaros hoje estão tão nervosos? Até os melros estão diferentes.
Um melrinho ficou deliciado ao ver aquela cena ternurenta da mãe, com o bebé tão pequenino, que parou aos seus pés a olhar para ela.
- Olá! - disse a mãe
O melrinho gira a cabecinha, a contemplar aquela beleza.
- Olá, que linda que és! Que espécie de ave és?
A mãe ri e responde:
- Obrigada, não sou uma ave, sou uma pessoa, um ser humano.
- Áh! Desculpa, pensei que eras uma ave. E essa...cria...quer dizer...esse ser tão pequenino que tens no colo? É um animal?
A mãe ri e responde:
- Também não é um animal, é um bebé. Meu filho!
- Áh! Que lindo!
- Obrigada.
- Ele canta? - pergunta o melro
- Não, daqui a uns anos, poderá cantar, mas primeiro tem de falar. E pode não cantar tão bem como tu.
- Óh! Que honra, muito obrigado. Ou...poderá cantar melhor, nunca se sabe! - diz o melro
- Pois, quer dizer...vai cantar, se cantar, diferente de ti.
- Sim.
- Adoramos ouvir-te, mas hoje parecem muito agitados. - diz a mãe
- Sim, hoje realmente estamos diferentes! Nervosos. Com vontade de de correr aquelas criaturas, que estão ali ao molho, com os outros grandes, a guinchar, a gritar, aos saltos, a correr, e ignoram-nos! Fazem um barulho infernal. E não nos ouvem! Paramos em frente a eles, a cantar, e eles nem olham para nós. Estão capazes de nos esmagar, ou correr à sapatada. Nós não gostamos daquele barulho. Detestamos quando o nosso espaço é invadido por barulhos como estes. Fazem mais barulho que um bando de...pássaros todos juntos.
- Áh! Percebo. São grupos de jovens, crianças e adolescentes com os adultos a fazer atividades. Tens razão, Mas podes cantar na mesma!
- Não conseguimos! Com este barulho, o nosso canto, fica alterado.
- Pois! Isso já tinha reparado. Mas canta só para nós os dois, por favor! Nós não te irritamos, pois não?
- Claro que não! Está bem, vou tentar.
O melro começa a cantar para a mãe do bebé melodiosamente, calmo, como costuma, a dobrar, a mãe parece percebê-lo, e sorri encantada. O bebé também sorri. Outros melros, ouvem o amigo a cantar para aquela mãe, sorriem, e juntam-se ao melro:
- Podemos? - pergunta outro melro
- Óh! Claro que sim. Por favor!
Meia dúzia de melros cantam em coro, abrem as asas, olham uns para os outros, como se estivessem num diálogo musical ou a dramatizar. Umas vezes cantam sozinhos, outras vezes os outros acompanham.
A mãe está maravilhada com aquele quase concerto musical para ela e para o bebé. Sorri, aplaude, os melros inclinam as cabecinhas, e abrem as asas, como se estivessem a fazer uma vénia.
- Tão bonito! Muito obrigada. - diz a mãe a sorrir
- De nada! Muito obrigado, nós. - responde o melro
- Adoramos cantar para vocês! - diz outro melro
- Obrigada. - sorri a mãe
- Obrigado por nos ouvirem! - diz outro melro
- É maravilhoso ouvir-vos! - diz a mãe
- Esperamos que aqueles saiam rápido, com eles nunca conseguimos cantar na nossa perfeição!
- murmura outro melro
- Mas cantaram de forma perfeita, agora! - diz a mãe
- Obrigado! - dizem todos
- Sabemos que há pessoas que gostam de nos ouvir cantar, e nós sentimo-nos vaidosos, orgulhosos por gostarem de nos ouvir. - diz um melro
- E com toda a razão! O vosso canto é maravilhoso, quase consigo imaginar que estão a dialogar ou a fazer alguma peça de teatro, a cantar ao desafio...é muito gito! - diz a mãe
- E estamos! - respondem todos a sorrir
- Vamos deixar-vos, com um até já. Precisamos de ir ao um dos laguinhos beber. - diz outro melro
- Claro! Com certeza. À vontade, mas voltam, está bem? Se não for hoje, outros dias estaremos aqui. - pede a mãe
- Está bem, voltaremos, claro que sim! - diz outro melro
- Daqui a pouco vamos para casa, mas voltamos nos próximos dias, o meu bebé também adora ouvir-vos. Gosto muito de estar aqui. - diz a mãe
- Também estaremos aqui! - garante o melro
- Andamos sempre por aqui. Obrigado por nos ajudarem a acalmar - diz outro melro
- Ora essa. Igualmente.
- Até logo! E não deixem de cantar, talvez daqui a pouco, os jovens vão embora e regressa o sossego para vocês. - lembra a mãe
- É verdade! Oxalá que sim. Não gostamos que o nosso espaço seja invadido por barulho. - confessa outro melro
- Claro, compreendo-vos! Eu também não gosto de muito barulho. Divirtam-se! Existem cantos do parque sossegados. - diz a mãe
- Sim, vamos procurá-los. Obrigado, Até breve! - diz outro melro
- Vemo-nos por aqui.
A mãe sai com o bebé, e os melros, orgulhosos, por poderem cantar as suas melodias com calma, harmoniosas, lindas, para alguém que os queria ouvir. Os sorrisos da mãe e do bebé, e as palmas para eles, foram a compensação.
Nos dias seguintes, os melros continuam a visitar a mãe e a cantar para quem os queria ouvir, mesmo na cidade, a receber aplausos, mesmo irritados quando há mais barulho do que o habitual, procuram sítios sossegados, para não ficarem nervosos.
FIM
Lara Rocha
(17/Maio/2026)
E vocês, já ouviram melros a cantar?
Gostaram? Ou gostam de os ouvir? Onde?
Acham que eles conversam uns com os outros, quando os ouvem? Conseguem imaginar o que dirão? Podem deixar nos comentários, se quiserem.
Se nunca os ouviram, oiçam-nos, onde puderem, porque vale a pena! :)

