- És tão feia! Não sei como te chamam Giralua. A Lua é bonita, tu não tens nada de bonito! - comentava um cavalo.
- Eu tinha vergonha de andar por aí a desfilar com essa cor. - dizia uma coelha com risinhos
- Eu pintava logo o pelo, de outra cor! Que horror. - comenta um ouriço cacheiro
- Parece uma anémica! - repara um pássaro cheio de cores
- Até é uma ofensa para a Lua que está lá em cima, saber que tem uma égua tão feia com uma parte do nome dela! - ri um canguru
- Feiosa! Não tem ar de égua, sequer. Parece uma coisa deslavada.
- É! Um pedaço de tecido tingido por lixivia ou estragado. - comenta uma cegonha
Ela não respondia, mas ficava triste e com vergonha de si mesma, mas toda a sua família era assim, era genético. As outras éguas e cavalos não a chamavam para brincar. Quando ela se aproximava, escorraçavam-na, gritavam-lhe, davam-lhe coices.
- Sai daqui, óh criatura estranha! - diz uma égua castanha
- Porque é que eu sou criatura estranha? - pergunta a égua Giralua
- Porque tens o pelo dessa cor!
- E depois? Vocês também não têm todos, nem todas as mesmas cores de pelos. Sou uma égua como vocês.
- Não podes ser uma égua como nós, nenhuma de nós é feia, com o pelo dessa cor.
- Ainda por cima, com esse nome!
- Parece que vens de outro planeta.
- O meu pelo é assim, é genético. Toda a minha família é assim! - explica Giralua
As éguas e cavalos desatam a relinchar e a gritar, a correr assustados.
- Uma doença....ááááhhhh.... sai daqui! - gritam todos
- Não é nenhuma doença! É um sinal de toda a família, como vocês têm! São mais parecidos com o vosso pai, ou com a vossa mãe, têm coisas da vossa mãe, e coisas do vosso pai. Isso é que é genético. Não é nenhuma doença, muito menos contagiosa.
Todos param a olhar para ela.
- Não é contagiosa?
- Claro que não. Nem sequer é doença.
- Tens a certeza?
- Perguntem aos vossos pais. Há mais como eu! Como vocês.
- Há?
- Há! Noutras aldeias, e montes.
- É a única diferença de vocês, na cor do pelo! Todos os animais têm cores de pelos diferentes, dependendo da espécie, verdade?
- Sim! - dizem todos pensativos
- Uns são mais parecidos do que outros.
- É! - dizem todos
- Porque te chamas Giralua?
- Porque os meus pais disseram que quando eu nasci, a Lua girou, mudou! E foi uma homenagem a ela! É tão bonita. Os meus pais adoram a Lua, e eu também. Como temos esta cor de pelo, deram esse nome.
- Ááááhhh! - exclamam todos
Olham para ela.
- Sou igual a vocês, nos sentimentos, nas emoções, nos medos, nas alegrias, sonhos. Adoro companhia como vocês, correr e alimentar-me como vocês.
- Ááááááhhhh….! - exclamam todos
- Não sei porque me insultam, e porque fogem de mim, só porque eu tenho este pelo, que não é nada demais. Só muda a cor, diferente do vosso! Se a Lua é bonita, porque é que eu, tenho as cores parecidas com as dela, sou feia?
Faz-se silêncio.
- Não dizem nada? Não são obrigados, mas gostava de saber!
Vira costas, e todos gritam:
- Espera!
Vira-se para ela:
- Sim?
- Desculpa! - dizem em coro
- Olhando bem para ti, és mesmo parecida connosco e com as cores da Lua. - diz uma égua
- Pois! E nós, olhando uns para os outros, também somos todos diferentes! - acrescenta um cavalo
- É verdade! - respondem em coro
- Olha que nunca tínhamos pensado nisto! - diz outra égua
- Pois não! - dizem todos
- Mas tens toda a razão! És igual a nós, em tudo o que disseste, fazes tudo o o que nós fazemos, só muda a cor do pelo, mas isso...é só uma diferença! Na verdade, nem sabemos bem como és. - reconhece outro cavalo
- E magoamos-te, de certeza, ao dizermos que eras feia, não foi?
- Foi! - confirma a Giralua
- O teu nome...pensando bem, até é bonito! Realmente, a Lua gira!
- Pois é! - confirmam todos
- Desculpa-nos! Mostra-nos como és. Anda, junta-te a nós!
Giralua salta de alegria, a rir:
- Obrigada. Só quero que respeitem a minha diferença exterior. Verão - como eu sou por dentro!
Giralua é acolhida por todos, abraça todos, corre, salta, conversa com todos, riem às gargalhadas, uns com os outros, e percebem que se precipitaram a insultar, e a fugir da Giralua.
Todos ganharam uma amiga que nunca tinham descoberto, porque só viam a cor diferente do seu pelo. Mas perceberam rapidamente, como ela era amorosa, querida, simpática, meiga, divertida, fazia rir, e tinha um riso contagiante, brincava, estava sempre pronta para dizer palavras simpáticas quando precisavam.
Conta a lenda que, aconteceu uma onda de calor, com um ar irrespirável, como nunca tinha acontecido, incêndios à volta, parecia que tudo ia derreter, incluindo os cavalos, e toda a aldeia.
Todos estavam recolhidos e quase a sufocar. Giralua olha para a Lua, nima noite, como fazia muitas vezes, preocupada, e as lágrimas caem -lhe dos olhos. Queria ajudar, mas não podia! A Lua que sempre tomou conta dela, olhava para ela, via tudo, ouvia tudo, conhecia-a bem, era uma espécie de madrinha com quem ela desabafava.
Nessa noite, a Lua Cheia disse-lhe:
- Giralua...cavalga por toda a aldeia, com toda a tua força que puderes.
- Mas...mas...até eu parece que estou sem força...e vou correr? Acho que não consigo! Está tudo a derreter! O que é que o meu cavalgar vai fazer?
- Querida, faz o que eu te digo, e verás! Eu estou aqui. Vai! É claro que consegues.
A Giralua muito intrigada, levanta-se, olha para a Lua. Começa a caminhar, e a Lua lança raios de luz azul para Giralua. Giralua sente uma força poderosa, e começa a galopar, cheia de energia, como se estivesse ligada a uma tomada.
- Anda! Com confiança.
A Giralua faz o que a Lua Cheia manda, sem saber o porquê, e para quê! Essa força da Lua, fê-la cavalgar confiante, curiosa para ver o que ia acontecer. Quando começa a cavalgar, e a saltar, atrás de si, o chão vai-se transformando em gelo, fontes de água corrente à porta de cada casa, fresca, pura,.
- Bom trabalho, Giralua. Continua! - diz a Lua
Giralua continua a cavalgar, a rodar, a saltar, cheia de energia, e do seu pelo azul saem rajadas de vento fresco.
- Boa, Giralua! Continua.
Por onde a Giralua passa, tudo à sua volta torna-se mais fresco, como num dia de Primavera. Alguns animais e pessoas vão à janela, e sentem uma grande diferença na aragem, aquela frescura, veem Giralua a correr, e a saltar, as fontes nas casas, com água.
- Quem pôs isto aqui?
- Como é que isto apareceu aqui?
- Ui, gelo no chão?
- Mas o que é que está a acontecer?
- Áh! Que delícia este fresco...e água à porta!
- Giralua, que energia é essa?
- Continua, Giralua! - diz a Lua
Giralua ouve os comentários, e está tão incrédula como os habitantes, que viram de quem se tratava, quem estava a fazer aquelas mudanças tão maravilhosas.
- Agora, vai aos campos, Giralua! - diz a Lua
Giralua vai aos campos. Olha para a Lua:
- E agora? Olha como isto está? Como estão os meus amigos!
- Não faz mal. Eu sei, corre pelos campos. - diz a Lua
- Está bem!
Giralua corre pelos campos, regando a relva e a palha, refrescando o espaço, e pedaços de gelo espalhados pelo chão, com fontes de água para se refrescarem e beberem.
Arregalam os olhos, ao ver que era Giralua, e no que estava a acontecer.
- Estamos a sonhar, ou isto está mesmo a acontecer? - pergunta um cavalo quase sem força
- Está mesmo a acontecer! - responde Giralua
Os cavalos e as éguas, levantam-se, refrescam-se nas fontes, bebem água fresca, deitam-se, rebolam no gelo e na relva fresca salpicada.
- Áh! Que maravilha! - Suspiram os cavalos e as águas, felizes.
- Que delícia de água! - repara uma égua
- É mesmo!
- Ela tem poderes. - comenta um cavalo
- Parece que sim! - concordam todos, baixinho
- Como é que ela está a fazer isto tudo? - pergunta outro, baixinho
- Não sei! Mas é fantástico, mágico. Salvou-nos! - diz uma égua
- Pois foi. - dizem todos
- Muito obrigada, Giralua! - dizem todos
- Salvaste-nos.
Quando olha, a Giralua estava com o pelo igual aos outros cavalos, e éguas. Branco! Os animais assustam-se:
- Giralua...Giralua...Giralua... - chamam e olham para todo o lado, assustados, preocupados
- O que é que fizeste à nossa amiga? - pergunta um cavalo
- Estou aqui! - responde a própria
- O teu pelo está igual ao nosso! - diz uma égua de pelo branco
- A sério? - pergunta Giralua
- Sim! - dizem todos
- És uma linda égua branca, como nós!
- Eu disse que era igual a vocês, o que me tornava diferente, era a cor do pelo, mas não sei porque ficou branco, agora. - diz Giralua
- Salvaste-nos, Giralua! - diz outra égua
A Giralua, olha para a Lua, a Lua sorri-lhe:
- Bom trabalho, minha Giralua. Em breve voltarás a estar com o pelo azul. Este é o troco de tudo o que acabaste de fazer, pela tua bondade, pela égua que és.
Giralua sorri.
- Gratidão, querida Lua.
- Estou sempre aqui. - diz a Lua
Os cavalos e as éguas ainda estão em choque, mas felizes. Um por um, abraça a Giralua, agradecem e brincam com ela, andam por cima do gelo, riem, deitam-se, bebem água, e os habitantes fazem o mesmo, sem saber como tudo estava tão diferente, tão bom, e felizes, porque a onda de calor tinha passado.
A lenda diz que Giralua tinha poderes, o seu pelo voltou a ser azul, mas muitas vezes, tornava-se branco, sempre que havia ondas de calor, ou necessidade de ajudar, com a Lua a fazer o resto.
Passou a ser uma égua linda, respeitada por todos, adorada e acarinhada. O que realmente tinha mudado, era a cor do pelo, mas a sua ligação à Lua, e o que ela tinha ensinado a quem a humilhou, gozou com o seu nome, e a cor do seu pelo, foi real, e ficou com todos, segundo a lenda.
FIM
Lara Rocha
3/Maio/2026
