Era uma vez uma joaninha pintora. Pintava na sua casa, em forma de cogumelo. Quando ia para o campo em busca de inspiração, às vezes levava num carrinho: o seu cavalete, a sua mesinha com gavetas onde guardava as tintas e os pincéis, as telas, ou um caderno, e lápis, e as refeições.
Porque quando saía para a Natureza, pintava e desenhava uma série de coisas. Ela dizia que falava com a Natureza, e pintava o que esta lhe dizia, pedia, sentia. Todos olhavam para ela, muito surpresos, porque viam-na sentada ao ar livre ou à janela, na beira dos rios, debaixo das árvores, até parecia que falava sozinha, ria, às vezes chorava.
- O que estará a fazer aquela, ali? - perguntava um
- Parece estar a pintar. - dizia outro
- Mas o que pintará? - pergunta outro
- Ela fala sozinha...ou será que fala com amigos imaginários? - comenta outra
Dão uma gargalhada.
- Eu até tenho medo de me aproximar dela….! - diz uma a rir
- Realmente, - diz outra a rir
Riam, e comentavam, mas nunca se aproximavam. Uma tarde, um menino inocente, de cabelos encaracolados, olhos claros, cara redondinha, narizinho arrebitado e pequenino, de quatro anos foi ter com ela, quando estava sentada num campo. Olhou-a fixamente, sorriu, ela retribuiu,
- Olá! - diz a criança
- Olá! Que lindo boneco que és. Estás sozinho? - diz a Joaninha
- Obrigado. - sorri o pequeno - Posso fazer-te uma pergunta?
- Claro que sim.
- O que fazes aí sentada?
- Estou a pintar! Olha... - a Joaninha mostra o seu desenho
- Áh! É ali...que bonito! Parece uma fotografia, verdadeira.
- É! É ali, Obrigada! - sorri a Joaninha
- Os adultos também gostam de pintar?
- Gostam! Alguns, fazem disso, o seu trabalho diário, como eu.
- Pintas todos os dias?
- Sim.
- E como se chama esse trabalho?
- É uma profissão...sou pintora, desenhadora, Estudei muito, às vezes dou aulas, para ensinar a pintar e a desenhar, outros, pintam para brincar. Esse é o meu trabalho. O que fazem os teus pais?
- São professores dos grandes.
- Áh! Muito bem. O que ensinam?
- A minha mãe ensina Francês, o meu pai Ciências.
- Hummmm... duas áreas muito bonitas. Achas que eles gostam do que fazem?
- Acho que não gostam muito. Às vezes chegam muito zangados, e resmungam dos crescidos, do trabalho, de reuniões.
- Pois. Imagino!
- E tu, gostas do que fazes?
- Adoro! Não estou com ideias todos os dias, mas quase sempre desenho ou pinto qualquer coisa, Tu, andas no colégio?
- Sim. No meu colégio, também fazemos isso...pintamos uns desenhos, ou com os dedos.
- Que giro! É muito bom. Gostas mais de pintar com pincéis, lápis, marcadores, tintas, ou com os dedos?
- Gosto de todos!
- Que bom.
- Posso fazer-te outra pergunta?
- Claro!
- O que pintas?
- Olha, pinto muitas coisas diferentes, com tintas diferentes, tamanhos diferentes, imagens diferentes. Queres que pinte a tua carinha?
- Quero! - sorri vaidoso
- Boa. Senta-te aí onde quiseres, e podemos ir conversando um bocadinho.
- Está bem!
O menino escolhe um sítio verdejante, encostado a uma árvore, ao lado da joaninha, à sombra, numa posição que a deixa deliciada, pela doçura do olhar, do sorriso e da inocência dele. Enquanto ela pinta, ele pergunta:
- O que pintas mais?
- Pinto...água, pássaros, árvores, pedras, montanhas, minas, animais que andam por aí ou que vejo. Pinto...O sol, as nuvens, a lua, as estrelas, os planetas, as flores, as borboletas, os cães, os gatos, os cavalos, os pintainhos. Pinto caras, casas bonitas, baloiços, crianças, bebés, casais. Pinto o nascer e o pôr do sol, o dia e a noite, pinto coisas da cidade, da aldeia, pinto sonhos, palavras, cores, tristezas, alegrias, festas, risos, choros, mar, praia, areia, peixes, algas, lagos, montanhas, campos, objetos, Pinto a chuva, a neve, o vento, a trovoada, vulcões, o que penso, o que sinto, muitas coisas.
- Áhhhh!!! Tanta coisa. Como consegues? - pergunta o menino encantado
- Consigo. - ri - Não pinto tudo no mesmo dia, nem todos os dias, porque também existem outras coisas para fazer, como limpar a casa, fazer comprar, preparar as aulas, ler, escrever, sair com amigos, mas são coisas que gosto, e que me chamam mais à atenção.
- Que giro. Dizem que falas sozinha, falas? Com os teus amigos invisíveis?
Ela dá uma gargalhada.
- Não, querido! Falo com a Natureza,
- Com a Natureza?
- Sim.
- E ela fala?
- Fala. Eu tenho longas conversas com ela, como estou a falar contigo agora. Às vezes até desenho coisas que ela me conta, e pede!
- A sério?
- Sim. Fala e ouve. Quando ela está triste, eu também fico, e desenho a nossa tristeza! Quando está feliz, eu também fico, desenho coisas mais felizes.
- Nunca falei com ela, nem a ouvi.
- Mas podes falar com ela, que ela ouve, e também fala connosco! Todos podemos conversar com ela, e ela responde-nos! Mas temos todos os dias muita pressa, que não a ouvimos, nem falamos com ela, Um dia destes podes experimentar.
- Está bem! Tu podias mostrar-nos esses desenhos todos.
- Sim, estava a pensar nisso. Um dia destes.
- Onde moras?
- Ali, naquela casa em forma de cogumelo!
O desenho está pronto, ela mostra. O menino, solta exclamações de espanto, ela mostra um espelho.
- Está igual! - diz o menino
- Gostaste?
- Adorei.
O menino abraça-a carinhosamente, com um sorriso de orelha a orelha, ela retribui, e dá-lhe um beijo sonoro na bochecha.
- És um menino muito especial. - dia a joaninha
- Sou? Porquê?
- Porque és carinhoso, sensível, educado.
Ele sorri.
- Obrigado.
- Foi um gosto enorme este bocadinho contigo.
- Também gostei muito.
Os Avós do menino chamam-no, e quando veem que ele está com a joaninha ralham com ele.
- O que estás a fazer, rapaz? Deixa a senhora em paz, - ralha a Avó
- Não incomoda nada! Ora essa, foi um gosto,
- Estivemos a falar um com o outro, olhem o desenho que ela fez de mim, que lindo que está! - diz o menino
Os Avós sorriem encantados.
- Que lindo! - diz a Avó
- Está maravilhoso! - diz o Avô
- Perfeito, parece mesmo ele. Desculpe, é curiosidade de criança. - sorri a Avó
- Não tem problema, é um menino muito especial. Parabéns aos pais e aos Avós pela educação que lhe deram.
- Muito obrigada! - dizem os Avós a sorrir
- Quanto temos que pagar, por esta obra? - pergunta o Avô
- Ora essa, não têm de pagar nada, fiz com todo o gosto, porque quis. - diz a Joaninha
- Mas….- dizem os dois ~
- Não é justo! - diz a Avó
- É justo, sim. - diz a Joaninha a sorrir - Se quiserem conhecer os meus trabalhos, estejam à vontade para visitar a minha casa ali naquele cogumelo.
- Muito obrigado. Iremos lá com certeza!
Os Avós conversam mais um pouco com a joaninha, muito simpáticos. Ficaram tão curiosos, que contaram aos pais do menino, que adoraram e foram à casa da joaninha ver os trabalhos dela, compraram alguns, deram os parabéns, conversaram, riram, e elogiaram.
Os Avós, os pais, o menino falaram tanto dos desenhos e pinturas da joaninha que espalharam pela aldeia toda, pela cidade, pelas escolas, convidaram-na para fazer uma exposição, no parque da grande cidade, na aldeia.
Encanta muitas pessoas, e vende uns quantos quadros. Todos ficaram a saber o que pintava a joaninha. Com as suas pinturas ensinou os apreciadores a falar com a Natureza e a ouvi-la.
FIM
Lara Rocha
17/7/2026
E vocês, o que acham que a joaninha pintava?
Se vocês fossem a joaninha pintora, o que pintavam?



