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domingo, 8 de março de 2026

A viola mágica do pastor

        Era uma vez um pastor ainda jovem, que não tinha completado os estudos, só até ao nono ano, porque queria ajudar os pais, retribuindo o amor e o cuidado que lhe tinham dado, e gostava da vida no campo. 

        Levava uma grande manada de ovelhas, vacas, bois,  cabritos, vitelas, cavalos, burros e o cão, a pastar próximo da sua casa. Saía de manhã muito cedo, antes dos primeiros raios de sol, ainda via as estrelas pelo caminho, enquanto os pais, os avós e os tios, ficavam a tratar da quinta, a preparar os produtos da Terra com todo o carinho. 

        Os vizinhos faziam o mesmo. Lá ia ele, caminho fora, com uma viola que os pais lhe tinham oferecido, o telemóvel para gravar as músicas que tocava, fotografar coisas bonitas e um bloco de notas. O seu fiel amigo já sabia o que fazer, o gado espalhava-se por todo o terreno, pastava livremente, os pequenotes saltitavam, brincavam, corriam, alimentavam-se.     

        Bem atestados, deitavam-se, e o jovem apreciava os animais, sentava-se debaixo de uma árvore, deliciava-se com a paisagem, o gado, e muitas vezes, escrevia no seu bloco de notas, coisas que lhe surgiam na mente, pensamentos, emoções, ideias, fazia alguns desenhos, escrevia poemas, e tocava uns acordes na viola. O gado já estava habituado e não ligava. 

        Numa das manhãs, o jovem começou a compor uma música, com sons tristes. O gado para tudo o que estava a fazer e olha para ele. Nunca tinha acontecido antes. À medida que tocava, alguns animais sentiram tristeza na música. 

        Aproximaram-se, como se percebessem que o jovem estava triste, e o cão foi o primeiro a uivar, deitando-se nas pernas dele e lambendo-lhe as mãos. O jovem acaricia-o, sorridente. Os outros animais voltaram às suas atividades, porque como o viram sorrir, pensaram que não estaria triste. 

        O jovem escreve várias frases, com o cão ao colo, e compõe uma música triste. Misteriosamente, o gado fica quase imóvel, a ouvi-lo, e a olhar para ele, choram com lágrimas, baixaram as cabeças, e soluçam como se fossem pessoas, a quem a música lhes tocou na alma. 

        O jovem nem queria acreditar no que estava a ver. Animais a chorar. Seria da sua música? Mas os animais não têm sentimentos como as pessoas. Achava ele! O gado aproximou-se, circundaram-no, e cada um fez-lhe carícias, encostando as cabecinhas à cara do jovem, lambendo-lhe a cara, pondo as patinhas à volta do pescoço, e esfregando-se nele, ele ria e retribuía o carinho, outros, deitavam a cabeça nas pernas dele, e ele acariciava-os, sorrindo. 

- Obrigado, queridos animais! Sim, sabem uma coisa, nós seres humanos, temos dias em que nos sentimos mais tristes, outros mais alegres, às vezes tristes e alegres no mesmo dia, outras vezes, nem sabemos porquê...foi o que saiu! Mas...Eu estou a ver bem? Vocês estão a chorar? Com a minha música? Como pode ser? Porquê? 

        Cada um responde à sua maneira, com os seus sons. 

- Agora...vou tocar uma música alegre para ver o que acontece! - diz o jovem 

        Os animais olham para ele, expectantes. Ele começa a tocar uma música muito diferente, alegre, com ritmo, canta, e os animais começam todos aos saltos de alegria, correm eufóricos, como se de repente ficassem ligados à tomada, dançam como se fossem pessoas, parecem conversar e rir entre si, uns com os outros, e dançar uns com os outros. 

        O jovem ri à gargalhada, deliciado, mas ao mesmo tempo muito surpreso. 

- O que é que aconteceu aqui? 

        Experimenta novamente. Toca a melodia triste, e os animais param, vão ter com ele, a soluçar e a chorar, ele filma desde o início, e percebe que os bichos têm mesmo lágrimas. Esfregam-se nele, deitam-se no colo dele, abraçam-no com as patas, encostam as cabeças à sua cara, e recebem mimos. 

        O gado não sai da beira dele. Toca a melodia alegre, e filma, com os animais completamente eufóricos, cheios de energia, dão enormes saltos, fazem barulhos que parece que riem, encostam-se uns aos outros, parece que dançam como as pessoas, correm pelo campo, numa felicidade nunca vista com uma expressão que dava gosto. 

        O jovem dá umas belas gargalhadas, e escreve. O gado acalma, mas sempre a olhar para ele, para ver se a seguir vem mais alguma coisa, o rapaz toca outra melodia, com uma parte triste, e filma, o gado triste, com lágrimas nos olhos; mas tinha outra parte alegre, e os animais voltam a fazer uma festa.

        Hora de recolher, o cão junta todos, e vão para casa. O jovem conta aos familiares, o que aconteceu. Os familiares acham que ele estava a imaginar, e riram. No dia seguinte, foram ver, como não tinham acreditado, e até o próprio jovem não sabia se nesse dia os animais iam fazer o mesmo, mas tentou.

        O gado estava a pastar, ele toca a música triste, e os animais fazem o mesmo, soluçam, choram com lágrimas, vão para a beira dele, lambem-no, esfregam-se nele, encostam as cabeças na cara dele, põem as patas como se estivessem a abraçá-lo e uma expressão triste. Os adultos também não queriam acreditar, mas viram que era verdade, ficaram de boca aberta. 

        Toca a música alegre, e os animais voltam a fazer o que fizeram no dia anterior, a dar grandes saltos e a falar na sua linguagem própria, a correr alegremente, até parecem  estar a sorrir, vão uns contra os outros, encostam-se, como se estivessem a dançar, numa alegria nunca antes vista, nem imaginada. 

        O jovem e a família nem querem acreditar, e desatam à gargalhada. 

- Como é possível? - pergunta a mãe 

- Não sei, eu perguntei o mesmo! - diz o jovem 

- É incrível, parecem os humanos, quando ouvem músicas mais tristes, e que lhes lembram coisas tristes também, e nas músicas alegres, parecem ficar tão felizes, que dá gosto! Até dá a impressão que se riem. - diz o Avô 

- Tão queridos, na música triste, vieram todos ter contido, dar-te mimos, e estavam a chorar, parece que sentiram a música! - diz a Avó 

- Pois foi! - dizem todos 

- É verdade, já ontem fizeram isto, e quando toco a música alegre, ficam naquele estado! 

        Todos riem. 

- Essa viola deve ter qualquer coisa.- diz uma tia 

- Não sei o quê! - diz o jovem 

- Gostavas de ir estudar música? - pergunta um tio 

- Sim. - diz o jovem 

- Quando eu for à cidade, muito em breve, vou inscrever-te numa escola de música. Aceitas? 

- Com muito gosto! Mas...papá...mamã...avós...?! 

- O que tem? - perguntam todos 

- Vocês deixam? - pergunta o jovem 

- Claro que sim, rapaz! - dizem em coro 

- Mas e...para vos ajudar? - pergunta o jovem 

- Não te preocupes com isso! - dizem todos 

- Segue o teu sonho, nós cá nos arranjamos. 

        O rapaz fica emocionado, a sorrir, abraça cada um dos elementos da família, beija-os e agradece. E assim foi, o tio levou-o, inscreveu-o numa escola de música, o rapaz não cabia nele de felicidade. Nas horas vagas, estudava e guardava na mesma o gado, treinando o que aprendia, com os animais, e estes reagiam. 

        As reações dos animais às suas músicas e à viola, deixavam-no encantado, e a rir à gargalhada. Parecia que mostravam agrado, desagrado, alegria, tristeza, sensibilidade, choravam, demonstravam e davam carinho ao jovem, riso, carinho, e parecia que sentiam a música.

        O gado passou a ser o seu público, e ao mesmo tempo, uma preciosa ajuda para ele compor músicas, dependendo das reações dos animais ao que ele cantava e tocava. Tornou-se num cantor e tocador de viola muito famoso, mas continuava humilde e a ajudar a família, com um enorme carinho por todos e pelos animais, uma grande simplicidade e simpatia, por isso, era adorado por todos, na escola. 

        Ele convidava os amigos para tocarem para o gado, e este reagia, tal como às músicas do jovem. Todos adoravam e divertiam-se à grande, compunham músicas em conjunto, riam muito, conversavam, trocavam impressões, brincavam. 

        O jovem dava muito valor à família, de quem também era o orgulho! Começou a dar espetáculos para a aldeia, muito aplaudido e apreciado, mesmo com os amigos, depois, tocavam nas ruas, para juntar algum dinheiro, até que uma editora de música, ouviu-os e convidou-os para gravarem as suas músicas. 

        O jovem pediu para que colocassem vídeos que ele tinha feito dos animais, e das diferentes reações às suas musicas. A editora aceitou e adorou. Foi um sucesso de vendas, e todo o público ouvinte, queria conhecer os animais que reagiam às músicas, como se fossem pessoas. 

        Iam á quinta, ver os animais, e os jovens tocavam ao vivo, para o gado, para os visitantes, sempre com reações que deliciava o público. 

A viola seria mesmo mágica, ou seria o pastor, com a sua bondade, o seu coração humilde e simples? O que acham? Acham  que os animais sentem e reagem às músicas como nós? A música também vos faz ficar felizes, e tristes, como os animais do jovem? 

Podem deixar nos comentários, se quiserem. 

FIM 

Lara Rocha 

7/Março/2026 

 

        

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

O Guarda - Chuva gigante

    Era uma vez uma criança de quatro anos que vivia com os pais e os avós numa casa de campo, onde o tempo atmosférico era muito incerto. 

    Ela era uma criança feliz, e brincalhona, adorava ajudar os Pais e os Avós nas tarefas, cantarolava, era muito carinhosa, e gostava muito de animais. 

    Estava habituada a lidar com eles. Um dia, numa manhã de muita chuva, viu no campo um grupo de cãezinhos pequeninos, quase acabados de nascer, com a cadela mãe, muito bonita, e muito meiga. 

    Tanto a cadela como o cão, estavam a tentar todas as maneiras para proteger os filhotes, da chuva, e aflitos à procura de um sítio mais abrigado. 

    Os cãezinhos estavam nervosos, agitados, porque a chuva era muita, o vento também, e ouvia-se trovoada ao longe. A menina, com o seu guarda-chuva foi ter com eles. 

    Cheia de pena, sentou-se na pedra e fez de tudo para se abrigar a ela e aos cãezinhos, pegando nos pequeninos ao colo, os cães pais conseguiram abrigar-se um de cada lado, sempre de olho na menina e nos filhotes. Mas confiaram nela, sentiram que era uma boa menina.

    Ela estava deliciada a fazer mimos aos cãezinhos e aos cães. Os pais e os Avós andavam aflitos à sua procura, chamavam-na, procuraram-na, muito preocupados, mas não a viam, até que ela grita: 

- Estou aqui! 

    Os pais e os avós correm para ela, e a mãe ralha: 

- Onde estavas? Com esta tromba de água vens cá para fora, nem nos avisas, nem nada…! 

- Estamos fartos de correr isto tudo à tua procura! - ralha o pai. 

- Estou aqui a abrigar uma ninhada de cãezinhos e os pais dos cãezinhos. Olhem que lindos! 

- Já sabes que tens de nos avisar para onde vais! - diz a Avó 

- Está bem, parem de ralhar comigo. Desculpem. Estava a passear por aqui e encontrei estes cãezinhos à procura de abrigo! Coitadinhos! Olhem que pequeninos, muito assustados, e podiam afogar-se com esta chuva toda. 

    Os adultos ficam deliciados com o carinho e o gesto da menina: 

- Que linda menina! - elogia o Avô 

- Óhhhh….tão queridos! - dizem todos enternecidos 

- Olhem como eles estão felizes no meu colo, e no meu mimo. E os pais deles…

    Os pais e os avós acariciam os cães e os cãezinhos. 

- Vou construir uma casota para eles! - Diz o avô 

- Boa, Avô! Obrigada. Acho uma ótima ideia! 

- Agora anda para dentro, porque estás a ficar toda molhada! - recomenda a mãe 

- Traz lá os bichinhos! - diz o Avô 

- Isso! Para já metemo-los debaixo das escadas. Tem lá espaço  suficiente. - diz a Avó 

- Está bem! - dizem todos 

    Todos pegam nos cãezinhos e colocam-nos debaixo das escadas como planeado. A mãe vai buscar bacias com água para eles beberem, umas almofadas de outros cães que já tiveram, lençóis e cobertores de quando ela era bebé, comida, e os bichinhos agradecem a abanar o rabo, com lambidelas. 

    Recebem muitos mimos, enquanto isso, o Avô constrói uma casota média em madeira para os cães. Quando está pronta, põe-na à beira das escadas. 

    Os cães, felizes, andam entre as escadas e a casota, quando está sol, andam ao ar livre, sempre à beira dos donos, e a correr, a brincar com a menina, e quando estão cansados, recolhem. 

    A menina, os pais e os avós enchem os cãezinhos de mimos, alimentam-nos, brincam com eles, e tornam-se uma excelente companhia.

    Num outro dia de chuva, a menina pega num passarinho de cada vez, que não conseguia voar, pousa numa árvore, e abriga-o, onde já estavam mais uma série deles, num grande guarda-chuva que já não usava. 

    Os pais apreciaram de longe: 

- O que é que ela está a fazer? - pergunta a mãe 

    Vão ter com ela: 

- Anda para dentro! - grita o pai 

- Estou a abrigar uns passarinhos, que estavam encharcados fora da árvore e não conseguiam voar. Os pais sorriem orgulhosos, a mãe diz para deixar lá o guarda-chuva que já não usa, e ir para casa. 

    A menina obedece. Vão cuidar dos cães. A menina conta dos passarinhos e o Avô constrói várias gaiolas grandes para pendurar nas árvores, e abrigar outros passarinhos. 

    A menina abraça o Avô, e agradece. Quando chovia, ela chamava os outros animais da quinta, juntamente com os pais e os avós, abrigava todos até à porta das celas, fazia mimos e recebia mimos dos animais. 

    O avô ficou tão orgulhoso que construiu e ofereceu à menina um guarda-chuva gigante, leve, para ela pegar porque ainda só tinha quatro anos. 

    Mas muito grande e largo, para ela continuar a abrigar com carinho todos os animais que precisavam. 

    Um dia de sol, quando estava a secar o guarda-chuva gigante, colorido, viu que estava lá debaixo uma ninhada de gatinhos a miar. 

    Ela fecha o guarda-chuva, e manda-os para o campo. Chama o avô, que pensa que os gatinhos devem ter dormido lá, a avó alimenta-os, faz-lhes carinhos e leva-os para a casota de outros gatos que já tiveram. 

    Ela adorava aquele guarda-chuva gigante, e com ele abrigar os animais. Os pais e os avós apreciavam-na encantados, pela sua bondade, e o avô também adorava contruir casotas para animais que foram lá parar. 

    A menina e toda a sua família tinham um coração tão grande, ou maior do que o guarda- chuva, e muito amor aos animais. 

                            FIM 

                        Lara Rocha

                       17/Julho/2024 


    

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

O que faz um girassol à janela?

        Era uma vez uma montanha com casas de pedra, muito bonita, em paisagem, e na decoração das casinhas, onde viviam grandes famílias. Já chovia há muito tempo, e havia neve. 

        Os habitantes já estavam habituados, mas uns girassóis que só foram para lá há pouco tempo, antes da chuva, não sabiam, nem estavam habituados àquele frio e tempo chuvoso. 

        Nos campos juntavam-se para tentar aquecer-se, virados uns para os outros, com a energia que tinham conseguido armazenar nos meses em que houve sol. Mas como estava a chover, os habitantes, a partir de uma certa altura, recolheram os girassóis para as suas casas à espera que chegasse o sol. 

        O sol não dava sinais de voltar tão cedo. Alguns habitantes punham os girassóis 
às janelas, nos alpendres, para não se molharem mais, e sentirem pelo menos alguma claridade. 

        Não era a mesma coisa que o sol, como os girassóis precisavam e gostavam, mas pelo menos não se estragavam com a chuva. Estavam murchos, de tristeza, com as pétalas quase fechadas sobre o seu centro, e pelo menos viam a paisagem.  

        Passavam uns miúdos pequenos, olhavam para as janelas e comentavam: 

- O que é que aquelas coisas feias estão a fazer ali na janela? 

       Riam à gargalhada

- Os meus Avós também têm aquilo à janela. 

- Para quê? 

- Deve ser para afugentar os pássaros. 

        Gargalhadas 

- Só se for. São mesmo feios, nem deviam estar à janela. 

- Também acho, deviam estar no campo. 

- Mas no campo e com este frio, estavam ainda piores. 

- Pois. 

- Ou no lixo! 

- Ou ainda a servir de adubo. 

- Mas à janela, com as pétalas feias, quase em cor, todos melados, também não ficam bonitos! 

- Não. 

- Óh girassol ou coisa parecida...o que fazes à janela? 

- Estás a ver quem passa, é? 

- Ou à caça de um namorado…? 

        Gargalhadas. 

- Podem esperar sentados, aí, e com esse aspeto, ninguém vos quer! 

        Gargalhadas. Os girassóis ficam ainda mais tristes, e só respondem: 

- Estamos à espera do sol! - dizem os girassóis em coro 

- O sol não vem tão cedo. - diz uma menina 

        Os miúdos riem e seguem caminho ainda a dizer mal dos pobres girassóis. Quando os girassóis fechavam os olhos, sonhavam com o sol, imaginavam-no, e sorriam, parecia que conseguiam senti-lo, mas a tristeza voltava, quando olhavam para a janela, e o sol não estava lá. 

        De vez em quando, o sol mostrava os seus raios entre as pesadas nuvens, chegava aos girassóis e eles abriam um sorriso de pétala a pétala, deliciavam-se, com aquele carinho. 

        Mas era sol de pouca dura, porque a seguir voltava a desaparecer. Lá ficavam outra vez tristes, e ainda mais, quando os miúdos passavam e diziam que eles estavam feios. Eles imaginavam que sim, sem sol, e como se sentiam frios, com as pétalas caídas. 

        Insistiam em perguntar: 

- O que faz um girassol à janela? 

- Nada! - respondia uma criança 

- Papa moscas ou insetos! - diz outra 

- Está à espera do príncipe encantado! 

        Todos dão uma gargalhada, um girassol respondia, triste: 

- Maldosos! Estamos à espera do sol. Vocês também gostam dele, não gostam? 

        Os outros estão tão tristes que nem sentem forças para responder, apenas deixaram cair as lágrimas. Fechavam os olhos, pediam mentalmente para que o sol voltasse rápido, porque estavam fracos, e quase não se aguentavam. 

- Gostamos, mas já sabemos que não vai aparecer tão cedo! 

- Que crueldade. - responde outro girassol

- Vão-se embora! - grita outro girassol 

- Tenham respeito pela nossa dor e tristeza. 

        Os miúdos saem às gargalhadas. À noite, os girassóis olhavam tristes para as estrelas, e pediam um desejo: que o sol voltasse rapidamente! Pensavam que as estrelas não estavam a ouvi-los, mas ainda sentiam alguma esperança.  Fechavam os olhos, imaginavam um sol maravilhoso à sua frente, sonhavam com o sol, recordavam o seu calor, e sorriam quando acordavam. 

        De repente passa um menino mais crescido e sensível que não gosta dos comentários que os mais pequenos fazem aos girassóis. Parou a olhar para eles, muito pensativo, triste, e teve uma ideia genial. 

        Bateu às portas, e sugeriu aos moradores, colocarem uma lâmpada da cor do sol, para aquecer os girassóis. Os moradores ficaram surpresos, porque nunca tinham pensado nisso, mas experimentaram. 

        Puseram uma lâmpada amarela na tomada mais próxima dos girassóis, e aconteceu magia...os girassóis viraram-se de imediato para as luzes amarelas, tão felizes, que as pétalas abriram de um lado ao outro, estiveram assim vários dias, sentiam um calor muito semelhante ao do sol, e ficaram com outro aspeto. 

        Talvez os girassóis soubessem que não era o sol deles, mas muito semelhantes, também os aquecia, e deixava-os abertos, enquanto a lâmpada estava acesa. Os moradores estavam encantados! Agradecera  ao jovem, e o próprio ficou orgulhoso, feliz com a mudança.

        Quando os miúdos passavam, viram como estavam bonitos, e nem queriam acreditar. Agora já diziam: 

- O que faz um girassol á janela? 

- Mostra a sua beleza! - responde uma menina 

- O que aconteceu para eles estarem tão bonitos, parece que estiveram ao sol! 

- Mas não houve sol. 

- Ou será que houve sol só para eles? 

- Não sei, mas estão maravilhosos, como novos! 

- Pois estão. 

        Os girassóis riem à gargalhada: 

- O sol apareceu para quem mereceu! - diz um girassol 

       Todos os girassóis riem à gargalhada 

- Eu não o vi! - diz um menino 

- Que pena! - diz um girassol irónico, e os outros riem 

- O sol vai voltar em breve. - comenta outro rapaz 

- Esperamos nós! - acrescenta outra menina 

        Os girassóis riem à gargalhada, e os meninos viram costas, envergonhados. O sol, finalmente apareceu, ao fim de vários meses de chuva, neve e frio. Cheio de luz, cheio de força, brilho e calor. 

        Os habitantes das casas, mudam-nos para os campos, plantam-nos novamente, e  não podem estar mais felizes, com o sol verdadeiro, crescem de repente, abrem como nunca antes visto, sorriem de pétala a pétala, brilham de felicidade, como se tivessem brilhantes amarelos colados. 

        Agradecem aos moradores que os acolheram, agradecem ao jovem que deu a ideia da lâmpada, e dão gritos de alegria, agradecimento, ao verdadeiro sol, que parece acariciá-los e sorrir-lhes. 

        Os moradores cuidam deles com todo o carinho. E o sol devolve toda a beleza que a chuva e o frio tinham tirado aos girassóis, estão radiantes. Quando é noite, estes juntam-se para continuarem a receber o calor do sol, e a sua energia saudável. 


                                                                                Fim 

                                                                        Lara Rocha 

                                                                    13/Fevereiro/2026 


E vocês? 

O que respondiam se fossem girassóis à janela, no Inverno? 

Como se sentiriam? 

E ao ouvir os comentários dos meninos? 

O que acharam da ideia do jovem? 

E vocês, o que faziam? 

Gostam de girassóis? 

Se fossem estrelas, realizavam o desejo dos girassóis, que eles pediam? Como? 

Podem deixar nos comentários, se quiserem. 



    

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

O boneco de neve medricas, e o boneco de neve friorento

        Era uma vez uma aldeia gelada, com casas e jardins, cobertos de neve, bonecos de neve, numa noite com um frio cortante. Um dos bonecos de neve sentia medo do escuro, e choramingava. 

       Os amigos ouviram chorinhos e perguntaram: 

- Estou a ouvir choramingar. - comenta um 

Quem está aí a choramingar? - pergunta outro 

        O boneco sentiu muita vergonha de dizer que era ele e calou-se. Ficaram em silêncio. Passado algum tempo, o boneco volta a choramingar. 

- Outra vez? - pergunta outro muito intrigado 

- É ele… - descobriu outro que estava ao lado 

- Quem? - pergunta outro 

- Este! - aponta o boneco 

- Ai, que vergonha (murmura). Para que é que disseste que era eu? - diz o boneco ofendido 

- Porque ouvi agora que és tu. Todos nós ficamos preocupados, ouvimos chorinhos, não sabíamos que eras tu. 

- Não sei porque tens vergonha! Todos nós choramingamos, ou choramos mesmo. 

- Está bem! Fui eu. - reconhece o boneco 

- E que se passa? 

- Que vergonha…! 

- Vergonha? - Perguntam todos surpresos 

- Porque tens vergonha? - pergunta outro boneco 

- Por estar a choramingar. - diz o boneco 

- E porque estás a choramingar? 

- Porque, porque...porque…

- Porque…? - Dizem em coro 

- Vá lá, diz lá! Estamos aqui todos. Podemos ajudar-te. 

- Porque tenho medo do escuro...ai...quero um buraco para me esconder! - diz o boneco, nervoso. 

Todos os bonecos dão umas belas gargalhadas. 

- Tens medo do escuro? - diz um a rir

- Porquê? - pergunta outro 

- Não sei. Está tão escuro! - comenta o boneco assustado 

- Mas há luzes...não está totalmente escuro! Olha para cima de ti, ali… A Lua! As estrelas, as luzes das casas…

- Estou de costas para as casas… 

- Mas consegues ver-nos. 

- Muito pouco, 

- Sabes que estamos muitos, aqui! 

- Acho que sim! 

- Então não viste, quem nos pôs aqui? 

- Sim, mas estava claro, Agora está escuro. 

- E depois? O escuro não te come! 

- Não tem nada de especial. 

- Porque tens medo? 

- Não sei. Parece tudo tão diferente...tão...grande! Cheio de sombras escuras. 

- Achas que são monstros, é? 

- Talvez! 

- Que maluquice não existe nada disso. 

- Se não estivesse escuro, não conseguias ver a Lua, e as estrelas....olha que bonitas que elas são! Uau! - diz um boneco 

- Nem estás sozinho. Olha quantos estamos aqui? As sombras que vês, somos nós. 

- Ai é? - pergunta o boneco envergonhado 

- Claro! - Dizem todos

        Os bonecos conversam com esse medricas, e riem, ele percebe que afinal não havia razão para sentir medo das sombras que viam, porque eram os seus amigos. 

        Mas outro boneco de neve, tremia como uma vara verde, estava capaz de se desmontar, e descongelar. Os amigos olham para ele, e o que era medroso comenta a rir: 

- Olhem, também está com medo, até treme! 

Todos riem: 

- Não...não estou a tremer de medo, estou a tremer de frio! - diz o boneco 

- Com frio? - perguntam todos a rir 

- Sim! - responde o boneco a tremer 

- Não pode ser....tu és de gelo! 

- E estás no gelo, como nós. - diz outro a rir 

- Pois, mas estou a sentir muito frio. Vocês estão bem vestidos, e agasalhados, mas eu não! 

- Bem, até aí tens razão, mas não era para sentires tanto frio. 

- Se calhar estás doente! - comenta outro a rir 

- Acho que não. - responde o boneco 

- Gostávamos de te ajudar, mas...não sei como! 

        Parece que uma criança que espreitava pela janela da sua sala, de uma das casas ouviu. Pediu aos Avós para irem com ela, levar roupa para aquele boneco de neve, que estava sem roupa, e não era justo estarem todos vestidos, menos ele. 

        Os Avós riram, e primeiro não queriam ir, mas a menina pediu à mãe, que riu à gargalhada com a preocupação da filha, mas pegou em roupas e disse que podia vesti-lo. 

        A criança sai da sala toda contente, aos saltinhos, de mão dada com a mãe e o pai, e vestem o boneco de neve, da cabeça até aos pés, ainda põem peças de roupa extra nos outros. 

        O boneco friorento suspirou de alívio, sorriu, e não cabia nele, de felicidade. Os outros também ficaram bem mais confortáveis e sorriram. 

- Olha Mamã, olha Papá, estão a sorrir! - diz a menina também a sorrir

        Os pais riem, e os bonecos de neve também, mas não são ouvidos. Que confortáveis. Os bonecos queriam agradecer, não sabiam como. Os pais tiram fotos: 

- Agora sim, estão mais quentinhos. Estava com pena deste, e não era justo, os outros todos vestidos e este não! Que bonitos. - comenta a menina a sorrir 

- Achas que eles sentem frio como tu? São de neve, nós é que gostamos de brincar e de os vestir, mas não acredito que sintam frio. 

- Eu estava a sentir frio..- comenta baixinho o boneco friorento 

        Todos riem.  

- Vamos para dentro, que está muito frio! - diz a mãe 

- Áh! Não sou só eu… - comenta o boneco friorento 

- Eles são pessoas, as pessoas sentem frio, nós não! - comenta um boneco 

- Obrigada, querida menina! - dizem todos os bonecos 

        A menina manda beijinhos aos bonecos, e eles sorriem. 

- Tão querida! - comentam os bonecos a rir 

        Os humanos voltam para casa, e os bonecos passam a noite divertidos, bem quentinhos. Ficam maravilhados a ver o nascer do sol, que começa a aparecer, o boneco medroso abre um sorriso de orelha a orelha, olha em volta: 

- Áh! Realmente são vocês… - ri - que bonitos! 

- Tu também estás. - dizem todos 

- Tanta Luz… uau! É pena não haver esta luz toda quando está escuro. 

- Olha, tudo a brilhar à nossa volta! - diz um boneco a sorrir 

- Que lindo! - dizem todos com um sorriso de orelha a orelha 

- Será que a menina espalhou brilhantes no chão? - pergunta o boneco friorento 

- Não, é o reflexo do sol na neve! - explica outro 

- É mágico! - diz o boneco friorento 

- Pois é. - concordam todos 

- Vamos dar uma volta por aí, enquanto a menina não aparece? - propõe um dos bonecos

- Vamos. 

- Mas é melhor deixarmos uma peça de roupa para sabermos onde estamos. - sugere um boneco

- Boa ideia! - concordam todos 

- Mas depois ficamos com frio! - diz o boneco friorento 

- Não...deixa aí o cinto, por exemplo, ou o chapéu. 

- Está bem. 

        Cada um deixa uma peça de roupa no lugar, e vão passear alegremente pela aldeia, sobre a neve, encantados com as gotas de orvalho e a neve penduradas nos pinheiros, nas ervas, os flocos nas janelas, nos telhados, nas flores, lagos e bancos, no chão. 

        Conversam uns com os outros, sorriem, riem, e voltam para o lugar, põem a peça de roupa que deixaram, e pouco depois aparece a menina, a espreitar. 
Logo que está pronta, vai brincar com eles. 

        Ainda ficam lá mais uns dias. O medricas perde o medo do escuro, aprendeu com os amigos, a olhar para outros sítios, as estrelas, a lua, e conversavam com ele. O friorento deixou de sentir frio. 

                                                                     FIM 
                                                              Lara Rocha 
                                                             01/01/2026 

E vocês? 
O que faziam, para ajudar o medricas e o friorento? 
Se tivessem no vosso jardim, bonecos de neve: um deles com medo do escuro, o outro friorento? 

Já fizeram bonecos de neve? Vestiram-nos? 

Podem deixar nos comentários, se quiserem. 

                                                               




 

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

O mistério dos pinheiros iluminados

 

Pintado a acrílico 


   
Era uma vez um grupo de seres especiais, ajudantes do Pai Natal, a quem este atribuiu missões muito importantes! Lá foram eles todos felizes, a voar, por cima da neve, a cantarolar e a ver as luzes da cidade mais próxima. Cada um levava um grande saco com alguma coisa especial lá dentro. 

    Primeira missão, deixar um pinheirinho enfeitado, cheio de luzes e cores, em cada quarto de um Hospital. Tinham o poder de ser invisíveis, por isso, entraram em cada quarto, sem serem vistos, tiraram um pinheirinho do saco, e puseram com muito carinho na cabeceira das crianças e dos adultos que estavam doentes. 

  Já estavam enfeitados, com bolinhas de várias cores, enfeites diferentes, bonequinhos, comboios pequeninos, prendinhas de madeira, bengalinhas, estrelinhas, animaizinhos. 

     Faltava o principal...as luzinhas. Cada um saltitou de ramo em ramo, e dos seus pezinhos saíram as luzinhas de diferentes cores, como estavam lindos! 

     Eram pinheirinhos de amor, e as luzinhas, um desejo do Pai Natal, que todos melhorassem, recuperassem, ficassem curados. Até na entrada, e no quarto das mamãs que iam ter bebés muito em breve. E nas salas dos médicos e enfermeiros também. 

   Cada doente, recebeu um beijinho que deu luz, dos ajudantes onde deixavam os pinheirinhos, e um sussurro: 

- As melhoras!  

- Força! 

- Coragem! 

- Que este pinheirinho e este Natal tragam a cura. 

    De manhã, todos ficaram muito surpresos ao ver os pinheiros, e os ajudantes do Pai Natal, ficaram maravilhados, ao ver os enormes sorrisos, o brilho nos olhos de quem os recebeu. 

    De repente os quartos enchem-se de bolas de sabão, e estrelas. O amor do Pai Natal ajudou realmente a curar muitas crianças e outras pessoas que estavam doentes.

     Ninguém sabia como tinham ido lá parar, nem quem os tinha levado. Os ajudantes do Pai Natal, sentiram-se tão felizes, e tão orgulhosos, que até deixaram escapar umas lagriminhas brilhantes dos seus olhos ternurentos. 

      Deram as mãos, e pediram a cura de todos os doentes. O Pai Natal viu tudo, e não podia estar mais orgulhoso, até ele chorou de alegria, aplaudiu os ajudantes. 

    Depois, foram para a segunda missão: levar um grande pinheiro às aldeias mais isoladas, nos montes, onde viviam pessoas com mais idade, mais tristonhas e solitárias. 

     Os ajudantes estavam tão felizes que brilhavam todos, e sentiam-se cheios de energia. Só tinham vontade de dançar, cantar, brincar, rir, lá foram a conversar alegremente uns com os outros, enfeitar um grande pinheiro em cada aldeia isolada. 

     Os habitantes ainda estavam recolhidos, mas os ajudantes fizeram o seu trabalho lindíssimo. Com a felicidade que sentiam, cada um colocou um enfeite diferente nos guilhos do pinheiro. 

    Um deu várias cambalhotas no ar, e de forma mágica, surgem sininhos dourados, prateados, bolinhas de todas as cores, bonecos natalícios. Imagens mimosas, estrelas, casotinhas, livrinhos, arcos multicolores, lacinhos com as cores do Natal, bengalinhas, guarda chuvinhas, e outras figuras que cada um pendurou onde quis. E não faltaram docinhos natalícios. 

  Outros rodaram várias vezes à volta do pinheiro, para pôr fitas douradas, cintilantes, em diferentes lugares do pinheiro. Com os pezinhos, puseram raminhos e bolinhas de azevinho, coroas com bonequinhos do Natal, enfeites variados, e outras fitas de várias cores, de cima a baixo do pinheiro. 

    Deram as mãos, subiram e desceram, cantaram e riram no ar, o que os fez soltar brilhantes de todas as cores. Um ajudante ainda pôs espuma nas pontas dos ramos a imitar neve. 

    Que lindo que estava. Para acabar puseram duas estrelas como se estivessem abraçadas e a sorrir, no cimo dos pinheiros. 

- Faltam as luzes! - lembra uma ajudante 

- Pois é...! - confiram todos 

    Juntam-se todos, chocam as mãozinhas uns nos outros, e a felicidade, o amor que sentiam por estar a fazer isso, fez surgir centenas de luzes cintilantes, pareciam estrelas à noite, que preenchiam e percorriam o pinheiro todo. 

    Apreciaram de longe e dizem em coro: 

- Está pronto! 

- Como está lindo…! - diz uma a sorrir 

- Está mesmo. - dizem todos 

- Vamos a outro. 

    Em cada um dos pinheiros grandes, decoraram-no com muito gosto, coisas muito bonitas, arcos com palavras bonitas, bolas de todas as cores, bonequinhos, sininhos, bengalinhas, prendinhas, azevinho, espuma como se fosse neve, renas em peluche, sapatinhos, prendinhas, pacotinhos, fitas, brilhantes, e luzes.

    Enfeitaram vários pinheiros. Os habitantes nem queriam acreditar no que estavam a ver, quando saíram. Muito surpresos, intrigados, a soltar grandes exclamações e a perguntar quem tinha feito aquilo, se tinham visto alguém. 

    Não tinham visto nada, nem ninguém, mas estava mais que bonito. Todos se sentaram à volta dele a contemplá-lo, a conversar e reviver outros tempos, e à noite, ainda ficaram mais radiantes, com a quantidade de luzes. 

    Os ajudantes estavam realmente felizes, e o Pai Natal não podia estar mais orgulhoso. Foram para a cidade, deixaram um pinheirinho com todo o requinte e carinho, na varanda de quem vivia sozinho, e das pessoas com mais idade. 

    Os sorrisos e o brilho nos olhos de quem os recebeu, mesmo sem saber quem os tinha deixado lá, e como, preencheu os ajudantes e o Pai Natal. Alguns habitantes até abraçaram os vasinhos com os pinheiros, decorados com todo o carinho, e beleza. 

    Missões cumpridas, era altura de voltar para a Terra do Pai Natal, felizes e orgulhosos, trocam abraços, e palmas, com o simpático barbudinho, todos estavam com um brilho diferente e especial. 

  Além de ser quase Natal, sentiam-se ainda mais luminosos, preenchidos e felizes por tudo o que fizeram, por todos os sorrisos e olhos brilhantes que viram, e porque a luz dos seus corações fez muitas pessoas felizes, até curou. 

     Foi um grande presente de Natal para eles, que não é só material, às vezes as melhores prendas, são mesmo essas, um gesto, um desejo por quem mais precisa, um símbolo, recheado de pureza, boas intenções, amor e luz nos olhos, nos sorrisos, os abraços, os risos, as cores. 

    Regressaram ao trabalho, com mais vontade e alegria, porque ainda faltavam presentes para preparar, alegrar as crianças e os adultos. 

                                                            FIM 

                                                      Lara Rocha 

                                                   3/Dezembro/2025 



sábado, 4 de outubro de 2025

O susto coletivo

Foto de Lara Rocha (2016) 
Foto tirada por Lara Rocha (2016) 

     Era uma vez um grupo de crianças que seguia a caminho da praia, e passou por um pinhal, onde havia um passadiço. Felizes, a cantarolar, a conversar, a rir, quando de repente, a professora olha para os pés de um grande cogumelo e vê uma coisa comprida, castanha, enrolada. 

    Para, manda parar toda a gente, dá um grito estridente: 

- Cuidado, vamos fugir! Está ali uma coisa...parece um cobra grande! - grita aflita 

- Óh professora, eu acho que deve ser um gato deitado! - diz um menino 

- Ou outro cogumelo! Já vi muitos cogumelos muito diferentes, com formas esquisitas, uns ao lado dos outros, que vão para cima de outros, ou ficam inclinados sobre as cabeças dos outros.- diz uma menina 

- Óh professora, isso parece mais um tapete, um rolo de palha seca que alguém deixou aí para os animais, de feno.. - diz outro menino 

- Não se aproximem! - grita a professora 

- Acho que é um tapete velho, um rolo daqueles que se põe aos pés das portas, para não entrar vento! - Comenta um menino 

- É...a minha mãe e a minha avó também têm esses rolos, parece isso! 

- Eu acho que é um ouriço! 

- É uma ratazana. 

- Que nojo! - dizem todos num grito 

- Nada disso! Só pode ser um animal. E daqueles perigosos - diz a professora 

    A coisa que parecia uma cobra, comprida, enrolada e castanha, ou um rolo de palha, um tapete, um ouriço, acorda sobressaltada, endireita-se, olha para todo o lado, muito assustado e sobre à árvore rapidamente. Todos gritam em coro, assustados. 

- Uma cobra? Ouvi bem ou sonhei? Onde está? - pergunta o esquilo assustado 

- Um esquilo…! - gritaria e gargalhada geral 

- Sim, sou um esquilo! Onde é que está a piada? Nunca viram? Ouvi falar numa cobra, ou sonhei? Onde está ela? - assustado 

- Ouviste! Pensávamos que podias ser uma cobra! - diz a professora assustada 

- Não estás a ser simpática comigo! O que é que eu tenho a ver com isso? 

- Estava aí aos pés do cogumelo… já desapareceu! Mas temos que ter cuidado, não é? Vamos ver se está aqui próximo. 

    As crianças correm desorientadas, aos gritos, em várias direções, a olhar para o chão e para todo o lado. A professora ordena que se juntem. 

- Não. Desculpa jovem, eu é que estava aos pés desse cogumelo! A dormir! Acordei com os teus gritos. Nunca vi nenhuma cobra. A cobra que viste, devia ser a minha cauda, não? 

- Era dessa cor, da tua cauda. Mas eu tenho quase a certeza que era uma coisa dessas! Que nojo! - diz a professora 

- A minha cauda não tem nada a ver com esse animal. Queres confirmar? - reforça o esquilo

    Volta a descer a árvore, e fica novamente na mesma posição em que estava a dormir. A professora e as crianças voltam a gritar. O esquilo dá um salto, estremece: 

- O que viste agora? Minha Nossa! Tudo te assusta. Olha bem. - volta a deitar-se como estava. - Vê como é a minha cauda! (diz o esquilo a olhar para ela enrolado) 

- Áhhhh…estavas enroladinho! - diz a professora - é que só vi a tua cauda! Nunca e tinha visto por aqui. 

- E cobras, já viste? - pergunta o esquilo

- Felizmente não, mas...imagino que nestes sítios haja! - diz a professora 

- Sempre vivi aqui, nunca vi nenhuma! 

    As crianças riem sem parar, e a professora também. 

- Estão-se a rir? Também pensaram que era uma cobra não foi? 

- Sim! - Todas as crianças riem. 

- Desculpa, esquilinho! Não te queríamos assustar. - diz a professora 

- Não faz mal. - diz o esquilo a rir 

- Podemos dar-te um abraço, esquilo? 

- Sim, claro! 

    Cada menino e a professora fazem mimos e abraçam o esquilo, ele sorri. 

- Vamos até à praia! - diz a professora 

- Está bem! Boa praia, divirtam-se, e espero que não encontrem nenhuma dessas lá. - diz o esquilo a brincar 

    Começam todos a gritar outra vez, e aos saltinhos assustadas. O esquilo dá uma gargalhada: 

- Estou a brincar. Podem ter a certeza que não vão encontrar nada disso na praia, nem aqui! 

- Áh! Que susto. Ufa! - diz a professora. 

    O esquilo ri: 

- Assustas-te com pouco! Eu assustei-me mais com os vossos gritos, e quando ouvi o nome desse ser...que nunca vi por aqui, mas podia acontecer. Agora com as mudanças do clima, como ouço para aí dizer, e confirmo, tem acontecido coisas diferentes e estranhas! Essa podia ser uma delas. Mas para já, não. Vão descansados! - diz o esquilo a rir 

- Obrigada! - dizem todos 

    A professora lá segue para a praia com as crianças, sempre alerta, a olhar para todo o lado, e o esquilo volta a deitar-se mais um pouco, aos pés do grande cogumelo, enroscadinho, mas desta vez com o focinho virado para quem passava, para não assustar a professora nem as crianças outra vez. 

    Ainda deu umas boas gargalhadas sozinho, ao lembrar-se do susto da professora com a sua cauda. O esquilo adormeceu. As crianças foram para a praia com a professora. No regresso, para pedir desculpa ao esquilo, enquanto ele dormia, apanharam baldinhos com nozes e bolotas que viram no chão do pinhal, silenciosos, sorridentes, e maravilhados por ver um esquilo. 

    Deixaram os baldinhos na árvore ao lado, e seguiram caminho. Quando o esquilinho acordou, viu os vários baldes com alimento que ele adora. Percebeu logo que tinha sido a professora e as crianças que o deixaram lá. 

- Óh! Que simpáticos. Se voltarem, vou agradecer-lhes! - diz o esquilinho a sorrir

    E voltaram mesmo no dia seguinte de manhã, a professora e as crianças passam pelo mesmo pinhal. 

- Bom dia! - gritam todos 

- Bom dia! Ontem tiveram um bom dia de praia? - pergunta o esquilo 

- Sim, muito bom. Obrigada. 

- Hoje não se assustaram comigo. - diz o esquilo a rir 

- Agora já sabemos que és tu! - diz a professora 

- Áh! Boa. 

- Não encontraram nada, pois não...? - pergunta o esquilo 

- Felizmente não! - diz a professora 

- Que bom! Eu disse. - diz o esquilo a sorrir e acrescenta - Muito obrigado pela surpresa tão agradável, que me deixaram aqui! Se quiserem levar os baldinhos, já podem! Eu já guardei os alimentos! 

- Está bem! Obrigada. - dizem em coro 

- De nada, obrigada eu. 

- Foi para pedir desculpa pelos nossos gritos de susto que te acordaram, e por te termos confundido com aquelas coisas todas, uma delas aquele bicho. - explica a professora 

- E para agradecer. - diz uma menina 

- Áh! Não tem problema. Eu se calhar também me assustava. 

    As crianças pegam nos seus baldes e vão para a praia. 

- Até já. - dizem todos 

- Até já. Boa praia. - diz o esquilo 

- Obrigada. - dizem todos 

    Foram para a praia, e o esquilo ficou no pinhal. À chegada e à saída todos se cumprimentavam, abraçava, o esquilo, faziam-lhe mimos, e ele sorria, retribuía. Mesmo quando o viam enroscadinho, só mostrava a cauda, depois do primeiro dia, não voltavam a gritar, nem a assustar-se. 

    Afinal a cauda do esquilo, não era o que parecia. Isto é o que acontece connosco, quando vemos algumas coisas que parecem ser o que na realidade não são. Nem tudo o que parece é. 

                                                                                    FIM 

                                                                                Lara Rocha 

                                                                              4/Outubro/2025 

E vocês? O que é que já viram, que vos parecia uma coisa, e na realidade era outra? 

    Podem deixar nos comentários, se quiserem.