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quinta-feira, 28 de abril de 2016

O monte vermelho

                                foto tirada por Lara Rocha 

Era uma vez várias famílias que viviam num lugar sossegado, que se chamava monte amarelo. Um paraíso perto da cidade onde trabalhavam, com ar puro, sem poluição, só com os sons da natureza.
A paisagem era encantada, e fazia parte desta um monte mais alto, conhecido como o Monte Vermelho que era habitado por lobos…alguns humanos já tinham ido lá, mas poucos se atreviam, porque tinham medo dos lobos que ouviam uivar, e que os fazia arrepiar até os ossos.
Esse Monte Vermelho também servia de inspiração para as ameaças dos pais quando queriam pôr os filhos na ordem, e para artistas escritores, pintores e fotógrafas que tiravam boas ideias. Um dia uma criança de uma das famílias olhou para o monte dos lobos e reparou que em vez de verde ou amarelo, estava vermelho, e mostrou ao Avô:
- Avô, olha aquele monte…não é verde, nem amarelo.
- Pois não. É vermelho. – Responde o avô
- Porquê? – Pergunta a criança
- O nosso é amarelo, aquele é verde, o outro é vermelho…olha…foi o nome que lhe deram…podia ser o monte azul, o monte branco. Sempre o conheci com esse nome. – Explica o Avô
- Já foste lá?
- Não.
- Porque não?
- Porque…olha porque…é…muito longe daqui.
- E não gostavas de ir lá?
- Não faço muita questão.
- O que é isso?
- Isso, o quê?
- Não fazes isso que disseste?
- Muita questão?
- Sim.
- Quer dizer que não quero ir lá.
- Porquê?
- Porque…já te disse que é longe.
- O Avô está a mentir. – Diz a Avó  
- O quê? 8entre dentes para a Avó) Não lhe contes. – Resmunga o Avô
- Estás a mentir, Avô? Isso não se faz. – Repara a criança
- O Avô não vai lá porque lá vivem os lobos. – Responde a Avó
- Lobos? – Pergunta a criança
- Sim, lobos. – Respondem todos
- É um lugar horrível. – Reforça o pai
- Já foste lá? – Pergunta a criança
- Já. – Diz o pai
- Não queiras ir para lá…sempre me disseram que era um lugar perigoso. – Acrescenta um tio
- Já foste lá, tio?
- Não. Mas os adultos ameaçavam-me muitas vezes que me levavam para lá se eu não ficasse à mesa,  e que os lo… (os adultos interrompem e mandam-no calar discretamente)
- E quê? – Pergunta a criança curiosa
- E que… - Dizem todos
- E que esse lugar é selvagem, não é para nós, seres humanos. – Diz a outra avó
- Já foste lá, Avó?
- Não. Bastou que me ameaçassem uma única vez… respeito era muito bonito.
- E porque é que o monte é vermelho? – Volta a perguntar a criança
- Porque…os lobos…
O outro tio ia dizer o que lhe tinham dito, mas os adultos interrompem e respondem em coro:
- Foi o nome que lhe deram!
- É…! – Dizem todos
- Podia-se ter chamado monte roxo, monte cor-de-rosa… - Diz uma tia
- Pois. – Dizem todos
- Já foste lá, tia?
- Não.
- Eu gostava de ir lá. – Comenta a criança
- Só os lobos podem andar por lá, o caminho é muito difícil
A criança não ficou convencida, mas não perguntou mais nada. Quando se foi deitar, olhou para o monte e não estava vermelho. Estava escuro.
No dia seguinte, a criança volta a olhar para o monte e estava vermelho, mas quando se ia deitar, estava escuro outra vez. Ele começou a achar muito estranho, e perguntou ao outro avô:
- Avô…olha…aquele monte está vermelho. Mas à noite, quando vou para a cama, o monte não está desta cor.
- Pois não, porque quando vais dormir, está escuro.
- Muda de cor?
- Muda.
- Porquê?
- Porque de dia tudo tem cor, de noite, parece tudo igual…a nossa casa e todas as outras casas, as árvores, os montes…tudo parece igual. De dia o monte é vermelho porque se reparares existem ali nuvens, e o sol está por trás das nuvens, que fazem o sol parecer vermelho, por isso, onde o sol reflecte, ali, no chão do monte, parece que tudo fica vermelho! Se estivesse um sol aberto como aqui, ias ver o monte amarelo, ou verde-claro e verde escuro…ao fim da tarde é cor-de-laranja ou vermelho, e é branco quando há neve.
- Áh! Que lindo. E há mesmo lobos lá, ou são homens disfarçados? – Pergunta a criança
- Há lobos, mesmo.
- Daqueles como a história do capuchinho?
- Sim.
- E maus como ele?
- Nem sempre.
- Como assim?
- Se sentirem que estão em perigo, se os agredires, ou se estiverem com fome, são selvagens, podem ser um pouco agressivos, ou tentar magoar-te para se defenderem, e às vezes comem animais para se alimentarem. Mas poucas vezes vêm aqui ao monte.
- Áh! Estou a perceber.
Nessa noite, foi Lua Cheia…e estava enorme, linda. Começou a aparecer por trás do monte vermelho. O menino estava a ver com a família. Um espectáculo da natureza que todos gostam de ver, e deliciam-se.
- Avô…olha a cor do monte…parece que tem ali uma bola de luz.
- Sim, já vais ver o que é.
A lua sobe, sobe, sobe…até que aparece por inteira.
- A lua. – Diz a criança encantada com um grande sorriso.
E ouve-se o uivo crescente dos lobos…como uma orquestra…começa o chefe da alcateia, e os outros seguem-no, até que todos uivam prolongadamente em coro, virados para a lua. Pode ver-se as sombras deles. Os humanos arrepiam-se e sorriem, os cães ladram.
- O que é isto? – Pergunta a criança
- São os uivos dos lobos. – Respondem todos
- Estão a saudar a lua! – Diz uma avó
- Áhhhh…que lindo! Agora o monte já não está vermelho…está… – Suspira a criança a sorrir  
- Prateado. – Diz a mãe
- Branco. – Diz um tio
- Amarelado. – Diz outra tia
- Branco azulado. – Diz o pai
- Enluado! – Diz o Avô.
- Agora o monte está avermelhado porque o sol viu a sua apaixonada lua. – Diz uma adolescente da família com ar de sonhadora
- Eu acho que ele está vermelho por ter tantos lobos a olhar para ele… - Diz outra adolescente da família
- Pode ser o reflexo da raiva dos lobos por alguma coisa…olha como eles uivam…- Diz outra adolescente da família  
Estas famílias tinham a tradição de se reunir em noites de Lua Cheia, para viver e reviver estas fantasias saudáveis da infância, e para correr com os medos, que sabiam agora em adultos, não serem reais, mesmo assim gostavam de sonhar…Eram momentos de união e partilha, convívio, magia…depois das crianças se deitarem, a noite era dos crescidos.
Muitos segredos e medos que os adultos viveram, os mitos, as lendas, as histórias e as fantasias que o Monte Vermelho tinha despertado nas suas infâncias, ficaram por contar às crianças, para que elas não ganhassem medo, e para cada uma delas poder viver, experimentar a magia, as suas próprias fantasias em relação aos mistérios da Natureza.
E vocês? Porque acham que o monte era vermelho?

Fim
Lálá

(27/Abril/2016)

sábado, 26 de março de 2016

A toupeira e o mocho



           Era uma vez uma toupeira que vivia debaixo do solo, e um mocho que vivia à superfície. O mocho conhecia a toupeira, mas a toupeira nunca tinha ouvido falar no mocho. Um dia a toupeira quis ir visitar a superfície à noite. Saiu da sua toca e na árvore em frente estava pousado o mocho, atento a tudo, de olhos e ouvidos bem abertos. Ele percebe qualquer movimento. Olha para baixo:

- Boa noite! O que temos aqui? – Pergunta o mocho, apesar de já saber a resposta

- Boa noite! Com quem estou a falar?

- Com o mocho. E tu és uma toupeira!

- Eu chamo-me…

- Toupeira.

- Não sei como me chamo.

- É assim que te chamam!

- Quem?

- Os humanos!

- Quem são esses?

- São os que plantam o que tu comes!

- Raízes?

- Sim, raízes e sementes.

- Áh! Mas que simpáticos. Então tenho de lhes agradecer.

- Acho que não é boa ideia.

- O que é que não é boa ideia?

- Agradeceres aos humanos.

- Porque não?

- Porque eles não vos veem com bons olhos!

- Então que arranjem outros olhos.

- O que eu quero dizer é que eles não gostam de vocês.

- Não?

- Não!

- Porquê?

- Porque vocês dão cabo de tudo!

- Mas então porque é que nos dão alimento? Se fazem isso, estão a cuidar de nós…e se cuidam de nós é porque nos querem bem, certo?

- Não!

- Foi o que sempre nos ensinaram.

- Mas no caso deles não é assim! Vocês destroem tudo, e eles não gostam disso.

- Mas é o nosso alimento! Porque é que põem lá essas coisas? Eles também as comem, é? Se é por isso, partilhamos, não tem problema.

- Não! Eles não comem essas coisas. Vocês é que comem, sem autorização.

- Sem autorização? Como? É preciso autorização para comermos? Nunca vi lá em baixo nenhuma placa!

- Vocês dão cabo do trabalho deles.

- Temos de comer, para sobreviver, como eles! Se não nos querem, não ponham a nossa alimentação!

- Mas eles precisam!

- Então comem isso?

- Não! Comem outras coisas.

- Tudo isto que estás a dizer é muito estranho.

- Sim! É verdade.

- Mas, e tu, quem és?

- Um mocho.

- Vives aqui?

- Sim!

- O que fazes?

- Tomo conta deste espaço, à noite.

- Trabalhas de noite, só?

- Sim!

- E de dia?

- Durmo!

- Conheces bem este espaço?

- Muito bem.

- E como é?

- É bom, sossegado, silencioso.

- Onde estão os que vivem aqui? Vive gente?

- Sim, vive gente e animais. Estão a dormir!

- E tu estás acordado?

- Sim!

- Porque não estás a dormir como eles?

- Porque trabalho de noite! De dia não é preciso vigiar, mas de noite, eles descansam, e alguém tem de garantir a segurança!

- Áh! E é difícil trabalhar de noite?

- Não! Já estou habituado!

- Tu vês bem?

- Vejo, muito bem!

- Eu não! Mais ou menos.

- Não usas óculos?

- Não sei o que é isso!

- Umas coisas para ajudar a ver bem, quem vê mal.

- Áh! Não sei. Nunca nos falaram nisso. Vemos mal, mas cheiramos na perfeição! Tu usas essas coisas?

- Não! Para já não. O que vieste fazer cá fora?

- Vim ver como era!

- Como era o quê?

- Este espaço!

- Ááááhhhhh!

- Posso subir para aí, e ver o que se vê daí?

- Podes.

            A toupeira vai para o ramo do mocho, sobe pelo tronco e quando chega ao ramo…

- Ei…tu és tão grande! Lá de baixo parecias mais pequeno.

(O mocho ri-se)

- Ao longe tudo parece mais pequeno. Até de lá de baixo.

- Já experimentaste?

- Já.

- E também vês mais pequeno?

- Sim.

- Podes dizer-me o que vês, por favor?

            O mocho suspira, e compreende a toupeira que não vê bem. Então, pacientemente, e com o máximo de pormenor, descreve tudo o que consegue ver, em todas as direções. A toupeira ouve, sorri e segue a voz do mocho, maravilhada.

- Áh! Que maravilha que é a superfície! Lá em baixo não temos nada disto! É tudo igual, tudo feio, que tristeza…! Obrigada pelas tuas descrições.

            Ela olha para cima.

- Que pintas são aquelas?

- Onde?

- Ali…no telhado da tua casa.

- Não são pintas, são estrelas, e não estão no telhado da minha casa.

- Áh!

- O telhado da minha casa é de madeira, não tem estrelas! Aquelas estão muito longe daqui.

- E estão sempre ali?

- Estão, mas só se vêm à noite…como está agora!

- E têm outra coisa além da noite?

- Temos…a manhã, a tarde e a noite!

- Tantas coisas. Eu pensei que estava sempre escuro cá em cima, como lá em baixo.

- Não! De manhã e de tarde temos dia, claridade, sol, chuva…

- Sol?

- Sim!

- Nunca vi!

- Um dia vais ver. Mas tens de vir de manhã, quando estiver claro!

- Não sei se consigo! Gostaria! Descreve-me como é o sol, por favor!

- É amarelo, redondo, dá luz, aquece, alegra, faz nascer plantas…é bom!

- Áh! Tantas qualidades. É um candeeiro?

- Não! É um astro!

- O que é isso?

- Está lá em cima, com as estrelas…

- Porque é que ele não está ali com elas, agora?

- Porque é noite! E as estrelas é que aparecem de noite! O sol aparece de dia, e enquanto há sol, não há noite, por isso, não há estrelas. Quando é noite, não há sol, e há estrelas!

- Áh! Não aparecem ao mesmo tempo?

- Não!

- Que giro! Conta-me mais coisas da superfície, por favor!

- O que queres saber mais?

- Estes barulhos, o que são?

- Que barulhos?

- Estes que eu estou a ouvir! Tu não ouves barulhos?

- Ouço! Muitos barulhos.

- Eu também. O que são?

- São cigarras, grilos, sapos, rãs. Há pirilampos a voar, aquelas luzinhas que vês à volta das flores e das árvores, há corujas, cães a ladrar, gatos a miar, carros da cidade, na estrada, há vento a bater nos galhos, há música nas ruas da cidade.

- E aquela claridade?

- São as luzes da cidade!

- Que lindo! Já foste à cidade?

- Não vou há muito tempo. Há demasiado barulho, confusão, luzes, fiquei muito agitado.

- Obrigada pelas informações.

            Os dois conversam mais um bom bocado, riem, e a toupeira fica a conhecer o lugar. Já de madrugada alta, depois de muita conversa, a toupeira fica com sono e volta para a sua toca no solo, com a promessa de voltar. E assim foi. Nos dias seguintes, a toupeira voltou à superfície, e acompanhou no solo, as rondas noturnas do mocho, a conversar de vez em quando, mas não tanto porque o mocho tinha de estar atento, e a toupeira tinha medo de predadores, mesmo assim ela fez bons amigos nesses passeios.

Se vocês fossem o mocho, o que mostrariam à toupeira? Escrevam…


                                               FIM

                                               Lálá

                                   (25/Março/2016)

  

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

O mistério das árvores

        

foto de Lara Rocha 

         Era uma vez um jardim na casa de uma família onde existiam muitas árvores que pareciam iguais às outras, umas grandes, outras pequenas, umas mais largas outras mais finas, umas com mais galhos, outras com menos, mais folhas, menos folhas, cores diferentes, e serviam de abrigo a muitos passarinhos.
As pessoas não lhes ligavam, raramente olhavam para elas, só quando mudavam as estações a correr, para ver se tinham folhas ou se estavam carecas, mas logo voltavam à sua vida, ou lembravam-se delas, quando agradeciam nas suas orações noturnas a sua presença. 
Mesmo com tanta indiferença dos humanos, as árvores continuavam resistentes, de pé, e felizes, porque sabiam o seu valor.
            Um dia, a menina parou de trabalhar e sentou-se numa cadeira no sótão. Olhou para a janela e para as árvores que eram verdes, frondosas e na sua copa viu fios dourados, muito finos. Ela nunca tinha visto nada assim...por isso ficou maravilhada e surpresa.
Que fios eram aqueles? Será que já tinham estado ali desde sempre e ela nunca reparou, ou só estariam lá hoje? O que seria? Mil perguntas encheram a sua cabeça, e enquanto isso, do nada… os fios começaram a desaparecer. Olhou outra vez e já não havia um único fio dourado.
Como tinham desaparecido foi jantar, e quando se ia deitar foi ver a linda lua cheia, olhou para a árvore e reparou que não haviam fios dourados, mas sim fios prateados muito leves, que ondulavam para um lado e para o outro na copa da árvore que ela achava que era a mesma, ficou surpresa e pensativa…mas foi dormir.
De manhã cedo, acordou e olhou para a árvore…não havia fios dourados, nem prateados, mas havia uma cor azulada, parecia que estava uma nuvem leve em cima da copa da árvore, e brilhantes por todo o lado, uns que brilhavam mais, outros que brilhavam menos, e pareciam cristais tão transparentes que quase se viam arco-íris.
Noutra árvore os cristais deslizavam pelos troncos, e outros pendurados nos troncos, outros pousados no musgo, noutra árvore ao lado ela viu mesmo pequeninos arco-íris vindos não se sabia de onde.
Muito preocupada e assustada, foi contar aos seus avós. Estes sorriram e não lhe contaram o segredo daquele mistério todo. Só lhe disseram que os fios dourados, os fios prateados, os cristais e os arco-íris eram as danças das fadas da natureza, quando se encontravam com os anjos, para nos lembrar que a natureza é perfeita, o mundo existe, está cheio de magia, beleza e mistérios que nunca saberemos explicar! Nem são para compreendermos, apenas para aproveitarmos e saborearmos cada mimo que ela nos oferece, cuidar dela, protegê-la, respeitá-la a amá-la!
A partir daí ela passou a estar muito mais atenta, todos os dias, para ver todas as surpresas da natureza! Elas não paravam….e até despertou esse gosto nos outros elementos da família, que muitas vezes pareciam distraídos com o trabalho.
Aliás…só a natureza é perfeita!
            E vocês? O que acham que poderiam ver de uma janela para as árvores?

FIM
Lálá
(26/Fevereiro/2016)



quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

A ÁRVORE E OS SEUS BRACINHOS

      
            Foto de Lara Rocha 

       Era uma vez um tronco de uma árvore muito grosso e largo, cheio de braços com garras finas, que vivia numa floresta. Num dia de Inverno, os galhos observaram atentamente e muito curiosos, um céu cinzento e nuvens roxas, azuis escuras, violetas.
        Eles preferiam o sol, é claro, mas amavam a natureza, por isso aceitavam e respeitavam! Os galhos sentiram uma enorme vontade de tocar nas nuvens.
        Os braços mais carinhosos queriam pegar nelas, deitá-las e sentá-las nos seus colos, embalá-las nos seus braços para dormirem.  Os mais delicados queriam tocar-lhes para saber como eram. Os mais comilões queriam poder prová-las ou trincá-las.
O mais agressivo, o mais nervoso e o mais resmungão, queriam chegar-lhes e arranhá-las, rasgá-las, pisá-las, amassá-las e torcê-las. Os mais irrequietos queriam subir, saltar, correr, escorregar, rebolar.
Os mais pesados, queriam ir lá, para ver se ficavam mais leves, os mais tristes queriam abraçar-se às nuvens e conversar com elas. Os mais preguiçosos, os dorminhocos e os sonhadores, queriam as nuvens para fazer uma caminha, uma almofadinha e um cobertor.
Cada um tinha os seus sonhos e desejos. Nesse mesmo dia, depois de uma chuva torrencial, um nevoeiro muito cerrado envolveu toda a floresta.
Os galhos pensaram que o seu desejo se ia realizar, que as nuvens tinham ido ao seu encontro, porque eles estavam presos e não podiam sair, e ficaram muito entusiasmados, felizes…
Tentaram fazer tudo o que queriam, mas perceberam que não conseguiam agarrá-las, nem prová-las, nem tocar-lhes, nem abraçá-las, como tinham imaginado.
Óh…ficaram mesmo tristes! Tão tristes que começaram a chorar. O tronco ficou encharcado, parecia que de repente tinha recomeçado a chover outra vez, muito forte.
O tronco olhou para os galhos e perguntou o porquê de tanta tristeza. Cada um contou os seus desejos, e todos pensaram que podiam realizá-los…
O tronco explicou que não eram nuvens. Era nevoeiro, por isso, nem nas nuvens, nem no nevoeiro podiam ou conseguiam tocar…só na imaginação deles.
Foi mesmo isso que fizeram! Fecharam os olhos e deixaram-se levar pelos seus sonhos, sem nunca sair do seu tronco. Lá…cada um conseguiu realizar o que queria.
E todos sorriram. O sorriso deles foi tão luminoso, e tão doce, sincero, que até as nuvens gostaram, afastaram-se envergonhadas, a sorrir, porque sabiam que aqueles galhos estavam a pensar nelas, parou a chuva…o sol voltou a brilhar, mesmo que com as nuvens por trás.
Para retribuírem a lembrança e o carinho, cada nuvem deu um bocadinho das suas cores através de um sopro, e todas juntas construíram um gigantesco arco-íris, visto em toda a floresta. Os galhos perceberam que foram as nuvens, agradeceram em coro e aplaudiram.
E vocês? Já sonharam com nuvens? Ou imaginaram histórias ao ver as nuvens? O que é que já descobriram lá?

FIM
Lálá
(11/Fevereiro/2016)


        


terça-feira, 10 de novembro de 2015

A pintora desajeitada

foto de Lara Rocha 



Era uma vez uma fada toda feita de nuvens que vivia nas nuvens, numa casa feita de nuvens com a sua família de nuvens. Um dia estava muito amuada, irritada e triste, porque estava farta de chuva na sua zona. Ela olha pela janela.          
- Não posso acreditar! – Grita ela com os dentes cerrados e a gritar
- O que foi? – Pergunta a sua mãe
- Não me faças perguntas… - Resmunga ela
- Tu não falas assim comigo! – Diz a mãe, muito séria
- Ei…estás séria como o céu…
- E vou ficar ainda pior. Ouviste a maneira como me respondeste? Isso são maneiras de falar com a tua mãe?
- Desculpa. Estou de mau humor.
- Ai… que paciência. Vai apanhar ar lá fora.
- Está a chover outra vez. – Grita a fada
- E que culpa tenho eu…? Ou…nós?
- Nenhuma. Mas é que… bem… acho que vou mesmo lá fora. Vou ter uma conversinha com alguém.
- É. Vai. E deixa a raiva lá fora…vai apanhar ar.
    Ela sai a porta a resmungar sozinha.
- Detesto este céu, desta cor. – Grita ela no dobro do seu tamanho de tão zangada que estava. 
    Pegou na sua palete de cores e começa a saltar em cima dos tubos de tinta que lançam um enorme jato de todas as cores. 
    As cores gritam, dão as mãos, dançam, misturam-se e fazem um enorme e lindo círculo de arco-íris.
- Áh! Assim sim, já gosto mais deste céu. Mas mesmo assim, ainda não gosto.
As cores, que estavam felizes, ficam tristes com o comentário, dissolvem-se nas suas próprias lágrimas, e juntam-se numa nuvem negra assustadora.
- Ei…onde é que vocês foram?
Não há resposta nem barulho. A fada fica triste. Pega outra vez na sua paleta de cores, mistura-as, mas vem uma rajada de vento muito forte que a faz rodar muito rápido, e ela sem largar os pincéis e as cores grita. 
O trabalho final não é nada bonito, mas há muitas cores. 
O vento desata às gargalhadas.
- Já viste o que fizeste? – Pergunta ela muito zangada
- Tu é que és a pintora, mas não fazes obras nada bonitas.
- O quê? Tu é que és um insensível.
- Não. Tu é que não tens mesmo gosto nenhum, nem jeito.
- Áhhhh!
- É verdade.
- Mas…
- Sim, enquanto estiveres nesse estado, não vais fazer nada de jeito.
- Que estado?
- Assim, quase a explodir…tu é que pareces uma ventania.
- Huummm…estou muito zangada.
- Já reparei. Mas posso saber porquê?
- Não.
- Pronto, está bem…então fica lá com o teu mau humor, e a tua irritação. (o vento afasta-se ligeiramente) Desculpa! Acho que estraguei as tuas obras. (afasta-se mais um bocadinho) Deve ser por isso que estás tão zangada…
- Não. Espera…talvez me possas ajudar.
- Eu? Ajudar-te? (ri) Tu é que costumas ajudar os outros, não sou eu. Eu sou vento, tu és fada.
- Mas as Fadas também precisam de ajuda…às vezes!
- Precisam?
- Claro! Tu também precisas?
- Sim, claro.
- Detesto este céu. Estou farta da chuva, farta de ver estas nuvens escuras…queria dar-lhes outras cores mais bonitas, alegres… sem cores fico muito triste.
- Eu também gosto muito de cores. E mesmo as nuvens escuras, e a chuva…têm cor.
- Sim, é verdade. Mas são muito escuras…eu gosto mais de cores alegres.
- Mas não podes mudar as cores que elas têm.
- Porque não?
- Isso é com o sol.
- Eu vi o arco-íris, mas desapareceu. Saltei em cima dos tubos de tintas, um de cada cor… delas saiu um grande jato de cores, elas deram as mãos, dançaram, misturaram-se e formaram o arco-íris, mas…desapareceram…Acho que ficaram tristes, por uma coisa que eu disse.
- Pois! Estou a ver…
- Quem? O arco-íris?
- Não. O que tu fizeste…
- Foi mau, não foi?
- Foi. Mas o que é que tu querias pintar?
- Nada de especial…e…tudo à minha volta…para ficar colorido...para dar cor a estas nuvens tão escuras.
- As nuvens escuras são importantes…e têm a sua beleza.
- É. Mas cansam depressa. Eu não gosto de tudo tão escuro.
- Mas também não podes mudar a cor…podes pintar com outras cores, mas em desenhos, ou nos teus sonhos.
As cores gostaram tanto do que o vento disse, que voltam a aparecer em forma de arco-íris entre as nuvens a sorrir. A fada tenta agarrá-las, mas elas escondem-se.
- Porque é que fogem?
- Porque não fomos feitas para sermos agarradas…
- Só…olhadas.
- E apreciadas.
- De longe!
- Para sermos vistas…
- Sentidas…
- Tocadas com os olhos.
- E vocês gostam dessas nuvens tão escuras?
- Sim! – Respondem todas
- Eu não gosto. E quero pintar tudo à minha volta com outras cores.
As cores desatam a rir às gargalhadas.
- Achas que mandas nisto…
Aparece um raio de trovoada e faz um estrondo.
- Vai-te embora. – Grita a fada
- O quê? – Pergunta o raio
- Eu não gosto de ti. – Resmunga a fada
- Olha para a minha cara de preocupado… (responde o raio a rir) tu ficas aí, que eu fico aqui… e está tudo bem.
- Tu não me dás cores…não gosto de ti.
- Quero lá saber. Não tenho nada a ver com cores…só com…luz.
A fada fica mesmo furiosa. Aperta os tubos de tintas aos gritos, roda, salta…todos a mandam calar. O vento prende-a.
- Pára quieta e pára de gritar, criatura irritante. Já me estás a deixar muito nervoso…e olha que eu até sou calmo…
Aparece o sol.
- Mas o que é que se passa?
- Esta criatura só grita… reclama por cores. Diz que detesta nuvens escuras, que está farta de nuvens escuras e de chuva. – Explica o vento
O sol ri.
- Sou pintora. – Grita a fada
- Pintora? – Todos desatam a rir
- És uma pintora muito desajeitada. – Brinca o vento
- É verdade. – Confirma o sol
- Tu queres pintar o quê? – Pergunta outra nuvem
- Quero encher isto tudo de cores.
- Não podes.
- Porquê?
- Eu é que mando…
- Porque é que me roubaste as cores?
- As cores estão mesmo diante de ti. – Mostra o sol
- Mas eu vejo tudo igual…e não gosto destas cores.
- Enquanto estiveres assim tão irritada, eu não te ajudo. – Diz o sol
- Porque não?
- Porque não são maneiras de tratares a natureza.
- Mas ela é quem manda?
- Claro.
- Pensei que eras tu!
- Não. Eu faço parte dela, mas é ela quem decide tudo. Não sou eu…eu só obedeço…ou apareço ou não…e onde…quando ela quer…ou manda.
- Mas…ela não entende que ficamos tristes quando tu não estás?
- Entende. Mas é porque ela acha que sou mais preciso noutros lugares.
- Óhhh…
- Não posso contrariar as ordens dela. Nem vai ser por tu ficares tão irritada que ela vai mudar as coisas.
- Não?
- Não!
- Eu só quero cores…
- Vais tê-las aqui fora, quando a Natureza entender…
- Mas…
- E é melhor não discutires com ela.
- Porquê?
- Ela não gosta…e não é para brincadeiras.
- É pior do que eu?
- Muito pior.
- Não pode ser.
- É.
- Achas que se falares com ela, ela vai fazer-me a vontade?
- Não. Isso tens de ser tu a pedir, e mesmo assim é melhor não teres muita certeza que ela vai realizar o teu desejo.
- Eu quero cores…
A voz da natureza soa:
- Pinta, e cala-te um bocadinho, por favor. Já estou cansada de te ouvir.
- Ãh? – Pergunta a fada
- É a mãe. Respeita-a…- diz o sol
- Ela está a mandar-te pintares. – Diz o vento
- Mas vou pintar onde?
- Na tua casa…sossegada, calada… e bem comportada. Em papel branco, com as tuas tintas. – Manda a natureza
- Mas…
- Vai já para casa. – Ordena a natureza
A fada obedece, triste e um pouco assustada. Senta-se em frente ao apoio das folhas de desenho, e olha para as tintas.
- O que é que eu vou pintar?
- O que tu quiseres… - soa a voz da natureza
Ela faz um desenho cheio de riscos, pintas, borrões com várias cores.
- Está bem?
- Não! – Respondem todos
- Está muito mau. – Diz o vento
A fada quase explode.
- Nem te atrevas…respira…- Ordena a natureza – Eu não faço obras dessas
Ela respira muito zangada, e faz outro desenho, ainda mais trapalhão. A natureza ri-se.
- O que é isso?
- Faz um desenho como deve ser. – Sugere o vento
Ela tenta outra vez, muito zangada. Uma mancha de tinta salta da folha e transforma-se em gota gigante. Fica a olhar para ela.
- Isso é coisa que se apresente, menina?
- Ai, que susto. De onde saíste?
- Daqui. Desta salsichada que chamas desenho. Olha para isto…? Que coisa é esta…? Não tem pés, nem cabeça.
- O quê? Mas…que indelicada…Eu não estou a desenhar salsichas. 
- Estou a ser muito sincera. Tu não sabes pintar.
- Sei.
- Não. Muito menos quando estás nervosa. Olha para isto…? Que bagunça. A natureza não gosta disto…nem ela nem ninguém.
- Óh!
- É verdade.
A mancha dá uma longa lição de pintura à fada, explica tudo passo a passo de como fazer a pintura.  Mostra cores, fala com elas, elas dizem as suas funções, explica quais as cores que se podem misturar, e as que não podem 
Pega nas mãos da fada e põe-nas a desenhar como deve ser. Quando ela começa a desenhar coisas bonitas, e a ficar muito bem-disposta com a mancha, a natureza à sua volta começa a ganhar uma nova vida. 
As nuvens mudam de sítio, aparece o sol, as gotinhas escorregam das pétalas das flores, e dos troncos das árvores, e todas as cores de tudo o que parecia ser pintado com a mesma, sorriem.
A fada sai a correr de casa, toda feliz, com um grande sorriso, e corre solta pelo espaço.
- Finalmente…sol! Luz…muito obrigada… obrigada Natureza… obrigada, mancha de tinta…por me teres ensinado a pintar.
- Mas lembra-te de respeitar também a chuva, porque até ela tem a sua beleza…e é muito necessária. – Aconselha a Natureza
- Sim, já percebi.
E a fada volta a brincar com as cores. Quando estava chuva, ela deixou de ficar zangada, e aprendeu a pintar de verdade…até a chuva ela pintou. 
Quadros lindíssimos, da Natureza, com todos os belos e pequeninos pormenores, pois adorava tudo o que via, e via com olhos bem abertos para captar tudo…
Sonhava, e passava todos os seus sonhos para o papel, enquanto viajava pelo mundo das cores, que às vezes era só seu.
Era de certeza um mundo lindo, porque todos os seus quadros passaram a ser muito apreciados por todos. 
Até lhe pediam para fazer quadros especiais, quando queriam oferecer alguma coisa muito especial a alguém.
A pintora que era desajeitada, aprendeu a pintar e a não ficar zangada quando estava a chover. Com sol ou chuva, a Natureza é mesmo assim, e ela merece sempre a nossa admiração, não é?

                                               FIM
                                          Lara Rocha 
                                  (9/Novembro/2015)