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sábado, 3 de maio de 2025

Rosa Amor

 

foto de Lara Rocha 


    Há uns anos atrás, uma jovem misteriosa, chamada Natureza, ofereceu a um casal, um lindo botão de flor, fechado. 

    Disse para cuidarem dele com amor, regar com carinho, educação, sensibilidade atenção e dedicação, para falar com ele. 

    Acrescentou que desabrocharia passado nove meses, numa linda flor e desapareceu. O casal ficou surpreso e apreensivo, sem perceber o que tinha acabado de acontecer, e o que significaria aquilo.

    Procuraram por ela, mas não a viram em lado nenhum, estava escondida, e a sorrir. 

- Tenho a certeza que estarás muito bem entregue! - murmura a jovem Natureza, ao ver o carinho com que o casal segurou a flor

    Assim aconteceu, o casal cuidou do botão de flor com amor, e estavam ansiosos por saber que flor seria, e porque demoraria tanto tempo. Regaram-na, falavam com ela, o botãozinho ia crescendo, alargando, tentavam imaginar a cor que teria, mas ele não a mostrava. 

    O casal não tinha preferência, pois adoravam todas as flores, em botão, e, ou abertas. Acariciavam o botãozinho, mudavam de terra de vez em quando, punham-no a apanhar sol, e ar, quando estava vento recolhiam-no. 

    O botãozinho ouvia as conversas todas, e sorria fechado nas pétalas, quando o casal lhe tocava. Não viam, mas era um sorriso luminoso, por se sentir acarinhado, acolhido, amado. 

    Passados nove meses, como a Natureza anunciou, o botãozinho de flor, abriu. Era uma linda rosa cor-de-fogo, com amarelo, laranja e vermelho! Uma perfeição, parecia que estava a sorrir, com as pétalas delicadas, o casal não ouvia, mas imaginava, o som do sorriso da rosa, quando lhe tocavam com carinho. 

    Que surpresa tão agradável, o casal não podia estar mais feliz, e continuaram a cuidar dele, com tanto amor e dedicação que cresceu como nunca se tinha visto. 

    Que lindo que era, sempre viçoso e vistoso, brilhante, adorava sol, e ficava ainda mais bonito, continuaram a regá-lo, a alimentá-lo, a conversar com ele. Deram-lhe o nome de Rosa Amor. 

    Um nome que fazia todo o sentido, porque era o símbolo do amor do casal, um pelo outro, dos dois pela Natureza, um prémio por terem cuidado tão bem dele. 

    Era como se fosse um filho, aliás, quando a esposa soube que vinha a caminho, um bebé verdadeiro. Pensaram que a flor iria murchar de tristeza, ou ciúmes, mas não. 

    Porque tinham atenção e amor para os dois; para o bebé, para a flor, a diferença é que este botãozinho que vinha a caminho, era uma pessoa. Um ser vivo, como um botãozinho em flor, que exigia mais amor, mais dedicação, mais regras, mais atenção, carinho. 

    Sem nunca se esquecerem da  Rosa Amor, que mesmo sendo uma flor, estava feliz por ter um irmãozinho em forma de pessoa, nunca se sentiu excluída, nem abandonada. 

     Quando o bebé nasceu, a flor chorou de alegria, surgiram gotas de água nas suas pétalas, e algumas caíram, ao ver aquele ser delicado, frágil e lindo como ela. 

     Rosa Amor, sorria ao ver a ternura dos pais, com aquele bebé, e a gratidão do bebé a olhar para eles, o carinho que ele recebia, e chegava para a flor. Mostraram o bebé à flor, e esta inclinou-se, encostou-se à carinha dele, com as suas pétalas macias, e voltou a chorar de alegria como se estivesse a fazer uma carícia ou a dar um beijinho no seu irmãozinho humano. 

     O bebé e os pais sorriram de alegria, pegaram na mãozinha do bebé, e fizeram uma festinha das pétalas da flor. Ela sorriu e brilhou com tanto amor. Cresceram juntos, nunca faltou carinho, atenção, dedicação, amor, regras, diálogo, aos dois, e formaram uma linda família.  

    Todos os dias agradeciam à Natureza, aquele botãozinho maravilhoso, e o botãozinho verdadeiro, o bebé que também adorava a flor. Ela abanava-se e ele desatava à gargalhada, que fazia o mesmo com os pais. 

    Parecia que os dois comunicavam um com o outro, só entre eles, balbucios e gargalhadas, trocas de mimos, e papagueados que só a flor e o bebé entendiam. 

    O casal agradecia todos os dias, a saúde, e a alegria, o amor que havia naquela casa, com aquela flor. A jovem Natureza apreciava encantada, espreitava e sorria à flor, esta retribuía. 

    Sentia-se orgulhosa, e de vez em quando as duas conversavam sobre a felicidade da flor naquela casa, o bebé, a forma como eram tratados, e outros assuntos. 

    E assim se constroem as amizades, os amores, com dedicação, paciência, carinho, diálogo, respeito, acolhimento, atenção, sem pressa, com delicadeza. Botõezinhos fechados, que se vão abrindo em lindas flores. 

                                            FIM 

                                       Lara Rocha 

                                      2/Maio/2025 

domingo, 5 de novembro de 2023

A verdadeira união

A verdadeira união entre duas pessoas é algo muito mais do que o contacto físico, e troca de olhares...aliás, começa com quando os olhos falam, a boca cala-se, e as palavras flutuam ao sabor do diálogo que se estabelece entre os dois corações. 
União significa a fusão de dois corpos que se ligam emocionalmente, numa só energia vibratória, numa linguagem sem palavras, com uma conversa que só eles têm e sabem o que dizem. 
Os corpos não ouvem, mas os olhos falam, o toque das mãos um no outro falam, os sorrisos espontâneos sem motivo aparente falam, os abraços falam, tudo fala na sua linguagem própria, secreta. 
União é paciência, carinho, sorriso, é o que fica depois da ilusória e fugaz paixão. Paixão, aquilo que agrada aos olhos, mas nem sempre fica depois desse fogo...Na união, permanece um encantamento diário, o apreciar, o contemplar o outro, a vontade de descobrir o outro, lentamente, sem pressa, a saborear, e percorrer todos os labirintos do outro. 
A verdadeira união entre duas pessoas tem amizade, lembrança, a sensação de pertença sem posse, a troca de carinhos não forçada, natural, recíproca, com a aceitação do outro, e resposta. 
União é mimos, pequenos gestos, rir, brincar, conversar sem medo, beijar com respeito, é estar presente e dar espaço, é confiar! 

                                Fim 
                           Lara Rocha 

E para vocês? O que é união, namoro? Amizade? 
 

sábado, 11 de fevereiro de 2023

O rapaz do quadro

 

    Era uma vez um artista que pintou um rapaz num quadro, e deixou numa galeria de arte para exposição.       
    O rapaz era muito bonito, e estava enquadrado numa paisagem igualmente fantástica, que despertava a imaginação de quem via, e conseguia ir para esse lugar.       Um dia uma rapariga foi visitar essa exposição, e parou os seus olhos nesse quadro.            
     Olhou fixamente para ele, e o rapaz corou de vergonha, pensou para si: 

- Uau! Uma rapariga tão bonita aqui, a olhar para mim, 

- O quadro muda de cor? O rapaz está corado! Muito bonito...! - repara a rapariga

- Quem, eu ou o quadro? 

   Ela olha em volta, não vê ninguém. 

- Deve ser a minha imaginação, estou a ouvir alguém a falar. 

- Sou eu! - responde o rapaz 

- Quem? 

- Eu...aqui no quadro! 

- Como é que pode ser? 

- Sim, eu estou a falar contigo. Porque estás a olhar para mim, dessa maneira? 

- Ora, tu és um quadro, é para seres apreciado, repara-se em todos os pormenores. Está muito bonito este quadro. É aí que tu moras? 

- É. E tu moras aqui, também? Nunca te vi. 

- Não, eu moro noutra casa, só vim ver as obras de arte. Quem te pintou, teve gosto, és muito bonito. 

- Obrigado. Tu também.

        Ela sorri.

- Um quadro a dizer que sou bonita. Deve estar alguém por trás a falar. 

- Não, sou eu mesmo! 

        Ela ri. 

- Como te chamas? 

- O que é isso? 

- Qual é o teu nome? 

- Não sei! 

- Como não sabes? 

- Não. Quem me pintou é que devia saber, mas não me disse. E tu? 

- Chamo-me Clara. 

- Áh...Clara...muito gosto! E então gostas deste quadro? 

- Gosto! 

- Boa. Quem me pintou vai ficar feliz. Gostavas de conhecer o sítio onde moro? 

- Gostava, mas isso só acontece na minha imaginação, ao olhar para o quadro. 

- Eu gosto deste sítio, mas também gostava de conhecer a tua cidade, acho que não consigo sair daqui. 

- Experimenta! 

      O rapaz do quadro faz várias tentativas, mas não sai. 

- Óh, não consigo. 

- Era o que eu esperava! - diz a rapariga 

    A rapariga ouve no anuncio que a galeria vai fechar dentro de poucos minutos. Ela tira uma foto ao quadro. 

- Que pena! Vou ver se volto amanhã, está bem? - diz ela 

- Está bem. - diz ele 

- Até amanhã! 

- Até amanhã e obrigada pela visita. 

- De nada.

     A rapariga vai para casa, e o quadro fica na galeria. Ela olha para a foto várias vezes: 

- Devia ser mesmo eu a imaginar que ele falava comigo. Era tão giro, nunca vi nenhum rapaz assim. E lembrou-se de pedir um desejo às estrelas: 

- Queridas estrelas...peço-vos um desejo...por favor, transportem o rapaz do quadro, para a realidade! Obrigada. 

  Ri à gargalhada do que estava a dizer. Olha mais uma vez para o quadro, e adormece. Sonha que o rapaz do quadro aparece no quarto dela, sorridente, envergonhado, no início, e os dois visitam o lugar pintado no quadro, depois a área principal da cidade dela, e os pontos mais bonitos. 

    Sonha que passeiam de mãos dadas, conversam, riem, e vão para a praia, onde se olham fixamente, e vivem um romance. Parece real, mas de repente ele desaparece da praia, e volta a aparecer no quadro. 

    Acorda e está na sua cama, tudo igual, olha para a fotografia do quadro e está lá o rapaz, calado, na mesma posição. 

- Como é, estrelas? Eu pedi para este rapaz ser real...depois de um sonho tão bom, ele desaparece, acordo, e está tudo na mesma?! Não é justo. Eu quero que realizem esse desejo. 

     Volta a dormir, zangada por não ser real, e no dia seguinte volta à galeria, para contar os sonhos ao rapaz. O rapaz ri à gargalhada, e ela sugere que ele peça o mesmo desejo às estrelas. Ele prometeu que faria isso, mas na verdade, ri-se sozinho durante muito tempo, e não pediu nada às estrelas. 

- Era só o que faltava. Nem a conheço! Gostei da cara dela, como gostei de outras caras que vi por aqui, mas não posso sair daqui, nem quero namoradas. 

     A rapariga volta a pedir esse desejo às estrelas, volta a sonhar que vive um romance com o rapaz do quadro, acorda e tudo na mesma. 

    Mais uma vez ela ralha com as estrelas por não lhe realizarem o desejo. 

  Ela olha dezenas de vezes para o quadro, para o rapaz, suspira a sorrir, e diz: 

- Tu hás-de ser meu! - e ri

   Volta à galeria, conta o novo sonho que teve, e ele ri à gargalhada. 

- Óh Clara, desculpa a minha sinceridade, mas tu não deves estar bem da cabecinha, pois não? 

- Óh, porque dizes isso? 

- Alguma vez ia ser possível termos algum encontro cara a cara, quando não sou como tu? Eu sou só um rapaz numa pintura! 

- E o que é que isso tem? As estrelas realizam os nossos desejos... eu pedi às estrelas, para nos encontrarmos assim, cara a cara, contigo fora do quadro, e aqueles sonhos que tive contigo... 

- São apenas sonhos, são apenas estrelas que estão lá em cima! Achas mesmo que elas têm esse poder? Claro que não. Isso é fantasia. Com a tua idade, ainda acreditas nisso? 

- O que é que me estás a chamar? Adulta? 

- Sim, és quase adulta, já devias saber distinguir a realidade da ficção! Os sonhos da realidade! Eu faço parte da tua fantasia, e da de quem me vê, não da vossa realidade. 

- Porque é que estás a ser tão frio comigo? 

- O que é isso, ser frio? O quadro não tem neve... 

- As coisas que me estás a dizer, são frias! Estás a deixar-me triste, desiludida e magoada. 

- Desculpa! Mas são a realidade! Tira isso da tua cabeça, nunca vai haver nada entre nós. Achei-te bonita, sim, como achei bonitas muitas outras caras que passaram por aqui, mas não falaram comigo, nem eu com elas, porque sabem que eu sou apenas uma pintura. Ouvi dizer que sou bonito e tal, mas não saio daqui. Nunca nenhuma apreciadora do quadro disse que ia pedir às estrelas o desejo de eu sair daqui e termos alguma coisa um com o outro. 

- Mas tu tens namorada, é isso? 

- Não! Mas sou uma pintura, que vive neste quadro, nesta paisagem, com a família, aqueles que estão por aí espalhados, mas o pintor é que sabe. 

- Mas eu quero conhecer-te, quero que sejas o meu amor eterno! 

- É impossível. É tudo imaginação da tua cabeça. 

- Não é nada. Eu sei que é real, tu mexes comigo! 

- Eu, mexo contigo? Estou aqui tão quietinho, na posição em que o pintor me pintou, temos a tela a separar-nos, como é que nos havemos de conhecer? Não vais namorar com um quadro. Ainda és tão nova, ainda vais conhecer certamente muitos rapazes que te vão agradar e fazer feliz. 

- Como é que sabes? 

- Porque tenho olhos na cara, e vejo caras bonitas, mas não tenho nada com elas. Tu és bonita, mas não quer dizer nada! É só um elogio de um rapaz pintado num quadro...Eu não sou real como tu, e como todos os que me visitam. 

- Não pediste às estrelas o mesmo desejo que eu? 

- Não! 

- Mentiste-me...! 

- Porque não acredito nisso, e porque sei que é impossível. Vocês aí fora, também não namoram com a primeira cara bonita que veem, pois não? 

- Não, primeiro somos amigos, ou curtimos, e se der certo, namoramos, se não, continuamos amigos ou acabamos e nunca mais nos falamos. 

- Vocês tem o direito de acreditar que as estrelas realizam os vossos desejos, mas como viste agora, não realizam, tu só sonhaste, só imaginaste que tínhamos um caso romântico, mas foi só isso...um sonho, não a realidade! 

- Pensei que só os rapazes humanos é que eram maus, afinal até os rapazes pintados são maus. Partiste-me o coração! 

- Sempre ouvi dizer que o amor e o romance não nascem assim. Quando acontecem, são puros, há muita coisa à volta, para ser explorado, como nos quadros que vês! 

- Tu pareces uma pessoa a falar. 

- Mas sou uma pintura! Tu sabes que é impossível, e que tudo não passou de um sonho, um desejo, o que quiseres chamar. Mesmo que eu fosse humano como tu, nunca aconteceria nada entre nós, por nos virmos 2 vezes, de fugida. 

- És romântico como pintura? 

- Não sei. O pintor é que pode dizer, mas acho que sim, pelo que ele ia murmurando...ele desabafava comigo, enquanto me pintava, e o que eu disse, ouvi dele. 

- Eu gosto de ti, quero-te para mim, só para mim, e vou ter-te! 

        Ele dá uma gargalhada: 

- Continua a sonhar...depois ficas triste! Podes ter com outro rapaz, como tu, não com uma pintura. 

- Óh, mas eu quero-te a ti, pintura tão linda, tão perfeita! Não existe nenhum rapaz assim, no real.

        Ele ri: 

- Tens cada uma! Olha mas é para os rapazes reais, que é quem mereces. E será muito melhor do que eu. Nem sequer me podes tocar, como vamos ter alguma relação? 

- Isso arranjava-se. Se as estrelas realizarem o meu desejo. 

- Elas disseram-me que não iam realizar o teu desejo! 

- Disseram? 

- Disseram, aqui na minha aldeia. 

- Mas, porquê? 

- Já sabes porquê! 

- E não ficaste triste ? 

- Não! Nem tu tens de ficar triste, porque eu não sou real, poderias ficar triste, se eu fosse real, mas não sou. 

- Mentirosas… 

- Quem? 

- As estrelas. 

- Deixa-as em paz! Elas estão tão lá em cima, pertencem à noite, não à realização de desejos. 

- Óh, não gosto disso. 

- Mas é a realidade, é o mundo onde tu vives, diferente do meu, só podes ter uma relação com alguém da tua espécie, não com uma pintura! 

- E agora como é que eu fico? 

- Vais ficar bem, é só lembrares-te de que sou uma pintura, e tu és uma menina, de carne e osso, não é possível acontecer alguma coisa entre nós. 

- Mas dói! 

- Dói o quê? 

- O meu coração partido. 

- O vosso coração é partido? 

- Fica partido, quando ficamos tristes. 

- Claro, o meu também, mas ele volta a construir-se! 

- Estou mesmo triste, acho que esta tristeza nunca vai desaparecer. 

- Que exagero, Clara! Claro que vai desaparecer. 

- Que desilusão! 

- Eu sei, desculpa, mas não posso fazer nada para te ajudar. 

- Como é que eu agora vou esquecer-te? 

- Ora, esquecendo-me! Basta lembrares-te que sou uma pintura, e que nada vai haver entre nós. 

  Clara desata num choro intenso, bate no vidro do quadro, nervosa: 

 - Óh… então? Comporta-te, olha toda a gente a olhar para ti e para mim. 

       Um funcionário vai ter com Clara, agarra-a: 

- Menina, está doida? Não pode fazer isso aos quadros que aqui estão. Os quadros podem mexer com as suas emoções, mas não precisa de exagerar. 

- Eu estou apaixonada por ele! E ele partiu-me o coração, disse que não estava apaixonado por mim, e que o nosso amor nunca ia acontecer. Acha bem? 

- Claro, ele tem toda a razão, menina! Não pode namorar com uma imagem de uma pintura, por muito bonita que a ache. É tudo da sua imaginação. Vá, venha ver o resto dos quadros… 

- Isto não vai ficar assim. - ameaça a rapariga 

 O funcionário ri-se discretamente, o rapaz do quadro fica triste, mas ao mesmo suspira de alívio. 

  O funcionário leva-a a passear, ver os outros quadros, ela acalma, para de chorar, distrai-se com outras imagens bonitas, e ouve as histórias de cada um, contadas pelos funcionários. Fica deliciada. 

      Ainda sonha muitas noites a seguir, com o rapaz do quadro, e chora como se fosse um amor real, mas rapidamente percebeu que ele tinha razão. 

    Até conheceu um rapaz verdadeiro, com quem construiu uma linda amizade. Foram os dois ver os quadros, e ela sorri para o rapaz do quadro que desejava. 

- Áh! Vês? Eu disse…! Boa, muitas felicidades. - diz o rapaz da pintura orgulhoso e feliz 

   Ela desfila com o novo amigo, e o rapaz da pintura aplaude, ela pisca-lhe o olho, aproxima-se do quadro do rapaz, e sussurra-lhe ao ouvido: 

- Tinhas razão. Obrigada! É meu amigo. 

- Já vi que sim, nem imaginas como fico feliz por ti! Mesmo assim, vou estar sempre aqui, para o que precisares. - diz o rapaz do quadro a sorrir 

- Sim, sim...acredito! Como acredito que as estrelas realizam desejos, aquele desejo que eu pedi. Mas obrigada, se precisar venho falar contigo. 

   Ela volta a juntar-se ao amigo real, e o rapaz do quadro fica pensativo, mas logo a seguir dá umas boas gargalhadas, ao lembrar-se do desejo da rapariga, e do que lhe disse. 

- Deve achar que me ofendeu…Tem muito que crescer e conhecer pessoas como ela! Mas já é um bom principio - diz o rapaz da pintura a rir à gargalhada 

   A Clara não voltou à galeria, conheceu mesmo um rapaz que começou por ser amigo, durante vários meses, e depois namorado. 

 As ilusões ajudam-nos a crescer, desde que não se tornem obsessões, e que não as alimentemos demasiado tempo. 

  O amor não nasce, como quem olha para uma pintura bonita, pois no interior de cada pessoa é que está toda a história do pintor, e a tela fica mais ou menos bonita. 

 O amor é uma tela em constante construção, começa pelo esboço (atração, agrada aos olhos), passa para um desenho mais elaborado, que exige vários ou muitos rascunhos (amizade), apagar, refazer, (conhecer, aceitar e respeitar as qualidades e defeitos), voltar a desenhar até sair aproximado (comunicação, companheirismo, compreensão, carinho, respeito), sem nunca ser «perfeito» (porque perfeição não existe). 

  O amor é uma tela cheia de sonhos, histórias, magias, truques, cores, montagens, salpicos, erros, correções, mudanças, ajustes, várias camadas. 

   O amor é uma contínua descoberta, com sorrisos, lágrimas, zangas, pazes, e muito mais do que uma cara atraente, ou um corpo escultural. 

    Mas se o pintor gosta do seu trabalho, o resultado final, e o tempo que demora a construir, vale a pena. 

                                            FIM 

                                   Lara Rocha                                                                                        11/Fevereiro/2023 







sexta-feira, 18 de novembro de 2022

A lenda da mulher dos corais


        
















pintado por Lara Rocha, no Livro de pintar para adultos 

    Era uma vez uma praia, de sonho, daquelas maravilhosas, que só parecem existir na nossa imaginação. Mas esta existia mesmo, e tinha uma lenda. 

     Além das suas areias limpas e águas transparentes, onde se viam milhares de corais, peixes, pedras, algas, rochas, a lenda com centenas de anos contava que havia uma criatura marinha, diziam parecer mulher, outrora com uma beleza hipnotizante. 

     Mas não era de carne e osso como nós, o seu corpo era feito de belos corais, estrelas do mar e algas nos cabelos muito compridos, um búzio gigante como boca, conchas enormes na cara, e algumas coladas nos corais do seu corpo, pérolas nos olhos. 

     Muitas vezes vestia belos vestidos de peixes que se encostavam a ela, outras vezes, quando se mexia debaixo de água e nadava, enchia o fundo do mar com bolinhas de ar, e tudo à sua volta ficava mágico. 

     Dizia que aparecia à noite, aos pescadores, mas era perigosa, mesmo sem querer: às vezes brincava com os barcos de pesca, empurrando-os, outras vezes virava-os, e levava os pescadores a ver o fundo do mar, trazendo-os novamente à superfície. 

      As esposas dos pescadores, ficavam muito ciumentas quando ouviam falar dela, e um dia quiseram afastá-la dos maridos, para eles não correrem riscos, nem se apaixonarem por ela. 

      Uniram-se, e construíram um homem parecido com um pescador, mas era um boneco. Tão bonito, que parecia real, mas o seu enchimento era tóxico, perigoso para os corais. 

      Lançaram-no ao mar, e a mulher dos corais foi logo ter com ele, agarrou-o, dançou com ele, conversaram os dois, alegremente, ela seduziu-o, ele era igualmente encantador. 

      E sem se aperceber o corpo do ser marinho estava a desfazer-se, os corais separaram-se, e caíram no fundo do mar. O boneco marinheiro disse que queria casar com ela nessa noite, pois era o amor da sua vida, mentiroso! 

      Mas ela acreditou, ele disse que ia buscar uma prenda para ela, e já voltava. A mulher entusiasmada, nem reparou no seu corpo a desfazer, e esperou, esperou, esperou...o homem nunca mais aparecia, e no dia seguinte, ela ficou despedaçada, totalmente destruída de tanta desilusão e tristeza. 

      Todos os seus pedaços ficaram no fundo do mar, separados, uns mais próximos outros mais distantes, o búzio que era a sua boca ficou pousado na areia, as estrelas do mar e as algas espalharam-se por vários sítios dos corais do seu corpo, tal como as conchas e as pérolas dos olhos. 

      Um dos marinheiros soube do que as mulheres fizeram, ficou muito zangado, e não achou piada nenhuma. Foi o fim do seu namoro, e mergulhou até ao fundo do mar, com muitos outros que também quase se separavam das suas esposas. 

      Ralharam com elas, e proibiram-nas de serem ciumentas, possessivas, ainda mais de fazerem maldades contra um ser que nem sabiam se era humano.

      Eles relembraram que elas também tinham amigos homens, e eles não ficavam ciumentos, nem as proibiam de os ter, tal como eles tinham amigas, e nem por isso deviam ficar ciumentas. 

      Eram casados ou namorados, confiavam um no outro, ou então ia cada um para o seu lado! Elas ficaram magoadas com eles, mas compreenderam e acharam que na verdade eles tinham razão, porque realmente nunca tinham regressado com sinais de ataque dessa criatura. 

      Elas próprias ficavam na dúvida se existia ou não, nunca a tinham visto, mesmo assim quiseram jogar pelo seguro, e avisar os maridos que estavam a tomar conta deles, que se preocupavam com eles, que queriam protegê-los.          

     Eles não gostaram, e proibiram-nas de os controlar, disseram que não precisavam que tomassem conta deles, que já eram grandinhos, e esse ser até já os tinha ajudado. 

      As mulheres arrependeram-se, ficaram a pensar no que tinham feito, e no que podiam fazer para que os maridos não ficassem tão zangados.

      Eles disseram que não podiam fazer nada, tinham ficado magoados com essa atitude delas, mas só o tempo iria ajudar a esquecer o que elas tinham feito. 

      Como não a tinham esquecido, viram que todos os seus pedaços formaram um gigantesco espaço de corais marinhos, cheios de surpresas, as conchas maravilhosas, os búzios. 

      Os homens adoraram aquele espaço, mas deram as mãos e pediram um desejo: voltar a ver aquela mulher marinha. Então, foram ouvidos, e quando abriram os olhos, a mulher dos corais, estava novamente construída como antes a conheceram. 

      Eles pediram desculpa pelo que as mulheres fizeram, e prometeram ao ser marinho que não iam falar mais dela às suas esposas, e namoradas. 

      Ela agradeceu-lhes e prometeu que não lhes ia aparecer, porque o seu coração estava partido, a não ser quando eles precisassem de ajuda, ela estaria lá. 

      Enquanto ela não aparecia, debaixo de água era um belo conjunto de corais, cheio de coisas maravilhosas para descobrir, ver, tocar, e muita gente mergulhava para a ver. 

      Quando sentia segurança, aparecia à superfície, em festas de jovens na praia, mas achavam que era efeito do excesso de álcool, nunca pensaram que ela fosse verdadeira, divertia-se com eles. 

      Tirava alguns da água quando se atiravam, e no fim, já que ficavam todos a dormir na areia, era quem limpava todo o lixo que deixavam. Essa era a parte que ela não gostava, mas alguém tinha de o fazer. 

      Com a raiva, espalhava ouriços do mar pela praia à volta deles, e pedras grandes. Quando acordavam, os jovens não se lembravam de nada, e assustavam-se quando viam os ouriços e pedras. 

      Ainda hoje fazem longas caminhadas, e visitas para ver se encontram essa mulher tão bonita, mas apenas veem os fantásticos corais, embora antes de chegar a eles, se perceba que tem formato de corpo de uma mulher. 

      Uma lenda, talvez para ensinar as mulheres, namoradas ou esposas a confiar nos maridos, namorados, e mesmo em amigos, a não serem possessivas, e possessivos, a serem verdadeiros e verdadeiras quando não gostam de ser demasiado controlados e controladas, dizerem-no, e que não vale a pena ser ciumentas, ou ciumentos. 

       Isso não é amor! Nem a vingança, porque o amor quando tem de acontecer, acontece naturalmente, começa pela amizade, tem confiança, não é posse, nem controlo excessivo!

                                                FIM 

                                           Lara Rocha 

                                           18/11/2022

E para vocês? O que é que esta lenda ensina? (Podem deixar nos comentários, se quiserem) 

                                                            

sexta-feira, 8 de abril de 2022

Pessoa, pessoas

 


Pessoa, pessoas


Fazemos parte de um grande mundo, todos, tudo o que vemos, tudo o que sentimos, ouvimos, cheiramos. Todos: pessoas, animais, plantas, rios, serras, campos, montanhas, florestas, glaciares, mar, terra, ar, água.

O que nos diferencia é a forma como nos mostramos aos outros, como os outros nos veem, e as nossas respostas aos acontecimentos de vida.

As diferenças que nos chamam mais a atenção, referem-se ao corpo. Sim, os animais também tem o seu corpo, diferente do nosso, tal como as árvores que às vezes também parecem corpos humanos na sua perfeição.

Uma pessoa é constituída por um corpo e por um espírito. O corpo é vivido em dois polos: o exterior e o interior. Exteriormente, o corpo pode ser semelhante à nossa perceção, é igual para todos, todos veem o rosto uns dos outros, o físico.

Não obstante as diferenças particulares, físicas de cada um, todos temos os mesmos órgãos internos «cabeça, tronco e membros». Interiormente, esta refere-se à experiência do sentir, traduz a maneira como nós nos vemos a nós mesmos, como cada um sente o seu corpo, o que se passa dentro de cada um através dos sentidos.

Estas duas experiências estão interligadas, porque o corpo está no mundo como objeto exterior, mas é habitado por cada pessoa. Quando dizemos «o meu corpo é meu», dizemos que nosso corpo pertence-nos («pertence-me este corpo»).

Quando dizemos «eu sou o meu corpo» referimo-nos à experiência interior, quando experimentamos, quando nos sentimos bem no nosso corpo, entramos em nós, encontramos em nós essa experiência (sensações), «sentir», e o reconhecimento das sensações.

O termos um corpo, significa que este nos pertence, cada um tem o seu corpo, é algo que lhe pertence, com o qual pode fazer o que quiser.

O corpo humano é fonte de expressão e comunicação, é a origem de todo o significado do ser humano, bem como é fonte de humanização do mundo através do qual podemos utilizar as ferramentas e objetivos.

O corpo humano, é pessoa humana enquanto manifesta o nosso interior, exprime os nossos sentimentos. O corpo é uma presença no mundo, pois requer aproximação do mundo e está no centro deste.

O corpo funciona como linguagem: podemos estar em silêncio e comunicar através do olhar, das expressões faciais: riso, choro, alegria, admiração, maravilha, e outras.

Com o corpo podemos mostrar a linguagem ainda que sem palavras usando a dança artisticamente trabalhada, intencional, isto é, a harmonia, podemos usar a linguagem da ternura, da carícia, através da mímica, do teatro, da música, entre outras formas.

O corpo é a possibilidade máxima e o limite. Somos a condição do corpo, existimos ou como homem ou como mulher, ou como mistos em alguns casos.

O corpo é a própria pessoa. E a pessoa é também afetividade: tem a capacidade de ser modificado por algo exterior que se faz presente à pessoa.

A afetividade pode ser sentida a dois níveis: ao nível mais superficial que é dado pelas emoções, comoções intensas mas passageiras, irrefletidas, bruscas, vinculadas fortemente à corporeidade.

Nestas incluem-se: o medo, a cólera, a angústia, o estar contente ou o entusiasmo. Afetividade tem também um nível mais profundo no qual encontramos os sentimentos, estados afetivos de moderada intensidade mas de longa duração. Neste segundo nível está a intimidade.

A situação de maturidade afetiva e de equilíbrio psíquico, a afetividade é razoavelmente controlável pela vontade, e quando assim não acontece, é sinal de imaturidade da personalidade, ou psicopatologia.

A afetividade abre-nos à relação com os outros. Para a pessoa se realizar não pode reprimir a afetividade porque esta também se forma e fortalece na relação com os outros.

Cada um de nós só se pode realizar afetivamente se se abrir aos outros, se se der aos outros; quando nos damos aos outros, sentimo-nos bem e também estamos recetivos aos outros.

Todo o ser humano desde que nasce, grande parte do seu desenvolvimento e crescimento interior depende da afetividade que recebe da mãe, do pai, dos irmãos se já tiver, dos avós, dos tios, dos primos e depois dos amigos, e que utiliza para se relacionar com os outros que o rodeiam.

Se estivermos rodeados de afetividade, desde que nascemos, será assim que nos vamos relacionar com, e mostrar aos outros. Todos precisamos de nos dar aos outros, e os outros precisam do nosso afeto, mais ou menos.

Se não nos damos aos outros, sentimo-nos inúteis, não crescemos como pessoa. Dependendo das experiências anteriores, por exemplo, uma pessoa que viveu muitas experiências afetivas negativas, nas relações seguintes, pode vir a ter comportamentos agressivos, frios, distantes, pode isolar-se, fechar-se em si mesmo, tratar mal os outros.

Isto vai trazer infelicidade tanto para eles como para os outros, mas se em contrapartida as experiências afetivas foram satisfatórias, felizes, e boas, estas pessoas vão estar mais abertas com os outros, vão ser mais sensíveis e atentos, mais delicados e afetuosos, e sentir-se-ão mais felizes, completos interiormente.

O corpo (humano, animal ou vegetal), existe para nos proteger, e para nos permitir adaptar ao meio, por isso somos tão diferentes, com algumas semelhanças.

Que semelhanças? No direito à dignidade, ao respeito, ao amor, à satisfação das necessidades mais básicas, físicas, e de carinho, o sentirmos que pertencemos a uma família, comunidade, grupo de amigos que gostam de nós e aceitam-nos como somos.

Todos temos qualidades e defeitos, isso torna-nos diferentes, mas iguais. Diferentes pelas nossas famílias, a genética, os valores que nos transmitem em cada casa, a educação, os nossos antepassados.

Porque vivemos em sociedade, e precisamos uns dos outros, a cultura, a sociedade, as regras padronizadas que partilhamos para conviver, e relacionarmo-nos uns com os outros, desempenha o seu papel na nossa formação enquanto pessoas e naquilo em que nos vamos tornando ao longo da vida.

Tornam-nos diferentes, as experiências agradáveis e as desagradáveis, as más e as boas, as pessoas que conhecemos, com as suas próprias características que nos agradam, aproximam ou afastam de alguns seres, aproximando-nos de outros.

Identificamo-nos, ou não, com elas, na sua forma particular de ser, ou porque partilhamos gostos comuns, ideias. Há pessoas que nos tocam mais e outras que não nos conquistam.

Sendo muitas vezes a aparência física um dos critérios que nos leva a selecionar com quem nos queremos relacionar ou não; existe a nossa personalidade.

Esse é outro fator que nos torna únicos, individuais, diferentes dos outros, mesmo dentro da própria casa, entre irmãos, diferentes dos pais, a nossa essência.

Já nascemos com personalidade? Com a que temos hoje? Não. Até chegarmos ao que somos agora, já passamos por muito, já conhecemos muitas pessoas diferentes, iludimo-nos e desiludimo-nos, várias vezes em cada fase do desenvolvimento.

Sabemos que acontecimentos que vivemos antes de nascer, já vão influenciar de certa forma algumas características da nossa pessoa: as hormonas da nossa mãe, do que ela vai sentindo, pensando, vivendo, passam para nós, e vão ficando gravadas na nossa memória.

Mesmo antes de nascermos, já vamos começando a conhecer o mundo através do tato, dos sons que ouvimos, e mesmo sem sabermos, essas informações vão contribuir para nos adaptarmos ao mundo lá for a com mais segurança.

O «eu», aquele ser verdadeiro que tantas vezes somos «obrigados» ou educados para «não mostrar», «disfarçar», «ocultar», dos outros (algumas formas de agir e pensamentos), vive connosco escondido pelo corpo externo.

Todos, sem exceção temos particularidades que não revelamos quando estamos com outras pessoas. Não temos o mesmo à-vontade com toda a gente, nunca mostramos aos outros, porque podemos «magoar» o outro, ou porque «o outro pode afastar-se de nós por causa disso».

Nunca somos totalmente autênticos, nem totalmente verdadeiros na relação com os outros. Vamos aprendendo a selecionar o que podemos mostrar de nós, a quem, de acordo com as respostas que recebemos dos outros; e estes segundos fazem o mesmo em relação a nós.

Com as experiências aprendemos a transformar-nos, por vezes naquilo que sabemos que os outros esperam de nós, e projetamos no outro que conhecemos, as nossas características, geralmente as que mais apreciamos em nós.

Mas o outro é tão único como nós, na sua maneira de ser, pensar e agir, e o mais comum é que seja totalmente diferente de nós. Por este motivo, é muito fácil criarmos ilusões, «construirmos» na nossa mente, pessoas que gostaríamos que elas fossem para nos agradar.

Elas não são como as imaginamos, quando nos mostram o seu verdadeiro «eu», coberto pelo corpo, por uma cara bonita, ou por palavras simpática.

Elas mostram o socialmente desejável, e o socialmente esperado, por isso, se o outro não age como esperávamos, pensávamos, queríamos ou imaginávamos: desiludimo-nos, ficamos destruídos, tristes.

Mas essas experiências, fazem parte do nosso desenvolvimento, todos passámos por elas, e ajudam-nos a crescer. Normalmente, depois de cada desilusão, ou quando alguém que apreciamos se afasta porque não gosta de nós (achamos nós, o que nem sempre corresponde à realidade), procuramos mudar aquilo que somos, só para agradar aos outros.

Mas alguém dos outros, pode apreciar essa nossa características, que esse não gostou. Os outros são importantes para nós, claro que sim, sem dúvida nenhuma.

Precisamos de alguém externo à família, para partilhar as nossas dúvidas, angústias, medos, ideias, emoções, coisas positivas e aspetos menos bons.

Precisamos do outro para nos sentirmos pertencentes a uma família, a um grupo de amigos com quem podemos contar, principalmente nos nossos piores momentos, em quem confiamos.

No entanto, os gostos são muito subjetivos: eu gosto de alguém com determinadas características, como pessoa, alguém que se relacione comigo de certa maneira, que me trate de acordo com a minha maneira de ser.

Queremos alguém que nos complemente, não que nos faça mudar aspetos em nós, traços da nossa personalidade que já nos caracterizam há tantos anos, e se cada um de nós aceitar esses traços, poderá ser mais fácil de lidar com a rejeição do outro.

Não somos verdadeiros com nós mesmos, quando mudámos de forma forçada, só para agradar aos outros, o que também acabamos por não ser verdadeiros com os outros ao fazer isso, pois às vezes soa a falso ao fim de pouco tempo, mesmo sem termos consciência disso, e o outro percebe.

Não temos que mudar só para outro gostar, porque o outro também vai ter traços que não nos agradam tanto, e não tem de os mudar.

O truque é aceitar também isso, e tentar encontrar a maneira mais saudável de relação para os dois, se sentimos que podemos fazer bem um ao outro, ou aprender alguma coisa.

Não temos de ser iguais, nem somos. No meio de tanta gente que conhecemos, com quem nos relacionamos, não podemos, nem agradamos a todos. Muito menos, todos os outros têm de gostar de nós, só porque alguns gostam, ou porque nós os apreciamos.

Precisamos dos outros para nos auto conhecermos, para sabermos o que queremos para nós, quem queremos ter do nosso lado, com que tipo de pessoas nos relacionamos melhor, quem nos preenche, e quem nos faz mal.

Mas quantas vezes, à primeira vista criamos uma ideia distorcida das pessoas e num contacto mais próximo, ou conversas, percebemos que elas afinal não são nem de perto, o que tínhamos pensado que eram. Com os outros em relação a nós também acontece isso, em relação a nós.

O meio molda-nos, principalmente no sentido de darmos a cada experiência, em conjunto com a nossa personalidade, e outras situações que vão contra os nossos valores ou se estão de acordo connosco.

Somos pessoas (unidades individuais), inseridas numa sociedade (diversidade) em todos os aspetos. Além de seres únicos e sociais, somos pessoas espirituais (mais ou menos), pois o espírito também faz parte do corpo, do ser a pessoa que somos.

Enquanto seres humanos sentimos maior ou menor necessidade de procurar sentido para quem somos, um propósito, ter objetivos de vida, uma missão para com os outros (a nível pessoal e profissional).

Precisamos (uns mais, outros menos) de acreditar em alguma «Entidade» superior a nós, que nos dê força nos piores momentos, de dor, sofrimento, tristeza, angústia, desilusão, desorientação.

Sabemos, ou achamos que não temos o direito de «incomodar» os outros com as nossas coisas, quando consideramos que não podemos contar com os outros para nos ajudar ou partilhar as coisas que nos incomodam, sem medo do julgamento dos outros, ou da crítica.

Porque precisamos, e queremos dar um sentido à nossa vida, à nossa pessoa, e à nossa existência. Estes aspetos são igualmente subjetivos e variam de pessoa para pessoa.

Nunca temos respostas suficientes, nem para tudo, não sabemos o que existe de facto, mas se nos ajuda, é porque existe, mesmo que não vejamos alguém igual a nós, mas sentimos que interiormente mudou alguma coisa.

Muitas vezes sentimo-nos frustrados quando não encontramos as respostas que procuramos, apesar disso, tanto estas respostas que não encontramos, como nós (enquanto pessoas), fazem parte do grande mistério chamado Mundo, e Pessoa.

Demoramos nove meses a ser construídos, a nossa base, a formar a primeira parte do nosso corpo, quando somos gerados, e enquanto estamos vivos, a nossa auto descoberta, descoberta dos outros, do mundo, é um trabalho diário, contínuo, que não tem fim.

Cada experiência, cada pessoa que se relaciona connosco, modifica-nos, faz-nos evoluir, crescer interiormente, torna-nos melhores ou piores pessoas, faz questionarmo-nos, interpretar os acontecimentos de forma diferente, que por sua vez mudam de acordo com a sua repetição na nossa vida.

Aprendemos muito, sozinhos e com os outros, e ensinamos muito, sem que tenhamos de ser como esperam ou querem que sejamos. Nem nós acertamos sempre nas expectativas que criamos em relação aos outros.

Temos direitos e deveres, tanto nós como os outros: o direito de ser diferentes, o direito a não se relacionarem connosco, nem de gostar de nós, só porque gostamos delas.

Porque cada um de nós também tem o direito de não gostar de todas as pessoas com quem nos cruzamos. Mas temos o direito de fazer escolhas (nós e os outros), e de sermos respeitados por elas, mesmo que sejam diferentes das nossas.

A nós, e aos outros, assiste-nos o dever de respeitar, ser respeitados, direito à dignidade, valorização no todo que somos, além do corpo.

Porque somos pessoas únicas, temos liberdade de pensar de forma diferente, uns dos outros, e temos o direito de escolher partilhar ou não esses pensamentos uns com os outros, ou só com alguns.

Somos corpo e «máscara», através da qual, entreabrimo-nos aos outros, ao mundo. Ao mesmo tempo, essa «máscara» (o rosto, e o que ocultamos dos outros, partes da nossa personalidade, características individuais, ou disfarçamos emoções), impedem que sejamos «invisíveis» aos outros.

Utilizamos constantemente estratégias que não deixam os outros ter acesso e ver o que cada um de nós é, na sua totalidade, e o outro faz o mesmo.

Porquê? Pelo medo da solidão, da rejeição dos outros, porque achamos que o outro não vai gostar de nós por este, ou aquele «defeito», e porque «representamos vários papéis» no convívio com os outros.

O que nos torna humanos é o amor, uma necessidade comum a todos nós, sermos amados, acolhidos, precisamos de afeto (dar e receber), de sermos queridos e desejados pelos outros, para que a nossa existência ganhe sentido.

Se aprendemos a ser amados, desde que nascemos, e se nos sentimos amados, queridos, desejados, acolhidos, vamos sentir-nos mais seguros em nós mesmos, vamos gostar de nós, amarmo-nos e aceitarmo-nos como somos.

Vamos aceitar melhor ou lidar melhor com os nossos defeitos e com os dos outros, sem entrar em conflito, porque não podemos mudar o outro, não temos esse direito, nem é possível.

Ao sentirmo-nos amados, vamos dar essas respostas aos outros, seremos mais educados, sensíveis, amorosos, afetivos, dedicados aos outros.

Seremos mais capazes de dar um bocadinho de nós aos outros. Porque nem nós, nem os outros podemos ser tratados como objetos, coisas que podemos explorar ou ser explorados, muito menos fazermos do outro o que queremos (incluindo magoá-lo ou feri-lo de todas as maneiras).

Não podemos exigir do outro o que quer que seja, para satisfazermos as nossas vontades individuais, nem podemos exercer o nosso poder sobre o outro.

A pessoa não tem preço, não podemos exigir que ele ou ela seja igual a nós, e só temos de respeitar, mesmo que nos doa. Ser pessoa é saber aceitar estar com nós mesmos, e com os outros, quando estes querem, ou por outro lado, dar espaço quando este não quer.

Ser pessoa é respeitar o outro, na sua individualidade, as suas ideias, crenças e emoções, a sua raça, a sua idade. É respeitar a sua dignidade por ser humano.

Ser pessoa é em parte «cuidar» do outro, sem no entanto impor as suas próprias ideias ao outro. Ser pessoa é respeitar a liberdade do outro, e ter consciência de que o outro é diferente de mim.

Ser pessoa é perceber o outro, conhecer a sua maneira de ser através do seu rosto. Ser pessoa é ter consciência de que a vida não é só feita de momentos bons, mas também maus, no entanto, esses maus momentos têm um papel importante para o nosso crescimento interior e desenvolvimento pessoal, são uma fonte de aprendizagem.

Ser pessoa é ter liberdade de escolher, de tomar decisões individuais, mas sem prejudicar o outro. É ter liberdade de escolher como queremos ser e que caminhos queremos seguir, mas sem nunca ignorar o outro.

Ser pessoa é sentir que somos necessários para a sociedade, não importa qual seja a nossa função na mesma. É preciso que cada um de nós se manifeste e se deixe manifestar através do rosto. Se nos apropriamos do rosto do outro, o outro esconde-se, não se manifesta.

Ao ser através do rosto que o outro se manifesta, no olhar pode-se despertar a necessidade de dar uma resposta à interpelação do outro. É ao darmo-nos ao outro, ao relacionarmo-nos com o outro que revelamos a nossa própria individualidade.

Com o outro aprendemos a interpretar o silêncio do olhar, pois, com o olhar o outro comunica-nos muitas das suas emoções, sentimentos e até necessidades mais profundas, como a necessidade de amor, de ser amado por alguém, de ser querido, a necessidade de afeto, e outros.

O outro incita-nos a dar-lhe aquilo de que já nos apropriamos, põe em questão a nossa posse das coisas. O outro obriga-nos a uma reflexão sobre o mundo e as coisas que o compõem.

O encontro com o outro, a partir da nossa separação que é o nosso egoísmo de ser-no-mundo, apela a um discurso de não violência que constitui a condição necessária para a subjetividade, e constituição do mundo.

Na epifania do rosto, descobrimo-nos como seres egoístas, descobrimos o mundo na sua significação e toda a humanidade se abre diante de nós.

A relação com o outro, ou discurso é o questionamento da nossa liberdade, o apelo vindo do outro para nos chamar à responsabilidade, enunciando um mundo objetivo e comum.

O eu pode recusar-se ao outro, mas não ao questionamento que lhe é posto pelo outro. Cada ser humano nasce com um chamado «tu – inato», que se traduz na capacidade inata de nos relacionarmos com os outros, contudo, ainda há quem diga que qualquer pessoa pode muito bem viver sozinha.

Ninguém consegue sobreviver e viver sozinho, só voltado para si mesmo, porque é através da nossa capacidade e necessidade de estabelecer relações com os outros, que encontramos os «Tus».

Uma pessoa sozinha não encontra o outro, principalmente porque porque nos momentos de solidão não há diálogo, e o diálogo, a comunicação com os outros é um ponto fulcral na criação de uma relação.

Temos capacidade de acolher o tu; de receber a relação, e é neste encontro que existe: a reciprocidade; a presença; a totalidade e a responsabilidade.

Se estamos inseridos numa sociedade, temos de viver com a comunidade, com muitas outras pessoas que se cruzam todos os dias no nosso caminho.

Precisamos de dialogar com elas, aprender sempre coisas novas através das experiências vividas pelos outros e dos seus conhecimentos.

No contato com os outros, compreendemos melhor o funcionamento do mundo que nos rodeia, e são os outros que nos ajudam a garantir as necessidades mais básicas, e a sobrevivência. Precisamos das funções que cada um desempenha, e eles de nós. Por exemplo, nos nossos piores momentos é bom sentir que alguém como nós está do nosso lado, há aquela presença que porventura também já terá passado por experiências semelhantes às nossas.

Todos precisamos de sentir que não estamos sozinhos, que alguém nos escuta e compreende; e não nos deixa cometer atos tresloucados, que seguram a nossa mão, nos momentos de desespero em que parece estar tudo perdido.

É importante sabermos que os nossos verdadeiros amigos (aquele grupinho de pessoas com as quais podemos contar, conversar, «pensar em voz alta», dividir as nossas tristezas e multiplicar as nossas alegrias.

Aquelas pessoas raras e queridas que nunca nos viram as costas; que nos apoiam, que nos ensinam e ajudam a seguir em frente, com as suas palavras, a sua escuta, o seu abraço, a sua mão, aqueles que gostam de nós como somos, com quem não precisamos de usar «máscaras» da nossa pessoa, aceitam-nos como somos.

Mas só descobrimos quem são esses seres de luz, que aparecem nos momentos de escuridão da alma, temos de estabelecer uma relação com eles, com bases sólidas, deixarmo-nos revelar para eles, e permitir que eles se revelem para nós.

Dialogar com eles, e saber, conhecer o que está por detrás da «máscara» que surge na nossa frente. O diálogo é «passaporte» para o conhecimento do outro, o outro também precisa de nós.

Há sempre uma reciprocidade, uma troca constante de conhecimentos, ideias, sentimentos, emoções, vivências, e experiências, o que é muito salutar e importante para o crescimento interior das pessoas.

Nas relações deve haver sempre: intimidade, respeito, compreensão, ajuda, capacidade de saber ouvir, sinceridade, diálogo, abertura, bondade, apoio.

Deve haver de parte a parte: a vontade, a paciência e a preocupação de se irem desvendando um ao outro, aos poucos, sem pressões.


Lara Rocha

2004