Número total de visualizações de páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta água. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta água. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 5 de julho de 2024

A estátua da fonte

        Era uma vez uma fonte com uma estátua, muito bonita, com água muito transparente, sempre a correr, onde os passarinhos iam beber e refrescar-se. 
       A bela estátua adorava a visita dos bichinhos, e retribuía-lhes a cantar com eles, salpicava as penas. Isso era como se ela lhes fizesse carinhos. 
       Uma tarde de tempestade, a estátua da fonte serviu de abrigo aos passarinhos, nos seus pés que eram largos, juntamente com grandes folhas de uma planta, e debaixo de cogumelos. 
       Todos encostadinhos uns aos outros, assustados com a trovoada, e para se aquecerem, chilreavam quase ao som da chuva, outros momentos ficavam calados a ouvi-la a cair, e o som do vento que soprava forte. 
       A estátua adorava ser abrigo de passarinhos, e ela própria, ficava deliciada a ouvir a trovoada, a chuva e o vento, não sentia medo. 
       Nessa tarde, além dos passarinhos, a estátua viu duas borboletas a esvoaçar à sua frente, com grande dificuldade, a tentar segurar-se, a lutar contra o vento. 
       Eram enormes! As suas asas cheias de lindas cores, e tentavam agarrar-se uma à outra para se segurarem, mas pareciam estar a dançar. 
       A fonte convidou-as a abrigarem-se debaixo dela, e assim fizeram. Os passarinhos sentiram ciúmes, mas respeitaram a decisão da estátua da fonte. 
       Pouco depois, os ciúmes desapareceram quando repararam na beleza das borboletas, e quando estas começaram a conversar e a brincar carinhosamente com eles. 
      A fonte nunca tinha visto duas borboletas a dançar, e na verdade, a primeira vez que as viu, pensou que se estavam a tentar segurar. 
     Afinal primeiro tentavam segurar-se, mas depois mostraram as suas danças, ao som do chilrear dos passarinhos e as duas dançavam uma com a outra. 
- Estão a dançar? - pergunta um passarinho 
- Sim. - respondem as duas borboletas 
- Que música? - pergunta outro passarinho
- A música da natureza! - respondem as duas  
- Estamos rodeadas de música para dançar. 
- A música do vento - diz uma borboleta 
- A música da chuva - diz outra borboleta 
- A música da trovoada - acrescenta outra 
- A música da fonte! 
    A fonte sorri: 
- É verdade! Estamos rodeados de música. E que bonita que é! 
    Enquanto dura a tempestade, conversam uns com os outros, e quando o sol volta, as lindas borboletas dão um espetáculo de dança, movimento, beleza, e leveza, só com a música da Natureza à sua volta. 
    Ficam maravilhados e aplaudem, até parecem hipnotizados. As borboletas unem as asas e pousam na estátua, para lhe dar um abraço e um sonoro beijo. 
    A estátua fica tão feliz, que até deixa escapar umas lágrimas mais pequeninas, e abre um grande sorriso. As borboletas fazem o mesmo aos passarinhos, e estes ficam derretidos, riem. 
- Obrigada, linda estátua da fonte, por nos teres abrigado! - diz uma borboleta 
- Obrigada queridos passarinhos, pela companhia enquanto durou a tempestade! 
- De nada! Foi um gosto, e voltem mais vezes, que são maravilhosamente lindas. Adoramos ver-vos dançar, as vossas cores, a vossa leveza, e danças só com a música da Natureza! 
- Sim, voltem! - dizem os passarinhos 
- Nós adoramos esta fonte, estamos aqui todos os dias, para nos refrescarmos, e para bebermos. - diz um passarinho
- Eu também adoro a companhia deles, e de todos os que aqui vem. - diz a estátua. 
    E como prometido, nos dias seguintes, as maravilhosas borboletas voltaram à fonte, para dançar e encantar, a fonte, os passarinhos que chilreavam com ela, e dançavam com as borboletas. 

                                                    FIM 
                                              Lara Rocha
                                               5/Julho/2024 

Como imaginam essa estátua? 
E a fonte? 
Como imaginam as borboletas? 

Podem deixar nos comentários.   

sexta-feira, 15 de setembro de 2023

Os sapos e a festa da chuva

 


      Era uma vez uma grande quinta, numa aldeia onde já não chovia há muitos meses, só havia calor, sol, nada comum, pois era uma aldeia que costumava ter temperaturas agradáveis, o ano todo.  

       Frio e chuva na sua época, tempo quente no Verão, no Outono e Primavera era instável, tanto chovia como estava sol, mas todos respeitavam a vontade da Natureza. 

       Este ano é que estava um calor fora do normal, tudo seco, a erva dos campos, os riachos onde havia sapos, rãs e peixes, secos em quase todo o caminho, pequenas possecas de água de longe a longe. 

       Até eles estavam a sentir-se tristes, cansados, porque já não aguentavam tão pouco água, às vezes percorriam quilómetros atrás de poças de água, e encontravam, deliciavam-se a refrescar-se, a brincar, a cantar.  

       Mas pouco tempo depois, sentiam saudades de casa e regressavam na esperança de encontrar água, mas infelizmente, o seu desejo não se realizava. 

       O dono, com pena deles, deitava água no local onde estavam, tal como fazia aos outros animais da quinta, eles bebiam com sofreguidão, e sobrava pouca para o resto. 

       Um dia, depois de tanta seca e tanto calor, o seu desejo realizou-se. Acordaram numa manhã, cinzenta, fria, até pensaram que os tinham levado para outro sítio, mas não. Estavam na sua casa, trocaram olhares surpresos: 

- Onde estamos? 

- Na nossa casa, parece-me! 

- Sim, olha ali aquelas flores, e a corte dos animais, a casa do senhor e da família. 

- É! Estou a ver, mas o tempo está diferente... 

- Pois está. 

- Será que dormimos tanto, que nem nos apercebemos da mudança de estação? 

- Não, isso não é possível. 

- Mas ainda ontem estava sol e um calor que não se podia, hoje está cinzento, e frio. 

- Pois é, realmente nem parece o mesmo sítio. 

- Será que vai trazer a nossa tão desejada chuva? 

       Eles disseram o que parecia quase a palavra chave: chuva! De repente, parece que se abre uma torneira gigantesca das nuvens, e descarrega uma tromba de água, litros e litros de chuva, como nunca viram, uma ventania fria e forte. 

       Os sapos nem queriam acreditar. Os donos apavorados, tal como os animais, as flores encolhidas, mas ao mesmo tempo felizes por ter água, a erva a assobiar de felicidade com o vento, e por sentirem a chuva. 

       As árvores um bocadinho assustadas porque o vento fustigava-as, mas estavam a gostar do ar fresco e da chuva, podiam ouvir-se os risos delas, e elas deixavam-se levar, com os seus ramos de um lado para o outro, a frescura entre as folhas, fazia-as estremecer e ao mesmo tempo rir. As flores sorriam felizes, sentiam-se frescas, renovadas, eufóricas com tanta água. 

      Os donos assistiram dentro de casa, assustados, mas agradecidos por finalmente chover, os cães muito quietos e assustados, encolhidos nas casotas, em silêncio, no estábulo a agitação era grande, pois os bichos nunca tinham visto tal coisa.  

       Os sapos levantam as patas para as nuvens e fazem vénias como forma de agradecimento, cantam, dançam uns com os outros, abanam-se felizes. 

       Saltam, chapinham, brincam na água, mergulham, boiam, dão gritinhos de alegria e satisfação, coaxam bem alto, nem se abrigam, abrem as patas como se estivessem a apanhar cada gota de chuva que caía.  

       Num instante, tudo fica ensopado, enlameado, o riacho voltou a ter água até às bermas, como ficavam quando a chuva vinha na sua época, e no tempo normal. 

       O dono grita para eles se abrigarem, mas eles nem o ouvem, continuam numa grande festa, tantas eram as saudades da chuva. Só recolhem às suas casas, quando ouvem um estrondoso trovão que iluminou o céu todo, parecia noite, desenhou raios por todo o lado, e rebentou por todo o lado. 

        Os sapos não sabiam o que era, mas assustaram-se realmente, começaram aos gritos e meteram-se nas tocas. A luz na casa falhou, os cães não param de ladrar, os animais na corte, andam de um lado para o outro nervosos.  

        As árvores entram em pânico porque sabem que os relâmpagos podem ser perigosas para elas, estremecem, juntam os ramos umas às outras, cantam para correr com o medo, abanam-se, soltam um grande grito quando um raio cai na terra aos seus pés, além do barulho que fez, mas suspiram de alívio quando percebem que estão todas bem. 

       A tempestade continua, e os sapos não saem mais das casas, até esta passar, ao fim de dois dias a chover sem parar e a trovejar. Apesar de sentirem medo, depois da festa, estão felizes pela chuva, que mudou a paisagem, souberam que tinham água para muito tempo, e as pessoas da casa, os outros animais também. Já não precisavam de fazer quilómetros atrás da água. 

       Enquanto choveu sem trovejar, os sapos saíram muitas vezes das casas, para apanhá-la, numa grande euforia, gritavam, coaxavam, riam, cantavam, dançavam, saltavam, mergulhavam, brincavam uns com os outros, mas quando começavam os trovões, fugiam o mais depressa que podiam, e ficavam calados, assustados. 

- Abençoada chuva! - diz o agricultor

       Quando o sol regressa, perceberam que as pastagens estavam maravilhosas para o gado, os sapos não cabiam em si de felicidade, sempre que chovia, faziam sempre uma festa, um bailado, com cantares e dançares, muito riso e brincadeira. 

       O que era pó, palha seca em vez de erva, amarela, transformou-se em erva fresca, verde, suculenta, tenra. Pouco depois, voltou a neve, com camadas que nunca ninguém tinha visto, e os sapos ficaram recolhidos, porque estava frio, tal como os outros animais, mas encantados com a paisagem. 

        Tudo é preciso, para a Terra, para nós, e para os animais. 

E vocês festejam quando chove, ou ficam zangados e tristes? 

Para que serve a chuva? 

Sentem medo da trovoada? 

O que fazem para não sentir tanto medo? 

Podem deixar nos comentários. 

Até já. 

                                                FIM 

                                             Lara Rocha 

                                     15/Setembro/2023

sábado, 9 de abril de 2022

Hino à água nos sonhos

Desenhado a pastel seco por Lara Rocha 

Não vivemos sem água, vivemos em água antes de nascermos, e precisamos dela para viver. A água é muito generosa connosco, e nós estamos sempre a fazer-lhe mal: dá-nos peixe, sal, algas, inspira-nos, purifica-nos, lava-nos, limpa-nos o corpo e a alma. 

        Como a água faz parte do nosso dia a dia, sonhamos com ela, muitas vezes. Alguns sonhos parecem místicos, quando vamos a água a sair de uma nascente, de uma fonte, como vemos nos jardins públicos ou em casas particulares, monumentos, a água que brota de estátuas fantasticamente trabalhadas, quase pessoas reais, umas mais pequenas outras maiores. 

        Pode acontecer nos sonhos com água, ficarmos com a sensação de estarmos a viver numa outra época, ou cidade, que estamos a fazer parte de um filme histórico. A água é símbolo de vida, que nasce do conhecimento, das experiências, e desenvolvimento pessoal, espiritual. 

        A água nas suas diferentes formas (chuva, humidade, mar, rio, lago, gruta e outras, é vida, remete para a nossa origem, mostra como estão os nossos sentimentos, ela é o espelho que reflete o nosso inconsciente, nos sonhos. 

        Água é renovação, tanto nos sonhos, como na vida real, toda a terra precisa de chuva para as sementes produzirem, para todos, homens e animais sobreviverem, hidratarem-se, refrescarem-se, ou aquecerem-se. Nos sonhos, quando a água ferve, mostra-nos que estamos a «ferver de raiva», a sofrer de grande stress ou de emoções muito intensas «escaldantes».

        Em contraste, quando o sonho nos mostra águas serenas, se tomamos banho agradáveis, ou até nos vemos a nadar, é porque nos sentimos em paz com nós mesmos, com os outros, com a vida, estamos satisfeitos e serenos, felizes, por isso, sentimo-nos seguros a explorar o nosso mundo interior, Sabemos que vamos encontrar lá aspetos bons, bonitos. 

        Se no sonho estamos numa praia, a tomar um banho fantástico, a costa ou a praia, simbolizam o nosso consciente e o inconsciente. Existem sonhos com água que nos perturbam, são intensos e parecem quase verdadeiros, aflitivos, quando vivemos ou passamos por situações que nos provocaram emoções esmagadoras, se no sonho enfrentamos uma inundação da casa por exemplo, ou do espaço onde estamos. 

        Mas se o cenário do sonho for uma erupção vulcânica, é uma forma do nosso inconsciente nos dizer que estamos a conter a raiva, por isso nos sonhos essa raiva liberta-se através do vulcão. 

        Quando existe água sobre a terra a seguir à explosão vulcânica, é um bom sinal e quer dizer que as emoções que borbulhavam (como a raiva), estão a arrefecer e a serenar. Quando ficamos encharcados nos sonhos, por uma chuvada ou tempestade, no sonho, relembra-nos o que sentimos quando outros descarregam em nós os seus sentimentos ou como dizemos «chovem em cima de nós, as emoções dos outros», mesmo que não estejam diretamente relacionadas connosco, afetam-nos. 

        E se sonhamos que estamos a brincar ou a ser atingidos por pistolinhas de água, é porque estamos a mostrar ou a reviver emoções infantis, a projetá-las noutros. O mesmo acontece quando sonhamos com aquários: se os peixes nadam agradavelmente e livres, a água está limpa, significa que estamos felizes, calmos, mas se a água está suja ou os peixes revelam inquietação, então temos em nós muitos impulsos reprimidos. 

        Numa comparação figurada, a pessoa é um barco a flutuar sobre uma massa de água gigantesca, um ego à superfície de uma mente imensamente profunda. Os sonhos de mares calmos e navegação serena podem descrever um bom relacionamento entre os dois lados (consciente e inconsciente). 

     Em contrapartida, os mares agitados ou os navios que naufragam indicam problemas, mais concretamente, se o oceano sobe de nível e inunda a costa, é um sinal de alerta para a sobrecarga do inconsciente, no que se refere a conteúdos como memórias e emoções que se abatem sobre a vida diária. 

        Se o oceano recua, então é um comunicado de que a nossa consciência se está a expandir, e a vir à superfície, o que antes estava submerso, oculto, o mesmo significa quando sonhamos com um embarcadouro. 

        A chuva visita-nos frequentemente ao longo do ano, e ainda bem durante tempos mais ou menos prolongados: dias, semanas, de vez em quando, meses. Apesar de sabermos que é preciosa e essencial à vida na terra, a sua presença afeta-nos de forma mais ou menos acentuada, direta ou indiretamente, o nosso estado de espírito, que responde em conformidade com a escuridão, do céu, a «falta de sol», faz-nos sentir mais tristonhos, ou depressivos, dependendo da sensibilidade de cada um (não é mito, é mesmo realidade). 

        Por ficarmos mais tristes, e com ar mais pesado, sérios, às vezes até sentimos mais vontade de chorar, e nos sonhos, essa tristeza pode materializar-se em forma de gotas, que na prática são a figuração das nossas lágrimas, quando o cenário dos sonhos é pintado com chuva (tanto podem ser as lágrimas que choramos de verdade ao longo do dia, e expomos, como aquelas que engolimos, não conseguimos mostrar, mas saem nos sonhos. 

      Assim, o tamanho das gotas e a intensidade da chuva, são reflexo do mesmo na nossa tristeza. Se no sonho estamos à espera da chuva, no real significa que esperamos que a tristeza passe. 

        Sabemos por experiência que quando a chuva é em excesso, demasiado forte e em grande quantidade, acontecem cheias, inundações, o que se torna muito perigoso. Temos urgência em escapar ou protegermo-nos de qualquer forma. 

        Ao sonharmos com uma inundação, constitui um alerta para uma situação da nossa vida que está a piorar cada vez mais, e que nos faz sentir imensamente submersos, a precisar de ajuda urgente. Ver chuva num sonho relembra-nos que alguma situação nos provocou muitas lágrimas. Sonharmos com inundações, é um aviso inconsciente para o facto de determinada situação que estamos a enfrentar, nas nossas obrigações. 

        Outra variante de água nos sonhos, é sob a forma de gelo e neve. Embora seja uma paisagem lindíssima, na vida real, a sua mensagem nos sonhos, é um reflexo das nossas emoções face a alguém ou a alguma coisa na nossa vida que congelou, e não está a progredir. 

        Neve, granizo, geada e gelo, mostram que recentemente arrefecemos emocionalmente em relação a alguém, ou alguma área da nossa vida está congelada, suspensa, parada. A geada, nos sonhos (outra forma de água), pode ser indício de algum problema de saúde (como quando sentimos frio se temos febre). 

        O gelo avisa-nos do risco que corremos ao endurecer excessivamente as nossas emoções, com a consequente rigidez de personalidade. O frio, sugere o desejo de isolamento,  solidão, e elevação ascética, mas desumanizada:  falta de sentimentos afetivos. 

        O orvalho representa a pureza, a ingenuidade, e a virgindade por ser uma água que se deposita suavemente sobre a natureza ao amanhecer. Transmite-nos a sensação de que há uma grande frente gelada a atravessar a nossa vida. Este sonho convida-nos a refletir se somos nós próprios que emitimos ou demonstramos vibrações geladas ou se é alguém que nos envia esse gelo. 

        Se sonhar com o oceano pergunte-se se estará a ser estabelecida uma compaixão com que sente, ou com algo que está a acontecer na sua vida. Repare se a água é profunda ou não, calma ou encapelada, limpa ou turva, pois estes pormenores podem descrever sentimentos, ou, por exemplo, as matizes de um relacionamento.

       Procure igualmente expressões idiomáticas como «vir à tona respirar» ou «de vento em poupa».    

      Sonhos com ondas - se as sentimos a embalar-nos, é um aviso de que nos estamos a deixar levar pelas circunstâncias e a afastarmo-nos facilmente do nosso objetivo. Se as ondas são grandes, representam as paixões, de amor, ódio, ciúmes, vingança, e outros que podem fazer naufragar a nossa vida privada, profissional ou social. Andar sobre as ondas, simboliza a sublimação.

        Por fim, às vezes os sonhos podem ser literais, por isso, alguns sonhos com água são um alerta do corpo para a necessidade de hidratação e ingestão de líquidos, banho ou limpeza de algo como emoções negativas ou inchaço do ego.


                                                                    Lara Rocha 

segunda-feira, 22 de abril de 2019

A amizade entre as gotinhas de água e a aranha

       

Era uma vez uma aranha que vivia num país muito quente, poluído, onde já não chovia há muitos anos. Os habitantes e os animais que lá viviam já estavam habituados ao calor. Mas ultimamente estava a ser demasiado, o calor, e a secura.
         Uma aranha passeava pela areia quente, sem pressa, e aos saltinhos pequeninos para não sentir tanto o quente, procurava desesperadamente uma sombra, era quase um oásis encontrar alguma. Para não ficar ao sol, ela andava mais rápido, e finalmente encontrou uma palmeira com grandes folhas.    Trepou rapidamente pelo tronco e chegou à primeira folha, dobrada, macia.

- Áh! Que bela sombra! - Suspira a aranha - Encontrei o paraíso. Como é possível este forno, quase ficava esturricada. Que sufoco...aqui está fresquinho. Áh! Que bom. Só falta água para ser perfeito. Quando irá acontecer? Aiiii...

        Umas gotas de água ouviram o seu desejo e ficaram com pena dela. Decidiram cair da atmosfera e pousaram em cima da teia. A aranha tece uma teia em cima da folha, muito vagarosamente, mas o efeito final parece uma colcha rendilhada. Finalmente repousa num cantinho da sua teia. Adormece, e sonha com muita água, que havia água por todo o lado, e ela nadava feliz, saboreava a frescura da água, e refrescava-se.
       As gotinhas já lá estão a brincar e a saltar na teia, quando a aranha acorda a sorrir. Teve de olhar várias vezes para as gotinhas, pois pensava que ainda estava a sonhar.

- Água...? Ááááááhhhhh.... Sim, quero água! Quero tanto água que até sonho com ela. Acho que ainda estou a sonhar, e a vê-las aqui. Mas com este calor é impossível haver água. Ai, que sede! Água... por favor, onde há água? Água!

- Coitadinha, está a delirar com o calor. - diz uma gotinha

- Olá! - dizem as gotinhas em coro

- Água...- diz a aranha

- Estamos aqui. - Respondem as gotinhas

         Sacodem-se e molham a aranha, outras gotas contorcem-se por cima da aranha e dão-lhe um belo jato de água. A Aranha suspira feliz, ri.

- É real ou estou a sonhar?

- É real.

- Água? Isto é água? Áááááááhhhhhh... Á-g-u-a...Água! Sim, é agua! - Salta a aranha feliz - molhem-me mais, por favor.

         As gotas juntam-se, entrelaçam-se, abraçam-se, e enchem um buraco no tronco da palmeira com água. Depois enchem outro buraco ainda maior com água para ela beber. A aranha sorri, saltita feliz, toda brilhante.

- Áh! Água... Muito obrigada. Quero beber mais água...

         Abre a boca, e as gotinhas deitam mais água na teia para a aranha se molhar e beber sempre que sentisse sede. As gotinhas riem ao ver a enorme felicidade da aranha.

- Quando precisares de água, chama-nos. - Diz outra gotinha

- Muito obrigada!

         As gotinhas voltam para a sua casa, e a aranha sente-se tão feliz, mas tão feliz que fica mergulhada na água que as gotinhas deixaram no tronco. Mas, começou a pensar:

- Eu estou aqui agora, rodeada de água, que maravilha! Mas...e os humanos, será que também não precisam de água? Eu até lhes dava alguma, mas não quero saber, também não gostam de mim, nem da minha família. Que se arranjem! Espera...e se eu lhes der água, será que eles me aceitam melhor e começam a gostar mais de mim? Hum, acho que não. Eles são muito nojentos. Tratam-nos muito mal, não merecem! Não. Esta água é toda para mim. Óh…mas...e se há bebés? E outros animais? Todos precisamos de água! Mas não quero saber.
       
         Enquanto a aranha refletia, dividida entre a bondade e a vontade de ignorar quem não gosta dela, começa a chover torrencialmente. Ela dá um grito, e muito assustada corre para uma toca onde estavam morcegos a dormir. Ela nem reparou.
         Choveu durante horas e horas seguidas, as pessoas da terra ficaram tão felizes, queriam tanto água, e precisavam mesmo, que dançaram, apanharam chuva, cantaram, encheram baldes, atiraram-se para as piscinas, porque estava calor.
         A chuva foi tanta que encheu barragens completamente vazias. Felizmente voltou a haver muita água nas torneiras, criaram ilhas naturais no meio de areias, encheu tanques, fez crescer vegetais, e voltou a haver água que se farta, o que foi ótimo para a alimentação dos animais.
        A teia da aranha ficou cheia de gotinhas saltitantes, que se desprendiam com o vento, que as sacudia. Umas conseguiam agarrar-se à teia, outras caíam. A aranha ficou deliciada a ouvir o barulho da chuva a cantar em tudo o que batia. Ela saiu da toca e foi brincar com as gotinhas. Por isso, além de água, a aranha ganhou novas amigas que adoravam saltar na sua teia, e elas, em troca para agradecer, matavam-lhe a sede, e refrescavam-na. A aranha e as gotinhas tinham longas conversas, riam e brincavam muito umas com as outras. Sempre que estava tudo demasiado seco, as simpáticas gotinhas levavam as famílias e as amigas para inundar tudo outra vez.
         E assim cresceu uma linda amizade entre as gotinhas e a aranha.

                                                                            FIM
                                                                            Lala
                                                                      22/Abril/2019
                                                                     
                                                               
 

sexta-feira, 8 de maio de 2015

AS PESTANAS


           Era uma vez uma joaninha que tinha uns lindos olhos castanhos claros, enormes, e umas pestanas ainda maiores, reviradas para cima. Toda a sua família tinha esse pormenor que fazia a diferença das outras famílias de joaninhas.
        As suas pestanas eram muitas vezes visitadas por borboletas e pirilampos que não resistiam em experimentar, pousavam nelas, deixavam-se escorregar e até baloiçavam. Queriam ver e sentir de que eram feitas.
         Quando a invasão começou, no início, a joaninha até achou alguma piada, e permitiu que tocassem ou pousassem nas suas enormes pestanas, mas cansou-se, e começou a ficar com os olhos muito irritados de tanto bichinho que pousava lá.
       Não queria cortar as pestanas, porque elas eram bonitas e uma defesa para os seus lindos olhos verdes, mas também não queria ser má e correr o risco de perder as amizades que tinha construído com quem pousava nas pestanas.
Como é que ela ia resolver? Não podia ter tudo…ou cortava as pestanas e deixava de ter os olhos irritados, ou mandava os bichinhos embora e ia ficar de certeza muito triste porque perdia os amigos.
O que é que ela ia fazer? Mas que grande dúvida. Foi conversar com a sua madrinha, uma formiga grande, e simpática, muito amiga da família, a quem ela chamava com muito carinho «Dlinda». Contou-lhe o que estava a acontecer, e pediu ajuda para a sua dificuldade.
- O que faço, Dlinda…?
A madrinha aconselhou-a:
- Olha: deves dizer aos teus amigos, a verdade! Diz-lhes que gostas muito deles, que deixaste que eles tocassem e sentissem nas tuas pestanas mas eles não vão poder fazer mais isso porque estás com os olhos irritados, e se eles pousarem nas tuas pestanas vão irritar ainda mais os teus olhos. Além disso, também eles podem ficar doentes, se continuarem a tocar nas tuas pestanas assim.
- A sério?
- Sim! Essa irritação nos olhos é contagiosa! Se tocarem ai podem apanhar. É como o vírus que provoca a constipação.
- Áh! Não sabia.
- Sim, é mesmo.
- Mas eu acho que eles vão ficar muito tristes comigo!
- Não vão nada! Eles são teus amigos, e vão continuar a ser, só não vão mais para as tuas pestanas, até porque as tuas pestanas não são um parque de diversões, certo?
- Certo.
- Por muito que eles gostem das tuas pestanas, não têm o direito de brincar com elas, ou de se divertirem com elas. Eles vão continuar a ser teus amigos, e a brincar nos sítios onde é para brincar…nos mesmos onde tu brincas.
- Entendi. E se mesmo assim eles ficarem zangados comigo?
- Não lhes ligues…
- Obrigada, Dlinda…
- De nada, querida. Até logo…
- Até logo.
        A joaninha sai de casa da madrinha. Encontra os amigos que costumavam pousar nas suas pestanas.
- Óh, não amigos…por favor…não pousem mais nas minhas pestanas. Eu sei que gostam muito delas, e eu também gosto muito de vocês, mas não vão poder pousar mais aqui. Podem ficar doentes…isto pega-se…como as constipações. Estão irritadas.
- Óh! Desculpa! – Dizem todos os amigos
- Coitadinha…estás doente? – Comenta uma borboleta
- Isto passa. – Diz a joaninha
- Por nossa causa? – Pergunta um pirilampo
- Talvez não tenha sido por vossa causa. – Diz a joaninha
- Já podias ter dito há mais tempo, amiga. – Diz outra borboleta
- Gostamos muito de ti…- Dizem todos
- Tens toda a razão…as pestanas não são sítios para pousar. – Diz outra borboleta
- Mas podemos brincar noutro sítio… - Diz a joaninha
- Claro! – Dizem todos
- No parque, no jardim, no campo… - Sugere outra borboleta
- Então não ficaram tristes comigo? – Pergunta a joaninha
- Claro que não! – Dizem todos
- Nós é que temos que te pedir desculpa… - Diz uma borboleta
- Ficaste doente por nossa causa! – Diz outra borboleta
- Vamos brincar? – Diz a joaninha
- Vamos! – Gritam todas
       Vão todos com a joaninha, de patinhas no chão, ou a voar, a cantarolar, a conversar e a rir para o campo. De repente, sentam-se à sombra debaixo de uma flor enorme. Caem das pétalas, duas gotas de chuva nas pestanas da joaninha, uma em cada olho.
- Ai…está a chover? – Pergunta a joaninha
- Não! – Respondem todas
- Caiu-me uma gota nas pestanas.
        As duas gotinhas riem, escorregam e brincam com as pestanas.
- Ei…saiam daí. – Gritam todas
- Os olhos dela estão irritados. – Lembra uma borboleta
- Não podem tocar aí. Vão ficar doentes. – Lembra outra borboleta
- Não te preocupes! – Dizem as gotas
- Nós estamos a lavar as pestanas. – Diz uma gota
- É para isso que servimos…lavar…desinfetar… - Diz outra gota
- Daqui a pouco já não tens nada! – Diz uma gota
- É como quando se chora! – Diz outra gota
- Isso mesmo! As lágrimas também lavam. – Diz uma gota
- Fecha os olhos! – Diz outra gota
       A joaninha fecha os olhos e as pestanas ficam para a frente. As borboletas estão muito curiosas e atentas.
- Vejam lá o que vão fazer aos olhos da nossa amiga! – Diz uma borboleta preocupada
- Fica descansada. – Assegura uma lágrima
- Sabemos o que estamos a fazer! – Diz outra lágrima
- Não abras antes de dizermos. – Diz uma lágrima
- Está bem. – Diz a joaninha
       As duas gostas, enrolam-se sobre si mesmas, e lançam um grande jato de água, lavando as enormes pestanas da joaninha, como se fosse um chuveiro, deslizam sobre as pestanas e parece que estão a esfregá-las. A água suja cai toda no chão sem molhar a cara da joaninha, e toda a irritação desaparece. As borboletas estão espantadas.
- Áhhh…! – Exclamam todas
- Como é possível?
- Desapareceu tudo!
- Tudo? As pestanas também? – Pergunta a joaninha assustada
- Não! Tudo o que era irritação. As pestanas estão aí, continuam enormes e lindas.
- Áh! Que susto! – Diz a joaninha a rir
- Estás ótima! – Diz uma gota
- Obrigada! – Diz a joaninha
- Como vos posso agradecer? – Pergunta a joaninha
- Chama-nos sempre que precisares! – Diz outra gota
- Encontras-nos sempre aqui. – Diz uma gota
        A joaninha volta a brincar feliz. As gotinhas vão trabalhar para outros sítios, e sempre que ela fica com os olhos irritados, lá estão as gotinhas. As nossas pestanas não são tão enormes como as da joaninha, mas também ficam irritadas e sujas de vez em quando, mesmo sem querermos.
     A água limpa tudo…a da torneira ou as lágrimas, e as pestanas protegem-nos os olhos…abrem e fecham quando vamos dormir, ou quando está vento e muito sol, para o lixo não entrar. É para isso que elas existem!

FIM
Lara Rocha 
(8/Maio/2015)


              

quarta-feira, 22 de abril de 2015

AS MAGIAS DAS TULIPAS



                                        (fotos de Lara Rocha) 

Era uma vez uma casa que tinha um jardim. Nesse jardim havia muitas flores, e entre elas lindas tulipas de muitas cores, que abriam e fechavam.
A menina da casa ficava muitas vezes pensativa, e a perguntar-se porque é que ela umas vezes via as tulipas abertas, e outras vezes, estavam fechadas.
Um dia, choveu muito, e as tulipas estavam abertas, por isso, as gotas da chuva entraram…milhares delas para cada copo de tulipa. A menina continua a ver chover, e a tentar imaginar o que teriam as flores, e porque estariam abertas.
Ela pensava: se estava a chover tanto, as flores deviam estar fechadas, como fazemos nas nossas casas com as janelas e com as portas…mas estão abertas…e…para onde irá a água…?
Parou de chover, e volta a brilhar o sol. A menina sai de casa e vai ver se descobre porque é que umas flores estavam abertas e outras fechadas, e se tinham afogado com tanta água.
A água via-se através das flores que estavam fechadas, onde dava o sol, e parecia que tinham alguma coisa lá dentro…Nas pétalas de algumas delas estava pousado o arco-íris, e noutras viam-se milhares de bolas de sabão a sair, pareciam vir de dentro das flores.
Mas como é que isso podia ser? Vinham mesmo de dentro das flores, eram as fadas feitas de gotas de água que estavam a tocar os seus instrumentos, para não terem medo da tempestade que se aproximava, e não demorava muito. A menina não ouvia música.   
Ela toca numa flor fechada, e de repente, a flor abre-se, saltando de lá uma borboleta feita de gostas de água, e voa. A menina nunca tinha visto aquilo, e abre um enorme sorriso.
- Áh! Uma borboleta de cristal? Que linda…não conhecia esta espécie.
- Não sou de cristal…sou de água! – Diz a borboleta
- De água?
- Sim.
- Mas…não sabia que existiam borboletas feitas de água.
- Existem, borboletas e muitas outras coisas.
- O quê?
- Espera para ver! Até já! – Diz a borboleta
E vai passear. Noutra flor, fechada, as gotas estão por cima, nas pétalas, a menina sopra, e a flor abre-se. De lá saem várias fadas com instrumentos musicais, todos diferentes, e tudo feito de gostas de água. As fadas começam a tocar nos instrumentos, e brilham com o sol.
- Áh! As bolas de sabão vinham daqui.
- Olá…estamos a fazer muito barulho para ti? – Pergunta a fada de água
- Não! És feita de água? – Pergunta a menina
- Sim! Eu e o meu instrumento musical
        A fada mostra uma bela viola à menina, toda feita de gostas de água.
- Uau! Que lindo, e faz música?
- Faz.
        A fada começa a toca, e corre todo o jardim, sempre a tocar. Com a sua música, desperta todas as outras flores que estavam fechadas, e abrem-se, ao som dos diferentes instrumentos…aparecem meninas bailarinas, pequenas índias, pássaros, mais borboletas, sereias, focas, pinguins, pequeninos ursinhos, joaninhas, gatinhos, ovelhas, princesas, fadas e dragões…tudo feito de gotas de água. Caminham felizes pelo jardim, e desafiam a menina para dançar.
As fadas tocam, e os outros dançam alegremente, com a menina. Com o sol a dar-lhes, pareciam todos feitos de vidro ou de cristais. Que lindo! Pareciam transparentes e muito delicados, levezinhos… A mãe vê a menina em movimento, e pequeninos brilhantes a voar.
Mas o sol é de pouca dura…porque aproxima-se rapidamente uma enorme tempestade. As borboletas e as fadas começam a voas desajeitadas, e a mexer-se de forma estranha com a forte ventania que se levantou.
Os instrumentos começam a falhar, e os outros seres começam aos gritos muitos assustados:
- Vem aí uma tempestade.
- Vai para casa…vem aí uma tempestade… demora menos de cinco minutos. – Avisa uma borboletinha
- Óh, não vão embora, por favor… - Pede a menina
- Voltamos quando a tempestade passar. – Promete uma fada
        E todos se refugiam, escondem-se em todas as tocas que vêem e as que estão mais próximas…uns, numa velha árvore cheia de buracos que havia no jardim, outros dentro das tulipas que se fecham rapidamente, e outros, debaixo das flores.
        A menina corre para casa, assustada. Mal ela entra a porta… chega a tempestade, com muitos raios e trovões, vento muito forte, muita chuva. As tulipas também serviam de casa e abrigo para estes seres mágicos.
        Como tinham prometido, não foram embora. Muito pelo contrário…Desde esse dia, até levaram mais amigos! A menina recebeu a visita dos amigos feitos de gotas de água que brincavam com ela, e traziam outros.
        Todos os dias, aquelas tulipas abriam com novas surpresas e transformavam todo o jardim num espaço muito mágico.

                                                   FIM 
                                                   Lálá 
                                             (22/Abril/2015) 

Desafio:
E vocês? Já viram tulipas mágicas?
Gostavam de ter tulipas mágicas no vosso jardim, ou num vasinho? De que cor seria a tulipa, ou seriam as tulipas?
Se as conhecessem, que cores teriam?
E que magias é que elas vos mostravam?










terça-feira, 24 de março de 2015

QUEM VAI NAS BARQUINHAS?




(fotos de Lara Rocha) 



Era uma vez várias barquinhas que apareceram a navegar num grande lago. Eram amarelas e pareciam muito leves, frágeis. Numas não se via ninguém a conduzi-las.
         Quem via, perguntava:
- Áh! Que barquinhas tão estranhas.
- São muito leves.
- Nem parecem barcas…
- Não levam ninguém.
- Claro que não são barquinhas…são uma coisa qualquer, menos barquinhas.
         Mas nem tudo o que parece é! Estavam muito enganados… pensavam que não levavam ninguém, mas, de repente, viram uma coisa muito estranha, e apanharam um grande susto! Duma das barquinhas levanta-se uma pequenina bonequinha de pano, feita de sementes.
- Ai…! – Gritam todos e encolhem-se, escondem-se atrás de uma árvore.
- O que é aquilo? – Pergunta um gato selvagem
- Onde é que aquilo estava? – Pergunta outro gato assustado
- Nunca vi uma coisa destas… - Comenta outra gatinha
- Nem eu… - Respondem todos
         E ficam em silêncio, muito quietos a ver o que ia acontecer. A boneca olha à sua volta, e boceja:
- Áh! Acho que já cheguei ao lago. (grita) Amiga…cheguei! Onde estás?
         Da outra barquinha levanta-se uma borboleta pequenina, com asinhas finas e leves:
- Olá amiga! – Grita a borboleta com um grande sorriso.
- Estavas aí há muito?
- Mais ou menos…cheguei de manhã cedo, como ainda não estavas aqui, adormeci outra vez.
- Óh! Desculpa o atraso!
- Não! Não te atrasaste, eu é que não consegui dormir bem, com a felicidade de te receber aqui!
- (sorri) Eu também estava em pulgas para te encontrar.
- Estás bem?
- Sim, estou óptima, obrigada. E tu?
- Também! Anda! Vou mostrar-te a minha aldeia. Vamos tomar um belo pequeno-almoço, e passear.
         A borboleta empurra a barquinha da boneca, para a berma, dão um abraço e dois beijos, as duas vão passear alegremente, numa conversa muito animada.   
         Os gatos acompanham todos os movimentos, com os olhos muito abertos, sempre que ouvem as vozes.
- Não acredito… - Comenta uma gata, baixinho
- O que foi? – Perguntam todos, baixinho
- Intrusos…- Dizem todos
- É uma amiga daquela borboleta. – Diz um gato
- Aquela coisa tão pequena é uma borboleta? – Pergunta a outra gata
- Não. O que saltou da barquinha não é uma borboleta. – Confirma a outra gata
- Então? – Perguntam todos
- É uma espécie rara…desconhecida. – Diz outro gato
- Olha que pequena que ela é.
- Pois é. E…acho que não são patas…
- Não. São pernas!
- Pernas? – Perguntam em coro
- Sim, pernas!
- Onde é que a borboleta foi arranjar uma amiga são, tão…estranha?
- Não sei.
         Os gatos continuam a coscuvilhar e atentos a tudo, a tentar descobrir que amiga era aquela. Entretanto, um peixinho que vivia no lago assustou-se com a sombra das barquinhas e vai até à superfície. Fica muito surpreso:
- Nunca vi umas barquinhas assim!
         Ele toca a medo, para ver de que são feitas as barquinhas.
- Ei…isto não é de madeira! É mole e macio… (dá um encontrãozinho) Que leve! Quem usará isto? Afogam-se…! A não ser que sejam…penas, ou…formigas…ou aranhas…e mesmo assim…não sei se aguenta o peso!
         Aparece uma borboleta e pousa noutra barquinha. O peixinho fica muito atento.
- Como é possível? Aquilo aguenta o peso de uma borboleta? Mas…não é de madeira, não percebo!
         Aproxima-se mais da barquinha da borboleta.
- Amiga, desculpa…isso é o teu transporte?
- Sim! – Responde a borboleta
- E aguenta?
- Claro que aguenta!
- Mas…de que material é feito? É tão leve…e…macio…parece ser frágil.
- Sim, é mesmo leve, frágil e macio…não é de madeira, mas aguenta! É feito de pétala de flor! Não aguenta com todos, mas com os mais levezinhos, aguenta.
- Áh!
- Queres experimentar? Mas só podes andar na água, à superfície.
- Está bem…
         O peixinho fica um pouco desconfiado.
- E daí…acho que não confio nisso!
- Amigo…já estás na água.
- Sim…
- Anda lá…salta!
         O peixinho salta para a barquinha feita de pétala de flor, e fica muito admirado porque a pétala aguenta com o seu peso à superfície.
- Uau! Estou à superfície, numa barquinha feita de pétalas.
         Os dois divertem-se muito, brincam um com o outro, mergulham e tocam na água nas barquinhas, e embalados pelas águas ao sabor do vento, adormecem.
         A bonequinha e a outra borboleta sua amiga juntam várias pétalas que pareciam barquinhas, estavam na água, e constroem uma tendinha no solo, debaixo de uma árvore, á sombra, para a pequena dormir, porque vai ficar lá uns dias e a casa da borboleta é muito pequena.
         Nessa mesma noite, o lago é invadido por casquinhas de nozes e frascos de vidro, de onde se vê brilhar, alguma coisa parecida com luz.
         E era mesmo luz…dentro das casquinhas de nozes e dentro dos frascos de vidro, iam centenas de velas que as crianças da cidade acenderam pela PAZ no mundo.
         Todos acordam sobressaltados, porque os cães não param de ladrar, e vêem aquelas luzes todas na água.
- Tantas barquinhas! – Diz a borboleta surpresa
- Por isso é que os cães estão a ladrar… - diz a boneca
- Pois!
- Quem vai nas barquinhas? – Pergunta a boneca
- Áh! Que lindo…tanta luz! – Suspira e sorri a sua amiga borboleta
- É mesmo lindo! Quem os está a conduzir? – Pergunta a boneca
- Ninguém!
- Pois, também não vejo ninguém. Mas eles não andam sozinhos…
- Pois não! Vão guiadas pelo sabor da água e da aragem.
         De repente as barquinhas de nozes e os frascos com as luzes, são seguidos e acompanhados por milhares de pirilampos que ficaram sensibilizados com a causa.
- Onde vai tanta luz? – Pergunta a borboleta
- Haverá alguma festa por este caminho? – Pergunta a boneca
- Vamos perguntar. – Diz a borboleta
         As duas aproximam-se da berma e perguntam a um pirilampo, silencioso:
- Boa noite, amigos! – Dizem as duas
- Há por aí alguma festa? – Pergunta a boneca
- Estamos juntos! – Diz o pirilampo
- Sim, já vi que estão juntos, mas e as barquinhas à vossa frente? – Pergunta a borboleta
- Estamos juntos e solidários… (outro interrompe)
- Pela paz! – Acrescenta outro pirilampo
- As crianças da cidade puseram velas dentro de barquinhas de casca de noz e dos frascos, que vês ali a brilhar, pela paz no mundo! É luz!
- O mundo precisa de toda a luz, e mais alguma, para tanta cabeça maluca! – Diz outro pirilampo
- Tens razão! – Dizem as duas
- Por isso é que juntamos a nossa luz! – Acrescenta outro pirilampo
- É! Pode ser pequenina e fraquinha, mas é luz, e carregada de paz! – Diz outro pirilampo
- O que interessa é a intenção, e a que a nossa luz transporta é muito boa, com certeza, e comum a todos.
- Claro! – Dizem as duas e todos
- Juntem-se a nós…se quiserem! – Sugere outro pirilampo
- Claro! – Dizem as duas.
- Óhhh, mas nós não temos luz! – Repara a boneca
- Não têm uma vela, ou uma lanterna? – Pergunta outro pirilampo
- Podem vir mesmo sem luz, o que interessa é a vossa presença.
- Eu tenho! – Lembrou a boneca
         Vai à sua tenda e tira de lá a lanterna. A borboleta vai buscar outra, e voltam a encontrar-se, seguindo com os pirilampos.
         E chegam ao fim da viagem, onde estão centenas de crianças e adultos que aplaudem com as lágrimas nos olhos, de felicidade.
         Cada um pega numa vela, e escrevem um belo poema no chão, para a Paz no Mundo. Uma espécie de oração. Tiram muitas fotos, e nessa noite, sente-se um ambiente de paz. Além das luzes, todos trocam abraços.
         De certeza que essas luzes de paz chegaram através das estrelas, aos países no mundo que andam em guerra. Afinal…ninguém ia nas barquinhas de cascas de nozes, nem naquelas feitas de pétalas de flores, que pareciam ser barquinhas.
O peixinho tinha razão…só alguém muito leve podia ir nessas barquinhas de pétalas. Mas a luz e a paz são sempre muito leves, e não precisam de navegar nas águas em barquinhas de flores, ou nozes, nem serem conduzidas por alguém, porque a luz pode voar…e se forem enviadas com toda a bondade, e sinceridade, do coração, elas chegam lá onde mais precisam dela!

                                      Fim
                                      Lálá
                        (24/Março/2015)