Número total de visualizações de páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta respeito. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta respeito. Mostrar todas as mensagens

sábado, 3 de maio de 2025

Rosa Amor

 

foto de Lara Rocha 


    Há uns anos atrás, uma jovem misteriosa, chamada Natureza, ofereceu a um casal, um lindo botão de flor, fechado. 

    Disse para cuidarem dele com amor, regar com carinho, educação, sensibilidade atenção e dedicação, para falar com ele. 

    Acrescentou que desabrocharia passado nove meses, numa linda flor e desapareceu. O casal ficou surpreso e apreensivo, sem perceber o que tinha acabado de acontecer, e o que significaria aquilo.

    Procuraram por ela, mas não a viram em lado nenhum, estava escondida, e a sorrir. 

- Tenho a certeza que estarás muito bem entregue! - murmura a jovem Natureza, ao ver o carinho com que o casal segurou a flor

    Assim aconteceu, o casal cuidou do botão de flor com amor, e estavam ansiosos por saber que flor seria, e porque demoraria tanto tempo. Regaram-na, falavam com ela, o botãozinho ia crescendo, alargando, tentavam imaginar a cor que teria, mas ele não a mostrava. 

    O casal não tinha preferência, pois adoravam todas as flores, em botão, e, ou abertas. Acariciavam o botãozinho, mudavam de terra de vez em quando, punham-no a apanhar sol, e ar, quando estava vento recolhiam-no. 

    O botãozinho ouvia as conversas todas, e sorria fechado nas pétalas, quando o casal lhe tocava. Não viam, mas era um sorriso luminoso, por se sentir acarinhado, acolhido, amado. 

    Passados nove meses, como a Natureza anunciou, o botãozinho de flor, abriu. Era uma linda rosa cor-de-fogo, com amarelo, laranja e vermelho! Uma perfeição, parecia que estava a sorrir, com as pétalas delicadas, o casal não ouvia, mas imaginava, o som do sorriso da rosa, quando lhe tocavam com carinho. 

    Que surpresa tão agradável, o casal não podia estar mais feliz, e continuaram a cuidar dele, com tanto amor e dedicação que cresceu como nunca se tinha visto. 

    Que lindo que era, sempre viçoso e vistoso, brilhante, adorava sol, e ficava ainda mais bonito, continuaram a regá-lo, a alimentá-lo, a conversar com ele. Deram-lhe o nome de Rosa Amor. 

    Um nome que fazia todo o sentido, porque era o símbolo do amor do casal, um pelo outro, dos dois pela Natureza, um prémio por terem cuidado tão bem dele. 

    Era como se fosse um filho, aliás, quando a esposa soube que vinha a caminho, um bebé verdadeiro. Pensaram que a flor iria murchar de tristeza, ou ciúmes, mas não. 

    Porque tinham atenção e amor para os dois; para o bebé, para a flor, a diferença é que este botãozinho que vinha a caminho, era uma pessoa. Um ser vivo, como um botãozinho em flor, que exigia mais amor, mais dedicação, mais regras, mais atenção, carinho. 

    Sem nunca se esquecerem da  Rosa Amor, que mesmo sendo uma flor, estava feliz por ter um irmãozinho em forma de pessoa, nunca se sentiu excluída, nem abandonada. 

     Quando o bebé nasceu, a flor chorou de alegria, surgiram gotas de água nas suas pétalas, e algumas caíram, ao ver aquele ser delicado, frágil e lindo como ela. 

     Rosa Amor, sorria ao ver a ternura dos pais, com aquele bebé, e a gratidão do bebé a olhar para eles, o carinho que ele recebia, e chegava para a flor. Mostraram o bebé à flor, e esta inclinou-se, encostou-se à carinha dele, com as suas pétalas macias, e voltou a chorar de alegria como se estivesse a fazer uma carícia ou a dar um beijinho no seu irmãozinho humano. 

     O bebé e os pais sorriram de alegria, pegaram na mãozinha do bebé, e fizeram uma festinha das pétalas da flor. Ela sorriu e brilhou com tanto amor. Cresceram juntos, nunca faltou carinho, atenção, dedicação, amor, regras, diálogo, aos dois, e formaram uma linda família.  

    Todos os dias agradeciam à Natureza, aquele botãozinho maravilhoso, e o botãozinho verdadeiro, o bebé que também adorava a flor. Ela abanava-se e ele desatava à gargalhada, que fazia o mesmo com os pais. 

    Parecia que os dois comunicavam um com o outro, só entre eles, balbucios e gargalhadas, trocas de mimos, e papagueados que só a flor e o bebé entendiam. 

    O casal agradecia todos os dias, a saúde, e a alegria, o amor que havia naquela casa, com aquela flor. A jovem Natureza apreciava encantada, espreitava e sorria à flor, esta retribuía. 

    Sentia-se orgulhosa, e de vez em quando as duas conversavam sobre a felicidade da flor naquela casa, o bebé, a forma como eram tratados, e outros assuntos. 

    E assim se constroem as amizades, os amores, com dedicação, paciência, carinho, diálogo, respeito, acolhimento, atenção, sem pressa, com delicadeza. Botõezinhos fechados, que se vão abrindo em lindas flores. 

                                            FIM 

                                       Lara Rocha 

                                      2/Maio/2025 

domingo, 20 de abril de 2025

As luzes do descampado

  

Pintado a acrílico 

         Era uma vez um descampado numa floresta, onde viviam muitos animais. Nesse descampado, existia uma árvore gigante, de tronco muito largo, muito antiga, com muitos ramos em todas as direções e diferentes grossuras. 

    Havia uma porta redonda, aberturas no tronco mais para cima, que pareciam janelas, mas quando se espreitava estava sempre tudo fechado. Mas de noite viam-se luzes a sair por essa porta, muitos metros de altura, aparentemente não se ouvia barulho, só no local. 

    Ninguém sabia o que era, sentiam medo de ir lá ver, mas numa noite, uma coruja quis ir ver, ela também andava por cima desse descampado, via as luzes e ouvia música. 

    Sobrevoou a zona, e quando pousou em frente à porta, no solo, uma lebre elegante, delicada, olhou - a de cima a baixo, com uns olhos que pareciam saltar de órbita, a coruja até ficou intimidada, cheirou-a.

- Porque estás a olhar para mim com esses olhos e a cheirar-me? - pergunta a coruja 

- Estava a ver se eras boa criatura! 

- Essa agora! Não posso andar por aqui, livremente? Quem és tu para mandar em mim, ou dizer se posso ou não andar por aqui? 

- Sou a lebre porteira. 

- A lebre porteira? 

- Sim. Aqui dentro é um bar, com música, espetáculos de canto e dança, teatro, ginástica, às vezes, relaxamento, declamação de poesias, apreciação de artes, onde dezenas ou centenas de coelhos convivem. Todas as noites, há aqui atividades! 

- Áh! Então é por esse que vemos estas luzes? 

- Sim. 

- Só aqui à beira é que ouvimos mais barulho. 

- Claro, por respeito aos outros animais, viemos para este descampado, para não perturbar o descanso. 

- Áh! Boa ideia. Obrigada. 

- Já estão aqui há muito tempo, não? 

- Sim. Às vezes os coelhos saem e vem cá para fora. 

- Então também há atividades cá fora? 

- Há! Mas são mais silenciosas, por respeito aos habitantes. 

- Que tipo de atividades? 

- Mais sossegadas! 

- Tudo acontece neste tronco? 

- Sim. 

- Tem espaço para tanta gente? 

- Tem. Tem 4 andares! 

- Áh! Então são nestas janelas? 

- São. 

- Nós realmente só vemos as luzes, e os barulhos só se ouvem aqui. Não sabíamos o que era. 

- Pois! De dia, está fechado. E tu vens de onde? 

- Aqui da floresta! 

- És uma coruja, não és?

- Sou. 

- Querias entrar, não era? 

- Era… 

- Hummm…não sei se podes! 

- Como assim? 

- Vou perguntar. Espera aqui, por favor. 

- Porque é que eu não posso entrar? É exclusivo para coelhos? 

- É. 

- Áh…! Mas eu só queria ver o que era e como era! 

- Vou perguntar. Espera aqui. 

    A coruja espera à porta, a apreciar o espaço, regressa a lebre pouco depois, com um coelho vestido de fato: 

- Boa noite! Quer entrar? 

- Boa noite, sim, quer dizer...gostaria! 

- Para que quer entrar - pergunta o coelho 

- Para ver como é. 

- Não nos vem fazer mal? 

- Claro que não! Não tenho nada contra coelhos, sou a guardiã da noite. Ando por aqui, pela floresta. 

- Promete que não vai chamar os outros para virem para aqui...? 

- Prometo! 

- É que nós gostamos de ser discretos, ter o nosso próprio espaço, estar uns com os outros, conviver. 

- Claro, compreendo. 

- Bom...entre, mas lá fora, não conte como é, certo? 

- Certo! Obrigado. 

    A coruja entra, olha para todo o lado, todos os coelhos olham para ela, sorriem, cumprimentam, ela retribui, fica encantada com a decoração e a quantidade de coelhos que estão nesse espaço, a rir à gargalhada, a comer, a beber, a dançar, a ouvir musica, a fotografar, a conversar. 

- Nunca vi tanto coelho no mesmo espaço! Tão diferentes na cor do pelo, nos tamanhos...muito bonitos. - comenta a coruja com a lebre porteira 

    A lebre porteira ri: 

- É verdade! Imagino que sim, e hoje não é dos dias em que está mais cheia. 

- O espaço é muito agradável, nunca imaginei que isto fosse assim. Por fora nada indica como é assim. 

- É verdade! 

- Muito bonito!

- Obrigado. Quer subir para ver o resto? 

- Sim. 

- Boa noite! - dizem os coelhos a sorrir 

- Boa noite, divirtam-se! - diz a coruja 

- Já fazemos isso, obrigado.

- Boa! 

    Percorre todos os andares, admira o espaço, a decoração, vê a paisagem entre as janelas. 

- Que paisagem maravilhosa! - murmura e suspira a coruja 

    Voltam a descer. 

- Já vai embora? - pergunta o coelho chefe

- Sim! 

- Está bem! 

- Gostei muito do espaço. Parabéns! 

- Obrigado. Não quer ficar mais um pouco? 

- Não...só queria ver mesmo o que eram aquelas luzes que víamos. 

- Entendo! Por favor, não conte aos outros. 

- Está prometido! - diz a coruja 

- Sabe que na floresta existem muitos perigos para nós, coelhos... 

- Sim, compreendo! O que precisarem, eu ando todas as noites, aqui, e por toda a floresta, é só chamar. 

- Muito obrigado, confiamos em si, e de nossa parte, também. Apareça quando quiser. 

- Obrigado. 

- Passe uma boa noite! 

- Obrigada, divirtam-se.

- Sempre! - diz o coelho chefe a rir 

- Até à próxima. 

- Até à próxima. 

    E a coruja regressa a casa, satisfeita por ter descoberto de onde vinham as luzes altas da floresta. Como prometeu não contar, quando os outros animais lhe perguntavam curiosos, o que eram aquelas luzes, ela dizia que não sabia: 

- Não sei...possivelmente da cidade! 

- Na cidade há estas luzes? 

- Sim, e muitas mais. 

- Áh! Está bem, mas o que será? 

- Isso não sei. Só vejo as luzes. 

    A coruja passava por lá de vez em quando, sobrevoava muitas vezes a zona para apreciar a paisagem e ver as luzes, cumprimentava a lebre, e perguntava se estava tudo bem, se não precisavam de nada. 

    A lebre porteira agradecia, conversavam um pouco, riam, e alguns coelhos saiam para as atividades mais livres e calmas, ela assistiu, aplaudiu. Outros coelhos apareciam nas janelas, cumprimentavam-na, sorriam e brincavam com ela. 

    Aquele espaço passou a ser um refúgio e de diversão para a coruja, porque convidavam-na para entrar, ver alguns espetáculos, quando perceberam que ela era de confiança, confirmada pela lebre porteira. 

    Era a única a quem permitiam entrada, e ela respeitava. Fez grandes amigos, estava sempre atenta, para os proteger se fosse preciso, e divertia-se muito com eles. 

    Afinal as misteriosas luzes que se viam em toda a floresta e pensavam que era da cidade, vinham do descampado, do tronco enorme de uma árvore antiga, transformada num lugar reservado, discreto e silencioso para os outros animais, cheio de diversão e amizade. 

    Os outros animais nunca souberam o que existia no descampado, sentiam medo do espaço, e pensavam que as luzes vinham da cidade. 

    E vocês, visitavam esse descampado? 

    Acham que a lebre porteira vos deixava entrar? Porquê? 

    Como imaginam esse espaço? 

    O que existiria nele para vocês? 

    Quem deixavam entrar? 

Podem deixar as respostas nos comentários. 

                                                                FIM 

                                                          Lara Rocha 

                                                        20/Abril/2025 



domingo, 2 de maio de 2021

Sereia ou peixe?

         


Era uma vez uma Vila de pescadores, onde viviam famílias simples, trabalhadoras e humildes. Os homens, desde os mais novos até aos mais velhos, saiam antes do sol nascer, e algumas das esposas, namoradas, sentiam o coração muito apertadinho. Tinham medo que não voltassem, ou que lhes acontecesse alguma coisa. Então, sempre que os homens iam para o mar, as mulheres de todas as idades não dormiam mais. Abraçavam e beijavam os filhos, os namorados, recomendando-lhes cuidado. Seguravam as lágrimas até eles irem  para os barcos no mar alto, juntavam-se, davam as mãos e rezavam por proteção! Aí sim, as lágrimas pelo medo saiam dos seus olhos! Não erram homens de fé, achavam que tinham muita coragem, era a missão deles, só tinham de a cumprir, mesmo que soubessem que era arriscado, e diziam com segurança que o mar era amigo deles. Um dos jovens perguntou à namorada: 

- Porque é que vocês se põem com essas cerimónias de lamechices quando vamos para o mar? 

A namorada responde: 

- Não são lamechices, é medo! 

- Medo...! Que ridículo. - graceja o namorado 

- Vocês não têm medo, queres ver? 

- Claro que não! Isso é coisa de mulheres. O que fazem? 

- Rezamos! Pedimos proteção, que voltem sãos e salvos, que pesquem muito peixe, mas façam boas viagens. 

- Não tendes mais nada que fazer? Que patetice, isso não existe? 

- Ai não? Felizmente têm voltado sempre. Já que não acreditas, pelo menos respeita porque dói-nos muito! Ficamos com o coração muito apertadinho! 

- Está bem, desculpa! Acredita lá no que quiseres. 

- E se rezássemos às sereias, aí vocês também rezavam não era? Até faziam outras coisas com elas. 

O namorado ri. 

- Sereias? Também achas que existem? Vives no mundo da infância. Coitadinha, cresce. 

        A namorada fica zangada, não se falam mais nesse dia, cada um está no seu trabalho. De madrugada, o mesmo ritual repete-se. Todas rezam, mas a namorada não dá beijo nem abraça o namorado, só lhe diz: 

-  Que as sereias te guiem. Ingrato... 

- As sereias? E tu não ficas com ciúmes se for com elas? 

- Não. 

            O namorado ri-se, vai para o barco com os outros homens, e nessa noite o mar está muito revolto. As gaivotas estão muito nervosas, piam, voam desvairadas, parecem perdidas. 

- Mas o que é que se passa hoje? - pergunta uma mãe 

- O mar está muito revolto...as gaivotas tão inquietas, os nossos homens hoje não deviam ter ido. 

- Ai, que nervos! - diz outra 

        Enquanto as mulheres estão nervosas e rezam, outras choram e acendem velas, os barcos dos maridos andam aos trambolhões, no mar, os marinheiros gritam, tentam lutar contra a força das ondas, mesmo não tendo por hábito rezar como as mulheres, sentem vontade de o fazer, porque correm perigo. Dizem que não sabem como, mas veem uma sombra que não conseguem distinguir se é de peixe ou de uma mulher com cauda de peixe que lhes dá uma valente chicotada com a cauda e atira-os a grande velocidade para a costa, onde chegam todos ensopados, mas sãos e salvos. As mulheres respiram de alívio. 

- Hoje não deviam ter ido para o mar! - resmunga uma mais nova

- Tendes razão! - dizem todos 

- Não imaginávamos que o mar ia estar tão bravo! - diz outro 

- Andamos aos trambolhões, mas alguém nos atirou para aqui! 

- Quem? - perguntam todas 

- Uma sombra com cauda de peixe! Não conseguimos ver o que era. 

- Acho que alucinaram com o medo! - comenta uma namorada 

- Rezaram? - pergunta outra mãe 

- Sim! - respondem todos 

- Foram ouvidos! Talvez agora percebam porque fazemos aquelas lamechices todas, não é, amor? - pergunta a namorada irónica 

- É! Desculpa!

- Foi uma sereia? 

- Não. Não sei. . 

- Qual sereia? Foi a força da oração deles e da nossa crença. 

            Todos concordam, abraçam, beijam as esposas e namoradas, e nesse dia há festa para retribuir as orações que os salvaram. Silenciosamente, os homens achavam que foi uma sereia que os salvou, mas para disfarçar, diziam que foi um peixe, mandado pelos pedidos das mães, esposas, e namoradas. A partir desse dia, respeitaram as suas esposas, e aprenderam a fazer o mesmo. Rezavam antes de sair para o mar, porque sabiam que com o mar não se brinca, mas respeita-se. Nunca sabiam na verdade o que esperavam. Mas pelo menos sentiam-se mais protegidos, e quando  viam o mar revolto, já não iam. E vocês? Acham que eles foram salvos por uma sereia ou um peixe? 


                                                                    FIM 

                                                                 Lara Rocha 

                                                                2/Maio/2021 

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

monólogo Mulher deixa-te disso



Mulher...és perfeita! Deixa-te disso.... Disso... dessas coisas que fazes ao teu corpo que já é perfeito na sua imperfeição. Só para que os outros gostem, só para repararem que tens mamas grandes, ou rabo arrebitado e grande. Gosta do teu corpo assim como ele, imperfeito, perfeito! Para quê massacrá-lo com silicone, se és um ser humano e não uma boneca? As bonecas têm o seu corpo, tu tens o teu, em todo o seu esplendor!
Mulher, deixa-te de pensar no que os outros vão pensar. Deixa de pensar se os outros vão gostar de ti. Para de te torturar só porque achas que os outros vão gostar de ti assim, daquela ou de outra maneira, porque alguém que conheces, tem o que tu não tens, e toda a gente gosta. Toda a gente gosta.... Será?
Já pensaste que pode ser só para serem simpáticos e conquistar? Já pensaste alguma vez, que talvez essa mulher que tem o que tu achas que devias ter para gostarem de ti, pode sofrer muito, ou perceber que todos são falsos com ela?
Para quê essa coisa de a outra tem, todos gostam...se, o que ele tiver for de plástico, falso, só para os outros gostarem? Será que essa mulher que achas que é melhor que tu, só porque tem atributos que achas que todos gostam, não sofreu? Será que ela não perdeu a sua identidade? Acredita que sim!
Quando mudas o teu corpo com o qual nasceste, aquele corpo maravilhosamente imperfeito, perfeito, que os teus pais te deram, e o que trabalho que deu fazer-te...o que a tua mãe sofreu para que nascesses...não tiveste trabalho nenhum, deram-te tudo o que tens, o teu pai e a tua mãe, e todos os antepassados, marcaram a sua presença em ti, nesse corpo que tens.
Talvez um dia, ou brevemente sejas mãe. Imagina, teres de passar por tudo o que a tua mãe passou, e o ou a/os teus filhos quererem mudar tudo? Não ficarias triste por isso? Não ficarias magoada? Imagino que sim! As mães sofrem muito, o corpo delas muda completamente para nascermos, e depois de nascermos, e nós vamos dar-lhe como presente a mudança do corpo que ela e o nosso pai fizeram com tanto amor?
Vamos agradecer aos nossos antepassados toda a magia, toda a história, toda a continuidade de geração em geração de muito mais que um mero nome familiar, mudando o nosso corpo, só porque achamos que os outros vão gostar.
Mas, e quem muda coisas no corpo, será que gosta mesmo? Será que sacrificando o corpo perfeito, e tornando-o falso, imperfeito, vai mesmo conseguir conquistar os outros?
Não tenhas ilusões. Não. É claro que não vai. Se queres mudar alguma coisa em ti, muda se a tua saúde está em risco, ou muda o que achas menos bonito, mas para tu gostares!
Para agradar aos teus olhos, não aos olhos dos outros, não lhes faças a vontade, porque muitas mulheres mudam o corpo maravilhoso que sempre tiveram, para consolar olhos gulosos de homens e mulheres invejosos que acham que as relações só existem se houver beleza física, se tiverem um conjunto de características, que só as referenciam para satisfazer o seu ego, sem pensar se essas são mesmo as mais importantes para se construir uma relação!
Não te iludas, mulher, não faças isso, tudo não passa de uma fantasia. O que constrói uma relação verdadeira é o que levas no coração, aquilo que dás, a pessoa que és... e pessoa é corpo, mas é ainda mais alma! Para quê fazer-lhes a vontade... nada disso, tu é que tens as tuas vontades, tu é que tens valor, tu é que dás o teu melhor. Se não gosta, não gosta, paciência. É porque não é para ti, e mereces muito mais!
Quem gosta mesmo de ti, não vai ver se tens mamas e rabo grande, de plástico, de tens rugas, gordura a mais, ou se passas fome para parecer magra! Deixa-te disso! És perfeita assim como és...com todas as características que nasceram contigo! Dá o teu coração, e tudo fora de ti mudará.
O que és, o que dás, vai luzir em todo o teu corpo fantasticamente imperfeito, perfeito. Deixa-te disso, mulher. Disso de usares coisas que toda a gente usa, só porque todos usam, se não gostas, se não te identificas, esquece!
Não importa seres diferente...não é essa diferença de teres ou não teres o que os outros têm, se nem sequer combina contigo, nem te assenta bem, ou se não te traz conforto.
Tu tens os teus gostos, tu tens as tuas vontades, tu tens o teu corpo, com essas formas, diferentes, que te tornam única. A ti, e a todos, embora pensem que todos têm de ser iguais, para serem aceites!
Deixa-te disso, mulher! Ignora comentários. Cada um é como é! Tu és assim, mulher, linda à tua maneira, perfeita na tua imperfeição, guerreira, diferente.
Fica feliz e ainda mais vaidosa por seres quem és, assim, e por não mudares só porque os outros não gostam ou te dizem coisas desagradáveis. Deixa-os com a ignorância deles, tu é que és a inteligente, porque és o que és, és natural, não andas a esconder o que não gostas, só para agradar aos outros, não mudas nada em ti, só porque os outros...é exatamente isso que te torna perfeita!
És perfeita por seres diferente, és perfeita por não mudares o que te deram só porque os outros mudaram, ou querem que mudes, ou acham que devias mudar, ou que tens de ser assim, assado ou cozido... deixa-os falar.
Tu és assim, és o orgulho de ti própria, dos teus pais, de quem te ama, e de quem te valoriza assim! Como és, com o corpo que tens! E mantens a tua posição, fazes as tuas escolhas, tens os teus gostos, és autêntica, és única, assim, és o que és!
Mulher...não estragues o teu corpo, só porque tens rugas, cabelos brancos, peles caídas ou manchadas, peitos pendurados, dobras, pregas, o que for...para quê escondê-las? Para quê tirá-las? Elas também fazem parte de ti, e são igualmente maravilhosas, se o que trouxeres dentro for bonito, puro, sincero, de qualidade.
Tudo o que é natural é maravilhosamente bonito. Quando nasceste, já estavam reservadas para ti, todas essas transformações, se tiveste a felicidade de chegar a uma idade avançada. Muda porque tu queres, muda para ti, muda para tu gostares.
Nas mudanças, a única coisa que importa és mesmo tu! E unicamente tu, porque tu és mulher, tu és única, tu és diferente, e tu és perfeita, com todas as tuas belas imperfeições.
Tens dúvidas? Experimenta desenhar um corpo humano, feminino, ou parte dele, e verás como é difícil, porque é perfeito em toda a sua imperfeição. Até o que trazes dentro não é perfeito, mas só porque tudo funciona bem, já podes considerar perfeito e maravilhoso!
O que interessa é a tua felicidade, e tudo de mágico que podes com as imperfeições do teu corpo, pois quem gostar de ti, de verdade, vai conhecer-te em profundidade, e não em superficialidade, como acontece às amizades e ao que chamam de relações, aqueles encontros corporais fugazes, de olhos iludidos, que depois do fogo de vista, uma vez... ou algumas vezes, com sorte, perdem todo o encanto, porquê?
Porque não olham para lá da superfície. Porque valorizam tudo o que é falso, tudo o que chama a atenção por momentos. Não queiras esses encontros... exige mais, muito mais, e se for verdadeiro, ele vai ter de se esforçar, e vai gostar, mas não facilites o trabalho!
Tu és mulher, tu tens de ser respeitada, e não é só porque eles querem ou gostam que tu tens de ceder, e fazer-lhes as vontades. Desconfia de conquistas rápidas, isso não existe, é só o primeiro momento, e desaparece logo a seguir.
Pensas que se mudares algo, ele vai gostar? Esquece...se mudares o que quer que seja nem vai reparar, vai desfilar contigo, à frente dos outros, para lhes mostrar que conquistou uma gaja boa, gira, que ele é que é que é poderoso! Não lhes dês esse gosto, de exibicionismo...se é isso que ele quer, tu não fazes parte, ele não te merece!
 Mulher, gosta de ti assim. Na tua imperfeição, perfeita! E deixa os outros pensarem o que quiserem. Segue o que tu queres, segue o que gostas, segue o que achas que é o melhor para ti, independentemente do que os outros acham que tens de fazer, que tens de ser. 
Mulher, és tu que importas, não são os outros. És mulher, e só por isso já és perfeita, com todas as tuas imperfeições. A única coisa que é perfeito é o teu orgulho em ti, de seres como és, de seres diferentes, de pensares diferente, e de dares o melhor de ti. Dá-te ao respeito, tu mereces.
        És perfeita...na imperfeição! Aliás, a perfeição não existe. És mulher. O que quer que faças será bem e mal julgado. Se fazes és julgada, se não fazes és julgada, com o «devias», o «tinhas de», «porque fizeste isso», «se fosse eu...». 
         Por isso, faz o que faz sentido para ti, não importa o que digam! O que quer que faças, faz porque queres, faz por amor, faz por amizade, faz porque te faz bem. O que quer que faças de bom ou de mau pelos outros, será sempre bem ou injustamente julgado, por isso, faz o que tem sentido para ti, o que dá alívio, paz ou felicidade. 
         Faz para deixar brilhar a tua luz, haverá sempre alguém que não a suportará, mas não faz mal, não te faz falta! A tua luz é suficiente para ti e para quem gosta de ti. Como és! Deixa brilhar a tua luz, o melhor que há em ti, mesmo com a certeza de que uns vão criticar, e outros gozar ou ignorar, por isso faz o que achas melhor para ti, não porque vão falar de ti, ou ignorar-te. 
       Terás sempre alguém que te reconhecerá. e retribuirá, admirará, mesmo que não seja aquela pessoa a quem deste de ti, mesmo que te julguem, critiquem ou ignorem. Faz o que faz sentido para ti, o que deixa ser quem realmente és, sem máscaras. 
        Só tu e a tua essência importa, nada mais! Sê quem és no teu melhor e quando for preciso, no teu pior! Quem te julga ou ignora também não tem nada de perfeito! Só ainda não reparou como é imperfeito, mas um dia descobrirá, e pode ser que te ache perfeita. 
         

auto-estima e autoaceitação imperfeição monólogo - perfeição orgulho respeito unicidade


 Lara Rocha 
20/Agosto/2018


segunda-feira, 4 de março de 2019

A lição do lixo à volta das escamas

           


Era uma vez um ouriço-do-mar que fugiu do oceano onde vivia com a sua família, de muito longe por causa da poluição. Percorreram longos quilómetros à procura de uma casa onde não houvesse lixo. Estava difícil de encontrar, mas finalmente, passaram por uma montanha aquática onde a água era transparente, morna e bem salgada como eles gostavam! Cheirava bem a algas.
           Estavam muito cansados, por isso instalaram-se no primeiro sítio que viram, e caíram num sono como já não se lembravam de ter. Tudo parecia calmo, outros animais que passavam, olhavam para eles, mas não lhes tocavam.
          Mas um acontecimento inesperado, despertou-os de repente, e assustou-os muito. Um violento tremor de terra! Instalou-se a agitação e o terror debaixo de água. Não sabiam bem o que estava a acontecer, mesmo assim, viam todos a correr de um lado para o outro, e um peixinho gritou-lhes:

- Saiam daí. Estão num sítio muito perigoso.

- O que é que está a acontecer, pergunta um ouriço-do-mar.

- Não temos tempo de explicar, agora. Venham atrás de nós! Rápido.

           Os ouriços-do-mar seguem-nos, assustados. Levanta-se um monte de areia que se move a uma velocidade arrepiante, e corre debaixo da água, formam-se centenas de bolhas de água que sobem em redemoinho para a superfície, e quase arrasta tudo o que é animal, mas eles já sabem que quando isso acontece, juntam-se e escondem-se num abrigo que construíram no casco de um navio afundado há muitos anos.
           O caos vai para a superfície, e as água nas profundezas acalmam. Todos respiram de alívio.

- Passou! - suspiram todos

           Um peixe matreiro, muito bonito, mas perigoso, grita:

- Intrusos!

           Estava a falar dos ouriços-do-mar. Como eram todos muito unidos, e todos obedeciam às ordens desse peixe, porque tinham medo dele, o que ele dissesse, tinham de fazer, se não, eram castigados.  Na verdade não gostavam de muitas coisas que ele fazia ou dizia, mas ninguém tinha coragem de o desafiar.

- Óh, não...nós viemos na paz, à procura de um lugar para viver, porque o nosso estava cheio de lixo! Quase não conseguíamos respirar! - explica um deles

- Eu não perguntei nada! - exclama o peixe arrogante

- Ele odeia perguntas... - diz outro peixe 

- Fora daqui. - Grita o peixe

- Mas nós... - tenta outro ouriço-do-mar

- Não quero saber de explicações! Fora... - Grita o peixe

           Os ouriços-do-mar afastam-se tristes. O peixe malvado vai passear todo emperuado e de repente algo se enrola nas suas barbatanas. Não consegue nadar, nem sair do mesmo sítio, e quanto mais tenta libertar-se, mais atado fica.
           Os ouriços-do-mar vêem a aflição do peixe, vão ter com ele, e ele escorraça-os, grita com eles, chama-lhes nomes feios, mas eles não se deixam intimidar.

- Vão-se embora...eu não vos quero aqui. - Grita o peixe 

- Para de te mexer e de gritar! - recomenda um ouriço

- Olha que porcaria que ele tem aqui à volta...

- Como vamos tirar daqui isto?

          Os ouriços-do-mar agem rapidamente, juntam-se e quando encontram uma possível saída do lixo, uns puxam dum lado, outros doutro, cortam com os seus picos partes dos fios, passa um peixe espada e ajuda a cortar os fios, e aos bocadinhos vão libertando o peixe.
          No fim estavam todos completamente exaustos. Respiram fundo, e caem na areia lentamente.Os ouriços agradecem ao peixe espada. O peixe está ofegante e muito nervoso, mas ao mesmo tempo envergonhado, por isso, depois de estar um pouco em silêncio, começa a soluçar e a chorar. Os ouriços-do-mar aproximam-se, olham-no, a medo, recuam.

- Estás bem? - pergunta um ouriço

- Ele odeia perguntas, lembras-te? - relembra o ouriço  

- Vamos... - diz um ouriço com medo

- Óh... esperem! - Diz o peixe a chorar

           Eles param, e olham para o peixe

- Estou muito envergonhado! Desculpem... muito obrigado por me terem tirado aquela porcaria! Ai, quase me acontecia alguma coisa má! Não sei de onde veio aquilo.

- Nós tínhamos toneladas...talvez... dessa porcaria na nossa zona!

- E o que é?

- É lixo... coisas que os humanos já não precisam...

- É que... não devem ter onde pôr.

- Parece que é o que dizem!

- Malditos! - Grita o peixe zangado

- Nós? - perguntam os ouriços assustados

- Não! Aqueles...

- Áh, sim! Tens razão...

- Eu fui muito bruto convosco. Escorracei-vos e vocês ainda me libertaram do lixo! Desculpem.

- Na hora de precisar...

- Pois, eu sei! Não merecia.

- Não foi isso que quisemos dizer!

- Na hora de alguém precisar não pensamos muito. Respondemos!

- Mas eu fui tão estúpido, que vocês deviam deixar-me ali enrolado naquela coisa.

- Porquê?

- Isso ia tirar-te a brutidade?

- Tu realmente não és nada simpático, és arrogante e bruto, mas talvez também tenhas as tuas razões para ser assim!

- Sim, têm razão!

- Toda a gente tem medo de ti.

- Medo de mim? Acham?

- Claro que sim!

- Óh, também não queria isso... é que eu acho que se não for mau, ninguém vai gostar de mim.

- Que disparate!

- Acham?

- Claro. Eles e toda a gente gostam de amigos bons.

- Que vergonha... sou um monstro!

- Não... és bonito, mas podes ser mais suave a falar como os outros.

- Como?

- Queres aprender?

- Quero! É uma forma de vos pedir perdão, e de agradecer!

- Podemos ficar?

- Claro que sim! Por favor!

             Os ouriços-do-mar dão umas verdadeiras aulas ao peixe, de como ser amigo e generoso com os outros, para gostarem dele, sem ser mau. Mas que grande mudança. O peixe mau passou a ser  um verdadeiro doce, cavalheiro, colaborador, educado, delicado, sedutor, brincalhão, divertido... e todos os outros que o rodeavam repararam. Elogiaram-no, chamavam-no sempre que precisavam, ele fazia convívios e divertia-se muito!
            Deixou de ser um chefe mau, e tornou-se no que sempre tinha sido: um peixe amigo, como os outros, que precisava dos outros, e que ajudava quem precisava. Desde esse dia, aquele lugar subaquático nunca mais foi o mesmo. Ao primeiro sinal de lixo, instalava-se a confusão, juntavam-se todos, e devolviam o lixo à superfície, na tentativa que os humanos deixassem de fazer lixo nas praias.

Acham que seria uma boa solução para resolver o problema dos lixos nas praias e nos mares?
               
                                                                         FIM
                                                                         Lálá
                                                                     4/Março/2019 

sexta-feira, 25 de março de 2016

Amo-te mesmo com rugas (Adultos)





NARRADORA – Era uma vez um casal especial e diferente: ela uma bruxa, e ele um feiticeiro. Viviam numa casa isolada da floresta, e eram felizes à maneira deles…embora sempre a discutir e a resmungar um com o outro, amavam-se e adoravam estar juntos. Certo dia…numa manhã, a bruxa olha para o espelho e assusta-se com a sua própria imagem, pois esta reflectida no espelho dá uma valente e sonora gargalhada…estridente…na cara da bruxa. A bruxa não sabe quem é…nem que a imagem que ela vê no espelho, é ela mesma, por isso dá um grito que abana a casa toda. Os gatos fogem. O feiticeiro que estava descansado na sala a ler, assusta-se e murmura:
FEITICEIRO – Que grito foi este…? (p.c) Pois…já foi aquela bruxa com quem casei…fez alguma…! (p.c) É melhor ir ver…ou…não…não vou nada ver! (p.c) Ela já costuma ter estes ataques de loucura…e aqueles guinchos… (p.c) É…. Bruxa louca… fica para lá com a tua loucura… antes que me transformes numa coisa horrenda…! (p.c) Daqui a pouco vem aqui reclamar que não fui lá vê-la… mas… não me interessa. Já estou habituado! (p.c) Deve ser da idade… está cada vez mais histérica… coitada! (p.c) Tenho que lhe dar um desconto. (p.c levanta-se e vai à porta do quarto, põe-se à escuta) Está tudo bem contigo, bruxinha linda…?
BRUXA (disfarça) – Sim. Está tudo bem… queres entrar…?
FEITICEIRO – Não…! Qualquer coisa, estou na sala.
BRUXA – Está bem. Eu estou aqui…!
FEITICEIRO (murmura e encolhe os ombros)  Eu vi logo… Já lhe passou. Mas pelo sim, pelo não… perguntei… às vezes podia estar com algum problema… sim… porque podia acontecer… pelo grito que ela mandou… até os gatos fugiram. (p.c para o público em tom de confissão, e com alguma pena) Estas mulheres… são muito estranhas… mas… nós não vivemos sem elas, não é? Reclamamos delas... e elas de nós… mas no fundo… queremo-las! (p.c) Além disso, foi a mulher que escolhi… e gostei dela… mas às vezes… põe-me o sal na moleira…! (p.c) O que vale é que a chama do amor… ainda continua viva… Ela não sabe… porque eu ainda não lhe disse… mas… acho que tem ganho mais rugas ultimamente! (p.c) Só que… mesmo assim… eu continuo a achá-la… linda…! Porque afinal de contas… se casei com ela… é porque gostei dela! (p.c) E gostei… (sorri) Apaixonei-me ao primeiro olhar… (p.c) Ela era tão bonita… (p.c) Sabem, homens…? Era daquelas mulheres… boas… jeitosas… sexys… com que qualquer homem sonha… nem que seja só para se sentir poderoso… e dar umas curvas com elas… para desfilar…! (p.c) Na verdade… depois quando mergulhamos nelas… vemos que é só pacote por fora, porque por dentro… não têm nada para nos oferecer… só para nos chupar a carteira…! (p.c) Pelo menos consolam os olhos… (p.c) Mas sejamos sinceros… não é uma gaja dessas que nós queremos mesmo pois não…? (p.c) Apesar de bonitas… e boas… mas elas na verdade não cuidam de nós… não fazem nada nas casas… e… bem… não servem! (p.c) Com a minha mulher foi diferente… como eu ia a dizer… ela era novinha… jeitosa… bonitona… atraente… e… claro… apaixonei-me pela beleza dela… depois… conheci-a a fundo… como pessoa… e olhem… estou com ela até hoje… desde há muitos, muitos anos! (p.c) Eu sabia que ela não ia ter sempre aquele ar… mas… a sua beleza interior é tão grande, que a torna mais bonita por fora. (p.c) E mesmo com rugas… ela continua linda! E como sempre a amei, e amo… respeito-a e valoriza-a… porque ela faz tudo por mim… mesmo quando não sou assim lá muito bom! (p.c) Se ela der mais um grito, vou lá ver…
NARRADORA – O feiticeiro volta a sentar-se e continua a ler e a bruxa está a olhar o espelho intrigada, e pergunta.
BRUXA – Quem és tu?
BRUXA DO ESPELHO – Sou tu!
BRUXA – O quê?
BRUXA DO ESPELHO – A imagem que tu estás a ver… esta que está a falar contigo… és tu!
BRUXA – Mas…eu dupliquei – me foi?
BRUXA DO ESPELHO – Não! Tu é que te estás a ver ao espelho, como fazes todos os dias!
BRUXA – Sim, eu vejo-me todos os dias ao espelho…mas nunca vi.
BRUXA DO ESPELHO – Como nunca me viste? Ao veres-te ao espelho todos os dias, vês-me…vês a tua imagem… e essa imagem… sou eu! Que és tu!
BRUXA – Mas que raio de língua é que tu falas, mulher?
BRUXA DO ESPELHO – A mesma que tu… Português…!
BRUXA – Não deve ser a mesma que eu… porque não estou a perceber nada do que estás a dizer! (p.c) Quando me vejo ao espelho… vejo a minha imagem… linda…de deusa… princesa… elegante… atraente… sexy…como sempre fui… e não…esta coisa feia que estou a ver! (p.c) Tu és horrível…! És casada?
BRUXA DO ESPELHO (ri) – Obrigada pelos elogios. Sim, sou casada…tu és…eu também sou.
BRUXA – Ai, coitado do teu marido…deve ver muito mal!
BRUXA DO ESPELHO (ri) – Usa óculos…só para ler… sabes que com a idade…!
BRUXA – Não tem nada a ver com o meu maridão…ele sempre viu muito bem, e continua a ver…!
BRUXA DO ESPELHO (ri) – Devias levá-lo ao oftalmologista…e tu também devias ir…porque não estás a ver bem.
BRUXA – Não estou a ver bem? Claro que estou a ver bem! Não uso óculos…
BRUXA DO ESPELHO (sorri) – Por estares sem óculos é que não vês, como és feia…!
BRUXA (zangada) – O quê? (p.c) Que palavra odiosa… passo já pimenta com cebola na tua língua…sua porca…imunda…!
BRUXA DO ESPELHO (ri) – Tu é que a vais engolir…!
BRUXA (zangada) – Vamos ver quem é que vai engolir o quê…! (p.c) Mas quem és tu…óh grande ordinária…, feiosa… cheia de coisas…vincas na fronha…
BRUXA DO ESPELHO (ri) – Obrigada…és mesmo adorável…só não te dou um beijo porque estou no espelho…! (p.c) Eu sou uma bruxa…
BRUXA (zangada) – Eu também sou uma bruxa…!
BRUXA DO ESPELHO (ri) – Somos uma bruxa…! (p.c) Não te esqueças que eu sou tu…e tu…és eu.
BRUXA (resmunga ofendida) – Tu bem querias ser igual a mim, porque eu sou muito mais bonita que tu… (p.c) Felizmente… graças a todos os bruxos e bruxas…não temos nada a ver uma com a outra.
BRUXA DO ESPELHO (suspira) – Ai, ai, não me estou a fazer entender…!
BRUXA – De onde vens, óh criatura tenebrosa…?
BRUXA DO ESPELHO (irónica) – Ai, assim até me deixas sem jeito…fico vaidosa! (p.c) Venho daqui…do mesmo sítio que tu!
BRUXA – Tu moras aqui?
BRUXA DO ESPELHO – Claro…!
BRUXA – Onde?
BRUXA DO ESPELHO – Aqui…neste quarto, neste espelho, e nesta casa.
BRUXA (zangada) – Isso querias tu, grande usurpadora…! Maria nabiça que tudo cobiça. (p.c) Porque é que não vais para outro sítio…?
BRUXA DO ESPELHO – Tu é que sabes…! Se tu fores…para outro sítio, eu também vou.
BRUXA (zangada) – Quem é que te deu autorização para estares aqui…? (p.c) Nunca te vi antes, nem te convidei!
BRUXA DO ESPELHO (ri) – Nem tinhas nada que convidar…! As pessoas não se convidam a si mesmas…!
BRUXA (grita, zangada) – Vai-te embora…feiosa…intrometida…! (p.c) Tu queres é ficar com o meu marido…e estás a ver se me confundes a cabeça, para ele achar que estou louca, livrar-se de mim, e ficar contigo, não é…? Confessa…! ~
BRUXA DO ESPELHO (ri) – Eu…? Ficar com o teu marido…? (p.c) Ainda se ele fosse um pedaço de mau caminho, ou um gato…agora…aquele troglodita…? Sinceramente…!
BRUXA (grita) – Vê lá como falas do meu marido! (p.c) Eu bato-te.
NARRADORA – A bruxa tenta fazer uma maldade mas não consegue. A do espelho ri-se. A bruxa fica nervosa e guincha, salta, bate com as mãos no espelho, abana-o, dá pontapés…e a imagem do espelho ri-se às gargalhadas.
BRUXA (grita) – Vai-te embora sua ordinária. Deixa-me em paz! (p.c) És horrível, feia, parvalhona, ainda por cima estás a rir-te da minha cara! (p.c) És tu que me estás a tirar os poderes, não és, sua bruxa maldita? (p.c) Invejosa…Malvada!
BRUXA DO ESPELHO (às gargalhadas) – É! Estás mesmo a ficar velha! (p.c) Olha para essa fronha…cheia de rugas…! (p.c) Sim…! Já foste isso tudo…maldita…invejosa…malvada…horrível…feia! (p.c) Estás a perder os poderes…é normal…estás velha…já não precisas de poderes! (p.c) Mais te vale aceitares isso, e viveres feliz com o teu marido.
BRUXA – Mas que atrevimento… (grita) ordinária! (p.c) Estás cheia de dor de cotovelo…é por isso que me estás a chamar essa coisa feia!
BRUXA DO ESPELHO (ri) – Eu? Com dor de cotovelo…de ti…? (ri) essa é boa! (p.c) A tua época de glória já passou! (p.c) Velha! Carcaça.
BRUXA (nervosa) – Eu desfaço-te!
(Tenta fazer magia, mas não consegue e fica fora dela).
BRUXA DO ESPELHO (ri) – Velha! (p.c) Esquece!
BRUXA (grita) – Eu vou dar cabo de ti!
BRUXA DO ESPELHO (ri) – Porque é que continuas a insistir? (p.c) Já não serves para nada!
BRUXA (nervosa) – O quê? Sua maldita…és tu que estás a acabar comigo!
BRUXA DO ESPELHO (ri) – Eu? Tenho mais o que fazer…! (p.c) Velha…horrível…feia (p.c) Vai descansar que bem precisas!
BRUXA (grita) – Se voltas aqui…não sei do que sou capaz de te fazer…desaparece!
NARRADORA – A bruxa do espelho desata às gargalhadas e desaparece. A bruxa explode de raiva…grita, saltita aos guinchos, tenta fazer magia mas não consegue…olha outra vez para o espelho a medo e vê-se a ela própria.
BRUXA – Mas…o que é que aconteceu? (p.c) Não percebi…! (p.c) Há bocado estava ali uma anormal…a falar comigo…a chamar-me nomes…a dizer que estou velha…e agora…não está ali…? (p.c) Aquela…já é a imagem que vejo todos os dias! (p.c) Mas…estarei a ficar louca? (p.c) Já nem consigo fazer…mas…onde estão os meus poderes…? (p.c) Deve ser aquele palerma do meu marido…que me está a tirar os poderes…! (p.c) Ou…será que me rogou uma praga…? (p.c) Se foi ele…nem sei do que sou capaz de lhe fazer… (p.c) Vou ter que tirar isto a limpo! (olha-se ao espelho) Eu…vou ter que melhorar este aspecto…tenho aqui umas coisas estranhas…foi aquela parva. De certeza, ou então é o maridão que está a ver se vai porta fora…!
NARRADORA – A bruxa vai á sala ter com o marido, carrancuda, chateada e nervosa. Os gatos poem-se de volta dela. Ela acaricia-os e olha para o marido, que viu que ela entrou mas ignorou.
BRUXA (murmura) – Mau…! (p.c) Estarei invisível? (p.c) Não…não pode ser…estou a tocar nos gatos! (p. c, grita) Olá!
FEITICEIRO (sorri) – Olá, amor…minha bruxinha adorada!
BRUXA – Pensei que não me estavas a ver!
FEITICEIRO – Estava nas minhas leituras, e tu entraste silenciosa! Desculpa.
BRUXA – Eu…? Entrei silenciosa…?! (p.c) Deves estar a ouvir um bocado mal…!
FEITICEIRO – Eu? A ouvir mal…? Não! (p.c) Estava só concentrado!
BRUXA – Pois… (grita) Achas que eu nasci ontem?
FEITICEIRO – Não…eu sei que já nasceste há muitas centenas de anos.
BRUXA (Zangada) – Também tu, me estás a chamar velha…? (p.c) Dou cabo de ti.
FEITICEIRO (irónico) – Eu…? A chamar-te velha…? Claro que não, minha bruxinha encantadora…! (p.c) Somos da mesma idade…eu não sou velho, por isso tu também não és! (p.c) Quem te disse que eras velha?
BRUXA (zangada) – Uma estúpida de uma gaja que estava no nosso quarto!
FEITICEIRO – Uma mulher no nosso quarto?
BRUXA (zangada) – Sim…uma mulher! (p.c) Não sei de onde ela veio, nem como ela entrou…só sei que foi muito estúpida comigo! (p.c) Apareceu no espelho e pôs-se lá com uma conversa…que eu…era ela…ou que ela era eu… e depois…riu-se descarada e escandalosamente na minha cara…além de me ter chamado…velha…! (p.c) Maldita! (p.c) Ela disse que vivia ali no nosso quarto, na nossa casa… (p.c) Eu nunca a vi!
FEITICEIRO (ri) – Ora, minha querida…não ligues! Não te preocupes…se calhar sonhaste! E essa rapariga não existe!
BRUXA – Não sonhei. Estava bem acordada! Ela apareceu…só para me provocar e chatear…e humilhar…tentei transformá-la, para a castigar…e não consegui…e ela disse que eu já estava velha…que estava a perder os poderes com a idade!
FEITICEIRO – Não, filha…deves ter sonhado (p.c) Até fui ver o que se passava quando te ouvi gritar, e perguntei-te…lembras-te? Tu disseste que estava tudo bem. Os teus gritos até abanaram a casa toda.
BRUXA – Sim…pois foi…! E nessa altura foi quando entrou aquela palerma.
FEITICEIRO – Deixa lá…não penses mais nisso. Já passou.
BRUXA (zangada) – Tu…ainda gostas de mim?
FEITICEIRO (sorridente) – Claro que sim, meu pimpolhinho demoníaco…! Tu sabes que sim!
BRUXA (sorridente e vaidosa)  Ai…adoro quando me chamas isso…meu monstrão…!
FEITICEIRO (sorridente) – Ai, que doçura…! Monstrão…tão fofinha…! (p.c) Vês…como ainda te amo?!
BRUXA (sorridente) – É! Estou a ver…E…olha para mim… (p.c) Ainda me achas horrivelmente atraente?!
FEITICEIRO (sorridente) – Sim…minha venenosa enrugada…!
BRUXA (zangada) – O que é que tu me chamaste?
FEITICEIRO (sério e embaraçado)  Princesa…foi o que te chamei!
BRUXA – Pois…bem me pareceu! (p.c) Achas-me atraente?
FEITICEIRO – Sim! Muito!
BRUXA (sedutora, sorri) – Óh…meu bonecão, monstrão…rechonchudão…macacão…ursão…bonzão...então se me amas mesmo…põe-me mais nova e devolve-me os poderes.
FEITICEIRO – O quê? Eu vi logo que querias alguma coisa…!
BRUXA (zangada) – Mas que lata…estás a insinuar que quando sou carinhosa contigo…ou quando te faço muitos elogios…é porque quero alguma coisa…?
FEITICEIRO (irónico) – Não… (p.c) Que ideia… eu já te conheço…!
BRUXA (zangada) – Amas-me ou não?
FEITICEIRO – Já te disse que sim!
BRUXA – Então…?
FEITICEIRO – Então, o quê?
BRUXA (zangada) – Faz o que eu te disse…põe-me mais nova.
FEITICEIRO – Mas…tu queres que te ponha mais nova e que te dê os poderes para quê? (p.c) Queres ficar mais nova, para andares aí á caça de outros…?
BRUXA (zangada) – Estás totó…! Já para te aturar às vezes não é fácil…ia agora caçar outros…! Para quê? (p.c) Achas que sou alguma tarada…?!
FEITICEIRO – Não sei…podias querer um mais novato…!
BRUXA (ralha) – Queres que te castigue…?
FEITICEIRO – Não….fica quietinha…!
BRUXA – Fico…quietinha…porquê…? O que é que anda atrás de mim, ou à minha volta…?
FEITICEIRO – Nada…só quero é que não digas mais disparates.
BRUXA – Então se não queres que eu diga mais disparates, põe-me mais nova! (p.c) E escusas de ser cínico…ao dizer que ainda gostas de mim… (p.c) Só dizes isso para ser simpático. Na verdade, sei que já nem reparas em mim…
FEITICEIRO – Mas eu estou a dizer a verdade!
BRUXA – Não estás nada! (grita) Há bocado chamaste-me velha…eu bem entendi. Tenho olhos na cara…sei muito bem que estou com umas coisas novas aqui na cara, e os meus poderes estão mais fracos. (p.c) Só tu podes devolver-mos! (p.c) Foste tu que mos tiraste não foste?
FEITICEIRO – Não! porque faria isso?
BRUXA (resmunga) – Não sei…por não gostares de mim, ou…podes ter medo de mim.
(Feiticeiro dá uma gargalhada)
FEITICEIRO (ri) – Eu…? Medo de ti…? (p.c) Querida…bebeste alguma coisa que não devias… (p.c) Eu gosto de ti.
BRUXA (resmunga) – Como é que gostas de mim?
FEITICEIRO – Porque…casei contigo!
BRUXA (grita) – Isso não é garantia nenhuma…não quer dizer nada.
FEITICEIRO – Não sei porque é que para ti, não é garantia nenhuma…se eu não gostasse de ti, podes ter a certeza que já me tinha ido embora.
BRUXA (zangada) – Já estamos casados há tantos anos…e já há muito tempo que parecemos dois monstros desconhecidos na mesma casa!
FEITICEIRO – Cada um de nós tem uma vida diferente…e trabalha…estamos sempre tão ocupados…que depois não temos tempo para nós!
BRUXA – Mas devíamos ter tempo para nós… (p.c) Mesmo com trabalho! (p.c, suspira) Ai…tenho tantas saudades de quando éramos namorados.
FEITICEIRO – Não estás feliz por estar casada comigo, podes deixar-me.
BRUXA – É claro que estou feliz por estar casada contigo…mas sinto falta, daqueles momentos…bons…só nossos… (sorri) quando éramos namorados!
FEITICEIRO (com pena) – Pois, mas por não termos muito tempo para namorarmos…não quer dizer que não goste de ti, ou não te ame…! (p.c) Eu também tenho saudades dos tempos em que namorávamos, mas assumimos juntos o casamento…já sabíamos que não íamos ter muito tempo para nós…mas a companhia um do outro seria bom.
BRUXA – E é muito boa a companhia um do outro…mas eu queria mais! (p.c) Erramos…em não termos aproveitado mais…tivemos pressa de casar.
FEITICEIRO – Estás arrependida?
BRUXA – Não. Só que queria ter mais tempo contigo…! (p.c) Tu não demonstras há muito tempo que gostas de mim, e que me amas, como acontecia no nosso namoro…que me oferecias coisas bonitas…davas-me muito mimo…flores…nunca mais me deste nada disso. (p.c) Eu era tão feliz!
FEITICEIRO – Eu sei que não tenho sido um marido muito dedicado…ou nada…nem muito presente…! (p.c) Mas meu amor…pensei que não era preciso demonstrar-te…que tu sabias… e sentias o meu amor por ti.
BRUXA – Eu sinto o teu amor por mim…mas…sabes como é…as mulheres gostam sempre de pequenos gestos dos maridos… (para o público) Verdade… mulheres aqui presentes…? Mesmo casadas, nós precisamos de provas dos nossos maridos, não é? E gostamos que eles nos ofereçam pequenos mimos…! (p.c, para o feiticeiro) Sabes, eu gostava que nós os dois voltássemos a namorar… (p.c) Deixássemos o trabalho mais um pouco de lado, e que nos dedicássemos um bocadinho mais a nós… (p.c) Eu sinto que a nossa fogueira está fracota… preciso de a reacender… (p.c) Qualquer relação precisa disso, (para o público) …verdade? (p.c) Não é mesmo isso que queremos, e precisamos… mulheres? (p.c) Eles não percebem mesmo nada de nós, pois não…? (p.c) Para eles, isso não significa nada, mas para nós…é tudo… preenche-nos…! Não é…? (se obtiver resposta…bater palmas e sorrir) Pois…eu sei que vocês me compreendem…mulheres…aqui presentes…! (p.c) Claro…como eles nos dizem…somos todas iguais, não é…? 
FEITICEIRO (sorri) – Já percebi…! (p.c) E tens toda a razão. Mas de uma coisa podes ter a certeza… e não duvides nunca disso… apesar de eu não demonstrar… continuo a amar-te como no primeiro dia! (p.c) Nós os homens somos um bocado…tímidos nessas coisas… de demonstrações… (para o público) não é homens…? Mas elas acham que por não demonstrarmos, já não gostamos delas ou temos outra… não é? (p.c) Estamos fritos…! (p.c) Elas são complicadas… não são…? (p.c) Como é que as vamos entender…? (p.c) São um mistério…exigem de mais… (p.c) Não acham…? (p.c) Mas… temos de as respeitar… e fazer-lhes as vontades…! Bem…aquelas que estão ao nosso alcance! (p.c) Elas podem ter muitos defeitos, mas temos de as respeitar…e merecem…! Não vivemos mesmo sem elas.
BRUXA – Tu amas mesmo?
FEITICEIRO – Outra vez…? Sim, minha Bruxosa… jeitosa… apetitosa…! (para o público) Ai, ai… elas adoram ouvir isto…mas torna-se cansativo para nós, porque temos de estar sempre a repetir… (p.c) E mesmo assim… parece que estão sempre desconfiadas…!
BRUXA – Mesmo com estas coisas na minha cara?
FEITICEIRO (sorri) – Isso…são…rugas, minha bruxinha…!
BRUXA (zangada) – Rugas…? Tira-mas! Se me amas…tira-mas! Já…! Ou atiro-te já pela janela fora!
FEITICEIRO (zangado) – Que disparate. (p.c) Não vou tirar isso, coisa nenhuma.
BRUXA (zangada) – Porquê?
FEITICEIRO (zangado) – Porque não posso! Nem quero!
BRUXA (zangada) – E porque é que não queres?
FEITICEIRO – Porque gosto de ti assim.
BRUXA (zangada) – Mentiroso…! (p.c) Eu estou muito feia…é claro que não gostas de mim assim!
FEITICEIRO (zangado) – Estás a precisar de óculos. É claro que gosto de ti assim.
BRUXA (zangada) – Só estás a ser agradável, porque estou zangada, não é?
FEITICEIRO – Não. Estou só a dizer a verdade! (p.c) Não sei porque duvidas de mim… nunca te menti!
BRUXA (grita, zangada) – Mentiroso! (p.c) Tira-me esta porcaria da cara e dá-me os poderes de volta.
FEITICEIRO – Não! (p.c) Pede-me tudo o que quiseres, menos isso.
BRUXA (zangada)  Porquê?
FEITICEIRO – Porque eu não posso fazer isso.
BRUXA (fula) – Mas que raio! Amas-me, ou não?
FEITICEIRO (zangado) – Sim, amo-te! É por isso que não posso fazer o que me estás a pedir.
BRUXA (zangada) – Mas o que é que tem uma coisa a ver com a outra? (p.c) És feiticeiro…tens poderes.
FEITICEIRO – Mas tu também tens! (p.c) Eu gosto de ti…não é pelos teus poderes…gosto de ti por aquilo que és…não me apaixonei pelos teus poderes…nem pelas tuas rugas! Eu também tenho rugas! Amo-te e quero passar o resto da minha vida contigo! Não é com os teus poderes que quero viver.
BRUXA – Óóóhhhh…que lindo! (p.c) Palavras leva-as o vento… (para o público) É lindo, não é…? E sabe bem ouvir isto…mas nós queremos provas… verdade…mulheres…? (p.c) Acham que ele está a dizer a verdade…? (para o feiticeiro) Mas eu odeio estas coisas na minha cara.
FEITICEIRO – Rugas! Isso chama-se rugas, meu amor!
BRUXA (horrorizada) – Aaaaaaaiiiiiii…Odeio essa palavra…até me dá calafrios ouvi-la… e odeio estas coisas… tira-me isto…por favor…! (p.c) Eu não quero esta porcaria!
FEITICEIRO – Não! (p.c) Eu também as tenho.
BRUXA (zangada) – Mas tu és homem.
FEITICEIRO (zangado) – E tu és mulher…grande diferença…!
BRUXA (zangada) – Nos homens quase não se notam as rugas…mas nas mulheres é diferente…e quando ganhamos rugas…ficamos muito feias…e com medo que vocês arranjem uma gaja jeitosa…mais nova…!
FEITICEIRO (ri) – Que disparate! (p.c) Vocês é que tem a mania que nós, homens, só olhamos para as novas, para as catraias…! (p.c) Isso era enquanto éramos novos…! Chegamos a uma certa idade, essas coisas já não contam para nada…principalmente depois de aturarmos a mesmo mulher anos e anos…! Queremos paz e sossego! (p.c, para o público) Não é homens, aqui presentes…? (p.c, para a Bruxa) Tu odeia-las, mas vais ter de te habituar a elas!
BRUXA (irritada) – Mas eu não as quero! (p.c) Fico muito feia com elas aqui! (p.c) E ao ficar feia…tu não vais gostar mais de mim.
FEITICEIRO (zangado) – Outra vez…?
BRUXA (zangada) – Estás a tentar convencer-me de que gostas de mim…com estas coisas feias na minha cara!
FEITICEIRO (chateado) – Eu não casei contigo pela tua beleza física! Não sei porque estás a fazer tanto alarido por causa de uma coisa tão natural, que toda a gente tem…rugas! (p.c) Olha para as minhas.
(A bruxa olha para o marido, sorri)
BRUXA – Quase nem se notam…! Tu és tão bonito.
FEITICEIRO (sorri) – E tu também és muito bonita. Por fora, e por dentro… (p.c) Eu amo-te minha bruxinha diabólica…tal e qual…como tu és. (p.c) Isso inclui rugas! (p.c) E rugas…não quer dizer que estás velha…só quer dizer…experiência de vida, sabedoria…até devias ficar feliz, porque estás bem…tens saúde, tens tudo no sítio…estás mais madura… e continuas linda…sexy…com rugas…aliás…até parece que estás ainda melhor.
BRUXA (sorri) – Só tens treta! (p.c) Só estás a dizer isso para me animar.
FEITICEIRO – Eu sou algum palhaço, ou bobo da corte, para animar…? (p.c) Eu nunca fui simpático…só sou…sincero.
BRUXA (sorri) – Amas-me mesmo…? (p.c, zangada) Então tira-me estas maldições. 
FEITICEIRO (grita) – Não tiro, já disse! (p.c) Se fosse uma coisa muito feia ou muito má…tirava-te, agora isso não tiro! Eu quero-te assim…como és…e ponto final. (p.c) Esquece que tens rugas…e tu amas-me?
BRUXA – Sim, amor…mas…não queres que eu fique mais bonita?
FEITICEIRO (zangado) – Não! Já tens beleza que chegue assim…não é lá por teres mais rugas que vais ser feia… eu quero-te assim! (p.c) Amo-te com todo o meu coração… com peles penduradas, enrugada, com elas pingonas… gorda… baleia… esquelética… de cabelo preto, branco, cinzento, roxo, vermelho, de qualquer maneira… não me interessa! (p.c) O que me interessa é que o meu amor por ti, continua igual desde o primeiro dia em que te conheci! (p.c) Usa os teus poderes para coisas boas e bonitas…para ajudar os outros… (p.c) o que me importa é o teu coração…e esse sim…nunca deve enrugar…nem o teu amor por mim, deve acabar. (p.c) Por favor…não mudes nada em ti! É assim que eu gosto de ti! (p.c) Só estás a pensar nas rugas…os teus poderes não funcionam bem…claro! (p.c) Mas sabes que eles nunca acabam…podem enfraquecer…mas não acabam. (p.c) Por favor…não voltes a dizer que estás velha! Ou feia! Ou a perguntar se te amo…e a pedir-me para te tirar rugas ou outra coisa… (p.c) Eu quero-te assim. (p.c) Prometo-te que te vou dar mais atenção, e provar-te que te amo como tu és! (p.c) Também me prometes que não falas mais nisso?
BRUXA (sorri) – Prometo.
FEITICEIRO – Tu ainda tens muito para dar, e para ensinar…lembra-te que daqui a pouco temos alunos…e tu precisas de estar bem dessa cabeça!
BRUXA (sorri) – Tens razão!
FEITICEIRO (sorri) – Vamos dar uma volta? Passar uns dias fora daqui…?
BRUXA (sorri) – Excelente ideia…vamos.
FEITICEIRO (sorri) – Sou todo teu! (p.c) Esquece a porcaria das rugas, e lembra-te só de mim, está bem? Minha princesa Bruxosa…?
BRUXA (ri) – Está bem.
NARRADORA – Os dois abraçam-se e vão passear alegremente, como dois adolescentes apaixonados, muitas trocas de carinho, muitas gargalhadas, e truques de magia para aquecer o momento. É assim mesmo, feiticeiro…grande lição…isso sim…é o verdadeiro amor e respeito pela mulher que se escolheu…com rugas ou sem elas…a beleza interior é que mantém acesa a chama do amor…e é possível isso acontecer em qualquer idade…desde que se saiba olhar para o outro com respeito, com sinceridade, carinho e com os olhos do coração! Porque a beleza física sofre alterações ao longo dos anos, mas a beleza interior mantém-se, ou até melhora muitas vezes com o passar dos anos…! Devem tratar a mulher que escolheram, como um ser humano…porque…com rugas, de cabelos brancos, ou mais cheinha…a mulher é sempre mulher! Um ser especial, digno de amor…em qualquer idade…é sempre possível acender ou reacender o fogo da paixão, do desejo e do amor. Maridos…dêem valor à mulher que têm ao vosso lado! Digam às vossas mulheres que as amam, constantemente…e mostrem sem medo e sem vergonha esses sentimentos…! Reconquistem-na todos os dias…com pequenos gestos de carinho e atenção, respeito e dedicação… companhia e compreensão… pequenas surpresas…elas dão muito valor a esses pequenos salpicos de romantismo…redescubram-na todos os dias…elas possuem mistérios e verdadeiros tesouros que se vão ganhando com a idade…respeitem-nas sempre…e as suas vontades! E terão um verdadeiro vulcão ao vosso lado…

FIM.
Lálá 
(6/Setembro/2012)