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sábado, 2 de maio de 2020

A prendinha da estrela

          




Era uma vez uma menina, filha de artistas de circo, que andava sempre de um lado para o outro, numa caravana, que tinha o mínimo de condições para viver, e tanto ela como os pais viviam felizes, juntamente com os outros artistas.
         A menina adorava os espetáculos, e todos gostavam muito uns dos outros. Em muitos lugares onde ficavam na noite dos espetáculos, eram descampados, onde se viam muito bem as estrelas. A menina tinha por hábito ouvir e ler histórias.
        Enquanto ouvia as histórias imaginava o que lhe era dito, mas também inventava as suas próprias histórias, a partir do que ouvia, e outras muito diferentes. 
        Ela nem imaginava que havia uma estrela muito lá em cima que se transformava em cigarra e ficava muito perto dela para se deliciar com as histórias, tanto as que lhe contavam como as que ela criava.
        A estrelinha estava entre as cigarras e usava um bloquinho onde escrevia as frases que mais gostava, as palavras mais bonitas, as personagens e nomes que eram bondosas, ações e espaços das histórias que a faziam sonhar.
        Um dia a estrelinha ouviu dizer que a menina estava quase a fazer anos. Decidiu oferecer-lhe uma prendinha para retribuir o que aprendia com as histórias que ouvia. 
        Numa noite em que regressou a casa depois de ouvir mais uma história, e ter anotado umas palavras bonitas, a estrelinha foi ter com a sua mãe e a sua avó, que eram costureiras, e pediu ajuda.
         Explicou às duas que queria oferecer uma prenda especial à menina que contava histórias, e mostrou-lhes o bloco. 
        Perguntou se conseguiam concretizar esse presente. As duas gostaram tanto da ideia, ficaram tão orgulhosas desse gesto da estrelinha, que puseram logo mãos à obra, e a estrelinha ajudou.
       Fizeram uma linda manta, toda feita de fios de lã de lua, muito aconchegante, macia e quente. 
       Pregaram todas as palavras, frases, personagens, nomes, ações, espaços, que tinha gostado mais, e que a estrelinha tinha escrito no caderninho. 
       Enquanto pregavam, a estrelinha recontava a história, falava sobre o circo, os artistas, os espetáculos, e conversavam sobre eles.
      Ainda juntaram cotõezinhos de lãs azuladas, amarelas e salpicos de brilho das próprias estrelas. 
      Num instante, e quase sem dar por isso, a manta estava pronta! Olharam para a manta, aberta, soltaram uma grande exclamação, e abriram um enorme sorriso.
- Áh! Mas que bonita que está. - suspira a mãe orgulhosa
- Está perfeita! - Sorri a Avó
- Uau! Obrigada, Mamã...Obrigada, Avó! Vocês são mesmo fantásticas.
       Trocam abraços e beijos. Chega o dia de aniversário da menina, e houve espetáculo. A estrelinha entra sorrateira na caravana onde vive a menina, e pousa a mantinha em cima da cama dela, com um cartãozinho que dizia: «Obrigada pelo que aprendo com as tuas histórias! Adoro. Muitos parabéns, muita saúde, muitas felicidades, e até já!»
       A estrelinha transforma-se em cigarra, para ver a reação da menina. Quando o espetáculo acaba, estão todos eufóricos, muito felizes com a forma como tinha corrido, e fizeram uma festa surpresa à menina.
      Atuaram só para ela, os palhaços que ela mais gostava, riram muito, aplaudiram, cantaram os parabéns, dançaram, e as surpresas não ficaram por aqui. Quando se preparava para deitar, viu a mantinha em cima da cama, e o cartãozinho.
- Mamã... tenho aqui mais uma prenda... foste tu?
- Prenda...? Não... não sei do que estás a falar.
       A menina mostra a manta à mãe e o cartão.
- Não fui eu, nem nenhum de nós, tenho a certeza! Mas, que linda... está cheia de palavras, frases...Como fizeram isto?
      A menina lê o cartão à mãe. Batem à porta, aparece uma menina, linda, que nunca ninguém a tinha visto.
- Boa noite! Podemos ajudar...? - Pergunta a mãe da menina
- Boa noite. Estou à procura da menina que faz anos hoje.
- Sou eu! Mas, não nos conhecemos... - Diz a menina
         A estrelinha sorri:
- Tu não me conheces, mas eu conheço muito bem as tuas histórias, aprendo muito com elas. Esta manta que acabaste de receber, fui eu que te ofereci, onde estão as palavras, frases, cenários, nomes, pessoas, lugares que mais gostei.
- Está excelente. Mas como é que ouves as minhas histórias, se não nos conhecemos...?
- Não posso dizer.Gostaste da manta, é o mais importante para mim. Muitos parabéns, e continua a ler e a inventar as tuas histórias que adoro ouvir.
        A menina sorri.
- Muito obrigada. Mas como é que te chamas?
- Estrela.
- Áh! Eu sou a Diana. Não queres entrar...? Pode entrar, não pode, mãe?
- Sim, mas vê lá, já é tarde. Onde estão os teus pais, Estrela?
- Lá fora, na minha casa.
- Vê lá, não vão ficar preocupados?
- Não. Eles sabem que eu vim aqui.
- Está bem. Queres um bocadinho de bolo que sobrou?
- Acho que aceito. Obrigada.
       A estrela conversa com a menina, como se fosse tal e qual uma amiga dela, come o bolo.
- Hum, está muito bom, este bolo. Obrigada.
- Obrigada eu. - Diz a mãe
- Bom, vou voltar para a minha casa, e tu, Diana, não tarda muito, também vais dormir, não é?
- É. Por favor, volta mais vezes! - Confirma a Diana
- Claro que sim! - promete a estrela
        Trocam um abraço, e dois beijinhos.
- Obrigada pela prenda, e muito gosto em conhecer-te! - diz Diana
- Boa noite, dorme bem. Até já...Boa noite, pais da Diana! - diz a estrela
- Boa noite! - respondem os pais da Diana
       A estrela dá alguns passos e desaparece. Diana fica pensativa, nunca tinha visto aquela menina em lado nenhum, como é que ela sabia tanta coisa, ouvia as histórias, e ainda por cima deixou-lhe uma prenda tão bonita! 
       Ela e os pais deitam-se, a menina envolve-se na manta, deliciada com a maciez, e os brilhantes.
      Quando ela estava quase a dormir, a estrela volta a aparecer, pousada na sua manta, em forma de estrela iluminada. 
      Pediu à Diana que não gritasse, e que não se assustasse. Contou-lhe como a conhecia, e pediu que não contasse a ninguém, pois tinha medo que não acreditassem nela, ou que achassem ser da sua imaginação.
      Diana não contou nada, e a partir dessa noite, as duas tornaram-se grandes amigas, encontravam-se, a Diana contava e ouvia lindas histórias, conversavam, riam, faziam companhia uma à outra, brincavam, sem fazer barulho. 
      Às vezes escolhiam uma palavra da manta à sorte, ou uma frase, uma personagem, e recontavam ou inventavam essa história.
     De vez em quando, a estrela aparecia em forma de menina, principalmente de dia, quando a Diana brincava mais sozinha, ao ar livre, a ensaiar os números de circo e a ver os outros. Uma linda prenda de aniversário, e uma amizade.

E se vocês recebessem uma manta como a de Diana? Que palavras teria pregadas?

                                                                           FIM
                                                                           Lálá
                                                                      2/Maio/2020



          
            

sexta-feira, 25 de março de 2016

As cores do Mundo de Miguel (Adolescentes e adultos)

NARRADORA - Miguel era um adolescente, que vivia triste e deprimido. Vestia quase sempre roupa preta e isolava-se. Vivia numa casa sozinho, longe da família. O seu mundo interior era qualquer coisa, menos colorido e bonito…era preenchido por preto e branco, cinzento. Um dia, alguém bate à sua porta. Ele vai ver quem é. É um rapaz que ele não conhece com um bebé ao colo. Ele abre a porta.
MIGUEL - Olha, se vens pedir dinheiro, esquece…não tenho! Com licença.
(Tenta fechar a porta, mas o rapaz segura-a com o pé)
SÉRGIO - Espera…antes de me fechares a porta na cara, por favor ouve-me.
MIGUEL - Está bem, diz lá.
SÉRGIO – Esta bebé, é tua filha. Pediram-me para a entregar aqui.
MIGUEL (exaltado) – O quê? Não pode ser…isto é uma armadilha. Só pode…!
SÉRGIO – És o Miguel não és?
MIGUEL – Sim…mas há muitos gajos com esse nome.
SÉRGIO – Certo…mas…o nome Carla…diz-te alguma coisa, certamente.
MIGUEL – Por acaso, era o nome da minha ex…mas nunca mais nos falamos, nem nos vimos, desde que voltei para França e agora para aqui outra vez.
SÉRGIO – Pois. Ela ficou grávida da última vez que se encontraram.
MIGUEL (assustado) – Não pode ser!
SÉRGIO – Sim, é verdade.
MIGUEL (em pânico) – Não…ela não me disse nada. Não pode ser…não pode ser!
SÉRGIO – Não te disse nada porque tinham acabado, mas ela é a minha namorada agora…e disse que tu eras o pai da filha dela…ela só não te disse antes porque sabia que não ias aceitar, e não te queria prender! Pediu-me para que tomes conta da vossa filha.
MIGUEL – É…uma menina?
SÉRGIO – Sim!
MIGUEL – Mas ela tem de ficar com a mãe…
SÉRGIO – A mãe não tem condições!
MIGUEL – E até parece que eu tenho…
SÉRGIO – Sim, tens mais que ela.
MIGUEL – Deves estar a gozar.
SÉRGIO – Por favor…pelo menos, tem pena da menina, da vossa filha. Se não ficares com ela, ela vai para uma Instituição, ou para um centro de adopção.
(Miguel fica pensativo)
MIGUEL – Entra…por favor…eu preciso de pensar uns minutos.
SÉRGIO – Claro.
(Ele entra com a bebé, Miguel olha para a bebé)
MIGUEL (suspira) – O que é que eu vou fazer contigo, agora…? Ai…a minha vida…! (p.c) E agora…como é que nos vamos sustentar. (p.c) Eu não percebo nada de bebés, nem tenho os meus pais comigo…eles emigraram. Porque é que aquela maldita não falou mais comigo, nem me disse mais nada…?! E aparece de repente…uma bebé…que diz ser dela, e minha.
SÉRGIO – E é. Ela está doente da cabeça…pode matar a vossa filha.
MIGUEL – O quê? Não…nem pensar.
SÉRGIO – Infelizmente é verdade. Ela está fora de si…está…gravemente doente da cabeça. Ela rejeita a bebé, eu protegi muitas vezes esta inocente de ser cortada, atirada pela janela…e outras maldades que ela queria fazer-lhe.
MIGUEL (em pânico) – Ai, não! Ela não seria capaz…é mulher.
SÉRGIO – Mas está doente…perturbada…é capaz de tudo. A vossa filha corre perigo.
MIGUEL (nervoso) – Como é que se pega nisto…?
NARRADORA - Sérgio passa-lha para o colo, explica-lhe como se põe os braços, e outras indicações importantes. Miguel olha para a bebé, e começa a chorar, depois sorri ligeiramente, enternecido.
MIGUEL – A minha filha…filha…filha…! Eu…sou pai…!
SÉRGIO (sorri) – É uma bebé linda.
MIGUEL – Sim, é verdade.
SÉRGIO – E então…vais ficar com ela?
MIGUEL – Sim! Não tenho condições, mas também não tenho coragem de a deixar ir. Ela não tem culpa de ter nascido daquela mulher…sou pai.
SÉRGIO – Hás-de arranjar, de certeza! Desculpa ter aparecido assim, de repente sem avisar, mas não tive outra solução. Cuida bem da menina…!
MIGUEL – Sim, cuidarei! Os pais fazem tudo pelos filhos, mesmo quando não tem condições…pelo menos foi o que os meus pais sempre me ensinaram, e sei que é verdade, porque eles também sempre fizeram tudo por mim, e fazem! Desde que haja sempre amor e responsabilidade…! O resto…resolve-se!
SÉRGIO – Sim, concordo…mas tenho a certeza que a Carla também a ama.
MIGUEL – Não…se a amasse não a mandava para mim.
SÉRGIO – Ela ama-a, por isso é que a mandou para ti…que és o pai, e ela sabe que contigo a bebé estará bem!
MIGUEL – Louca…
SÉRGIO – Doente!
MIGUEL – Um dia vou ter uma conversa com ela.
SÉRGIO – Agora não, por favor…! Isso acabaria com ela de vez, aliás já o tentou fazer muitas vezes, mesmo grávida.
MIGUEL – Então a minha filha está mesmo bem é comigo!
SÉRGIO – Com certeza. Tu serás capaz de cuidar bem dela, e estará protegida… ela terá o teu amor, e com a mãe, infelizmente não terá nada disso.
MIGUEL – Porque estás com ela?
SÉRGIO – Porque a amo, e ela precisa de mim…não vou abandoná-la quando ela mais precisa.
MIGUEL – Ama-la ou tens pena dela?
SÉRGIO – Amo-a! Ela está doente…qualquer um de nós pode ficar doente, a qualquer momento…e de certeza que nessa altura queremos ter alguém que nos ame, ao nosso lado!
MIGUEL – Eu já lhe tinha virado as costas há muito…também não sou muito fino…ela sabe que eu também tenho uns parafusos a menos.
SÉRGIO – Agora dizes isso, mas se estivesses no meu lugar, talvez também ficasses do lado dela.
MIGUEL – Não…não estava para aturar as loucuras dela.
SÉRGIO – Mas pelo menos protegias a tua filha.
MIGUEL – Isso claro que sim! Porque a bebé não tem culpa, não pediu para nascer…nós é que fomos inconscientes.
SÉRGIO – Estás arrependido?
MIGUEL – Em parte sim, claro…porque…nunca pensei que ela ficasse grávida, e que não me dissesse. Tínhamos que ter tomado precauções.
SÉRGIO – Se calhar pensou que a rejeitasses, ou que fizesses algum mal, quando soubesses…!
MIGUEL – Jamais faria isso. Se ela me tivesse dito, eu tinha ficado lá com ela.
SÉRGIO – Olha, não sei, mas também agora não interessa estar a falar no passado. O que interessa é que tenhas força para cuidar dessa criança inocente.
MIGUEL – Sim, terei! Espero que sejam felizes, os dois.
SÉRGIO – Obrigado. Eu vou deixar-te os meus contactos para ir sabendo dela, se não te importares.
MIGUEL – Claro…
SÉRGIO – Vou buscar ao carro, as malas dela.
MIGUEL – Ok…
NARRADORA – Enquanto Sérgio tira as muitas malas e sacos da menina, Miguel olha deliciado para a bebé, no seu colo, e sorri.
MIGUEL (sorri) – Filha…! Minha filha…! És linda. O teu pai é um ignorante…mas vai aprender a cuidar de ti. Não te vai faltar nada!
NARRADORA – Sérgio leva tudo para casa do Miguel, os dois despedem-se.
SÉRGIO – Obrigado. Tenho a certeza que ela estará muito bem entregue contigo. Se precisares chama-me.
MIGUEL – Ok. As melhoras da Carla, e felicidades para vocês os dois. Diz-lhe que ela nunca mais verá a filha.
SÉRGIO – Bem…até breve.
MIGUEL – Até breve.
NARRADORA – Sérgio sai, e Miguel senta-se com a bebé ao colo, deliciado. O seu mundo preto, cinzento e branco, ganhou alguma tonalidade colorida. Ele está nervoso, inseguro, com medo, perdido… Liga aos pais e conta o que aconteceu. Os pais ficam surpresos, mas felizes e poucos dias depois regressam a Portugal para ajudar o filho a cuidar da bebé e para a conhecer. Entretanto, Miguel vai-se habituando, e segue as instruções da mãe pelo telefone, para os cuidados primários da bebé, alimentação, higiene, roupa…A bebé é uma doçura, e Miguel enche-a de mimos, carícias e beijos. A bebé sorri muito, e ele está muito mais feliz.
MIGUEL – Nada te vai faltar, filha.
NARRADORA – Os pais chegam, e ajudam a cuidar da criança. O mundo de Miguel ganha muita mais cor. Num instante, Miguel torna-se um verdadeiro pai, muito dedicado, preocupado, feliz. A mãe e o pai são uns avós babados, e fazem tudo pela menina, e pelo filho. A menina cresce, e é o orgulho da sua família. Miguel deixa de viver num mundo de cor preta, cinzenta e branca, e passa a viver num mundo cheio de cor, brilho, luz e alegria, pintado pela presença da sua filha na sua vida. Há acontecimentos que mudam as cores do nosso mundo interior…umas vezes pintamo-lo de cores escuras, outras vezes, acontecem coisas, mesmo as mais simples e mais pequeninas, que de um momento para o outro, enchem o nosso mundo de cor, luz e alegria. O importante é nunca desistir, e mudar constantemente as cores escuras do nosso mundo interior. A qualquer momento tudo pode ser diferente, e as trevas transformam-se em luz, e a luz transforma-se em trevas, mas devemos sempre pintar o mais depressa possível o mundo escuro, pelo mundo da luz e da cor.
                                                                           
                                                                                 FIM
                                                                                 Lálá



                                                                       (11/Novembro/2013)

quinta-feira, 24 de março de 2016

FLORES DE LUZ (adultos)

Era uma vez…no infinito universo um cantinho onde vivem as estrelas e fadas, mensageiras que transportam consigo as energias que as pessoas enviam através dos pensamentos, de umas para as outras. Numa noite, recentemente, estes seres receberam um pedido de ajuda de três famílias, para os seus filhos. Um menino pequenino, um adolescente e um adulto jovem, que estão com um problema de saúde, comum aos três, que esperam pacientemente e ansiosos por uma boa notícia: a cura para os seus filhos. Uma linda fada vai ter com uma das mães, que está a descansar. A mãe sente qualquer coisa, abre os olhos e vê esse ser lindo à sua frente. Assusta-se.
FADA (sorri) – Olá Mãe!
MÃE (assustada) – Quem és tu? Como é que entraste aqui…? O que é que estás aqui a fazer…?
FADA (sorri) – Desculpa se te assustei…só vim trazer-te um recado muito importante.
MÃE (assustada) – Estava mesmo ferrada no sono…como é que entraste…? A porta estava aberta, ou a janela?
FADA (sorri) – Não…calma. Estás em segurança.
MÃE (assustada) – Mas como é que entraste…?
FADA – Não te preocupes. Por favor…ouve o meu recado.
MÃE (assustada) – Ai, meu Deus…recado…? De quem?
FADA – Primeira parte do recado: não desesperes…não deixes de acreditar que o teu filho vai ficar bem!
MÃE (desanimada) – Eu…tento…mas não consigo mais! (p.c) Estou destroçada!
FADA – Força! Não desistas agora.
MÃE – Como não desisto agora…?! Estou sem força. O meu filho não está bem.
FADA – Segunda parte do recado: pára de chorar! E pára de não acreditar…não te entregues à tristeza. Reúne todas as tuas forças para o bem, para o positivo…para a cura do teu filho.
MÃE – Mas eu não tenho força. Estou cansada…de chorar…de pedir…e nada acontece. Não aparece o que ele precisa. A cura dele não aparece. Como é que eu não desisto?
FADA – Não pronuncies mais essa palavra…desistir…e não digas mais que não aparece…!
MÃE – Entendo que as tuas intenções sejam boas…apesar de não fazer ideia quem sejas, nem como entraste aqui, ou se existes mesmo…mas falas porque estás de fora! Se estivesses no meu lugar…também sentias tudo isto, e perderias a força.
FADA – Enganas-te! Elimina essas palavras feias…más…! Reúne na tua mente, e no teu coração…apenas palavras boas…bonitas, positivas, felizes…com força, e um sorriso na cara.
MÃE – Não consigo sorrir.
FADA – Claro que consegues. Experimenta.
MÃE – Como se os pensamentos resolvessem alguma coisa.
FADA – Claro que resolvem. Apenas os positivos.
MÃE – É fácil falar quem está de fora.
FADA – Eu compreendo-te. (p.c) Sei que vais conseguir ter força.
MÃE – Então, diz-me onde a vou buscar.
FADA – Tu sabes muito bem onde a vais buscar.
MÃE – Estou farta de rezar…e tudo continua na mesma…! Nada muda.
FADA – O rezar, pode ajudar, mas não é o principal. (p.c) Há muita gente que quer bem ao teu filho, e estão a pedir por ele…por ele e por mais dois meninos na mesma situação.
MÃE – Eu não acredito em milagres…pois se os houvesse já tinham acontecido. Talvez…por eu não ter força.
FADA – Mas o teu filho precisa da tua força. Não precisas de acreditar em milagres! (p.c) Sim, é mesmo por estares sem força. (p.c) Mas acreditas no poder do amor?
MÃE – Não sei. Não é suficiente.
FADA – Acreditas no teu amor pelo teu filho?
MÃE – Nisso acredito! Aliás…é a única coisa que sinto de verdade…e que tenho plena consciência disso. Mas também não é suficiente, porque se dependesse do amor…ele nem ficaria doente.
FADA – O teu amor é muito bom, e podes achar que não é suficiente…mas é agora que vem a terceira parte do recado…junta o teu amor, ao amor de outras pessoas que querem bem ao teu filho.
MÃE – Mas…tu existes mesmo, ou és da minha imaginação…? Sei lá…a minha vontade de ter ajuda…?!
FADA (sorri) – Já recebemos pedidos…mas quantos mais, mais forte se torna a luz do amor que o teu filho precisa.
MÃE – Isso dos pedidos, e do amor…é tudo muito bonito, mas é na teoria…porque na prática, fartos de pedir estamos nós, e tudo continua como estava.
FADA – É preciso mais.
MÃE – Não sei mais o que fazer.
FADA – Pede a todos que peçam…e que esses peçam aos outros, e a outros…o máximo que conhecerem, com toda a pureza do amor e do coração.
MÃE – Mas como?
FADA – Como pedes outra coisa qualquer. Não tenhas vergonha de dizer que o teu filho precisa.
MÃE – E…basta isso?
FADA – Sim! Dêem as mãos, se quiserem, se não…basta que pensem nele, e nos outros, com sinceridade.
MÃE – Está bem! Posso tentar! Na hora do desespero…fazemos qualquer coisa! Agarramo-nos a qualquer coisa.
FADA – Não duvides! Acredita que vai funcionar!
MÃE – Está bem.
FADA – Força! Não desistas! Pede pelo teu filho…tu, e todos os que quiserem. (p.c) Sem palavras negativas. (p.c) Até breve.
                A Fada desaparece, e a mãe põe mãos à obra. Pede a todos os vizinhos que se juntem na casa dele, e que chamem toda a família. Nessa noite, juntou-se todo o bairro onde vive, cada casal de vizinhos, levou o máximo de famílias e de amigos que conhecem, com as suas famílias alargadas. São largas centenas de pessoas que se juntam. A mãe pede que se dê as mãos, em roda, e cada um pede à sua maneira, em silêncio. 
              É emocionante ver, o imenso cordão humano, e esses pedidos chegam ao universo, ao cantinho das fadas. Elas juntam todas as energias dos pensamentos e recolhem-nas para um enorme ramo de flores…que parecem flores comuns, mas não são. 
          Outra fada, aparece à outra mãe e dá-lhe o mesmo recado. Essa mãe faz o pedido nas redes sociais. Junta largas centenas de pessoas, da cidade, num largo, e formam um grande círculo, com velas acesas, e à mesma hora, nas redes sociais, milhares de pessoas partilham o pedido e fazem-no igualmente. As fadas recolhem imensa luz e energia desses pedidos e recolhem para outro imenso ramo de flores. 
            Outra fada, aparece à outra mãe, e dá-lhe o mesmo recado. Esta mãe é mais reservada, mas junta a sua família, amigos, colegas de trabalho, funcionários da escola onde trabalha, e todos os alunos da escola toda. Todos dão as mãos, e fazem o pedido, com pureza, força e amor, durante dias. 
            E as fadas recolhem para as flores, toda a energia dos pensamentos, durante alguns dias. As três fadas pegam no ramalhete de flores, e colocam nos respetivos quartos. As flores abrem, e de dentro delas saem explosões de luz…é lindo de ver! 
        Milhões de luzes invadem o corpo dos três rapazes, e concentram-se na parte do problema de saúde, no órgão afetado, durante toda a noite. Eles não se aperceberam de nada. De manhã, os três acordam com imenso calor no corpo todo, mas não têm febre, e estão bem-dispostos. Fazem alguns exames. 
         Ao fim do dia, uma surpresa maravilhosa para os três: estão curados…de uma forma cientificamente inexplicável e rápida. Todos ficam boquiabertos e felizes. As flores nunca foram vistas, mas as explosões de luz que delas brotavam, curou de facto o pequeno, o Adolescente, e o Jovem adulto. As fadas ficam felizes. Os filhos têm alta, felizes, cheios de energia, saudáveis.
MÃE 1 – E não é que aconteceu mesmo…?
MÃE 2 – Funcionaram mesmo os pensamentos enviados!
MÃE 3 – Incrível! Vale mesmo a pena juntar as mãos e pensar juntos de forma positiva.
MÃES – Muito obrigada a todos.
MÃE 3 – Vale mesmo a pena!
MÃE 2 – Façam o mesmo, para quem precisa.
MÃE 1 – Foi um milagre!
MÃE 2 – Milagre…
MÃE 3 – Milagre!
FADA (sorri) – Sim, foi o milagre do amor. E a força dos pensamentos positivos. A luz do vosso amor! Mães que sofrem neste momento…concentrem toda a vossa força e todo o vosso amor para salvar os vossos filhos. Cada amigo vosso, cada vizinho, cada familiar, cada criança…é uma luzinha de amor...e todas as luzinhas juntas, brilham no universo e curam quem as recebe! Basta pensarem e pedirem com sinceridade, com pureza e com força. Dêem-se as mãos na mesma corrente de luz, força e amor, e poderemos salvar vidas!

FIM
Lara Rocha 
(11/Fevereiro/2013)

  

domingo, 13 de dezembro de 2015

Os duendes da mamã

O Pai Natal trabalha todo o ano, mas o mês de Dezembro, é o mais exigente! O que vale é que ele tem muitos duendes a trabalhar consigo, e são uma grande ajuda. Uns ficam na fábrica a construir brinquedos, outros vão fazer a ronda pelas casas dos meninos, que pedem tudo!
Mas como ele não pode dar tudo, pede aos seus duendes que vejam o que é que os meninos precisam mesmo, o que é mais urgente para eles, ou mais útil, no meio de longas cartas. Para isso, visitam as casas dos meninos sem que sejam vistos, e anotam tudo, vêem tudo e comunicam ao Pai Natal.
Às vezes o Pai Natal é tão generoso que oferece presentes extra, mais um ou dois do que as crianças ou os adultos pedem…quando não pedem nada, o Pai Natal dá a seu gosto…alguma coisa que lhes seja preciso.
Numa dessas casas, os quatro duendes que registavam os pedidos, apanharam um enorme susto quando espreitam pela janela e conversam uns com os outros.
- Ei! – Dizem os 4
- O que é isto?
- Não sei! – Respondem todos
- Vínhamos à procura de um quarto, certo?
- Certíssimo. – Respondem todos
- Pessoal, acho que nos enganamos no sítio!
- Ora confirma aí, Fred…
                O duende confirma na agenda e no GPS, e todos procuram o nome da rua, o número da porta.
- É aqui.
- Confirma-se.
- Está tudo correcto!
- Então, se calhar o quarto é para outro lado.
- Será?
- Porquê?
- Isto não é um quarto!
- Parece mais…
- Um armazém…
- Uma feira…
- Uma dispensa…
- Um sótão…
- Uma garagem…
                Dão a volta à casa toda
- Acho que é mesmo aqui.
- Até custa a acreditar.
- Como é possível?
- Ele consegue entrar aqui?
- Não sei como.
- EU não conseguia.
- Nem eu!
- Brinquedos todos a monte.
- Espalhados.
- Brinquedos destruídos, com estilhaços por todo o lado.
- Tudo fora do sítio…
- E ainda pede mais brinquedos!
- Ele precisa é de armários e gavetas… muitas…para isto tudo.
                De repente a mãe do menino entra no quarto dele, e quase rebenta de tão vermelha que fica, tão irritada.
- Ááááááááhhhhhh…não posso acreditar! Ainda não arrumou um único brinquedo. Que pocilga! Como é possível? Ai…que nervos. Apetece-me pegar nesta porcaria toda e deitar tudo ao lixo…ainda se estivessem bem tratados podia dá-los, mas a maior parte deles está em pedaços. Quantas vezes já o mandei arrumar esta porcaria? Que raiva! Vou ter de o pôr de castigo.
                Os duendes entram no quarto.
- Com licença, Mãe.
- Mais bonecos? – Pergunta a mãe muito irritada
- Calma. Nós somos ajudantes do Pai Natal. Somos duendes e estamos aqui para a ajudar.
- Duendes?
- Sim. – Respondem todos
                Eles fazem uma vénia ao mesmo tempo. Ela sorri.
- E como é que me podem ajudar?
- Percebemos que está desesperada! – Diz um duende
- E não é para menos. – Acrescenta outro duende
- Pois não! Já viram este quarto? Parece uma pocilga. Em vez de o arrumar como já o mandei milhares de vezes… diz que arruma, venho aqui e está tudo na mesma. Ainda me pede mais brinquedos…ele não tem noção. É claro que não vai ter brinquedos, a não ser que outros lhos dêem…mas tinha de arrumar esta porcaria! A minha vontade é pegar nisto tudo e deitar ao lixo, ou os melhores dar a outras crianças…mas até tenho nojo. Acho que essas crianças merecem melhor. – Explica a mãe
- O seu filho precisa de armários e gavetas para arrumar isto tudo! – Diz outro duende
- Armários…e…gavetas? (a mãe fica pensativa) Huummm…não tinha pensado nessa. Mas acho que é uma óptima ideia! Mas será que mesmo assim ele vai arrumar?
- Sim! – Dizem todos
- Serão armários muito bonitos. Deixe connosco, não se preocupe.
- Bem…muito obrigada.
                Os duendes regressam e contam ao Pai Natal. O Pai Natal põe logo mãos à obra e constrói uns lindos armários e gavetas. Na noite de prendas, os duendes levam tudo e ainda arrumam o quarto. A mãe vai espreitar para ver se tinham mesmo trazido os armários e as gavetas. Que grande surpresa…
- Áhhhh… e trouxeram mesmo? Que lindo que ficou. Quem arrumou?
- Nós! – Dizem os duendes
- Agora sim…está um quarto maravilhoso. Óhhhh…Pai Natal…muito obrigada.
                Trocam aplausos, e sorrisos. O menino nem quer acreditar no quarto que está a ver, mas gostou tanto de o ver arrumado que aprendeu a ser arrumado. Combinou com a mãe que depois de usar os brinquedos, os arrumaria. E assim fez. A mãe ficou muito orgulhosa, e o quarto nunca mais ficou desarrumado como estava quando os duendes o viram.
E vocês? Arrumam o vosso quarto? Arrumam sempre depois de brincarem? Tratam bem os vossos brinquedos? É muito importante termos o nosso quarto arrumadinho, tudo nos sítios.
FIM
Lálá
(10/Dezembro/2015)


sexta-feira, 12 de junho de 2015

As casinhas à beira do rio

Desenhado por Lara Rocha 


Era uma vez um pequeno bairro de casinhas construídas quase na berma de um rio com muita água e cascatas. 
Cada casinha era feita de pedra, com janelinhas pequenas, pintadas de cores diferentes, portas, e jardins pequeninos, cheios de flores. 
As casinhas estavam desabitadas, e vazias, mas ninguém sabia quem as tinha construído, nem quem tinha plantado as flores. 
Num dia de chuva torrencial numa montanha muito alta, um pobre urso caiu na água gelada do lago, depois do gelo onde ele tinha pousado, ter partido. Como a água corria muito forte, o urso foi levado para esse cantinho da floresta.
Depois de muitos trambolhões, e tentativas de se agarrar para sair da água, o urso só parou quando chocou com uma rocha. Não sabia onde estava, mas achava que já tinha andado muito. Olhou à sua volta e gostou do sítio. Saiu da água cansado, e viu as casinhas. Espreitou. Estava tudo vazio.

- Acho que não está habitada…vou instalar-me aqui para descansar. Se aparecer o dono, peço desculpa, explico o que aconteceu e saio.

Instalou-se e dormiu o resto do dia, e de noite. Sentiu-se tão bem naquela casinha que decidiu ficar por lá. Foi à procura de coisas para a sua casa e encontrou, inventou, construiu e montou troncos de árvores, raminhos, rolinhos e tudo o que encontrou.

- Está ótimo!

O urso era grande em tamanho mas muito bondoso e às vezes preguiçoso. Adorava estar sentado ou deitado à sombra num barco de madeira que encontrou abandonado. Só quando a fome apertava é que ele despertava e ia pescar no rio.
Uns dias depois o urso ganhou novos vizinhos: uma família enorme de macacos que faziam muito barulho, principalmente quando se zangavam uns com os outros, e ocuparam quatro casas que estavam vazias.
Foram logo simpáticos com o urso, pois sabiam que era melhor para eles serem amigos de um urso, apesar do seu tamanho assustador. Tão simpáticos que quando encontraram fruta, guardaram para si e dividiram com o urso… Para agradecer, o urso em troca, ofereceu-lhes mel.
Fizeram várias festas de convívio e tornaram-se grandes amigos. Uns dias depois, apareceram na floresta duas panteras artistas, cantoras de ópera, à procura de uma casa. Perguntaram aos animais onde poderiam encontrar, e eles disseram que a casa ao lado dos macacos estava livre, ou as outras.
O urso e os macacos ajudaram como puderam as duas panteras a mobilar a casa, ofereceram algumas coisas, e elas foram buscar outras. Para agradecer, as duas cantaram e encantaram todos com a sua voz, e durante várias noites seguintes, elas cantaram.
Depois apareceram quatro casais de chitas e leopardos que se instalaram nas casas ao lado das panteras. Para agradecer aos vizinhos que os ajudaram as chitas e os leopardos foram à caça e dividiram-na com todos…até os macacos comeram e gostaram.
Nas outras casas, instalaram-se lobos e lobas, loucos por festas e músicos que se juntavam com as panteras cantoras. Eram todos amigos, gostavam de partilhar, e conviver uns com os outros.
Um dia, esse bairro onde já todos se davam como família, ganhou novos habitantes que chegaram com um atrelado, puxado por cavalos. Todos os animais ficaram a olhar para eles, um pouco assustados a olhar para eles.

- O que trazem aí? – Pergunta o urso
- A nossa casa! – Respondem todos
- Como?
- Aqui neste atrelado.

Era um bando de morcegos, que tinham encontrado uma casca de caracol abandonada, e aproveitaram-na para ser a sua casa. Quando a tiraram do atrelado, os animais ficaram todos surpresos, e os morcegos todos juntos conseguiram pôr a casinha no sítio muito bem escolhido, à beira do rio. Aí estavam frescos, no escuro e tinham humidade garantida, por isso também não lhes ia faltar alimento.
Os cavalos que transportaram a casa dos morcegos, iam embora, mas chegou um pónei e fez logo amizade com eles, depois de uma tarde cheia de brincadeira, o pónei arranjou uma casinha para os cavalos, na quinta onde vivia, que também ficava à beira do rio.
Ainda ficaram casinhas livres, mas entretanto chegou outro habitante: um palhacinho tristonho, a arrastar os pés, com a trouxa às costas a lamentar-se. Todos os animais ficaram preocupados, e perguntaram ao palhacinho se estava tudo bem, ou se precisava de alguma coisa.
O palhacinho respondeu que estava à procura de uma casinha, e todos se lembraram que essa estava vazia. Levaram-no lá, ele abriu um lindo e luminoso sorriso que encantou todos os animais, e retribuíram o sorriso.
Cada vizinho ofereceu o que podia ao palhacinho que não tinha quase nada, e num instante rechearam a casa com móveis, candeeiros, sofá, cama, mesas, cadeiras, televisão, panelas, fogão, copos, pratos…tudo o que é preciso numa casa, e roupas para ele, toalhas, almofadas, roupas de cama e comida à farta.
O palhacinho ficou tão feliz que brilhava, e não sabia como retribuir todas aquelas coisas boas. Nessa noite, foi a casa de cada um dos vizinhos e ofereceu um abraço, um por um, que deixou todos com as lágrimas nos olhos de felicidade, pelo carinho e sinceridade que sentiram naquele abraço. Gostaram tanto daquele abraço que quiseram repetir, e o palhacinho abriu sempre grandes sorrisos.
     As panteras começaram a cantar docemente, os lobos e as lobas completaram, entraram na festa e tocaram muitos dos seus instrumentos. O palhacinho gostou tanto que entrou na brincadeira com eles, e fez nascer muitas gargalhadas.
Aquele espaço encheu-se de música e alegria, todos trocaram aplausos, carinhos e gargalhadas, todos dançaram e brincaram uns com os outros…até o urso perdeu a preguiça dançou, saltou, rebolou e os morcegos também se juntaram.  
Já se deitaram quase com o nascer do sol, cansados, mas muito felizes, com os olhos brilhantes…parecia que todas as estrelas do céu nessa noite tinham entrado nos seus olhos, e sorrisos, sentiam o coração preenchido, e vão repousar.
Antes de dormir, o palhacinho sentou-se na beira do rio, e ficou em silêncio a ouvir o que ele dizia. O rio usou uma linguagem que só o palhacinho entendeu…mas com certeza disse-lhe coisas boas, porque até o rio estava mais bonito!
O palhacinho agradeceu, sorriu e num gesto de magia, fez aparecer das suas mãos, lindas e grandes flores, fechadas mas com uma surpresa lá dentro…e deixou na beira do rio, com o nome de cada vizinho.
Foi-se deitar. Quando os vizinhos acordaram, viram que aquilo era para cada um eles. Quando pegaram na flor, esta abriu-se e saiu de lá uma borboleta cheia de cor e de luz, que envolveu cada habitante e fez sentir neles um delicioso abraço caloroso, depois, das suas asas saltaram beijinhos, e as borboletas todas juntas, deram as mãozinhas, formando a palavra «obrigado». Outras tantas, formaram um sorriso…
Todos sentiram que foi o palhacinho, e encheram-se de alegria. Para retribuir, prepararam-lhe um piquenique surpresa, com as atuações das panteras e dos lobos e lobas. O palhacinho não saiu mais de lá.
O tempo passou e uns meses depois chega á floresta uma jovem rapariga com um bebé muito pequenino de colo. Vinha com frio, e fome…fraca. O palhacinho ficou cheio de pena dela e do bebé. Acolheu-os na sua casa, deu-lhes de comer, deixou-os tomar banho, e deu-lhes roupa para vestir.
Enquanto os novos habitantes se acomodavam, o palhacinho foi falar com os seus amigos, preocupado, sem saber o que fazer. Decidiram em conjunto mobilar a outra casa ao lado que ainda estava livre, à beira do rio, graciosa, mimosa, pequena, mas muito confortável. Todos ajudaram, cada um naquilo que podia e no que sabia, e num instante a casa fica completa. Até para o bebé arranjaram.
A jovem passou para essa casa com o seu bebé, mesmo ao lado da casa do palhacinho, feliz, e sempre acompanhada, os vizinhos nunca a deixaram sozinha, estavam sempre preocupados, e ajudaram-na muito.
Os dois palhacinhos foram trabalhar para os arredores da grande cidade de onde tinham saído. Lá foram sempre muito bem recebidos, muito aplaudidos, e valorizados, e o bebé ficou algumas vezes com os vizinhos.
Todos eram uma verdadeira família, faziam muitas festas e sempre muito bondosos uns com os outros. As casas que começaram por estar vazias, ficaram todas habitadas, e este sítio á beira do rio era amado, respeitado e protegido, cuidado, tal como os seus habitantes entre si.

E vocês? Se tivessem uma casinha à beira do rio, como é que ela seria?
Que outras casas haveriam, ou como seriam?
Quem gostariam de ter como vossos vizinhos?

FIM
Lálá
(11/Junho/2015)


  

terça-feira, 26 de maio de 2015

O pára-quedas

Era uma vez um trapezista com uma forma muito estranha, nada parecido com um ser humano, que adorava brincar e fazia malabarismos no anel de um planeta, onde ele construiu o seu quarto.
Da janela ele via o lindo planeta Terra, que parecia hipnotizá-lo…e para onde ele passava muito tempo a olhar, a tentar imaginar como seria, se as pessoas eram como ele, o que comiam, se andavam da mesma forma que ele, e muitas outras coisas.
Embora ele quisesse muito ir à terra, sabia que isso não seria possível, e começava a acreditar que tudo fazia parte de um sonho. E tal como um sonho, ele apenas olhava para a terra, sorria e sonhava acordado, ou de olhos fechados.
Um dia, quando cresceu, deixou de sonhar e de imaginar como seria a Terra, porque pensava que já não tinha idade para sonhar, e para pensar em coisas que nunca iriam acontecer. Nesse dia em que deixou de sonhar, ficou triste, viu-se ao espelho e pareceu-lhe ter mais rugas. As lágrimas caíram-lhe dos olhos mas logo a seguir foi para o seu trabalho.
Nunca tinha dito a ninguém que gostava de ir à Terra, mas havia uma constelação que sabia, mesmo sem ele falar, porque viam-no a olhar pela sua janela, e o brilho nos seus olhos. Uma delas falou com uma nuvem que ia nesse dia para a Terra, e a nuvem sugou-o enquanto ele fazia um malabarismo.
Mas que grande susto. Gritou muito assustado, e a nuvem pede-lhe:
- Pára de gritar! Por favor…estás a deixar-me com dores de cabeça. Aliás…nem sei porque estás a gritar dessa maneira.
- Mas…mas…onde é que eu estou?
- Estás dentro de mim.
- E quem és tu?
- Sou uma nuvem.
- Porque é que eu estou dentro de ti, engoliste-me?
- Sim, engoli-te!
- Porquê? Eu não sou de comer.
- Que conversa tão desagradável. – Murmura a nuvem
- Como é que eu vim aqui parar? Eu estava nos meus ensaios, e de repente…sou assim…
- Sugado!
- Isso.
- Sim, foste sugado. E depois?
- Porquê?
- Porque é que estás a fazer tanta pergunta?
- Então…? Estou preocupado…não sei como vim parar aqui…não sei onde estou… acho que nem nos conhecemos.
- Porque é que queres saber tudo?
- Porque estou assustado.
- Mas não precisas de ficar assustado. Vou levar-te a um sítio que tenho a certeza que vais gostar e onde já querias ir há muito tempo.
- Onde?
- Pensa…!
- Óh…não sei.
- Pensa.
- Em quê?
- No sítio onde já querias ir há muito tempo.
        Ele fica em silêncio, pensativo.
- Na minha infância, há muito tempo atrás queria ir à Terra. Mas isso não passou de um sonho, como aqueles que se tem à noite, onde tudo pode acontecer, e que sabemos que não se realizam. Mas, mas…isso vem a propósito de quê? Estávamos a falar sobre a minha chegada aqui.
- Vais realizar hoje o teu sonho.
- O quê?
- Isso mesmo. Vais à Terra.
- Não pode ser…eu acho que estou a sonhar ou a imaginar.
- Não há idades para sonhar e imaginar. Porque é que deixaste de sonhar e imaginar?
- Porque estava muito ocupado, tinha de treinar muito, e trabalhar. Não podia perder tempo com coisas da infância, que já vai há tanto tempo.
- Não há idades! E o que aconteceu, quando deixaste de imaginar e sonhar?
- Ganhei rugas…e fiquei triste, mas habituei-me.
- Pois…
- Mas tu para onde vais?
- Para a Terra!
- Áhhh!
- E tu também vais. Prepara-te que estamos a chegar, e vou largar-te num pára-quedas em forma de grande manjerico, com milhares de manjericos.
- Mas o que é que tenho que fazer?
- Senta-te nesse pára-quedas e segura-te bem.
- O que é isto tudo aqui?
- São manjericos para largar lá em baixo.
- Manjericos? Huummm… que cheirinho tão bom!
- É para eles usarem numa festança da cidade. Eles também sonham, em qualquer idade, e até acham que os manjericos são enviados pelos deuses da Natureza. As estrelas e o Universo responderam a essa fantasia deles, porque ficam muito felizes e há uma aragem fresca.
- Áh! Que bonito…
- Vê pela janela.
- Uau! É maravilhosa…
- Prepara-te.
- Mas eu vou aparecer nesta figura?
- Não! Logo vês como vais aparecer.
Na terra viram uma nuvem muito escura que voava pelo céu de uma cidade e fazia adivinhar uma terrível tempestade.
- Agora! Boa viagem…até já… aproveita e diverte-te.
Todas as pessoas fugiram para as suas casas.
- Um…dois…três…!
A enorme nuvem abre as portas e uma coisa muito estranha aconteceu, e ninguém percebeu…da grande mancha escura que parecia chuva, em vez de trovões e água, saiu um pára-quedas gigante em forma de manjerico com o rapaz.
- Até já!
- Até já…Obrigado.
- De nada…
- O que é aquilo? – Pergunta o rapaz
Todos ficam a olhar pelas janelas, e vêem o enorme manjerico em forma de pára-quedas. Do pára-quedas soltam-se os nacos de terra com manjericos que se espalham por todo o lado no solo.
O sol abriu e o rapaz aterrou. Viu tudo o que estava à sua volta, cheira tudo, corre, salta, trepa às árvores, faz malabarismos, anda quilómetros, muito feliz, e sorridente, rodopia, dá cambalhotas, toca em tudo, e todos ficam a olhar para ele. Ele solta grandes exclamações de encantado e feliz.

- Que linda que é a Terra! Uau! Isto é mesmo como eu imaginava…isto…não sabia que existia aqui…Ei…tantas casas…eles não estão apertados? Os terráqueos são estranhos! Áh! Que lindo! Huummm…cheira bem. Ei…tantas cabeças ali…Ai, que barulho, são carros? Onde vão tão rápido? Que malucos. E aquelas luzes? Eram as que viam lá de cima? Onde está aquela água? O que é que faz ficar tudo azul?   
Quando as pessoas saem à rua, abrem um enorme sorriso.
- Os manjericos! – Gritam todos
E rezam para agradecer aos céus, porque sempre acreditaram que os manjericos eram mandados por deuses. Guardaram-nos e o rapaz continua a passear.
Umas coisas eram como ele tinha imaginado, e pensado como eram, outras eram muito diferentes! Mas ele adorou tudo. Nenhum ser humano o viu a passear.
Depois de ter visto tudo, a nuvem foi buscá-lo outra vez, e contou tudo o que viu, o que sentiu, o que cheirou. A nuvem ouve-o atentamente e sorri e ri com ele.
- A vida precisa de magia e de sonho…não há idade para sonhar ou deixar de o fazer. – Diz a nuvem
E o rapaz de regresso à sua casa, voltou a ser muito feliz, a brincar, a sonhar de olhos abertos e fechados, e a ficar cheio de energia.
- Filho…acorda! São horas de ir para o colégio. – Diz uma voz feminina
- Óhhh…não! Eu quero estar na minha casa lá em cima… - diz um menino
- O quê? – Pergunta a voz feminina
- Eu vivia lá em cima… tinha um quarto com janela virada para a Terra, e fui sugado por uma nuvem escura que me largou de pára-quedas em forma de manjerico. Ela sabia que era um sonho muito antigo que eu tinha…e o pára-quedas largou manjericos no solo, porque achavam que tinham sido enviados pelos deuses… - conta o menino
A mãe desata a rir e percebe que foi tudo um sonho que o menino teve nessa noite, e sonhou com manjericos porque tinha-os visto no seu jardim, e perguntou como é que eles foram lá parar…disseram-lhe que foram os deuses que mandaram…A vida tem de ter magia e sonho, ilusão e fantasia, sem idade, para nos sentirmos vivos, e fazer o coração bater mais forte de felicidade. Nos sonhos tudo pode acontecer, até ir à lua e fazer malabarismo num anel de um planeta, ou descer de pára-quedas em forma de manjerico.

E vocês? Também sonham? Por onde já andaram?

FIM
Lálá
(26/Maio/2015)