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sábado, 25 de novembro de 2023

A bruxa boa distraída e o novo amigo

        Era uma vez uma bruxa que foi passear pelo parque da cidade, à noite, não era muito longe da sua casa, porque adorava ver as estrelas, ouvir o silêncio do espaço, e o vento quando havia. Até quando chovia e trovejava, ia para o parque. 

   À noite não reparavam nela, e podia pensar nos seus feitiços generosos, outros nem tanto, sem barulhos irritantes.

    De dia, quando a viam não eram simpáticos com ela, por isso, como era também uma grande sonhadora, gostava desse sítio para se inspirar, imaginar coisas novas. 

   Parecia estar sempre noutro planeta. Estacionou a vassoura no banco onde se sentou a ouvir o som do rio, e lá esteve a sonhar acordada, embalada pelo canto da água, das rãs e do vento entre as folhas. 

    Caminhou pelo parque, iluminado, devagar, mas não reparou que a sua vassoura tinha desaparecido, levada por um cãozinho vadio que passou, pensou que era um ramo de uma árvore e quis brincar. 

 Correu divertido pelo parque todo, a bruxa continuava mergulhada nos seus pensamentos, sonhos acordada, e bons feitiços para ajudar quem precisava, pessoas que lhe tinham pedido. 

   Tinha consigo um bloco e uma caneta, onde escrevia tudo o que se lembrava para cada caso, depois em casa consultava livros e acrescentava o resto que faltava. 

  Quando pensava voltar a casa, a sorrir, correu o parque todo atrás da vassoura. Já não se lembrava onde tinha estado sentada, olha para todos os bancos, em cima do banco e debaixo deles, nem sombra da vassoura. 

    Começa aos gritos: 

- A minha vassoura? Onde é que eu estava sentada? que nervos...não me lembro onde estava, ainda por cima, a vassoura desapareceu. Porquê?...A minha vassoura? E agora como vou para casa? Onde está a minha vassoura…! Não estava aqui mais ninguém, como é que ela desapareceu Áááááááááááhhhhhhh...malditos. 

   O cão ouve aqueles gritos, e vê-a a correr de um lado para o outro, a repetir a frase: 

- A minha vassoura? Onde está a minha vassoura...vassouraaaaa....lembra-te onde estiveste. Lembra-te criatura, onde deixaste a vassoura, onde estiveste sentada? - fala para ela própria

     O cão vai ter com ela, com a vassoura na boca: 

- Mas o que é isto? Quem te deu autorização de mexer na minha vassoura? Onde é que ela estava? Foste tu que a levaste. dá cá isso. 

 O cão larga a vassoura, assustado, porque reconheceu-a. 

- Au, Au, Au…, desculpe! Quero eu dizer. Pensei que era um tronco de uma árvore e quis brincar com ele, não sabia que era a sua vassoura. - diz o cão 

   A bruxa pega na vassoura irritada, e o cão encolhe-se, porque pensou que ia levar com ela, mas não. A bruxa pensou duas vezes, olhou para o cão, e sentiu pena dele. 

- De que casa vieste? 

- Sou vadio. 

- Óh, coitadinho! Não tens onde dormir?

- Durmo onde calha. Quando está frio, durmo ali debaixo, outras vezes, durmo debaixo dos bancos, ou nas árvores. 

- E onde comes? 

- Como o que as pessoas que passam me dão! também me dão alguns mimos, e já puseram ali cobertores para não me deitar no chão frio. Enrosco-me nele, e já dá para me cobrir. 

- Mas quem te abandonou? 

    O cão fica triste e soluça. 

- Desculpa, não te queria fazer lembrar coisas tristes! 

- Não faz mal...! Foi uma família que me pôs fora de casa, porque também iam para fora do país. 

- Mas que injustos. E largaram-te assim, na rua? 

- Sim. 

- Já há muito tempo? 

- Não sei. Não sei o que é isso. 

- Gostas de estar aqui? 

- Gosto. E a sra.?

   A bruxa dá um grito: 

- Senhora? Credo…! (o cão encolhe-se assustado) O que é isso? Chama-me soli e trata-me por tu. 

   Ela ri-se: 

- Desculpa, assustei-te! chega-te mais para a minha beira…! Aqui. 

  Aponta para o banco e senta-se. o cão senta-se à beira dela, a medo. Ela olha para ela, faz-lhe umas festas, e ele deita a cabeça no colo dela. Ela sorri, e continua a fazer-lhe mimos. 

- Gostei de ti. Queres vir para a minha casa? Sabes é que eu sou muito distraída, andava aqui, louca atrás da minha vassoura, foste tu que a levaste para brincar, e eu nem percebi que fizeste isso. Andei à procura do banco onde estive, corri o parque todo, e não me lembrava. sou esquecida, e distraída… sonhadora! Podias vir para a minha casa, eu cuido de ti, e tu cuidas de mim, ou não gostaste de mim? 

  Os mimos da bruxa deixam o pelo do cão todo brilhante, e o cão abre um grande sorriso, cheira e lambe as mãos da bruxa. ela ri-se: 

- Gosto de ti. às vezes assusta-me, mas gosto de ti. E tu não te importas de acolher um cão vadio? - diz o cão

- Não. 

- Óh, muito obrigada! Até estou um pouco envergonhado. 

- Envergonhado de quê? 

- Por ter mexido na tua vassoura, andaste à procura dela, e eu com ela, a brincar. Agora vais acolher-me. 

- Eu sei que não fizeste por mim, e eu também sou uma distraída, por isso é que podes ser uma boa ajuda para mim! 

  A bruxa explica os motivos ao cão, porque quer adotá-lo, o cão aceita.

- Prometo que vou cuidar muito bem de ti. - diz a bruxa 

- E eu prometo que também vou cuidar de ti, ser teu amigo, proteger-te, tomar conta de ti e da tua vassoura. e vou lembrar-te do que precisares. 

- Boa! Acredito que sim. Vamos?  

- Vamos! 

   bruxa leva o cão ao colo, pousados na vassoura, voam até casa da bruxa. O cão está um bocadinho assustado, ela dá banho ao cão, carinhosamente, penteia-lhe o pelo, seca-o com a toalha, alimenta-o, dá-lhe água, e prepara-lhe a cama. 

   O cão deita-se, numa cama bem confortável, macia, quente só para ele, perto dela, todo brilhante, a bruxa enche-o de mimos, ele retribui a lambe-la, e a encostar-se a ela, ela ri-se, dá-lhe algumas ordens, ensina-lhe algumas regras e rotinas, e deseja-lhe boa noite. 

   Os dois dormem uma noite maravilhosa, e de manhã, depois de uma boa dose de mimos, um belo pequeno almoço, e conversa animada, vem o passeio matinal. como prometido, o cão mais feliz do que nunca, protege a nova dona. 

  Umas pessoas menos simpáticas, olham de canto para a bruxa e para o cão. 

- Coitado do cão, a que mãos foi parar… - comenta uma senhora

- Ela vai transformá-lo em alguma coisa horrível. - diz outra

   O cão ladra-lhes, e rosna-lhes: 

- Não sejam assim! eu sou a nova dona dele, vocês não sabem o que aconteceu para estarem a julgar mal. É uma retribuição de favores, e carinho. - diz a bruxa 

- Pois! 

- Deve ser…!

- Está agora armada em boa. 

- Eu sou uma bruxa boa! se precisarem de mim, vemo-nos por aqui. 

  cão ladra chateado. A bruxa e o cão correm felizes pelo recinto, a rir, o cão segura na vassoura dela, na boca, para ela não a perder, nem se esquecer 0nde a pôs. 

   Todos os que passam ficam muito surpresos, ao ver os dois tão felizes, a brincar, a rebolar, a bruxa a abraçar o cão, e este a lambe-la , a pôr as patas em cima dela, e ela a rir à gargalhada com muitos mimos. 

   Os dois correm. 

- Ui, o que é que aconteceu? A bruxa com um cão, tão feliz... 

- Huuuuuummmm...Tenho pena do cão! 

   O cão ladra-lhes:

- Deixa-os falar. estão cheios de inveja! - diz a bruxa 

  cão não sai da beira dela, ladra, e depois regressam a casa. Os dois tornam-se grandes amigos, têm longas conversas, e o cão está sempre atento à bruxa distraída, que deixa as coisas dela em tudo quanto é sítio e não se lembra, mas felizmente tem o cão que não deixa escapar nada. 

  Ela trata muito bem o cão, e o cão é uma grande ajuda, além de um grande amigo, muito meigo, com quem ela conversa muito. 

   Quando está a fazer os seus feitiços bons, o cão não incomoda, fica deitado ou vai ao parque sozinho e volta, feliz.

   Foi assim que o cão vadio abandonado, ganhou uma nova dona que o adorava e tratava muito bem, ignorava os comentários menos simpáticos e ajudava quem precisava, quem podia. 

  Até nisso, o cão era uma ajuda, porque sentia as energias das pessoas, protegia a dona, que por ser tão distraída, às vezes achava que eram boas pessoas, mas na verdade não eram, o cão avisava-a. 

  Iam passear juntos todos os dias, quem passava menos simpático, ficava surpreso por ver o cão tão feliz com ela, tão amigo, e ela tanto ou mais feliz que ele. 

   Era uma amizade verdadeira, companheira, cheia de carinho, sinceridade, proteção, e felicidade. ele sabia quando ela não estava bem, e nesses momentos não a largava, demonstrava todo o carinho por ela. 

  Ela abraçava-o, e fazia-lhe festas, ficava bem melhor. Que sorte teve este cão!

                                        FIM 

                                   Lara rocha 

                               24/Novembro/2023

                                                                

        

        



quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Plantações


foto de Lara Rocha 

Era uma vez uma jovem rapariga que vivia numa casa pequenina, numa aldeia com poucos habitantes. Toda a gente a achava estranha porque ela falava sozinha, regava terra sem nada, sempre com um sorriso na cara. Ninguém lhe perguntava nada porque ainda a conheciam há pouco tempo e não queriam parecer demasiado coscuvilheiros, mas todos comentavam entre si.
Ela estava no jardim sem flores, a cantar com uma voz maravilhosa, a regar e passa uma menina encantada com a sua voz, e levava consigo um cãozinho numa cestinha que começa a ladrar e fica inquieto.
- Pára…já vamos. – Ralhe ela com o seu cão - Bom dia! Era você que estava a cantar? – Diz a menina
- Bom dia, querida…Ouviste-me a cantar…? Sim, era eu! Gosto muito de cantar enquanto rego!
- Sim. Adorei ouvi-la cantar. Tem uma voz mesmo muito bonita…parecia uma fada! – Diz a menina a sorrir.
- Obrigada! Acordaste cedo. Estás sozinha? Quer dizer, não estás sozinha porque estás com o teu amigo cãozinho, mas quero dizer…com um adulto da tua família…? – Pergunta a jovem a sorrir
- Sim, estou com o meu cãozinho, os adultos da minha família sabem que eu não me perco, nem vou para longe. Já conheço muito bem este sítio, e ele também. Eu acordo sempre cedo, e vou passear o meu cão, os grandes não têm tempo, e confiam em mim.
- Áh…muito bem. Mas não tens medo?
- Não! Aqui todos nos conhecemos, e nunca estou sozinha…passo sempre pelos meus vizinhos, ou primos, ou tios…ou Avós, ou irmãos dos meus avós…Passo por muitas casas. O meu amiguinho anjinho da guarda também está comigo. E você está sozinha aí?
- Também não estou totalmente sozinha. Os meus pais estão a viver na aldeia aqui ao lado, trabalham o dia todo, e esta casa foi oferta de uma tia. Eu venho cuidar da casa e do jardim, porque gosto muito deste espaço. E também nunca estou sozinha…
- Também tem o seu anjinho da guarda?
- Sim! Tenho.
- Olhe…o que está a regar?
- A terra.
- Mas isso não tem nada…
- Terá…! Estou a regar para isso.
- Áh…! E vai nascer alguma coisa?
- Sim, muita coisa.
- O que vai nascer?
- Tudo o que eu preciso.
- E o que é que precisa?
- Alimentos.
- Eu também preciso de alimentos.
- Todos precisamos. Até o teu amigo.
- Sim, mas ele não come tudo.
- Pois não. Não é uma pessoa.
- Pois. Vou andando. Até logo.
- Até logo…
A menina segue o seu caminho, e passa uma velhinha misteriosa com bom aspecto, andar vagaroso, que não era conhecida da aldeia, e saiu não se soube de onde…Observa a jovem e sorri.
- Bom dia!  
- Bom dia, jovem.
- Precisa de alguma coisa?
- Não. Obrigada. És nova aqui…não és?
- Sim. E a senhora?
- Sou qualquer coisa, menos nova…quer dizer…por fora…por dentro, continuo criança.
- Faz bem…é por isso que tem esse ar jovem.
- Pois é! Continua a fazer as tuas plantações, filha…faz de conta que não estou aqui.
A jovem sorri, e continua a regar, a remexer a terra e a velhinha silenciosa, a sorrir, sentada debaixo de uma árvore muito larga.
- Quer alguma coisa? – Pergunta a jovem
- Não, obrigada. Estás a plantar o teu sustento, certo?
- Sim. Muitos legumes e frutas…flores…árvores…muitas coisas.
- E sonhos?
- Sonhos? (A jovem ri) Não…esses não se plantam.
- Eu plantava sonhos na minha infância. – Diz a velhinha a sorrir
- E nasciam? – Pergunta a jovem irónica
- Nasciam. Cresciam e dividiam-se.
- A sério?
- Sim. Pela mão das estrelas que à noite desciam por um fiozinho da lua, iam tomar conta do meu jardim, e traziam com elas um raio de sol para cada plantação! – Lembra a velhinha
- Áh! Que lindo! – Diz a jovem a sorrir
- Era! Tu não plantas os teus sonhos?
- Não!
- Porque não?
- Porque…não existem sementes de sonhos.
- Existem! Existe tudo o que nós queremos. Sei que é difícil para ti acreditar nisso, mas… podias acreditar e experimentar. Gostas de sonhos?
- Gosto. Alguns…
- Então planta-os.
- Mas…como faço isso?
A velhinha tira umas pedras de cristal, redondas e transparentes.
- Olha para elas…com a pureza da criança que foste…deixa que ela encha esses cristais com sonhos, e planta-os…depois…rega-os, como regras outras coisas. – Explica a velhinha
- Está bem.
A jovem faz o que a velhinha disse, mesmo sem saber se ia acontecer, quis experimentar. A velhinha desaparece, rápida, misteriosa e silenciosamente…enquanto a jovem olha para os cristais e deixa que a criança que ela foi, encha os cristais de sonhos e desejos que ela queria que acontecessem.
Quando olhou, a senhora tinha desaparecido, e reparou que toda a terra do jardim estava cheia de brilho e cabecinhas a espreitar…eram as suas flores, legumes e árvores a nascer.
- Áh! O que é isto?
A jovem fica pensativa. Passa outro rapaz e pergunta:
- O que tem no seu jardim?
- Tudo o que preciso.
- E o que é tudo o que precisa?
- Legumes, frutas, flores e árvores…Queres ajudar-me?
- Eu…tenho de ir… até logo.
E sai rapidamente. A jovem ri.
- Não percebo porque é que toda a gente me pergunta o que tenho aqui plantado…este pedacinho de terra é igual aos outros.
E o dia passa rápido. À noite, a jovem vai dormir, e no jardim tudo o que ela tinha plantado e pensou que ia demorar o seu tempo, cresce enormemente por causa dos cristais que ela plantou, de estrelas que desciam por um fiozinho de lua, e traziam um raio de sol.
As frutas, os legumes e as árvores aparecem gigantes, cheios de folhas, suculentos, vistosos, carnudos. Tudo fresco, apetitoso, e as flores de todas as espécies, até raras, com cores lindas, enormes, como nunca se tinha visto antes em mais lado nenhum.
A velhinha enche o jardim com vários animais: lindas borboletas de todos os tamanhos e cores, passarinhos de várias espécies, com penas coloridas, cigarras e grilos, joaninhas, gatinhos, e cãezinhos bebés com a sua mãe, muito meigos, para lhe fazer companhia e protegê-la. Está tudo maravilhoso.     
Na manhã seguinte, a jovem acorda e nem quer acreditar no que está a ver.
- Eu estou a ver bem?
Sai porta fora e toca em tudo, cheira tudo, pega nos cãezinhos e enche-os de mimos, toma o pequeno-almoço com eles, dá-lhes de comer, e está muito surpresa com tudo o que vê no seu jardim. Apanha algumas coisas e prova.
- Hum…que delícia! Huuuummmm…que fresco…cheias de sumo…! Huummm…que cheirinho. Áh! Que rica sopa que eu vou fazer. E…agora para o almoço…Muito obrigada…Universo…Terra…não sei quem fez isto…muito obrigada mesmo! Que coisa fantástica. Mágica…! Uau!
Ela senta-se a ouvir os passarinhos, as cigarras e os grilos a cantar, a apreciar as cores das flores, a sentir os toques carinhosos das borboletas, e a ver as suas cores…a inspirar toda a beleza, cheiros e frescura do jardim, rodeada dos seus cãezinhos e os gatinhos a brincar.  
O seu jardim foi motivo de invejas e tentativas de maldades, mas estava sempre protegida, e deu uma grande lição a todos, porque era muito boa, e partilhava os seus produtos mágicos, com os seus vizinhos, quando tinha demasiado e quando sentia que lhes fazia falta.
Ela sabia que todos naquela aldeia eram muito pobres, famílias muito grandes, e nem sempre as terras produziam tudo o que eles precisavam, ou não produziam tanto… por causa da sua bondade, ela tinha cada vez mais surpresas, e cada vez mais coisas apetitosas no seu jardim.

FIM
Lálá

(30/Dezembro/2015)

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

O passarão


pintado por Lara Rocha, do livro de pintar para adultos 

       Era uma vez um pássaro enorme, que vivia numa ramada cheia de videiras. Essas videiras, no mês de Setembro produziam belos e atraentes cachos de uvas, de cor verde e de cor roxa, vermelhas e pretas. Eram doces e cheias de água…um consolo para quem as comia.
            Por viver nessa ramada de videiras, o passarão de penas de uma beleza rara, cheias de cores misturadas, achava-se dono das uvas. Mas não era, porque embora tomasse conta delas, quem as plantava, cuidava delas e colhia eram os donos dos campos.
          Um dia, os donos autorizaram uns familiares a ir aos campos apanhar uvas. O grande passarão não os conhecia, e pensou que era alguém que ia roubá-las. Ficou muito nervoso e assustado, começou a andar de um lado para o outro, em cima dos arames, a fazer um barulho irritante e assustador para afastar as pessoas.
            As pessoas desataram a correr e aos gritos com medo do passarão. Os donos voltam lá com os familiares e a senhora diz:
- Óh meu grande passarão: deixa estes senhores tirarem as uvas que quiserem. São de confiança, e fomos nós que demos autorização.
- Este é o nosso guarda-costas! – Diz o senhor a rir  
- Pudera! Com este tamanho e o barulho que ele faz, assusta qualquer um. – Diz o outro senhor
- Pois! Desculpem, esquecemo-nos de vos avisar que tínhamos aqui o pássaro. – Diz o senhor do outro casal
- Pois foi. – Reconhece a esposa
- Tirem à vontade. – Diz a outra senhora
            O passarão obedece, mas fica sempre atento a tudo. Os seus olhos amarelos não param. No dia seguinte, uma série de outros passarinhos pequeninos vão ao pomar, esfomeados à procura de comida, e caem com a fome. O grande pássaro fica muito preocupado. Eles ficam assustados com o tamanho do pássaro:
- Óh não! – Dizem os passarinhos em coro
- Já vamos servir de almoço para este! – Diz um passarinho
- Que medo! Olhem só o tamanho dele… - Diz outro passarinho
Vai ter com eles, pergunta o que se passa e eles disseram-lhe que estavam fracos, com muita fome, vinham de muito longe, onde só havia gelo. O passarão fica triste com a história dos passarinhos.
- Porque é que me está a cheirar a medo? Áh…são vocês. Medo porquê? Esperem, não precisam de responder. Estão com medo de mim, não é? Não precisam de responder…eu sei. Mas não precisam! Não vos vou fazer mal…vou buscar comida para vocês! – Diz o passarão
- Como é que ele adivinhou que estávamos com medo? – Pergunta um passarinho, baixinho
- Parece que lê os nossos pensamentos! – Diz outro passarinho, baixinho
- Não lê nada, nem adivinha…só sentiu o nosso cheiro a medo. – Explica outro passarinho
- Ufa! Que susto! – Suspiram os passarinhos
- Afinal ele é bom! – Diz outro passarinho aliviado
- Cuidado! Pode ser só uma armadilha… - Lembra um passarinho
- Uma armadilha? – Perguntam todos
- Sim!
- Para quê? – Perguntam todos
- Ele pode estar a tentar cativar-nos, para ficarmos aqui…engorda-nos, e depois come-nos. – Explica o passarinho
- Com penas e tudo? – Pergunta outro passarinho
- Isso mesmo. Não sobra nem um bocadinho de osso.
- Que horror! – Dizem todos
- Óh…para com essas tuas histórias de terror. – Ralha outro passarinho
- É. Também acho que já estás a imaginar coisas. – Diz outro passarinho
O passarão apanha com as suas patas enormes, umas uvas e uns cachos inteiros que estavam no chão, e dá aos passarinhos.
- Comam à vontade…vão ficar como novos! E se quiserem mais no fim, é só pedirem – Diz o passarão
- Obrigada! – Dizem em coro
Os pequenos, com um bocadinho de medo debicam-no, num abrir e fechar de olhos, deliciados com o sabor.
- Huummm… - Dizem os passarinhos em coro
- Que uvas tão boas. – Diz um passarinho
- Cheia de sumo…Huummm…
- E doces!
- Estão mesmo boas.
- E são enormes.
- É. Tudo isso porque os donos deste campo, cultivam e cuidam de tudo o que a Natureza oferece, com muito cuidado, carinho e alegria. Dedicam-se muito! – Revela o passarão
- Áh!
- Realmente, este campo está muito bonito, limpo, arejado!
- É. Passamos por uns campos lá atrás em que só havia silvas, ervas gigantes que pareciam cabelos compridos, não se via onde era a entrada. Horrível.
- Até podia ser que tivesse lá fruta.
- Sim, mas esses campos estão ao abandono.
            Os passarinhos conversam mais um pouco com o passarão, surpresos com a bondade e a sabedoria dele. Já satisfeitos e recuperados, os pequeninos agradecem e voam, com a promessa de voltarem um dia destes…
Uns dias depois, outros passarinhos muito matreiros, que tinham assistido a tudo, escondidos atrás de um campo abandonado, quiseram experimentar. Fingiram que estavam fracos e com muita fome. Mas o experiente passarão não caiu na conversa deles.
- Ai querem comer? Coitadinhos…estão muito fraquinhos não é? – Pergunta o passarão irónico
- É! – Dizem os passarinhos fingidos.
- Se querem comer, vão ter de trabalhar!
- Trabalhar? – Perguntam em coro
- Sim, trabalhar. Vão ter de encher esses baldes para os donos da casa, com as uvas que estão no chão e estas de cima.
- Óh, não!
- Querem ou não?
- Sim.
- Mas estamos muito fracos para apanhar as uvas… - Lamenta um passarinho fingido
- Pois, claro…pobres bichaninhos…estão tão fracos que até vieram a voar…claro… (grita) Toca a trabalhar, antes que eu vos ponha daqui para fora. Pensam que eu não entendi o que queriam…?! Comigo não gozam.
            O passarão bem tinha razão. Os pássaros estavam mesmo a fingir. Começaram a voar rapidamente, e encheram os baldes num instante. Todos se ajudaram uns aos outros, com as patinhas e os biquinhos, para cortar, e outros ajudaram a carregar para os baldes.
            O passarão ri-se várias vezes, e aplaude, encoraja-os para voarem mais e mais rápido. Os baldes já estão bem cheios.
- Muito bem. Estão a ver? Muito obrigado. Os donos vão ficar muito felizes. E melhor ainda…vão pensar que fui eu que lhes enchi os baldes! – Diz o passarão a rir.
- Podemos comer?
- Sim, agora já podem comer. E também podem levar alguns cachos para casa, se conseguirem pegar neles…
            Eles comem satisfeitos e felizes, e levam alguns baguinhos. Os passarinhos ficaram tão zangados por os terem mandado trabalhar, que viraram costas, e voaram…sem agradecerem…
- Pensaram que me conseguiam enganar? Eu não nasci ontem. Matreiros…
Os donos têm uma grande surpresa quando veem os baldes cheios, e sorriem. Acariciam o passarão, e ele sorri orgulhoso. Tudo volta à paz de sempre, com aquele belo e enorme passarão a tomar conta! Os donos tinham mesmo muita sorte.

FIM
Lara Rocha 
(28/Setembro/2014)