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quinta-feira, 6 de julho de 2023

A rapariga que mudava o dia das pessoas

 



        Era uma vez uma rapariga muito especial, diferente de todas as outras, a começar pela cor do cabelo, ruivo, dos olhos e da pele clara, e a sua sensibilidade. 

     Vivia numa aldeia pequena, onde todos se conheciam, e a menina também, só ainda não sabiam que ela era tão especial e que fazia tão bem aos outros. 

      Os pais e os Avós sentem orgulho nela, porque sabem que ela é uma boa menina, porta-se bem, é amiga de todos, simpática e gosta de ajudar. 

      Mas não sabiam que ela era assim tão sensível ao que os outros diziam sem palavras, às suas energias e expressões faciais, e que ajudava a melhorar. Aos poucos, ela foi mostrando quem era. 

   Era muito meiga, doce, sensível às energias dos adultos, sorridente, carinhosa, toda a gente repara nela. A sua diferença em relação às outras raparigas ainda mais as da idade dela, é que sentia quando alguém estava solitária, tristonha, vazia, com pensamentos feios, sem sorrisos, oferecia sempre alguma coisa para alegrar e transformar o dia dessas pessoas. 

     Não tinha dinheiro, mas tinha magia, pureza, inocência, bondade. Passou por um Sr. sentado num banco, carrancudo, parecia falar sozinho. A rapariga para em frente a ele, olha para ele: 

- Porque estás com essa cara tão comprida? 

- Não tens nada a ver com isso...(grita o sr.) 

- Com quem estás a falar? 

- O que te interessa? 

- Não vejo aí ninguém. 

- E depois? 

- Porque é que estás tão irritado? 

- Como é que sabes que estou irritado? O que sabes dos adultos? 

- Sei muita coisa. 

- São coisas de adultos. 

- Não devias irritar-te, nem falar assim...(atira-lhe uma flor para as pernas) 

- O que é isto? 

- Não conheces as flores? 

- Conheço! 

- Se falas assim com ela, como estás a falar comigo, ela vai murchar rápido, mas não faz mal. 

        O Sr. fica calmo de repente, olha para a flor, sorri. 

- Obrigado. 

- Trata-a bem. Quero ver o teu sorriso! 

- Não tenho sorriso. 

- Como não tens sorriso? Claro que tens...eu estou a vê-lo nos teus olhos, porque é que ele não aparece na tua boca onde todos aparecem? Porque estás trombudo. A resmungar...mas eu sei que também sabes sorrir. 

        O Sr. olha para a rapariga, ela sorri-lhe e ele retribui. 

- Não gosto desse sorriso, falso! - diz a rapariga 

- Não é falso. 

- Mas é triste, eu quero um sorriso feliz, aquele que vejo nos teus olhos e que quer sair. 

        O Sr. olha para a flor, e para a rapariga, ela sorri-lhe com toda a sua pureza, e ele abre um sorriso gigante, como não acontecia há muitos anos. 

- Assim, sim, esse foi um sorriso! - diz a rapariga a sorrir 

- Obrigado, realmente já não me sentia assim com tanta vontade de sorrir há muitos anos. 

- Pois, escondeste a tua criança.

- Escondi? As minhas crianças já cresceram, já pouco me ligam. 

- Os teus filhos ? 

- Sim. 

- Não estava a falar desses, estava a falar da criança que foste. 

- E tu consegues vê-la? 

- Consigo! Ela saiu agora, quando sorriste, ela também sorriu. Ela saiu quando olhaste para a flor e disseste obrigado, em vez de resmungares e estares carrancudo! Deixa-a sair. Dá-te saúde...cuida da flor. Volto um dia destes. (e vai ter com uma senhora sentada noutro banco) 

- Tão querida...que ser...especial. Será que existe mesmo, ou imaginei…? Não, não imaginei porque a flor está aqui. Não sei o que é que ela tem, mas é especial. - diz o Sr. 

- Olá, Sra. 

- Olá minha querida! 

- O que estás a fazer aí sentada, com esse ar tão triste? 

- Estou...a pensar só. Como sabes que estou triste…? Uma rapariga da tua idade...não se preocupa com os velhos. Que bonita que tu és! 

- Obrigada. Não conheço essa palavra horrorosa que tu disseste! Mas é claro que já raparigas e rapazes da minha idade que se preocupam com os avós deles, e com outros. - sorri a menina 

       A rapariga sorri e sopra uma joaninha que pousa na roupa da sra. 

- Áh! Que linda, uma joaninha. - diz a Sra. com um sorriso aberto 

- Assim está bem. Quero ver-te a sorrir da próxima vez que passar aqui! - diz a rapariga a sorrir 

- Combinado! - diz a senhora 

- A joaninha vai fazer-te sorrir. Até já. 

- E fez mesmo. Obrigada, querida. 

- De nada, até já. 

      A Sra. olha deliciada para a rapariga, que noutro banco estava uma mãe com um bebé ao colo, tristonha, e a menina sopra uma pequena borboleta com uma luzinha que circunda a mãe. 

      A mãe segue-a com os olhos, abre um grande sorriso de encanto, e vai para o bebé, que também ri à gargalhada, pondo a rapariga e a mãe a rir também à gargalhada, com as brincadeiras e mimos da borboleta com a luzinha.  

     A rapariga conversa um pouco com essa mãe que ganhou um novo ânimo, uma nova força, um novo sorriso. A mãe agradece. Vai para outro banco onde vê uma rapariga a chorar, encolhida. A rapariga acaricia-lhe os cabelos, estende-lhe a mão, e a jovem para a olhar para ela. 

- Quem és tu? Tão linda! (sorri) 

- Eu sei porque estás tão triste. 

- Sabes? Como? 

- Sei. Dá-me a tua mão! 

        A rapariga senta-se no banco, limpa as lágrimas, dão a mão, e a rapariga deixa-lhe uma flor na mão. 

- É para curar o teu coração partido! 

- Mas...como é que sabes que foi por causa disso? Está escrito na minha cara? (a rapariga ri-se) 

- Não está escrito, mas eu sei. 

- Posso dar-te um abraço? 

- Mas isso nem se pergunta...claro que sim! 

        As duas abraçam-se a sorrir. 

- Ai, não me apetece largar-te! Tens alguma coisa de muito especial!

- Eu? Não. Sou uma rapariga igual a ti. 

- Mas ninguém dá abraços assim tão bons, tão especiais. 

- Não sei o que te dizer, mas adoro abraços, deve ser por isso! 

- Eu também adoro abraços. 

- Também já te partiram o coração? 

- Claro que sim! Quantas vezes...sei como dói, mas faz parte, e há que seguir em frente. É porque não tem de ser. 

        As duas conversam um bocado de mão dada, a rir, e a sorrir. 

- Bem, desculpa, tenho de ir. 

- Está bem. Mas volta mais vezes! Adorei conhecer-te. E adorei os teus abraços. Obrigada por tudo. 

- Foi um gosto! Voltarei sim, até já. Mas amanhã quero ver-te sorrir como agora!

- Prometo que vou tentar. 

- Eu sei que vais conseguir. 

- Obrigada. 

- Até já. 

- Até já. 

   A rapariga continua a percorrer o jardim, soltando flores, borboletas, luzinhas, abraços que todos recebem com agrado, e abrem grandes sorrisos de ternura, joaninhas, balões, sorrisos a caras tristes, a pessoas chorosas, que ela sente que precisam. 

   Às vezes vai aos hospitais e discretamente sopra luzinhas de melhoras e de cura para quem lá está, e a realidade é que todos apresentavam melhorias. 

     Vai por casas de pessoas que vivem sozinhas no seu meio, estão à janela ou a trabalhar nas hortinhas, e a menina ajuda-os  com alegria. Todas as plantações e regas que a menina faz tornam-se mais bonitas, fortes, saudáveis, crescem, e parecem sorrir. 

    Passa algum tempo a conversar com elas, a fazê-las rir, lancha com elas, mostra-lhes coisas bonitas, faz companhia, aprende sempre muito com eles. 

    Na aldeia toda a gente a conhece, e quando perceberam que ela era uma menina jovem, realmente especial, todos começaram a procurá-la, porque fazia muito bem aos outros. 

     Era realmente uma rapariga muito jovem, que melhorava o dia das pessoas, em especial aquelas que estavam a sofrer, que eram mais solitárias, e tristes, que precisavam de um abraço, de um carinho, de quem as fizesse rir, de palavras simpáticas.

        Essa menina conseguia isso! 

E vocês têm coisas parecidas com esta menina? O quê?

Gostavam de ser como ela? Ou de ter uma amiga como ela? 

Se fossem como ela, o que faziam para alegrar pessoas mais tristes? 


                                                FIM 

                                             Lara Rocha 

                                            6/Julho/2023 


sábado, 18 de junho de 2022

A boa ação da gotinha e da menina

   



         Era uma vez uma menina que viu uma gotinha de água pousada na pétala de uma flor. A gotinha brilhava ao sol, podia ver-se o arco iris a sorrir-lhe. A menina observa-a. 

- Olá. - diz a gotinha 

- Olá! És nova por aqui não és? - pergunta a menina 

- Não. 

- Mas eu nunca te vi aqui. 

- Eu ando por muitos lados, mas volto sempre para este jardim que é a minha casa. 

- Áh, que giro. E por onde já andaste?

- Por muitos sítios. Queres conhecer alguns? 

- Tu consegues levar-me? 

- Consigo. 

- E trazes-me de volta? 

- Trago. 

- Está bem. 

        A gotinha transforma-se numa pequena bolha transparente, convida a menina a entrar, fecha a cápsula e a viagem começa. 

- Ai que altura! - diz a menina um bocadinho assustada 

- Não tem problema. Eu desço mais um bocadinho. Esta é a tua cidade vista de cima. Aprecia à vontade. 

        A menina olha através das janelas, e vê um molho de prédios, uns mais pequenos, outros mais altos, e torres. Não vê pessoas, nem animais. Só vê estradas, rotundas, carros que mal se percebem, árvores, alguns pequenos espaços verdes, umas casas com piscina. 

- Como é grande a minha cidade. Não sei onde está a minha casa... 

- Pois, talvez não a vejas daqui, mas quando voltarmos, deves conseguir vê-la, se moras perto do jardim onde estavas. 

- Sim. 

- Olha ali um espaço que adoro... 

        O espaço que a gotinha fala é a montanha, que fica num ponto muito alto da cidade, uma estrada cheia de curvas, mas uma paisagem muito bonita. Vê árvores, de diferentes tamanhos e espécies, espaços onde dá muito sol e outros muito sombrios, alguns carros parados, a torre de uma igreja, alguns jardins, e ao longe a praia. 

- Áh que giro! 

        A gotinha leva a menina à praia. Pelo caminho conversam alegremente, a gotinha mostra muitas coisas bonitas, que a menina nem fazia ideia que pertenciam à sua cidade. 

        A menina vê o mar de cima: 

- Ai, que coisa tão grande. É um lago gigante com ondas ali na ponta? 

- Não. Não é um lago, é o mar da praia. 

- Áh. Tanta água. 

- Pois é. Nem se vê o fundo. 

- Olha barcos ali, mas são pequenos. 

- Daqui são pequenos, mas quando chegarmos eu baixo e vais ver como são enormes. 

- Já passaste aqui? 

- Já.

        As gaivotas cruzam-se com elas, desviam-se, aos guinchos irritadas. As duas riem com vontade: 

- Olha, olha....ficaram com inveja. 

- É, não gostam de ver o espaço delas invadido. 

- O céu não é só delas. 

- Pois não. 

- Deixa-as para lá. 

        As duas riem, e uma gaivota pousa mesmo em cima da cobertura. 

- Que atrevida... xooooo... - diz a gotinha 

        Bate no vidro e ela voa. Sobrevoam alguns campos de girassóis gigantes e milho alto, campos muito verdes, com outras plantações, pinhais com sombra e sol. 

        Chegam à praia, vê-se a areia de cima, a gotinha baixa devagar e os barcos que pareciam tão pequeninos, tornam-se realmente gigantes. 

        Veem crude a boiar na água, uma coisa que reluz com o sol. 

- O que é aquilo? Que nojo! - pergunta a menina 

- Infelizmente é poluição. Crude, petróleo ou outros produtos assim. 

- Isso não é bom, pois não? 

- Não. 

        Veem na areia algumas aves com ar de doentes, crude nas penas, e elas aflitas para respirar. A menina grita: 

- Estão doentes... podemos baixar até à areia? 

- Sim. 

        Pousam na areia, a gotinha volta a ser gotinha, olham para as aves e sentem pena delas. 

- Estão bem? - pergunta a gotinha 

- Acho que comemos uma coisa envenenada. - diz uma ave 

- Olha para esta porcaria... - lamenta outra ave 

- O que é isso que tem nas penas? - pergunta a menina 

- Não sei. Parece cola. 

- Não nos conseguimos mexer. 

- Que nojo! 

        A menina e a gotinha levam as aves ao mar, ajudam-nas a lavar, a gotinha dá-lhes água limpa para beberem. Era mesmo crude, pois algumas penas tiveram de ser arrancadas porque não saía. A areia também está cheia de lixo. 

- Como é que isto veio parar aqui? - pergunta a gotinha 

- Não sei. - dizem todas

- Vocês correm perigo. Deviam ir para outra praia! 

- Que água deliciosa, a tua. - diz uma ave 

- Muito obrigada pela vossa ajuda. - dizem todas 

- De nada. Voltarei em breve para vos trazer água saudável. 

- Muito obrigada. Bem precisamos. 

- Até já.

- Está na hora de voltar... - diz a gotinha 

        Elas voltam para o jardim, pelo caminho veem mais paisagens bonitas. Sentem-se felizes e tristes. Felizes porque ajudaram as pobres aves que estavam doentes e intoxicadas com a poluição, mas essa parte foi a que as deixou mais tristes. 

        A menina agradece à gotinha o passeio, e a gotinha, como prometido vai à praia onde estiveram deixar água limpa para as aves beberem e tomarem banho. Para isso encheu vários buraquinhos nas rochas com a sua água onde costumavam pousar. 

        Era um sítio seguro que escapava à poluição. 

                                            

                                                               FIM 

                                                          Lara Rocha 

                                                        18/ Junho/ 2022 

                                              

   

sábado, 2 de maio de 2020

A prendinha da estrela

          




Era uma vez uma menina, filha de artistas de circo, que andava sempre de um lado para o outro, numa caravana, que tinha o mínimo de condições para viver, e tanto ela como os pais viviam felizes, juntamente com os outros artistas.
         A menina adorava os espetáculos, e todos gostavam muito uns dos outros. Em muitos lugares onde ficavam na noite dos espetáculos, eram descampados, onde se viam muito bem as estrelas. A menina tinha por hábito ouvir e ler histórias.
        Enquanto ouvia as histórias imaginava o que lhe era dito, mas também inventava as suas próprias histórias, a partir do que ouvia, e outras muito diferentes. 
        Ela nem imaginava que havia uma estrela muito lá em cima que se transformava em cigarra e ficava muito perto dela para se deliciar com as histórias, tanto as que lhe contavam como as que ela criava.
        A estrelinha estava entre as cigarras e usava um bloquinho onde escrevia as frases que mais gostava, as palavras mais bonitas, as personagens e nomes que eram bondosas, ações e espaços das histórias que a faziam sonhar.
        Um dia a estrelinha ouviu dizer que a menina estava quase a fazer anos. Decidiu oferecer-lhe uma prendinha para retribuir o que aprendia com as histórias que ouvia. 
        Numa noite em que regressou a casa depois de ouvir mais uma história, e ter anotado umas palavras bonitas, a estrelinha foi ter com a sua mãe e a sua avó, que eram costureiras, e pediu ajuda.
         Explicou às duas que queria oferecer uma prenda especial à menina que contava histórias, e mostrou-lhes o bloco. 
        Perguntou se conseguiam concretizar esse presente. As duas gostaram tanto da ideia, ficaram tão orgulhosas desse gesto da estrelinha, que puseram logo mãos à obra, e a estrelinha ajudou.
       Fizeram uma linda manta, toda feita de fios de lã de lua, muito aconchegante, macia e quente. 
       Pregaram todas as palavras, frases, personagens, nomes, ações, espaços, que tinha gostado mais, e que a estrelinha tinha escrito no caderninho. 
       Enquanto pregavam, a estrelinha recontava a história, falava sobre o circo, os artistas, os espetáculos, e conversavam sobre eles.
      Ainda juntaram cotõezinhos de lãs azuladas, amarelas e salpicos de brilho das próprias estrelas. 
      Num instante, e quase sem dar por isso, a manta estava pronta! Olharam para a manta, aberta, soltaram uma grande exclamação, e abriram um enorme sorriso.
- Áh! Mas que bonita que está. - suspira a mãe orgulhosa
- Está perfeita! - Sorri a Avó
- Uau! Obrigada, Mamã...Obrigada, Avó! Vocês são mesmo fantásticas.
       Trocam abraços e beijos. Chega o dia de aniversário da menina, e houve espetáculo. A estrelinha entra sorrateira na caravana onde vive a menina, e pousa a mantinha em cima da cama dela, com um cartãozinho que dizia: «Obrigada pelo que aprendo com as tuas histórias! Adoro. Muitos parabéns, muita saúde, muitas felicidades, e até já!»
       A estrelinha transforma-se em cigarra, para ver a reação da menina. Quando o espetáculo acaba, estão todos eufóricos, muito felizes com a forma como tinha corrido, e fizeram uma festa surpresa à menina.
      Atuaram só para ela, os palhaços que ela mais gostava, riram muito, aplaudiram, cantaram os parabéns, dançaram, e as surpresas não ficaram por aqui. Quando se preparava para deitar, viu a mantinha em cima da cama, e o cartãozinho.
- Mamã... tenho aqui mais uma prenda... foste tu?
- Prenda...? Não... não sei do que estás a falar.
       A menina mostra a manta à mãe e o cartão.
- Não fui eu, nem nenhum de nós, tenho a certeza! Mas, que linda... está cheia de palavras, frases...Como fizeram isto?
      A menina lê o cartão à mãe. Batem à porta, aparece uma menina, linda, que nunca ninguém a tinha visto.
- Boa noite! Podemos ajudar...? - Pergunta a mãe da menina
- Boa noite. Estou à procura da menina que faz anos hoje.
- Sou eu! Mas, não nos conhecemos... - Diz a menina
         A estrelinha sorri:
- Tu não me conheces, mas eu conheço muito bem as tuas histórias, aprendo muito com elas. Esta manta que acabaste de receber, fui eu que te ofereci, onde estão as palavras, frases, cenários, nomes, pessoas, lugares que mais gostei.
- Está excelente. Mas como é que ouves as minhas histórias, se não nos conhecemos...?
- Não posso dizer.Gostaste da manta, é o mais importante para mim. Muitos parabéns, e continua a ler e a inventar as tuas histórias que adoro ouvir.
        A menina sorri.
- Muito obrigada. Mas como é que te chamas?
- Estrela.
- Áh! Eu sou a Diana. Não queres entrar...? Pode entrar, não pode, mãe?
- Sim, mas vê lá, já é tarde. Onde estão os teus pais, Estrela?
- Lá fora, na minha casa.
- Vê lá, não vão ficar preocupados?
- Não. Eles sabem que eu vim aqui.
- Está bem. Queres um bocadinho de bolo que sobrou?
- Acho que aceito. Obrigada.
       A estrela conversa com a menina, como se fosse tal e qual uma amiga dela, come o bolo.
- Hum, está muito bom, este bolo. Obrigada.
- Obrigada eu. - Diz a mãe
- Bom, vou voltar para a minha casa, e tu, Diana, não tarda muito, também vais dormir, não é?
- É. Por favor, volta mais vezes! - Confirma a Diana
- Claro que sim! - promete a estrela
        Trocam um abraço, e dois beijinhos.
- Obrigada pela prenda, e muito gosto em conhecer-te! - diz Diana
- Boa noite, dorme bem. Até já...Boa noite, pais da Diana! - diz a estrela
- Boa noite! - respondem os pais da Diana
       A estrela dá alguns passos e desaparece. Diana fica pensativa, nunca tinha visto aquela menina em lado nenhum, como é que ela sabia tanta coisa, ouvia as histórias, e ainda por cima deixou-lhe uma prenda tão bonita! 
       Ela e os pais deitam-se, a menina envolve-se na manta, deliciada com a maciez, e os brilhantes.
      Quando ela estava quase a dormir, a estrela volta a aparecer, pousada na sua manta, em forma de estrela iluminada. 
      Pediu à Diana que não gritasse, e que não se assustasse. Contou-lhe como a conhecia, e pediu que não contasse a ninguém, pois tinha medo que não acreditassem nela, ou que achassem ser da sua imaginação.
      Diana não contou nada, e a partir dessa noite, as duas tornaram-se grandes amigas, encontravam-se, a Diana contava e ouvia lindas histórias, conversavam, riam, faziam companhia uma à outra, brincavam, sem fazer barulho. 
      Às vezes escolhiam uma palavra da manta à sorte, ou uma frase, uma personagem, e recontavam ou inventavam essa história.
     De vez em quando, a estrela aparecia em forma de menina, principalmente de dia, quando a Diana brincava mais sozinha, ao ar livre, a ensaiar os números de circo e a ver os outros. Uma linda prenda de aniversário, e uma amizade.

E se vocês recebessem uma manta como a de Diana? Que palavras teria pregadas?

                                                                           FIM
                                                                           Lálá
                                                                      2/Maio/2020



          
            

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

O mistério das árvores

        

foto de Lara Rocha 

         Era uma vez um jardim na casa de uma família onde existiam muitas árvores que pareciam iguais às outras, umas grandes, outras pequenas, umas mais largas outras mais finas, umas com mais galhos, outras com menos, mais folhas, menos folhas, cores diferentes, e serviam de abrigo a muitos passarinhos.
As pessoas não lhes ligavam, raramente olhavam para elas, só quando mudavam as estações a correr, para ver se tinham folhas ou se estavam carecas, mas logo voltavam à sua vida, ou lembravam-se delas, quando agradeciam nas suas orações noturnas a sua presença. 
Mesmo com tanta indiferença dos humanos, as árvores continuavam resistentes, de pé, e felizes, porque sabiam o seu valor.
            Um dia, a menina parou de trabalhar e sentou-se numa cadeira no sótão. Olhou para a janela e para as árvores que eram verdes, frondosas e na sua copa viu fios dourados, muito finos. Ela nunca tinha visto nada assim...por isso ficou maravilhada e surpresa.
Que fios eram aqueles? Será que já tinham estado ali desde sempre e ela nunca reparou, ou só estariam lá hoje? O que seria? Mil perguntas encheram a sua cabeça, e enquanto isso, do nada… os fios começaram a desaparecer. Olhou outra vez e já não havia um único fio dourado.
Como tinham desaparecido foi jantar, e quando se ia deitar foi ver a linda lua cheia, olhou para a árvore e reparou que não haviam fios dourados, mas sim fios prateados muito leves, que ondulavam para um lado e para o outro na copa da árvore que ela achava que era a mesma, ficou surpresa e pensativa…mas foi dormir.
De manhã cedo, acordou e olhou para a árvore…não havia fios dourados, nem prateados, mas havia uma cor azulada, parecia que estava uma nuvem leve em cima da copa da árvore, e brilhantes por todo o lado, uns que brilhavam mais, outros que brilhavam menos, e pareciam cristais tão transparentes que quase se viam arco-íris.
Noutra árvore os cristais deslizavam pelos troncos, e outros pendurados nos troncos, outros pousados no musgo, noutra árvore ao lado ela viu mesmo pequeninos arco-íris vindos não se sabia de onde.
Muito preocupada e assustada, foi contar aos seus avós. Estes sorriram e não lhe contaram o segredo daquele mistério todo. Só lhe disseram que os fios dourados, os fios prateados, os cristais e os arco-íris eram as danças das fadas da natureza, quando se encontravam com os anjos, para nos lembrar que a natureza é perfeita, o mundo existe, está cheio de magia, beleza e mistérios que nunca saberemos explicar! Nem são para compreendermos, apenas para aproveitarmos e saborearmos cada mimo que ela nos oferece, cuidar dela, protegê-la, respeitá-la a amá-la!
A partir daí ela passou a estar muito mais atenta, todos os dias, para ver todas as surpresas da natureza! Elas não paravam….e até despertou esse gosto nos outros elementos da família, que muitas vezes pareciam distraídos com o trabalho.
Aliás…só a natureza é perfeita!
            E vocês? O que acham que poderiam ver de uma janela para as árvores?

FIM
Lálá
(26/Fevereiro/2016)



domingo, 27 de dezembro de 2015

As luas da Lu.

     


      Era uma vez uma menina chamada Luisinha, a quem chamavam Lu. Ela tinha umas grandes bochechas, olhos verdes, brilhantes, quase sempre sorridente, excepto quando a chateavam…aí ela gritava tão alto como um trovão, e chorava uma tromba de água.
Adorava todas as fases da Lua, e todas as noites a Lu. gostava de ver a Lua e de brincar com ela. Quando a Lua estava cheia, a Lu. encostava-se, toda refastelada na Lua, abraçava e aquecia-se na sua luz. Deitava-se em cima dela e rebolava como se fosse uma bola, ria e dava muitas voltas. Uivava com os lobos e com a Lua na sua janela.
Quando a Lua estava em quarto minguante, fininha, a Lu. sentava-se nela como se fosse uma cadeira de baloiço com encosto, balançava-se devagarinho, e muitas vezes acabava por adormecer.
Umas vezes, andava sobre a Lua como se fosse uma corda de um equilibrista, gatinhava ao longo dela e escorregava desde a cabeça até aos pés da Lua, outras vezes andava na Lua como se fosse um barco.
        Também ia para a sala de baile e dançava com todas as formas de Lua. Fazia piqueniques, ouvia histórias contadas pelas luas, estrelas e planetas, e contava-lhes as suas histórias, riam muito, brincavam com os seus brinquedos.  
Na Lua quarto – crescente, a Lu sentava-se como se andasse a cavalo, e para ler, ouvir e contar histórias. Quando estava de mão humor, escondia-se atrás da Lua, e ficava encostada, sentada no chão, não parava quieta, mexia-se, mudava de posição centenas de vezes…umas vezes deitava-se na Lua, com as pernas em cima, outras vezes ficava com as pernas penduradas…outras vezes sentava-se, outras vezes deitava-se com a cabeça para baixo, e barriga pousada na Lua, mas aguentava pouco tempo nesta posição.  
A Lu navegava no grande lago chamado espaço, cheio de estrelas e planetas, sem pressa, devagar, balançava, ia ao sabor dos sopros vindos da respiração da Terra, e da Lua, deliciada com tantas luzinhas. Mas havia uma coisa que ela não sabia...ela adormecia na companhia de todas as luas, mas enquanto dormia, as luas vagueavam pelo seu quarto, tomavam conta dela, cobriam-na delicadamente quando ela se descobria, não deixavam entrar pesadelos, conviviam com as fadas do sono, e brincavam sem fazer barulho.
As luas verdadeiras continuavam sempre lá em cima…e tudo isto era a Lu que vivia na sua imaginação, com as luas que decoravam o seu quarto e a sua cama.  

FIM
Lálá
(25/Dezembro/2015)


quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Mistério na janela


foto de Lara Rocha 

foto de Lara Rocha 

Era uma vez uma menina que estava no seu quarto à noite, deitada na sua cama à espera que o sono chegasse. Ela deitava-se sempre cedo, mas às vezes não adormecia logo. 
A janela estava meia aberta, e a persiana meia aberta, meia fechada, porque o dia tinha estado escaldante e a noite ainda estava muito quente. 
Como era na aldeia, não havia perigo, e a mãe ia fechar a janela quando se fosse deitar. Além de estar uma noite quente, a menina não gostava de tudo escuro pelo menos enquanto não adormecesse.
A certa altura, quando já estava quase com os olhos a fechar olhou para a janela e viu qualquer coisa a brilhar. Estava com tanto sono que nem ligou. 
Na noite seguinte, voltou a ver o brilho na sua janela mas nem se levantou para ir ver o que era. Nas outras noites ela pensou que eram coisas diferentes!
Primeiro pensou que era algum pirilampo que andava por lá a voar como muitos outros que ela via todas as noites. Depois pensou que a luz fosse uma estrela que caiu do espaço para ela não ter medo do escuro.
Noutra noite pensou que fossem as gotinhas da rega a brilhar com a luz da rua. Ou podia ser o João Pestana a chegar à janela, para lhe trazer soninho e sonhos, ou uma garrafinha de soninho com sonhos, que ele tivesse deixado por lá para ela, ou teria caído do saquinho sem querer e ficou ali…talvez ele se tivesse esquecido. Ou seria uma prendinha para ela, de alguma fada.
Mas de manhã quando abria a janela, não via nada. Começou a achar muito estranho, misterioso…e queria descobrir o que era, mas o sono vencia sempre, por isso a menina ficava sempre pelo querer e pelo ver a luzinha, mas não sabia mais nada.
Uns dias depois disse à sua mãe, mas a mãe não ligou, não deu importância nenhuma, riu-se e pensou que era imaginação da menina. A menina nunca se levantou para ver o que estava na sua janela, mas queria muito saber.
Perguntou ao João Pestana se sabia o que era, e ele respondeu que não. E agora…um segredo…não contem nada! Mas é claro que ele sabia muito bem o que era porque também mandava soninho e sonhos para essa luzinha, só que elas pediram-lhe para não dizer nada, tiveram medo de ser expulsas.
Nessa noite, em que ela estava mesmo disposta a descobrir o que brilhava na sua janela, a menina pediu ao João Pestana para ir mais tarde, e este fez-lhe a vontade. 
Foi deixar soninho e sonhos noutros quartos, e voltou ao dela. Ele sabia que mais cedo ou mais tarde, a menina ia pedir-lhe isso, e descobriria. Estava deitada com os olhos bem abertos, e mal viu a luzinha pousar na janela saiu da cama disparada.
Quando abriu a janela…mas que grande surpresa! Viu que afinal a luzinha não era nada do que tinha pensado. Não era nenhuma estrela, que estava lá para lhe tirar o medo ou fazer companhia, não eram pirilampos nem gotinhas da rega que brilhavam com a luz da rua, nem o João Pestana, nem garrafinhas de soninho.
Era uma linda borboleta de asas enormes, finas e de cor muito clarinha que abrigava debaixo delas, cobria, protegia e deixava passar a luz das lindas e pequeninas fadas enquanto as mais crescidas trabalhavam. A borboleta tomava conta delas.
A pequena ficou espantada, eufórica e encantada, saltitou e riu. Não estava a acreditar no que os seus olhos azuis estavam a ver. A borboleta ficou assustada, pediu desculpa por ter pousado ali, e pediu autorização para ficar na sua janela pois tinha umas pequeninas a seu cargo, e aquele espaço era mesmo muito bom para elas, mas não queriam invadi-lo sem autorização. Se a menina não deixasse, elas iam para outro sítio.
A menina ficou tão feliz, e gostou tanto daquela presença surpresa, que disse logo que ficassem, e até lhes arranjou um abrigo mais quente e confortável, porque não demorava nada a chegar o Outono e o tempo frio e a chuva.
O abrigo era espaçoso, quente, protegido do mau tempo e seguro. Até uma cobertura extra para os dias rigorosos de Inverno. Sentiam-se como umas verdadeiras rainhas num palácio. 
Gostavam tanto no sítio que até as fadas mais crescidas foram para o abrigo com a borboleta e as pequenas. E também ganharam uma amiga muito querida, que lhes dava atenção, carinho e com quem tinham longas e animadas conversas e brincadeiras.
E vocês? Já viram luzinhas ou coisas brilhantes na vossa janela? Foram ver o que era? O que viram? Se vissem alguma coisa brilhante ou luzinhas na vossa janela, iam ver o que era? O que poderia ser?
Fim
Lara Rocha 

(2/Setembro/2015)

sábado, 23 de maio de 2015

O balão manjerico

desenhado por Lara Rocha 

Era uma vez uma menina que adorava inventar…e aprendeu a inventar com o seu Avô que era também feiticeiro. Os seus pais tinham outros poderes, e a menina tinha o poder de contagiar toda a gente com o seu sorriso feliz e luminoso, e os seus enormes olhos expressivos, azuis.
Ela ajudava o seu avô na criação das invenções, mas um certo dia lembrou-se que queria inventar um balão com uma forma diferente dos balões que todos conheciam.
- Avô maravilhoso…olá! Estás muito ocupado?
- Não, minha querida, entra… estava a terminar uma invenção!
- Uma invenção? Criaste alguma coisa nova?
- Sim…olha… esta piscina para os póneis, pois com este calor os bichos precisam de frescura e água como nós.
- Espetacular Avô. Está ótimo. Eles vão adorar, tenho a certeza!
- Mas o que querias?
- Quero um balão diferente de todos os outros balões que já existem.
- Um balão diferente de todos os outros… mas para voar ou para brincar?
- Para voar.
O avô não estava a perceber para que é que ela quereria um balão diferente de todos os outros. Pensou, pensou, pensou…consultou livros e viu imagens… até que a menina dá um grito. O Avô estremece:
- Ai, filha…que foi?
        Ela dá uma gargalhada:
- Assustei-te Avô? Desculpa, foi sem querer…
- Que grito foi esse?
- Já sei como vai ser o balão!
- O que é que vem aí… - murmura o Avô intrigado! – Então como vai ser?
- Quero um balão, em forma de manjerico! Conheces os manjericos, não conheces?
- Os manjericos? Conheço, claro que conheço.
- Achas que consegues inventar um balão em forma de manjerico? É para voar, e de preferência, que leve mais que uma pessoa, por exemplo, tu, ou a avó, ou a mamã e o papá…!
- Sim, entendi. Vou tentar…
- Queres ajuda?
- Quero…anda cá.
        E o Avô põe mãos à obra. Para ele era fácil, inventar coisas novas e construi-las. A menina segue as instruções do Avô, e vai também ajudando a construir. E numa tarde, o tão desejado balão da menina fica pronto.
Ela está em pulgas…aos saltos de alegria, abraça e beija o Avô.
- Está maravilhoso, Avô. Era mesmo isto. Muito obrigada. Vamos experimentar?
- Vamos.
        E o Avô entra com a menina no balão em forma de manjerico que acabou de construir. É um balão que não voa muito alto, mas levanta um pouco, e de cima eles veem uma paisagem encantadora. Coisas que nunca tinham visto enquanto andavam por baixo, com os pés pousados no chão.
Os animais voadores acharam tão engraçado o balão, que pousaram em cima, a pensar que seria de pano, com muito cuidado, mas não era de pano, era um material mais resistente. Algumas borboletas apanharam boleia e uns passarinhos também, e outros mais atrevidos tentaram morder o balão, pensando que era a sério.
De repente levanta-se um vento muito forte, provocado por uma feiticeira amiga do Avô, que quis fazer uma brincadeira, pois ficou cheia de inveja da invenção do amigo…ela nunca conseguia inventar coisas tão bonitas como ele…! O Avô percebeu logo que era ela.
- Óh não…vento forte! Estava tão bom…
- O que é que estás a fazer, sua pateta? Não vês que estou com a minha neta?
        A feiticeira ri satisfeita ao ver o balão andar sem rumo e rodar, baloiçar.  
- Não sou eu… - diz a feiticeira a rir e a brincar – sou a outra eu.
- Sejas tu ou a outra tu…ou lá quem quiseres…para de fazer abanar o balão…estamos a passear e ver a paisagem, não é para andar de baloiço…
- Eu não quero fazer-te mal…sabes que nunca seria capaz disso…era só para brincar um bocadinho contigo! – Ri - Mas que bela invenção…nunca vi tal coisa!
- É bonito, não é? Foi ideia da minha neta.
- Muito bem. Podes fazer-me um igual, amigo?
- Para que queres um balão igual?
- Para passear…
- E tem que ser igual? Inventa tu um, a teu gosto.
- Mas eu gostei tanto desse! Vá lá…
- Não sei…
- Sim, Avô. Podes ensinar-lhe como fizeste!
- Óh que menina tão querida…sai mesmo à tua mulher. – Ri
- Vá…não sejas tão mazinha…
- Eu gosto da tua mulher…! A sério… - Diz ela irónica
- Nota-se! – Os dois riem
- Mas fazes-me um ou não?
- Sim, faz Avô! Ela é tua amiga, não é?
- É.
- Óh minha princesa…já sou amiga do teu Avô há muitos, muitos anos.
- Áh! Que giro.
- Pronto, está bem…em nome da amizade, eu faço-te um igual…mas pára de brincar com este nosso balão, está bem?
- Está bem… muito obrigada, querido.
        E os dois continuam o passeio. Quando aterram, o Avô e a menina fazem outro balão em forma de manjerico para oferecer à amiga feiticeira do Avô.
Mas na verdade, ela não queria o balão para voar e passear como eles, porque tinha muito medo…era só para pôr os manjericos da sua plantação que ia vender na festa em honra de São João, e chamar a atenção de quem passava, para comprar.
        E foi um sucesso, porque fartou-se de vender manjericos na sua bancada em forma de manjerico, construído com tanto carinho pelo seu amigo.
E vocês?
Gostavam de ser feiticeiros?
Se fossem feiticeiros, inventavam um balão em forma de manjerico ou outra coisa?
Gostavam de ter um balão em forma de Manjerico?
Para quê? Passear ou viver? Ou para guardar os vossos brinquedos…?

FIM
Lara Rocha 
(23/Maio/2015)

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

AS ÁRVORES DOS MORCEGOS

   Era uma vez uma árvore só com pequenos troncos, sem uma única folha, perdida num grande descampado, sem relva, só terra, e sem luz. 
    Por ser um sítio escuro, via-se muito bem as estrelas do céu, mas todas as pessoas tinham medo de ir para lá.
    Este era um sítio fantástico para animais noturnos, como morcegos, mochos e corujas.    À noite, esse campo ganhava vida com tanto bicho de um lado para o outro, de ramo em ramo, iam para os becos da cidade e voltavam, faziam uma grande barulheira, e de dia, dormiam na árvore.
 Um dia, uma pequena menina foi à procura de um sítio onde pudesse ensaiar sossegada as suas músicas que tocava em flauta, sem incomodar as pessoas, principalmente uns vizinhos que detestavam flauta, e ralhavam muito com ela.
    Chegou ao campo da árvore dos morcegos, e reinava o sossego. Como era de dia, os animais noturnos dormiam. Os morcegos fechados nas suas asinhas, pendurados, as corujas e os mochos nas crateras do tronco da árvore que era um sítio escuro e silencioso.
   Quer dizer…eles pensavam que era silencioso, e era! Até aparecer a menina. Pois é! Como a menina não sabia que aqueles eram animais noturnos, e dormiam de dia, nem olhou para a árvore, de tão concentrada que estava na sua flauta. 
    Andava de um lado para o outro, dançava e rodava ao mesmo tempo, com algumas quedas à mistura e ria-se sozinha. Estava tão feliz, e sentia-se tão livre que nem deu pelas horas passarem. Quase à noitinha os morcegos, os mochos e as corujas começam a despertar lentamente, e preparam-se para a noite. A menina está muito assustada, porque está escuro e esqueceu-se do caminho.
Ela olha para cima, e vê montes de olhos pregados nela
- Quem és tu? – Pergunta uma coruja
- És caçadora? – Pergunta um mocho
- Não. Sou uma menina.
- Uma menina? – Perguntam em coro
- Sim.
- Humana? – Perguntam em coro
- Sim! Porquê?
- Da cidade? – Pergunta outra coruja
- Sim.
- Huummm…estou cheio de fome… - Murmura um morcego gordo
- Era de estranhar se não estivesses com fome! – Resmunga a sua mulher
- O que é que isso quer dizer? – Pergunta a menina assustada
- Não é nada comum aparecer aqui…humanos! – Diz outro mocho
- O que é que isso quer dizer? Que me vão morder? – Pergunta a menina assustada
- Não! – Respondem em coro
- O que é isso que tens na mão? – Pergunta uma morcega
- É uma flauta! – Responde a menina
- E o que é que isso faz? – Pergunta outra morcega
- Isso tem um ar ameaçador! – Diz outra morcega
- Óh, não…não faz mal! Faz música! – Responde a menina
- Isso dá de comer? – Pergunta o morcego gordo
(Todos riem)
- Não. Quer dizer…não dá comida, mas dá consolo…! E alimenta a alma! – Responde a menina  
- Quem é a alma? Posso comê-la?
- (Ri) Não. A alma está dentro de nós. Não se pode comer.
- Óh, o consolo não é de comer! A alma também não…o que é que tu comes? – Resmunga e pergunta o morcego gordo
- Que insensível! – Resmunga a sua esposa
- Como muita coisa…mas alma e consolo não.
- E essa coisa não comes? – Pergunta o morcego gordo
- Não. Isto faz música…não se come. – Diz a menina  
- Podes tocar um bocadinho, por favor? – Pede outro mocho
- Claro que sim! – Diz a menina a sorrir
- Óh, com licença…não quero saber de tocares…quero é comer… - Resmunga o morcego gordo e voa.
     Todos riem. A menina começa a tocar, e todos os animais ficam espantados com o som da flauta, quase não pestanejam. Sorriem e choramingam, balançam o corpo e seguem a música. Todos aplaudem a menina.
- Ááááhhh! – Suspiram todos a sorrir
- Que lindo! – Diz uma morcega ainda embalada.
- É mesmo bom. – Diz um mocho a sorrir
- Onde aprendeste a tocar isso? – Pergunta um morcego
- Sozinha e na escola.
- Maravilhoso! Mexe com o coração…é lindo… - Diz uma coruja encantada
- Obrigada. Podem ajudar-me a encontrar o caminho de volta para a cidade, por favor? É que estou perdida…
- Óh, mas isso é fácil… - Diz um mocho
- Vamos para lá agora. – Diz a sua esposa coruja
- Segue-nos! – Diz um morcego
- Muito obrigada. – Diz a menina
- Por favor…toca mais um pouco para nós! – Pede outro mocho
- Claro que sim…
    E a menina vai o caminho todo a tocar feliz, os morcegos, os mochos e as corujas acompanham-na, voam e pairam à frente dela, circundam-na e dançam como bailarinos profissionais, felizes, leves e sorridentes, uns com os outros e sozinhos. Todos chegam à cidade, e os animais começam a chorar e a aplaudir.
- Óóóhhh…! – Lamentam todos
- O que foi? Não gostaram? – Pergunta a menina preocupada
- Adoramos! – Respondem todos
- Então porque estão tão tristes? – Pergunta a menina
- Porque…
- Porque…
- Porque vamos ter de nos separar! – Diz uma coruja
- Mas não por muito tempo…pois não? – Pergunta uma morcega
- Claro que não. Vamo-nos encontrar muitas vezes. E se quiserem, venham até à minha casa que lá não falta que comer.
- A sério? – Perguntam todos
- A sério. Venham.
    Os animais acompanham-na e nem querem acreditar…realmente…no sítio onde a menina vivia havia mosquitos às centenas, e outros petiscos para a bicharada. A menina entra em casa, os pais muito preocupados, mas aliviados quando a veem.
- Onde foste? – Pergunta o pai
- Fui tocar para um sítio livre, e distrai-me com as horas
- Podias ter dito! Ficamos muito preocupados! – Diz a mãe  
- Desculpem…
   A família conversa. Enquanto isso, todos os morcegos, corujas e mochos comem quanto querem. Nesse mesmo sítio tem outra árvore igualzinha à outra, onde viviam. Instalam-se lá, mesmo em frente ao quarto da menina, e ela vê-os da sua janela.
- Vão ficar aqui? – Pergunta a menina
- Sim. – Respondem todos
- O comilão já voltou?
- Já…
- Que lugar recheado…! – Diz o morcego satisfeito e regalado
(Todos riem)
- Está-se muito bem aqui. – Diz uma morcega!
- O meu quarto é este…daí podemos ver-nos! – Diz a menina
    Todos os animais ficam felizes, saltitam de alegria e pousam na beirada da janela do quarto da menina para conversarem e riem à vontade. De dia, os morcegos, os mochos e as corujas dormiam na árvore, e à noite saiam. 
   Depois desse dia, eles e a menina tornaram-se grandes amigos, e até o vizinho resmungão, começou a gostar das músicas que a menina tocava na flauta. Os morcegos protegiam a menina e toda a gente dos insuportáveis mosquitos e outros insetos, e a menina, em troca dava-lhes música que eles adoravam.

FIM
Lara Rocha 
(2/Outubro/2014)