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quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Plantações


foto de Lara Rocha 

Era uma vez uma jovem rapariga que vivia numa casa pequenina, numa aldeia com poucos habitantes. Toda a gente a achava estranha porque ela falava sozinha, regava terra sem nada, sempre com um sorriso na cara. Ninguém lhe perguntava nada porque ainda a conheciam há pouco tempo e não queriam parecer demasiado coscuvilheiros, mas todos comentavam entre si.
Ela estava no jardim sem flores, a cantar com uma voz maravilhosa, a regar e passa uma menina encantada com a sua voz, e levava consigo um cãozinho numa cestinha que começa a ladrar e fica inquieto.
- Pára…já vamos. – Ralhe ela com o seu cão - Bom dia! Era você que estava a cantar? – Diz a menina
- Bom dia, querida…Ouviste-me a cantar…? Sim, era eu! Gosto muito de cantar enquanto rego!
- Sim. Adorei ouvi-la cantar. Tem uma voz mesmo muito bonita…parecia uma fada! – Diz a menina a sorrir.
- Obrigada! Acordaste cedo. Estás sozinha? Quer dizer, não estás sozinha porque estás com o teu amigo cãozinho, mas quero dizer…com um adulto da tua família…? – Pergunta a jovem a sorrir
- Sim, estou com o meu cãozinho, os adultos da minha família sabem que eu não me perco, nem vou para longe. Já conheço muito bem este sítio, e ele também. Eu acordo sempre cedo, e vou passear o meu cão, os grandes não têm tempo, e confiam em mim.
- Áh…muito bem. Mas não tens medo?
- Não! Aqui todos nos conhecemos, e nunca estou sozinha…passo sempre pelos meus vizinhos, ou primos, ou tios…ou Avós, ou irmãos dos meus avós…Passo por muitas casas. O meu amiguinho anjinho da guarda também está comigo. E você está sozinha aí?
- Também não estou totalmente sozinha. Os meus pais estão a viver na aldeia aqui ao lado, trabalham o dia todo, e esta casa foi oferta de uma tia. Eu venho cuidar da casa e do jardim, porque gosto muito deste espaço. E também nunca estou sozinha…
- Também tem o seu anjinho da guarda?
- Sim! Tenho.
- Olhe…o que está a regar?
- A terra.
- Mas isso não tem nada…
- Terá…! Estou a regar para isso.
- Áh…! E vai nascer alguma coisa?
- Sim, muita coisa.
- O que vai nascer?
- Tudo o que eu preciso.
- E o que é que precisa?
- Alimentos.
- Eu também preciso de alimentos.
- Todos precisamos. Até o teu amigo.
- Sim, mas ele não come tudo.
- Pois não. Não é uma pessoa.
- Pois. Vou andando. Até logo.
- Até logo…
A menina segue o seu caminho, e passa uma velhinha misteriosa com bom aspecto, andar vagaroso, que não era conhecida da aldeia, e saiu não se soube de onde…Observa a jovem e sorri.
- Bom dia!  
- Bom dia, jovem.
- Precisa de alguma coisa?
- Não. Obrigada. És nova aqui…não és?
- Sim. E a senhora?
- Sou qualquer coisa, menos nova…quer dizer…por fora…por dentro, continuo criança.
- Faz bem…é por isso que tem esse ar jovem.
- Pois é! Continua a fazer as tuas plantações, filha…faz de conta que não estou aqui.
A jovem sorri, e continua a regar, a remexer a terra e a velhinha silenciosa, a sorrir, sentada debaixo de uma árvore muito larga.
- Quer alguma coisa? – Pergunta a jovem
- Não, obrigada. Estás a plantar o teu sustento, certo?
- Sim. Muitos legumes e frutas…flores…árvores…muitas coisas.
- E sonhos?
- Sonhos? (A jovem ri) Não…esses não se plantam.
- Eu plantava sonhos na minha infância. – Diz a velhinha a sorrir
- E nasciam? – Pergunta a jovem irónica
- Nasciam. Cresciam e dividiam-se.
- A sério?
- Sim. Pela mão das estrelas que à noite desciam por um fiozinho da lua, iam tomar conta do meu jardim, e traziam com elas um raio de sol para cada plantação! – Lembra a velhinha
- Áh! Que lindo! – Diz a jovem a sorrir
- Era! Tu não plantas os teus sonhos?
- Não!
- Porque não?
- Porque…não existem sementes de sonhos.
- Existem! Existe tudo o que nós queremos. Sei que é difícil para ti acreditar nisso, mas… podias acreditar e experimentar. Gostas de sonhos?
- Gosto. Alguns…
- Então planta-os.
- Mas…como faço isso?
A velhinha tira umas pedras de cristal, redondas e transparentes.
- Olha para elas…com a pureza da criança que foste…deixa que ela encha esses cristais com sonhos, e planta-os…depois…rega-os, como regras outras coisas. – Explica a velhinha
- Está bem.
A jovem faz o que a velhinha disse, mesmo sem saber se ia acontecer, quis experimentar. A velhinha desaparece, rápida, misteriosa e silenciosamente…enquanto a jovem olha para os cristais e deixa que a criança que ela foi, encha os cristais de sonhos e desejos que ela queria que acontecessem.
Quando olhou, a senhora tinha desaparecido, e reparou que toda a terra do jardim estava cheia de brilho e cabecinhas a espreitar…eram as suas flores, legumes e árvores a nascer.
- Áh! O que é isto?
A jovem fica pensativa. Passa outro rapaz e pergunta:
- O que tem no seu jardim?
- Tudo o que preciso.
- E o que é tudo o que precisa?
- Legumes, frutas, flores e árvores…Queres ajudar-me?
- Eu…tenho de ir… até logo.
E sai rapidamente. A jovem ri.
- Não percebo porque é que toda a gente me pergunta o que tenho aqui plantado…este pedacinho de terra é igual aos outros.
E o dia passa rápido. À noite, a jovem vai dormir, e no jardim tudo o que ela tinha plantado e pensou que ia demorar o seu tempo, cresce enormemente por causa dos cristais que ela plantou, de estrelas que desciam por um fiozinho de lua, e traziam um raio de sol.
As frutas, os legumes e as árvores aparecem gigantes, cheios de folhas, suculentos, vistosos, carnudos. Tudo fresco, apetitoso, e as flores de todas as espécies, até raras, com cores lindas, enormes, como nunca se tinha visto antes em mais lado nenhum.
A velhinha enche o jardim com vários animais: lindas borboletas de todos os tamanhos e cores, passarinhos de várias espécies, com penas coloridas, cigarras e grilos, joaninhas, gatinhos, e cãezinhos bebés com a sua mãe, muito meigos, para lhe fazer companhia e protegê-la. Está tudo maravilhoso.     
Na manhã seguinte, a jovem acorda e nem quer acreditar no que está a ver.
- Eu estou a ver bem?
Sai porta fora e toca em tudo, cheira tudo, pega nos cãezinhos e enche-os de mimos, toma o pequeno-almoço com eles, dá-lhes de comer, e está muito surpresa com tudo o que vê no seu jardim. Apanha algumas coisas e prova.
- Hum…que delícia! Huuuummmm…que fresco…cheias de sumo…! Huummm…que cheirinho. Áh! Que rica sopa que eu vou fazer. E…agora para o almoço…Muito obrigada…Universo…Terra…não sei quem fez isto…muito obrigada mesmo! Que coisa fantástica. Mágica…! Uau!
Ela senta-se a ouvir os passarinhos, as cigarras e os grilos a cantar, a apreciar as cores das flores, a sentir os toques carinhosos das borboletas, e a ver as suas cores…a inspirar toda a beleza, cheiros e frescura do jardim, rodeada dos seus cãezinhos e os gatinhos a brincar.  
O seu jardim foi motivo de invejas e tentativas de maldades, mas estava sempre protegida, e deu uma grande lição a todos, porque era muito boa, e partilhava os seus produtos mágicos, com os seus vizinhos, quando tinha demasiado e quando sentia que lhes fazia falta.
Ela sabia que todos naquela aldeia eram muito pobres, famílias muito grandes, e nem sempre as terras produziam tudo o que eles precisavam, ou não produziam tanto… por causa da sua bondade, ela tinha cada vez mais surpresas, e cada vez mais coisas apetitosas no seu jardim.

FIM
Lálá

(30/Dezembro/2015)

domingo, 22 de março de 2015

AS PÉTALAS NA ÁGUA

 
(foto de Lara Rocha) 

Era uma vez uma floresta onde havia três lagos. Um tinha água transparente, outro tinha água verde, e outro tinha água amarela. No lago transparente nadavam os patos, no lago verde, viviam ervas daninhas e várias camadas de lodo, enormes, porque o lago já não era limpo há muitos anos, e aqui vivem sapos, e rãs e no lago amarelo, era onde o sol se via ao espelho todos os dias e mergulhava.
Um dia, uma menina que voava numa nuvem por cima da floresta, vinda de outra floresta mágica, viu aqueles lagos, e ficou encantada com o lago transparente onde estavam os patos. Sentiu muito nojo do lago que tinha água verde, e sorriu ao lago de água cor amarela. Ela já sabia que essa água era amarela por causa do sol.
Baixou a sua nuvem, e aproximou-se do lago de água verde. Cheirava muito mal, e ouvia-se um barulho irritante…uma sinfonia de sapos e rãs, de quem ela não gostava muito.
- Que nojo de lago!
                Saltam vários sapos debaixo das ervas enormes. Ela grita e recua. Os sapos parece que nem a vêem e saltam para fora do lago.
- Como é possível viverem aqui. Nesta água, nem devem respirar. Isto devia ser limpo. Mas eu não entro ali. Que porcaria…
                Ela não queria entrar, mas não gostava de ver assim o lago. Então, foi pela floresta à procura de ajuda. Bateu a várias portas, das casas das árvores. Uns não abriram, outros gritaram com ela:
- Tenho mais o que fazer…
- Era só o que faltava.
- Porque não vais tu limpar, em vez de estares a mandar…?
- Claro, é mais fácil mandar do que fazer.
- Vai tu.
- Ora, ora…ainda se me pagassem…
- Essa agora…já limpo a minha casa, não vou estar agora a limpar a dos outros…ainda por cima, casa de sapos e rãs…elas que limpem…quer dizer…elas até gostam de estar no meio dessa porcaria.
- Que nojo!
- Vai chatear outro…
                A menina continuou.
- E se precisassem daquela água para beber? Não limpavam? Como é possível, tanta indiferença.
                De repente vê um casal a limpar o tanque da sua casa, com as crianças numa grande alegria.
- Olá! – Dizem todos
- Olá! Querem ajuda? – Sorri a menina
- Não, obrigada. – Responde o casal
- Sabem-me dizer, por acaso, onde posso encontrar alguém que limpe aquele lago que está do outro lado…à entrada…com água verde, cheia de sapos e rãs…?
- Não! – Respondem de forma seca
- Deixa-os estar lá…que nojo! – Diz a filha do casal
- Já basta quando essas pragas vêm para aqui. – Acrescenta o marido
- E se tivessem de beber aquela água? – Pergunta a menina
- Não bebíamos. – Respondem todos.
- Obrigada…até á próxima.
                A menina segue caminho. Numa outra nuvem, vem uma criatura estranha, feia, cheia de fome, que só gostava de coisas estranhas. A menina conhecia-a e lembrou-se:
- Olá pequeno…estás com fome?
- Sim, fome…muita fome…
- Então sei onde podes encontrar comida.
- A sério? Onde?
- Ali naquele lago de água verde.
- Áh!
                O monstro dirige-se para o lago de águas verdes, mergulha e num abrir e fechar de olhos devora tudo o que é musgo, e ervas daninhas. Come mesmo com vontade. Os sapos e as rãs ficam muito assustados e saem do lago a gritar e a correr o mais que podem.
- Óh! Estava mesmo delicioso. Que bom….
                O lago ficou irreconhecível. Com águas transparentes, a ver-se o fundo e as paredes, e sem sapos e rãs…ficou limpo como o outro de águas transparentes onde estavam os patos.
- Áh! Como está lindo este lago… obrigada, criatura.
- Não entendo o que estás a dizer, mas sei que comi tudo e estava um petisco…
- Ainda bem! – Diz a menina a sorrir
- Até à próxima.
- Até à próxima.
                O monstro segue o seu caminho e os sapos e rãs nunca mais voltaram. Não se sabe para onde poderão ter ido. A menina dá uma gargalhada:
- Ainda bem que apareceu aquele, para limpar o lago…acho que só mesmo assim. dá gosto.
                Vem uma borboleta pelo ar, cheia de tosse, que tinha acabado de vir de um campo apanhar pétalas. Quase não consegue voar, de tanta tosse e de tanto que espirra. E de repente, deixa-se cair na água, com as pétalas das flores que tinha apanhado.
A menina fica muito preocupada, e põe a mão na água, tira de lá a borboleta, para a berma, e dá-lhe um bocadinho de água com a mão.
- Então, rapariga? – Pergunta a menina
- Ai…estou doente… fui apanhar umas pétalas, e comecei a tossir e a espirrar sem parar. Agora estou cansada. Obrigada por me teres tirado da água. Óh…acho que perdi todas as pétalas.
- Não. Olha-as ali, na água.
                As duas vêem as pétalas a boiar na água pelo lago…parecem os patinhos. Como o lago está limpo, a menina salta para a água e apanha as pétalas todas. A borboleta ajuda, e volta a juntá-las todas.
- Óh…muito obrigada! – Diz a borboleta
- De nada…até há bocado, não podias entrar neste lago, agora podes.
- Porquê?
- Estava cheio de lodo e ervas enormes.
- Lhec. Então também tinha sapos e rãs, de certeza.
- Sim. E muitos.
                As duas conversam um pouco. Todos os habitantes da floresta ficam de boca aberta e maravilhados com o lago que era verde, e agora é transparente como os outros. Agora todos gostam de lá passar e ficar a ouvir o cantar das águas que caem das fontes. Um som bem mais bonito do que o das rãs e sapos. E adoram ver as bolhas da água, as ondinhas que elas formam quando caem à superfície.
                Uma princesa gostou tanto desse lago que o utilizou para os seus banhos da saúde como ela chamava. Mergulhava nesse lago, deitava montes de pétalas na água, e senta-se na água, porque dizia que ficava mais bonita…ganhava a beleza das pétalas das flores, e a sua pele ficava tão macia como elas, e que ficava com mais saúde. Chegava a levar as suas amigas e brincava feliz…
Mas ela nunca soube que esse lago de águas transparentes, foi durante muito tempo, um lago de águas verdes, cheio de sapos e rãs. Se não fosse aquela criatura estranha cheia de fome, o lago continuava a ter águas verdes, sapos e rãs, em vez das belas pétalas de flores e águas transparentes.
A água é muito importante para nós, para a nossa saúde, higiene e vida. Torna todos os sítios muito mais bonitos, agradáveis e frescos, por isso devem estar sempre limpos, e ser bem cuidados.  A água deve ser muito bem tratada.

FIM
Lálá
(22/Março/2015)