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domingo, 12 de setembro de 2021

O saquinho surpresa


     

   Era uma vez um grande campo de cultivo variado, onde sobrevoou um pássaro enorme, de uma espécie rara, e largou um saco grande, no solo, deixou-o aberto e levantou voo. 

    Logo que pousou no chão, saíram do saco doze coelhinhos de várias cores, que correram pelo campo fora entre as plantações.

    Estavam com tanta fome e cheirava-lhes tão bem que comeram algumas cenouras, folhas de nabos, couves, erva, beberam água fresca de uma fonte, e procuraram tocas, que encontraram rapidamente em casotas feitas de palha.  

   Dormiram até ao dia seguinte. e quando os agricultores chegaram nem queriam acreditar no que estavam a ver. 

     Parecia que o campo tinha sido invadido por centenas de toupeiras esfomeadas. De repente veem na terra seca e húmida, marcas de patas de coelho, por todo o lado, e o saco enorme. 

      Como é que aquele saco foi lá parar? E onde estava, os coelhos? Correram todo o campo, e encontraram os coelhinhos nas tocas. 

      Apesar de estarem muito zangados com a destruição que os coelhos provocaram, ficaram enternecidos com eles, e sentiram pena deles.         Quando os coelhos os viram ficaram assustados e tremiam de medo, mas os humanos foram muito queridos com os animais. Acariciaram-nos e levaram-nos ao colo para sua casa. 

    Deixaram-nos ao ar livre e à noite recolheram-nos para os proteger do frio, dos animais selvagens onde já estavam outros coelhos e com quem construíram uma grande família.  

        Livraram-se de ser vendidos ou cozinhados, e viveram num lugar seguro, onde eram alimentados e acarinhados. 

        Afinal o saco perdeu o mistério...era um saco surpresa com coelhinhos, largados por uma ave para os proteger. 

     E vocês? Se encontrassem um saco misterioso, o que teria? Podem deixar as respostas nos comentários.  

                                                                                       FIM 

                                                                                           Lara Rocha 

                                                                                    11/Setembro/2021 

sexta-feira, 15 de abril de 2016

a descoberta do gato

         

 Era uma vez um gato que vivia numa casa com uma família muito numerosa. De entre os filhos do casal, havia um rapaz que adorava pintar e desenhar, e tinha muito jeito. O gato recebia mimos de toda a família mas tinha uma relação mais próxima e mais especial com o rapaz que pintava. 
         Os dois ficavam na varanda fechada, espaçosa e envidraçada, quente, e com lareira que às vezes estava acesa. O rapaz sentado em frente ás telas, umas atrás das outras, de volta das tintas, e ás vezes parado a olhar para elas, talvez em busca de inspiração, e mergulhado nas cores, nos seus sonhos, desejos, imaginação e fantasias, que punha nas telas.
       O gato circulava pela varanda, umas vezes dormitava, outras vezes estendia-se em cima das almofadas que estavam no chão, outras vezes senta-se num cadeirão e parecia o dono daquilo tudo, quando tinha mais frio, deitava-se nas mantas aos pés da lareira e dormia.
          Mas o que ele gostava realmente...era de ver o rapaz a pintar. Seguia todos os movimentos, ficava em suspenso, e a sua cabeça acompanhava os braços do pintor...isto fazia-o tentar imaginar o que ia sair dali, parecia que era o gato que estava a desenhar ou a pintar. Muitas vezes acertava! E ficava encantado...quase hipnotizado com a beleza dos quadros do seu amigo humano. Miava, enroscava-se nas pernas do rapaz, ele pegava no gato ao colo para ver melhor, e perguntava-lhe sempre o que achava. 
       O gato não usava palavras, mas apreciava e transmitia isso ao dono de outra maneira, que ele entendia muito bem. Era só elogios. O gato imaginava como seria bom pintar, pois o seu dono ficava feliz sempre que pintava...e tinha um enorme desejo de experimentar, para ver se era fácil ou difícil, se conseguia fazer coisas tão bonitas como ele. 
          Mas como é que ele ia fazer isso? Não podia falar... Nem de propósito, um dia, o rapaz atirou uma folha para o chão, num momento em que estava muito zangado, e também caíram pincéis,e tintas. O gato nem queria acreditar...e num impulso começou a experimentar, imitando todos os movimentos que tinha visto o seu dono a fazer enquanto pintava. 
         O rapaz ficou a apreciar...o gato estava tão absorvido na pintura com o seu dono, que nem reparou que estava a ser visto. Pintou uma bela gata, muito perfeita, parecia quase uma fotografia. O dono ficou espantado, aplaudiu-o, o gato ficou assustado e depois riu-se...miou, como que a pedir desculpa, mas o dono ficou deliciado, achou lindo, maravilhoso e perfeito. O gato tinha acabado de descobrir um novo talento e pôde perceber nesse momento, como é que o seu dono se sentia. Desde esse dia, o seu dono pintava em conjunto com o gato, e quando não estava inspirado, o gato inventava sempre alguma coisa nova...Mas que grande artista! Passado uns tempos, já tinham tantos quadros, que quase não tinham espaço para eles, então foram vendê-los para ajudar a família. Eram quadros tão especiais que desapareciam no mesmo dia, e porque havia pessoas que não acreditavam que tinha sido o gato a pintar, o dono punha-o a pintar diante das pessoas, tudo o que elas quisessem. Elas ficavam sem palavras...aplaudiam, tiravam fotografias, e pagavam os quadros. O dono e o gato não tiveram mais sossego, mas era algo que eles adoravam fazer, tinham esse dom, e ajudaram mesmo muito a família. Nem o gato sabia que tinha jeito para a pintura...foi uma descoberta mágica! 
E se vocês tivessem um gato pintor...ou um gato que aprendesse os vossos talentos? Será que ele aprender alguma coisa convosco, ou ensinar-vos alguma coisa? 
Nós também somos assim...às vezes só descobrimos os nossos talentos para certas coisas, sem estarmos á espera. Experimentamos e descobrimos...e com os nossos amigos também! Não é? Já aprenderam coisas novas com os vossos amigos? Quais? Coisas que não sabiam que gostavam, ou que tinham jeito? 

Fim 
Lálá 
(15/Abril/2016) 

sexta-feira, 25 de março de 2016

As cores do Mundo de Miguel (Adolescentes e adultos)

NARRADORA - Miguel era um adolescente, que vivia triste e deprimido. Vestia quase sempre roupa preta e isolava-se. Vivia numa casa sozinho, longe da família. O seu mundo interior era qualquer coisa, menos colorido e bonito…era preenchido por preto e branco, cinzento. Um dia, alguém bate à sua porta. Ele vai ver quem é. É um rapaz que ele não conhece com um bebé ao colo. Ele abre a porta.
MIGUEL - Olha, se vens pedir dinheiro, esquece…não tenho! Com licença.
(Tenta fechar a porta, mas o rapaz segura-a com o pé)
SÉRGIO - Espera…antes de me fechares a porta na cara, por favor ouve-me.
MIGUEL - Está bem, diz lá.
SÉRGIO – Esta bebé, é tua filha. Pediram-me para a entregar aqui.
MIGUEL (exaltado) – O quê? Não pode ser…isto é uma armadilha. Só pode…!
SÉRGIO – És o Miguel não és?
MIGUEL – Sim…mas há muitos gajos com esse nome.
SÉRGIO – Certo…mas…o nome Carla…diz-te alguma coisa, certamente.
MIGUEL – Por acaso, era o nome da minha ex…mas nunca mais nos falamos, nem nos vimos, desde que voltei para França e agora para aqui outra vez.
SÉRGIO – Pois. Ela ficou grávida da última vez que se encontraram.
MIGUEL (assustado) – Não pode ser!
SÉRGIO – Sim, é verdade.
MIGUEL (em pânico) – Não…ela não me disse nada. Não pode ser…não pode ser!
SÉRGIO – Não te disse nada porque tinham acabado, mas ela é a minha namorada agora…e disse que tu eras o pai da filha dela…ela só não te disse antes porque sabia que não ias aceitar, e não te queria prender! Pediu-me para que tomes conta da vossa filha.
MIGUEL – É…uma menina?
SÉRGIO – Sim!
MIGUEL – Mas ela tem de ficar com a mãe…
SÉRGIO – A mãe não tem condições!
MIGUEL – E até parece que eu tenho…
SÉRGIO – Sim, tens mais que ela.
MIGUEL – Deves estar a gozar.
SÉRGIO – Por favor…pelo menos, tem pena da menina, da vossa filha. Se não ficares com ela, ela vai para uma Instituição, ou para um centro de adopção.
(Miguel fica pensativo)
MIGUEL – Entra…por favor…eu preciso de pensar uns minutos.
SÉRGIO – Claro.
(Ele entra com a bebé, Miguel olha para a bebé)
MIGUEL (suspira) – O que é que eu vou fazer contigo, agora…? Ai…a minha vida…! (p.c) E agora…como é que nos vamos sustentar. (p.c) Eu não percebo nada de bebés, nem tenho os meus pais comigo…eles emigraram. Porque é que aquela maldita não falou mais comigo, nem me disse mais nada…?! E aparece de repente…uma bebé…que diz ser dela, e minha.
SÉRGIO – E é. Ela está doente da cabeça…pode matar a vossa filha.
MIGUEL – O quê? Não…nem pensar.
SÉRGIO – Infelizmente é verdade. Ela está fora de si…está…gravemente doente da cabeça. Ela rejeita a bebé, eu protegi muitas vezes esta inocente de ser cortada, atirada pela janela…e outras maldades que ela queria fazer-lhe.
MIGUEL (em pânico) – Ai, não! Ela não seria capaz…é mulher.
SÉRGIO – Mas está doente…perturbada…é capaz de tudo. A vossa filha corre perigo.
MIGUEL (nervoso) – Como é que se pega nisto…?
NARRADORA - Sérgio passa-lha para o colo, explica-lhe como se põe os braços, e outras indicações importantes. Miguel olha para a bebé, e começa a chorar, depois sorri ligeiramente, enternecido.
MIGUEL – A minha filha…filha…filha…! Eu…sou pai…!
SÉRGIO (sorri) – É uma bebé linda.
MIGUEL – Sim, é verdade.
SÉRGIO – E então…vais ficar com ela?
MIGUEL – Sim! Não tenho condições, mas também não tenho coragem de a deixar ir. Ela não tem culpa de ter nascido daquela mulher…sou pai.
SÉRGIO – Hás-de arranjar, de certeza! Desculpa ter aparecido assim, de repente sem avisar, mas não tive outra solução. Cuida bem da menina…!
MIGUEL – Sim, cuidarei! Os pais fazem tudo pelos filhos, mesmo quando não tem condições…pelo menos foi o que os meus pais sempre me ensinaram, e sei que é verdade, porque eles também sempre fizeram tudo por mim, e fazem! Desde que haja sempre amor e responsabilidade…! O resto…resolve-se!
SÉRGIO – Sim, concordo…mas tenho a certeza que a Carla também a ama.
MIGUEL – Não…se a amasse não a mandava para mim.
SÉRGIO – Ela ama-a, por isso é que a mandou para ti…que és o pai, e ela sabe que contigo a bebé estará bem!
MIGUEL – Louca…
SÉRGIO – Doente!
MIGUEL – Um dia vou ter uma conversa com ela.
SÉRGIO – Agora não, por favor…! Isso acabaria com ela de vez, aliás já o tentou fazer muitas vezes, mesmo grávida.
MIGUEL – Então a minha filha está mesmo bem é comigo!
SÉRGIO – Com certeza. Tu serás capaz de cuidar bem dela, e estará protegida… ela terá o teu amor, e com a mãe, infelizmente não terá nada disso.
MIGUEL – Porque estás com ela?
SÉRGIO – Porque a amo, e ela precisa de mim…não vou abandoná-la quando ela mais precisa.
MIGUEL – Ama-la ou tens pena dela?
SÉRGIO – Amo-a! Ela está doente…qualquer um de nós pode ficar doente, a qualquer momento…e de certeza que nessa altura queremos ter alguém que nos ame, ao nosso lado!
MIGUEL – Eu já lhe tinha virado as costas há muito…também não sou muito fino…ela sabe que eu também tenho uns parafusos a menos.
SÉRGIO – Agora dizes isso, mas se estivesses no meu lugar, talvez também ficasses do lado dela.
MIGUEL – Não…não estava para aturar as loucuras dela.
SÉRGIO – Mas pelo menos protegias a tua filha.
MIGUEL – Isso claro que sim! Porque a bebé não tem culpa, não pediu para nascer…nós é que fomos inconscientes.
SÉRGIO – Estás arrependido?
MIGUEL – Em parte sim, claro…porque…nunca pensei que ela ficasse grávida, e que não me dissesse. Tínhamos que ter tomado precauções.
SÉRGIO – Se calhar pensou que a rejeitasses, ou que fizesses algum mal, quando soubesses…!
MIGUEL – Jamais faria isso. Se ela me tivesse dito, eu tinha ficado lá com ela.
SÉRGIO – Olha, não sei, mas também agora não interessa estar a falar no passado. O que interessa é que tenhas força para cuidar dessa criança inocente.
MIGUEL – Sim, terei! Espero que sejam felizes, os dois.
SÉRGIO – Obrigado. Eu vou deixar-te os meus contactos para ir sabendo dela, se não te importares.
MIGUEL – Claro…
SÉRGIO – Vou buscar ao carro, as malas dela.
MIGUEL – Ok…
NARRADORA – Enquanto Sérgio tira as muitas malas e sacos da menina, Miguel olha deliciado para a bebé, no seu colo, e sorri.
MIGUEL (sorri) – Filha…! Minha filha…! És linda. O teu pai é um ignorante…mas vai aprender a cuidar de ti. Não te vai faltar nada!
NARRADORA – Sérgio leva tudo para casa do Miguel, os dois despedem-se.
SÉRGIO – Obrigado. Tenho a certeza que ela estará muito bem entregue contigo. Se precisares chama-me.
MIGUEL – Ok. As melhoras da Carla, e felicidades para vocês os dois. Diz-lhe que ela nunca mais verá a filha.
SÉRGIO – Bem…até breve.
MIGUEL – Até breve.
NARRADORA – Sérgio sai, e Miguel senta-se com a bebé ao colo, deliciado. O seu mundo preto, cinzento e branco, ganhou alguma tonalidade colorida. Ele está nervoso, inseguro, com medo, perdido… Liga aos pais e conta o que aconteceu. Os pais ficam surpresos, mas felizes e poucos dias depois regressam a Portugal para ajudar o filho a cuidar da bebé e para a conhecer. Entretanto, Miguel vai-se habituando, e segue as instruções da mãe pelo telefone, para os cuidados primários da bebé, alimentação, higiene, roupa…A bebé é uma doçura, e Miguel enche-a de mimos, carícias e beijos. A bebé sorri muito, e ele está muito mais feliz.
MIGUEL – Nada te vai faltar, filha.
NARRADORA – Os pais chegam, e ajudam a cuidar da criança. O mundo de Miguel ganha muita mais cor. Num instante, Miguel torna-se um verdadeiro pai, muito dedicado, preocupado, feliz. A mãe e o pai são uns avós babados, e fazem tudo pela menina, e pelo filho. A menina cresce, e é o orgulho da sua família. Miguel deixa de viver num mundo de cor preta, cinzenta e branca, e passa a viver num mundo cheio de cor, brilho, luz e alegria, pintado pela presença da sua filha na sua vida. Há acontecimentos que mudam as cores do nosso mundo interior…umas vezes pintamo-lo de cores escuras, outras vezes, acontecem coisas, mesmo as mais simples e mais pequeninas, que de um momento para o outro, enchem o nosso mundo de cor, luz e alegria. O importante é nunca desistir, e mudar constantemente as cores escuras do nosso mundo interior. A qualquer momento tudo pode ser diferente, e as trevas transformam-se em luz, e a luz transforma-se em trevas, mas devemos sempre pintar o mais depressa possível o mundo escuro, pelo mundo da luz e da cor.
                                                                           
                                                                                 FIM
                                                                                 Lálá



                                                                       (11/Novembro/2013)

sábado, 6 de junho de 2015

No jardim do moinho

foto de Lara Rocha 

Era uma vez uma casa num recanto escondido de uma floresta, um antigo moinho de uma família muito rica. Dessa família só uma rapariga ainda jovem quis ficar com o moinho, que todos os mais velhos diziam não servir para nada…achavam que esse moinho não passava de um molho de pedras.
Para essa jovem passou a ser a sua casa, pois ficava muito perto do seu local de trabalho, e assim poupava dinheiro. Mobilou o moinho, com a ajuda dos amigos que lhe deram muitos móveis de que já não precisavam ou não gostavam.
Uns restauraram umas coisas, e reconstruíram outras, outros concertaram cadeiras, mesas, sofás e montaram a cozinha, a luz elétrica, água, lareira, fogão, frigorífico, tinha tudo! O moinho não tinha divisões, como outra casa qualquer, mas ela conseguiu que tudo o que precisava coubesse no espaço que tinha disponível, e ficou maravilhosa.
O moinho tinha um anexo, e outro andar por cima, com um grande e agradável terraço onde a jovem adorava estar, ver a paisagem, descontrair e meditar, ou apanhar sol. Sentia-se muito bem no seu moinho, tinha jardim e horta onde não faltavam quase todos os alimentos que se podem cozinhar e comer, por isso, quase não fazia compras. Os seus pais iam muitas vezes visitá-la ao moinho, almoçavam, passeavam e jantavam e ajudavam-na sempre.
Uma noite ela foi ao terraço porque viu da janela de baixo algo diferente no jardim. No inicio teve medo, mas também não ficava descansada se não fosse ver o que era, e saber se estava em segurança.
De cima, teve a certeza que havia algo de diferente…umas flores que brilhavam no escuro, como os pirilampos.
- Será que estão pirilampos presos ou fechados naquelas flores? Nunca vi…se calhar, como vem chuva amanhã abrigaram-se ali, talvez não consigam voar…! Mas…estão muito quietas e as suas luzes estão acesas.
Viu a sombra dos gatos vadios que ela alimenta, cheirarem as flores de onde se viam as luzes iguais às dos pirilampos mas que não mexiam. Os gatos começam a miar…estão desconfiados.
Antes que ela perguntasse mais alguma coisa, uma bela surpresa acontece…as flores abrem uma por uma, e de cada uma sai uma bailarina pequenina, graciosa e levezinha, com asinhas finas, que se assustam quando veem os enormes olhos dos gatos.
Quando percebem que são os gatos respiram de alívio e mudam de cor a cada pequenino movimento que fazem. A jovem assiste completamente rendida.
- Áh! Mas o que é isto? Estarei a ver bem?
Desce as escadas do terraço e vai para o jardim, junto das flores. Sim…está a ver mesmo bem! As pequeninas bailarinas são mesmo mágicas…de cada flor de onde elas aparecem, ouve-se uma música diferente, e cada bailarina dança ao som dessa música.
Elas fazem lindas danças, espalham luz e cor por todo o jardim, voam de flor em flor e dançam a música de cada uma. A jovem aplaude, e segue todos os movimentos encantadores das pequenas, com um enorme sorriso, toda enternecida e com os olhos muito brilhantes.
São pequeninas fadas que foram enviadas a pedido das crianças com quem a jovem trabalha, que a adoram, e que lhe retribuem todos os dias todo o carinho e atenção que ela lhes dá, com beijos, abraços, desenhos, flores, mimos e mais mimos. Desta vez, o mimo foi enviar fadinhas bailarinas, cheias de luz, para alegrar e fazer companhia à jovem.
A fadinha chefe diz-lhe:
- Olá, boa noite! Viemos alegrar a tua noite e fazer-te companhia, a pedido de umas crianças que conheces muito bem e que querem mostrar-te o quanto te adoram…
E a outra fadinha acrescenta:
- O quanto te adoram e o quanto te agradecem tudo o que lhes dás.
- Já sei quem são! Óh! Que queridas, e queridos…todos os dias dão-me mimos. Dou-lhes o meu melhor e eles merecem…retribuem.
- Verdade! – Dizem todas
- Eles acham que nunca é demais… - Diz outra fadinha
- Obrigada! Tão lindas que vocês são. Adorei ver-vos dançar. Se estiverem com eles, dêem-lhes um beijinho muito repenicadinho como aqueles que lhes dou, com desejos de boa noite e bons sonhos. Adorei a surpresa.
- Daremos o recado! – Garante uma fadinha
- Vamos para lá agora. – Diz outra
- Tomem conta deles e dos seus sonhos. – Pede a jovem
- Fica descansada! – Dizem todas
- Serão sempre muito bem-vindas à minha casa! – Diz a jovem sorridente
- Voltaremos! – Garantem
- Aqui tens flores que adoramos. – Diz outra fada
- São vossas! – Diz a jovem a sorrir
- Até já. – Dizem todas
- Até já. – Responde a jovem
E as fadinhas bailarinas voltam para o quarto das meninas e dos meninos, dão-lhes o recado, e eles até dormem melhor nessa noite. Gostam tanto do jardim à volta do moinho que nessa mesma noite vão lá dormir, outras dormem nas beiradas das janelas do moinho e outras no terraço.
Todas as noites elas dançam para a jovem que as aplaude e segue todos os seus movimentos, às vezes até dança com elas. Elas trazem uma nova luz ao jardim e ao moinho, e uma nova cor e alegria às noites da jovem.

                                                           FIM
                                                           Lálá
                                                     (6/Junho/2015)  


domingo, 12 de outubro de 2014

A casa escura

       
                                                          foto de Lara Rocha 

        Era uma vez uma casa sombria, pintada de negro, com móveis negros e a própria pessoa que lá vivia era igualmente uma figura escura, que se vestia sempre de negro. Tinha ficado assim porque vivia sempre numa grande tristeza, por estar longe da sua casa, da sua família e por não ter amigos. Como ele se vestia sempre de escuro, as outras pessoas tinham medo dele. 
        Ele não era mau. Era apenas uma pessoa triste e solitária. Os seus melhores amigos eram os livros, que tinha às centenas em casa, num quarto com pouco luz. Um dia, o rapaz sombrio saiu, e reparou num lindo arco-íris que tinha acabado de se formar na montanha. Ele nunca tinha visto tal coisa…como passava a maior parte do tempo na sua casa escura.
Fica encantado e parece hipnotizado pelo arco-íris. Desata a correr pelo campo fora até à montanha onde está o arco-íris, mas não consegue apanhá-lo, porque entretanto desaparece. Isto deixa-o muito irritado, e corre mais um pouco. Procura numa gruta, escura onde entra aos gritos, e só vê luzes pequeninas verdes a aparecer.
- O que venha a ser isto? – Pergunta um morcego irritado
- Que barulho é este? – Pergunta outro morcego
- (boceja) Ááááhhh…quem é que nos veio interromper o sono?
        O rapaz está cheio de medo.
- Desculpem…quem são vocês? – Pergunta ele a tremer
        Os morcegos dão uma sonora gargalhada.
- Olha, olha…estamos a ser visitados por um esqueleto! – Comenta um morcego a rir
- E treme! – Diz outro morcego às gargalhadas
- Óh meu…vasa daqui. – Diz um morcego calmo
- Onde estou? – Pergunta o rapaz
- Ora…na nossa casa! – Responde um morcego a rir
- Quem te deu permissão para entrar? – Pergunta uma morcega chateada
- A porta está sempre aberta… - Responde outro morcego
- Áh! Pois é. – Responde a morcega
- Mas parece que ele ou…ela…ainda não percebeu onde está. – Diz outra morcega a rir
        Os morcegos voam à volta do rapaz, nervosos e guincham pela gruta, e expulsam o rapaz de lá, aos gritos, cheio de medo. Ele corre e cruza-se com um cavalo que trava a fundo e levanta uma poeirada.
- Ai, que susto! Isto são maneiras de se andar pelo campo? – Relincha o cavalo  
- Desculpa…não te vi.
- Eu sou bem grande. Quase te passava a ferro…estás louco?
- Não. Só fujo de uma gruta de morcegos…
- Áh! Fino…foste-te meter na toca dos morcegos… (ri) esperto! As coisas não correram bem pois não? Eles odeiam ser perturbados…
- Pois. Eu não sabia que tinha entrado na toca dos morcegos.
- Não conheces a zona?
- Não.
- Áh! E o que vieste fazer por aqui?
- Vim atrás de umas riscas coloridas que vi em cima do monte.
- Riscas coloridas? Ááááááhhhh…tu não estás bom dessa mioleira… os morcegos viraram-te ao contrário. Que riscas coloridas? E logo no monte… (ri)
- Estavam ali. (O arco-íris aparece outra vez) Olha, estão ali outra vez…sabes o caminho para lá?
- Sei, mas para que vais atrás do arco-íris?
- Estou atrás daquelas riscas às cores…
- Sim, e é o arco-íris.
- Áh! Que lindo.
- Nunca tinhas visto?
- Não.
- Em que planeta é que tu vives?
- Na Terra! Como tu.
- Então como é que nunca viste o arco-íris, nem sequer sabias o nome?
- É que eu quase não saio de casa. Vivo numa casa escura, pintada de preto, com móveis pretos…
- Ui! Porquê?
- Porque sou um rapaz triste, vivo na tristeza.
- Isso é muito mau. Devias ter uma casa colorida para te alegrar.
- É por isso que estou atrás das riscas do arco-íris.
- Desculpa desiludir-te, mas nunca vais conseguir agarrar o arco-íris.
- Porquê?
- Porque ele não se agarra…é uma ilusão…quando o sol bate na água…
- Mas se ele aparece e desaparece é porque alguém o tira…
- Não. Ele aparece e desaparece porque quando não há sol na água, não há cores.
- Mas eu quero aquelas cores.
- Queres sair da tristeza?
- Sim.
- Então tens de pintar a tua casa, com cores alegres.
- E como é que eu pinto a minha casa?
- Ora…com pincéis, trinchas…e tintas.
- E onde arranjo isso?
- Numa loja de tintas na cidade.
- Paga-se?
- Claro que se paga…
- Mas eu não tenho dinheiro. Nunca vou conseguir pintar a minha casa de cores…
- Não digas essas coisas tão tristes. É claro que vais conseguir. Não é assim tão caro, e podes sempre pedir aos teus amigos ou familiares…
- Estão muito longe.
- Vá lá, não inventes obstáculos. Hás-de encontrar uma maneira. Anda…vou levar-te a conhecer a área.
- (sorri) Óh…não tens medo de mim?
- Medo? Eu?
- Sim.
- Porque haveria de ter medo de ti?
- Porque estou vestido de negro. Toda a gente foge.
- Não sei porquê! É só a tua roupa. O meu pêlo também é de cor preto…é só uma cor que tu gostas. Não mete medo nenhum.
- Obrigado! – Diz o jovem a sorrir
- Sobe. – Diz o cavalo
        Ele sobe, e os dois vão passear sem pressa, a conversar e a ver a paisagem. O rapaz sente-se muito feliz. Ao fim do dia, os dois tornam-se grandes amigos, e o cavalo quer ajudar o amigo.
        Depois de o deixar em casa, vai de porta em porta, pela aldeia, e fala com as crianças e com adultos. Pede tintas de cores alegres e pincéis. Ele conta a história do rapaz, e já todos sabem que está a falar do rapaz que vive na casa de cor preta, e que anda sempre de roupa preta.
        Todos se prontificam a ajudar o rapaz. Juntam-se, e reúnem todo o material que necessitam para pintar a casa. No dia seguinte, o cavalo vai ter com o rapaz e convida-o para ir ao monte. O rapaz aceita logo, feliz.
        Enquanto os dois vão sem pressa passear e a conversar alegremente, ainda de madrugada, todos os habitantes se juntam e decoram a casa do jovem.
        Pintam em alguns pedaços da parede preta, vários e enormes arco-íris, sóis, céus azuis, praias, paisagens...cada um faz o desenho que mais gosta. Pintam os móveis de cores claras, e ao fim do dia, a casa estava nova.
        O cavalo volta com o jovem já quase à noite, e todos os habitantes estão escondidos dentro da sua casa. Quando ele abre a porta, aparece uma criança com uma lanterna virada para a sua cara e diz:
- Bem-vindo ao mundo da luz!
        Ele fica gelado com o susto.
- O que é que está a acontecer?
        De repente acendem-se luzes por todo o lado, fortes. Os habitantes fizeram a instalação eléctrica em toda a casa, e lâmpadas em todas as divisões, com uma luz forte.
        O rapaz estremece, solta grandes exclamações, olha para todo o lado, e abre um grande sorriso:
- Não acredito!
- Gostas da tua nova casa da luz? – Pergunta o cavalo
- Adoro…está maravilhosa…linda…! Quem fez isto?
        Aparecem todos os que pintaram a casa dele, os que fizeram os desenhos e encheram uma casa escura de luz, claridade, cor e brilho. Todos o abraçam e dão as boas vindas.
- Óh…até estou emocionado! Muito obrigado…são maravilhosos!
        Entram umas avós com bolos e um belo jantar.
- Óh, que honra…! Sintam-se na vossa casa…
        Eles juntam mesas que levaram, cadeiras, pratos, talheres, e copos, e festejam a nova versão do rapaz da casa escura. Conversam alegremente, riem muito, dançam, brincam, tiram fotografias, e comem bem.
Desde esse dia, o rapaz de escuro, que vivia na casa escura, encheu-se de bons amigos, que estavam sempre a convidá-lo e a conviver com ele, passou a vestir roupas mais claras, e a ser feliz…sempre com um sorriso iluminado, contagiante, e ajudava sempre os seus amigos, vizinhos, como forma de lhes retribuir a nova decoração. Passou a estar muito tempo fora de casa.
Que grande transformação! Não teve o arco-íris que ele queria…o natural que via no monte, mas ganhou muitos arco-íris na sua vida.
Teve na mesma o arco-íris na sua casa, e o sol pintados nas paredes, que tornavam a casa muito mais luminosa e clara. O rapaz que vestia roupa escura e que vivia numa casa escura, tornou-se um rapaz cheio de cor e de luz, com um sorriso que encantava todas as meninas e senhoras que o viam. Ele tinha um arco-íris gigante dentro de si.
As cores e as luzes fazem-nos muito bem. Dão-nos alegria, leveza, vida, e saúde.
FIM
Lálá
(12/Outubro/2014)