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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

A rolinha que tinha medo das alturas

      

Foto tirada por Lara Rocha 


   Era uma vez uma rolinha pequenina que andava em terra, não subia às árvores como as outras. Ficava mais no seu ninho. Olhava para as outras que voavam livremente, de forma tão rápida e tão à vontade que ela ficava muito surpresa. 

   Pensava para consigo mesma: 

- Como é que elas conseguem subir tanto, tão à vontade, tão leves, e descem. Será que só eu é que não consigo? Porquê?! 

   As outras rolas ignoravam-na, deixavam estar no chão, gozavam com ela, riam dela, e não percebiam porque é que ela não voava. Os pais da rolinha não admitiam que as outras a gozassem ou rissem dela, e ralhavam-lhes. 

  Elas fugiam rapidamente, os pais da rolinha diziam aos pais das outras que as filhas não tinham nada que gozar com a deles, porque também já foram daquele tamanho, e não voavam, nem por isso foram gozadas.

   Os pais das outras compreendiam, concordaram, diziam que tinham razão, pediam desculpa, e proibiam as filhas de gozar a pequena. Mesmo assim, elas não resistiam e riam-se, já se tinham esquecido. 

   Só de olhar para os ramos altos onde as outras pousavam, a rolinha encolhia-se toda, estremecia da cabeça até às patas e parecia que ficava com frio. Sacudia-se. 

   A rolinha não dizia nada, não respondia às outras, mas ficava triste. Um dia, a mãe disse: 

- Anda cá para cima, filha! Já consegues voar como nós, de certeza! 

- Áhhh…não! Tenho medo. 

- Tens medo? De quê, se nós fomos feitos para voar e andar em terra? Aqui não tem nada de assustador, e voar é muito bom! Tu é que nunca experimentaste, mas está na altura. 

- Anda ver que bonita que é a vista daqui! - diz o pai

- Como é que eu vou para aí ? - pergunta a rolinha a tremer

- Ora...a mãe acabou de dizer! A voar, é claro. Como nós fazemos. Já não és nenhuma bebé. 

- Tenho medo! - diz a rolinha envergonhada 

- Anda! Deixa-te de coisas. Voa...abre as asas e voa. - diz a mãe 

- Óhhh...venham-me buscar. Eu não sei fazer isso. - suplica a rolinha 

   Uma rolinha mais crescida que nunca a tinha gozado, pousa à beira dela no solo, e diz-lhe: 

- Eu sei que tens medo de voar para ali, e mais alto, eu também tive medo, a primeira vez, como tu, não percebia como é que as outras conseguiam voar tão rápido, tão alto, tão à vontade! Eu, daqui de baixo, a olhar lá para cima, onde estão os meus pais naqueles ramos, e os teus ali, até me encolhia toda, tremia da cabeça até às patas. Depois, ganhei coragem, porque queria ver luzes e sítios diferentes, passear pela cidade, ver outras coisas, pousar em varandas e janelas, telhados altos, ver o que há na cidade, de cima, e é maravilhoso! 

  A rolinha sorri timidamente, meia desconfiada: 

- A sério que sentiste medo? 

- A sério! Os nossos pais também sentiram, mas nem sempre nos dizem, para nos encorajar. Nós temos asas, podemos andar no solo, ou voar. Anda comigo! Quando experimentares, não vais querer outra coisa! Quero ajudar-te. Posso? 

- Como é que me vais ajudar? Eu tenho medo! 

- Não precisas de ter medo, nem há razão para isso! Abre as asas, e segue-me. Estás em segurança, tenho a certeza, prometo! Qualquer coisa, eu estou contigo. 

  A rolinha abre as asas cheia de medo. 

- Podes parar de tremer se faz favor? A tremer não consegues voar. 

- Como é que eu faço isso? 

- É só lembrares-te que tens asas, e podes ir onde quiseres, com elas! As tuas asas fazem parte de ti, são seguras, podes confiar nelas, estão cobertas com as penas, e tens a cauda que te ajuda. Podes pousar quando te apetecer, ou quando vires comida no chão. Elas são feitas para te ajudar. Anda! 

- De certeza? 

- Sim! As outras, e os nossos pais também as têm! E sempre souberam disso! Mas no inicio, é claro que sentiram medo, só que não ficaram com medo, percebiam que podiam confiar nas asas e que são seguras. Anda! Eu estou aqui. Um...dois...três…

 A rolinha amiga, põe as asas na amiga, como se estivesse a pegar nela ao colo. 

- Primeiro, vamos abraçadas, mas daqui a bocadinho quero que vás sem mim, está bem? 

- Ahhh...não sei se consigo! 

- É claro que consegues. Tenho a certeza! Eu confio e acredito em ti. Vamos...confia em mim também! 

- Ahhhh...está bem!

- Boa! Primeiro saltita ao mesmo tempo que eu...um...dois...três…

   A rolinha amiga segura-a, e levanta voo com ela, um voo pequenino, do solo, para o primeiro raminho da árvore, quase pegado ao tronco, baixinho. A rolinha voa, mas a gritar. Pousam no ramo. 

- Não precisas de gritar! Estás em segurança, e eu estou aqui! Agora vais tu sozinha, e eu fico aqui. Vai. Um...dois...três… 

 A rolinha abre as asas e grita outra vez, mas conseguiu dar esse saltinho do tronco para o chão. 

- Boa! Estás a ver como conseguiste? (a rolinha amiga, ri e aplaude) Isso mesmo! Agora, anda para aqui, a voar e sem gritar. Voa, só. O gritar não é preciso. 

 A rolinha faz o que a amiga diz, e consegue sem gritar. Aplaude, e convida-a a libertar-se mais. As duas fazem voos juntas. Primeiro, pequeninos, com saltinhos e voos para o chão, os pais aplaudem, riem orgulhosos. 

 Depois, vão subindo para raminhos mais altos, juntas e em separado, a rolinha percebe que a amiga tinha razão, e ganha confiança nela própria, com a amiga sempre a apoiar, a acompanhar o voo, e a incentivar.

 A rolinha está tão feliz, que vai subindo ramo a ramo, a apreciar a paisagem de cada ponto, onde para, até aos ramos onde estão os pais. 

 A rolinha percebeu que realmente voar era muito bom e conseguia fazer o que todas fazem; além de poder confiar nas suas asas. Adorou tudo o que viu, e passado algum tempo já seguia os adultos, as outras, e a amiga para onde iam, sem medo. 

 Os pais agradeceram à amiga, e sentiram orgulho nas duas que se tornaram inseparáveis, davam passeios animados e leves pela cidade, viam coisas bonitas, aplaudiam, cantavam, pousavam no chão e nas árvores, nas janelas, nos telhados altos, iam com os pais. 

  E foi assi  que a rolinha aprendeu a voar, sem medo, com o apoio  e a compreensão da amiga que também sentiu medo no início, mas aprendeu a confiar nas asas, começou com voos pequeninos, e foi subindo aos bocadinhos para ramos mais altos. 

  O medo, para nós também é assim, vamos perdendo um de cada vez, tentando, treinando, com incentivo, ainda melhor, aplausos, confiança de outros em nós, e nós mesmos, com vontade de descobrir, amizade e respeito. 

 A primeira vez, todos sentimos medo, do desconhecido, existem medos que é bom sentirmos, outros, existem, sem querermos, ou sem percebermos como, porque os sentimos. 

  Podemos aprender a lidar com eles, ou a não alimentá-los, se não fazem sentido, e quando percebemos que são exagerados. Mas todos merecem respeito, não devem ser gozados por outros porque cada um de nós, tem os seus medos, e todos os sentimos. 

                                              FIM 

                                       Lara Rocha 

                                      9/Fevereiro/2025 

        

segunda-feira, 13 de maio de 2024

cabelos brancos

 Hoje olhei para umas finas senhoras 

Sentadas no banco de jardim 

Todas tinham cabelos brancos!

Que linda visão…

Sim, não sei se elas gostam, ou não

Talvez os aceitem, 

Ou talvez deem apenas valor ao facto de estar vivas.

Enquanto muitas jovens se preocupam com a aparência 

Tentei ler esses cabelos brancos, 

Mas não consegui.

Porque cada fio branco

contava uma história diferente

cada cabelo branco chorava uma lágrima

de perda, de dor, de saudade

desgosto e solidão…

Ou impotência, pena…

Todos os fios de cabelos brancos

Se falassem

Muito nos teriam a ensinar

A nós, mais novos

Que achamos que sabemos tudo,

Na verdade nada sabemos…

À beira destas senhoras e de outras de cabelos brancos,

A nossa sabedoria é um fio de cabelo branco delas…

Perdido entre milhões de cabelos brancos.

Talvez esses cabelos brancos

Nos contassem serenidade,

Pobreza,

Fome,

Valores,

Sacrifícios,

Muitas lágrimas,

Muitas dores,

Muitas perdas,

Mas também muitas batalhas…

Umas perdidas,

não por falta de luta delas, 

Outras vencidas. 

Muitas cabeças erguidas,

Muito amor para dar,

Muita entrega aos outros…

Áh!

Cabelos brancos…

Um prémio!

Um motivo de felicidade

Pois cada um, conta histórias

Que muito ensinam quem nada sabe da vida!

                                Lara Rocha 

                                17/Março/2014 

sábado, 23 de outubro de 2021

Há sempre uma mão



VOZ-OFF - Se estivermos atentos uns aos outros, há sempre uma mão que nos segura nos piores momentos, e que não alinha nos atos de bullying. Há sempre uma luz que nos mostra que existem pessoas que sabem respeitar as diferenças. 

        Às vezes podem ser os que sofrem de bullying que não deixam essas mão aproximar-se, e segurar nas delas, por medo, porque acham que são todos iguais, porque acham que todos os que gozam com eles/elas têm razão...não valem nada, são fracos, horríveis, maus. Mas há sempre alguém que felizmente é diferente, tem amor, dá amor, respeita as diferenças. 

        Uma rapariga adolescente que sofre horrores na escola, é muito tímida, magra, de baixa estatura. É posta de lado pelos colegas, insultam-na, gozam-na, fazem fofocas sobre ela. Mas há um rapaz adolescente da mesma turma que não gosta nada das atitudes que os colegas têm com ela. 

        Depois de mais um dia de gozos, ela vai para a biblioteca, onde se refugia muitas vezes, para se defender, isola-se para se sentir segura, e porque impõe a si mesma a obrigação de tirar boas notas, o que não acontece pelos seus elevados níveis de ansiedade, e baixa auto-estima.  e está lá o colega que a defende. 

        Trocam olhares, mas rapidamente, a rapariga desvia o olhar para o caderno, triste. O colega que estava noutra mesa, levanta-se, e vai ter com ela.

ELE - Estás aqui? 

ELA - Estou. E tu também. 

ELE - É. Gostas de estar aqui? 

ELA - Gosto! Aqui é um sítio seguro para mim! 

ELE – Eu sei. Tens medo daqueles palhaços não é? 

ELA - É. 

ELE - Posso sentar-me aqui?

ELA – Podes.

ELE - Tens razão. Mas quanto mais medo mostras, mais eles te gozam. Eu não concordo nada com o que eles te fazem, nem gosto, e já lhes disse muitas vezes para te deixarem em paz, mas eles não têm nada da cabeça. Talvez queiram tirar-te da casca, mas não é assim que vão conseguir. (Ele olha-a) Estás bem? (Ela encolhe os ombros sem olhar para ele) Que pergunta! Eu sei que não estás. Eu gostava de falar contigo, um bocadinho posso?

ELA – Ok.

ELE – Eu sei porque é que estás triste! É por causa dos gajos da nossa turma, não é?

        Ela não responde, mas deixa escapar umas lágrimas.

ELA (com raiva) – Eu odeio esta turma. Odeio todas as turmas por onde já passei, acho sempre que vou para melhor, e no ano a seguir acontece tudo outra vez. Gajos palermas, que implicam e gozam comigo, humilham-me. E eu, não sou capaz de responder, sou mesmo idiota, eles têm razão, sou uma fraca. Não sei porque me fazem isso!  

ELE – Eu sei, compreendo-te. Eu também não curto o que eles fazem contigo, tanto é que como podes ver, eu não alinho com eles. Falo com eles, e tal, mas tipo…é só para eles não me excluírem. Mas mais dia menos dia, se eles não te deixam em paz e continuam a fazer cenas contigo, afasto-me deles. 

ELA – Obrigada! Não tens que te afastar deles, eles não implicam contigo, é comigo! A ti, curtem-te! A mim é que não! Eles têm razão! Eu não valho nada.

ELE – Tenho dúvidas que me curtam! Porque dizes que não vales nada? A opinião deles é assim tão importante para ti? O que é que eles sabem da tua vida para dizerem o que quer que seja? 

ELA – É. É isso mesmo, eles não sabem, mas têm razão a dizer que sou trenga, que pareço uma def. mental, que sou feia, que sou bicho, que tenho roupa de pobre e aquelas coisas, que tenho más notas.

ELE – Porque é que dizes que eles têm razão?

ELA – Porque é isso mesmo que eu sou. Sou uma merda!

ELE – Que asneira. Claro que não és. Porque dizes isso?

ELA – Porque sou feia.

ELE – A beleza é muito subjetiva.

ELA – Mas é no que eles reparam. Eles dizem que sou nojenta, sentem nojo de me tocar, de olhar para mim, e dizem que eu tenho uma doença contagiosa.

ELE – Tens?

ELA – Não.

ELE – Como é que sabes que eles têm nojo de ti?

ELA – Eu vejo na cara deles, e eles próprios disseram. E depois aquela cena de eu andar com algumas raparigas, que até se afastaram de mim depois de eles dizerem que sou lésbica.

ELE – (ri) Que ridículos. Eu não estou minimamente enojado contigo. São coisas que acontecem. Eu também tenho algumas, toda a gente tem. Não me preocupa a tua aparência, és bonita, preocupa-me é a forma como eles te tratam. Isso é que me mete nojo. Eu sei que és muito tímida, mas também não te metes com ninguém.

ELA – Que simpático! 

ELE - Não estou a ser simpático, estou a ser sincero. 

ELA - Um dia destes vou desaparecer.

ELE – O quê? Vais desistir de estudar?

ELA – Vou desistir de tudo. Vou-me matar.

ELE – Não faltava mais nada. Nem te atrevas!

ELA – Porque não? Ninguém sentia a minha falta.

ELE – Os teus pais e irmã…muita gente sentia a tua falta. Eu sentiria. 

ELA – Imagino! Não. Ninguém me procura!

ELE - Ai não? Eu vim atrás de ti, não sou ninguém? Obrigada... 

(Ela sorri, envergonhada) 

ELA - Desculpa...foi só da boca para fora. Aliás, não sei porque vieste atrás de mim... 

ELE - Porque quis. Porque me preocupo contigo, e vim ver como estavas! Não te agarres a essas ideias. Eu não vou permitir que faças uma coisa dessas.

ELA – Porque não? Nem me conheces!

ELE – Mas quero conhecer-te. Posso?

ELA – Não sei se vais gostar.

ELE – Isso preocupa-te?

ELA – Claro!

ELE – Porquê?

ELA – Porque eu não presto. Não valho nada, sou feia, nojenta, desajeitada…

ELE – Sim, sim, sim, claro, claro...que desgraça, é por isso que quero conhecer-te! Eu gosto de desafios, E tu és um desafio! Para de dizer asneiras por favor. Deixa-me conhecer-te, posso?

ELA – E para que queres conhecer uma gaja feia? Com tanta rapariga bonita…

ELE - Eu não acredito em nada do que aqueles cromos dizem. Eu quero é ver-te com os meus olhos, conhecer-te, saber de ti, saber como és, estar ao teu lado. Aqueles idiotas não vão mais pegar contigo. Posso?

ELA – Se fazes tanta questão de me conhecer…

ELE – Sim, faço. Baixa a barreira que colocas entre ti e quem está á tua volta.

ELA – Barreira?

ELE – Sim, vejo uma barreira nos teus olhos.

ELA – E que barreira é?

ELE – É essa, de não gostares da tua imagem, e de não te mostrares aos outros. Do que tens medo?

ELA – Medo…de muita coisa.

ELE – Ok, eu estou a falar de medo, aquele medo que constrói a tua barreira.

ELA – Não tenho barreira nenhuma.

ELE – Tens.

ELA – Sou tímida…acho que é essa a barreira de que falas.

ELE – Não dês ouvidos aos gajos. Eles acham que são perfeitos.

ELA – Por isso é que eu vou desaparecer. Assim, eles não me veem mais, nem eu me chateio mais, com mais nada.

ELE – Outra vez, o desaparecer? E eu?

ELA – Tu vais ter mais gajas para conhecer.

ELE – Mas eu não quero conhecer gajas, quero conhecer uma rapariga, uma amiga. Eu sei que és essa amiga quem procuro.

ELA – Como é que sabes?

ELE – Sei. Não sei explicar, mas sei. (Ela sorri) Com licença… tens um sorriso tão bonito, e uns olhos… apesar de tristes, são bonitos.

(Ela sorri timidamente)

ELA – Obrigada. És muito simpático. Mesmo assim, eu vou destruir-me!

(Ele ri)

ELE (sério) – O quê? Nem te atrevas. Eu não vou deixar. Aqueles gajos não vão mais gozar contigo. Eu estarei do teu lado. Posso?

ELA – Vais desperdiçar tempo, mas podes…

ELE – Desperdiçar tempo…? É cada uma…!

ELA – Não sabes nada sobre mim, nem eu sobre ti.

ELE – Mas quero saber, se deixares. Se não gostares de mim, também me podes mandar para o quinto mais velho. Mas pelo menos, deixa-me tentar ver-te, com os meus olhos!

ELA – Está bem.

ELE (sorri) – Obrigado. Serei o teu anjo da guarda. Vou estar do teu lado.

(Toca a campainha)

ELE – Posso ficar à tua beira na aula?

ELA – Podes.

ELE – Obrigado.

            Os dois levantam-se. Olham-se. Ele sorri, ela também. Ele estende a mão, e pega na mão dela. Dá-lhe um beijo na cara, abraça-a, limpa-lhe as lágrimas, ela sorri, e vão os dois a conversar até à sala. Quando os outros da turma começam a implicar com ela, ele defende-a, e afasta-se deles, estando sempre com a sua amiga, apoiando-a, ajudando-a nos estudos e nos testes, indiferente aos comentários dos outros, que a acham diferente. 

        Ele tem amigos fora da escola e apresenta-a a eles, que a recebem muito bem, que se preocupam com ela, e estão sempre prontos a ajudá-la. Ela mudou muito desde que o conheceu, e aos poucos, ele conquistou-a. Há sempre uma mão que segura, há sempre uns olhos que veem o que os outros não veem, há sempre alguém curioso a nosso respeito, por isso, não desistam!

FIM

Lara Rocha


Nota: este diálogo pode ser reescrito por alunos que sofram de bullying por parte de colegas, e dramatizado. No final debate sobre o tema, com pesquisa, ou palestras de especialistas. 







sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

O elefante, as borboletas, a savana e a cidade

          

~
foto de Lara Rocha 

        Era uma vez um elefante enorme, muito pesado, de andar vagaroso que vivia numa savana, mas um dia quis experimentar passear pela cidade. Saiu da savana sem pressa, a apreciar a paisagem, e viu uma borboleta tão bonita a esvoaçar rapidamente à frente dos seus olhos. 

        Ele seguiu-a atentamente com os seus olhos enormes, enquanto a borboleta estava cheia de medo do elefante, e voava aos solavancos, como se estivesse a tremer. Pousou muito próximo dos olhos do elefante, e viu o seu reflexo. O elefante parece que ficou congelado, não se mexeu e ficou a ver o que é que a borboleta ia fazer. 

- Áh...! Já percebi. Olá elefante! - diz a simpática borboleta 

- Olá! - diz o elefante

- O que fazes por aqui? 

- Vou visitar a cidade! 

- Mas tu és gigante, toda a gente da cidade vai assustar-se contigo. 

- Óh, a sério...? O que estavas a ver em mim? 

- É que...eu também tinha muito medo de elefantes, mas quando olhei para os teus olhos, vi que não és mau, como eu pensava. 

- Achas que não? 

- Não. Só és... gigante, mas eu sou pequena, e daí...? Podemos ser amigos na mesma, certo? 

- Áhhhh....ahhh... acho que sim! 

- Mas vejo que estás triste, o que se passa? 

- Óh...deixa lá, não te preocupes comigo. 

- Está bem, não queres partilhar comigo, não faz mal. Anda, vamos passear, queres vir? 

- Sim, vamos. 

            Pelo caminho, os dois conversam, até à cidade. Quando chegam à cidade, o elefante torna-se o centro das atenções de toda a gente, gritam, fogem, fotografam, tentam prendê-lo, ele fica tão nervoso que corre desorientado. 

            A borboleta transforma-o num elefante muito leve, tão leve como se fosse um balão, e voa com a borboleta para se livrar da perseguição das pessoas da cidade. 

- Áaaahhhhh... estou a voar! Não acredito...Mas como é possível? Se sou tão grande, tão pesado...- suspira o elefante 

- Eu soprei-te uma magia, que te pôs muito leve, tão leve como um balão, para poderes sair dali de baixo. Viste como eles são...? Aproveita agora para ver a cidade em segurança. 

- Eles são...muito... estranhos. 

- São, mas já estás a salvo. Agora, olha para ali que bonito..

A borboleta mostra a cidade toda ao elefante, do ar, que fica encantado, enquanto conversa com a sua nova amiga.

Depois de ver toda a cidade, o elefante vê na sua savana, uma enorme correria, gritos, guinchos, saltos.

Todos os animais parecem muito agitados. Muito assustado, pediu à borboleta que o pusesse outra vez como elefante,

e que o deixasse no solo. A borboleta assim fez, e ele aterra no solo. Ao ver todos agitados pergunta:

- O que se passa?

- Áh! Estás aqui!? - diz outro elefante aliviado

- Que susto que nos pregaste... - acrescenta a sua mãe

- Onde estavas? - ralha o pai

- Ficamos muito preocupados contigo, andamos à tua procura. - acrescenta uma tia elefante

- Óh, desculpem. É que fui passear pela cidade! - explica o elefante

- Pela cidade...? Seu irresponsável. - ralha um macaco aos saltinhos, nervoso

- Filho, mas que teimoso. Sempre te dissemos que o nosso lugar não é na cidade, é aqui, na savana.

- A cidade é um perigo para nós.

- Eu sei, desculpem, Pensei que não era assim tão perigosa!

            Os seus pais e outros animais ralham com o elefante, ele soluça, e fica triste. Olhou para cima, e em volta, à procura da sua amiga borboleta. Ela estava a olhar para ele, pousada numa flor bem à frente da sua pata. Ele não a viu. Quando todos os animais voltaram aos seus lugares, e o elefante deitou-se à sombra, olhou para a flor onde estava a borboleta. 

- Áh, estás aqui. - abre um grande sorriso 

- Sim, estou. 

- Pensei que não ia voltar a ver-te. Obrigada, por tudo de há bocado! Como és bonita... que pena não seres um elefante! 

- Áh! Pena porquê? Cada um é como é. 

- Se fosses como eu, poderia casar contigo, ter uma segunda família contigo. 

- Talvez...(ri) se eu fosse um elefante fêmea nem reparasses em mim. 

- Claro que ia reparar...és tão bonita. 

- Sou bonita como borboleta, mas há tantos iguais a ti, e iguais a mim...que...seria igual a ti. 

- Pois...e agora o que vou fazer? 

- Ora... tu ficas aqui, com os teus, e eu vou para os meus. 

- Mas já vais deixar-me? 

- Não...só vou para a minha casa. Mas volto, se quiseres. 

- Claro que quero. Da próxima vez que vieres, vou mostrar-te as coisas bonitas que há aqui. Tu és leve, podes ir a qualquer sítio. 

- Não gostas de ser como és? 

- Não. E sinto-me muito sozinho. Sou um bocado envergonhado, acho que é por isso que não gostam de mim. Eu tento falar com os da minha espécie, mas parece que não me ligam nenhuma. Fico triste, e só me apetece desaparecer. 

- Então foi por causa disso que foste para a cidade? 

- Queria conhecer a cidade, mas sim, também foi para ver se davam pela minha ausência. 

- Óh! Entendo, mas não devias ter feito isso! 

- Achas que fiz mal? 

- Acho! Principalmente porque deixaste os teus pais e todos os teus amigos, muito preocupados. Tenta abrir-te mais um bocadinho, aprende a gostar deles. Talvez eles gostem de ti, mas como és envergonhado, não te obrigam a falar. Se calhar achas que por não gostares de ti, eles também não gostam, mas não é isso. Os teus pais e familiares fizeram-te com amor, tu és parte deles. Eu sou borboleta, mas podia ser outro animal qualquer. É melhor gostares de ti assim como és, porque se não, vais ficar triste. Eu gosto de ti, como elefante, vi nos teus olhos que posso confiar em ti, e que és generoso, posso ser tua amiga.

- Como viste isso? 

- Vi.  Eu tenho amigos de muitas espécies, e diferentes de mim, por isso, eu e tu podemos ser amigos, é muito divertido, e podemos brincar, aprender um com o outro, sorrir, e quando estiveres triste, eu trago outros amigos para brincarmos todos. Agora, tenho de voltar para a minha casa. Em breve voltamos a ver-nos, está bem? 

- Está bem! Obrigada. 

- Até já. 

            A borboleta pousa na bochecha do elefante e dá uns sonoros e repenicados beijos no elefante. O elefante ri, com vontade, e fica tão feliz que até salta, dança sem ter música, corre até ao lago, refresca-se, e convive alegremente com os outros, contando a sua aventura pela cidade com a borboleta. 

Todos ficaram muito surpresos com aquela mudança no comportamento do elefante, mas ao mesmo tempo, muito felizes. Foi uma tarde muito divertida, passada com os amigos. A borboleta ri às gargalhadas, e voa para casa. 

No dia seguinte, foi à savana com mais amigas borboletas, e o elefante sentiu-se tão feliz que aprendeu a gostar dele como era, grande, pesado. Mostra os lugares e recantos mais bonitos às borboletas que gostam tanto e prometeram voltar. 

O elefante percebeu que não era pelo seu tamanho e por ser de uma espécie diferente, que não tinha amigos e que na realidade os outros até gostavam da sua companhia. Viu como os da sua espécie adoravam ser como eram, e os seus amiguinhos sentiam orgulho na espécie, neles próprios. Nunca mais se separou das borboletas. 

                                                                            FIM 

                                                                        Lara Rocha 

                                                                         29/Janeiro/2021 

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

monólogo Mulher deixa-te disso



Mulher...és perfeita! Deixa-te disso.... Disso... dessas coisas que fazes ao teu corpo que já é perfeito na sua imperfeição. Só para que os outros gostem, só para repararem que tens mamas grandes, ou rabo arrebitado e grande. Gosta do teu corpo assim como ele, imperfeito, perfeito! Para quê massacrá-lo com silicone, se és um ser humano e não uma boneca? As bonecas têm o seu corpo, tu tens o teu, em todo o seu esplendor!
Mulher, deixa-te de pensar no que os outros vão pensar. Deixa de pensar se os outros vão gostar de ti. Para de te torturar só porque achas que os outros vão gostar de ti assim, daquela ou de outra maneira, porque alguém que conheces, tem o que tu não tens, e toda a gente gosta. Toda a gente gosta.... Será?
Já pensaste que pode ser só para serem simpáticos e conquistar? Já pensaste alguma vez, que talvez essa mulher que tem o que tu achas que devias ter para gostarem de ti, pode sofrer muito, ou perceber que todos são falsos com ela?
Para quê essa coisa de a outra tem, todos gostam...se, o que ele tiver for de plástico, falso, só para os outros gostarem? Será que essa mulher que achas que é melhor que tu, só porque tem atributos que achas que todos gostam, não sofreu? Será que ela não perdeu a sua identidade? Acredita que sim!
Quando mudas o teu corpo com o qual nasceste, aquele corpo maravilhosamente imperfeito, perfeito, que os teus pais te deram, e o que trabalho que deu fazer-te...o que a tua mãe sofreu para que nascesses...não tiveste trabalho nenhum, deram-te tudo o que tens, o teu pai e a tua mãe, e todos os antepassados, marcaram a sua presença em ti, nesse corpo que tens.
Talvez um dia, ou brevemente sejas mãe. Imagina, teres de passar por tudo o que a tua mãe passou, e o ou a/os teus filhos quererem mudar tudo? Não ficarias triste por isso? Não ficarias magoada? Imagino que sim! As mães sofrem muito, o corpo delas muda completamente para nascermos, e depois de nascermos, e nós vamos dar-lhe como presente a mudança do corpo que ela e o nosso pai fizeram com tanto amor?
Vamos agradecer aos nossos antepassados toda a magia, toda a história, toda a continuidade de geração em geração de muito mais que um mero nome familiar, mudando o nosso corpo, só porque achamos que os outros vão gostar.
Mas, e quem muda coisas no corpo, será que gosta mesmo? Será que sacrificando o corpo perfeito, e tornando-o falso, imperfeito, vai mesmo conseguir conquistar os outros?
Não tenhas ilusões. Não. É claro que não vai. Se queres mudar alguma coisa em ti, muda se a tua saúde está em risco, ou muda o que achas menos bonito, mas para tu gostares!
Para agradar aos teus olhos, não aos olhos dos outros, não lhes faças a vontade, porque muitas mulheres mudam o corpo maravilhoso que sempre tiveram, para consolar olhos gulosos de homens e mulheres invejosos que acham que as relações só existem se houver beleza física, se tiverem um conjunto de características, que só as referenciam para satisfazer o seu ego, sem pensar se essas são mesmo as mais importantes para se construir uma relação!
Não te iludas, mulher, não faças isso, tudo não passa de uma fantasia. O que constrói uma relação verdadeira é o que levas no coração, aquilo que dás, a pessoa que és... e pessoa é corpo, mas é ainda mais alma! Para quê fazer-lhes a vontade... nada disso, tu é que tens as tuas vontades, tu é que tens valor, tu é que dás o teu melhor. Se não gosta, não gosta, paciência. É porque não é para ti, e mereces muito mais!
Quem gosta mesmo de ti, não vai ver se tens mamas e rabo grande, de plástico, de tens rugas, gordura a mais, ou se passas fome para parecer magra! Deixa-te disso! És perfeita assim como és...com todas as características que nasceram contigo! Dá o teu coração, e tudo fora de ti mudará.
O que és, o que dás, vai luzir em todo o teu corpo fantasticamente imperfeito, perfeito. Deixa-te disso, mulher. Disso de usares coisas que toda a gente usa, só porque todos usam, se não gostas, se não te identificas, esquece!
Não importa seres diferente...não é essa diferença de teres ou não teres o que os outros têm, se nem sequer combina contigo, nem te assenta bem, ou se não te traz conforto.
Tu tens os teus gostos, tu tens as tuas vontades, tu tens o teu corpo, com essas formas, diferentes, que te tornam única. A ti, e a todos, embora pensem que todos têm de ser iguais, para serem aceites!
Deixa-te disso, mulher! Ignora comentários. Cada um é como é! Tu és assim, mulher, linda à tua maneira, perfeita na tua imperfeição, guerreira, diferente.
Fica feliz e ainda mais vaidosa por seres quem és, assim, e por não mudares só porque os outros não gostam ou te dizem coisas desagradáveis. Deixa-os com a ignorância deles, tu é que és a inteligente, porque és o que és, és natural, não andas a esconder o que não gostas, só para agradar aos outros, não mudas nada em ti, só porque os outros...é exatamente isso que te torna perfeita!
És perfeita por seres diferente, és perfeita por não mudares o que te deram só porque os outros mudaram, ou querem que mudes, ou acham que devias mudar, ou que tens de ser assim, assado ou cozido... deixa-os falar.
Tu és assim, és o orgulho de ti própria, dos teus pais, de quem te ama, e de quem te valoriza assim! Como és, com o corpo que tens! E mantens a tua posição, fazes as tuas escolhas, tens os teus gostos, és autêntica, és única, assim, és o que és!
Mulher...não estragues o teu corpo, só porque tens rugas, cabelos brancos, peles caídas ou manchadas, peitos pendurados, dobras, pregas, o que for...para quê escondê-las? Para quê tirá-las? Elas também fazem parte de ti, e são igualmente maravilhosas, se o que trouxeres dentro for bonito, puro, sincero, de qualidade.
Tudo o que é natural é maravilhosamente bonito. Quando nasceste, já estavam reservadas para ti, todas essas transformações, se tiveste a felicidade de chegar a uma idade avançada. Muda porque tu queres, muda para ti, muda para tu gostares.
Nas mudanças, a única coisa que importa és mesmo tu! E unicamente tu, porque tu és mulher, tu és única, tu és diferente, e tu és perfeita, com todas as tuas belas imperfeições.
Tens dúvidas? Experimenta desenhar um corpo humano, feminino, ou parte dele, e verás como é difícil, porque é perfeito em toda a sua imperfeição. Até o que trazes dentro não é perfeito, mas só porque tudo funciona bem, já podes considerar perfeito e maravilhoso!
O que interessa é a tua felicidade, e tudo de mágico que podes com as imperfeições do teu corpo, pois quem gostar de ti, de verdade, vai conhecer-te em profundidade, e não em superficialidade, como acontece às amizades e ao que chamam de relações, aqueles encontros corporais fugazes, de olhos iludidos, que depois do fogo de vista, uma vez... ou algumas vezes, com sorte, perdem todo o encanto, porquê?
Porque não olham para lá da superfície. Porque valorizam tudo o que é falso, tudo o que chama a atenção por momentos. Não queiras esses encontros... exige mais, muito mais, e se for verdadeiro, ele vai ter de se esforçar, e vai gostar, mas não facilites o trabalho!
Tu és mulher, tu tens de ser respeitada, e não é só porque eles querem ou gostam que tu tens de ceder, e fazer-lhes as vontades. Desconfia de conquistas rápidas, isso não existe, é só o primeiro momento, e desaparece logo a seguir.
Pensas que se mudares algo, ele vai gostar? Esquece...se mudares o que quer que seja nem vai reparar, vai desfilar contigo, à frente dos outros, para lhes mostrar que conquistou uma gaja boa, gira, que ele é que é que é poderoso! Não lhes dês esse gosto, de exibicionismo...se é isso que ele quer, tu não fazes parte, ele não te merece!
 Mulher, gosta de ti assim. Na tua imperfeição, perfeita! E deixa os outros pensarem o que quiserem. Segue o que tu queres, segue o que gostas, segue o que achas que é o melhor para ti, independentemente do que os outros acham que tens de fazer, que tens de ser. 
Mulher, és tu que importas, não são os outros. És mulher, e só por isso já és perfeita, com todas as tuas imperfeições. A única coisa que é perfeito é o teu orgulho em ti, de seres como és, de seres diferentes, de pensares diferente, e de dares o melhor de ti. Dá-te ao respeito, tu mereces.
        És perfeita...na imperfeição! Aliás, a perfeição não existe. És mulher. O que quer que faças será bem e mal julgado. Se fazes és julgada, se não fazes és julgada, com o «devias», o «tinhas de», «porque fizeste isso», «se fosse eu...». 
         Por isso, faz o que faz sentido para ti, não importa o que digam! O que quer que faças, faz porque queres, faz por amor, faz por amizade, faz porque te faz bem. O que quer que faças de bom ou de mau pelos outros, será sempre bem ou injustamente julgado, por isso, faz o que tem sentido para ti, o que dá alívio, paz ou felicidade. 
         Faz para deixar brilhar a tua luz, haverá sempre alguém que não a suportará, mas não faz mal, não te faz falta! A tua luz é suficiente para ti e para quem gosta de ti. Como és! Deixa brilhar a tua luz, o melhor que há em ti, mesmo com a certeza de que uns vão criticar, e outros gozar ou ignorar, por isso faz o que achas melhor para ti, não porque vão falar de ti, ou ignorar-te. 
       Terás sempre alguém que te reconhecerá. e retribuirá, admirará, mesmo que não seja aquela pessoa a quem deste de ti, mesmo que te julguem, critiquem ou ignorem. Faz o que faz sentido para ti, o que deixa ser quem realmente és, sem máscaras. 
        Só tu e a tua essência importa, nada mais! Sê quem és no teu melhor e quando for preciso, no teu pior! Quem te julga ou ignora também não tem nada de perfeito! Só ainda não reparou como é imperfeito, mas um dia descobrirá, e pode ser que te ache perfeita. 
         

auto-estima e autoaceitação imperfeição monólogo - perfeição orgulho respeito unicidade


 Lara Rocha 
20/Agosto/2018


quinta-feira, 12 de abril de 2018

O coelho de orelhas enormes

 

Era uma vez um coelho com umas orelhas enormes. Apesar de todos os habitantes o gozarem, e rirem das suas orelhas, até lhe chamavam nomes feios, às vezes ficava triste, e não respondia às provocações, logo a seguir lembrava-se que era uma marca que distinguia toda a sua família dos outros coelhos, e até sentia orgulho, ficava feliz, sorria e andava pela floresta como se estivesse a desfilar.
             Um dia, estava um dia tão quente de Verão que quase não se respirava. Um bando de formigas quase desmaiava, estavam a ficar quase torradas e desidratadas. Outros animais passavam por elas e só queriam encontrar sombra, por isso passavam rápido. O coelho passeava-se lentamente, abanava as suas orelhas e assim refrescava-se. Olhou para o bando de formigas, percebeu que estavam a precisar de ajuda, pôs-se de joelhos, inclinou-se sobre as formigas, e abanou-as. As formigas sentiram fresco, e ficaram muito envergonhadas porque também elas diziam mal das orelhas do coelho.
- Venham comigo, vou levar-vos a uma fonte onde se podem refrescar. Abriguem-se aqui debaixo das minhas orelhas ! - Diz o coelho
- Óh, não...não merecemos...nós dizemos mal das tuas orelhas. - diz a formiga chefe
- Não faz mal. Venham, vocês estão a precisar. - Insiste o coelho
             Lá vão as formigas debaixo das orelhas de quem diziam tão mal, envergonhadas, e o coelho leva-as para a fonte. As formigas deliciam-se e refrescam-se com água da fonte, bebem e tomam banho, o coelho abana as orelhas, até faz vento, e as formigas recuperam.
- Muito obrigada, querido coelho! As tuas orelhas abrigaram-nos...
- E refrescaram-nos.
- Obrigada! Muito obrigada, amigo coelho!
- Desculpa-nos. Não vamos voltar a dizer mal das tuas orelhas! 
- As minha orelhas são grandes mas servem para muitas coisas. São o que distinguem a minha família das outras famílias de coelhos. - Diz o coelho
- É verdade! - Dizem todas
- Vão para a sombra! Está demasiado calor, e bebem água.
             As formigas abrigam-se à sombra, e o coelho continua o seu passeio. Ele conseguia passear mesmo com calor, porque as suas orelhas abanavam e refrescavam-no. Num outro dia, de frio e chuva, o coelho passeia e encontra um ninho com passarinhos pequeninos no chão, que quase ficavam congelados e ensopados. Sentou-se no chão junto ao ninho e abriu as suas orelhas, tapando o ninho para que não apanhassem chuva, e cobriu os passarinhos até os pássaros pais chegaram.
- O que estás a fazer, seu malvado? - Resmunga o pássaro pai
- O ninho dos seus filhotes caiu da árvore, eu estava a abrigá-los e a cobri-los, não lhes vou fazer mal. - Explica o coelho
- De certeza que não foste tu que deitaste o ninho abaixo? - Pergunta o pai pássaro desconfiado
- Absoluta! - Garante o coelho
            Os passarinhos confirmam com o chilrear.
- Afinal as orelhas grandes não tem nada a ver com a bondade! - Comenta a mãe irónica
- Pois não! - Diz o pai pássaro.
- Obrigada, coelho! - Diz a mãe
- Óh... - Diz o pai pássaro, triste
- O que se passa, sr. Pássaro? - Perguntou o coelho
- Estou envergonhado, e devo-lhe um pedido de desculpas. - Diz o pássaro pai
- Não estou a perceber! - Diz o coelho
- É que... - começa o pai, e a mãe interrompe:
- É que ele não era muito simpático a falar de si, coelho, mas agora provou-lhe que afinal tem um coração grande.
- Sim, eu sei, entendo...tenho um coração grande como as minhas orelhas! - Diz o coelho a sorrir orgulhoso
- É... ! Desculpe! Que vergonha. - Diz o pai surpreso
- Não se preocupe, eu sei que todos me gozam por causa das minhas orelhas, dizem coisas feias sobre elas, mas eu não me importo, porque elas distinguem a minha família que tanto amo, das outras famílias de coelhos. Tenho orgulho nelas, e são úteis.
- Você, também foi muito útil. - Diz o pai
- Muito obrigada! - Dizem todos
- Quando precisarem de mim, chamem-me! Até já...
- Até já. - Dizem todos
                Os pássaros põem o ninho num sítio mais abrigado e protegem-se do frio. Mais à frente, uns gatinhos pequeninos miam desesperados com a chuva e o frio.
- Venham cá. Abriguem-se aqui, nas minhas orelhas.
                Os gatinhos ficam com medo.
- Venham. Não tenham medo, as minhas orelhas não mordem.
                Os gatinhos metem-se debaixo das orelhas do coelho, o coelho enrola-as nos gatinhos para os aquecer, e abrigá-los.
- Estás à chuva, coelho?
- Não se preocupem. Querem ir para onde?
- Podes levar-nos para a nossa toca, por favor...?
- Claro que sim, onde é?
               Os gatinhos explicam onde é, e ele deixa-os lá. Eles agradecem e quando o coelho sai, cruza-se com borboletas que voam desvairadas, e com dificuldade.
- Abriguem-se aqui... - convida o coelho
               As borboletas agarram-se às orelhas do coelho, ele dobra-as e cobre-as até uma árvore onde elas costumam descansar. As borboletas gostaram tanto das orelhas dele que pediram para brincarem nelas num dia de sol. E o coelho prometeu que iria. Foi o que aconteceu no dia seguinte, que estava sol. Foi uma tarde tão divertida, com as borboletas a andar de baloiço nas orelhas do coelho, ele rebolou com elas na relva, ainda se juntaram às brincadeiras uns grilos e uns gafanhotos que andavam no campo.
             Depois destes dias, todos aprenderam uma grande lição, a respeitar as orelhas do coelho, e sempre que precisavam dele, ele estava lá. Às vezes nem precisavam de pedir, porque andava sempre de um lado para o outro, e oferecia ajuda a quem percebia que estava em apuros. Mais nenhum animal disse mal das suas orelhas enormes, até porque elas serviam de guarda-chuva, guarda-sol, ventoinha, cobertor, baloiço e meio de transporte.
             Realmente, o seu coração era tão grande como as suas orelhas enormes, de quem todos diziam mal, e chamavam nomes feios.

                                                                  FIM
                                                              Lara Rocha 
                                                            12/Abril/2018

sexta-feira, 25 de março de 2016

Amo-te mesmo com rugas (Adultos)





NARRADORA – Era uma vez um casal especial e diferente: ela uma bruxa, e ele um feiticeiro. Viviam numa casa isolada da floresta, e eram felizes à maneira deles…embora sempre a discutir e a resmungar um com o outro, amavam-se e adoravam estar juntos. Certo dia…numa manhã, a bruxa olha para o espelho e assusta-se com a sua própria imagem, pois esta reflectida no espelho dá uma valente e sonora gargalhada…estridente…na cara da bruxa. A bruxa não sabe quem é…nem que a imagem que ela vê no espelho, é ela mesma, por isso dá um grito que abana a casa toda. Os gatos fogem. O feiticeiro que estava descansado na sala a ler, assusta-se e murmura:
FEITICEIRO – Que grito foi este…? (p.c) Pois…já foi aquela bruxa com quem casei…fez alguma…! (p.c) É melhor ir ver…ou…não…não vou nada ver! (p.c) Ela já costuma ter estes ataques de loucura…e aqueles guinchos… (p.c) É…. Bruxa louca… fica para lá com a tua loucura… antes que me transformes numa coisa horrenda…! (p.c) Daqui a pouco vem aqui reclamar que não fui lá vê-la… mas… não me interessa. Já estou habituado! (p.c) Deve ser da idade… está cada vez mais histérica… coitada! (p.c) Tenho que lhe dar um desconto. (p.c levanta-se e vai à porta do quarto, põe-se à escuta) Está tudo bem contigo, bruxinha linda…?
BRUXA (disfarça) – Sim. Está tudo bem… queres entrar…?
FEITICEIRO – Não…! Qualquer coisa, estou na sala.
BRUXA – Está bem. Eu estou aqui…!
FEITICEIRO (murmura e encolhe os ombros)  Eu vi logo… Já lhe passou. Mas pelo sim, pelo não… perguntei… às vezes podia estar com algum problema… sim… porque podia acontecer… pelo grito que ela mandou… até os gatos fugiram. (p.c para o público em tom de confissão, e com alguma pena) Estas mulheres… são muito estranhas… mas… nós não vivemos sem elas, não é? Reclamamos delas... e elas de nós… mas no fundo… queremo-las! (p.c) Além disso, foi a mulher que escolhi… e gostei dela… mas às vezes… põe-me o sal na moleira…! (p.c) O que vale é que a chama do amor… ainda continua viva… Ela não sabe… porque eu ainda não lhe disse… mas… acho que tem ganho mais rugas ultimamente! (p.c) Só que… mesmo assim… eu continuo a achá-la… linda…! Porque afinal de contas… se casei com ela… é porque gostei dela! (p.c) E gostei… (sorri) Apaixonei-me ao primeiro olhar… (p.c) Ela era tão bonita… (p.c) Sabem, homens…? Era daquelas mulheres… boas… jeitosas… sexys… com que qualquer homem sonha… nem que seja só para se sentir poderoso… e dar umas curvas com elas… para desfilar…! (p.c) Na verdade… depois quando mergulhamos nelas… vemos que é só pacote por fora, porque por dentro… não têm nada para nos oferecer… só para nos chupar a carteira…! (p.c) Pelo menos consolam os olhos… (p.c) Mas sejamos sinceros… não é uma gaja dessas que nós queremos mesmo pois não…? (p.c) Apesar de bonitas… e boas… mas elas na verdade não cuidam de nós… não fazem nada nas casas… e… bem… não servem! (p.c) Com a minha mulher foi diferente… como eu ia a dizer… ela era novinha… jeitosa… bonitona… atraente… e… claro… apaixonei-me pela beleza dela… depois… conheci-a a fundo… como pessoa… e olhem… estou com ela até hoje… desde há muitos, muitos anos! (p.c) Eu sabia que ela não ia ter sempre aquele ar… mas… a sua beleza interior é tão grande, que a torna mais bonita por fora. (p.c) E mesmo com rugas… ela continua linda! E como sempre a amei, e amo… respeito-a e valoriza-a… porque ela faz tudo por mim… mesmo quando não sou assim lá muito bom! (p.c) Se ela der mais um grito, vou lá ver…
NARRADORA – O feiticeiro volta a sentar-se e continua a ler e a bruxa está a olhar o espelho intrigada, e pergunta.
BRUXA – Quem és tu?
BRUXA DO ESPELHO – Sou tu!
BRUXA – O quê?
BRUXA DO ESPELHO – A imagem que tu estás a ver… esta que está a falar contigo… és tu!
BRUXA – Mas…eu dupliquei – me foi?
BRUXA DO ESPELHO – Não! Tu é que te estás a ver ao espelho, como fazes todos os dias!
BRUXA – Sim, eu vejo-me todos os dias ao espelho…mas nunca vi.
BRUXA DO ESPELHO – Como nunca me viste? Ao veres-te ao espelho todos os dias, vês-me…vês a tua imagem… e essa imagem… sou eu! Que és tu!
BRUXA – Mas que raio de língua é que tu falas, mulher?
BRUXA DO ESPELHO – A mesma que tu… Português…!
BRUXA – Não deve ser a mesma que eu… porque não estou a perceber nada do que estás a dizer! (p.c) Quando me vejo ao espelho… vejo a minha imagem… linda…de deusa… princesa… elegante… atraente… sexy…como sempre fui… e não…esta coisa feia que estou a ver! (p.c) Tu és horrível…! És casada?
BRUXA DO ESPELHO (ri) – Obrigada pelos elogios. Sim, sou casada…tu és…eu também sou.
BRUXA – Ai, coitado do teu marido…deve ver muito mal!
BRUXA DO ESPELHO (ri) – Usa óculos…só para ler… sabes que com a idade…!
BRUXA – Não tem nada a ver com o meu maridão…ele sempre viu muito bem, e continua a ver…!
BRUXA DO ESPELHO (ri) – Devias levá-lo ao oftalmologista…e tu também devias ir…porque não estás a ver bem.
BRUXA – Não estou a ver bem? Claro que estou a ver bem! Não uso óculos…
BRUXA DO ESPELHO (sorri) – Por estares sem óculos é que não vês, como és feia…!
BRUXA (zangada) – O quê? (p.c) Que palavra odiosa… passo já pimenta com cebola na tua língua…sua porca…imunda…!
BRUXA DO ESPELHO (ri) – Tu é que a vais engolir…!
BRUXA (zangada) – Vamos ver quem é que vai engolir o quê…! (p.c) Mas quem és tu…óh grande ordinária…, feiosa… cheia de coisas…vincas na fronha…
BRUXA DO ESPELHO (ri) – Obrigada…és mesmo adorável…só não te dou um beijo porque estou no espelho…! (p.c) Eu sou uma bruxa…
BRUXA (zangada) – Eu também sou uma bruxa…!
BRUXA DO ESPELHO (ri) – Somos uma bruxa…! (p.c) Não te esqueças que eu sou tu…e tu…és eu.
BRUXA (resmunga ofendida) – Tu bem querias ser igual a mim, porque eu sou muito mais bonita que tu… (p.c) Felizmente… graças a todos os bruxos e bruxas…não temos nada a ver uma com a outra.
BRUXA DO ESPELHO (suspira) – Ai, ai, não me estou a fazer entender…!
BRUXA – De onde vens, óh criatura tenebrosa…?
BRUXA DO ESPELHO (irónica) – Ai, assim até me deixas sem jeito…fico vaidosa! (p.c) Venho daqui…do mesmo sítio que tu!
BRUXA – Tu moras aqui?
BRUXA DO ESPELHO – Claro…!
BRUXA – Onde?
BRUXA DO ESPELHO – Aqui…neste quarto, neste espelho, e nesta casa.
BRUXA (zangada) – Isso querias tu, grande usurpadora…! Maria nabiça que tudo cobiça. (p.c) Porque é que não vais para outro sítio…?
BRUXA DO ESPELHO – Tu é que sabes…! Se tu fores…para outro sítio, eu também vou.
BRUXA (zangada) – Quem é que te deu autorização para estares aqui…? (p.c) Nunca te vi antes, nem te convidei!
BRUXA DO ESPELHO (ri) – Nem tinhas nada que convidar…! As pessoas não se convidam a si mesmas…!
BRUXA (grita, zangada) – Vai-te embora…feiosa…intrometida…! (p.c) Tu queres é ficar com o meu marido…e estás a ver se me confundes a cabeça, para ele achar que estou louca, livrar-se de mim, e ficar contigo, não é…? Confessa…! ~
BRUXA DO ESPELHO (ri) – Eu…? Ficar com o teu marido…? (p.c) Ainda se ele fosse um pedaço de mau caminho, ou um gato…agora…aquele troglodita…? Sinceramente…!
BRUXA (grita) – Vê lá como falas do meu marido! (p.c) Eu bato-te.
NARRADORA – A bruxa tenta fazer uma maldade mas não consegue. A do espelho ri-se. A bruxa fica nervosa e guincha, salta, bate com as mãos no espelho, abana-o, dá pontapés…e a imagem do espelho ri-se às gargalhadas.
BRUXA (grita) – Vai-te embora sua ordinária. Deixa-me em paz! (p.c) És horrível, feia, parvalhona, ainda por cima estás a rir-te da minha cara! (p.c) És tu que me estás a tirar os poderes, não és, sua bruxa maldita? (p.c) Invejosa…Malvada!
BRUXA DO ESPELHO (às gargalhadas) – É! Estás mesmo a ficar velha! (p.c) Olha para essa fronha…cheia de rugas…! (p.c) Sim…! Já foste isso tudo…maldita…invejosa…malvada…horrível…feia! (p.c) Estás a perder os poderes…é normal…estás velha…já não precisas de poderes! (p.c) Mais te vale aceitares isso, e viveres feliz com o teu marido.
BRUXA – Mas que atrevimento… (grita) ordinária! (p.c) Estás cheia de dor de cotovelo…é por isso que me estás a chamar essa coisa feia!
BRUXA DO ESPELHO (ri) – Eu? Com dor de cotovelo…de ti…? (ri) essa é boa! (p.c) A tua época de glória já passou! (p.c) Velha! Carcaça.
BRUXA (nervosa) – Eu desfaço-te!
(Tenta fazer magia, mas não consegue e fica fora dela).
BRUXA DO ESPELHO (ri) – Velha! (p.c) Esquece!
BRUXA (grita) – Eu vou dar cabo de ti!
BRUXA DO ESPELHO (ri) – Porque é que continuas a insistir? (p.c) Já não serves para nada!
BRUXA (nervosa) – O quê? Sua maldita…és tu que estás a acabar comigo!
BRUXA DO ESPELHO (ri) – Eu? Tenho mais o que fazer…! (p.c) Velha…horrível…feia (p.c) Vai descansar que bem precisas!
BRUXA (grita) – Se voltas aqui…não sei do que sou capaz de te fazer…desaparece!
NARRADORA – A bruxa do espelho desata às gargalhadas e desaparece. A bruxa explode de raiva…grita, saltita aos guinchos, tenta fazer magia mas não consegue…olha outra vez para o espelho a medo e vê-se a ela própria.
BRUXA – Mas…o que é que aconteceu? (p.c) Não percebi…! (p.c) Há bocado estava ali uma anormal…a falar comigo…a chamar-me nomes…a dizer que estou velha…e agora…não está ali…? (p.c) Aquela…já é a imagem que vejo todos os dias! (p.c) Mas…estarei a ficar louca? (p.c) Já nem consigo fazer…mas…onde estão os meus poderes…? (p.c) Deve ser aquele palerma do meu marido…que me está a tirar os poderes…! (p.c) Ou…será que me rogou uma praga…? (p.c) Se foi ele…nem sei do que sou capaz de lhe fazer… (p.c) Vou ter que tirar isto a limpo! (olha-se ao espelho) Eu…vou ter que melhorar este aspecto…tenho aqui umas coisas estranhas…foi aquela parva. De certeza, ou então é o maridão que está a ver se vai porta fora…!
NARRADORA – A bruxa vai á sala ter com o marido, carrancuda, chateada e nervosa. Os gatos poem-se de volta dela. Ela acaricia-os e olha para o marido, que viu que ela entrou mas ignorou.
BRUXA (murmura) – Mau…! (p.c) Estarei invisível? (p.c) Não…não pode ser…estou a tocar nos gatos! (p. c, grita) Olá!
FEITICEIRO (sorri) – Olá, amor…minha bruxinha adorada!
BRUXA – Pensei que não me estavas a ver!
FEITICEIRO – Estava nas minhas leituras, e tu entraste silenciosa! Desculpa.
BRUXA – Eu…? Entrei silenciosa…?! (p.c) Deves estar a ouvir um bocado mal…!
FEITICEIRO – Eu? A ouvir mal…? Não! (p.c) Estava só concentrado!
BRUXA – Pois… (grita) Achas que eu nasci ontem?
FEITICEIRO – Não…eu sei que já nasceste há muitas centenas de anos.
BRUXA (Zangada) – Também tu, me estás a chamar velha…? (p.c) Dou cabo de ti.
FEITICEIRO (irónico) – Eu…? A chamar-te velha…? Claro que não, minha bruxinha encantadora…! (p.c) Somos da mesma idade…eu não sou velho, por isso tu também não és! (p.c) Quem te disse que eras velha?
BRUXA (zangada) – Uma estúpida de uma gaja que estava no nosso quarto!
FEITICEIRO – Uma mulher no nosso quarto?
BRUXA (zangada) – Sim…uma mulher! (p.c) Não sei de onde ela veio, nem como ela entrou…só sei que foi muito estúpida comigo! (p.c) Apareceu no espelho e pôs-se lá com uma conversa…que eu…era ela…ou que ela era eu… e depois…riu-se descarada e escandalosamente na minha cara…além de me ter chamado…velha…! (p.c) Maldita! (p.c) Ela disse que vivia ali no nosso quarto, na nossa casa… (p.c) Eu nunca a vi!
FEITICEIRO (ri) – Ora, minha querida…não ligues! Não te preocupes…se calhar sonhaste! E essa rapariga não existe!
BRUXA – Não sonhei. Estava bem acordada! Ela apareceu…só para me provocar e chatear…e humilhar…tentei transformá-la, para a castigar…e não consegui…e ela disse que eu já estava velha…que estava a perder os poderes com a idade!
FEITICEIRO – Não, filha…deves ter sonhado (p.c) Até fui ver o que se passava quando te ouvi gritar, e perguntei-te…lembras-te? Tu disseste que estava tudo bem. Os teus gritos até abanaram a casa toda.
BRUXA – Sim…pois foi…! E nessa altura foi quando entrou aquela palerma.
FEITICEIRO – Deixa lá…não penses mais nisso. Já passou.
BRUXA (zangada) – Tu…ainda gostas de mim?
FEITICEIRO (sorridente) – Claro que sim, meu pimpolhinho demoníaco…! Tu sabes que sim!
BRUXA (sorridente e vaidosa)  Ai…adoro quando me chamas isso…meu monstrão…!
FEITICEIRO (sorridente) – Ai, que doçura…! Monstrão…tão fofinha…! (p.c) Vês…como ainda te amo?!
BRUXA (sorridente) – É! Estou a ver…E…olha para mim… (p.c) Ainda me achas horrivelmente atraente?!
FEITICEIRO (sorridente) – Sim…minha venenosa enrugada…!
BRUXA (zangada) – O que é que tu me chamaste?
FEITICEIRO (sério e embaraçado)  Princesa…foi o que te chamei!
BRUXA – Pois…bem me pareceu! (p.c) Achas-me atraente?
FEITICEIRO – Sim! Muito!
BRUXA (sedutora, sorri) – Óh…meu bonecão, monstrão…rechonchudão…macacão…ursão…bonzão...então se me amas mesmo…põe-me mais nova e devolve-me os poderes.
FEITICEIRO – O quê? Eu vi logo que querias alguma coisa…!
BRUXA (zangada) – Mas que lata…estás a insinuar que quando sou carinhosa contigo…ou quando te faço muitos elogios…é porque quero alguma coisa…?
FEITICEIRO (irónico) – Não… (p.c) Que ideia… eu já te conheço…!
BRUXA (zangada) – Amas-me ou não?
FEITICEIRO – Já te disse que sim!
BRUXA – Então…?
FEITICEIRO – Então, o quê?
BRUXA (zangada) – Faz o que eu te disse…põe-me mais nova.
FEITICEIRO – Mas…tu queres que te ponha mais nova e que te dê os poderes para quê? (p.c) Queres ficar mais nova, para andares aí á caça de outros…?
BRUXA (zangada) – Estás totó…! Já para te aturar às vezes não é fácil…ia agora caçar outros…! Para quê? (p.c) Achas que sou alguma tarada…?!
FEITICEIRO – Não sei…podias querer um mais novato…!
BRUXA (ralha) – Queres que te castigue…?
FEITICEIRO – Não….fica quietinha…!
BRUXA – Fico…quietinha…porquê…? O que é que anda atrás de mim, ou à minha volta…?
FEITICEIRO – Nada…só quero é que não digas mais disparates.
BRUXA – Então se não queres que eu diga mais disparates, põe-me mais nova! (p.c) E escusas de ser cínico…ao dizer que ainda gostas de mim… (p.c) Só dizes isso para ser simpático. Na verdade, sei que já nem reparas em mim…
FEITICEIRO – Mas eu estou a dizer a verdade!
BRUXA – Não estás nada! (grita) Há bocado chamaste-me velha…eu bem entendi. Tenho olhos na cara…sei muito bem que estou com umas coisas novas aqui na cara, e os meus poderes estão mais fracos. (p.c) Só tu podes devolver-mos! (p.c) Foste tu que mos tiraste não foste?
FEITICEIRO – Não! porque faria isso?
BRUXA (resmunga) – Não sei…por não gostares de mim, ou…podes ter medo de mim.
(Feiticeiro dá uma gargalhada)
FEITICEIRO (ri) – Eu…? Medo de ti…? (p.c) Querida…bebeste alguma coisa que não devias… (p.c) Eu gosto de ti.
BRUXA (resmunga) – Como é que gostas de mim?
FEITICEIRO – Porque…casei contigo!
BRUXA (grita) – Isso não é garantia nenhuma…não quer dizer nada.
FEITICEIRO – Não sei porque é que para ti, não é garantia nenhuma…se eu não gostasse de ti, podes ter a certeza que já me tinha ido embora.
BRUXA (zangada) – Já estamos casados há tantos anos…e já há muito tempo que parecemos dois monstros desconhecidos na mesma casa!
FEITICEIRO – Cada um de nós tem uma vida diferente…e trabalha…estamos sempre tão ocupados…que depois não temos tempo para nós!
BRUXA – Mas devíamos ter tempo para nós… (p.c) Mesmo com trabalho! (p.c, suspira) Ai…tenho tantas saudades de quando éramos namorados.
FEITICEIRO – Não estás feliz por estar casada comigo, podes deixar-me.
BRUXA – É claro que estou feliz por estar casada contigo…mas sinto falta, daqueles momentos…bons…só nossos… (sorri) quando éramos namorados!
FEITICEIRO (com pena) – Pois, mas por não termos muito tempo para namorarmos…não quer dizer que não goste de ti, ou não te ame…! (p.c) Eu também tenho saudades dos tempos em que namorávamos, mas assumimos juntos o casamento…já sabíamos que não íamos ter muito tempo para nós…mas a companhia um do outro seria bom.
BRUXA – E é muito boa a companhia um do outro…mas eu queria mais! (p.c) Erramos…em não termos aproveitado mais…tivemos pressa de casar.
FEITICEIRO – Estás arrependida?
BRUXA – Não. Só que queria ter mais tempo contigo…! (p.c) Tu não demonstras há muito tempo que gostas de mim, e que me amas, como acontecia no nosso namoro…que me oferecias coisas bonitas…davas-me muito mimo…flores…nunca mais me deste nada disso. (p.c) Eu era tão feliz!
FEITICEIRO – Eu sei que não tenho sido um marido muito dedicado…ou nada…nem muito presente…! (p.c) Mas meu amor…pensei que não era preciso demonstrar-te…que tu sabias… e sentias o meu amor por ti.
BRUXA – Eu sinto o teu amor por mim…mas…sabes como é…as mulheres gostam sempre de pequenos gestos dos maridos… (para o público) Verdade… mulheres aqui presentes…? Mesmo casadas, nós precisamos de provas dos nossos maridos, não é? E gostamos que eles nos ofereçam pequenos mimos…! (p.c, para o feiticeiro) Sabes, eu gostava que nós os dois voltássemos a namorar… (p.c) Deixássemos o trabalho mais um pouco de lado, e que nos dedicássemos um bocadinho mais a nós… (p.c) Eu sinto que a nossa fogueira está fracota… preciso de a reacender… (p.c) Qualquer relação precisa disso, (para o público) …verdade? (p.c) Não é mesmo isso que queremos, e precisamos… mulheres? (p.c) Eles não percebem mesmo nada de nós, pois não…? (p.c) Para eles, isso não significa nada, mas para nós…é tudo… preenche-nos…! Não é…? (se obtiver resposta…bater palmas e sorrir) Pois…eu sei que vocês me compreendem…mulheres…aqui presentes…! (p.c) Claro…como eles nos dizem…somos todas iguais, não é…? 
FEITICEIRO (sorri) – Já percebi…! (p.c) E tens toda a razão. Mas de uma coisa podes ter a certeza… e não duvides nunca disso… apesar de eu não demonstrar… continuo a amar-te como no primeiro dia! (p.c) Nós os homens somos um bocado…tímidos nessas coisas… de demonstrações… (para o público) não é homens…? Mas elas acham que por não demonstrarmos, já não gostamos delas ou temos outra… não é? (p.c) Estamos fritos…! (p.c) Elas são complicadas… não são…? (p.c) Como é que as vamos entender…? (p.c) São um mistério…exigem de mais… (p.c) Não acham…? (p.c) Mas… temos de as respeitar… e fazer-lhes as vontades…! Bem…aquelas que estão ao nosso alcance! (p.c) Elas podem ter muitos defeitos, mas temos de as respeitar…e merecem…! Não vivemos mesmo sem elas.
BRUXA – Tu amas mesmo?
FEITICEIRO – Outra vez…? Sim, minha Bruxosa… jeitosa… apetitosa…! (para o público) Ai, ai… elas adoram ouvir isto…mas torna-se cansativo para nós, porque temos de estar sempre a repetir… (p.c) E mesmo assim… parece que estão sempre desconfiadas…!
BRUXA – Mesmo com estas coisas na minha cara?
FEITICEIRO (sorri) – Isso…são…rugas, minha bruxinha…!
BRUXA (zangada) – Rugas…? Tira-mas! Se me amas…tira-mas! Já…! Ou atiro-te já pela janela fora!
FEITICEIRO (zangado) – Que disparate. (p.c) Não vou tirar isso, coisa nenhuma.
BRUXA (zangada) – Porquê?
FEITICEIRO (zangado) – Porque não posso! Nem quero!
BRUXA (zangada) – E porque é que não queres?
FEITICEIRO – Porque gosto de ti assim.
BRUXA (zangada) – Mentiroso…! (p.c) Eu estou muito feia…é claro que não gostas de mim assim!
FEITICEIRO (zangado) – Estás a precisar de óculos. É claro que gosto de ti assim.
BRUXA (zangada) – Só estás a ser agradável, porque estou zangada, não é?
FEITICEIRO – Não. Estou só a dizer a verdade! (p.c) Não sei porque duvidas de mim… nunca te menti!
BRUXA (grita, zangada) – Mentiroso! (p.c) Tira-me esta porcaria da cara e dá-me os poderes de volta.
FEITICEIRO – Não! (p.c) Pede-me tudo o que quiseres, menos isso.
BRUXA (zangada)  Porquê?
FEITICEIRO – Porque eu não posso fazer isso.
BRUXA (fula) – Mas que raio! Amas-me, ou não?
FEITICEIRO (zangado) – Sim, amo-te! É por isso que não posso fazer o que me estás a pedir.
BRUXA (zangada) – Mas o que é que tem uma coisa a ver com a outra? (p.c) És feiticeiro…tens poderes.
FEITICEIRO – Mas tu também tens! (p.c) Eu gosto de ti…não é pelos teus poderes…gosto de ti por aquilo que és…não me apaixonei pelos teus poderes…nem pelas tuas rugas! Eu também tenho rugas! Amo-te e quero passar o resto da minha vida contigo! Não é com os teus poderes que quero viver.
BRUXA – Óóóhhhh…que lindo! (p.c) Palavras leva-as o vento… (para o público) É lindo, não é…? E sabe bem ouvir isto…mas nós queremos provas… verdade…mulheres…? (p.c) Acham que ele está a dizer a verdade…? (para o feiticeiro) Mas eu odeio estas coisas na minha cara.
FEITICEIRO – Rugas! Isso chama-se rugas, meu amor!
BRUXA (horrorizada) – Aaaaaaaiiiiiii…Odeio essa palavra…até me dá calafrios ouvi-la… e odeio estas coisas… tira-me isto…por favor…! (p.c) Eu não quero esta porcaria!
FEITICEIRO – Não! (p.c) Eu também as tenho.
BRUXA (zangada) – Mas tu és homem.
FEITICEIRO (zangado) – E tu és mulher…grande diferença…!
BRUXA (zangada) – Nos homens quase não se notam as rugas…mas nas mulheres é diferente…e quando ganhamos rugas…ficamos muito feias…e com medo que vocês arranjem uma gaja jeitosa…mais nova…!
FEITICEIRO (ri) – Que disparate! (p.c) Vocês é que tem a mania que nós, homens, só olhamos para as novas, para as catraias…! (p.c) Isso era enquanto éramos novos…! Chegamos a uma certa idade, essas coisas já não contam para nada…principalmente depois de aturarmos a mesmo mulher anos e anos…! Queremos paz e sossego! (p.c, para o público) Não é homens, aqui presentes…? (p.c, para a Bruxa) Tu odeia-las, mas vais ter de te habituar a elas!
BRUXA (irritada) – Mas eu não as quero! (p.c) Fico muito feia com elas aqui! (p.c) E ao ficar feia…tu não vais gostar mais de mim.
FEITICEIRO (zangado) – Outra vez…?
BRUXA (zangada) – Estás a tentar convencer-me de que gostas de mim…com estas coisas feias na minha cara!
FEITICEIRO (chateado) – Eu não casei contigo pela tua beleza física! Não sei porque estás a fazer tanto alarido por causa de uma coisa tão natural, que toda a gente tem…rugas! (p.c) Olha para as minhas.
(A bruxa olha para o marido, sorri)
BRUXA – Quase nem se notam…! Tu és tão bonito.
FEITICEIRO (sorri) – E tu também és muito bonita. Por fora, e por dentro… (p.c) Eu amo-te minha bruxinha diabólica…tal e qual…como tu és. (p.c) Isso inclui rugas! (p.c) E rugas…não quer dizer que estás velha…só quer dizer…experiência de vida, sabedoria…até devias ficar feliz, porque estás bem…tens saúde, tens tudo no sítio…estás mais madura… e continuas linda…sexy…com rugas…aliás…até parece que estás ainda melhor.
BRUXA (sorri) – Só tens treta! (p.c) Só estás a dizer isso para me animar.
FEITICEIRO – Eu sou algum palhaço, ou bobo da corte, para animar…? (p.c) Eu nunca fui simpático…só sou…sincero.
BRUXA (sorri) – Amas-me mesmo…? (p.c, zangada) Então tira-me estas maldições. 
FEITICEIRO (grita) – Não tiro, já disse! (p.c) Se fosse uma coisa muito feia ou muito má…tirava-te, agora isso não tiro! Eu quero-te assim…como és…e ponto final. (p.c) Esquece que tens rugas…e tu amas-me?
BRUXA – Sim, amor…mas…não queres que eu fique mais bonita?
FEITICEIRO (zangado) – Não! Já tens beleza que chegue assim…não é lá por teres mais rugas que vais ser feia… eu quero-te assim! (p.c) Amo-te com todo o meu coração… com peles penduradas, enrugada, com elas pingonas… gorda… baleia… esquelética… de cabelo preto, branco, cinzento, roxo, vermelho, de qualquer maneira… não me interessa! (p.c) O que me interessa é que o meu amor por ti, continua igual desde o primeiro dia em que te conheci! (p.c) Usa os teus poderes para coisas boas e bonitas…para ajudar os outros… (p.c) o que me importa é o teu coração…e esse sim…nunca deve enrugar…nem o teu amor por mim, deve acabar. (p.c) Por favor…não mudes nada em ti! É assim que eu gosto de ti! (p.c) Só estás a pensar nas rugas…os teus poderes não funcionam bem…claro! (p.c) Mas sabes que eles nunca acabam…podem enfraquecer…mas não acabam. (p.c) Por favor…não voltes a dizer que estás velha! Ou feia! Ou a perguntar se te amo…e a pedir-me para te tirar rugas ou outra coisa… (p.c) Eu quero-te assim. (p.c) Prometo-te que te vou dar mais atenção, e provar-te que te amo como tu és! (p.c) Também me prometes que não falas mais nisso?
BRUXA (sorri) – Prometo.
FEITICEIRO – Tu ainda tens muito para dar, e para ensinar…lembra-te que daqui a pouco temos alunos…e tu precisas de estar bem dessa cabeça!
BRUXA (sorri) – Tens razão!
FEITICEIRO (sorri) – Vamos dar uma volta? Passar uns dias fora daqui…?
BRUXA (sorri) – Excelente ideia…vamos.
FEITICEIRO (sorri) – Sou todo teu! (p.c) Esquece a porcaria das rugas, e lembra-te só de mim, está bem? Minha princesa Bruxosa…?
BRUXA (ri) – Está bem.
NARRADORA – Os dois abraçam-se e vão passear alegremente, como dois adolescentes apaixonados, muitas trocas de carinho, muitas gargalhadas, e truques de magia para aquecer o momento. É assim mesmo, feiticeiro…grande lição…isso sim…é o verdadeiro amor e respeito pela mulher que se escolheu…com rugas ou sem elas…a beleza interior é que mantém acesa a chama do amor…e é possível isso acontecer em qualquer idade…desde que se saiba olhar para o outro com respeito, com sinceridade, carinho e com os olhos do coração! Porque a beleza física sofre alterações ao longo dos anos, mas a beleza interior mantém-se, ou até melhora muitas vezes com o passar dos anos…! Devem tratar a mulher que escolheram, como um ser humano…porque…com rugas, de cabelos brancos, ou mais cheinha…a mulher é sempre mulher! Um ser especial, digno de amor…em qualquer idade…é sempre possível acender ou reacender o fogo da paixão, do desejo e do amor. Maridos…dêem valor à mulher que têm ao vosso lado! Digam às vossas mulheres que as amam, constantemente…e mostrem sem medo e sem vergonha esses sentimentos…! Reconquistem-na todos os dias…com pequenos gestos de carinho e atenção, respeito e dedicação… companhia e compreensão… pequenas surpresas…elas dão muito valor a esses pequenos salpicos de romantismo…redescubram-na todos os dias…elas possuem mistérios e verdadeiros tesouros que se vão ganhando com a idade…respeitem-nas sempre…e as suas vontades! E terão um verdadeiro vulcão ao vosso lado…

FIM.
Lálá 
(6/Setembro/2012)