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quarta-feira, 29 de novembro de 2023

O mar com uma espuma diferente


Era uma vez um mar numa ilha paradisíaca, com a água transparente, onde se via o fundo, cheio de pedras, conchas, búzios, pedras e peixes. 

A areia era muito branca, e as ondas quase não se viam, eram tão calmas! Um dia, uma coisa estranha aconteceu: a espuma das ondinhas que era branca, começou a aparecer de todas as cores em tons claros, vindas não se sabia de onde. 

Os habitantes ficaram muito intrigados e assustados. Foram investigar, e não viram nada que pudesse indicar aquelas cores, nem sequer tinha mau cheiro. 

No dia seguinte, as cores mudaram outra vez, mas eram mais escuras. Voltaram a procurar e não encontraram nada de estranho! 

- Alguma coisa muito má, muito estranha está a acontecer aqui. - comenta um habitante 

- Estas cores não são nada normais, na espuma! - observa outro 

- Ontem eram claras, hoje são escuras. - acrescenta outro 

- Mas no mar não vimos nada de tintas. 

- Pois não! 

- É isso que é esquisito. 

Faz-se silêncio, e veem a sair do mar alto, um ser feito de água, transparente e com brilhantes, ao longe nem se via se era uma cara humana ou um outro ser qualquer, com uma paleta de cores, pincéis na mão, uma tela de areia. 

Os habitantes esconderam-se com medo, e ficaram a espreitar. O ser misterioso não se deu por achado, e pôs-se a desenhar sentado na areia. 

Respirou fundo, olhou para a paisagem, voltou a olhar e desenhou na areia com cores, que apareceram misteriosamente, pois a paleta não tinha cores. 

Fez uns lindos desenhos, perfeitos, ao longo de toda a praia, uns desenhos eram mais claros, outros mais escuros, uns onde se via bem o que estava desenhado, outros, pareciam mais sem formas, ou com formas geométricas, coloridas. 

No fim da praia, desenhou um corpo, com brilhantes, o dele, com uma lágrima a cair.  Foi lavar os pinceis e a paleta ao mar, a sorrir, e...mistério desfeito! 

As cores da espuma vinham do pintor misterioso que não era humano, mas feito de água e brilhantes. Os habitantes rodearam-no, com ar ameaçador. 

- Áh! Então és tu que andas a poluir o nosso mar...? - diz um morador 

- Poluir? O que é isso? - pergunta o ser

- Estás agora a fazer-te de santinho...muito inocente! Olha para esta porcaria de espuma! - reclama um habitante 

- A nossa espuma era branca, e tem aparecido com cores. Investigamos, e não vimos de onde poderiam vir, agora já sabemos. - explica outro 

- Mas...esta praia é vossa? - pergunta o pintor peixe 

- É! - respondem todos 

- O que vens para aqui fazer? Sujar tudo? - ralha um senhor 

- Não! Eu vim pintar. - responde o pintor peixe 

- E lavas os pincéis no mar! Para ficarmos com poluição, não é? Muito bonito…! - ralha uma senhora 

- Não. Esta tinta não é poluente, nem tóxica, é natural. Vem toda do que o mar dá. - explica o peixe 

- E o mar dá poluição. - insiste outra senhora a ralhar 

- Não, não é poluição! É feito das algas, das pedras de corais, de escamas de peixes, areia. - responde o peixe 

- Não vimos cores nenhumas, só agora na areia, e na espuma! - diz uma menina 

- Mas é isso mesmo! As cores que aparecem na areia e na espuma são naturais. - volta a explicar o peixe 

- De onde vens? - pergunta outra senhora 

- És tão estranho! - comenta outra menina 

- Eu sou um peixe pintor. 

- Peixe pintor? - perguntam em coro 

- Nunca outra ouvimos! - comenta um rapaz 

- E vocês também pode experimentar...querem? - convida o peixe 

- Eu quero! - disse um 

- Com muito gosto. Aproxima-te que eu não mordo! - desafia o peixe 

- Os desenhos que fizeste na areia, são...bonitos. - aprecia uma menina 

- Obrigado. - responde o peixe 

- Este último é...triste! - repara um menino 

- É. Sou eu.

- És tu? E estás triste? - pergunta o menino 

- Às vezes também fico! - diz o peixe 

- Porquê? - pergunta o menino 

- Por causa de uma sereia que não gosta de mim, mas eu gosto dela. 

- E porque não vais atrás dela, e fazes tudo para a  conquistar? - sugere uma jovem 

- Não! O amor não se obriga, nem se força. Se a outra pessoa não quer, não podemos obrigá-la, nem insistir. 

- Mas já lhe disseste que gostas dela? - pergunta outra jovem 

- Sim! 

- E ela disse-te na cara que não gosta de ti? - pergunta um jovem rapaz 

- Disse. 

- Não foi nada simpática! - comenta o jovem rapaz 

- E tu, o que fizeste? - pergunta outro jovem 

- Deixei-a em paz! Respeitei a vontade dela. 

- Óh, mas isso é triste, e dói. - diz uma jovem 

- É. Mas as coisas são assim mesmo! É essa tristeza que pinto com as cores escuras, principalmente este último, que sou eu com uma lágrima. Dói muito, claro! E as cores claras, são a esperança que algum dia, se não for ela, conheça outra, que goste de mim, como eu gostar dela. Ou então, que sejamos bons amigos! 

- Áh! Que lindo! - dizem todos 

- Ela pediu distância, eu dou-lhe distância. 

- Ela magoa-te e tu ainda gostas dela? - comenta uma jovem rapariga 

(Cai uma lágrima com estrelas, dos olhos do peixe, enquanto faz silêncio) 

- Pinto para curar a minha dor! - responde o pintor 

- E resulta? - pergunta outra jovem rapariga 

- Para mim, sim! Vocês conseguem sempre conquistar quem gostam? 

- Não! - respondem todos 

- Mas tentamos, insistimos a conquistar de maneiras diferentes, tentamos, até que da outra parte haja sinais. - explica outro jovem rapaz 

- Mas não perdemos muito tempo. - diz outro jovem rapaz 

- Perder tempo? Para conquistar é preciso tempo, não é perder tempo, nem acontece de um dia para o outro. Eu e ela éramos amigos, mas quando eu disse que gostava dela, ela transformou-se, e disse que amigos podíamos ser, mas não queria mais nada. Mas agora, acho que nem amigos! 

- E não continuaste a tentar? - pergunta outro jovem rapaz 

- Não! O que tiver de acontecer, acontecerá. Se tivermos de ter alguma coisa um com o outro, ou se nunca tivermos de ter nada um com outro, outra virá que queira, ou não! 

- Áh! Que lindo. - dizem todos 

- És forte! - comenta uma jovem rapariga 

- Não, sou fraco, é por isso que ela não gostou de mim. 

- Acho que não. Ela não gostou de ti, porque não tinha de ser essa! - responde uma senhora 

- Acha? 

- Acho, pelo menos é o que nós dizemos aqui, quando não somos correspondidos no amor. 

- Áh! Também está bem visto, sim senhora. 

- Estes desenhos vão desaparecer com a água! - comenta um senhor 

- Os de ontem, também desapareceram. Não faz mal, lava a minha dor! 

- Então, tens a certeza que essas tintas não são poluentes? - pergunta outro senhor  

- Tenho. Queria experimentar, não queria? Venha!  

O ser misterioso, orienta, explica como se faz, e todos ficam encantados. Veem os outros desenhos na areia, um por um, e tentam imaginar o que significam.

- Que bonitos! - suspira uma menina a sorrir 

- Obrigado. - diz o peixe 

- Já experimentaste oferecer-lhe um desenho teu, destes tão bonitos ou outros? - pergunta uma jovem rapariga 

- Não! 

- Porque não? Ela até podia gostar. - comenta outra jovem rapariga 

- Ela não está disponível para me ver através dos desenhos. 

- Então ela não te merece. - acrescenta outra senhora 

- Podias experimentar! A ver se a conquistavas. - sugere um jovem rapaz 

- É espetacular, este tipo de pinturas! - comenta o senhor que experimenta 

- Olha que bonitas. Muito bem. Mais alguém quer aprender? - diz o peixe 

- Eu, eu, eu, eu...- todos querem aprender 

- Boa! Então virei quando quiserem aqui ensinar-vos. 

- Obrigado, obrigada, desculpa a nossa ameaça, pensávamos que era poluição. - comenta um senhor 

- Não faz mal, compreendo. Eu acho que pensaria o mesmo! 

Combinam os dias, e todos aprendem a fazer aqueles desenhos, a espuma branca ganha todos os dias novas cores, umas mais alegres, outras mais escuras, conforme os sentimentos e emoções que cada um pintava. 

O pintor peixe, estava feliz e orgulhoso, por ensinar a sua arte, e os habitantes, felizes por aprender. Tornaram-se uma família, divertiam-se sempre muito, ele ajudava quem precisava, conversavam muito e faziam lanches, festas. 

Ainda bem, que não era poluição! Uns tempos mais tarde, quando a sua dor estava curada, o pintor peixe encontrou um amor correspondido e apresentou-o aos amigos, que os pintaram na areia, dentro de um coração. 

                                                    FIM

                                                Lara Rocha 

                                                29/11/2023 


sábado, 11 de fevereiro de 2023

O rapaz do quadro

 

    Era uma vez um artista que pintou um rapaz num quadro, e deixou numa galeria de arte para exposição.       
    O rapaz era muito bonito, e estava enquadrado numa paisagem igualmente fantástica, que despertava a imaginação de quem via, e conseguia ir para esse lugar.       Um dia uma rapariga foi visitar essa exposição, e parou os seus olhos nesse quadro.            
     Olhou fixamente para ele, e o rapaz corou de vergonha, pensou para si: 

- Uau! Uma rapariga tão bonita aqui, a olhar para mim, 

- O quadro muda de cor? O rapaz está corado! Muito bonito...! - repara a rapariga

- Quem, eu ou o quadro? 

   Ela olha em volta, não vê ninguém. 

- Deve ser a minha imaginação, estou a ouvir alguém a falar. 

- Sou eu! - responde o rapaz 

- Quem? 

- Eu...aqui no quadro! 

- Como é que pode ser? 

- Sim, eu estou a falar contigo. Porque estás a olhar para mim, dessa maneira? 

- Ora, tu és um quadro, é para seres apreciado, repara-se em todos os pormenores. Está muito bonito este quadro. É aí que tu moras? 

- É. E tu moras aqui, também? Nunca te vi. 

- Não, eu moro noutra casa, só vim ver as obras de arte. Quem te pintou, teve gosto, és muito bonito. 

- Obrigado. Tu também.

        Ela sorri.

- Um quadro a dizer que sou bonita. Deve estar alguém por trás a falar. 

- Não, sou eu mesmo! 

        Ela ri. 

- Como te chamas? 

- O que é isso? 

- Qual é o teu nome? 

- Não sei! 

- Como não sabes? 

- Não. Quem me pintou é que devia saber, mas não me disse. E tu? 

- Chamo-me Clara. 

- Áh...Clara...muito gosto! E então gostas deste quadro? 

- Gosto! 

- Boa. Quem me pintou vai ficar feliz. Gostavas de conhecer o sítio onde moro? 

- Gostava, mas isso só acontece na minha imaginação, ao olhar para o quadro. 

- Eu gosto deste sítio, mas também gostava de conhecer a tua cidade, acho que não consigo sair daqui. 

- Experimenta! 

      O rapaz do quadro faz várias tentativas, mas não sai. 

- Óh, não consigo. 

- Era o que eu esperava! - diz a rapariga 

    A rapariga ouve no anuncio que a galeria vai fechar dentro de poucos minutos. Ela tira uma foto ao quadro. 

- Que pena! Vou ver se volto amanhã, está bem? - diz ela 

- Está bem. - diz ele 

- Até amanhã! 

- Até amanhã e obrigada pela visita. 

- De nada.

     A rapariga vai para casa, e o quadro fica na galeria. Ela olha para a foto várias vezes: 

- Devia ser mesmo eu a imaginar que ele falava comigo. Era tão giro, nunca vi nenhum rapaz assim. E lembrou-se de pedir um desejo às estrelas: 

- Queridas estrelas...peço-vos um desejo...por favor, transportem o rapaz do quadro, para a realidade! Obrigada. 

  Ri à gargalhada do que estava a dizer. Olha mais uma vez para o quadro, e adormece. Sonha que o rapaz do quadro aparece no quarto dela, sorridente, envergonhado, no início, e os dois visitam o lugar pintado no quadro, depois a área principal da cidade dela, e os pontos mais bonitos. 

    Sonha que passeiam de mãos dadas, conversam, riem, e vão para a praia, onde se olham fixamente, e vivem um romance. Parece real, mas de repente ele desaparece da praia, e volta a aparecer no quadro. 

    Acorda e está na sua cama, tudo igual, olha para a fotografia do quadro e está lá o rapaz, calado, na mesma posição. 

- Como é, estrelas? Eu pedi para este rapaz ser real...depois de um sonho tão bom, ele desaparece, acordo, e está tudo na mesma?! Não é justo. Eu quero que realizem esse desejo. 

     Volta a dormir, zangada por não ser real, e no dia seguinte volta à galeria, para contar os sonhos ao rapaz. O rapaz ri à gargalhada, e ela sugere que ele peça o mesmo desejo às estrelas. Ele prometeu que faria isso, mas na verdade, ri-se sozinho durante muito tempo, e não pediu nada às estrelas. 

- Era só o que faltava. Nem a conheço! Gostei da cara dela, como gostei de outras caras que vi por aqui, mas não posso sair daqui, nem quero namoradas. 

     A rapariga volta a pedir esse desejo às estrelas, volta a sonhar que vive um romance com o rapaz do quadro, acorda e tudo na mesma. 

    Mais uma vez ela ralha com as estrelas por não lhe realizarem o desejo. 

  Ela olha dezenas de vezes para o quadro, para o rapaz, suspira a sorrir, e diz: 

- Tu hás-de ser meu! - e ri

   Volta à galeria, conta o novo sonho que teve, e ele ri à gargalhada. 

- Óh Clara, desculpa a minha sinceridade, mas tu não deves estar bem da cabecinha, pois não? 

- Óh, porque dizes isso? 

- Alguma vez ia ser possível termos algum encontro cara a cara, quando não sou como tu? Eu sou só um rapaz numa pintura! 

- E o que é que isso tem? As estrelas realizam os nossos desejos... eu pedi às estrelas, para nos encontrarmos assim, cara a cara, contigo fora do quadro, e aqueles sonhos que tive contigo... 

- São apenas sonhos, são apenas estrelas que estão lá em cima! Achas mesmo que elas têm esse poder? Claro que não. Isso é fantasia. Com a tua idade, ainda acreditas nisso? 

- O que é que me estás a chamar? Adulta? 

- Sim, és quase adulta, já devias saber distinguir a realidade da ficção! Os sonhos da realidade! Eu faço parte da tua fantasia, e da de quem me vê, não da vossa realidade. 

- Porque é que estás a ser tão frio comigo? 

- O que é isso, ser frio? O quadro não tem neve... 

- As coisas que me estás a dizer, são frias! Estás a deixar-me triste, desiludida e magoada. 

- Desculpa! Mas são a realidade! Tira isso da tua cabeça, nunca vai haver nada entre nós. Achei-te bonita, sim, como achei bonitas muitas outras caras que passaram por aqui, mas não falaram comigo, nem eu com elas, porque sabem que eu sou apenas uma pintura. Ouvi dizer que sou bonito e tal, mas não saio daqui. Nunca nenhuma apreciadora do quadro disse que ia pedir às estrelas o desejo de eu sair daqui e termos alguma coisa um com o outro. 

- Mas tu tens namorada, é isso? 

- Não! Mas sou uma pintura, que vive neste quadro, nesta paisagem, com a família, aqueles que estão por aí espalhados, mas o pintor é que sabe. 

- Mas eu quero conhecer-te, quero que sejas o meu amor eterno! 

- É impossível. É tudo imaginação da tua cabeça. 

- Não é nada. Eu sei que é real, tu mexes comigo! 

- Eu, mexo contigo? Estou aqui tão quietinho, na posição em que o pintor me pintou, temos a tela a separar-nos, como é que nos havemos de conhecer? Não vais namorar com um quadro. Ainda és tão nova, ainda vais conhecer certamente muitos rapazes que te vão agradar e fazer feliz. 

- Como é que sabes? 

- Porque tenho olhos na cara, e vejo caras bonitas, mas não tenho nada com elas. Tu és bonita, mas não quer dizer nada! É só um elogio de um rapaz pintado num quadro...Eu não sou real como tu, e como todos os que me visitam. 

- Não pediste às estrelas o mesmo desejo que eu? 

- Não! 

- Mentiste-me...! 

- Porque não acredito nisso, e porque sei que é impossível. Vocês aí fora, também não namoram com a primeira cara bonita que veem, pois não? 

- Não, primeiro somos amigos, ou curtimos, e se der certo, namoramos, se não, continuamos amigos ou acabamos e nunca mais nos falamos. 

- Vocês tem o direito de acreditar que as estrelas realizam os vossos desejos, mas como viste agora, não realizam, tu só sonhaste, só imaginaste que tínhamos um caso romântico, mas foi só isso...um sonho, não a realidade! 

- Pensei que só os rapazes humanos é que eram maus, afinal até os rapazes pintados são maus. Partiste-me o coração! 

- Sempre ouvi dizer que o amor e o romance não nascem assim. Quando acontecem, são puros, há muita coisa à volta, para ser explorado, como nos quadros que vês! 

- Tu pareces uma pessoa a falar. 

- Mas sou uma pintura! Tu sabes que é impossível, e que tudo não passou de um sonho, um desejo, o que quiseres chamar. Mesmo que eu fosse humano como tu, nunca aconteceria nada entre nós, por nos virmos 2 vezes, de fugida. 

- És romântico como pintura? 

- Não sei. O pintor é que pode dizer, mas acho que sim, pelo que ele ia murmurando...ele desabafava comigo, enquanto me pintava, e o que eu disse, ouvi dele. 

- Eu gosto de ti, quero-te para mim, só para mim, e vou ter-te! 

        Ele dá uma gargalhada: 

- Continua a sonhar...depois ficas triste! Podes ter com outro rapaz, como tu, não com uma pintura. 

- Óh, mas eu quero-te a ti, pintura tão linda, tão perfeita! Não existe nenhum rapaz assim, no real.

        Ele ri: 

- Tens cada uma! Olha mas é para os rapazes reais, que é quem mereces. E será muito melhor do que eu. Nem sequer me podes tocar, como vamos ter alguma relação? 

- Isso arranjava-se. Se as estrelas realizarem o meu desejo. 

- Elas disseram-me que não iam realizar o teu desejo! 

- Disseram? 

- Disseram, aqui na minha aldeia. 

- Mas, porquê? 

- Já sabes porquê! 

- E não ficaste triste ? 

- Não! Nem tu tens de ficar triste, porque eu não sou real, poderias ficar triste, se eu fosse real, mas não sou. 

- Mentirosas… 

- Quem? 

- As estrelas. 

- Deixa-as em paz! Elas estão tão lá em cima, pertencem à noite, não à realização de desejos. 

- Óh, não gosto disso. 

- Mas é a realidade, é o mundo onde tu vives, diferente do meu, só podes ter uma relação com alguém da tua espécie, não com uma pintura! 

- E agora como é que eu fico? 

- Vais ficar bem, é só lembrares-te de que sou uma pintura, e tu és uma menina, de carne e osso, não é possível acontecer alguma coisa entre nós. 

- Mas dói! 

- Dói o quê? 

- O meu coração partido. 

- O vosso coração é partido? 

- Fica partido, quando ficamos tristes. 

- Claro, o meu também, mas ele volta a construir-se! 

- Estou mesmo triste, acho que esta tristeza nunca vai desaparecer. 

- Que exagero, Clara! Claro que vai desaparecer. 

- Que desilusão! 

- Eu sei, desculpa, mas não posso fazer nada para te ajudar. 

- Como é que eu agora vou esquecer-te? 

- Ora, esquecendo-me! Basta lembrares-te que sou uma pintura, e que nada vai haver entre nós. 

  Clara desata num choro intenso, bate no vidro do quadro, nervosa: 

 - Óh… então? Comporta-te, olha toda a gente a olhar para ti e para mim. 

       Um funcionário vai ter com Clara, agarra-a: 

- Menina, está doida? Não pode fazer isso aos quadros que aqui estão. Os quadros podem mexer com as suas emoções, mas não precisa de exagerar. 

- Eu estou apaixonada por ele! E ele partiu-me o coração, disse que não estava apaixonado por mim, e que o nosso amor nunca ia acontecer. Acha bem? 

- Claro, ele tem toda a razão, menina! Não pode namorar com uma imagem de uma pintura, por muito bonita que a ache. É tudo da sua imaginação. Vá, venha ver o resto dos quadros… 

- Isto não vai ficar assim. - ameaça a rapariga 

 O funcionário ri-se discretamente, o rapaz do quadro fica triste, mas ao mesmo suspira de alívio. 

  O funcionário leva-a a passear, ver os outros quadros, ela acalma, para de chorar, distrai-se com outras imagens bonitas, e ouve as histórias de cada um, contadas pelos funcionários. Fica deliciada. 

      Ainda sonha muitas noites a seguir, com o rapaz do quadro, e chora como se fosse um amor real, mas rapidamente percebeu que ele tinha razão. 

    Até conheceu um rapaz verdadeiro, com quem construiu uma linda amizade. Foram os dois ver os quadros, e ela sorri para o rapaz do quadro que desejava. 

- Áh! Vês? Eu disse…! Boa, muitas felicidades. - diz o rapaz da pintura orgulhoso e feliz 

   Ela desfila com o novo amigo, e o rapaz da pintura aplaude, ela pisca-lhe o olho, aproxima-se do quadro do rapaz, e sussurra-lhe ao ouvido: 

- Tinhas razão. Obrigada! É meu amigo. 

- Já vi que sim, nem imaginas como fico feliz por ti! Mesmo assim, vou estar sempre aqui, para o que precisares. - diz o rapaz do quadro a sorrir 

- Sim, sim...acredito! Como acredito que as estrelas realizam desejos, aquele desejo que eu pedi. Mas obrigada, se precisar venho falar contigo. 

   Ela volta a juntar-se ao amigo real, e o rapaz do quadro fica pensativo, mas logo a seguir dá umas boas gargalhadas, ao lembrar-se do desejo da rapariga, e do que lhe disse. 

- Deve achar que me ofendeu…Tem muito que crescer e conhecer pessoas como ela! Mas já é um bom principio - diz o rapaz da pintura a rir à gargalhada 

   A Clara não voltou à galeria, conheceu mesmo um rapaz que começou por ser amigo, durante vários meses, e depois namorado. 

 As ilusões ajudam-nos a crescer, desde que não se tornem obsessões, e que não as alimentemos demasiado tempo. 

  O amor não nasce, como quem olha para uma pintura bonita, pois no interior de cada pessoa é que está toda a história do pintor, e a tela fica mais ou menos bonita. 

 O amor é uma tela em constante construção, começa pelo esboço (atração, agrada aos olhos), passa para um desenho mais elaborado, que exige vários ou muitos rascunhos (amizade), apagar, refazer, (conhecer, aceitar e respeitar as qualidades e defeitos), voltar a desenhar até sair aproximado (comunicação, companheirismo, compreensão, carinho, respeito), sem nunca ser «perfeito» (porque perfeição não existe). 

  O amor é uma tela cheia de sonhos, histórias, magias, truques, cores, montagens, salpicos, erros, correções, mudanças, ajustes, várias camadas. 

   O amor é uma contínua descoberta, com sorrisos, lágrimas, zangas, pazes, e muito mais do que uma cara atraente, ou um corpo escultural. 

    Mas se o pintor gosta do seu trabalho, o resultado final, e o tempo que demora a construir, vale a pena. 

                                            FIM 

                                   Lara Rocha                                                                                        11/Fevereiro/2023 







quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

O gato e o leão


Era uma vez um gatinho pequenino que de pequenino só tinha o tamanho porque era um grande pintor, muito simpático e adorava conversar com toda a gente, mas quem passava por ele achava-o estranho.
Ia sempre muito distraído, absorvido por cada pormenor da paisagem, encantado, parava, olhava, punha-se em várias posições, e em sítios diferentes para perceber se via da mesma maneira, desenhava com a patinha no ar, tudo o que via, sorria, abria e quase fechava os olhos, para guardar aquelas imagens tão bonitas, e saltitava de felicidade.
Quando chegava a casa, passava tudo o que tinha visto para papel: tanto escrevia palavras soltas, como fazia rascunhos de desenhos, imagens, sombras, desenhos pormenorizados, muito perfeitos, outros nem tanto, mas ele sabia bem o que eles significavam.
Depois brincava com as cores e as imagens, fazia montagens, misturava objetos, paisagens, animais em cenários diferentes, e criava ele próprio novas pinturas. Já tinha feito milhares de quadros lindos, que expunha e vendia todos os dias. Era muito apreciado e conhecido.
Um dia foi passear e ia tão distraído que sem dar por isso entrou na floresta onde viviam animais grandes, e alguns perigosos. Ele sabia que existiam, mas não sabia que estavam tão perto. Apareceu-lhe logo um leão que rugiu muito alto.
O gato deu um grande salto porque não contava com aquele animal tão grande à sua frente, a rugir e ainda por cima com uns dentarrões que impunham respeito, e aquele rugido que estremeceu, até fez vento. O gatinho escondeu-se para recuperar, e o leão ficou à espera dele.
- Eu sei que estás aí…ou sais a bem ou sais a mal. - Diz o leão
O gato ficou gelado, e respirou fundo, encheu-se de coragem e pergunta:
- Vais-me comer?
O leão ficou muito surpreso:
- O quê?
- Se eu aparecer comes-me?
- Que pergunta é essa, bicho?
- É uma pergunta válida…se eu aparecer, vou ser comido por esses dentarrões, certo?
- Huuummm… é isso que tu queres? – Pergunta o leão
- Não! Olha que eu vim na paz…entrei aqui por engano… mas, mas…vou-me já embora. – Responde o gato
- Espera! – Diz o leão
- O que foi?
- Aparece…eu não gosto de conversar com paredes…ou, neste caso…árvores…!
- Mas eu não quero ser engolido por ti…
- Não te vou engolir…só quero conversar um bocadinho…pode ser? – Pergunta o leão
- Está bem…posso mesmo confiar em ti?
- Podes. Se eu gostar de ti, não te como.
- Prometes?
- Prometo.
- De certeza que não é nenhuma armadilha tua?
- Não.
O gato aparece cheio de medo, o leão inclina-se sobre ele, e cheira-o. Quase aspira o gato, e dá uma gargalhada:
- Posso estar descansado…tu és do bem. – Diz o leão
- Sim, já te tinha dito que venho na paz.
- Gosto do teu cheiro! – Diz o leão
- Obrigado. – Diz o gato a sorrir
- Então…enganaste-te! E para onde ias? – Pergunta o leão
- É. Ia por ai, sem destino… é que eu sou pintor, e saio todos os dias à procura de inspiração. Hoje ia para outro sítio diferente, vi tanta coisa tão bonita pelo caminho que andei, andei, andei…e chegou a entrar na floresta.
- Hum…és pintor? E o que é isso?
O gato dá uma longa explicação, fala de todos os quadros que já pintou, das cores que usa, das coisas bonitas que vê pelo caminho, e o leão fica deliciado a ouvi-lo.
- Queres que te pinte? – Pergunta o gato
- Óh…tu farias isso? – Pergunta o leão a fazer-se de caro
- Sim. Se tu quiseres…
- Bom…achas que…sou um bom modelo? – Pergunta o leão vaidoso
- Com certeza! Eu admiro muito a tua força, o teu pêlo…
- Obrigado. Mas como me vais pintar? Queres fazê-lo agora? – Diz o leão a sorrir
- Sim, poderei fazê-lo agora se tiveres ai papel e algum material que dê para pintar…
- Sim, tenho…anda comigo.
E os dois vão à toca do leão, onde ele tem material de pintura. O leão põe-se numa pose confortável, e o gato olha-o fixamente, desenha-o primeiro com a pata no ar, põe-se em várias posições, o leão segue-lhe os movimentos:
- O que foi…bicho? Não estou bem assim? – Pergunta o leão
- Estás! – Responde o gato
- Falta-te alguma coisa? – Pergunta o leão
- Não. Está tudo bem. – Garante o gato
O leão ri-se:
- É que andas aí muito agitado, de um lado para o outro, olhas para mim, viras-te ao contrário, baixas-te, pões-te de pé…
- Estou a ver a tua melhor imagem, de que lado e em que posição ficas mais vistoso… quer dizer, já és vistoso, mas a que ficas melhor. – Explica o gato
- Encontraste? – Pergunta o leão
- Sim, vai ficar perfeito. – Garante o gato
E o gato respira fundo e faz a pintura do leão.
- Já está! Se não ficou perfeito vais-me comer? – Diz o gato
- Claro que não! Estará melhor do que eu próprio a fazer, com certeza.
- Já alguma vez experimentaste?
- Não. Já desenhei outras coisas, mas a mim próprio não.
E o gato vira o quadro. O leão abre a bocarra de espanto. O gato fica com medo.
- Então…? – Pergunta o gato a medo
- Mas como é possível? – Pergunta o leão muito surpreso
- Ui…o que é que isso quer dizer? – Pergunta o gato assustado
- Que maravilha…está perfeito! Parece mesmo a imagem que eu vejo no meu espelho todos os dias. Estou…sem palavras, bicho! Muitos parabéns…realmente és um grande artista. Adorei.
- Obrigado! Tu pareces assustador, és enorme, mas afinal és um bom animal…se não terias-me devorado. – Diz o gato a sorrir aliviado
O leão ri-se um pouco envergonhado:
- Acho difícil dizer como somos, sim, tenho este tamanho todo por fora, mas por dentro acho que sou assim, do teu tamanho. Entendes-me?
- Claro que sim, mas tu és muito corajoso. – Repara o gato
- Óh…isso é aparência…acho que me armo em forte, só para me defender, mas tenho medos, e nem sempre sou mau. Há animais mais fortes que eu.
- Tens medos? Nunca pensei…pensei que só metias medo… - diz o gato
- Não. O medo não tem nada a ver com tamanho. Todos temos medos. Tu também tens medos… e todos os animais que aqui vivem, têm medos…
- Sim, é verdade.
- A selva nem sempre é um lugar totalmente seguro, mas temos de estar atentos, e se virmos que há ameaças…temos de nos defender. O medo faz-nos estar mais despertos, e pode tornar-nos mais rápidos para fugirmos ou lutarmos.
- Áh, não sabia! E tu costumas fugir ou lutar, quando tens medo?
- Umas vezes fujo, outras vezes luto…depende do que aparece. E tu?
- Eu, quando tenho medo, geralmente fujo e escondo-me até a ameaça fugir!
- E que ameaças existem no lugar onde vives? 
- Muitas! Principalmente de duas patas…
- Áh, referes-te àqueles malditos que usam pistolas e umas coisas nos caminhos…
- Isso, que eles chamam de…carros…
- Não gosto deles! Desses sempre que posso luto, porque sei que eles têm medo de mim, mas eu também tenho medo deles, só que não mostro para me defender.
- Fazes tu muito bem…eles são mesmo perigosos.
- Tu também tens medo deles?
- Às vezes, porque eles são difíceis de conhecer…são maus uns com os outros, e com os animais.
- Pois.   
- As aparências iludem mesmo! Contigo fiquei surpreso. – Confessa o gato
- É verdade! (o leão sorri) A mim também me surpreendeste, pensei que ias fugir e quase fugiste, ou que ias lutar…
- Eu? Lutar contigo?
Os dois riem, conversam sobre os medos, lancham e conversam alegremente sobre vários assuntos. O leão diz a outros animais que tem um amigo pintor, mostra orgulhoso a pintura que ele fez, e muitos outros animais pedem para ele fazer o mesmo. Tornam-se grandes amigos, ensinam e aprendem um com o outro, e o gatinho passou a andar mais atento.
FIM
Lara Rocha 
(7/Fevereiro/2017)


sexta-feira, 15 de abril de 2016

a descoberta do gato

         

 Era uma vez um gato que vivia numa casa com uma família muito numerosa. De entre os filhos do casal, havia um rapaz que adorava pintar e desenhar, e tinha muito jeito. O gato recebia mimos de toda a família mas tinha uma relação mais próxima e mais especial com o rapaz que pintava. 
         Os dois ficavam na varanda fechada, espaçosa e envidraçada, quente, e com lareira que às vezes estava acesa. O rapaz sentado em frente ás telas, umas atrás das outras, de volta das tintas, e ás vezes parado a olhar para elas, talvez em busca de inspiração, e mergulhado nas cores, nos seus sonhos, desejos, imaginação e fantasias, que punha nas telas.
       O gato circulava pela varanda, umas vezes dormitava, outras vezes estendia-se em cima das almofadas que estavam no chão, outras vezes senta-se num cadeirão e parecia o dono daquilo tudo, quando tinha mais frio, deitava-se nas mantas aos pés da lareira e dormia.
          Mas o que ele gostava realmente...era de ver o rapaz a pintar. Seguia todos os movimentos, ficava em suspenso, e a sua cabeça acompanhava os braços do pintor...isto fazia-o tentar imaginar o que ia sair dali, parecia que era o gato que estava a desenhar ou a pintar. Muitas vezes acertava! E ficava encantado...quase hipnotizado com a beleza dos quadros do seu amigo humano. Miava, enroscava-se nas pernas do rapaz, ele pegava no gato ao colo para ver melhor, e perguntava-lhe sempre o que achava. 
       O gato não usava palavras, mas apreciava e transmitia isso ao dono de outra maneira, que ele entendia muito bem. Era só elogios. O gato imaginava como seria bom pintar, pois o seu dono ficava feliz sempre que pintava...e tinha um enorme desejo de experimentar, para ver se era fácil ou difícil, se conseguia fazer coisas tão bonitas como ele. 
          Mas como é que ele ia fazer isso? Não podia falar... Nem de propósito, um dia, o rapaz atirou uma folha para o chão, num momento em que estava muito zangado, e também caíram pincéis,e tintas. O gato nem queria acreditar...e num impulso começou a experimentar, imitando todos os movimentos que tinha visto o seu dono a fazer enquanto pintava. 
         O rapaz ficou a apreciar...o gato estava tão absorvido na pintura com o seu dono, que nem reparou que estava a ser visto. Pintou uma bela gata, muito perfeita, parecia quase uma fotografia. O dono ficou espantado, aplaudiu-o, o gato ficou assustado e depois riu-se...miou, como que a pedir desculpa, mas o dono ficou deliciado, achou lindo, maravilhoso e perfeito. O gato tinha acabado de descobrir um novo talento e pôde perceber nesse momento, como é que o seu dono se sentia. Desde esse dia, o seu dono pintava em conjunto com o gato, e quando não estava inspirado, o gato inventava sempre alguma coisa nova...Mas que grande artista! Passado uns tempos, já tinham tantos quadros, que quase não tinham espaço para eles, então foram vendê-los para ajudar a família. Eram quadros tão especiais que desapareciam no mesmo dia, e porque havia pessoas que não acreditavam que tinha sido o gato a pintar, o dono punha-o a pintar diante das pessoas, tudo o que elas quisessem. Elas ficavam sem palavras...aplaudiam, tiravam fotografias, e pagavam os quadros. O dono e o gato não tiveram mais sossego, mas era algo que eles adoravam fazer, tinham esse dom, e ajudaram mesmo muito a família. Nem o gato sabia que tinha jeito para a pintura...foi uma descoberta mágica! 
E se vocês tivessem um gato pintor...ou um gato que aprendesse os vossos talentos? Será que ele aprender alguma coisa convosco, ou ensinar-vos alguma coisa? 
Nós também somos assim...às vezes só descobrimos os nossos talentos para certas coisas, sem estarmos á espera. Experimentamos e descobrimos...e com os nossos amigos também! Não é? Já aprenderam coisas novas com os vossos amigos? Quais? Coisas que não sabiam que gostavam, ou que tinham jeito? 

Fim 
Lálá 
(15/Abril/2016) 

terça-feira, 10 de novembro de 2015

A pintora desajeitada

foto de Lara Rocha 



Era uma vez uma fada toda feita de nuvens que vivia nas nuvens, numa casa feita de nuvens com a sua família de nuvens. Um dia estava muito amuada, irritada e triste, porque estava farta de chuva na sua zona. Ela olha pela janela.          
- Não posso acreditar! – Grita ela com os dentes cerrados e a gritar
- O que foi? – Pergunta a sua mãe
- Não me faças perguntas… - Resmunga ela
- Tu não falas assim comigo! – Diz a mãe, muito séria
- Ei…estás séria como o céu…
- E vou ficar ainda pior. Ouviste a maneira como me respondeste? Isso são maneiras de falar com a tua mãe?
- Desculpa. Estou de mau humor.
- Ai… que paciência. Vai apanhar ar lá fora.
- Está a chover outra vez. – Grita a fada
- E que culpa tenho eu…? Ou…nós?
- Nenhuma. Mas é que… bem… acho que vou mesmo lá fora. Vou ter uma conversinha com alguém.
- É. Vai. E deixa a raiva lá fora…vai apanhar ar.
    Ela sai a porta a resmungar sozinha.
- Detesto este céu, desta cor. – Grita ela no dobro do seu tamanho de tão zangada que estava. 
    Pegou na sua palete de cores e começa a saltar em cima dos tubos de tinta que lançam um enorme jato de todas as cores. 
    As cores gritam, dão as mãos, dançam, misturam-se e fazem um enorme e lindo círculo de arco-íris.
- Áh! Assim sim, já gosto mais deste céu. Mas mesmo assim, ainda não gosto.
As cores, que estavam felizes, ficam tristes com o comentário, dissolvem-se nas suas próprias lágrimas, e juntam-se numa nuvem negra assustadora.
- Ei…onde é que vocês foram?
Não há resposta nem barulho. A fada fica triste. Pega outra vez na sua paleta de cores, mistura-as, mas vem uma rajada de vento muito forte que a faz rodar muito rápido, e ela sem largar os pincéis e as cores grita. 
O trabalho final não é nada bonito, mas há muitas cores. 
O vento desata às gargalhadas.
- Já viste o que fizeste? – Pergunta ela muito zangada
- Tu é que és a pintora, mas não fazes obras nada bonitas.
- O quê? Tu é que és um insensível.
- Não. Tu é que não tens mesmo gosto nenhum, nem jeito.
- Áhhhh!
- É verdade.
- Mas…
- Sim, enquanto estiveres nesse estado, não vais fazer nada de jeito.
- Que estado?
- Assim, quase a explodir…tu é que pareces uma ventania.
- Huummm…estou muito zangada.
- Já reparei. Mas posso saber porquê?
- Não.
- Pronto, está bem…então fica lá com o teu mau humor, e a tua irritação. (o vento afasta-se ligeiramente) Desculpa! Acho que estraguei as tuas obras. (afasta-se mais um bocadinho) Deve ser por isso que estás tão zangada…
- Não. Espera…talvez me possas ajudar.
- Eu? Ajudar-te? (ri) Tu é que costumas ajudar os outros, não sou eu. Eu sou vento, tu és fada.
- Mas as Fadas também precisam de ajuda…às vezes!
- Precisam?
- Claro! Tu também precisas?
- Sim, claro.
- Detesto este céu. Estou farta da chuva, farta de ver estas nuvens escuras…queria dar-lhes outras cores mais bonitas, alegres… sem cores fico muito triste.
- Eu também gosto muito de cores. E mesmo as nuvens escuras, e a chuva…têm cor.
- Sim, é verdade. Mas são muito escuras…eu gosto mais de cores alegres.
- Mas não podes mudar as cores que elas têm.
- Porque não?
- Isso é com o sol.
- Eu vi o arco-íris, mas desapareceu. Saltei em cima dos tubos de tintas, um de cada cor… delas saiu um grande jato de cores, elas deram as mãos, dançaram, misturaram-se e formaram o arco-íris, mas…desapareceram…Acho que ficaram tristes, por uma coisa que eu disse.
- Pois! Estou a ver…
- Quem? O arco-íris?
- Não. O que tu fizeste…
- Foi mau, não foi?
- Foi. Mas o que é que tu querias pintar?
- Nada de especial…e…tudo à minha volta…para ficar colorido...para dar cor a estas nuvens tão escuras.
- As nuvens escuras são importantes…e têm a sua beleza.
- É. Mas cansam depressa. Eu não gosto de tudo tão escuro.
- Mas também não podes mudar a cor…podes pintar com outras cores, mas em desenhos, ou nos teus sonhos.
As cores gostaram tanto do que o vento disse, que voltam a aparecer em forma de arco-íris entre as nuvens a sorrir. A fada tenta agarrá-las, mas elas escondem-se.
- Porque é que fogem?
- Porque não fomos feitas para sermos agarradas…
- Só…olhadas.
- E apreciadas.
- De longe!
- Para sermos vistas…
- Sentidas…
- Tocadas com os olhos.
- E vocês gostam dessas nuvens tão escuras?
- Sim! – Respondem todas
- Eu não gosto. E quero pintar tudo à minha volta com outras cores.
As cores desatam a rir às gargalhadas.
- Achas que mandas nisto…
Aparece um raio de trovoada e faz um estrondo.
- Vai-te embora. – Grita a fada
- O quê? – Pergunta o raio
- Eu não gosto de ti. – Resmunga a fada
- Olha para a minha cara de preocupado… (responde o raio a rir) tu ficas aí, que eu fico aqui… e está tudo bem.
- Tu não me dás cores…não gosto de ti.
- Quero lá saber. Não tenho nada a ver com cores…só com…luz.
A fada fica mesmo furiosa. Aperta os tubos de tintas aos gritos, roda, salta…todos a mandam calar. O vento prende-a.
- Pára quieta e pára de gritar, criatura irritante. Já me estás a deixar muito nervoso…e olha que eu até sou calmo…
Aparece o sol.
- Mas o que é que se passa?
- Esta criatura só grita… reclama por cores. Diz que detesta nuvens escuras, que está farta de nuvens escuras e de chuva. – Explica o vento
O sol ri.
- Sou pintora. – Grita a fada
- Pintora? – Todos desatam a rir
- És uma pintora muito desajeitada. – Brinca o vento
- É verdade. – Confirma o sol
- Tu queres pintar o quê? – Pergunta outra nuvem
- Quero encher isto tudo de cores.
- Não podes.
- Porquê?
- Eu é que mando…
- Porque é que me roubaste as cores?
- As cores estão mesmo diante de ti. – Mostra o sol
- Mas eu vejo tudo igual…e não gosto destas cores.
- Enquanto estiveres assim tão irritada, eu não te ajudo. – Diz o sol
- Porque não?
- Porque não são maneiras de tratares a natureza.
- Mas ela é quem manda?
- Claro.
- Pensei que eras tu!
- Não. Eu faço parte dela, mas é ela quem decide tudo. Não sou eu…eu só obedeço…ou apareço ou não…e onde…quando ela quer…ou manda.
- Mas…ela não entende que ficamos tristes quando tu não estás?
- Entende. Mas é porque ela acha que sou mais preciso noutros lugares.
- Óhhh…
- Não posso contrariar as ordens dela. Nem vai ser por tu ficares tão irritada que ela vai mudar as coisas.
- Não?
- Não!
- Eu só quero cores…
- Vais tê-las aqui fora, quando a Natureza entender…
- Mas…
- E é melhor não discutires com ela.
- Porquê?
- Ela não gosta…e não é para brincadeiras.
- É pior do que eu?
- Muito pior.
- Não pode ser.
- É.
- Achas que se falares com ela, ela vai fazer-me a vontade?
- Não. Isso tens de ser tu a pedir, e mesmo assim é melhor não teres muita certeza que ela vai realizar o teu desejo.
- Eu quero cores…
A voz da natureza soa:
- Pinta, e cala-te um bocadinho, por favor. Já estou cansada de te ouvir.
- Ãh? – Pergunta a fada
- É a mãe. Respeita-a…- diz o sol
- Ela está a mandar-te pintares. – Diz o vento
- Mas vou pintar onde?
- Na tua casa…sossegada, calada… e bem comportada. Em papel branco, com as tuas tintas. – Manda a natureza
- Mas…
- Vai já para casa. – Ordena a natureza
A fada obedece, triste e um pouco assustada. Senta-se em frente ao apoio das folhas de desenho, e olha para as tintas.
- O que é que eu vou pintar?
- O que tu quiseres… - soa a voz da natureza
Ela faz um desenho cheio de riscos, pintas, borrões com várias cores.
- Está bem?
- Não! – Respondem todos
- Está muito mau. – Diz o vento
A fada quase explode.
- Nem te atrevas…respira…- Ordena a natureza – Eu não faço obras dessas
Ela respira muito zangada, e faz outro desenho, ainda mais trapalhão. A natureza ri-se.
- O que é isso?
- Faz um desenho como deve ser. – Sugere o vento
Ela tenta outra vez, muito zangada. Uma mancha de tinta salta da folha e transforma-se em gota gigante. Fica a olhar para ela.
- Isso é coisa que se apresente, menina?
- Ai, que susto. De onde saíste?
- Daqui. Desta salsichada que chamas desenho. Olha para isto…? Que coisa é esta…? Não tem pés, nem cabeça.
- O quê? Mas…que indelicada…Eu não estou a desenhar salsichas. 
- Estou a ser muito sincera. Tu não sabes pintar.
- Sei.
- Não. Muito menos quando estás nervosa. Olha para isto…? Que bagunça. A natureza não gosta disto…nem ela nem ninguém.
- Óh!
- É verdade.
A mancha dá uma longa lição de pintura à fada, explica tudo passo a passo de como fazer a pintura.  Mostra cores, fala com elas, elas dizem as suas funções, explica quais as cores que se podem misturar, e as que não podem 
Pega nas mãos da fada e põe-nas a desenhar como deve ser. Quando ela começa a desenhar coisas bonitas, e a ficar muito bem-disposta com a mancha, a natureza à sua volta começa a ganhar uma nova vida. 
As nuvens mudam de sítio, aparece o sol, as gotinhas escorregam das pétalas das flores, e dos troncos das árvores, e todas as cores de tudo o que parecia ser pintado com a mesma, sorriem.
A fada sai a correr de casa, toda feliz, com um grande sorriso, e corre solta pelo espaço.
- Finalmente…sol! Luz…muito obrigada… obrigada Natureza… obrigada, mancha de tinta…por me teres ensinado a pintar.
- Mas lembra-te de respeitar também a chuva, porque até ela tem a sua beleza…e é muito necessária. – Aconselha a Natureza
- Sim, já percebi.
E a fada volta a brincar com as cores. Quando estava chuva, ela deixou de ficar zangada, e aprendeu a pintar de verdade…até a chuva ela pintou. 
Quadros lindíssimos, da Natureza, com todos os belos e pequeninos pormenores, pois adorava tudo o que via, e via com olhos bem abertos para captar tudo…
Sonhava, e passava todos os seus sonhos para o papel, enquanto viajava pelo mundo das cores, que às vezes era só seu.
Era de certeza um mundo lindo, porque todos os seus quadros passaram a ser muito apreciados por todos. 
Até lhe pediam para fazer quadros especiais, quando queriam oferecer alguma coisa muito especial a alguém.
A pintora que era desajeitada, aprendeu a pintar e a não ficar zangada quando estava a chover. Com sol ou chuva, a Natureza é mesmo assim, e ela merece sempre a nossa admiração, não é?

                                               FIM
                                          Lara Rocha 
                                  (9/Novembro/2015)