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sábado, 2 de maio de 2020

A prendinha da estrela

          




Era uma vez uma menina, filha de artistas de circo, que andava sempre de um lado para o outro, numa caravana, que tinha o mínimo de condições para viver, e tanto ela como os pais viviam felizes, juntamente com os outros artistas.
         A menina adorava os espetáculos, e todos gostavam muito uns dos outros. Em muitos lugares onde ficavam na noite dos espetáculos, eram descampados, onde se viam muito bem as estrelas. A menina tinha por hábito ouvir e ler histórias.
        Enquanto ouvia as histórias imaginava o que lhe era dito, mas também inventava as suas próprias histórias, a partir do que ouvia, e outras muito diferentes. 
        Ela nem imaginava que havia uma estrela muito lá em cima que se transformava em cigarra e ficava muito perto dela para se deliciar com as histórias, tanto as que lhe contavam como as que ela criava.
        A estrelinha estava entre as cigarras e usava um bloquinho onde escrevia as frases que mais gostava, as palavras mais bonitas, as personagens e nomes que eram bondosas, ações e espaços das histórias que a faziam sonhar.
        Um dia a estrelinha ouviu dizer que a menina estava quase a fazer anos. Decidiu oferecer-lhe uma prendinha para retribuir o que aprendia com as histórias que ouvia. 
        Numa noite em que regressou a casa depois de ouvir mais uma história, e ter anotado umas palavras bonitas, a estrelinha foi ter com a sua mãe e a sua avó, que eram costureiras, e pediu ajuda.
         Explicou às duas que queria oferecer uma prenda especial à menina que contava histórias, e mostrou-lhes o bloco. 
        Perguntou se conseguiam concretizar esse presente. As duas gostaram tanto da ideia, ficaram tão orgulhosas desse gesto da estrelinha, que puseram logo mãos à obra, e a estrelinha ajudou.
       Fizeram uma linda manta, toda feita de fios de lã de lua, muito aconchegante, macia e quente. 
       Pregaram todas as palavras, frases, personagens, nomes, ações, espaços, que tinha gostado mais, e que a estrelinha tinha escrito no caderninho. 
       Enquanto pregavam, a estrelinha recontava a história, falava sobre o circo, os artistas, os espetáculos, e conversavam sobre eles.
      Ainda juntaram cotõezinhos de lãs azuladas, amarelas e salpicos de brilho das próprias estrelas. 
      Num instante, e quase sem dar por isso, a manta estava pronta! Olharam para a manta, aberta, soltaram uma grande exclamação, e abriram um enorme sorriso.
- Áh! Mas que bonita que está. - suspira a mãe orgulhosa
- Está perfeita! - Sorri a Avó
- Uau! Obrigada, Mamã...Obrigada, Avó! Vocês são mesmo fantásticas.
       Trocam abraços e beijos. Chega o dia de aniversário da menina, e houve espetáculo. A estrelinha entra sorrateira na caravana onde vive a menina, e pousa a mantinha em cima da cama dela, com um cartãozinho que dizia: «Obrigada pelo que aprendo com as tuas histórias! Adoro. Muitos parabéns, muita saúde, muitas felicidades, e até já!»
       A estrelinha transforma-se em cigarra, para ver a reação da menina. Quando o espetáculo acaba, estão todos eufóricos, muito felizes com a forma como tinha corrido, e fizeram uma festa surpresa à menina.
      Atuaram só para ela, os palhaços que ela mais gostava, riram muito, aplaudiram, cantaram os parabéns, dançaram, e as surpresas não ficaram por aqui. Quando se preparava para deitar, viu a mantinha em cima da cama, e o cartãozinho.
- Mamã... tenho aqui mais uma prenda... foste tu?
- Prenda...? Não... não sei do que estás a falar.
       A menina mostra a manta à mãe e o cartão.
- Não fui eu, nem nenhum de nós, tenho a certeza! Mas, que linda... está cheia de palavras, frases...Como fizeram isto?
      A menina lê o cartão à mãe. Batem à porta, aparece uma menina, linda, que nunca ninguém a tinha visto.
- Boa noite! Podemos ajudar...? - Pergunta a mãe da menina
- Boa noite. Estou à procura da menina que faz anos hoje.
- Sou eu! Mas, não nos conhecemos... - Diz a menina
         A estrelinha sorri:
- Tu não me conheces, mas eu conheço muito bem as tuas histórias, aprendo muito com elas. Esta manta que acabaste de receber, fui eu que te ofereci, onde estão as palavras, frases, cenários, nomes, pessoas, lugares que mais gostei.
- Está excelente. Mas como é que ouves as minhas histórias, se não nos conhecemos...?
- Não posso dizer.Gostaste da manta, é o mais importante para mim. Muitos parabéns, e continua a ler e a inventar as tuas histórias que adoro ouvir.
        A menina sorri.
- Muito obrigada. Mas como é que te chamas?
- Estrela.
- Áh! Eu sou a Diana. Não queres entrar...? Pode entrar, não pode, mãe?
- Sim, mas vê lá, já é tarde. Onde estão os teus pais, Estrela?
- Lá fora, na minha casa.
- Vê lá, não vão ficar preocupados?
- Não. Eles sabem que eu vim aqui.
- Está bem. Queres um bocadinho de bolo que sobrou?
- Acho que aceito. Obrigada.
       A estrela conversa com a menina, como se fosse tal e qual uma amiga dela, come o bolo.
- Hum, está muito bom, este bolo. Obrigada.
- Obrigada eu. - Diz a mãe
- Bom, vou voltar para a minha casa, e tu, Diana, não tarda muito, também vais dormir, não é?
- É. Por favor, volta mais vezes! - Confirma a Diana
- Claro que sim! - promete a estrela
        Trocam um abraço, e dois beijinhos.
- Obrigada pela prenda, e muito gosto em conhecer-te! - diz Diana
- Boa noite, dorme bem. Até já...Boa noite, pais da Diana! - diz a estrela
- Boa noite! - respondem os pais da Diana
       A estrela dá alguns passos e desaparece. Diana fica pensativa, nunca tinha visto aquela menina em lado nenhum, como é que ela sabia tanta coisa, ouvia as histórias, e ainda por cima deixou-lhe uma prenda tão bonita! 
       Ela e os pais deitam-se, a menina envolve-se na manta, deliciada com a maciez, e os brilhantes.
      Quando ela estava quase a dormir, a estrela volta a aparecer, pousada na sua manta, em forma de estrela iluminada. 
      Pediu à Diana que não gritasse, e que não se assustasse. Contou-lhe como a conhecia, e pediu que não contasse a ninguém, pois tinha medo que não acreditassem nela, ou que achassem ser da sua imaginação.
      Diana não contou nada, e a partir dessa noite, as duas tornaram-se grandes amigas, encontravam-se, a Diana contava e ouvia lindas histórias, conversavam, riam, faziam companhia uma à outra, brincavam, sem fazer barulho. 
      Às vezes escolhiam uma palavra da manta à sorte, ou uma frase, uma personagem, e recontavam ou inventavam essa história.
     De vez em quando, a estrela aparecia em forma de menina, principalmente de dia, quando a Diana brincava mais sozinha, ao ar livre, a ensaiar os números de circo e a ver os outros. Uma linda prenda de aniversário, e uma amizade.

E se vocês recebessem uma manta como a de Diana? Que palavras teria pregadas?

                                                                           FIM
                                                                           Lálá
                                                                      2/Maio/2020



          
            

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

As quatro marionetas

      

 Era uma vez quatro marionetas. Uma feita de chocolate, com os fios de ovos moles, outra feita de feijões, de várias qualidades e por isso, cores. Outra era feita de lã, e a outra de brilhantes.
A marioneta de chocolate com fios de ovos moles, foi oferecida a uma menina que não podia comer doces. Estava muito refeitinha, e sua Sra. Dra, tinha-a proibido de comer chocolate e ovos moles, pelo menos durante algum tempo, até ela baixar o seu peso.
         A menina estava sempre desejosa para lhe dar uma bela trinca, e queria comê-la de uma só vez, sem sobrar um único resto de chocolate e de ovos. Como a menina não podia comê-la, estava bem conservada e inteira, no frigorífico. Sempre que a menina abria o frigorífico olhava para ela e dizia:
- Queria tanto trincar-te...porque é que eu tinha de ser gorda! Que tristeza!
         E voltava a fechar o frigorífico.
         A marioneta que era feita de feijões coloridos, vivia pendurada por fios de cana de pesca, na porta do quarto de um menino a quem tinham oferecido. O menino adorava ouvir o som dos feijões a tocar uns nos outros, e no chão. As cores dos feijões era alegres: brancos, vermelhos claros, vermelhos escuros, pretos, castanhos claros e outros, castanhos escuros. O menino brincava muito com a sua marioneta feita de feijões.
         A marioneta feita de lã, foi oferecida a uma senhora solitária, com muita idade, embora tivesse muitos netos e filhos, mas estavam longe, e ela estava divorciada do marido há muitos anos. A senhora gostou tanto da marioneta que ficou com pena dela, não a queria pendurar e disse:
- Óh, linda marioneta, gosto tanto de ti, tu és tão bonita e tão fofa, tão colorida! Não mereces ficar aí pendurada. Mereces estar à minha beira, ser a minha companheira, e aquecer-me. Vais ser tratada como uma neta, ou uma filha.
         Pegou na tesoura de costura, e cortou os fios da marioneta, carinhosamente, com um grande sorriso. Olhou para ela, abraçou-a, como se a marioneta fosse mesmo uma pessoa. Abriu um grande sorriso e sentou-a à sua beira, no sofá, cobrindo-se a cobrindo a sua nova companhia.
         A marioneta de brilhantes, foi a realização do desejo de uma menina muito rica, demasiado vaidosa, caprichosa e mimada. Ficou eufórica com a beleza de tantos brilhantes, mas tratava-a apenas como uma boneca para enfeitar. Esta marioneta não fez a sua felicidade.
         Cada marioneta cumpriu a sua função, de tornar os seus donos felizes. Mas será que todas conseguiram mesmo...?

                                                              FIM
                                                              Lálá
                                                          20/1/2020  
    

domingo, 9 de agosto de 2015

A Avó Luz e a sua vassoura


Era uma vez uma senhora com alguma idade, mas fisicamente e na maneira de ser no dia-a-dia era muito jovem, activa, cheia de energia, bem-disposta, brincalhona e risonha. Só parava para dormir e não o fazia durante muitas horas.
Durante o dia, a senhora tinha muitas actividades. Logo de manhã, depois de acordar e tomar um bom pequeno-almoço, alimentava a bicharada: cães, gatos, galinhas patos, porcos, vacas, ovelhas, burros, cavalos e alguns pássaros.
Cuidava do jardim, das suas lindas flores e plantações, conversa alegremente com elas, rega-as, arranca ervas daninhas, logo que começavam a aparecer. Depois, pega na vassoura e varre toda a casa. Ela detesta pó, e fica muito irritada quando sente que juntamente com o pó, já de si irritante, vinham energias negativas.
Mas não é só a porta da sua casa que a Senhora varre, e o seu trabalho não é só na sua casa. No fim do almoço, ela vai de porta em porta, corre todas as casas da aldeia, com a inseparávelamiga vassoura, e varre as soleiras das portas, as entradas e algumas divisórias onde ela sentia que havia concentração de muito pó e de muita energia negativa, pesada, o que deixa as pessoas mal-dispostas, tristes, irritadas e doentes. Ela varria tudo o que podia e que achava que precisava.
Tudo o que ela varria fica bem limpo e os habitantes das casas sentiam-se logo muito bem, cheios de alegria, mais saudáveis. A vassoura era mágica! Varria o pó e as energias pesadas, e enchia o espaço de brilho, sol, luz, cheiros a flores frescas, e pós de boa saúde. Transformava as energias carregadas, em energias leves, e todo o ambiente se transformava.
Enquanto ela varre, as duas cantam, assobiam, riem, dançam, e brincam, e a senhora sopra as nuvens de energias pesadas. Esta alegria das duas amigas é contagiante e curativa. Todos seguem o seu exemplo, e dão em troca pagamento em dinheiro e muito carinho. A senhora e a vassoura são quase como deusas na aldeia e muito respeitada! Tratavam-na como uma Avozinha e isso deixa-as muito felizes.

FIM
Lálá

(8/Agosto/2015)