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terça-feira, 8 de setembro de 2015

A ONDINHA IRRITADA



Era uma vez uma praia como as outras, com areia, mar e rochas. Na praia havia sempre muitas pessoas a apanhar sol, crianças a jogar futebol, e a brincar. No mar, os animais e as ondas tinham os seus trabalhos e era um ambiente sossegado, mas de um dia para o outro, tudo se transformou.
Passou a ser muito agitado por causa de uma ondinha que parecia pequena mas ultimamente andava armada em onda grande, muito revoltada, inquieta agitada, irada, irritada, e quando vinha à superfície aproveitava para descarregar o seu mau-humor e a sua ira na praia.
Só fazia asneiras! Se via crianças a construir castelinhos de areia, ou a brincar vinha e destruía os castelinhos. Outras vezes, dava banho completo às crianças, e elas desatavam a fugir, a chorar e a tremer de frio, aos gritos. Arrastava brinquedos, e tirava as bolas aos adultos que estavam a jogar, ou quando via casais de namorados também gostava de os refrescar, para os lembrar que estavam na praia, e deitava-os para trás, empurrando-os, ou molhando-os e enchendo-os de areia da cabeça aos pés.
Enquanto todos ficavam muito zangados, a ondinha ria às gargalhadas e voltava para o fundo do mar mais relaxada, toda feliz. A rainha do mar via tudo, e recebeu várias queixas de outros seres do mar, da ondinha…isto deixou-a realmente irritada e mandou que chamassem a ondinha.
- Mas o que é que se passa com ela? Só faz asneiras…Chamem aquela endiabrada da Ondinha…
Os guardas da rainha vão chamar a ondinha. A ondinha não sabia a rainha já tinha visto tudo. Ela espreita, e a Rainha diz-lhe docemente, e sorridente:
- Estás a espreitar? – Mas logo fica muito séria e grita – Entra!
A ondinha estremece, a rainha respira fundo para não explodir.
- Precisas de alguma coisa, rainha?
- Senta-te! – Ordena
A ondinha senta-se a medo.
- Os teus pais? – Pergunta a rainha
- Estão na praia.
- Vou ter de falar com eles! E vou directa ao assunto contigo. Não sei como é que eles ainda não perceberam que estás muito diferente…talvez porque te misturas com as outras, e eles nem vêem…confiam…acham que têm uma menina muito bem comportada. Mas não gosto nada do que tu andas a fazer.
- Eu?
- Não…! Eu! Claro que és tu. O que é que se passa contigo? Andas muito irritada, só fazes asneiras. Vais lá para cima, pareces inofensiva, e de repente, do nada…transformas-te em algo parecido com tsunami…destróis tudo. Destróis os castelinhos das crianças que elas fazem com tanto carinho, paciência e arte! Arrastas os seus brinquedos, dás-lhes banho dos pés à cabeça! Levas bolas de futebol e outros jogos dos adultos. Enrolas namorados, arrastas toalhas, molhas roupas, lavas roupas e chapéus…Ai! Mas o que significa isto tudo? Quem é que tu pensas que és? Nunca foste assim. – Diz a rainha, primeiro calma, depois, com a irritação sobe no tom de voz.
A ondinha fica assustada e preocupada responde:
- Rainha, eu…não sabia que já tinhas visto tudo!
- Ora! Estás farta de saber que vejo sempre tudo, e vieram-me fazer queixas! Não posso permitir que faças coisas como estas que tens feito!
- Mas é assim tão mau?
- É. Mesmo muito mau. Pões vidas de pessoas em risco…e depois…? Quem é que as ia tirar daqui? Ias-nos meter em sarilhos, e é tudo o que nós não queremos.
- Eu só queria brincar!
- Tens muita coisa para brincar cá em baixo, porque raio hás-de brincar com vidas humanas?
- Eles também brincam connosco.
- Sei muito bem que andas a fazer isto por mal. Sinto-te muito revoltada…tudo o que estás a fazer é por revolta! Não pode ser.
- É que…eu…adoro a praia.
- Não és só tu. Todos adoramos a praia. E as pessoas também. Isso não justifica o que estás a fazer.
- É que…eu…só estava a tentar proteger a praia daqueles malditos.
- O quê?
- Sim, os humanos só poluem, só estragam.
- Isso é verdade, mas também não serve de justificação. Não vais conseguir evitar que eles poluam, infelizmente, porque eles não têm nada nas cabeças. Mas não vais ser tu, a fazer essas coisas, que lhes vais pôr alguma coisa nos miolos para deixarem de poluir. Um dia…vão pagar cêntimo por cêntimo, as consequências do que fazem, aliás, já estão a pagar, mas ainda não repararam. Isso nunca vão perceber, mas é problema deles!
- Eu odeio aqueles objectos dos pequenos.
- Que objectos?
- Aquilo com que eles fazem castelos, e tiram a areia.
- Não é justificação para essas asneiras.
- Odeio bolas.
- Eu também, mas o que é que isso implica contigo?
- Nada! Mas não gosto, e podem estragar a praia.
- O quê? Que disparate. Nunca ninguém se queixou de estragos por bolas.
- Odeio aqueles namoradinhos sentados na areia. Eu gosto de os enrolar para os acordar e lembrarem-se que estão na praia…há gente a vê-los.
- É muito pior ver guerra.
- Não gosto.
- Não é motivo para fazeres as asneiras que fazes.
- Eu só quero proteger a praia, o mar e a ti…!
- Isso é muito bonito de tua parte, mas não serve de desculpa para o que fazes. Vou ter de te castigar.
- Óh não! Por favor, rainha. Desculpa, eu não volto a fazer asneiras.
- Pensa em silêncio no que tens feito. Aí…quieta. (pequena pausa, silêncio) Minha pequena…ainda és muito criança, com muitos sonhos, sem maldade, achas que és super criança, que tens poderes para salvar o mundo, e a humanidade, mudar as mentes…melhorar o planeta. (Silêncio) Já percebi, estás revoltada com os humanos pelas asneiras que eles fazem, e maldades contra nós, contra a nossa casa. Tens razão. Todos nós ficamos, claro que é injusto, revolta, magoa…e temos imensa vontade de nos vingarmos deles, de fazer ainda pior do que eles nos fazem. Mas…por muito que queiras, as tuas maldades, asneiras, não vão servir para os emendar, nem ensinar, ou mudar as mentes. Descansa, o planeta tratará de lhes ensinar e castigar. Aliás, já está a tratar disso. O planeta tem a força de todos nós juntos e muita mais que só ele sabe! Deixa-os aproveitar enquanto têm!
A ondinha fica pensativa.
- O que posso fazer agora?
- Não voltes a fazer asneiras e tenta ser amiga dos humanos, carinhosa como as outras.
- Está bem.
Aparecem as filhas da rainha do mar, lindas como ela.
- E o castigo, rainha? Qual vai ser? – Pergunta a ondinha triste
A rainha suspira, olha para as filhas, elas sorriem-lhe:
- Bem…preciso de pensar… o que acham?
- Mamã…eu acho que ela está a precisar de um abraço! – Diz uma
- O que ela fez não foi bom, mas à beira do que eles nos fazem, também não foi nada de mal…só foi…umas brincadeirinhas…uns sustinhos a fingir… - Diz outra
- Acho que ela não fez por mal. – Diz outra
- É. Acho que ela fez isso só para chamar a atenção. Como é pequenita, quer que reparem nela…fingindo que é grande. – Diz outra
- Pois. A sua raiva é grande…eu sinto as vibrações… ui…! – Diz a mais velha
- Sim! – Dizem todas
- Olha que daqui a pouco o mar ainda fica mais poluído do que o que está, com a tua revolta. – Diz um caranguejo
- Xiu! – Mandam todas
- É. Eu não fiz por mal. – Confirma a ondinha
- Huummm…um abraço…huuummmm… bem…acho que…- Pensa a rainha
- Siiiiiiiiiiiiiiimmmmmmmmm… - Dizem todas a sorrir
- Parece-me…bem! Menina agora vê lá o que fazes! Não te esqueças do que eu te disse, e vou dizer aos teus pais que precisam de estar mais atentos.
- Está bem! Não me esquecerei. Muito obrigada.
- Agora…podem ir.
E as princesas, uma por uma abraçam a ondinha, depois dão um abraço colectivo e vão para a superfície brincar. A ondinha gostou tanto daqueles abraços que voltou a ser tão meiga como era antes, carinhosa, e durante muito tempo pensou no que a rainha lhe tinha ensinado.
A ondinha e as princesas tinham combinado que para a ondinha não voltar a fazer maldades e asneiras, sempre que se sentisse irritada, raivosa, revoltada e com vontade de se vingar…procurava as princesas, elas davam-lhe um abraço e brincavam juntas. Foi mesmo isso que ela fez, desde esse dia. Talvez a verdadeira razão fossa a falta de um abraço…tornaram-se uma verdadeira família.
Os abraços fazem milagres, tornam-nos melhores pessoas, não é? Ficamos mais calmos com um abraço, ganhamos mais saúde, e ficamos mais felizes não é?
Já experimentaram?
Vamos dar todos um abraço pelo menos a quem está ao nosso lado? Como se sentiram?
A ONDINHA SENTIU-SE ÓPTIMA.
FIM
Lálá
(7/Setembro/2015)


sexta-feira, 12 de junho de 2015

As casinhas à beira do rio

Desenhado por Lara Rocha 


Era uma vez um pequeno bairro de casinhas construídas quase na berma de um rio com muita água e cascatas. 
Cada casinha era feita de pedra, com janelinhas pequenas, pintadas de cores diferentes, portas, e jardins pequeninos, cheios de flores. 
As casinhas estavam desabitadas, e vazias, mas ninguém sabia quem as tinha construído, nem quem tinha plantado as flores. 
Num dia de chuva torrencial numa montanha muito alta, um pobre urso caiu na água gelada do lago, depois do gelo onde ele tinha pousado, ter partido. Como a água corria muito forte, o urso foi levado para esse cantinho da floresta.
Depois de muitos trambolhões, e tentativas de se agarrar para sair da água, o urso só parou quando chocou com uma rocha. Não sabia onde estava, mas achava que já tinha andado muito. Olhou à sua volta e gostou do sítio. Saiu da água cansado, e viu as casinhas. Espreitou. Estava tudo vazio.

- Acho que não está habitada…vou instalar-me aqui para descansar. Se aparecer o dono, peço desculpa, explico o que aconteceu e saio.

Instalou-se e dormiu o resto do dia, e de noite. Sentiu-se tão bem naquela casinha que decidiu ficar por lá. Foi à procura de coisas para a sua casa e encontrou, inventou, construiu e montou troncos de árvores, raminhos, rolinhos e tudo o que encontrou.

- Está ótimo!

O urso era grande em tamanho mas muito bondoso e às vezes preguiçoso. Adorava estar sentado ou deitado à sombra num barco de madeira que encontrou abandonado. Só quando a fome apertava é que ele despertava e ia pescar no rio.
Uns dias depois o urso ganhou novos vizinhos: uma família enorme de macacos que faziam muito barulho, principalmente quando se zangavam uns com os outros, e ocuparam quatro casas que estavam vazias.
Foram logo simpáticos com o urso, pois sabiam que era melhor para eles serem amigos de um urso, apesar do seu tamanho assustador. Tão simpáticos que quando encontraram fruta, guardaram para si e dividiram com o urso… Para agradecer, o urso em troca, ofereceu-lhes mel.
Fizeram várias festas de convívio e tornaram-se grandes amigos. Uns dias depois, apareceram na floresta duas panteras artistas, cantoras de ópera, à procura de uma casa. Perguntaram aos animais onde poderiam encontrar, e eles disseram que a casa ao lado dos macacos estava livre, ou as outras.
O urso e os macacos ajudaram como puderam as duas panteras a mobilar a casa, ofereceram algumas coisas, e elas foram buscar outras. Para agradecer, as duas cantaram e encantaram todos com a sua voz, e durante várias noites seguintes, elas cantaram.
Depois apareceram quatro casais de chitas e leopardos que se instalaram nas casas ao lado das panteras. Para agradecer aos vizinhos que os ajudaram as chitas e os leopardos foram à caça e dividiram-na com todos…até os macacos comeram e gostaram.
Nas outras casas, instalaram-se lobos e lobas, loucos por festas e músicos que se juntavam com as panteras cantoras. Eram todos amigos, gostavam de partilhar, e conviver uns com os outros.
Um dia, esse bairro onde já todos se davam como família, ganhou novos habitantes que chegaram com um atrelado, puxado por cavalos. Todos os animais ficaram a olhar para eles, um pouco assustados a olhar para eles.

- O que trazem aí? – Pergunta o urso
- A nossa casa! – Respondem todos
- Como?
- Aqui neste atrelado.

Era um bando de morcegos, que tinham encontrado uma casca de caracol abandonada, e aproveitaram-na para ser a sua casa. Quando a tiraram do atrelado, os animais ficaram todos surpresos, e os morcegos todos juntos conseguiram pôr a casinha no sítio muito bem escolhido, à beira do rio. Aí estavam frescos, no escuro e tinham humidade garantida, por isso também não lhes ia faltar alimento.
Os cavalos que transportaram a casa dos morcegos, iam embora, mas chegou um pónei e fez logo amizade com eles, depois de uma tarde cheia de brincadeira, o pónei arranjou uma casinha para os cavalos, na quinta onde vivia, que também ficava à beira do rio.
Ainda ficaram casinhas livres, mas entretanto chegou outro habitante: um palhacinho tristonho, a arrastar os pés, com a trouxa às costas a lamentar-se. Todos os animais ficaram preocupados, e perguntaram ao palhacinho se estava tudo bem, ou se precisava de alguma coisa.
O palhacinho respondeu que estava à procura de uma casinha, e todos se lembraram que essa estava vazia. Levaram-no lá, ele abriu um lindo e luminoso sorriso que encantou todos os animais, e retribuíram o sorriso.
Cada vizinho ofereceu o que podia ao palhacinho que não tinha quase nada, e num instante rechearam a casa com móveis, candeeiros, sofá, cama, mesas, cadeiras, televisão, panelas, fogão, copos, pratos…tudo o que é preciso numa casa, e roupas para ele, toalhas, almofadas, roupas de cama e comida à farta.
O palhacinho ficou tão feliz que brilhava, e não sabia como retribuir todas aquelas coisas boas. Nessa noite, foi a casa de cada um dos vizinhos e ofereceu um abraço, um por um, que deixou todos com as lágrimas nos olhos de felicidade, pelo carinho e sinceridade que sentiram naquele abraço. Gostaram tanto daquele abraço que quiseram repetir, e o palhacinho abriu sempre grandes sorrisos.
     As panteras começaram a cantar docemente, os lobos e as lobas completaram, entraram na festa e tocaram muitos dos seus instrumentos. O palhacinho gostou tanto que entrou na brincadeira com eles, e fez nascer muitas gargalhadas.
Aquele espaço encheu-se de música e alegria, todos trocaram aplausos, carinhos e gargalhadas, todos dançaram e brincaram uns com os outros…até o urso perdeu a preguiça dançou, saltou, rebolou e os morcegos também se juntaram.  
Já se deitaram quase com o nascer do sol, cansados, mas muito felizes, com os olhos brilhantes…parecia que todas as estrelas do céu nessa noite tinham entrado nos seus olhos, e sorrisos, sentiam o coração preenchido, e vão repousar.
Antes de dormir, o palhacinho sentou-se na beira do rio, e ficou em silêncio a ouvir o que ele dizia. O rio usou uma linguagem que só o palhacinho entendeu…mas com certeza disse-lhe coisas boas, porque até o rio estava mais bonito!
O palhacinho agradeceu, sorriu e num gesto de magia, fez aparecer das suas mãos, lindas e grandes flores, fechadas mas com uma surpresa lá dentro…e deixou na beira do rio, com o nome de cada vizinho.
Foi-se deitar. Quando os vizinhos acordaram, viram que aquilo era para cada um eles. Quando pegaram na flor, esta abriu-se e saiu de lá uma borboleta cheia de cor e de luz, que envolveu cada habitante e fez sentir neles um delicioso abraço caloroso, depois, das suas asas saltaram beijinhos, e as borboletas todas juntas, deram as mãozinhas, formando a palavra «obrigado». Outras tantas, formaram um sorriso…
Todos sentiram que foi o palhacinho, e encheram-se de alegria. Para retribuir, prepararam-lhe um piquenique surpresa, com as atuações das panteras e dos lobos e lobas. O palhacinho não saiu mais de lá.
O tempo passou e uns meses depois chega á floresta uma jovem rapariga com um bebé muito pequenino de colo. Vinha com frio, e fome…fraca. O palhacinho ficou cheio de pena dela e do bebé. Acolheu-os na sua casa, deu-lhes de comer, deixou-os tomar banho, e deu-lhes roupa para vestir.
Enquanto os novos habitantes se acomodavam, o palhacinho foi falar com os seus amigos, preocupado, sem saber o que fazer. Decidiram em conjunto mobilar a outra casa ao lado que ainda estava livre, à beira do rio, graciosa, mimosa, pequena, mas muito confortável. Todos ajudaram, cada um naquilo que podia e no que sabia, e num instante a casa fica completa. Até para o bebé arranjaram.
A jovem passou para essa casa com o seu bebé, mesmo ao lado da casa do palhacinho, feliz, e sempre acompanhada, os vizinhos nunca a deixaram sozinha, estavam sempre preocupados, e ajudaram-na muito.
Os dois palhacinhos foram trabalhar para os arredores da grande cidade de onde tinham saído. Lá foram sempre muito bem recebidos, muito aplaudidos, e valorizados, e o bebé ficou algumas vezes com os vizinhos.
Todos eram uma verdadeira família, faziam muitas festas e sempre muito bondosos uns com os outros. As casas que começaram por estar vazias, ficaram todas habitadas, e este sítio á beira do rio era amado, respeitado e protegido, cuidado, tal como os seus habitantes entre si.

E vocês? Se tivessem uma casinha à beira do rio, como é que ela seria?
Que outras casas haveriam, ou como seriam?
Quem gostariam de ter como vossos vizinhos?

FIM
Lálá
(11/Junho/2015)


  

terça-feira, 14 de outubro de 2014

A MÚSICA DA ÁGUA


foto de Lara Rocha             

         Era uma vez, uma linda fada que estava a voar numa folha de uma árvore. A folha caiu na água de um lago, com uma forte ventania. A fada molhou-se toda, e fica muito chateada.
- Olha para isto…! O que é que te deu? Íamos a voar tão bem! – Resmunga a fada
        Ela ouve uma gargalhada:
- Ainda por cima estás a rir-te na minha cara! – Diz a fada ofendida – E agora, como é que eu me vou secar? A água está fria…ainda se fosse quente…
- Desculpa, fada. Mas não fui eu que me ri. – Diz a folha
- Ai não? Fui eu? – Pergunta a fada
- Olá! Resmungona…
- O quê?
- Não fui eu.
        A fada faz silêncio.
- Quem está aí?
- Fui eu que deitei a folha abaixo! – Diz a voz de um elfo
- Mas que grande atrevido…aparece. – Grita
        Aparece um lindo e elegante Elfo.
- Olá… - Diz o elfo docemente
        A fada vira-lhe as costas zangada.
- Vai-te embora…não te quero ver! – Diz a fada
- Desculpa, princesa… - Diz o elfo
- Não sou princesa, sou fada. – Diz a fada com o nariz levantado
- Porque é que nos deitaste abaixo? – Pergunta a folha
- Porque queria conhecer a princesa que tu passeavas.
- O quê? – Gritam as duas
- Isso é maneira de alguém conhecer outra pessoa? – Pergunta a folha
- Também acho. Que disparate. – Resmunga a fada
- Óh…uma menina tão linda…tão resmungona… - Diz o elfo
- Não sou princesa, nem menina. Sou fada! – Grita a fada
- Ui, que nervosa…
- Claro…mandaste-me para a água, e achaste que eu ia ficar feliz, ou rir, não? Olha como eu estou? – Diz a fada zangada
- Estás linda!
- Ui, uma beleza…a escorrer água por todo o lado.
- Sim! Vá…anda dançar, que isso seca. – Diz o elfo a sorrir
- Eu? Dançar contigo? Depois do que me fizeste? Nunca.
        Ela amua. Ele põe-se de joelhos com o ar mais doce do mundo, sorri e diz:
- Perdoa-me, minha Fada linda.
        Era vira-lhe o rabo.
- Que rabiosque bonito, mas gosto mais de te ver de frente…
        Ela ia resmungar, mas como não estava à espera daquele elogio ao seu rabo, começa a rir às gargalhadas, e o elfo ri com ela. Sem dar por isso, já estão os dois virados um para o outro, a rir.
- Que riso tão bonito…fada! – Elogio o elfo
        Os dois param de rir, e fixam os olhos um no outro.
- O que é que os nossos olhos estão a dizer uns aos outros? – Pergunta o elfo
- Não sei…estão a segredar uns com os outros…não consigo perceber.
- Deixemo-los em paz, e a conversar à vontade.
- É. Eles lá se entendem.
        O elfo estala os dedos e aparece um belo ramo de flores, que oferece à fada.
- Áh! Flores…que lindo! Obrigada. Adoro.
        Trocam sorrisos.
- Podemos dançar? – Pergunta o elfo
- E onde tens a música?
- Está aqui à nossa volta.
- Não ouço nada.
- Vais ouvir…
        Ele dá as mãos à fada, delicadamente, e a sorrir. Ela rende-se à beleza e doçura do elfo. Abraçam-se, e trocam olhares fixos, e sorrisos.
No silêncio, eles conseguem realmente ouvir música. A música das águas que correm no lago com velocidades e intensidades diferentes, as águas que passam entre as rochas e as águas das cascatas. Ouvem as gotas de água que caem de cima, e o vento a soprar forte entre as folhas que abana. Ouvem a água a borbulhar e a cair mais forte.
Ouvem o canto das cigarras e dos grilos na relva à volta do lago, até ouvem os seus corações a bater, o sorriso e o brilho dos seus olhos.
De repente aparece um coro de fadas, acompanhadas de passarinhos, que cantam e tocam lindamente instrumentos como harpas, violinos, piano, tambores, ferrinhos.
Toda a gruta desperta, e juntam-se morcegos, que guincham, peixes que nadam velozmente, nenúfares que se abrem e de onde saltam as flores, e belas fadas da água que fazem patinagem artística e mágicas danças. A fada fica toda brilhante, muito feliz, o elfo, encantado e sorridente, e participam alegremente na festa, dançam juntos.
Mas aquele momento tão bonito é interrompido por um ser monstruoso que mora nas profundezas do lago, muito mal-humorado, resmungão, agressivo, e solitário. Com um aspecto de meter medo.
Aparece à superfície e grita:
- Fora daqui!
        Todos desaparecem do lago rapidamente, e encontram-se fora dele.
- Cruzes, que coisa era aquela? – Pergunta a fada
- Era o monstruoso sargo que vive nas profundezas do lago. Odeia ser incomodado. Acha que é o dono do lago. – Explica o elfo
- Que criatura nojenta! – Suspira a folha
- Estava tão bom. – Diz a fada a sorrir
- Gostaste, fada? Eu também! Conseguiste ouvir a música que havia à nossa volta? – Pergunta o elfo
- Sim, consegui. Uma música maravilhosa! – Diz a fada
- Pois foi. E também ouvi os nossos corações a bater! – Diz o elfo
- Também ouvi.
- Ele diz que gosta muito de ti.
- O meu também.
        Os dois sorriem. Abraçam-se mais uma vez, e de cada um deles sai uma linda luz. As duas luzes encontram-se, enrolam-se e fundem-se numa só. Atravessam o corpo dos dois.
- A minha luz encontrou a tua luz! – Diz o elfo
- A tua luz encontrou a minha luz! – Diz a fada
- As nossas luzes, agora são uma só…na amizade, no respeito e no amor incondicional. – Explica o elfo
- Que lindo! Eu sinto a tua luz em mim. – Diz a fada a sorrir
- Boa! Eu também sinto a tua luz em mim! – Diz o elfo.
- Muito obrigada…- Diz a fada
- Não digas mais nada. Fica sempre comigo! – Diz o elfo
- Sim! (sorri) Ficarei sempre contigo.
        Dão a mão e voam, num passeio livre, pela floresta, e numas conversas muito animadas. Param algumas vezes para apreciar a paisagem e desde esse dia, não se separam mais.
        Às vezes os nossos corações encontram-se e conversam, sem as nossas palavras…só entre eles. Não conseguimos ouvi-los, mas eles entendem-se. Quando isso acontece, as nossas luzes encontram-se, e se elas se envolvem e fundem numa só, todos sentimos a luz uns dos outros dentro de cada um de nós.
        É essa luz que nos preenche, que nos faz sentir queridos e amados, que nos faz chorar e rir, e brincar…ou abraçar, só para sentirmos um pouco mais de luz. Porque às vezes, a nossa luz também enfraquece com a tristeza ou a solidão…é preciso pelo menos um abraço de alguém que tem a nossa luz dentro de si, além da dele ou dela, para nos devolver o sorriso, e nos fazer acreditar que o sol brilhará a seguir.
A nossa luz nunca é demais, e nunca se esgota…precisa sempre de outras luzes que lhe toquem, para brilhar mais forte, e para acender outras luzes em corações que precisam.
Muitas vezes faltam-nos as palavras, mas elas não são precisas quando dois corações de luz se encontram e conversam…e quando dessa conversa sai um abraço que conforta.
FIM
Lálá
(14/Outubro/2014)