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sexta-feira, 9 de março de 2018

O CAVALO SOBRE AS ONDAS




        

    Era uma vez um lindo cavalo com asas que vivia numa aldeia de nuvens, com a sua enorme família, onde tinha tudo. Ele sentia-se feliz na sua aldeia, mas às vezes gostava de sair e ir para a praia, que ficava por baixo. Para lá chegar tinha de atravessar apenas um fofo, claro e macio caminho de nuvens.
        Não se via todos os dias, aliás, ele fazia de tudo para ir à praia sem ser visto. Quem estava na praia de dia, às vezes viam-no, mas pensavam que eram nuvens juntas a formar a imagem de um cavalo. Outras vezes, aparecia de noite, quando a lua era tão grande e luminosa que quase parecia mergulhar.
        Quando ia de noite, cavalgava sobre as ondas pequeninas que cresciam com o pisar das suas patas. De dia, cavalgava longe da costa, e só refrescava as suas asas, algo que adorava fazer.
        Um dia, de noite, com a lua enorme e luminosa, lá foi ele…atravessou o caminho e cavalgou por cima das ondas grandes até quase à areia, a sentir a aragem agitar-lhe suavemente as crinas. Tinha muita vontade de conhecer a areia, saber o que se sentia nas patas, se era macia ou áspera, quente ou fria, ou se tinha cheiro.
         Deu mais uns passinhos e olhou para trás.
- Áh…a paisagem que se vê daqui é muito diferente! Nunca tinha visto. Que linda lua! Como o mar é mesmo interminável…já parecia não ter fim, mas daqui é muito maior. E a brisa…também é mais fresca, aqui. Ali não sinto tanto, ou é mais leve. E a areia...?
        Finalmente pôs as suas patinhas na areia, primeiro a medo, tocou um bocadinho e tirou rapidamente. Voltou a tocar, e a recuar outra vez. Até que decidiu pousar totalmente as patas na areia molhada, mas não sabia que se chamava assim.
- Áh…é…macia e fria. Mas acho que está molhada, parece…grossa…é parecida com lama.
        Caminha mais para cima, na areia seca, ao longo da praia, sempre atento a tudo o que sentia.
- Agora a areia está mais quente, é mais fina, e parece que está…seca. É diferente. A brisa também é mais forte. Tanto espaço…tanta areia. Então é aqui que as pessoas se deitam, ou será ali? Se calhar é nos dois sítios, quando há sol. É muito agradável.
        Estava encantado com aquela experiência, mas ainda queria saber mais. Decidiu sentir a areia com o corpo todo, estendeu as patas, sentou-se, mexeu-se livremente, e gostou tanto que se esfregou totalmente, rebolou na areia, às gargalhadas, esfrega com as patas, levanta a areia:
- Faz cócegas…que maravilha! É mesmo macia. Áh, áh, áh…
        Sacode-se, para e olha para a paisagem à sua frente.
- Uau! Isto é lindo!
        Fecha os olhos, inspira, expira, e sente o cheiro a maresia:
- Áh…que cheiro é este…? Vem dali…é…do mar? Hum, que agradável.
      Fecha os olhos outra vez, sente o cheiro a maresia, a aragem suave a mexer nas suas crinas, e o som do mar suave, ao longe, pareciam sussurros. Abre os olhos, vê a lua gigante e sorri.
- Que linda que está a lua. Adoro esta paisagem, a aragem, este som.
        O vento sopra mais forte, e assobia entre as folhas das palmeiras:
- Quem está aí?
        Olha em volta e não vê ninguém, mas ouve outra vez o som:
- Áh…é o vento! Gosto deste som!
        O cavalo levanta-se, e cavalga mais um pouco por aquele espaço.
- Maravilhoso! Obrigado, Natureza, por este sítio, por tudo o que há aqui. Adoro o sítio onde vivo, mas aqui também parece um lugar de sonho. Vou voltar para a minha aldeia…mas vou voltar aqui outro dia!
        Regressa ao mar, cavalga pelas ondas sem pressa, para e volta a olhar para trás. Cavalga mais um pouco e regressa a casa, quase hipnotizado com tanta beleza.
Conta à família, e vão todos à praia. O mar ganha ondas enormes, com tantos cavalos a cavalgar, dirigem-se para a areia, e experimentam o mesmo que o cavalo. Ficam tão felizes, e gostam tanto daquele sítio, daquelas sensações que fazem uma festa e divertem-se até ao nascer do sol, que também ficam a ver da praia, e só de manhã regressam para a sua casa.
                              
FIM
                                          Lálá
                                   9/Março/2018

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Os grãozinhos de areia

foto de Lara Rocha 

Era uma vez milhares de grãozinhos de areia, muito finos, de muitas cores diferentes, que foram apanhados na mesma praia, pintados com as mesmas tintas, e viviam numa ampulheta que foi levada para um grande palácio onde viviam reis com as suas princesinhas e príncipes.
Os pequenos foram ensinados pelos pais a serem muito competitivos, e a lutarem para serem os melhores que os outros. Esta ideia fixa dos reis deixava as crianças muito nervosas e insuportáveis quando perdiam, quando se atrasavam, quando alguém era melhor que eles.
Para fazer os trabalhos de casa, e qualquer outra pequena tarefa, pegavam nas ampulhetas, cada um tinha a sua, e corriam como selvagens, faziam tudo a correr, tudo mal, caiam muitas vezes, gritavam…só para ver as ampulhetas a girar.
Os grãozinhos andavam sempre a correr de um lado para o outro, centenas de vezes durante o dia, e de noite até as crianças dormirem. Nos primeiros tempo em que foram para o palacete ainda achavam engraçado e divertiam-se muito, mas estavam a ficar cansadas e nervosas como as crianças.
Conversaram a combinaram que passariam a andar mais devagar para ensinar as crianças a andarem também mais devagar, e assim fizeram. No dia seguinte, logo de manhã começa a correria das crianças, e pegam nas ampulhetas.
Os grãozinhos de areias dão as mãos num grande círculo, cruzam-se uns com os outros, e deixam-se cair para o outro lado da ampulheta muito devagar.
As crianças ficam completamente loucas, irritam-se, gritam, abanam as ampulhetas, e atiram com elas para o chão. As ampulhetas não partem. Todos se encolhem, e as crianças exigem umas ampulhetas novas, porque acham que elas estão estragadas…andaram muito devagar.
Os reis fizeram-lhes a vontade. Levaram essas ampulhetas para o armazém do senhor caracol que recolhe coisas estragadas, e deixam-nas lá. Na sua lentidão habitual, fica muito surpreso a olhar para as ampulhetas.
- Mas onde é que isto está estragado? Não vejo nada.
Experimenta virá-las e elas correm normalmente.
- Porque é que eles me deixaram aqui isto?
Das areias sai uma borboleta, e atravessa o vidro de uma ampulheta.
- Áh! Estavas aí? Como é que aguentavas aí tanto peso? – Pergunta o caracol
A borboleta sorri:
- Fui enviada por elas, e trago a resposta à tua pergunta.
- Por quem?
- Pelas areias das ampulhetas.
- Porque é que elas foram deixadas aqui? Não vejo nada estragado.
- Pois, e não estão. Mas fizeram de propósito para ver se ensinavam os pequenos apressados a andar mais devagar, e a não serem tão insuportáveis…
- Mas isso era uma excelente ideia.
- Era. Combinaram passar para o outro lado mais devagar, mas os pequenos não perceberam. Elas estavam cansadas de tanto andar de um lado para o outro.
- Claro. Coitadas! Vou libertá-las daquele vidro.
O caracol abre as ampulhetas e os grãozinhos de areia saem felizes para um lago sem água, arejado, e conversam alegremente com o caracol. Todos concordam que o que os reis estavam a fazer com os pequenos era terrível, e mais cedo ou mais tarde, eles iam parar e andar mais devagar.
Foi mesmo isso…uns dias depois ficaram doentes, põe serem tão nervosos, a cabecinha começou a funcionar mal, e tiveram mesmo de começar a andar muito mais devagar porque se andassem depressa, ou se se enervassem, podia ser muito perigoso para a saúde deles. Até deixaram de ligar às ampulhetas e aprenderam a ser mais calmos.
Só nessa altura é que se lembraram da forma como as areias das ampulhetas estavam a andar devagar. A borboleta entra no quarto dos pequenos e diz-lhes:
- Deviam ter aprendido com as areias das ampulhetas. Elas estavam a andar devagar, para vos ensinar a fazer o mesmo, mas vocês deitaram-nas fora. Elas estavam cansadas de andar tão rápido, e vocês também já deviam estar.
A borboleta e as crianças têm uma longa conversa, explica a importância de andar mais devagar, para apreciar as coisas bonitas à nossa volta, para vermos e conhecermos muito bem o nosso mundo, e toda a natureza, para termos mais saúde, e não ficarmos nervosos… e realmente…as crianças perceberam que as areias tinham razão. Foi o que fizeram desde esse dia em diante e melhoraram a sua saúde.
Que grande lição dos grãozinhos de areia, não foi?

                                               FIM
                                               Lara Rocha 
                                    (13/Abril/2016)

   

terça-feira, 30 de junho de 2015

Os castelos de areia

Era uma vez quatro famílias de pais, mães, e filhos, amigas umas das outras, que foram para a praia de manhã bem cedo, num dia que prometia ser muito quente.
Sentaram-se à beira do mar, que estava baixinho, cheio de possecas, e construíram com baldes e pás dois enormes castelos, tão perfeitos e com tantos pormenores que pareciam verdadeiros.
Tinham várias torres, janelas e portas, tão bem feitas, que se podia andar lá dentro, quer dizer, os humanos não, mas os animais cabiam à vontade. Os adultos estavam tão divertidos como as crianças, e faziam competições para ver quem construía melhor.
Os castelos estavam umas verdadeiras obras de arte, por isso mereceram centenas de fotografias, muitas gargalhadas e diálogos inventados como numa história ou numa peça de teatro. O sol estava a ver tudo de cima, e até ele ficou espantado, encantado.
Na hora de mais calor, todos saem da praia e os castelos ficam inteiros. O sol ficou a arder de curiosidade, e como não podia ir lá ele, lançou um raio muito fino e comprido, para que este lhe contasse tudo.
O raio passeou por todo o castelo e descreveu ao sol todos os pormenores que existiam no interior dos castelos. Enquanto ouvia as descrições, também começou a sonhar acordado e a imaginar-se nesse castelo com a Sol dos seus sonhos ou a Lua ou uma estrela…e fez questão de transformar a areia quase em pedra, para que os castelos aguentassem mais tempo.
Ele tinha a certeza que mais alguém que bem conhecia também ia adorar, e o seu raio tratou do resto: disse às fadas do mar, às sereias e às estrelas-do-mar que aquela noite traria uma prenda muito especial para elas. Elas estavam ruídas de curiosidade, e ansiosas que chegasse a noite para verem a surpresa. Não era todos os dias que tinham surpresas, muito menos vindas do sol.
O mar continuou longe dos castelos, e nessa noite, estava uma lua cheia gigante, luminosa, parecia quase dia. Umas fadas que viviam nas rochas da praia voaram e repararam naquelas obras de arte…aqueles castelos enormes, feitos em areia e tão perfeitos.
- Áh! Que lindos castelos… - Dizem todas as fadas
- Quem fez isto? – Pergunta uma fada
- Estão maravilhosos. – Comenta outra fada
- Esperem aí. O sol disse que teríamos uma surpresa esta noite, será que é esta? – Lembra outra fada
- Claro! – Respondem todas
            E ouve-se a voz do sol no espaço:
- Sim, é mesmo essa a surpresa…estes enormes e belos castelos feitos de areia.
- Ááááááhhhh… - Exclamam todas
- Maravilhosos. – Comenta outra fada
- Obrigada sol! – Dizem em coro
- Eu sabia que iam adorar. Agora o resto é convosco! Divirtam-se, e aproveitem enquanto o mar está longe. – Diz o sol a rir
- É isso. Muito obrigada…
            Elas chamam as fadas da luz, que rapidamente aparecem e iluminam todo o castelo com o seu rasto, não precisam de muita luz porque a lua já tem bastante, mas dentro dos castelos era preciso.
E mesmo sem esperarem pelas fadas da praia, as sereias e as estrelas-do-mar vão à praia e ao ver aquelas luzes todas gritam em coro:
- Castelos…? Uau! Áh, que lindos…
            E nadam rapidamente até lá, cumprimentam alegremente as fadas.
- Então era esta a surpresa? – Perguntam as sereias e as estrelas-do-mar em coro
- Isso mesmo! – Respondem as fadas a sorrir
- O sol é mesmo querido. – Comentam todas
            As fadas cozinheiras aparecem com tabuleiros recheados de pequenos petiscos como os que só elas sabem fazer.
- Não há festa com esse nome, sem petiscos, não é verdade…? – Diz a fada cozinheira chefe
            Todas ficam surpresas e aplaudem. Não sobra nem uma migalha. Os cavalos-marinhos perguntam se podem participar na festa, e também ficaram. Chegam as fadas da música que são adoradas por todos os animais da praia e a festa começa a sério, enche-se de alegria, muita dança, muitas entradas e saídas dos castelos, muitos risos e conversas cruzadas, e amizade. Parece que estão ligados à corrente eléctrica, nessa noite ninguém dormiu, até que com os primeiros raios de sol estavam finalmente muito cansados, e adormeceram onde pararam.
Quando os humanos chegaram tiveram uma bela surpresa: os castelos ainda estavam de pé, tudo direitinho, e pela área dos castelos, viram dezenas de estrelas-do-mar, pequeninas fadas a dormir nas varandas dos castelos, caranguejos e sereias a dormir à fresca, dentro dos castelos, cavalos-marinhos a dormir em sítios que nunca pensaram que seria possível, e búzios por todo o lado.
Os adultos começam a fazer muito barulho com a alegria da surpresa, tiram centenas de fotografias, que as fadas, as sereias, as estrelas-do-mar e os cavalos-marinhos acordam e desatam a fugir assustados.
De um momento para o outro, o mar sobe, fica muito agitado e destrói os castelos num abrir e fechar de olhos, e ainda dá uma bela banhoca aos humanos, que fogem mais para cima, muito zangados.
- Pelo menos ficaram as fotografias. – Comenta um dos pais
Nesse dia não houve possecas…só houve mar revolto. Será que o mar ficou com ciúmes? Uns dias depois, gostaram tanto da experiência que quando o mar voltou a descer, os humanos construíram outros castelos, e os animais fizeram outras festas.
E vocês já construíram castelos na areia quando foram à praia?
Esses castelos foram visitados por fadas, sereias e cavalos-marinhos ou estrelas-do-mar?
Gostavam que isso acontecesse?
Quem gostariam que invadisse o vosso castelo de areia?

FIM
Lálá
(29/Junho/2015)