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sexta-feira, 15 de julho de 2022

amor de sonho

 


     No Castelo do Queijo, vivia um príncipe, de olhos cor do mar ao fundo no horizonte.   A sereia sentia que os olhos do príncipe eram mais fortes que o seu canto, e pareciam hipnotizá-la, mas ficava triste porque o príncipe não queria saber dela. 

     Na Foz do Douro, uma sereia apaixonada, que quando cantava no mar silencioso e dançante, este calava-se, quase adormecia com a sua doce voz, até sonhava acordado. 

        A sereia tinha uma voz cristalina, mas o seu canto era triste. Cantava para chamar a atenção do príncipe, que chorava na janela, não pela sereia, mas por outra princesa. 

        Uma estrela do mar, gostava de histórias de amor, então, percebeu que os dois sofriam, pensou que era um pelo outro. Uniu os dois, no silêncio da noite, na calma do mar, para que cada um deixasse lá as velhas e dolorosas mágoas saudosas. 

        As velhas e dolorosas mágoas saudosas, afundaram-se nas águas tristes do Douro. Mas existem amores que não têm de ser vividos como se imagina, porque também não existe um amor único. 

        Por mais que a estrela do mar quisesse juntar os dois, se não tivesse de ser, não aconteceria. E para sempre, o príncipe ficou prisioneiro no coração de uma mulher, não a sereia que espantava a sua dor a cantar. 

        Até que um dia cansou-se de esperar ser correspondida por aquele príncipe, por quem esperava dias e às vezes noites, por quem tanto chorava a cantar. Cansou-se de cantar cantos tristes, por quem sorria com outra princesa ao passear naquela zona. 

       Depois da dor passar, voltou a cantar cantos felizes, e o mar dançava feliz com ela, juntamente com os barquinhos que descansavam nas suas águas. 




                                                













                                                     Fim 

                                              Lara Rocha 

                                            8/Outubro/1999 


sábado, 18 de junho de 2022

A boa ação da gotinha e da menina

   



         Era uma vez uma menina que viu uma gotinha de água pousada na pétala de uma flor. A gotinha brilhava ao sol, podia ver-se o arco iris a sorrir-lhe. A menina observa-a. 

- Olá. - diz a gotinha 

- Olá! És nova por aqui não és? - pergunta a menina 

- Não. 

- Mas eu nunca te vi aqui. 

- Eu ando por muitos lados, mas volto sempre para este jardim que é a minha casa. 

- Áh, que giro. E por onde já andaste?

- Por muitos sítios. Queres conhecer alguns? 

- Tu consegues levar-me? 

- Consigo. 

- E trazes-me de volta? 

- Trago. 

- Está bem. 

        A gotinha transforma-se numa pequena bolha transparente, convida a menina a entrar, fecha a cápsula e a viagem começa. 

- Ai que altura! - diz a menina um bocadinho assustada 

- Não tem problema. Eu desço mais um bocadinho. Esta é a tua cidade vista de cima. Aprecia à vontade. 

        A menina olha através das janelas, e vê um molho de prédios, uns mais pequenos, outros mais altos, e torres. Não vê pessoas, nem animais. Só vê estradas, rotundas, carros que mal se percebem, árvores, alguns pequenos espaços verdes, umas casas com piscina. 

- Como é grande a minha cidade. Não sei onde está a minha casa... 

- Pois, talvez não a vejas daqui, mas quando voltarmos, deves conseguir vê-la, se moras perto do jardim onde estavas. 

- Sim. 

- Olha ali um espaço que adoro... 

        O espaço que a gotinha fala é a montanha, que fica num ponto muito alto da cidade, uma estrada cheia de curvas, mas uma paisagem muito bonita. Vê árvores, de diferentes tamanhos e espécies, espaços onde dá muito sol e outros muito sombrios, alguns carros parados, a torre de uma igreja, alguns jardins, e ao longe a praia. 

- Áh que giro! 

        A gotinha leva a menina à praia. Pelo caminho conversam alegremente, a gotinha mostra muitas coisas bonitas, que a menina nem fazia ideia que pertenciam à sua cidade. 

        A menina vê o mar de cima: 

- Ai, que coisa tão grande. É um lago gigante com ondas ali na ponta? 

- Não. Não é um lago, é o mar da praia. 

- Áh. Tanta água. 

- Pois é. Nem se vê o fundo. 

- Olha barcos ali, mas são pequenos. 

- Daqui são pequenos, mas quando chegarmos eu baixo e vais ver como são enormes. 

- Já passaste aqui? 

- Já.

        As gaivotas cruzam-se com elas, desviam-se, aos guinchos irritadas. As duas riem com vontade: 

- Olha, olha....ficaram com inveja. 

- É, não gostam de ver o espaço delas invadido. 

- O céu não é só delas. 

- Pois não. 

- Deixa-as para lá. 

        As duas riem, e uma gaivota pousa mesmo em cima da cobertura. 

- Que atrevida... xooooo... - diz a gotinha 

        Bate no vidro e ela voa. Sobrevoam alguns campos de girassóis gigantes e milho alto, campos muito verdes, com outras plantações, pinhais com sombra e sol. 

        Chegam à praia, vê-se a areia de cima, a gotinha baixa devagar e os barcos que pareciam tão pequeninos, tornam-se realmente gigantes. 

        Veem crude a boiar na água, uma coisa que reluz com o sol. 

- O que é aquilo? Que nojo! - pergunta a menina 

- Infelizmente é poluição. Crude, petróleo ou outros produtos assim. 

- Isso não é bom, pois não? 

- Não. 

        Veem na areia algumas aves com ar de doentes, crude nas penas, e elas aflitas para respirar. A menina grita: 

- Estão doentes... podemos baixar até à areia? 

- Sim. 

        Pousam na areia, a gotinha volta a ser gotinha, olham para as aves e sentem pena delas. 

- Estão bem? - pergunta a gotinha 

- Acho que comemos uma coisa envenenada. - diz uma ave 

- Olha para esta porcaria... - lamenta outra ave 

- O que é isso que tem nas penas? - pergunta a menina 

- Não sei. Parece cola. 

- Não nos conseguimos mexer. 

- Que nojo! 

        A menina e a gotinha levam as aves ao mar, ajudam-nas a lavar, a gotinha dá-lhes água limpa para beberem. Era mesmo crude, pois algumas penas tiveram de ser arrancadas porque não saía. A areia também está cheia de lixo. 

- Como é que isto veio parar aqui? - pergunta a gotinha 

- Não sei. - dizem todas

- Vocês correm perigo. Deviam ir para outra praia! 

- Que água deliciosa, a tua. - diz uma ave 

- Muito obrigada pela vossa ajuda. - dizem todas 

- De nada. Voltarei em breve para vos trazer água saudável. 

- Muito obrigada. Bem precisamos. 

- Até já.

- Está na hora de voltar... - diz a gotinha 

        Elas voltam para o jardim, pelo caminho veem mais paisagens bonitas. Sentem-se felizes e tristes. Felizes porque ajudaram as pobres aves que estavam doentes e intoxicadas com a poluição, mas essa parte foi a que as deixou mais tristes. 

        A menina agradece à gotinha o passeio, e a gotinha, como prometido vai à praia onde estiveram deixar água limpa para as aves beberem e tomarem banho. Para isso encheu vários buraquinhos nas rochas com a sua água onde costumavam pousar. 

        Era um sítio seguro que escapava à poluição. 

                                            

                                                               FIM 

                                                          Lara Rocha 

                                                        18/ Junho/ 2022 

                                              

   

sábado, 2 de maio de 2020

A prendinha da estrela

          




Era uma vez uma menina, filha de artistas de circo, que andava sempre de um lado para o outro, numa caravana, que tinha o mínimo de condições para viver, e tanto ela como os pais viviam felizes, juntamente com os outros artistas.
         A menina adorava os espetáculos, e todos gostavam muito uns dos outros. Em muitos lugares onde ficavam na noite dos espetáculos, eram descampados, onde se viam muito bem as estrelas. A menina tinha por hábito ouvir e ler histórias.
        Enquanto ouvia as histórias imaginava o que lhe era dito, mas também inventava as suas próprias histórias, a partir do que ouvia, e outras muito diferentes. 
        Ela nem imaginava que havia uma estrela muito lá em cima que se transformava em cigarra e ficava muito perto dela para se deliciar com as histórias, tanto as que lhe contavam como as que ela criava.
        A estrelinha estava entre as cigarras e usava um bloquinho onde escrevia as frases que mais gostava, as palavras mais bonitas, as personagens e nomes que eram bondosas, ações e espaços das histórias que a faziam sonhar.
        Um dia a estrelinha ouviu dizer que a menina estava quase a fazer anos. Decidiu oferecer-lhe uma prendinha para retribuir o que aprendia com as histórias que ouvia. 
        Numa noite em que regressou a casa depois de ouvir mais uma história, e ter anotado umas palavras bonitas, a estrelinha foi ter com a sua mãe e a sua avó, que eram costureiras, e pediu ajuda.
         Explicou às duas que queria oferecer uma prenda especial à menina que contava histórias, e mostrou-lhes o bloco. 
        Perguntou se conseguiam concretizar esse presente. As duas gostaram tanto da ideia, ficaram tão orgulhosas desse gesto da estrelinha, que puseram logo mãos à obra, e a estrelinha ajudou.
       Fizeram uma linda manta, toda feita de fios de lã de lua, muito aconchegante, macia e quente. 
       Pregaram todas as palavras, frases, personagens, nomes, ações, espaços, que tinha gostado mais, e que a estrelinha tinha escrito no caderninho. 
       Enquanto pregavam, a estrelinha recontava a história, falava sobre o circo, os artistas, os espetáculos, e conversavam sobre eles.
      Ainda juntaram cotõezinhos de lãs azuladas, amarelas e salpicos de brilho das próprias estrelas. 
      Num instante, e quase sem dar por isso, a manta estava pronta! Olharam para a manta, aberta, soltaram uma grande exclamação, e abriram um enorme sorriso.
- Áh! Mas que bonita que está. - suspira a mãe orgulhosa
- Está perfeita! - Sorri a Avó
- Uau! Obrigada, Mamã...Obrigada, Avó! Vocês são mesmo fantásticas.
       Trocam abraços e beijos. Chega o dia de aniversário da menina, e houve espetáculo. A estrelinha entra sorrateira na caravana onde vive a menina, e pousa a mantinha em cima da cama dela, com um cartãozinho que dizia: «Obrigada pelo que aprendo com as tuas histórias! Adoro. Muitos parabéns, muita saúde, muitas felicidades, e até já!»
       A estrelinha transforma-se em cigarra, para ver a reação da menina. Quando o espetáculo acaba, estão todos eufóricos, muito felizes com a forma como tinha corrido, e fizeram uma festa surpresa à menina.
      Atuaram só para ela, os palhaços que ela mais gostava, riram muito, aplaudiram, cantaram os parabéns, dançaram, e as surpresas não ficaram por aqui. Quando se preparava para deitar, viu a mantinha em cima da cama, e o cartãozinho.
- Mamã... tenho aqui mais uma prenda... foste tu?
- Prenda...? Não... não sei do que estás a falar.
       A menina mostra a manta à mãe e o cartão.
- Não fui eu, nem nenhum de nós, tenho a certeza! Mas, que linda... está cheia de palavras, frases...Como fizeram isto?
      A menina lê o cartão à mãe. Batem à porta, aparece uma menina, linda, que nunca ninguém a tinha visto.
- Boa noite! Podemos ajudar...? - Pergunta a mãe da menina
- Boa noite. Estou à procura da menina que faz anos hoje.
- Sou eu! Mas, não nos conhecemos... - Diz a menina
         A estrelinha sorri:
- Tu não me conheces, mas eu conheço muito bem as tuas histórias, aprendo muito com elas. Esta manta que acabaste de receber, fui eu que te ofereci, onde estão as palavras, frases, cenários, nomes, pessoas, lugares que mais gostei.
- Está excelente. Mas como é que ouves as minhas histórias, se não nos conhecemos...?
- Não posso dizer.Gostaste da manta, é o mais importante para mim. Muitos parabéns, e continua a ler e a inventar as tuas histórias que adoro ouvir.
        A menina sorri.
- Muito obrigada. Mas como é que te chamas?
- Estrela.
- Áh! Eu sou a Diana. Não queres entrar...? Pode entrar, não pode, mãe?
- Sim, mas vê lá, já é tarde. Onde estão os teus pais, Estrela?
- Lá fora, na minha casa.
- Vê lá, não vão ficar preocupados?
- Não. Eles sabem que eu vim aqui.
- Está bem. Queres um bocadinho de bolo que sobrou?
- Acho que aceito. Obrigada.
       A estrela conversa com a menina, como se fosse tal e qual uma amiga dela, come o bolo.
- Hum, está muito bom, este bolo. Obrigada.
- Obrigada eu. - Diz a mãe
- Bom, vou voltar para a minha casa, e tu, Diana, não tarda muito, também vais dormir, não é?
- É. Por favor, volta mais vezes! - Confirma a Diana
- Claro que sim! - promete a estrela
        Trocam um abraço, e dois beijinhos.
- Obrigada pela prenda, e muito gosto em conhecer-te! - diz Diana
- Boa noite, dorme bem. Até já...Boa noite, pais da Diana! - diz a estrela
- Boa noite! - respondem os pais da Diana
       A estrela dá alguns passos e desaparece. Diana fica pensativa, nunca tinha visto aquela menina em lado nenhum, como é que ela sabia tanta coisa, ouvia as histórias, e ainda por cima deixou-lhe uma prenda tão bonita! 
       Ela e os pais deitam-se, a menina envolve-se na manta, deliciada com a maciez, e os brilhantes.
      Quando ela estava quase a dormir, a estrela volta a aparecer, pousada na sua manta, em forma de estrela iluminada. 
      Pediu à Diana que não gritasse, e que não se assustasse. Contou-lhe como a conhecia, e pediu que não contasse a ninguém, pois tinha medo que não acreditassem nela, ou que achassem ser da sua imaginação.
      Diana não contou nada, e a partir dessa noite, as duas tornaram-se grandes amigas, encontravam-se, a Diana contava e ouvia lindas histórias, conversavam, riam, faziam companhia uma à outra, brincavam, sem fazer barulho. 
      Às vezes escolhiam uma palavra da manta à sorte, ou uma frase, uma personagem, e recontavam ou inventavam essa história.
     De vez em quando, a estrela aparecia em forma de menina, principalmente de dia, quando a Diana brincava mais sozinha, ao ar livre, a ensaiar os números de circo e a ver os outros. Uma linda prenda de aniversário, e uma amizade.

E se vocês recebessem uma manta como a de Diana? Que palavras teria pregadas?

                                                                           FIM
                                                                           Lálá
                                                                      2/Maio/2020



          
            

domingo, 4 de março de 2018

O castelinho na tua mão



         Era uma vez uma menina que foi para a praia com a sua família, num dia quente de Verão, com muito sol.
         Logo que pousaram as coisas na areia, a menina pediu aos pais para ir para a água, os pais deixaram porque havia muitas possas e o mar estava longe.
         Foi a correr, e entrou devagar, primeiro molhou os pés, viu caranguejos pequeninos, estrelas-do-mar coladas nas rochas, e peixinhos.
         Molhou as pernas até aos joelhos, e depois até à barriga, até que mergulhou mesmo. Nadou, e quando olha para o lado, vê um rapaz a construir alguma coisa na areia. Saiu da água, e foi ter com ele.
O rapaz sorri-lhe.
- Olá, estás sozinha, pequena? - pergunta ele
- Olá. Não, os meus pais estão lá em cima, ali...com as minhas tias. E tu?
- Eu estou sozinho.
- Como te chamas?
- Chamo-me João, e tu?
- Eu chamo-me Sofia.Onde estão os teus pais?
- Estão na minha casa. Ali.
- Porque é que eles não vieram para a praia?
- Porque não quiseram. Está muito calor.
- O que estás a fazer?
- Estou a brincar com a areia.
- Tu já és muito crescido, não podias brincar com a areia. Os crescidos não brincam.
- Achas?
- Acho.
- Não sei porque não podem brincar. Quem te disse isso?
- Todos os grandes dizem.
- Fazem mal, se não brincam. Eu sou crescido, mas brinco na mesma, e não tenho vergonha. Fico feliz por brincar.
- Eu também.
- Claro, todas as crianças gostam de brincar.
- Mas os crescidos, quando vamos à escola dizem que já não podemos brincar.
- Isso é mesmo injusto! Não te acredites neles.
- Não nos deixam brincar, é por isso que eu gosto mais dos dias em que não vou à escola, quando estou de férias, porque só nesses dias é que posso brincar. O que vais construir?
- Já vais ver.
            O rapaz constrói um castelo em areia, e enquanto isso fala com a menina. No fim, ela solta uma grande exclamação:
- Áh! Que lindo.
- É um castelo de areia.
- Está maravilhoso.
- Obrigado.
- Como conseguiste fazer um castelo que parece quase verdadeiro, daqueles de princesas e príncipes, reis e rainhas...?
- Já construí muitos! Mas o mar lavou-o para longe.
- E tu não conseguiste segurá-lo?
- Não! Ele foi mais rápido.
- Nem te perguntou se podia levá-lo?
- Não!
- Óh, deves ter ficado triste!
- Não.
- Eu gostava de ter um castelo assim!
- Gostavas?
- Gostava, mas de certeza que não consigo construir um castelo assim.
- Porque não?
- Não sei.
- Então eu vou oferecer-te este!
             A menina sorri.
- Como é que vais fazer isso? Não posso levar esse castelo assim.
- Este é um castelo mágico.
- É mágico? Porquê?
- Porque tu gostaste dele, e eu vou pô-lo na tua mão, para que possas levá-lo.
- Mas ele não se desfaz quando o puseres na minha mão?
- Não! Porque só tu vais vê-lo, e vais poder levá-lo para todo o lado que quiseres.
- A sério? Quem está lá?
- Isso não sei. Vais poder descobrir isso tudo...de certeza que vais encontrar no castelo muita gente Queres ver? Estende a mão.
            O rapaz sopra para o castelo e este aparece na mão da menina, em tamanho pequeno.
- Áh! Tu fizeste magia...ele está aqui.
- Eu disse-te que era um castelo mágico.
- Que lindo! Mas, e agora como é que eu vou poder levá-lo para todo o lado? E como é que não vão vê-lo? Eu estou a vê-lo.
- Se lhe soprares ele desaparece, para poderes fazer tudo o que tens de fazer, e quando quiseres que ele aparece, olhas para a tua mão, pensas na palavra castelo, sopras e ele volta a aparecer.
- Mas como é que eu vejo quem vive lá?
- Podes pedir que o castelo aumente, para um tamanho que consigas entrar, e ver quem está lá.
- Áh! Que giro! Obrigada.
- Acho que vem aí alguém à tua procura.
- Óh, pois é. É a minha tia. Vou para ali...obrigada pelo castelo. Vejo-te por aqui outro dia.
- Sim, quem sabe! Diverte-te. E não te esqueças que o castelo está na tua mão. Não deixes de brincar, mesmo que os adultos não deixem, não lhes faças a vontade. Estuda, mas não te esqueças de brincar.
- Como é que eu faço isso? Eles estão sempre a tomar conta e a ver o que faço...
- Brinca quando eles não estiverem a ver. É para isso que serve esse castelo na tua mão.
- Está bem. Obrigada.
              A pequena vai ter com a tia, brinca com ela, fala, ri, toma banho, mergulha, corre, enche-se de areia, e na hora mais perigosa vai para casa. No fim do almoço, vai para o seu quarto, está muito curiosa para saber quem vive no castelo da sua mão. Enquanto os adultos descansam, ela também se deita, mas olha para a sua mão, pensa na palavra castelo, sopra e ele aparece tão grande, como o espaço do seu quarto. Ela abre um grande sorriso. Bate à porta do castelo, e é recebida por simpáticos guardas, cheios de energia, sorridentes, com roupas coloridas e elegantes:
- Olá visitante, bem-vinda
             Fazem uma vénia e estendem a mão à menina. Levam-na a passear pelo castelo, entre lindos jardins, floridos, flores de todas as cores, espécies, com chilreares diferentes, pássaros de muitas espécies e penas fantásticas, borboletas de muitos tamanhos, formas e cores. As princesas estão à janela, e a menina vai ter com elas.
- Olá! - Dizem as princesas
- Olá! -  Diz a menina
- Anda ter connosco. - Convida uma princesa
- A vista daqui é maravilhosa! - Diz outra princesa
            Os guardas acompanham a menina até às princesas,  que oferecem um chá à menina, apresentam os reis, as rainhas, os príncipes, as outras princesas, e as divisórias do castelo. A menina fica encantada com o que vê. Ouve alguém a chamar, e diz:
- Óh...vou ter de ir embora, mas volto daqui a bocado, está bem?
- Sim, está bem. Nós estamos sempre aqui. Aparece!
- Até já!
- Até já!
             A menina volta para o seu quarto, sorridente, sopra para o castelo e este desaparece. Mas afinal ninguém a tinha chamado. Então, volta a pensar no castelo e olha para a mão. O castelo aparece, e a menina conhece o resto do castelo. Depois desse dia, sempre que a menina queria ir ao castelo, este aparecia, e quando soprava, desaparecia. A menina não se esqueceu do que o rapaz da praia lhe disse, por isso, quando as aulas começaram depois das férias, ela já era muito amiga das princesas, brincava muito com elas, passeava pelo castelo, lanchava com elas, e elas também conheceram o quarto da menina. Viveram muitas aventuras e os adultos nunca descobriram que ela brincava às escondidas, porque eles não deixavam brincar.
             E vocês também têm um castelinho na vossa mão? Como é esse castelo? Quem vive lá? 

FIM 
Lálá 
(4/Março/2018) 

segunda-feira, 13 de junho de 2016

A aldeia de croché

Era uma vez uma senhora muito velhinha, há muitos anos atrás que se lembrou de ocupar o seu tempo livre, desde que era criança, e enquanto foi mais jovem, até as suas mãozinhas começarem a ficar encarquilhadinhas e doridas, fazendo peças em croché.
Esta atividade tinha começado com a sua bisavó, que já tinha ensinado á sua avó e à sua mãe, e esta última à senhora, muito comum na maioria das famílias. Todas as mulheres se reuniam na aldeia, de todas as idades, nas casas umas das outras, e nas eiras à sombra, ou nos campos, nos intervalos de outros trabalhos.
Era lindo ver tanta geração a fazer coisas tão bonitas, com tanta delicadeza, amor, gosto e perfeição, enquanto conversavam durante horas, riam, rezavam, cantavam, e depois de fazerem mais mil e uma coisas.
Cada uma fazia o que queria…toalhas, almofadas, rendas, apoios, lençóis, cobertas, paninhos para cestinhos, até que as gerações mais novas começaram também a inventar «pessoas» em croché, e a juntar outras materiais, para fazer bonecas de todo o tipo, lindas.
As bonecas pareciam mesmo «pessoas» umas enormes, outras médias e mais pequenas, com todos os pormenores: cabelos, olhos, nariz, boca, braços, mãos, dedos, pernas… almofadavam com espuma, penas ou restos de lãs, e tecidos, vestiam-nas com roupas em croché de outras cores, e até tinham sapatinhos em croché de todas as cores.
Nenhuma boneca era desperdiçada, mesmo aquelas que não eram tão perfeitas, ou que tinham alguns «erros» de construção, porque como quem as construía dizia…a sociedade também tem pessoas imperfeitas.
Esta ideia inspirou-as e construíram bonecas em croché com cadeiras de rodas, andarilhos, muletas, bengalas, óculos, membros mais curtos que outros…tal como elas viam entre as pessoas da cidade, e na própria aldeia.
Depois lembraram-se de experimentar fazer casas e meios de transporte, árvores, flores, montanhas e animais em croché. Gostaram tanto da experiência que foram experimentando cada vez mais coisas novas, e conseguiram construir uma verdadeira «cidade em croché».
Num dia em que se lembraram de juntar todas as peças que já tinham feito, perceberam que já tinham uma cidade, e quiseram expor. Todos ficaram muito surpresos e maravilhados.
As fadas foram as primeiras visitantes e adoraram, decidiram dar um prémio pela dedicação delas, e gosto, as peças de croché não eram simples pedaços de croché expostos e imóveis, puseram logo tudo em movimento com os seus poderes mágicos!
Todas as peças mexiam e faziam sons, principalmente as peças da natureza, parecia um presépio animado, e todas as mulheres que construíram esta cidade de croché ficaram muito felizes, parecia que tinham voltado a ser crianças.
O Presidente da Câmara divulgou pelas cidades, e a aldeia encheu-se de milhares de visitantes que fotografavam, queriam comprar tudo…mas como elas não queriam vender, os visitantes encomendavam e pagavam bem. Não tiveram mais sossego, mas também ganharam muito dinheiro.
Com esse dinheiro ajudaram-se uns aos outros, porque era uma aldeia pobre, no inicio, construíram coisas que faziam falta, melhoraram as condições das casas, mesmo assim continuaram a ser as pessoas simples que sempre foram, e a dedicar-se ao croché.
Foi assim que nasceu a Aldeia de Croché que fez para sempre as delícias de quem visitava…que pareciam voltar à infância e à magia. Mulheres inspiradoras, com mãos de fada, e amor pelo que faziam.     

E vocês?
Conhecem croché?
Conhecem alguém que faça croché?  
Conseguem imaginar uma cidade com pessoas e casas…tudo feito em croché?
Gostavam de visitar essa cidade?

FIM
Lálá

(13/Junho/2016)

sexta-feira, 15 de abril de 2016

a descoberta do gato

         

 Era uma vez um gato que vivia numa casa com uma família muito numerosa. De entre os filhos do casal, havia um rapaz que adorava pintar e desenhar, e tinha muito jeito. O gato recebia mimos de toda a família mas tinha uma relação mais próxima e mais especial com o rapaz que pintava. 
         Os dois ficavam na varanda fechada, espaçosa e envidraçada, quente, e com lareira que às vezes estava acesa. O rapaz sentado em frente ás telas, umas atrás das outras, de volta das tintas, e ás vezes parado a olhar para elas, talvez em busca de inspiração, e mergulhado nas cores, nos seus sonhos, desejos, imaginação e fantasias, que punha nas telas.
       O gato circulava pela varanda, umas vezes dormitava, outras vezes estendia-se em cima das almofadas que estavam no chão, outras vezes senta-se num cadeirão e parecia o dono daquilo tudo, quando tinha mais frio, deitava-se nas mantas aos pés da lareira e dormia.
          Mas o que ele gostava realmente...era de ver o rapaz a pintar. Seguia todos os movimentos, ficava em suspenso, e a sua cabeça acompanhava os braços do pintor...isto fazia-o tentar imaginar o que ia sair dali, parecia que era o gato que estava a desenhar ou a pintar. Muitas vezes acertava! E ficava encantado...quase hipnotizado com a beleza dos quadros do seu amigo humano. Miava, enroscava-se nas pernas do rapaz, ele pegava no gato ao colo para ver melhor, e perguntava-lhe sempre o que achava. 
       O gato não usava palavras, mas apreciava e transmitia isso ao dono de outra maneira, que ele entendia muito bem. Era só elogios. O gato imaginava como seria bom pintar, pois o seu dono ficava feliz sempre que pintava...e tinha um enorme desejo de experimentar, para ver se era fácil ou difícil, se conseguia fazer coisas tão bonitas como ele. 
          Mas como é que ele ia fazer isso? Não podia falar... Nem de propósito, um dia, o rapaz atirou uma folha para o chão, num momento em que estava muito zangado, e também caíram pincéis,e tintas. O gato nem queria acreditar...e num impulso começou a experimentar, imitando todos os movimentos que tinha visto o seu dono a fazer enquanto pintava. 
         O rapaz ficou a apreciar...o gato estava tão absorvido na pintura com o seu dono, que nem reparou que estava a ser visto. Pintou uma bela gata, muito perfeita, parecia quase uma fotografia. O dono ficou espantado, aplaudiu-o, o gato ficou assustado e depois riu-se...miou, como que a pedir desculpa, mas o dono ficou deliciado, achou lindo, maravilhoso e perfeito. O gato tinha acabado de descobrir um novo talento e pôde perceber nesse momento, como é que o seu dono se sentia. Desde esse dia, o seu dono pintava em conjunto com o gato, e quando não estava inspirado, o gato inventava sempre alguma coisa nova...Mas que grande artista! Passado uns tempos, já tinham tantos quadros, que quase não tinham espaço para eles, então foram vendê-los para ajudar a família. Eram quadros tão especiais que desapareciam no mesmo dia, e porque havia pessoas que não acreditavam que tinha sido o gato a pintar, o dono punha-o a pintar diante das pessoas, tudo o que elas quisessem. Elas ficavam sem palavras...aplaudiam, tiravam fotografias, e pagavam os quadros. O dono e o gato não tiveram mais sossego, mas era algo que eles adoravam fazer, tinham esse dom, e ajudaram mesmo muito a família. Nem o gato sabia que tinha jeito para a pintura...foi uma descoberta mágica! 
E se vocês tivessem um gato pintor...ou um gato que aprendesse os vossos talentos? Será que ele aprender alguma coisa convosco, ou ensinar-vos alguma coisa? 
Nós também somos assim...às vezes só descobrimos os nossos talentos para certas coisas, sem estarmos á espera. Experimentamos e descobrimos...e com os nossos amigos também! Não é? Já aprenderam coisas novas com os vossos amigos? Quais? Coisas que não sabiam que gostavam, ou que tinham jeito? 

Fim 
Lálá 
(15/Abril/2016) 

domingo, 13 de dezembro de 2015

O novelo


Era uma vez uma aldeia onde viviam muitas pessoas com bastante idade e jovens. Todos se conheciam de vista porque cruzavam-se quando saiam de casa.
- Bom dia menino, bom dia menina! – Diziam os mais velhos com um sorriso que logo ficava fechado e triste porque não tinham resposta
- Estes jovens estão surdos, ou são mal-educados?
- No nosso tempo levávamos logo um bofetão, e era muito bem dado.
- Bom dia dá-se até a um cão.
- Olhe, hoje esses animais são mais simpáticos que pessoas.
- É verdade. – Dizem todos
- Eu acho que eles são mal-educados!
- Mas também não admira que sejam surdos…vão com aquelas rolhas nas orelhas.
- Eu não sei quem foi o infeliz que inventou aquela bodega.
- Nem eu, mas parece que vão noutro mundo.
- Que coisa horrível.
- É. Parece mesmo…passam por nós, parece que somos um calhau, ou um monte de porcaria.
- É verdade! – Dizem todas
- Esta sociedade está perdida!
- Está mesmo! – Dizem todas
- Os jovens não têm nada na cabeça hoje…
- Pois não! – Dizem todas
                Na verdade, embora se cruzassem, viviam na solidão, cada um nas suas casas, muito raramente conversavam. Andavam sempre numa correria, que até deixava os mais velhos tontos da cabeça…pareciam comboios a passar.
- Olhem para isto…a velocidade com que eles andam.
- Terrível.
- Eu até fico atordoada.
- Eu também. – Respondem todas
- Não sei onde vão com tanta pressa!
- Para quê, tanta pressa?
- Parecem uns robôs ou andróides…ou lá como se chamam aquelas maquinetas dos meus netos…
- Pois é!
- Parece que eles nem sentem o chão.
- Eu não sentiria se fosse àquela velocidade com que eles vão.
- A sociedade já não é sociedade há muito tempo…
- É! É uma tristeza, agora.
- Estes jovens vão enlouquecer…!
- Eu acho que já enlouqueceram.  
                Um dia, uma coruja viu toda esta solidão e agitação, e não gostou nada… então, teve uma ideia: foi falar com uma sábia da floresta e contou-lhe tudo o que viu. A sábia deu-lhe a solução: um novelo feito de estrelas que a coruja deixaria cair das suas patas à porta de uma senhora idosa, que a levaria até outra casa de outra senhora, que se juntaria a outra estrela. 
                Assim fez…logo que saiu de casa da sábia levou o novelo nas patas, e ao passar nas portas onde viviam pessoas mais velhas e deixou cair do novelo uma estrela. Cada habitante via alguma coisa a brilhar, abriam a porta, e era uma estrela.
Quando pegavam na estrela, eram levados para se encontrarem com outro vizinho, que tinha outra estrela…com estes movimentos, formaram um lindo cordão humano, sem dar por isso, construído pelos fios do novelo que a sábia tinha mandado pela coruja.
Quando os mais velhos repararam estavam todos juntos no largo da aldeia, onde no tempo das suas infâncias, tinham feito grandes convívios e festas. Olham à sua volta e viram estrelas por todo o lado.
Deram uma valente gargalhada, trocaram longos e sinceros abraços, beijos, entrelaçaram os fios uns com os outros, brincaram, emocionaram-se, conversaram durante longas horas, reviveram os seus momentos felizes de infância.
Sentiram-se outra vez crianças e Adolescentes. As estrelas deram luz e calor a esse encontro, e a muitos outros que se seguiram. Eram um excelente exemplo para os jovens, um convívio feliz, saudável…nada igual aos de muitos que acontecem agora na sociedade moderna. Mas os jovens não tinham tempo para isso…pelo menos era o que eles diziam quando convidados.
A coruja não cabia em si de orgulho, felicidade e ternura. Sempre que podia, fazia de tudo para juntar as pessoas…discretamente…como ela gostava. Até as noites ficaram mais luminosas, com o seu olhar, ao ver a ternura e a felicidade daqueles encontros que quebravam a solidão, e davam vida à aldeia.
Fim
Lálá
(12/Dezembro/2015)


As transformações da bola de sabão

Era uma vez um artista de rua, com roupa de palhaço, cabelo encaracolado e colorido, que umas vezes trabalhava sozinho, outras vezes acompanhado. Todos esses artistas eram muito apreciados e aplaudidos, fotografados e quase toda a gente lhes deixava uma moedinha.
Um dia, num espetáculo de grupo, os artistas fizeram bolas de sabão, enormes com formas diferentes…que não se desfaziam. Voavam leves mas pareciam muito resistentes, ou que alguma coisa invisível segurava nelas.
Uma dessas bolas gigantes, redonda, transparente, não saiu da caixa. O palhaço insiste com a bola de sabão, mas ela não quer sair. Quem estava a assistir pensou que fazia parte do espectáculo, mas os artistas acharam muito estranho. A bola não queria sair.
- Não vou sair. – Diz a bola de sabão                                                                                                                
- O que é que estás a fazer aí…? Sai… - Pede baixinho outro artista
- Não nos estragues o espetáculo… - Diz-lhe baixinho um artista
- Não saio. – Diz a bola de sabão
- Sai… - Dizem os artistas baixinho e nervosos
- Temos aqui uma bola de sabão envergonhada! – Diz o palhaço ao público
- Porquê? – Pergunta uma criança
- Ela não saiu da caixa! – Responde o palhaço
- Porquê? – Pergunta outra criança
- Tanto porquê…! O que é que lhes interessa…? Não vou sair e pronto… Há muitas bolas de sabão para ser vistas. – Diz a bola de sabão
- Acho que deve ser…por…estar muita gente a olhar para ela. – Responde outra criança antes que o palhaço o fizesse
- Este é dos meus! Isso mesmo. – Diz a bola de sabão a sorrir
- E as bolas de sabão também são envergonhadas? – Pergunta outra criança
- São! – Respondem os artistas
- Quase todas gostam de se mostrar e ser vistas, mas também há algumas que não gostam tanto! – Explica outro artista
- Pois claro! Eu não gosto sempre de ser vista… às vezes apetece-me ser invisível. – Diz a bola de sabão
- As bolas de sabão são mágicas. – Diz outro artista
- Somos! – Diz a bola de sabão  
- Vamos tentar que ela saia…? – Propõe outro artista
- Sim! – Gritam todos
                A bola de sabão dá uma gargalhada.
- Como é que vamos fazer isso? – Pergunta outra criança
- Quero ver isso… - Diz a bola de sabão a rir
- Vamos aí tirá-la? – Pergunta outra
- Não faltava mais nada… - Diz a bola de sabão
- Não. Vamos bater palminhas enquanto ele dá umas batidas ali no tambor. Boa? – Propõe outro artista
- Boa! – Respondem todos
                À medida que batem palminhas e dão batidas no tambor, a bola de sabão começa a sair aos bocadinhos. As crianças riem e aplaudem, fazem tanto barulho que a bola de sabão volta a esconder-se:
- Mas que coisa…tantos gritos… por causa de uma bola de sabão… - Comenta a bola de sabão
- Óhhh…! – Exclamam todos
- Voltou a esconder-se. – Responde outra criança
- Eu acho que ela não quer mesmo aparecer…! – Diz outro artista
- Mas nós queremos vê-la. – Diz outra criança
- Mas se ela não quer aparecer então não devia ter vindo! – Diz outra
- Muito bem pensado! Será? – Diz o artista
- Pergunta-lhe! – Sugere outra criança
                Mas antes que o artista perguntasse, a bola de sabão sai da caixa com cor vermelha, e uma capa vestida! Ficam todos muito surpresos, sorriem e aplaudem.
- Parece que estava mesmo com vergonha e frio. – Diz o artista
- Uau! – Suspiram todos
                E a bola de sabão sai de lá a voar. Todos batem palmas.
- Para onde é que ela vai? – Pergunta outra
- Não faltava mais nada eu dizer para onde vou. Ainda vem atrás de mim. – Comenta a bola
- Não sei! Para onde vais bola de sabão? – Pergunta um artista
- Passear. – Responde a bola
- Ela diz que vai passear… - Diz um artista
- Conhecer a cidade – Diz outro artista
- Boa! - Gritam todos
- Tens sítios muito bonitos para ver! – Diz outra criança
- Vais gostar de tudo, tenho a certeza. – Diz outra
- E vais encontrar-te com as outras? – Pergunta outra
- Não sei… - Responde a bola
- Ela diz que não sabe! Pode ser! – Diz o artista
- Vais voltar aqui? – Pergunta outra
- Talvez. – Responde a bola
- Ela diz que talvez. – Responde o artista
                A bola de sabão segue o seu passeio, enquanto o espectáculo continua na rua com os artistas, e com muitas bolas de sabão. Esta bola de sabão voa devagar, mas assim que ouve gritos de crianças ou quando percebe que estão a reparar nela, ela faz de conta que rebenta e torna-se invisível.
- Esta criançada não pode ver uma bola de sabão. Já não se pode andar na rua à vontade, sem repararem em nós. De certeza que a vontade delas é só rebentar-me a mim e a todas as bolas de sabão! Onde já se viu? Ninguém lhes disse que nós, bolas de sabão, não fomos feitas para sermos rebentadas? Nós somos feitas para sermos vistas, apreciadas, elogiadas, fotografadas, e para andarmos livres por aí, não para acabarem com a nossa raça, em poucos segundos. Não percebo qual é a piada de rebentar…bolas de sabão. Nós já somos tão delicadas, tão frágeis…sempre ouvi dizer que apreciar e ver…é com os olhos, não com as mãos. Muito menos…a destruir. Áhhhh….tanta luz.
                A bola de sabão aproxima-se das lâmpadas e fica cor-de-laranja em vez de transparente, depois fica branca porque passa por candeeiros brancos, depois fica amarela ao passar pelas luzes da iluminação que estão penduradas nos fios, muda para transparente e azul quando pousa em cima de um pequenino candeeiro de jardim com uma luz azulada.
- Aqui está quentinho. – Comenta a bola de sabão a sorrir
                Volta a voar e pelo caminho fica com a cor verde, quando passa por pinheiros de Natal às portas das casas, e parece uma bola de gelatina flutuante, porque fica mais frio. Chega a uma rua onde dormem pessoas debaixo de claustros, e vê um casal com uma filha ainda pequena, que tenta agarrá-la.
- Há quanto tempo não via uma bola de sabão… olha mamã…olha papá. – Diz a criança encantada
- Sim! – Dizem os pais
- É linda… - Diz a mãe
- Mas deixa-a estar…não a rebentes. – Diz o pai
                A bola de sabão sorri, ganha a forma de um coração transparente com estrelas brilhantes.
- Olhem, mudou de forma e cor…! – Repara a criança
- Sim. – Dizem os pais também encantados e surpresos
                A menina conta a sua história e o motivo por estarem na rua. A bola de sabão teve uma ideia para ajudar aquela família. Quando acordam de manhã, a bola de sabão estava lá, transparente, protegida, a dormir num canto quentinha e deixou um frasco de bolas de sabão junto da menina.
A menina não sabia como tinha ido lá parar aquele frasco, nem quem lá tinha deixado, mesmo assim, quis experimentar. Ela sopra feliz, a primeira bola, que para sua grande surpresa era a linda bola de sabão que ela tinha visto nessa noite, em forma de coração transparente, grande, com estrelas azuis.
- Voltaste? – Pergunta a menina sorridente
- Eu estive sempre aqui. – Diz a bola de sabão
- Dormiste aqui?
- Dormi.
- Deixaste aqui o frasco?
- É para ti…para ajudar a tua família a ter uma casa.
- A sério? E o que é que temos de fazer?
- Bolas de sabão. O resto…deixa comigo.
- Mas…
- Só tens de soprar…
- Como…
- Sopra…e deixa o resto comigo.
- Mas uma bola de sabão não faz dinheiro.
- Faz.
- Faz?
- Faz.
                Mesmo sem perceber o que se estava a passar, a menina começa a fazer bolas de sabão, e a bola de sabão transforma todas as que saem do frasco, em verdadeiras obras de arte…bolas enormes, com formas diferentes, estranhas, bonitas, cores diferentes.
Os pais estavam de boca aberta, nunca tinham visto tal coisa. A bola de sabão empurra e sopra as outras para a rua para chamarem a sua atenção e consegue. Todos os que passam na rua, vêem bolas de sabão diferentes, e querem saber de onde vem…percebem que vem debaixo dos claustros.
Aplaudem, tiram fotografias, a menina dança, salta, corre com as bolas e diverte-se, contagiando toda a gente que via. Ela dava espetáculos fantásticos, encantadores, e todos deixavam dinheiro.
A própria bola de sabão transformava-se em formas muito diferentes, e participava o que tornava ainda mais especial o espetáculo. A vida daquela família nunca mais foi a mesma.
Em pouco tempo juntaram muito dinheiro, e graças aos espetáculos de bolas de sabão que a menina fez por todas as ruas da cidade, em sítios diferentes, conseguiram voltar a ter uma casa pequenina, mas tinha todo o conforto, e não lhes faltava nada. A bola de sabão passou a fazer parte dessa família, e a viver com eles sem se desfazer, e sempre a ajudá-los de todas as maneiras quando precisavam.
Esta bola de sabão era mesmo mágica.
Fim
Lálá
(11/Dezembro/2015)