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segunda-feira, 13 de maio de 2024

cabelos brancos

 Hoje olhei para umas finas senhoras 

Sentadas no banco de jardim 

Todas tinham cabelos brancos!

Que linda visão…

Sim, não sei se elas gostam, ou não

Talvez os aceitem, 

Ou talvez deem apenas valor ao facto de estar vivas.

Enquanto muitas jovens se preocupam com a aparência 

Tentei ler esses cabelos brancos, 

Mas não consegui.

Porque cada fio branco

contava uma história diferente

cada cabelo branco chorava uma lágrima

de perda, de dor, de saudade

desgosto e solidão…

Ou impotência, pena…

Todos os fios de cabelos brancos

Se falassem

Muito nos teriam a ensinar

A nós, mais novos

Que achamos que sabemos tudo,

Na verdade nada sabemos…

À beira destas senhoras e de outras de cabelos brancos,

A nossa sabedoria é um fio de cabelo branco delas…

Perdido entre milhões de cabelos brancos.

Talvez esses cabelos brancos

Nos contassem serenidade,

Pobreza,

Fome,

Valores,

Sacrifícios,

Muitas lágrimas,

Muitas dores,

Muitas perdas,

Mas também muitas batalhas…

Umas perdidas,

não por falta de luta delas, 

Outras vencidas. 

Muitas cabeças erguidas,

Muito amor para dar,

Muita entrega aos outros…

Áh!

Cabelos brancos…

Um prémio!

Um motivo de felicidade

Pois cada um, conta histórias

Que muito ensinam quem nada sabe da vida!

                                Lara Rocha 

                                17/Março/2014 

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

O elefante, as borboletas, a savana e a cidade

          

~
foto de Lara Rocha 

        Era uma vez um elefante enorme, muito pesado, de andar vagaroso que vivia numa savana, mas um dia quis experimentar passear pela cidade. Saiu da savana sem pressa, a apreciar a paisagem, e viu uma borboleta tão bonita a esvoaçar rapidamente à frente dos seus olhos. 

        Ele seguiu-a atentamente com os seus olhos enormes, enquanto a borboleta estava cheia de medo do elefante, e voava aos solavancos, como se estivesse a tremer. Pousou muito próximo dos olhos do elefante, e viu o seu reflexo. O elefante parece que ficou congelado, não se mexeu e ficou a ver o que é que a borboleta ia fazer. 

- Áh...! Já percebi. Olá elefante! - diz a simpática borboleta 

- Olá! - diz o elefante

- O que fazes por aqui? 

- Vou visitar a cidade! 

- Mas tu és gigante, toda a gente da cidade vai assustar-se contigo. 

- Óh, a sério...? O que estavas a ver em mim? 

- É que...eu também tinha muito medo de elefantes, mas quando olhei para os teus olhos, vi que não és mau, como eu pensava. 

- Achas que não? 

- Não. Só és... gigante, mas eu sou pequena, e daí...? Podemos ser amigos na mesma, certo? 

- Áhhhh....ahhh... acho que sim! 

- Mas vejo que estás triste, o que se passa? 

- Óh...deixa lá, não te preocupes comigo. 

- Está bem, não queres partilhar comigo, não faz mal. Anda, vamos passear, queres vir? 

- Sim, vamos. 

            Pelo caminho, os dois conversam, até à cidade. Quando chegam à cidade, o elefante torna-se o centro das atenções de toda a gente, gritam, fogem, fotografam, tentam prendê-lo, ele fica tão nervoso que corre desorientado. 

            A borboleta transforma-o num elefante muito leve, tão leve como se fosse um balão, e voa com a borboleta para se livrar da perseguição das pessoas da cidade. 

- Áaaahhhhh... estou a voar! Não acredito...Mas como é possível? Se sou tão grande, tão pesado...- suspira o elefante 

- Eu soprei-te uma magia, que te pôs muito leve, tão leve como um balão, para poderes sair dali de baixo. Viste como eles são...? Aproveita agora para ver a cidade em segurança. 

- Eles são...muito... estranhos. 

- São, mas já estás a salvo. Agora, olha para ali que bonito..

A borboleta mostra a cidade toda ao elefante, do ar, que fica encantado, enquanto conversa com a sua nova amiga.

Depois de ver toda a cidade, o elefante vê na sua savana, uma enorme correria, gritos, guinchos, saltos.

Todos os animais parecem muito agitados. Muito assustado, pediu à borboleta que o pusesse outra vez como elefante,

e que o deixasse no solo. A borboleta assim fez, e ele aterra no solo. Ao ver todos agitados pergunta:

- O que se passa?

- Áh! Estás aqui!? - diz outro elefante aliviado

- Que susto que nos pregaste... - acrescenta a sua mãe

- Onde estavas? - ralha o pai

- Ficamos muito preocupados contigo, andamos à tua procura. - acrescenta uma tia elefante

- Óh, desculpem. É que fui passear pela cidade! - explica o elefante

- Pela cidade...? Seu irresponsável. - ralha um macaco aos saltinhos, nervoso

- Filho, mas que teimoso. Sempre te dissemos que o nosso lugar não é na cidade, é aqui, na savana.

- A cidade é um perigo para nós.

- Eu sei, desculpem, Pensei que não era assim tão perigosa!

            Os seus pais e outros animais ralham com o elefante, ele soluça, e fica triste. Olhou para cima, e em volta, à procura da sua amiga borboleta. Ela estava a olhar para ele, pousada numa flor bem à frente da sua pata. Ele não a viu. Quando todos os animais voltaram aos seus lugares, e o elefante deitou-se à sombra, olhou para a flor onde estava a borboleta. 

- Áh, estás aqui. - abre um grande sorriso 

- Sim, estou. 

- Pensei que não ia voltar a ver-te. Obrigada, por tudo de há bocado! Como és bonita... que pena não seres um elefante! 

- Áh! Pena porquê? Cada um é como é. 

- Se fosses como eu, poderia casar contigo, ter uma segunda família contigo. 

- Talvez...(ri) se eu fosse um elefante fêmea nem reparasses em mim. 

- Claro que ia reparar...és tão bonita. 

- Sou bonita como borboleta, mas há tantos iguais a ti, e iguais a mim...que...seria igual a ti. 

- Pois...e agora o que vou fazer? 

- Ora... tu ficas aqui, com os teus, e eu vou para os meus. 

- Mas já vais deixar-me? 

- Não...só vou para a minha casa. Mas volto, se quiseres. 

- Claro que quero. Da próxima vez que vieres, vou mostrar-te as coisas bonitas que há aqui. Tu és leve, podes ir a qualquer sítio. 

- Não gostas de ser como és? 

- Não. E sinto-me muito sozinho. Sou um bocado envergonhado, acho que é por isso que não gostam de mim. Eu tento falar com os da minha espécie, mas parece que não me ligam nenhuma. Fico triste, e só me apetece desaparecer. 

- Então foi por causa disso que foste para a cidade? 

- Queria conhecer a cidade, mas sim, também foi para ver se davam pela minha ausência. 

- Óh! Entendo, mas não devias ter feito isso! 

- Achas que fiz mal? 

- Acho! Principalmente porque deixaste os teus pais e todos os teus amigos, muito preocupados. Tenta abrir-te mais um bocadinho, aprende a gostar deles. Talvez eles gostem de ti, mas como és envergonhado, não te obrigam a falar. Se calhar achas que por não gostares de ti, eles também não gostam, mas não é isso. Os teus pais e familiares fizeram-te com amor, tu és parte deles. Eu sou borboleta, mas podia ser outro animal qualquer. É melhor gostares de ti assim como és, porque se não, vais ficar triste. Eu gosto de ti, como elefante, vi nos teus olhos que posso confiar em ti, e que és generoso, posso ser tua amiga.

- Como viste isso? 

- Vi.  Eu tenho amigos de muitas espécies, e diferentes de mim, por isso, eu e tu podemos ser amigos, é muito divertido, e podemos brincar, aprender um com o outro, sorrir, e quando estiveres triste, eu trago outros amigos para brincarmos todos. Agora, tenho de voltar para a minha casa. Em breve voltamos a ver-nos, está bem? 

- Está bem! Obrigada. 

- Até já. 

            A borboleta pousa na bochecha do elefante e dá uns sonoros e repenicados beijos no elefante. O elefante ri, com vontade, e fica tão feliz que até salta, dança sem ter música, corre até ao lago, refresca-se, e convive alegremente com os outros, contando a sua aventura pela cidade com a borboleta. 

Todos ficaram muito surpresos com aquela mudança no comportamento do elefante, mas ao mesmo tempo, muito felizes. Foi uma tarde muito divertida, passada com os amigos. A borboleta ri às gargalhadas, e voa para casa. 

No dia seguinte, foi à savana com mais amigas borboletas, e o elefante sentiu-se tão feliz que aprendeu a gostar dele como era, grande, pesado. Mostra os lugares e recantos mais bonitos às borboletas que gostam tanto e prometeram voltar. 

O elefante percebeu que não era pelo seu tamanho e por ser de uma espécie diferente, que não tinha amigos e que na realidade os outros até gostavam da sua companhia. Viu como os da sua espécie adoravam ser como eram, e os seus amiguinhos sentiam orgulho na espécie, neles próprios. Nunca mais se separou das borboletas. 

                                                                            FIM 

                                                                        Lara Rocha 

                                                                         29/Janeiro/2021 

sábado, 6 de junho de 2015

No jardim do moinho

foto de Lara Rocha 

Era uma vez uma casa num recanto escondido de uma floresta, um antigo moinho de uma família muito rica. Dessa família só uma rapariga ainda jovem quis ficar com o moinho, que todos os mais velhos diziam não servir para nada…achavam que esse moinho não passava de um molho de pedras.
Para essa jovem passou a ser a sua casa, pois ficava muito perto do seu local de trabalho, e assim poupava dinheiro. Mobilou o moinho, com a ajuda dos amigos que lhe deram muitos móveis de que já não precisavam ou não gostavam.
Uns restauraram umas coisas, e reconstruíram outras, outros concertaram cadeiras, mesas, sofás e montaram a cozinha, a luz elétrica, água, lareira, fogão, frigorífico, tinha tudo! O moinho não tinha divisões, como outra casa qualquer, mas ela conseguiu que tudo o que precisava coubesse no espaço que tinha disponível, e ficou maravilhosa.
O moinho tinha um anexo, e outro andar por cima, com um grande e agradável terraço onde a jovem adorava estar, ver a paisagem, descontrair e meditar, ou apanhar sol. Sentia-se muito bem no seu moinho, tinha jardim e horta onde não faltavam quase todos os alimentos que se podem cozinhar e comer, por isso, quase não fazia compras. Os seus pais iam muitas vezes visitá-la ao moinho, almoçavam, passeavam e jantavam e ajudavam-na sempre.
Uma noite ela foi ao terraço porque viu da janela de baixo algo diferente no jardim. No inicio teve medo, mas também não ficava descansada se não fosse ver o que era, e saber se estava em segurança.
De cima, teve a certeza que havia algo de diferente…umas flores que brilhavam no escuro, como os pirilampos.
- Será que estão pirilampos presos ou fechados naquelas flores? Nunca vi…se calhar, como vem chuva amanhã abrigaram-se ali, talvez não consigam voar…! Mas…estão muito quietas e as suas luzes estão acesas.
Viu a sombra dos gatos vadios que ela alimenta, cheirarem as flores de onde se viam as luzes iguais às dos pirilampos mas que não mexiam. Os gatos começam a miar…estão desconfiados.
Antes que ela perguntasse mais alguma coisa, uma bela surpresa acontece…as flores abrem uma por uma, e de cada uma sai uma bailarina pequenina, graciosa e levezinha, com asinhas finas, que se assustam quando veem os enormes olhos dos gatos.
Quando percebem que são os gatos respiram de alívio e mudam de cor a cada pequenino movimento que fazem. A jovem assiste completamente rendida.
- Áh! Mas o que é isto? Estarei a ver bem?
Desce as escadas do terraço e vai para o jardim, junto das flores. Sim…está a ver mesmo bem! As pequeninas bailarinas são mesmo mágicas…de cada flor de onde elas aparecem, ouve-se uma música diferente, e cada bailarina dança ao som dessa música.
Elas fazem lindas danças, espalham luz e cor por todo o jardim, voam de flor em flor e dançam a música de cada uma. A jovem aplaude, e segue todos os movimentos encantadores das pequenas, com um enorme sorriso, toda enternecida e com os olhos muito brilhantes.
São pequeninas fadas que foram enviadas a pedido das crianças com quem a jovem trabalha, que a adoram, e que lhe retribuem todos os dias todo o carinho e atenção que ela lhes dá, com beijos, abraços, desenhos, flores, mimos e mais mimos. Desta vez, o mimo foi enviar fadinhas bailarinas, cheias de luz, para alegrar e fazer companhia à jovem.
A fadinha chefe diz-lhe:
- Olá, boa noite! Viemos alegrar a tua noite e fazer-te companhia, a pedido de umas crianças que conheces muito bem e que querem mostrar-te o quanto te adoram…
E a outra fadinha acrescenta:
- O quanto te adoram e o quanto te agradecem tudo o que lhes dás.
- Já sei quem são! Óh! Que queridas, e queridos…todos os dias dão-me mimos. Dou-lhes o meu melhor e eles merecem…retribuem.
- Verdade! – Dizem todas
- Eles acham que nunca é demais… - Diz outra fadinha
- Obrigada! Tão lindas que vocês são. Adorei ver-vos dançar. Se estiverem com eles, dêem-lhes um beijinho muito repenicadinho como aqueles que lhes dou, com desejos de boa noite e bons sonhos. Adorei a surpresa.
- Daremos o recado! – Garante uma fadinha
- Vamos para lá agora. – Diz outra
- Tomem conta deles e dos seus sonhos. – Pede a jovem
- Fica descansada! – Dizem todas
- Serão sempre muito bem-vindas à minha casa! – Diz a jovem sorridente
- Voltaremos! – Garantem
- Aqui tens flores que adoramos. – Diz outra fada
- São vossas! – Diz a jovem a sorrir
- Até já. – Dizem todas
- Até já. – Responde a jovem
E as fadinhas bailarinas voltam para o quarto das meninas e dos meninos, dão-lhes o recado, e eles até dormem melhor nessa noite. Gostam tanto do jardim à volta do moinho que nessa mesma noite vão lá dormir, outras dormem nas beiradas das janelas do moinho e outras no terraço.
Todas as noites elas dançam para a jovem que as aplaude e segue todos os seus movimentos, às vezes até dança com elas. Elas trazem uma nova luz ao jardim e ao moinho, e uma nova cor e alegria às noites da jovem.

                                                           FIM
                                                           Lálá
                                                     (6/Junho/2015)  


sábado, 1 de fevereiro de 2014

A ESTRELA BONECA DE LATA



Era uma vez uma boneca de lata, muito bonita, mas ninguém gostava dela porque fazia muito barulho. Ela ficava muito triste porque via toda a gente a brincar em grupo, felizes e a rir, e ela…sempre sozinha. Logo que se aproximava dos outros meninos, todos fugiam. Os seus pais já não sabiam o que fazer.
Um dia, estava ela a choramingar na beira do rio, a ouvir a água a cantar docemente, quando passava nas pedrinhas e nas cascatas.
- Óh! Quem me dera cantar tão bem como esta água que passa pelas pedras! Quem me dera andar levezinha…de sapatos…quem me dera não ser assim. Porque é que eu tinha de ser assim!
- Porque reclamas tanto, latada? – Pergunta um sapo do rio
- Latada? Até tu…?
- Óh, desculpa…não te quero ofender!
- Tudo bem, já estou habituada.
- É que eu não sei o teu nome.
- Podias-me ter chamado menina, por exemplo, e depois perguntavas o meu nome! Só reparaste no que sou feita.
- Sim, é verdade. Tens razão, desculpa. Tu és feita de lata.
- Eu sei…não precisas de me lembrar.
- Porque estás tão queixinhas?
- Não estou queixinhas, só estou a desabafar.
- O que é isso que estás a fazer?
- Estou a desabafar.
- E para que fazes isso?
- Para não ficar tão triste.
- E resulta?
- Mais ou menos.
- Então se não resulta, porque fazes isso?
- Eu não disse que não resultava! Resulta alguma coisa…mas continuo triste. Tu também ficas triste?
- Claro que sim. Muitas vezes.
- E o que fazes nessa altura?
- Canto…ou…choro…ou…suspiro…sei lá…muitas coisas.
- E resulta?
- Resulta. E tu como é que desa…b…qualquer coisa…aquilo que tu disseste?
- Desabafo?
- Isso!
- Transformo as minhas lágrimas em palavras!
- Áh! Tens poderes especiais?
- Não. Nem isso.
- Então como é que transformas lágrimas em palavras? É que…que eu saiba, só quem tem poderes especiais é que transforma.
- Não é desses poderes que estou a falar…estou a falar daquelas pessoas como os poetas, os pintores, cantores ou actores e dançarinos, que mostram o que sentem de outra maneira.
- Áh! Estou a perceber! E tu és uma dessas pessoas?
- Não! Sou só uma boneca de lata. Falo em vez de chorar.
- Muito gosto…eu sou um sapo! E porque não choras?
- Às vezes também choro. E tu?
- Com certeza que sim. Mas porque é que estás tão triste?
- Porque todos se afastam de mim…! Não gostam de mim.
- Como é que sabes? Já lhes perguntaste?
- Nem preciso de lhes perguntar, eles mostram.
- Como?
- Todos fogem quando apareço, e não me convidam para brincar.
- Porquê?
- Porque faço muito barulho.
- Fazes muito barulho…como assim?
- Eu sou feita de lata, e ao andar faço barulho.
- Mas é só por isso que eles não gostam de ti?
- Sim. Acho que sim!
- E que culpa tens tu de ser feita de lata? Eu sou um sapo…podemos ser amigos, eu e tu, não?
- Claro que sim. Só se não gostares de mim.
- E porque não haveria de gostar de ti…? Mas…que barulho é que fazes? Ora…anda um bocadinho para eu ouvir.
- Tu queres ouvir o meu barulho?
- Quero.
- De certeza?
- Sim…caso contrário não te pediria para andares.
         A boneca de lata anda um pouco e faz barulho.
- Estás desafinada!
- Desafinada? Eu…? Eu não sou um instrumento de música!
- Tu fazes música…tocas música…ao andar, ao correr…
- Sou uma boneca de lata…
- Que toca música.
- Onde estás a ouvir a música?
- Em ti…vou fazer de ti uma estrela.
- O quê?
- Sim. O teu som…é música! Só precisas de uns pequenos acertos!
- Não estou a perceber.
- Eu sou um sapo…
- Sim, já reparei, e eu…sou uma boneca de lata!
- Bem sei, e depois?
- Depois…tu és música, e eu sou canto!
- Tu cantas?
- Canto.
- Pois…que sorte! Eu não! eu só faço barulho.
- Barulho? Onde está o barulho?
- Em mim!
- Não ouvi barulho nenhum…ouvi…música! Música não é barulho.
- Porque dizes que sou música? Eu não toco, nem canto, nem sou instrumento…ui…sapo…que olhos são esses? Estás bem?
- Estou a pensar…
- Ficas assim quando estás a pensar?
- (grita) Já te viste ao espelho?
(A boneca estremece e encolhe-se)
- Não. Nem sei o que é isso.
- Anda cá!
O sapo puxa a boneca de lata, e leva-a a uma gruta, onde tem um espelho.
- Bem - vinda ao meu estúdio! – Diz o sapo vaidoso e feliz
- Estúdio?
- Sim! É onde me preparo para os meus espectáculos.
- Tu fazes espectáculos?
- Faço. Sou cantor, e tu vais trabalhar comigo!
- Mas…a fazer o quê?
- A acompanhar-me. Tens um som maravilhoso para acompanhar vozes de sapos.
- Estás a ser sincero?
- Muito sincero. Olha para ti…como és bonita!
- (sorri) Obrigada. Eu sou esta?
- Sim! Vamos começar hoje…vou chamar a rapaziada.
         O sapo coaxa e aparecem vários outros sapos, no estúdio.
- Olá! – Diz o sapo
- Olá! – Respondem em coro
- Temos visitas? – Pergunta outro sapo
- Temos um novo elemento na família da banda.
- Um novo elemento? – Perguntam em coro
- Sim. Ora ouçam o som dela. É lindo! Por favor…anda…
         A boneca fica tão feliz que anda e dança livremente, fazendo vários sons diferentes, uns mais suaves, outros mais agudos. Os sapos ficam de boca aberta, maravilhados.
- Ááááááhhhh…! – Exclamam os sapos
         Todos aplaudem.
- Apoiadíssimo! – Diz outro sapo
- Lindo! – Exclama outro sapo
- Maravilhoso…! – Suspira outro sapo
- Vai ser um sucesso! – Diz outro sapo entusiasmado
- Não tenham dúvidas. Bravo, minha querida! Agora, vamos cantar e tu, voltas a dançar, está bem?
- Sim!
         Os sapos coaxam e a boneca de lata dança a vários ritmos, que fazem vários sons e acompanha na perfeição os sapos. Os sapos aplaudem a boneca de lata. Nessa mesma noite, toda a floresta vai assistir ao primeiro de muitos concertos de Verão dados pelos sapos, e pelas cigarras e grilos, acompanhados com as danças e os sons da boneca de lata. O primeiro de muitos que se seguiram. Toda a plateia fica muito surpresa, aplaude de pé, oferecem flores, tiram fotografias, pedem autógrafos, e passam a dar muito valor à boneca de lata. A partir daí, todos querem ser amigos da boneca. O sapo tinha razão…transformou mesmo uma boneca de lata, que todos diziam que fazia barulho, numa estrela, e ele e os outros sapos trataram-na como um elemento da família, com respeito e carinho. Ela era para os sapos…uma mãe…ou uma irmã que os ajudava a cuidar de si mesmos e da casa… de tudo o que fosse preciso.

FIM
Lálá
(31/Janeiro/2014)


sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

AS BOLINHAS

NARRADORA – Era uma vez um dia de Inverno, sem chuva, mas com nuvens muito escuras, numa pequena aldeia muito montanhosa e estava um vento gelado. As crianças da aldeia estavam de fim-de-semana, e os adultos foram trabalhar para o campo. Entretanto, nas nuvens há uma grande agitação. Elas têm uma tradição de antes do Natal, largar umas bolinhas muito especiais em aldeias montanhosas, para alegrar os habitantes, que vivem mais isolados. Os habitantes da montanha não sabem dessa tradição, nem sabem como aparecem, mas ficam muito felizes quando recebem as bolinhas. É uma prenda dos antepassados que aqui já viveram, e que agora são estrelas. A nuvem chefe pergunta…
NUVEM CHEFE – Está tudo pronto, meninas?
TODAS (gritam) – Sim!
PORTEIRO – As portas também estão em condições! Posso abrir?
NUVEM CHEFE – Quando eu disser o três!
NARRADORA – Elas estão ansiosas e felizes para descer.
NUVEM CHEFE – Um…dois…três…largar!
NARRADORA – As nuvens abrem uma porta. Na terra aparece um lindo e enorme arco-íris, atrás deste, aparece outro, outro, outro e mais outro…muitos arco-íris…uns maiores, outros mais pequenos, mas todos lindos, brilhantes, luminosos, com estrelinhas.
CRIANÇA 1 – Olhem…o céu está cheio de riscas.
CRIANÇA 2 – Não são riscas, são meios círculos.
CRIANÇA 3 – São arco-íris.
TODOS – Áhhhh!!!
SRA 1 – Tantos…
TODOS (sorriem) – Que lindos!
SRA 2 – Que grande artista que é a Natureza…maravilhoso! Como é que ela consegue fazer aquilo…
SRA 3 (sorri) – Lindos!
SR – Acho que é melhor irmos para dentro…vai chover!
NARRADORA – Quando começam a entrar nas casas, as nuvens abrem as portas e largam milhões de bolinhas, umas maiores, outras mais pequenas, umas são transparentes, outras cheias de cores…mas todas são de comer, com um sabor irresistível. Umas são moles, outras têm líquidos doces. As bolinhas descem pelos arco-íris, umas transparentes que ganham as cores por onde passam, como se fossem escorregar num escorrega de crianças. Os arco-íris parecem uns colchões de molas, como no circo, paras os trapezistas, porque saltam e caem na relva do chão. Os habitantes não querem acreditar no que estão a ver.
SRA 3 – Mas o que é que está a acontecer?
SRA 2 – Está a cair o céu?
CRIANÇA 1 – As nuvens estão a desfazer?
CRIANÇA 2 – Os arco-íris estão a lançar bolas…
SR 1 – Não são os arco-íris, nem as nuvens, nem nada!
SRA 4 – Alguma coisa é! Isto não é normal.
SRA 1 – Ai, valha-me Deus…é o fim do mundo.
SR 1 – Só se for na tua cabeça!
JOVEM 1 – Eu acho que é granizo!
JOVEM 2 – Granizo? Tão leve? Huummm, não!
MÃE 1 – Isto não é água!
JOVEM 1 – Mas quando aparece o arco-íris na terra, é sinal que vai chover e as nuvens não enganam!
CRIANÇA 1 – Esta é uma chuva de bolas…olha Mãe…
MÃE 2 – Mas que bolas são estas?
MÃE 3 – Que coisa mais estranha! Nunca vi uma coisa destas.
CRIANÇA 2 – Quem manda isto?
SRA 3 – Porque é que isto está a acontecer?
SR 2 – Isto deve ser um castigo da natureza pela poluição.
SR 4 – Esta é aquela chuva que há todos os anos por altura do Natal!
TODOS – Áhhh! Pois é!
JOVEM 2 – Estamos quase no Natal…
SRAS – Sim, é verdade!
SR 3 – As do ano passado não podem ser, porque já as comemos…estas são outras!
SRA 4 – Mas será que estas são de comer?
SR 4 – São!
NARRADORA – Continuam a cair bolas e mais bolas, de todas as cores. Os habitantes apanham-nas alegremente, provam algumas e guardam as outras.
TODOS – Huummm…que boas!
CRIANÇA 1 (feliz) – Tantas cores…
CRIANÇA 2 (sorri) – E sabores!
CRIANÇA 4 – Estas são molinhas…Huummm…que delícia.
CRIANÇA 3 (ri) – São doces! E um bocadinho duras.
SRA 1 – Estas são salgadas.
SRA 2 – Estas são doces, mas têm uma travazinha amarga. São boas.
SR 2 – Estas sabem a morango.
SR 4 – Estas sabem a tuti-fruti.
MÃE 1 – Hum, estas sabem a pipocas!
NARRADORA – Vão a casa e enchem sacos e mais sacos com as misteriosas bolas de comer que caíram das nuvens e dos arco-íris, enviadas pelos antepassados, que observam e sorriem orgulhosos das nuvens.
ANTEPASSADO 1 – Que bom, como é bom vê-los felizes!
TODOS (sorridentes) – É!
ANTEPASSADO 2 (sorridente) – É uma recompensa por se lembrarem de nós, o ano todo, e por cuidarem tão bem do que deixamos.
ANTEPASSADO 3 (sorridente) – Bem merecem! Está tudo fantástico…! As crianças muito educadas e todos são trabalhadores, amigos.
ANTEPASSADO 4 (sorri) – Esta é a verdadeira felicidade…no seu estado mais puro…a felicidade nas pequenas coisas, na simplicidade das ofertas…!
(Na Terra todos olham para o céu)
SR 1 – São os nossos antepassados, de certeza!
SRA 1 – Sim, não tenho dúvidas disso.
SRA 2 (sorridente) – Eu também acho…um presente tão especial, e tão simples, tão bom…vindo das nuvens e do arco-íris…só pode ser de alguém especial.
SRA 4 – Sim, e são mesmo especiais…são as estrelas que olham por nós lá de cima!
TODOS – É! Muito obrigado!
SR 3 (sorri) – Até fico emocionado…!
SR 2 – Esta é a melhor lembrança que lhes podemos dar: a união, a amizade entre nós, o carinho, a família, o cuidado, a atenção, a dedicação e o respeito!
MÃE 1 – Sim, é verdade! A boa semente deles, perdura até hoje.
MÃE 3 (sorri) – E está aqui…por toda a montanha…em cada um de nós!
TODOS (sorriem) – Verdade!
(Todos aplaudem, abraçam-se uns aos outros, sorriem e mandam beijos para o céu. Nas nuvens, os antepassados sorriem felizes e orgulhosos, e retribuem as palmas).

FIM
Lálá
(23/Janeiro/2014)