Era uma vez uma árvore enorme, frondosa, com um tronco cheio de enrolados e saliências, algumas crateras, e guardava um segredo.
Num local isolado da cidade, os habitantes, e as folhas de Outono reuniam-se num largo, para conversar, conviver, dançar, fazer jogos, jantares, almoços.
Outras senhoras juntavam-se para fazer trabalhos manuais, como bordados, arraiolos. E os senhores jogavam jogos coletivos, conversavam com muitas gargalhadas, cantavam e tocavam instrumentos.
As crianças brincavam umas com as outras, partilhavam brinquedos, liam histórias, faziam desenhos e pinturas, saltavam, dançavam em roda, riam muito, e era uma grande alegria.
Mas de repente, ouviam uma misteriosa voz, muito bonita, diziam que era a árvore, que todos os dias, às mesmas horas contava histórias de encantar.
Quando chegava essa hora, acendia-se uma luz muito bonita na árvore e começava uma história. Todos faziam silêncio, sentavam-se a olhar para a árvore, e esta contava histórias a quem a queria ouvir.
No Outono juntavam-se as folhas das árvores espalhadas por vários sítios, aos pés da árvore para ouvir as histórias. Todos queriam.
A árvore contava todos os dias uma história diferente, todas que tocavam as emoções das pessoas mais velhas, fazia-os recordar tempos difíceis mas felizes e choravam em silêncio.
Muitas coisas inspiravam-na, escrevia as ideias, construía histórias, outras eram inventadas pelo que via, ouvia, ou vivia durante o dia.
Umas histórias eram sonhos. Outras, pensamentos que ela transformava em personagens, misturadas com a realidade. Incluía os seus medos, e os das pessoas, as lendas, as tradições da aldeia, os jogos, as emoções que a tocavam no dia a dia por onde passava, disfarçadas.
Tinha histórias mais bonitas, de fantasia, para fazer imaginar e sonhar, outras ainda arrancavam grandes gargalhadas. Todos se deixavam levar pela magia dessas histórias, sonhavam acordados, sorriam, choravam, riam, imaginavam.
No fim, aplaudiam, e agradeciam em conjunto. Algumas pessoas e crianças abraçavam a árvore. Quando isso acontecia, soltavam-se estrelas leves como penas, que pousavam nos rostos das crianças, acariciando-as carinhosamente, e no coração, tanto dos adultos como das crianças.
Elas sorriam, e seguravam carinhosamente. Isso fazia-os sentir paz, e até dormiam melhor. Recolhiam às casas, e a árvore ficava orgulhosa, dormia a sorrir, sentia-se realizada.
Bem, o segredo é que...não era bem a árvore que contava as histórias e que soprava estrelas de paz. Na verdade, as histórias eram contadas por uma borboleta muito bonita, discreta.
Não se mostrava, mas vivia no interior da árvore, era escritora, lia muito, saía, como todas as outras, mas adorava ver todas aquelas pessoas juntas, felizes, que paravam para a ouvir.
Ouvia os comentários de encanto, via as expressões, as emoções, ficava feliz porque as suas histórias tocavam quem a ouvia, e percebia que faziam sentir alguma coisa: rir, chorar, sonhar.
Adorava ver todos juntos, e toda aquela partilha nas atividades. Ouvia dizer que era a árvore que contava as histórias, mas fazia de conta que acreditava e mostrava-se surpresa.
No Inverno, não havia histórias, a árvore, quer dizer, a borboleta, ficava a descansar, a dormir, talvez á procura de novas ideias, porque as pessoas também se recolhiam mais, e não saiam à noite.
Quando mesmo no frio espreitava, via lareiras acesas, e as pessoas enroladas numa manta, a ver televisão, ou a fazer outras coisas dentro de casa.
Pensava como seria bom! A sua árvore não tinha lareira, mas era confortável. Ela fechava-se sobre as suas asas, e cobria-se. Alimentava-se, quase congelava quando saía, voltava para o tronco, e escrevia, até o sono chegar.
Era uma fase longa, em que ela ficava mais triste, tal como as pessoas, mais sonolenta, pelos dias escuros, e pequenos, pela chuva, pelo frio, pelo vento.
Tudo isso inspirava a borboleta para escrever novas histórias, e quando os dias começavam a crescer um bocadinho, as pessoas voltavam a sair mais, na Primavera, voltavam as histórias maravilhosas que ela escrevia e lia.
E retribuía com as estrelas leves. Os habitantes nunca pensaram que era uma borboleta, nem estavam preocupados em saber, apenas apreciavam aquele momento de união com todos, para o mesmo objetivo: ouvir histórias de encantar contadas pela árvore.
Para ela e para os habitantes, o mais importante era aquele momento bom, de ligação, e beleza.
FIM
Lara Rocha
3/Outubro/2026
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