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quinta-feira, 6 de julho de 2023

A rapariga que mudava o dia das pessoas

 



        Era uma vez uma rapariga muito especial, diferente de todas as outras, a começar pela cor do cabelo, ruivo, dos olhos e da pele clara, e a sua sensibilidade. 

     Vivia numa aldeia pequena, onde todos se conheciam, e a menina também, só ainda não sabiam que ela era tão especial e que fazia tão bem aos outros. 

      Os pais e os Avós sentem orgulho nela, porque sabem que ela é uma boa menina, porta-se bem, é amiga de todos, simpática e gosta de ajudar. 

      Mas não sabiam que ela era assim tão sensível ao que os outros diziam sem palavras, às suas energias e expressões faciais, e que ajudava a melhorar. Aos poucos, ela foi mostrando quem era. 

   Era muito meiga, doce, sensível às energias dos adultos, sorridente, carinhosa, toda a gente repara nela. A sua diferença em relação às outras raparigas ainda mais as da idade dela, é que sentia quando alguém estava solitária, tristonha, vazia, com pensamentos feios, sem sorrisos, oferecia sempre alguma coisa para alegrar e transformar o dia dessas pessoas. 

     Não tinha dinheiro, mas tinha magia, pureza, inocência, bondade. Passou por um Sr. sentado num banco, carrancudo, parecia falar sozinho. A rapariga para em frente a ele, olha para ele: 

- Porque estás com essa cara tão comprida? 

- Não tens nada a ver com isso...(grita o sr.) 

- Com quem estás a falar? 

- O que te interessa? 

- Não vejo aí ninguém. 

- E depois? 

- Porque é que estás tão irritado? 

- Como é que sabes que estou irritado? O que sabes dos adultos? 

- Sei muita coisa. 

- São coisas de adultos. 

- Não devias irritar-te, nem falar assim...(atira-lhe uma flor para as pernas) 

- O que é isto? 

- Não conheces as flores? 

- Conheço! 

- Se falas assim com ela, como estás a falar comigo, ela vai murchar rápido, mas não faz mal. 

        O Sr. fica calmo de repente, olha para a flor, sorri. 

- Obrigado. 

- Trata-a bem. Quero ver o teu sorriso! 

- Não tenho sorriso. 

- Como não tens sorriso? Claro que tens...eu estou a vê-lo nos teus olhos, porque é que ele não aparece na tua boca onde todos aparecem? Porque estás trombudo. A resmungar...mas eu sei que também sabes sorrir. 

        O Sr. olha para a rapariga, ela sorri-lhe e ele retribui. 

- Não gosto desse sorriso, falso! - diz a rapariga 

- Não é falso. 

- Mas é triste, eu quero um sorriso feliz, aquele que vejo nos teus olhos e que quer sair. 

        O Sr. olha para a flor, e para a rapariga, ela sorri-lhe com toda a sua pureza, e ele abre um sorriso gigante, como não acontecia há muitos anos. 

- Assim, sim, esse foi um sorriso! - diz a rapariga a sorrir 

- Obrigado, realmente já não me sentia assim com tanta vontade de sorrir há muitos anos. 

- Pois, escondeste a tua criança.

- Escondi? As minhas crianças já cresceram, já pouco me ligam. 

- Os teus filhos ? 

- Sim. 

- Não estava a falar desses, estava a falar da criança que foste. 

- E tu consegues vê-la? 

- Consigo! Ela saiu agora, quando sorriste, ela também sorriu. Ela saiu quando olhaste para a flor e disseste obrigado, em vez de resmungares e estares carrancudo! Deixa-a sair. Dá-te saúde...cuida da flor. Volto um dia destes. (e vai ter com uma senhora sentada noutro banco) 

- Tão querida...que ser...especial. Será que existe mesmo, ou imaginei…? Não, não imaginei porque a flor está aqui. Não sei o que é que ela tem, mas é especial. - diz o Sr. 

- Olá, Sra. 

- Olá minha querida! 

- O que estás a fazer aí sentada, com esse ar tão triste? 

- Estou...a pensar só. Como sabes que estou triste…? Uma rapariga da tua idade...não se preocupa com os velhos. Que bonita que tu és! 

- Obrigada. Não conheço essa palavra horrorosa que tu disseste! Mas é claro que já raparigas e rapazes da minha idade que se preocupam com os avós deles, e com outros. - sorri a menina 

       A rapariga sorri e sopra uma joaninha que pousa na roupa da sra. 

- Áh! Que linda, uma joaninha. - diz a Sra. com um sorriso aberto 

- Assim está bem. Quero ver-te a sorrir da próxima vez que passar aqui! - diz a rapariga a sorrir 

- Combinado! - diz a senhora 

- A joaninha vai fazer-te sorrir. Até já. 

- E fez mesmo. Obrigada, querida. 

- De nada, até já. 

      A Sra. olha deliciada para a rapariga, que noutro banco estava uma mãe com um bebé ao colo, tristonha, e a menina sopra uma pequena borboleta com uma luzinha que circunda a mãe. 

      A mãe segue-a com os olhos, abre um grande sorriso de encanto, e vai para o bebé, que também ri à gargalhada, pondo a rapariga e a mãe a rir também à gargalhada, com as brincadeiras e mimos da borboleta com a luzinha.  

     A rapariga conversa um pouco com essa mãe que ganhou um novo ânimo, uma nova força, um novo sorriso. A mãe agradece. Vai para outro banco onde vê uma rapariga a chorar, encolhida. A rapariga acaricia-lhe os cabelos, estende-lhe a mão, e a jovem para a olhar para ela. 

- Quem és tu? Tão linda! (sorri) 

- Eu sei porque estás tão triste. 

- Sabes? Como? 

- Sei. Dá-me a tua mão! 

        A rapariga senta-se no banco, limpa as lágrimas, dão a mão, e a rapariga deixa-lhe uma flor na mão. 

- É para curar o teu coração partido! 

- Mas...como é que sabes que foi por causa disso? Está escrito na minha cara? (a rapariga ri-se) 

- Não está escrito, mas eu sei. 

- Posso dar-te um abraço? 

- Mas isso nem se pergunta...claro que sim! 

        As duas abraçam-se a sorrir. 

- Ai, não me apetece largar-te! Tens alguma coisa de muito especial!

- Eu? Não. Sou uma rapariga igual a ti. 

- Mas ninguém dá abraços assim tão bons, tão especiais. 

- Não sei o que te dizer, mas adoro abraços, deve ser por isso! 

- Eu também adoro abraços. 

- Também já te partiram o coração? 

- Claro que sim! Quantas vezes...sei como dói, mas faz parte, e há que seguir em frente. É porque não tem de ser. 

        As duas conversam um bocado de mão dada, a rir, e a sorrir. 

- Bem, desculpa, tenho de ir. 

- Está bem. Mas volta mais vezes! Adorei conhecer-te. E adorei os teus abraços. Obrigada por tudo. 

- Foi um gosto! Voltarei sim, até já. Mas amanhã quero ver-te sorrir como agora!

- Prometo que vou tentar. 

- Eu sei que vais conseguir. 

- Obrigada. 

- Até já. 

- Até já. 

   A rapariga continua a percorrer o jardim, soltando flores, borboletas, luzinhas, abraços que todos recebem com agrado, e abrem grandes sorrisos de ternura, joaninhas, balões, sorrisos a caras tristes, a pessoas chorosas, que ela sente que precisam. 

   Às vezes vai aos hospitais e discretamente sopra luzinhas de melhoras e de cura para quem lá está, e a realidade é que todos apresentavam melhorias. 

     Vai por casas de pessoas que vivem sozinhas no seu meio, estão à janela ou a trabalhar nas hortinhas, e a menina ajuda-os  com alegria. Todas as plantações e regas que a menina faz tornam-se mais bonitas, fortes, saudáveis, crescem, e parecem sorrir. 

    Passa algum tempo a conversar com elas, a fazê-las rir, lancha com elas, mostra-lhes coisas bonitas, faz companhia, aprende sempre muito com eles. 

    Na aldeia toda a gente a conhece, e quando perceberam que ela era uma menina jovem, realmente especial, todos começaram a procurá-la, porque fazia muito bem aos outros. 

     Era realmente uma rapariga muito jovem, que melhorava o dia das pessoas, em especial aquelas que estavam a sofrer, que eram mais solitárias, e tristes, que precisavam de um abraço, de um carinho, de quem as fizesse rir, de palavras simpáticas.

        Essa menina conseguia isso! 

E vocês têm coisas parecidas com esta menina? O quê?

Gostavam de ser como ela? Ou de ter uma amiga como ela? 

Se fossem como ela, o que faziam para alegrar pessoas mais tristes? 


                                                FIM 

                                             Lara Rocha 

                                            6/Julho/2023 


quarta-feira, 11 de novembro de 2020

monólogo para adolescentes e adultos «Saudades de um outro…»



(Suspira ao olhar para o telemóvel e para uma foto).

RAPARIGA - Releio as tuas mensagens…as poucas que me mandaste desde que entraste na minha vida! E porque tenho saudades…! Não entraste há muito tempo, na minha vida, mas eu já te tinha acolhido no meu coração…mas também rapidamente saíste dela. Da minha vida, porque continuas no meu coração, adormecido…! Como uma estrelinha sem brilho, perdida numa imensa galáxia…Sem brilho, porque está doente…! Sim, para mim estavas a ser uma estrelinha! Não, não fui eu que te mandei embora…tu é que quiseste sair. De livre vontade, ou talvez não…talvez…a tua doença é que te tenha retirado! Sim, essa retirou-te muitas mais coisas, principalmente a boa disposição, a calma, a paciência, a alegria, a simpatia, a meiguice, a delicadeza… a vontade de falar…! Releio as tuas mensagens, e vejo a tua foto, a única que tenho, desde o último encontro, aliás…último e único…depois de tantas promessas que me fizeste, de que nos iríamos encontrar muitas mais vezes… foi inesperado e doce, o nosso primeiro e único encontro. Sim, foi lindo! Parecíamos dois adolescentes envergonhados…! Mas foi como um lindo sonho, que durou aquela hora, mas pouco depois…um monstro…o monstro dos pesadelos…levou esse sonho! Para onde? Não sei, isso só tu poderás responder. Se calhar…nem tu sabes bem por onde andas! Andas perdido nos teus pensamentos, nas palavras que não dizes…mesmo a quem te quer bem! Eu estava tão feliz quando a nossa amizade começou… (rir) Amizade…?! Será mesmo? Será que sentias isso…como eu senti…? As nossas conversas, sempre tão agradáveis, sobre diferentes temas…Como tu dizias…adoravas falar comigo…! E admiravas-me! Isso estava a fazer-me tão bem ao ego… à auto-estima! As palavras simpáticas que só tu me dizias…a força que me transmitias com as tuas mensagens…e a alegria que trazias aos meus dias, sempre que falávamos, ou nas mensagens queridas que me mandaste param o telemóvel. Será que estava mesmo a começar uma amizade…Ou terei sido eu, que na minha inocência, e romantismo, ou infantilidade, talvez…que imaginei que aquela troca de mensagens ou de palavras, seria o nascimento de uma linda amizade?! Ou seria a minha vontade de ter um amigo…? Homem…! O erro pode ter sido meu…talvez tenha uma visão muito cor-de-rosa das coisas, das relações…talvez ache que sejam todos como eu! Sinto a tua falta… Sinto saudades do homem, amigo… que estava a começar a conhecer. Até que… aos poucos… tudo se transformou…! Em silêncio, em frieza, em distância… em esquecimento… talvez! Aos poucos, afastaste-te, deixaste de falar comigo, deixaste de ser aquele homem simpático, brincalhão, animado, dedicado, que transmitia força… e luz…! A tua doença… talvez… é que te tenha transformado num novo ser…! Sinto saudades! A tua frieza, nas duas últimas vezes que falamos, já quase foi preciso eu arrancar-te da garganta palavras…quer dizer…monossílabos… preocupou-me… deixou-me triste, gelada…Apesar de isso me ter congelado o coração, não dei muita importância, pois todos nós temos dias maus…!Tinha esperança que…amanhã seria outro dia, e tu estarias melhor…que amanhã… tu voltarias a ser aquele amigo…! Mas no dia seguinte…e no seguinte…e no outro…e no outro a seguir…até hoje… de tua parte só recebi o silêncio…Um silêncio que de dia para dia atravessa a minha pele, o meu coração. A maneira como falaste comigo da última vez…Talvez não fosses tu a falar… talvez fosse a tua doença a falar por ti! Porquê…? Porquê…? O silêncio! Vá lá…deixa que te ajude…! Eu…e os teus…que te amam! Só tens de abrir o teu coração para mim, em vez do teu silêncio. Quanto mais os dias passam… e as noites… sem uma única palavra tua, sem uma única mensagem tua… mais o silêncio se torna insuportável para mim, mais o coração dói, e mais triste eu fico! Mesmo com o teu silêncio, com o teu gelo, a tua distância… eu ficarei à espera…à tua espera…Amigo! De dia para dia, as saudades aumentam, assim como a tristeza…e o sentimento de impotência! Não sei lidar contigo…! Quero ajudar-te, mas não consigo…Porque tu não te abres comigo! Com o teu silêncio não poderei ajudar-te! Dizes que não queres falar, nem comigo, nem com ninguém…está bem! Não és obrigado. Eu entendo… a tua doença é que deve dizer isso…quer dizer…ela é que te domina… ela é que fala por ti… Quero voltar a ser feliz e a sorrir, por ter um amigo como tu…Quero que a sementinha da nossa amizade que estava a nascer… renasça e cresça mais forte! O silêncio é que não por favor! Esse não vai fazer com que a sementinha cresça…! Quero que a tua frieza, se transforme em calor…em luz…em brilho…por favor…deixa-me ajudar-te! Quero que a estrelinha que está no meu coração, volte a brilhar dentro de mim! Tenho saudades! Amanhã é outro dia…esta noite vou sonhar contigo, com a volta da tua amizade…! E com o fim da tua doença! Amigo…espero por ti! Estou sempre aqui…neste momento com saudades! E que a nossa amizade renasça. Beijos repenicados, e grandes…como nós dizíamos um ao outro, depois de falarmos. Não te esqueças…estou aqui! Amigo!!!


Lara Rocha

(4/Dezembro/ 2012)



  



terça-feira, 21 de janeiro de 2020

As quatro marionetas

      

 Era uma vez quatro marionetas. Uma feita de chocolate, com os fios de ovos moles, outra feita de feijões, de várias qualidades e por isso, cores. Outra era feita de lã, e a outra de brilhantes.
A marioneta de chocolate com fios de ovos moles, foi oferecida a uma menina que não podia comer doces. Estava muito refeitinha, e sua Sra. Dra, tinha-a proibido de comer chocolate e ovos moles, pelo menos durante algum tempo, até ela baixar o seu peso.
         A menina estava sempre desejosa para lhe dar uma bela trinca, e queria comê-la de uma só vez, sem sobrar um único resto de chocolate e de ovos. Como a menina não podia comê-la, estava bem conservada e inteira, no frigorífico. Sempre que a menina abria o frigorífico olhava para ela e dizia:
- Queria tanto trincar-te...porque é que eu tinha de ser gorda! Que tristeza!
         E voltava a fechar o frigorífico.
         A marioneta que era feita de feijões coloridos, vivia pendurada por fios de cana de pesca, na porta do quarto de um menino a quem tinham oferecido. O menino adorava ouvir o som dos feijões a tocar uns nos outros, e no chão. As cores dos feijões era alegres: brancos, vermelhos claros, vermelhos escuros, pretos, castanhos claros e outros, castanhos escuros. O menino brincava muito com a sua marioneta feita de feijões.
         A marioneta feita de lã, foi oferecida a uma senhora solitária, com muita idade, embora tivesse muitos netos e filhos, mas estavam longe, e ela estava divorciada do marido há muitos anos. A senhora gostou tanto da marioneta que ficou com pena dela, não a queria pendurar e disse:
- Óh, linda marioneta, gosto tanto de ti, tu és tão bonita e tão fofa, tão colorida! Não mereces ficar aí pendurada. Mereces estar à minha beira, ser a minha companheira, e aquecer-me. Vais ser tratada como uma neta, ou uma filha.
         Pegou na tesoura de costura, e cortou os fios da marioneta, carinhosamente, com um grande sorriso. Olhou para ela, abraçou-a, como se a marioneta fosse mesmo uma pessoa. Abriu um grande sorriso e sentou-a à sua beira, no sofá, cobrindo-se a cobrindo a sua nova companhia.
         A marioneta de brilhantes, foi a realização do desejo de uma menina muito rica, demasiado vaidosa, caprichosa e mimada. Ficou eufórica com a beleza de tantos brilhantes, mas tratava-a apenas como uma boneca para enfeitar. Esta marioneta não fez a sua felicidade.
         Cada marioneta cumpriu a sua função, de tornar os seus donos felizes. Mas será que todas conseguiram mesmo...?

                                                              FIM
                                                              Lálá
                                                          20/1/2020  
    

quinta-feira, 24 de março de 2016

sei que voltarás


Desenhado por Lara Rocha a pastel

         Era uma vez um senhor de meia-idade, que desde há uns tempos se refugiava na berma de um rio, e dormia num barco, com uma lanterna.         Passava os dias naquela zona a olhar para o horizonte, e às vezes à noite olhava para as estrelas, e via nelas o neto e a filha que tinham desaparecido sem deixar notícias, sem avisar, ninguém sabia nada deles.
   Ele acreditava que os dois voltariam, e esperava…pacientemente, dias, e dias…que pareciam intermináveis, pelo regresso dos seus.        A sua esposa, de quem estava separado desde a meia-idade, embora não vivesse com ele, leva-lhe lá comida, e água, com pena dele, e roupa. 
       Quem passeava de noite, ficava a olhar para o senhor muito espantado. Ele dizia:
- Boa noite!
       Quem passava retribuía, e ficava com pena a comentar:
- Coitado…é vádio.
- Deve ter sido expulso de casa…
- Parece é que fugiu do esgoto ou da prisão.
- Deve viver num bairro de lata.
            Ele ignorava os comentários.
- Porque está a olhar para mim assim…? Não sou um pobre coitado, nem um vadio! – Perguntava o senhor
- Precisa de alguma coisa?
- Não obrigado, e você, precisa? Eu não sou louco.
- Está tudo bem, não se preocupe.
            Outros passavam e perguntavam.
- Boa noite, o que está a fazer aí sozinho a esta hora?
- Boa noite. Qualquer hora, é hora…para estar onde queremos.
- Claro, claro…mas está muito frio…
- A luz da esperança aquece-nos e dá-nos força.
- Não tem casa?
- Tenho…estou na minha casa.
- Vive aqui?
- Sim.
- Podia pedir ajuda…
- Não preciso! Estou à espera da minha filha e do meu neto.
  Todos tinham ouvido falar no desaparecimento, e por isso, pensavam que o senhor estava a delirar. Mas ele estava totalmente saudável. Cheio de esperança que a sua filha e o seu neto iam voltar.
            A sua esposa volta a ir ter com ele.
- Precisas de alguma coisa?
- Não, obrigado. A comida estava deliciosa. Aliás, sempre cozinhaste muito bem!
- Ainda bem! (sorri) Fi-la com todo o carinho.
- Porque me tratas tão bem?
- Porque gosto de ti, e porque me preocupo!
- Não devias.
- Porque não?
- Porque eu não fui bom contigo!
- Todos temos momentos na vida, em que somos maus…em que sofremos e magoamos…mas tudo passa…o tempo é o melhor remédio.
- O tempo…? Áhhh…o tempo! Já não sei o que isso significa há muito tempo. Desde aquele maldito dia. Para mim, o tempo não existe! Tu perdoaste-me?
- Perdoei!
- Porquê?
- Porque entendi a tua parte.
- Não devias ter perdoado…o que eu te fiz, não tem perdão.
- Não tem perdão, mas o coração tem capacidade de anestesiar a dor, e fazer-nos seguir em frente. Não foi fácil, mas perdoei-te!
- Porquê?
- Porque és o pai dos meus filhos! E eles são o mais importante para mim. Não têm nada a ver com os nossos assuntos.
- Certo, mas eu nunca me perdoei a mim mesmo. Sinto muita vergonha do que fiz.
- Agora não podes voltar atrás!
- Pois não!
- Mas eu estou a dar-te uma segundo oportunidade…
- Porque queres dar-me uma segunda oportunidade?
- Porque sinto-me muito sozinha, e sei que mudaste.
- Não sei se mudei.
- Sim. Mudaste.
- O meu neto é que me mudou.
- Porque esperas, homem? – Perguntava a mulher
- Pela nossa filha, e pelo nosso neto!
- Ele deve estar a ficar louco… - Murmurava a mulher – Mas porque é que ainda esperas? Vais ficar doente.
- O meu neto e a minha filha vão voltar. Tenho a certeza!
- Porque é que ainda tens esperança?
- Porque é ela que me mantém vivo, e que me dá força, tal como esta luz que me ilumina…eles vão voltar…demore o tempo que demorar…! Eu espero.
- Mas olha para ti…! Pareces um andróide.
- Recuperarei. Eles protegem-me.
- Já vai há tanto tempo que eles desapareceram…infelizmente, acho que não vão voltar.
- É claro que vão. Leva a minha lanterna, para te acender a esperança.
- Não é preciso, obrigada.
- Achas que estou louco, não é?
- Sim, um pouco…mas tu é que sabes! Se queres continuar a alimentar essa falsa esperança, continua…sofres por que queres.
- Eu estou bem! Tu não acreditas que eles vão voltar, pois não?
- Não…
- Que pena.
- Eu é que tenho pena de ti.
- Não sei porquê!
- Por estares assim…a alimentar uma chama que nunca se acenderá.
- Que tristeza.
- É. Anda comigo…para a nossa casa…para aquela que já foi a tua casa…! Nós divorciamo-nos, mas ainda temos amizade, e muita coisa em comum.
- Obrigado pela tua preocupação, mas não vou. Só saio daqui quando a minha filha e o meu neto voltarem.
- Teimoso.
- Sim, sou! E vou vencer…verás!
- Vais ficar doente…
- Não! Em breve estaremos juntos outra vez.
- Bom…não posso levar-te a rastos. Faz como quiseres. Queres que te traga alguma coisa…?
- Não, obrigado. Já trouxeste tudo. Gosto muito de ti…tu sabes!
- Sim, eu também gosto muito de ti, por isso é que queria que viesses comigo. Enquanto esperamos pela nossa filha e pelo nosso neto, podíamos recuperar o tempo perdido.
            O senhor sorri.
- Afinal acreditas que eles vão voltar!
- Bem…acho que é melhor acreditar que sim…pode ser…quem sabe…!
- Dói menos acreditares que eles vão voltar.
- Sim, é verdade.
- Tens saudades do tempo em que éramos um só?
- Sim! Muitas saudades…e tu, não?
- Bom…também!
- Então, anda…e vamos recuperar o tempo perdido.
- Ai…
- O que foi?
- Não sei se posso!
- Porque não?
- Acho que devia ficar aqui até a minha filha aparecer com o meu neto…
- Por favor…
- Não tens saudades da tua filha?
- Tenho, mas o que ela fez não foi correcto.
- Ninguém é perfeito…se me conseguiste perdoar a mim, também deves conseguir perdoar a tua filha…
- São situações diferentes. Vá lá…volta! Já estás aqui há tanto tempo.
- O tempo não importa.
- Deixa o tempo respirar…pode ser que quando menos esperares…eles voltem.
- Achas?
- Tenho a certeza. É o que costuma acontecer!
- Sim, espero que sim…deves ter razão.
- Por favor, volta comigo.
            Suspira.
- Pronto, está bem…já que tanto insistes…! Mas amanhã bem cedo, volto.
- Está bem. Anda, nem que seja só por esta noite.
- Está bem…
   Os dois levantam-se, e vão abraçados para casa. Recuperam o tempo perdido, e matam as saudades, numa noite quente e animada. 
    Entretanto, a filha que o senhor tanto esperava regressa, com um bebé pequenino ao colo, exausta, em lágrimas, com algumas feridas, e suja, com as roupas rotas. Vê o barco:
- Olha, filho…vamos ficar aqui, está bem? Nem que seja só por esta noite…estou muito cansada. Estás seguro.
      A rapariga ajeita o barco, põe roupas umas por cima das outras, deita o bebé e ela deita-se ao seu lado, cobrem-se os dois com bastante roupa, e dormem até de manhã.
       De manhã bem cedo, a rapariga acorda com o sol e com o bebé a chorar. Amamenta-o, e olha em volta, ainda muito cansada.
- Onde estão…? Papá…e mamã…! Este sítio…não me é desconhecido…será que estou perto de casa? Não sei se alguma vez me vão perdoar, mas talvez…!
     Pouco depois, aparece o senhor…o pai da rapariga…ele olha para o barco.
- Ei…está gente ali no meu barco!
        Aproxima-se e vê uma rapariga e um bebé.
- Filha…? É a minha filha…? E o meu neto…?
    Vai depressa, e põe-se de joelhos, com um enorme sorriso.
- Filha…
- Papá! – Diz a rapariga a sorrir com lágrimas nos olhos.
- És tu…?
- Sim, sou eu!
- És mesmo tu, filha…?
- Sim, Papá… sou eu…
- A filha por quem esperei este tempo todo…
- Sim, Papá! Este é o teu neto…
        O senhor, muito emocionado, abraça a filha e beija-a sem parar. Olha para o bebé maravilhado, acaricia-o.
- Que coisa mais maravilhosa! É um presente…! O meu neto…! A minha filha e o meu neto…! Eu sabia que iam voltar…!
- Perdoa-me, Papá! Eu sei que nunca devia ter feito o que fiz, vocês não mereciam…mas na minha inocência…deixei-me levar pela ilusão e pela emoção…e fui atrás de quem me deu um pontapé no rabo! – Diz a rapariga a chorar.
- O quê? – Pergunta o pai
- É. O pai do meu filho…teu neto…não assumiu, não quer saber…nem de mim, nem dele…pôs-nos fora da porta.
- Mas que bandido! – Grita o senhor
- Deixa, Papá…o meu filho não precisa de gente incógnita…precisa é da mãe e de outras pessoas que o amem…! Tudo isto, serviu para eu aprender quem é realmente importante para mim…os meus pais, os meus irmãos…família…e agora…o meu filho! – Diz a filha a chorar
- Esse pseudo-homem vai pagá-las.
- Não te preocupes com ele.
- Deixa-me pegar no meu neto…por favor…para eu ter a certeza que são reais.
- Claro, Papá…somos reais…
      A filha põe o bebé no colo do Pai, e este chora emocionado e sorri, pegando com todo o carinho no neto. A filha acaricia o pai, e beija-o.
- A mamã…?
- Está em casa…! Eu e a tua mãe voltamos a juntar-nos!
- A sério? (surpresa e feliz) Que maravilha! Como é que isso aconteceu?
- Vamos para casa que eu conto-te pelo caminho!
- Está bem! A mamã não vai gostar…
- Claro que vai…quando vir esta maravilha…
       A rapariga levanta-se, o senhor leva o bebé e ela leva as roupas. Voltam para casa.
- Foi naquele barco que esperei por ti e pelo meu neto…dias…noites…horas…mas eu sabia que iam voltar!
     Chegam a casa. A mãe está louca à procura do marido. Quando vai a sair a porta, para o procurar na praia, dá de caras com ele. 
Olha para a filha, e para o bebé no colo.
- Olá mamã…!
      A mãe desata a chorar, mãe e filha abraçam-se, o marido e a filha choram também de alegria.
- Filha…
- Este é o nosso neto! – Diz o senhor
- Que coisa mais linda… - Diz a senhora
- Pega nele! – Diz o senhor
     A senhora pega no bebé ao colo, emocionada, e sorridente.
- Perdoa-me, mamã…! – Diz a rapariga a chorar
- Entra… (Os três entram) Com certeza queres tomar um banho, e o bebé também tem de tomar.
- Sim!
- Vai à vontade, filha…queres ajuda?
- Sim, se faz favor.
- Está bem.
- Queres a minha ajuda?
- Não, papá, obrigada.
- Nós já voltamos! – Diz a mãe.
    As duas sobem, com o bebé ao colo, e enquanto a rapariga toma banho, e a mãe dá banho ao bebé, têm uma longa conversa. A filha explica porque fugiu, e pede desculpa. Vestem-se, a rapariga e o bebé.
- Perdoa-me mamã…vocês não mereciam isto que vos fiz…! Estou muito arrependida.
- Esquece, filha…o importante é que tu voltaste, e trouxeste um rebento…um ser vivo…mais que lindo! O meu neto…que coisa maravilhosa. O importante é daqui para a frente, e sabes que terás sempre o nosso apoio para qualquer coisa.
- Eu sei, mamã…tudo isto, serviu para eu aprender quem é realmente importante para mim…são vocês, os manos, e agora o meu filho.
- Estou mesmo feliz por teres voltado, e pelo meu neto. Precisais de médico.
- Sim.
- Eu trato disso!
- Obrigada, mamã.
     As duas vão para o quarto da rapariga. Deitam o bebé.
- Ele já comeu? – Pergunta a mãe
- Já.
- E tu?
- Não…
- Vou preparar-te o pequeno-almoço.
- Está bem. Queres ajuda?
- Não. Deixa-te estar.
    A mãe prepara o pequeno-almoço, e a rapariga fica com o bebé no seu quarto, feliz.
- Eu não te disse que a nossa filha e o nosso neto iam voltar? – Pergunta o senhor à esposa
- Sim, tinhas toda a razão…! (sorri) Estou tão feliz…
- Eu também! (sorri) A triplicar!
- A nossa vida nunca mais vai ser a mesma!
- Pois não…será muito melhor, a partir de agora, querida! Obrigado pela noite fantástica que me proporcionaste! – Diz a sorrir
- (ri) Eu também adorei…e esta foi só a primeira de muitas mais que virão…!
- Uuuuu…!
       Os dois abraçam-se a rir, e beijam-se como dois adolescentes apaixonados.
- Acho que estou apaixonado por ti…! – Diz o senhor a rir
- A sério? (ri) Eu também…
- E antes não estavas apaixonado por mim?
- Estava…depois…arrefeceu…e agora voltou a reacender…
- (ri) A minha também, meu amor…!
            Os dois riem.
- Parecemos dois adolescentes! – Diz o senhor a rir
- É mesmo! – Concorda a senhora a rir
- Estamos sempre a tempo de voltar a ser…
- Com certeza. Vou preparar o pequeno-almoço para a nossa filha.
     Os dois riem e trocam carinhos, o senhor ajuda a esposa a preparar o pequeno-almoço para a filha. 
    Desde esse dia, todos voltaram a ser uma família feliz, unida, pais e filhos, e netos…e os pais voltaram a apaixonar-se e a ser novamente adolescentes.
     A esperança e às vezes a espera valem a pena! Dão-nos força e surpresas agradáveis.
                                                                       

                                                         FIM
                                                 Lara Rocha 
                                                                                                                                             (1/Fevereiro/ 2014) 

domingo, 12 de abril de 2015

A lenda do jardim adormecido

                                    
Foto tirada por Lara Rocha 

      Era uma vez um jardim cheio de flores, animais e árvores, onde não havia barulho nem movimentos, nem sons, nem cores. Só havia silêncio, um silêncio que arrepiava e dava medo. Até o vento quando passava por lá, muito raramente, corria o mais depressa que podia para sair rápido, pois aquele sítio não era saúde para ninguém. Até ele que às vezes é frio, sentia frio nesse jardim.
Além disto, era um jardim muito escuro, parecia ser sempre noite, aquelas noites sem estrelas, nem lua. O sol já não entrava lá há muitos anos, por isso, em muitos sítios até havia nevoeiro, humidade e vapores mal cheirosos.
Muito pouco gente sabia da existência do jardim, só os habitantes mais velhos dessa pequenina vila que só tinham ido lá quando eram ainda muito pequenos, depois ficaram com tanto medo que nunca mais voltaram.
Quando as crianças se portavam mal eram ameaçadas que iam para lá. Elas não conheciam o local, só sabiam que era parecido com o quarto escuro que os pais falavam, e por ser tão escuro, tinham medo.
Um dia, esse vale é visitado por uma fada que transportava consigo uma harpa, e ia montada num lindo unicórnio branco, brilhante, de olhos azuis. Era tão branco que iluminava o caminho porque a luz da lua reflectia nele e tornava-se mais forte. Ela gostava muito de passear à noite com o seu amigo, para se inspirar e construir novas músicas, descansar da confusão e da agitação do dia-a-dia.
De repente o unicórnio pára.
- O que foi amigo? Estás cansado?
- Não.
- Então, porque paraste?
- Sinto algum mistério no ar… as vibrações não são boas.
- Estás com medo?
- Não, mas desconfortável.
- Onde será aquele jardim adormecido?
- Pois…não sei.
- Se calhar estamos perto.
- Mas tu queres ir lá?
- Quero.
- Para quê?
- Para conhecer.
- Desculpa, acho que não é boa ideia.
- Porque não?
- Não sei explicar, só sei que não gosto das vibrações.
- Eu já venho.
- Vais entrar ali?
- Vou só ver…fica descansado.
- Se precisares chama-me.
- Está bem.
        O unicórnio fica inquieto, nervoso e preocupado…muito atento a todos os movimentos da fada. Ela voa e de cima vê o jardim.
- Acho que encontrei! – Grita ela para o unicórnio
        O unicórnio encontra uma entrada, muito escura, e entra. Ilumina o caminho.
- Isto parece um jardim. – Comenta a fada
- É… Mas eu não gosto deste jardim. Já percebi, as vibrações vinham daqui. - Diz o unicórnio
- Eu quero conhecer.
- Mas como vais conhecer? Não tem nada…só se vê escuro.
- De certeza que tem alguma coisa.
- Não me parece.
- A lenda diz que era um jardim, e ficou adormecido com o feitiço daquela duende muito ciumenta e solitária, que foi abandonada pelo seu elfo que se apaixonou por outra duende.
- Óh, mas que injustiça.
- Acontece!
- Eu acho que ela não devia ter ficado assim tão triste…haveriam muitos mais elfos disponíveis para ela.
- Ela devia amá-lo mesmo.
- Óh, não gosto dessa lenda. É triste.
- Tem o seu lado bonito…
- A lenda devia ter terminado com eles a voltarem um para o outro, porque era sinal que o amor era mais forte…
        A fada ri-se.
- És mesmo romântico.
- Sim, sou. Eu não abandonava a minha apaixonada.
- Isso eras tu, mas a ti também pode acontecer…podes apaixonar-te por outra unicórnia ou ela por outro.
- Óh, não…não quero isso.
- Às vezes não depende da vontade. Acontece.
        De repente ouve-se alguém que manda calar:
- Xiiiiiuuuuuu…
        A fada estremece. O unicórnio encolhe-se e estica-se. Os dois ficam quase estáticos.
- Acho que está aqui mais alguém… - Diz a fada baixinho
        Ela dá um pequenino acorde, suave na harpa. Ouve-se um grito:
- Ááááááhhhh…pouco barulho…vão-se embora.
        A fada baixa mais um pouco, e liga a sua lanterna.
- Quem está aí? – Pergunta a fada
        Ninguém responde. Ela continua a tocar a sua harpa. Todo o jardim fica encantado com o som da harpa, e muito devagar, começa a despertar…as árvores…uma de cada vez, depois as flores, uma por uma, e depois os animais. Estão um pouco assustados e perdidos.
A duende da lenda aparece sentada na berma de uma fonte que também começou a deitar água, e despertou todas as outras. Agora o jardim tem sons e movimentos: sons das árvores e das flores a bocejar, a espreguiçar-se, e a reconhecer o espaço, o som e o movimento dos animais que saem das tocas e dos troncos, chilreiam, guincham, e correm de um lado para o outro, e o leve som da água.
- Como é que entraste aqui? – Pergunta a duende da lenda
- Olá…és a duende da lenda?
- Lenda? Que lenda? Sou só uma duende. Eu quero saber como é que entraste aqui?
- Toda a gente me tinha falado de um jardim adormecido…e ao passear por aqui, percebi que havia alguma coisa de diferente.
- Que interessante…! É sinal que vês bem. E porque é que entraste?
- Porque quis ver como era, de perto.
- E o que é que diziam deste jardim?
- Diziam que este jardim ficou adormecido por causa da tristeza de uma duende que foi abandonada pelo seu elfo que se apaixonou por uma outra duende.
- Sim, foi verdade…não foi lenda. Essa de quem falam era eu.
- Áh! Deve ter sido muito triste…
- Claro! O jardim adormeceu com a minha tristeza…viveu comigo a tristeza, e adormeceu quando eu me cansei de chorar e de ficar triste. Eu também adormeci. Acordei agora com a tua harpa.
- Este jardim é muito escuro…
- Claro. Quando há tristeza, não há luz. A tua harpa despertou todos nós.
- Há quanto tempo estavam a dormir?
- Não faço a mais pequena ideia. Quando vim para aqui, perdi a noção do tempo, e de tudo. Deixei de existir, tal como este jardim.
        A luz da lua entra no jardim, e o unicórnio também, muito preocupado.
- Há quanto tempo não via a luz da lua! Que linda que é! Lembro-me que adorava ver a Lua. Vais ficar aí a pairar? Desce e senta-te aqui…! – Diz a duende
- Obrigada.
        As duas sentam-se, olham-se e sorriem:
- Que linda que és. E adoro esse instrumento que tocas.
- Harpa.
- Sim.
- Obrigada.
- Obrigada eu, por nos despertares.
        A duende conta tudo à fada. A fada e o unicórnio ouvem atentamente, umas vezes ficam tristes como a duende, outras vezes suspiram e sorriem.
- Que linda, mas triste história de amor. – Diz o unicórnio
- Foi feliz e linda enquanto durou, depois acabou. Já não sei há quanto tempo. – Diz a duende
- Dizem que vai mesmo há muito tempo. – Acrescenta a fada
        E de manhã bem cedo, o sol começa a entrar nesse jardim. A duende fecha os olhos.
- É o sol… - Diz ela
- Sim!
- O sol faz-nos muito bem! – Diz o unicórnio
- Estás habituada ao escuro, faz-te impressão. – Diz a fada
- Pois é. Mas passa já.
        Todo o jardim acorda, e transforma-se num lugar cheio de cores, além dos movimentos e sons que já se iam ouvindo.
- Não quero mais ficar triste, nem viver no escuro. Quero rir outra vez, brincar como fazia antes, e começar tudo de novo. – Diz a duende, feliz
        E a fada aplaude. O jardim festeja.
- Posso ir contigo? – Pergunta a fada
- Claro que sim…
        E as duas saem do jardim, montadas no unicórnio. No jardim, todos cantam, dançam, correm, trocam carinhos e elogios, conversam, refrescam-se nas fontes, saltitam, rirem muito. Até as fontes ganham mais força. Há milhares de cores e flores, árvores de todo o tipo, aves enormes, e outros pássaros de espécies raras.
O unicórnio corre com elas livremente, salta, depois vão a pé, exploram todo o jardim, e os campos, rebolam na relva, riem muito, não param um segundo. Os habitantes ainda não sabem o que aconteceu, mas vêem muita luz naquele jardim que avistavam sempre escuro.
- Áh! Olhem…há luz, ali. – Comenta uma senhora
- Ui, no jardim adormecido? – Pergunta outra senhora
- Sim!
- O que terá acontecido?
- Se calhar, o feitiço quebrou-se… - Diz uma menina
- Ou ele voltou para ela. – Diz outra menina
- E agora vão ser muito felizes… - acrescenta outra senhora
- Vamos lá visitar… - sugere um senhor
        E todos saem de casa. Vão visitar esse espaço…que agradável surpresa. Vêem o sol a dar nas flores e na água, parece que até dão luz. Afinal não tinha nada a ver com a lenda que contavam.
Andaram à procura da duende, na esperança que ela ainda estivesse lá, para que confirmasse a lenda, mas não tiveram essa sorte, porque ela andava a divertir-se e a reconhecer o espaço, depois de tanto tempo que dormiu e que viveu no escuro. A duende nunca mais parou…acompanhou a fada nos seus trabalhos, e como estava feliz. Adorava ajudá-la, e às vezes voltava ao jardim onde esteve muito tempo a dormir, só para visitar os amigos que viveram com ela a tristeza, e também dormiram.
Todos no jardim estavam muito felizes por ela. Agora, este jardim, que ficou adormecido, era um lugar muito visitado e apreciado.
        E vocês? O que acham?
Terá sido uma lenda, ou realidade?
Que personagem gostariam de ser? A fada, a duende, ou o unicórnio? O que faziam?  
        Se estivermos muito tempo na tristeza, ficamos adormecidos para tudo o que há de bonito à nossa volta, como a duende no jardim adormecido. A tristeza faz parte de nós, e da vida, mas é melhor não ficarmos muito tempo com ela. Precisamos de sol, e de luz.

                                       FIM
                                       Lálá
                                (12/Abril/2015)