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quarta-feira, 6 de julho de 2022

A flor da praia

     Era uma vez uma flor que apareceu misteriosamente numa duna da praia. 

  Não se sabe quem, ou como nasceu uma flor num sítio ventoso e árido, mas a realidade é que ela estava lá e sobrevivia. 

      Tinha sempre amigas gaivotas que a abrigavam quando estava feio, fazendo um círculo à sua volta, os pescadores regam-na sempre que é preciso e as plantas das dunas também a protegiam, fechando e encostando-se para a abrigar. 

       Ela tinha uma paisagem privilegiada, para o mar, sentia uma enorme curiosidade de experimentar sempre que ouvia as gaivotas, os pescadores e outras pessoas que iam à praia, falar do mar. 

        Só não queria incomodar para que a levassem ao mar. Sentia aquela aragem e cheirinho a maresia, a peixe, a sal, a algas. 

       Dormia sonecas embalada pelo som do movimento das ondas, via os barquinhos e as suas luzes, apreciava o pôr e o nascer do sol, as suas cores mágicas, as estrelas à noite. 

       Imaginava como seria estar na água, mas queria sentir a água. Um dia contou esse seu desejo às suas amigas gaivotas, e pouco tempo depois, estava um dia tão quente, que quase não se respirava, não se via ninguém na areia, um sol que crestava tudo. 

       As gaivotas também estavam tão cansadas com o calor que só conseguiam estar à sombra e na água. 

       Convidaram a flor para ir à agua. Ela disse logo que sim, e ficou tão feliz, que até lhe cairam umas lágriminhas. 

        As gaivotas lavaram-na no bico. Entraram no mar, e a flor nem conseguia acreditar. Primeiro estranhou e sentiu um bocadinho de medo, mas as gaivotas encheram-na de coragem: nadaram com ela, molharam-se várias vezes, brincaram com ela, saltitaram, riram, nadaram, boiaram. 

        A água estava agradavelmente quente, e calma, a flor adorou senti-la, juntamente com a aragem, o sal e o sol.  Viu peixes e tudo o que via do seu lugar parecia assustadoramente grande! Sentiu as cossegas das algas no seu pé e nas pétalas, e adorou a sensação.  

       Depois do banho e já mais fresca, as gaivotas voltaram a po-la na sua areia. Conversaram alegremente, a flor não tinha palavras para descrever o que tinha sentido, como estava feliz, nem sabia como agradecer às gaivotas por a terem levado a experimentar o mar, como tanto queria! 

       As gaivotas sentiram-se orgulhosas e tão felizes como a flor. Ficou a promessa de voltarem ao mar, muito em breve. 

       Esta flor vivia num belo sitio, e realizou o seu sonho. Foi sortuda! E vocês, já viram uma flor na praia? Se vissem esta flor ou outra, o que faziam? O que veriam? 

Podem deixar as vossas respostas nos comentários. 

                                       Fim

                                     Lara Rocha 

                                   6/Julho/2022 


 












segunda-feira, 4 de março de 2019

A lição do lixo à volta das escamas

           


Era uma vez um ouriço-do-mar que fugiu do oceano onde vivia com a sua família, de muito longe por causa da poluição. Percorreram longos quilómetros à procura de uma casa onde não houvesse lixo. Estava difícil de encontrar, mas finalmente, passaram por uma montanha aquática onde a água era transparente, morna e bem salgada como eles gostavam! Cheirava bem a algas.
           Estavam muito cansados, por isso instalaram-se no primeiro sítio que viram, e caíram num sono como já não se lembravam de ter. Tudo parecia calmo, outros animais que passavam, olhavam para eles, mas não lhes tocavam.
          Mas um acontecimento inesperado, despertou-os de repente, e assustou-os muito. Um violento tremor de terra! Instalou-se a agitação e o terror debaixo de água. Não sabiam bem o que estava a acontecer, mesmo assim, viam todos a correr de um lado para o outro, e um peixinho gritou-lhes:

- Saiam daí. Estão num sítio muito perigoso.

- O que é que está a acontecer, pergunta um ouriço-do-mar.

- Não temos tempo de explicar, agora. Venham atrás de nós! Rápido.

           Os ouriços-do-mar seguem-nos, assustados. Levanta-se um monte de areia que se move a uma velocidade arrepiante, e corre debaixo da água, formam-se centenas de bolhas de água que sobem em redemoinho para a superfície, e quase arrasta tudo o que é animal, mas eles já sabem que quando isso acontece, juntam-se e escondem-se num abrigo que construíram no casco de um navio afundado há muitos anos.
           O caos vai para a superfície, e as água nas profundezas acalmam. Todos respiram de alívio.

- Passou! - suspiram todos

           Um peixe matreiro, muito bonito, mas perigoso, grita:

- Intrusos!

           Estava a falar dos ouriços-do-mar. Como eram todos muito unidos, e todos obedeciam às ordens desse peixe, porque tinham medo dele, o que ele dissesse, tinham de fazer, se não, eram castigados.  Na verdade não gostavam de muitas coisas que ele fazia ou dizia, mas ninguém tinha coragem de o desafiar.

- Óh, não...nós viemos na paz, à procura de um lugar para viver, porque o nosso estava cheio de lixo! Quase não conseguíamos respirar! - explica um deles

- Eu não perguntei nada! - exclama o peixe arrogante

- Ele odeia perguntas... - diz outro peixe 

- Fora daqui. - Grita o peixe

- Mas nós... - tenta outro ouriço-do-mar

- Não quero saber de explicações! Fora... - Grita o peixe

           Os ouriços-do-mar afastam-se tristes. O peixe malvado vai passear todo emperuado e de repente algo se enrola nas suas barbatanas. Não consegue nadar, nem sair do mesmo sítio, e quanto mais tenta libertar-se, mais atado fica.
           Os ouriços-do-mar vêem a aflição do peixe, vão ter com ele, e ele escorraça-os, grita com eles, chama-lhes nomes feios, mas eles não se deixam intimidar.

- Vão-se embora...eu não vos quero aqui. - Grita o peixe 

- Para de te mexer e de gritar! - recomenda um ouriço

- Olha que porcaria que ele tem aqui à volta...

- Como vamos tirar daqui isto?

          Os ouriços-do-mar agem rapidamente, juntam-se e quando encontram uma possível saída do lixo, uns puxam dum lado, outros doutro, cortam com os seus picos partes dos fios, passa um peixe espada e ajuda a cortar os fios, e aos bocadinhos vão libertando o peixe.
          No fim estavam todos completamente exaustos. Respiram fundo, e caem na areia lentamente.Os ouriços agradecem ao peixe espada. O peixe está ofegante e muito nervoso, mas ao mesmo tempo envergonhado, por isso, depois de estar um pouco em silêncio, começa a soluçar e a chorar. Os ouriços-do-mar aproximam-se, olham-no, a medo, recuam.

- Estás bem? - pergunta um ouriço

- Ele odeia perguntas, lembras-te? - relembra o ouriço  

- Vamos... - diz um ouriço com medo

- Óh... esperem! - Diz o peixe a chorar

           Eles param, e olham para o peixe

- Estou muito envergonhado! Desculpem... muito obrigado por me terem tirado aquela porcaria! Ai, quase me acontecia alguma coisa má! Não sei de onde veio aquilo.

- Nós tínhamos toneladas...talvez... dessa porcaria na nossa zona!

- E o que é?

- É lixo... coisas que os humanos já não precisam...

- É que... não devem ter onde pôr.

- Parece que é o que dizem!

- Malditos! - Grita o peixe zangado

- Nós? - perguntam os ouriços assustados

- Não! Aqueles...

- Áh, sim! Tens razão...

- Eu fui muito bruto convosco. Escorracei-vos e vocês ainda me libertaram do lixo! Desculpem.

- Na hora de precisar...

- Pois, eu sei! Não merecia.

- Não foi isso que quisemos dizer!

- Na hora de alguém precisar não pensamos muito. Respondemos!

- Mas eu fui tão estúpido, que vocês deviam deixar-me ali enrolado naquela coisa.

- Porquê?

- Isso ia tirar-te a brutidade?

- Tu realmente não és nada simpático, és arrogante e bruto, mas talvez também tenhas as tuas razões para ser assim!

- Sim, têm razão!

- Toda a gente tem medo de ti.

- Medo de mim? Acham?

- Claro que sim!

- Óh, também não queria isso... é que eu acho que se não for mau, ninguém vai gostar de mim.

- Que disparate!

- Acham?

- Claro. Eles e toda a gente gostam de amigos bons.

- Que vergonha... sou um monstro!

- Não... és bonito, mas podes ser mais suave a falar como os outros.

- Como?

- Queres aprender?

- Quero! É uma forma de vos pedir perdão, e de agradecer!

- Podemos ficar?

- Claro que sim! Por favor!

             Os ouriços-do-mar dão umas verdadeiras aulas ao peixe, de como ser amigo e generoso com os outros, para gostarem dele, sem ser mau. Mas que grande mudança. O peixe mau passou a ser  um verdadeiro doce, cavalheiro, colaborador, educado, delicado, sedutor, brincalhão, divertido... e todos os outros que o rodeavam repararam. Elogiaram-no, chamavam-no sempre que precisavam, ele fazia convívios e divertia-se muito!
            Deixou de ser um chefe mau, e tornou-se no que sempre tinha sido: um peixe amigo, como os outros, que precisava dos outros, e que ajudava quem precisava. Desde esse dia, aquele lugar subaquático nunca mais foi o mesmo. Ao primeiro sinal de lixo, instalava-se a confusão, juntavam-se todos, e devolviam o lixo à superfície, na tentativa que os humanos deixassem de fazer lixo nas praias.

Acham que seria uma boa solução para resolver o problema dos lixos nas praias e nos mares?
               
                                                                         FIM
                                                                         Lálá
                                                                     4/Março/2019 

sexta-feira, 9 de março de 2018

O CAVALO SOBRE AS ONDAS




        

    Era uma vez um lindo cavalo com asas que vivia numa aldeia de nuvens, com a sua enorme família, onde tinha tudo. Ele sentia-se feliz na sua aldeia, mas às vezes gostava de sair e ir para a praia, que ficava por baixo. Para lá chegar tinha de atravessar apenas um fofo, claro e macio caminho de nuvens.
        Não se via todos os dias, aliás, ele fazia de tudo para ir à praia sem ser visto. Quem estava na praia de dia, às vezes viam-no, mas pensavam que eram nuvens juntas a formar a imagem de um cavalo. Outras vezes, aparecia de noite, quando a lua era tão grande e luminosa que quase parecia mergulhar.
        Quando ia de noite, cavalgava sobre as ondas pequeninas que cresciam com o pisar das suas patas. De dia, cavalgava longe da costa, e só refrescava as suas asas, algo que adorava fazer.
        Um dia, de noite, com a lua enorme e luminosa, lá foi ele…atravessou o caminho e cavalgou por cima das ondas grandes até quase à areia, a sentir a aragem agitar-lhe suavemente as crinas. Tinha muita vontade de conhecer a areia, saber o que se sentia nas patas, se era macia ou áspera, quente ou fria, ou se tinha cheiro.
         Deu mais uns passinhos e olhou para trás.
- Áh…a paisagem que se vê daqui é muito diferente! Nunca tinha visto. Que linda lua! Como o mar é mesmo interminável…já parecia não ter fim, mas daqui é muito maior. E a brisa…também é mais fresca, aqui. Ali não sinto tanto, ou é mais leve. E a areia...?
        Finalmente pôs as suas patinhas na areia, primeiro a medo, tocou um bocadinho e tirou rapidamente. Voltou a tocar, e a recuar outra vez. Até que decidiu pousar totalmente as patas na areia molhada, mas não sabia que se chamava assim.
- Áh…é…macia e fria. Mas acho que está molhada, parece…grossa…é parecida com lama.
        Caminha mais para cima, na areia seca, ao longo da praia, sempre atento a tudo o que sentia.
- Agora a areia está mais quente, é mais fina, e parece que está…seca. É diferente. A brisa também é mais forte. Tanto espaço…tanta areia. Então é aqui que as pessoas se deitam, ou será ali? Se calhar é nos dois sítios, quando há sol. É muito agradável.
        Estava encantado com aquela experiência, mas ainda queria saber mais. Decidiu sentir a areia com o corpo todo, estendeu as patas, sentou-se, mexeu-se livremente, e gostou tanto que se esfregou totalmente, rebolou na areia, às gargalhadas, esfrega com as patas, levanta a areia:
- Faz cócegas…que maravilha! É mesmo macia. Áh, áh, áh…
        Sacode-se, para e olha para a paisagem à sua frente.
- Uau! Isto é lindo!
        Fecha os olhos, inspira, expira, e sente o cheiro a maresia:
- Áh…que cheiro é este…? Vem dali…é…do mar? Hum, que agradável.
      Fecha os olhos outra vez, sente o cheiro a maresia, a aragem suave a mexer nas suas crinas, e o som do mar suave, ao longe, pareciam sussurros. Abre os olhos, vê a lua gigante e sorri.
- Que linda que está a lua. Adoro esta paisagem, a aragem, este som.
        O vento sopra mais forte, e assobia entre as folhas das palmeiras:
- Quem está aí?
        Olha em volta e não vê ninguém, mas ouve outra vez o som:
- Áh…é o vento! Gosto deste som!
        O cavalo levanta-se, e cavalga mais um pouco por aquele espaço.
- Maravilhoso! Obrigado, Natureza, por este sítio, por tudo o que há aqui. Adoro o sítio onde vivo, mas aqui também parece um lugar de sonho. Vou voltar para a minha aldeia…mas vou voltar aqui outro dia!
        Regressa ao mar, cavalga pelas ondas sem pressa, para e volta a olhar para trás. Cavalga mais um pouco e regressa a casa, quase hipnotizado com tanta beleza.
Conta à família, e vão todos à praia. O mar ganha ondas enormes, com tantos cavalos a cavalgar, dirigem-se para a areia, e experimentam o mesmo que o cavalo. Ficam tão felizes, e gostam tanto daquele sítio, daquelas sensações que fazem uma festa e divertem-se até ao nascer do sol, que também ficam a ver da praia, e só de manhã regressam para a sua casa.
                              
FIM
                                          Lálá
                                   9/Março/2018

domingo, 4 de março de 2018

O castelinho na tua mão



         Era uma vez uma menina que foi para a praia com a sua família, num dia quente de Verão, com muito sol.
         Logo que pousaram as coisas na areia, a menina pediu aos pais para ir para a água, os pais deixaram porque havia muitas possas e o mar estava longe.
         Foi a correr, e entrou devagar, primeiro molhou os pés, viu caranguejos pequeninos, estrelas-do-mar coladas nas rochas, e peixinhos.
         Molhou as pernas até aos joelhos, e depois até à barriga, até que mergulhou mesmo. Nadou, e quando olha para o lado, vê um rapaz a construir alguma coisa na areia. Saiu da água, e foi ter com ele.
O rapaz sorri-lhe.
- Olá, estás sozinha, pequena? - pergunta ele
- Olá. Não, os meus pais estão lá em cima, ali...com as minhas tias. E tu?
- Eu estou sozinho.
- Como te chamas?
- Chamo-me João, e tu?
- Eu chamo-me Sofia.Onde estão os teus pais?
- Estão na minha casa. Ali.
- Porque é que eles não vieram para a praia?
- Porque não quiseram. Está muito calor.
- O que estás a fazer?
- Estou a brincar com a areia.
- Tu já és muito crescido, não podias brincar com a areia. Os crescidos não brincam.
- Achas?
- Acho.
- Não sei porque não podem brincar. Quem te disse isso?
- Todos os grandes dizem.
- Fazem mal, se não brincam. Eu sou crescido, mas brinco na mesma, e não tenho vergonha. Fico feliz por brincar.
- Eu também.
- Claro, todas as crianças gostam de brincar.
- Mas os crescidos, quando vamos à escola dizem que já não podemos brincar.
- Isso é mesmo injusto! Não te acredites neles.
- Não nos deixam brincar, é por isso que eu gosto mais dos dias em que não vou à escola, quando estou de férias, porque só nesses dias é que posso brincar. O que vais construir?
- Já vais ver.
            O rapaz constrói um castelo em areia, e enquanto isso fala com a menina. No fim, ela solta uma grande exclamação:
- Áh! Que lindo.
- É um castelo de areia.
- Está maravilhoso.
- Obrigado.
- Como conseguiste fazer um castelo que parece quase verdadeiro, daqueles de princesas e príncipes, reis e rainhas...?
- Já construí muitos! Mas o mar lavou-o para longe.
- E tu não conseguiste segurá-lo?
- Não! Ele foi mais rápido.
- Nem te perguntou se podia levá-lo?
- Não!
- Óh, deves ter ficado triste!
- Não.
- Eu gostava de ter um castelo assim!
- Gostavas?
- Gostava, mas de certeza que não consigo construir um castelo assim.
- Porque não?
- Não sei.
- Então eu vou oferecer-te este!
             A menina sorri.
- Como é que vais fazer isso? Não posso levar esse castelo assim.
- Este é um castelo mágico.
- É mágico? Porquê?
- Porque tu gostaste dele, e eu vou pô-lo na tua mão, para que possas levá-lo.
- Mas ele não se desfaz quando o puseres na minha mão?
- Não! Porque só tu vais vê-lo, e vais poder levá-lo para todo o lado que quiseres.
- A sério? Quem está lá?
- Isso não sei. Vais poder descobrir isso tudo...de certeza que vais encontrar no castelo muita gente Queres ver? Estende a mão.
            O rapaz sopra para o castelo e este aparece na mão da menina, em tamanho pequeno.
- Áh! Tu fizeste magia...ele está aqui.
- Eu disse-te que era um castelo mágico.
- Que lindo! Mas, e agora como é que eu vou poder levá-lo para todo o lado? E como é que não vão vê-lo? Eu estou a vê-lo.
- Se lhe soprares ele desaparece, para poderes fazer tudo o que tens de fazer, e quando quiseres que ele aparece, olhas para a tua mão, pensas na palavra castelo, sopras e ele volta a aparecer.
- Mas como é que eu vejo quem vive lá?
- Podes pedir que o castelo aumente, para um tamanho que consigas entrar, e ver quem está lá.
- Áh! Que giro! Obrigada.
- Acho que vem aí alguém à tua procura.
- Óh, pois é. É a minha tia. Vou para ali...obrigada pelo castelo. Vejo-te por aqui outro dia.
- Sim, quem sabe! Diverte-te. E não te esqueças que o castelo está na tua mão. Não deixes de brincar, mesmo que os adultos não deixem, não lhes faças a vontade. Estuda, mas não te esqueças de brincar.
- Como é que eu faço isso? Eles estão sempre a tomar conta e a ver o que faço...
- Brinca quando eles não estiverem a ver. É para isso que serve esse castelo na tua mão.
- Está bem. Obrigada.
              A pequena vai ter com a tia, brinca com ela, fala, ri, toma banho, mergulha, corre, enche-se de areia, e na hora mais perigosa vai para casa. No fim do almoço, vai para o seu quarto, está muito curiosa para saber quem vive no castelo da sua mão. Enquanto os adultos descansam, ela também se deita, mas olha para a sua mão, pensa na palavra castelo, sopra e ele aparece tão grande, como o espaço do seu quarto. Ela abre um grande sorriso. Bate à porta do castelo, e é recebida por simpáticos guardas, cheios de energia, sorridentes, com roupas coloridas e elegantes:
- Olá visitante, bem-vinda
             Fazem uma vénia e estendem a mão à menina. Levam-na a passear pelo castelo, entre lindos jardins, floridos, flores de todas as cores, espécies, com chilreares diferentes, pássaros de muitas espécies e penas fantásticas, borboletas de muitos tamanhos, formas e cores. As princesas estão à janela, e a menina vai ter com elas.
- Olá! - Dizem as princesas
- Olá! -  Diz a menina
- Anda ter connosco. - Convida uma princesa
- A vista daqui é maravilhosa! - Diz outra princesa
            Os guardas acompanham a menina até às princesas,  que oferecem um chá à menina, apresentam os reis, as rainhas, os príncipes, as outras princesas, e as divisórias do castelo. A menina fica encantada com o que vê. Ouve alguém a chamar, e diz:
- Óh...vou ter de ir embora, mas volto daqui a bocado, está bem?
- Sim, está bem. Nós estamos sempre aqui. Aparece!
- Até já!
- Até já!
             A menina volta para o seu quarto, sorridente, sopra para o castelo e este desaparece. Mas afinal ninguém a tinha chamado. Então, volta a pensar no castelo e olha para a mão. O castelo aparece, e a menina conhece o resto do castelo. Depois desse dia, sempre que a menina queria ir ao castelo, este aparecia, e quando soprava, desaparecia. A menina não se esqueceu do que o rapaz da praia lhe disse, por isso, quando as aulas começaram depois das férias, ela já era muito amiga das princesas, brincava muito com elas, passeava pelo castelo, lanchava com elas, e elas também conheceram o quarto da menina. Viveram muitas aventuras e os adultos nunca descobriram que ela brincava às escondidas, porque eles não deixavam brincar.
             E vocês também têm um castelinho na vossa mão? Como é esse castelo? Quem vive lá? 

FIM 
Lálá 
(4/Março/2018) 

quinta-feira, 24 de março de 2016

cabelos de conchas (Adolescentes e adultos)

NARRADORA - Era uma vez um grupo de princesas que vivia no fundo do mar, mas passeavam-se constantemente pela praia. Todas eram lindas e maravilhosas, diferentes e cada uma com as suas particularidades. A sua beleza hipnotizava e bloqueava o cérebro dos homens que para elas olhassem, e estes acabavam muitas vezes por arriscar a própria vida, com a vontade de lhes tocar. Eles queriam, mas elas eram fechadas e misteriosas…não abriam as suas conchas presas aos longos cabelos para qualquer um, e assim, elas defendiam-se, ao mesmo tempo que tentavam ensinar os homens a respeitar as mulheres, porque muitos deles eram já casados e com filhos. Uns aprendiam a lição, e não voltavam a olhar para elas…passavam a dar valor às suas mulheres e a respeitá-las. Quando não aprendiam, elas davam-lhes umas boas lições, uns sustos de arrepiar os cabelos, e davam-se ao respeito, preparando algumas armadilhas. Certo dia de Verão, um jovem pescador foi até à praia. Era casado, mas quando viu uma das sereias com os cabelos de conchas, ficou louco…fascinado com a sua beleza, e atirou-se ao mar para tentar agarrá-la. Ela sabia que era casado, portanto, não lhe deu qualquer valor, mas ele queria a qualquer custo conquistá-la e satisfazer o seu instinto animalesco…queria…devorá-la…Ele nadou, nadou, nadou…atrás da sereia que desfilava lentamente pelas águas e se afastava. Ela, farta de ser perseguida, mergulhou os enormes cabelos e rodou-os com toda a força, rodando a cabeça e a cauda, e com isto formou uma onda enorme, que apanhou o jovem, deu-lhe voltas e mais voltas…ele grita e pede socorro, tenta nadar, mas está a ficar cansado, de tanta sacudidela.
JOVEM (grita, muito aflito) – Socorro! Ajuda-me!
SEREIA – Safa-te…! Luta!
JOVEM (grita, aflito) – Não consigo.
SEREIA – Claro que consegues!
JOVEM (aflito) – O mar…estava mesmo apetitoso…distraí-me! Por favor…ajuda-me…estou a afogar-me.
SEREIA – Porque te meteste no mar?
JOVEM (aflito) – Porque…sei nadar…! E…Porque te vi…! 
SEREIA – Porque vieste atrás de mim?
JOVEM – Porque tu chamaste-me!
SEREIA – Eu? Nem abri a boca!
JOVEM – Enfeitiçaste-me!
SEREIA – Eu? Como é que te enfeiticei se não sou bruxa?
JOVEM – Com a tua beleza…!
SEREIA – O que é que tem a minha beleza? Ela não fala.
JOVEM – Não resisti.
SEREIA – Eu não te obriguei a vir atrás de mim, tu é que vieste!
JOVEM – Sim, porque queria ver se existes mesmo, ou se és uma alucinação.
SEREIA – E porque seria uma alucinação? Sou uma mulher como as outras, apenas vivo aqui na praia. Não tens mulher?
JOVEM – Tenho…mas…
SEREIA – Mas…não te chega uma não é?
JOVEM – Chega…mas…tu és melhor que ela!
SEREIA – Ei…muito cuidado! Melhor…? A comida é que é melhor ou pior…o sabor…os cheiros…as relações entre os amigos…agora…eu…sou melhor que ela? Não sou de comer!
JOVEM – Eu bem que te espetava o dente…és muito mais bonita e jeitosa que ela.
SEREIA - Não te iludas com a minha beleza, nem de outra mulher qualquer! Tudo não passa de uma tentação enganosa…uma armadilha dos teus olhos. O amor não está na beleza. Quem está ao teu lado, quem cuida de ti, quem dorme na tua cama, quem te cozinha, quem te beija…é quem te ama, não é aquela que te acende a chama do desejo, só porque os olhos se encantam com ela. Eu sou bonita, mas posso ser um diabo para ti…o que ganhas em ficar com uma mulher que te agrada aos olhos, mas não te preenche o coração?
JOVEM – Achas que ela nunca me traiu com outro que achou mais bonito?
SEREIA – Tenho a certeza disso! Se ela te ama não fez isso, ao contrário do que tu estás a fazer. Ama-la?
JOVEM – Sim…se não, não tinha casado com ela.
SEREIA – Isso não é justificação…podes ter casado com ela pela beleza que os teus olhos viram.
JOVEM – Não…eu já nem a acho bonita.
SEREIA – Mas para te satisfazer ela serve não é?
JOVEM – Serve. E que mais há no casamento?
SEREIA – Para ti o casamento é só…satisfazer as tuas necessidades corporais, é isso?
JOVEM – Não…eu gosto muito dela…amo-a.
SEREIA – Então porque vieste atrás de mim?
JOVEM – Porque tu fizeste qualquer coisa para me trazeres para aqui, é porque também queres…
SEREIA – Quero o quê?
JOVEM (sorri) – Ter alguma coisa comigo.
SEREIA (ri) – Como és ignorante e convencido. Tu conheces a mulher que tens ao teu lado?
JOVEM – Claro que conheço…já estou casado com ela há tanto tempo, namoramos muitos anos.
SEREIA – Mulher…na sua totalidade!
JOVEM – Sim…
SEREIA – Conheces o corpo dela…mas…interiormente sabes como ela é?
JOVEM – Sim, é quase como eu, e como tu…
SEREIA – Estou a falar de emoções, sentimentos, vontades e tristezas…
JOVEM – Não sei, isso são coisas dela…quando está de trombas eu mando-a dar uma volta, não faltava mais nada…ter de a aturar.
SEREIA – Não sabes o que é uma mulher, nem o que é amar.
JOVEM – Sei, sim!
SEREIA – Então porque vieste atrás de mim…?
JOVEM – Já disse…porque a tua beleza enfeitiçou-me.
SEREIA – A minha beleza tem as costas largas, queres ver…?
JOVEM – Vá lá…deixa-me agarrar-te…conhecer-te…
SEREIA (ri) – Queres…possuir-me, queres tu dizer…! Não é?
JOVEM – Sim, é. Tenho a certeza que ias gostar…!
SEREIA (ri) – Como és idiota…ignorante…primitivo! Só porque conheces o físico da tua mulher, e de outras mulheres, já achas que entendes muito de mulheres, e que todas gostam. Devias ter vergonha. Lá porque os homens só funcionam com os olhos, e às vezes mal…as mulheres funcionam com o coração e com as emoções…coisa que vocês não fazem a mais pequena ideia do que seja! A mulher é muito mais do que…um objecto de prazer…como vocês as fazem sentir.
NARRADORA – Ela sacode os cabelos, e dá com eles na cara do jovem. O mar agita-se mais, e aperta-o. Ele grita.
JOVEM (aflito) – Ai…! O que é isto…?
SEREIA – É para pensares na mulher que tens.
JOVEM (aflito) – Estou farto dela…ela já não me diz nada. Já não vale nada…estamos sempre a discutir.
SEREIA – Está na hora de acordares, e aprenderes a olhar para a tua mulher! A tua mulher é muito mais que a única coisa a que vocês dão valor nela…e para ela é completamente secundária. A tua mulher é muito mais do que aquilo que os olhos vêem…tudo o que ela diz…Todo o corpo da mulher…cada milímetro de pele dela é uma concha fechada com verdadeiras jóias raras para serem descobertas. A mulher é um tesouro completo, principalmente o seu oceano interior. Está na hora de os descobrires. Verás que esses tesouros são muito mais bonitos que eu!
A tua mulher não é para ser possuída, nem comida…mas sim, acariciada, mimada, respeitada, valorizada!
JOVEM (aflito) – Mas…
SEREIA – Mas…?
JOVEM – Como faço isso?
SEREIA – Deixa-te levar pelo amor…e descobrirás como.
JOVEM – Mas…e a ti, como te vou descobrir?
SEREIA – Jamais me descobrirás.
JOVEM – Porque é que estás a fazer-te de difícil?
NARRADORA – A sereia não responde, envolve os cabelos à volta dele, e depois de várias voltas na água, atira-o para areia chateada. Ele está deitado na areia, a tossir, tonto e a gemer. 
SEREIA – Pensa muito bem em tudo o que te disse!
JOVEM (zangado) – Bruxa…acabaste de destruir o meu coração.
SEREIA – Tem mas é vergonha na cara…! Como é que eu destrui o teu coração se não tivemos nada um com o outro? Poderás destruir o coração da tua mulher…! Se não sabes amá-la, aprende!
NARRADORA – O jovem a pingar caminha pela praia, pensativo e devagar. A sereia desaparece. E quando regressa a casa, o jovem está realmente muito diferente! Aprendeu a amar de verdade a mulher que escolheu para casar, e torna-se muito mais carinhoso, atencioso, educado, respeitador, presente. Aos poucos, vai abrindo todas as conchas fechadas de cada milímetro de pele da sua mulher. A mulher nunca ficou a saber deste seu encontro com a sereia, mas adorou a mudança do marido. A sereia tinha toda a razão. Os dois vão passear pela praia de mão dada, e ele olha para o mar…vê a sereia a sorrir e a brilhar intensamente, feliz e emocionada. Ele olha para a sua mulher…
JOVEM (sorri) – És a mulher mais linda do mundo!
MULHER (sorri) – Há quanto tempo não me dizias isso…meu amor. Estás tão diferente!
JOVEM (sorri) – És uma mulher muito especial!
MULHER (sorri) – Que lindo!
JOVEM (sorri) – Amo cada milímetro da tua pele…amo os teus olhos, a tua boca…amo o teu coração, amo-te, minha mulher…meu amor! O teu corpo é um tesouro maravilhoso…e o teu coração, um oceano cheio de doces mistérios.
MULHER (sorri, emocionada) – Ai, meu amor…! Que doçura.
JOVEM (sorri) – É tudo verdade. Perdoa-me de nunca te ter dito antes.
MULHER (sorri) – Ainda estás muito a tempo de dizer!
NARRADORA – Os dois beijam-se e abraçam-se. A sereia deixa escapar umas lágrimas de encanto e de felicidade. De repente, olha para o céu e escurece-o. Por trás das nuvens pretas, desenha um coração cheio de estrelas cintilantes, e brilha no mar. Os dois ficam maravilhados.
JOVEM (sorri) – A nossa praia…!
MULHER (sorri) – Sim, foi aqui que nos conhecemos.
JOVEM (sorri) – Sim! E foi aqui que descobri a mulher com quem casei e sou muito feliz. A praia do renascimento!
NARRADORA – A sereia está orgulhosa. Os dois continuam a passear apaixonados, e a sereia continua a dar lições a quem precisa.

FIM
Lálá
(3/Novembro/2013)