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sábado, 3 de maio de 2025

Rosa Amor

 

foto de Lara Rocha 


    Há uns anos atrás, uma jovem misteriosa, chamada Natureza, ofereceu a um casal, um lindo botão de flor, fechado. 

    Disse para cuidarem dele com amor, regar com carinho, educação, sensibilidade atenção e dedicação, para falar com ele. 

    Acrescentou que desabrocharia passado nove meses, numa linda flor e desapareceu. O casal ficou surpreso e apreensivo, sem perceber o que tinha acabado de acontecer, e o que significaria aquilo.

    Procuraram por ela, mas não a viram em lado nenhum, estava escondida, e a sorrir. 

- Tenho a certeza que estarás muito bem entregue! - murmura a jovem Natureza, ao ver o carinho com que o casal segurou a flor

    Assim aconteceu, o casal cuidou do botão de flor com amor, e estavam ansiosos por saber que flor seria, e porque demoraria tanto tempo. Regaram-na, falavam com ela, o botãozinho ia crescendo, alargando, tentavam imaginar a cor que teria, mas ele não a mostrava. 

    O casal não tinha preferência, pois adoravam todas as flores, em botão, e, ou abertas. Acariciavam o botãozinho, mudavam de terra de vez em quando, punham-no a apanhar sol, e ar, quando estava vento recolhiam-no. 

    O botãozinho ouvia as conversas todas, e sorria fechado nas pétalas, quando o casal lhe tocava. Não viam, mas era um sorriso luminoso, por se sentir acarinhado, acolhido, amado. 

    Passados nove meses, como a Natureza anunciou, o botãozinho de flor, abriu. Era uma linda rosa cor-de-fogo, com amarelo, laranja e vermelho! Uma perfeição, parecia que estava a sorrir, com as pétalas delicadas, o casal não ouvia, mas imaginava, o som do sorriso da rosa, quando lhe tocavam com carinho. 

    Que surpresa tão agradável, o casal não podia estar mais feliz, e continuaram a cuidar dele, com tanto amor e dedicação que cresceu como nunca se tinha visto. 

    Que lindo que era, sempre viçoso e vistoso, brilhante, adorava sol, e ficava ainda mais bonito, continuaram a regá-lo, a alimentá-lo, a conversar com ele. Deram-lhe o nome de Rosa Amor. 

    Um nome que fazia todo o sentido, porque era o símbolo do amor do casal, um pelo outro, dos dois pela Natureza, um prémio por terem cuidado tão bem dele. 

    Era como se fosse um filho, aliás, quando a esposa soube que vinha a caminho, um bebé verdadeiro. Pensaram que a flor iria murchar de tristeza, ou ciúmes, mas não. 

    Porque tinham atenção e amor para os dois; para o bebé, para a flor, a diferença é que este botãozinho que vinha a caminho, era uma pessoa. Um ser vivo, como um botãozinho em flor, que exigia mais amor, mais dedicação, mais regras, mais atenção, carinho. 

    Sem nunca se esquecerem da  Rosa Amor, que mesmo sendo uma flor, estava feliz por ter um irmãozinho em forma de pessoa, nunca se sentiu excluída, nem abandonada. 

     Quando o bebé nasceu, a flor chorou de alegria, surgiram gotas de água nas suas pétalas, e algumas caíram, ao ver aquele ser delicado, frágil e lindo como ela. 

     Rosa Amor, sorria ao ver a ternura dos pais, com aquele bebé, e a gratidão do bebé a olhar para eles, o carinho que ele recebia, e chegava para a flor. Mostraram o bebé à flor, e esta inclinou-se, encostou-se à carinha dele, com as suas pétalas macias, e voltou a chorar de alegria como se estivesse a fazer uma carícia ou a dar um beijinho no seu irmãozinho humano. 

     O bebé e os pais sorriram de alegria, pegaram na mãozinha do bebé, e fizeram uma festinha das pétalas da flor. Ela sorriu e brilhou com tanto amor. Cresceram juntos, nunca faltou carinho, atenção, dedicação, amor, regras, diálogo, aos dois, e formaram uma linda família.  

    Todos os dias agradeciam à Natureza, aquele botãozinho maravilhoso, e o botãozinho verdadeiro, o bebé que também adorava a flor. Ela abanava-se e ele desatava à gargalhada, que fazia o mesmo com os pais. 

    Parecia que os dois comunicavam um com o outro, só entre eles, balbucios e gargalhadas, trocas de mimos, e papagueados que só a flor e o bebé entendiam. 

    O casal agradecia todos os dias, a saúde, e a alegria, o amor que havia naquela casa, com aquela flor. A jovem Natureza apreciava encantada, espreitava e sorria à flor, esta retribuía. 

    Sentia-se orgulhosa, e de vez em quando as duas conversavam sobre a felicidade da flor naquela casa, o bebé, a forma como eram tratados, e outros assuntos. 

    E assim se constroem as amizades, os amores, com dedicação, paciência, carinho, diálogo, respeito, acolhimento, atenção, sem pressa, com delicadeza. Botõezinhos fechados, que se vão abrindo em lindas flores. 

                                            FIM 

                                       Lara Rocha 

                                      2/Maio/2025 

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

A oferta da jardineira

  

fotos de Lara Rocha 

  Era uma vez uma vez um jardim público de uma cidade. Numa tarde, uma senhora que lá ia todos os dias, apreciar cada rosa e cada flor, cada cor, encantada. 

     Observava flor por flor, todos os pormenores, e era como se estivesse a vê-las pela primeira vez, fotografava-as, olhava para elas lentamente, como se estivesse a comê-las e a saboreá-las, com um sorriso. 

      Andava à volta delas, tocava nas pétalas, carinhosamente e às vezes até lhe escapavam algumas lágrimas de felicidade. Por isso, agradecia aos jardineiros e jardineiras que já a conheciam, dando a mão e dois beijinhos, sorridente: 

- Olá! Bom dia! 

- Bom dia! - respondiam todos a sorrir 

- Como está, querida? - pergunta uma jardineira 

- Bem, obrigada, e a minha amiga? 

- Também, obrigada! 

- Como não podemos estar bem, neste jardim tão bonito, tão bem tratado, por vocês? Muito obrigada a cada um e a todos por isto.

- Obrigado! - diziam todos e todas 

- Estão fantásticas estas flores! 

- São cuidadas com amor e carinho! - diz outra jardineira 

- É verdade! É como eu trato as minhas, por isso é que estão tão bonitas. 

- Não tenho dúvidas disso! - diz outra jardineira 

        Uma outra jardineira pega numa semente que ia plantar de uma flor que ela sabia ser especial, para aquela senhora. Oferece-lhe e diz: 

- Obrigada pela sua simpatia e por nos dar valor! Por isso, ofereço-lhe esta semente de flor, para plantar num vaso, e pôr onde quiser na sua casa! 

- Óh! Mas que amor....levo com muito gosto, farei isso! Estou curiosa para saber qual é. 

- Isso, minha amiga, só quando ela despertar...acho que não demorará muito! 

- A seu tempo! Sei que elas precisam de tempo, carinho, dedicação, atenção, alimento, como nós! 

- Isso mesmo! 

- Bem, vou andando! Muito obrigada e até amanhã! - diz a senhora 

- Até amanha! - respondem todos 

        A senhora regressa a casa, planta a semente num vaso, cobre com terra, rega e deixa-a à luz do sol na varanda. 

- Bem vinda à minha casa! Foste-me dada com todo o carinho por uma pessoa boa, que já conheço há muito tempo! Ias nascer num jardim público, mas ela quis que crescesses aqui, comigo! Vou cuidar de ti! Que flor serás tu, sementinha? Cresce ao teu ritmo, não tenhas pressa, eu espero! Vais passar por várias fases, passa por cada uma delas, o tempo que precisares. 

        A senhora vai fazer outras coisas, e a semente ouviu a sua voz. 

- Que voz é esta? É...meiga! Pelo menos acho que gostei do que ela disse! De onde terei vindo? 

       Nesse dia seguinte, tudo na mesma, no dia seguinte também, A Sra. fala com ela todos os dias, rega quando é preciso, põe-na ao sol. 

        A sementinha ouve com atenção e ri-se. Ao fim de algum tempo, começa a aparecer o pezinho verde pequenino, fininho, leve, com umas folhinhas e uma cabecinha...a da flor, que se cansou de estar no escuro, e achou que já podia sair. Mas ainda não se mostra. 

- Áh! Aqui parece bem melhor! - diz a flor 

        As outras flores da varanda olham-na em silêncio, mas já sabem que é nova ali. A senhora fica numa grande alegria quando vê a flor a começar a aparecer. Bate palminhas, sorri-lhe: 

- Olá! Bons olhos te vejam pequenina flor! Já estás cá fora? Hummmm... 

        E conta-lhe como foi o dia. Para as outras não ficarem ciumentas, a senhora também cuida delas. O pezinho vai crescendo e alargando, tal como a cabecinha da flor, agora, em botão. 

- Áh! És uma rosa! - diz a senhora a sorrir - como cresceste! Já estás em botão! Que linda! De que cor serás? Para já não consigo ver! Mas deixa-te estar! Quando estiveres pronta, abre! 

        De tanto falar com ela, e cuidar com carinho, amor, a flor cresce rapidamente, Começa a falar com as outras que lhe dão as boas vindas. 

- Vocês são tão bonitas! E simpáticas. Obrigada por isso!

        As flores riem: 

- Ora essa! Nós é que agradecemos! 

- Tu também és igual a nós… 

- Quer dizer....igual não, tens uma cor diferente, mas és muito simpática e bonita!

- Óhhh…A sério? Obrigada! Já se vê a minha cor? 

- Quase! - dizem todas 

- Vermelha, cor de fogo...talvez! 

- Áh! Que giro! E que claridade é esta? Às vezes é muito escuro e fresco, outras vezes, fica assim uma claridade quente! Sabem dizer-me o que é? 

- É a noite! E o sol, o dia

- Ás vezes de dia não há sol, há nuvens e chuva! Mas há alguma claridade. 

- É. O muito escuro, é a noite! Quando a nossa mãe dorme! 

- Áh! - diz a flor - então agora é dia! 

- Sim! - dizem todas 

- E com sol! - acrescenta outra 

- Que agradável que é! - diz a flor 

- Sim! 

- Vocês gostam de estar aqui? - pergunta a flor 

- Sim! Muito. 

- Somos muito bem tratadas 

- Acredito! A mãe é muito carinhosa. 

- É! - dizem todas 

- A voz dela, e o carinho dela ajudam-nos a crescer, e a ficar mais bonitas, como ela disse! 

- Que giro! E à noite quando está muito escuro, o que fazem? 

- Fechamo-nos em nós mesmas. Cobrimo-nos com as nossas pétalas, quando há sol abrimo-nos para receber a claridade e guardar o calor que nos aquece à noite. 

- Áh! 

        As flores têm longas conversas, e riem. Uns dias depois, a flor cada vez maior, abre-se e mostra a sua cor. A outra flor tinha razão: ela é uma rosa cor de fogo, com rajadas vermelhas, cor de laranja, amarelas e uns toques de rosa. 

        As outras flores ficam maravilhadas com ela. 

- Áh! Ela tinha razão! És mesmo cor de fogo. Que bonita! 

- Vocês conseguem ver as minhas pétalas? 

- Sim! Já estás grande e aberta! 

- As nossas cores são todas diferentes! 

- Pois são! - dizem todas 

- Lindas, lindas! 

- Obrigada. Tu também és! 

        A Sra. chega da rua, e vai ter com as flores. Solta uma grande exclamação de surpresa e encanto: 

- Olá minhas belezas! Já viram a vossa amiga, como também é bonita? Que cores maravilhosas! Estás enorme. 

        A Sra. acaricia as pétalas de cada uma das rosas, sorri como costuma fazer no jardim, onde vai, fotografa e mostra `jardineira que lhe ofereceu a semente. A jardineira e as outras ficam deliciadas com aquela beleza. 

- Como é bonita essa rosa! É como a senhora. Não sabia o que estava na semente, mas é realmente especial. E como está enorme! Falou muito com ela, não? - pergunta a jardineira com um sorriso

- Sim, como falo com todas as outras! Mais uma vez muito obrigada por este presente! 

- De nada! Dei-lhe com todo o gosto, por dar valor ao nosso trabalho! 

- Claro que dou valor ao vosso trabalho! Se não fossem vocês isto não existia nem estaria bonito! 

- Obrigada, obrigado! - dizem em coro, jardineiras e jardineiros 

- Obrigada, nós! E volte sempre. Estamos por aqui. 

- Que bom que estão por aqui! 

        Dão um abraço, sorriem, e as flores tratam muito bem da rosa cor de fogo! São uma verdadeira família de flores. Conversam, riem, apreciam a paisagem de dia, surpreendem-se com as mudanças do tempo.

       Sentem o vento, abraçam-se  e encostam-se mais umas às outras quando está mais frio, veem a chuva, adoram ouvir o seu barulho a cair, e às vezes também apanham com algumas gotas.  

        Sentem o sol, e adoram o seu calor, a claridade, à noite recolhem-se e descansam. A Sra. nunca as abandona. Vai todos os dias falar com elas, quando está a chover tocada à vento, e quando está frio, ela puxa-as para uma zona coberta da varanda, põe um biombo à sua frente para não se molharem, rega-as, acaricia-lhes as pétalas, uma por uma, e elas agradecem com a sua beleza. 

        Já pensaram como os jardineiros dos jardins das cidades são importantes? São eles que tornam esses espaços tão bonitos aos nossos olhos que adoramos fotografar, e apreciar. São os jardineiros e jardineiras que põem as flores na terra e cuidam delas com carinho e amor regam-nas, alimentam-nas, falam com elas e mantêm o espaço à sua volta, limpo. 

        A minha gratidão a todos os jardineiros e jardineiras que fazem tudo para ajudar a natureza a presentear-nos com a sua beleza! E a todas as pessoas que têm flores em casa e cuidam tão bem delas com carinho, dedicação, atenção e amor! 

E vocês tratam bem das flores? Gostam de as ver? Conhecem alguém que trate de flores? Agradeçam-lhes por tratarem tão bem delas. 

                                            FIM 

                                       Lara Rocha 

                                     10/Janeiro/2024 

segunda-feira, 9 de maio de 2022

A borboleta beijoqueira

 
  

  Era uma vez uma criança pequenina que estava num carrinho, num grande campo à sombra, a ver os seus Avós a trabalhar, com quem ficava enquanto os pais iam trabalhar. 
      Os Avós conversavam com ela, enquanto plantavam coisas deliciosas para comer, e ela ria à gargalhada, enchendo os Avós de ternura, e riso. 
      Numa manhã de sol e calor, uma borboleta enorme, tão grande que quase parecia um pássaro, pousou no narizinho da pequena. Era tão grande que lhe tapou a carinha e ainda foi além das suas bochechas. 
      A pequenina arregalou os olhos, ficou a borboleta que lhe deu um beijinho na bochecha, ri à gargalhada, a borboleta ri com ela. Tinha umas cores mais que bonitas, como ninguém tinha visto. 
      Os Avós assustaram-se, porque pensavam que a borboleta era um pássaro, a Avó grita, o Avô encolhe-se: 
- Olha o maldito pássaro, daquele tamanho em cima da menina. - diz a Avó assustada 
- Não o tinha visto! - diz o Avô 
- Nem eu! 
       A avó preparava-se para chutar a borboleta porque pensava mesmo que era um pássaro, mas quando se aproximam da criança, a Avó recua: 
- Ai, afinal não é um pássaro! Que coisa tão grande! O que é isto? De onde é que isto saiu? - diz a Avó assustada 
- Pois não, é uma borboleta inofensiva! Realmente, é enorme. E olha as cores dela, que coisa maravilhosa, parece uma pintura. Como é linda...- diz o Avô 
- Áh! Nunca vi nada assim, parece um pássaro. 
- Pois parece, mas é uma borboleta! Eu queria oferecer-te uma borboleta gigante, quando começamos a namorar. Nunca encontrei nenhuma, só aquela que te desenhei. - lembra o Avô a rir 
- Áh! A sério...? Que querido! Foi o que tu me disseste...se pudesses oferecias-me uma borboleta gigante. - recorda a Avó a sorrir 
       A borboleta ouve, suspira, sorri, pousa no nariz do Avó e dá-lhe um sonoro e repenicado beijo na bochecha, abrindo as suas asas mesmo em frente aos olhos do Avô. A pequenina fica espantada e ri à gargalhada abanando todo o corpo, os Avós riem com ela. O Avô fica muito surpreso, e encantado: 
- Áh! Deu-me um beijo... - dá uma gargalhada
- Isso era o que tu querias! - diz a Avó a rir 
- Deu mesmo! 
- Pois, pois, na tua imaginação. É bom manter esse espírito brincalhão. Eu não sou ciumenta. - ri a Avó 
       Os dois riem, e a borboleta pousa no nariz da Avó, abre as asas gigantes, dá-lhe um sonoro e repenicado beijo na bochecha. 
- Áh! Deu mesmo. A mim também. - diz a Avó a rir 
- Vês? Eu disse. E olha como a nossa neta está feliz! - repara o Avô.
       A borboleta ri, abana as suas asas gigantes e maravilhosas, como se estivesse a dançar. Pousa nos narizes, e nas bochechas, mais beijinhos à Avó, mais beijinhos ao Avô, mais beijinhos à pequenina.         Os três parecem hipnotizados ao ver aquela magia, acompanham todos os movimentos da borboleta, aplaudem, fotografam, levam mais beijinhos, a pequenina também, e riem. 
- Nunca vi uma borboleta assim, tão bonita, tão gigante. - diz a Avó
       Os dois voltam ao trabalho, sempre de olho na bebé e na borboleta, que voa por cima das plantações, das flores, beija cada pétala de flor, beija árvores, beija outra vez os Avós, e a bebé.              Caminha por cima da água de riachos, os Avós deliciam-se com a marca das patinhas tão pequeninas e redondinhas da sua passagem leve, abre as asas, salpica-as, ri,  dá beijinhos aos peixinhos, dá beijinhos às pedras, dá beijinhos às folhas, e deita-se em cima de uma folha que vai na corrente, sem pressa, parecia de veludo. 
        Mais à frente, volta e mais beijinhos aos avós, mais beijinhos à bebé, e quando fica muito calor recolhem para casa. 
       A borboleta instala-se num vaso grande, da varanda, debaixo de uma flor enorme, que ela gostou. A família gostou tanto dos beijinhos que ela dava a tudo e a todos, que disse para ela lá ficar. 
      A borboleta ia para os seus passeios, e voltava sempre para o mesmo sítio, carimbando os avós, a pequenina e os pais da criança com beijinhos e mais beijinhos. 
      O Avô até construiu uma casotinha para a borboleta, na beirada de uma janela, logo que o tempo arrefeceu, bem confortável, bem agradável, onde ficava protegida do frio, do calor, do vento, da chuva.
       A bebé deliciava-se com a borboleta, tal como toda a gente que lá ia, recebendo beijinhos e mais beijinhos da simpática borboleta. Era mais um elemento da família, e deram-lhe o nome de borboleta beijoqueira, com todo o carinho. 

                                             FIM 
                                         Lara Rocha 
                                         9/Maio/2022 

domingo, 12 de setembro de 2021

O saquinho surpresa


     

   Era uma vez um grande campo de cultivo variado, onde sobrevoou um pássaro enorme, de uma espécie rara, e largou um saco grande, no solo, deixou-o aberto e levantou voo. 

    Logo que pousou no chão, saíram do saco doze coelhinhos de várias cores, que correram pelo campo fora entre as plantações.

    Estavam com tanta fome e cheirava-lhes tão bem que comeram algumas cenouras, folhas de nabos, couves, erva, beberam água fresca de uma fonte, e procuraram tocas, que encontraram rapidamente em casotas feitas de palha.  

   Dormiram até ao dia seguinte. e quando os agricultores chegaram nem queriam acreditar no que estavam a ver. 

     Parecia que o campo tinha sido invadido por centenas de toupeiras esfomeadas. De repente veem na terra seca e húmida, marcas de patas de coelho, por todo o lado, e o saco enorme. 

      Como é que aquele saco foi lá parar? E onde estava, os coelhos? Correram todo o campo, e encontraram os coelhinhos nas tocas. 

      Apesar de estarem muito zangados com a destruição que os coelhos provocaram, ficaram enternecidos com eles, e sentiram pena deles.         Quando os coelhos os viram ficaram assustados e tremiam de medo, mas os humanos foram muito queridos com os animais. Acariciaram-nos e levaram-nos ao colo para sua casa. 

    Deixaram-nos ao ar livre e à noite recolheram-nos para os proteger do frio, dos animais selvagens onde já estavam outros coelhos e com quem construíram uma grande família.  

        Livraram-se de ser vendidos ou cozinhados, e viveram num lugar seguro, onde eram alimentados e acarinhados. 

        Afinal o saco perdeu o mistério...era um saco surpresa com coelhinhos, largados por uma ave para os proteger. 

     E vocês? Se encontrassem um saco misterioso, o que teria? Podem deixar as respostas nos comentários.  

                                                                                       FIM 

                                                                                           Lara Rocha 

                                                                                    11/Setembro/2021 

terça-feira, 12 de maio de 2020

Monólogo romântico para adolescentes e adultos



         Desenhado por Lara Rocha 

  




























   Quando os nossos olhos se tocavam, e as palavras se calavam, apenas os olhos falavam entre si. Não conseguíamos ouvi-los, mas mesmo assim era tão bom...Tão leve...Momentos silenciosos, de paz, que repetimos muitas vezes...
 Momentos em que só os nossos olhos conversavam entre si e beijavam, e os nossos corpos, parados, rendidos, entregues à magia daquele silêncio. 
  Diálogos secretos entre os meus e os teus olhos. Olhos que se juntavam e se tornavam num só olhar envolvidos no amor. O que conversavam? O que confessavam? O que procuravam? O que encontravam
os nossos olhos quando se tocavam? 
 Quando os nossos olhos falavam, nós ficávamos calados. Só o silêncio reinava, só a paz, só o brilho das estrelas, e nós...Eu e tu...
 O nosso corpo descansava lado a lado, enquanto os nossos olhos conversavam! Que momentos tão bons...Que momentos tão mágicos...Foram aqueles em que os nossos olhos conversavam e os nossos corpos se calavam.
  Que momentos tão serenos e tão silenciosos para nós...Mas de grande magia e com certeza grandes conversas entre os meus e os teus olhos.
  Quem me dera voltar a viver esses momentos, esses, em que os nossos olhos conversavam e os nossos corpos se calavam. 
  Quem me dera voltar a viver esses momentos, só para ouvir o que os nossos olhos conversavam, enquanto os nossos corpos se calavam.
  Será que conseguiria ouvir o que os nossos olhos diziam? Talvez o coração saiba o que os nossos olhos conversaram, mas por causa da dor, não queira lembrar, ou confessar...
  Saudades desses momentos em que os nossos olhos eram apenas um! Gostava de poder mergulhar um dia...Só por uns momentos, nessas memórias. Para sentir paz...e sorrir ao recordar...Aqueles momentos tão, e só, nossos! Em que nos calávamos, e os nossos olhos conversavam...Brilhavam.  
  Quando folheio o livro das recordações ainda recordo esses momentos tão deliciosos, e mágicos, entre os nossos olhos. Momentos em que o Universo todo se refletia nos nossos olhos, e no nosso sorriso. 
  Enquanto os nossos olhos conversavam...esses momentos entre os nossos olhos, tão deles, tão nosso...Ainda cintilam na minha memória dos momentos de Felicidade!
  Agora que os teus olhos se cruzam com outros olhos...Será que eles também conversam com esses outros olhos? Será que nos teus olhos ainda vês o reflexo dos meus olhos, quando os teus olhos conversam com outros olhos, que não os meus? 
 Será que o Universo ainda brilha nos teus olhos, agora que te encontras com outros olhos que não os meus, como brilhava nos nossos olhos, quando conversavam?
 Era mágica aquela fusão de olhares...tão doce, tão especial. Tenho saudades! Sim. Saudades dessas conversas entre os nossos olhos.
  Queria poder voltar atrás no tempo, e trazer para o hoje, apenas esses momentos, em que só os nossos olhos falavam e os nossos corpos paravam!
 Entregues à Luz que iluminava os nossos olhos. Não sei bem como se chamava essa LUZ. Chamavas-lhe AMOR, mas se fosse AMOR, essa LUZ não teria fundido, teria continuado a brilhar só para os nossos olhos!
  Tenho saudades! Sim! Dessa conversa entre os nossos olhos! Que lindo momento...tudo deixava de existir. 

                          Lara Rocha 

sábado, 2 de maio de 2020

A prendinha da estrela

          




Era uma vez uma menina, filha de artistas de circo, que andava sempre de um lado para o outro, numa caravana, que tinha o mínimo de condições para viver, e tanto ela como os pais viviam felizes, juntamente com os outros artistas.
         A menina adorava os espetáculos, e todos gostavam muito uns dos outros. Em muitos lugares onde ficavam na noite dos espetáculos, eram descampados, onde se viam muito bem as estrelas. A menina tinha por hábito ouvir e ler histórias.
        Enquanto ouvia as histórias imaginava o que lhe era dito, mas também inventava as suas próprias histórias, a partir do que ouvia, e outras muito diferentes. 
        Ela nem imaginava que havia uma estrela muito lá em cima que se transformava em cigarra e ficava muito perto dela para se deliciar com as histórias, tanto as que lhe contavam como as que ela criava.
        A estrelinha estava entre as cigarras e usava um bloquinho onde escrevia as frases que mais gostava, as palavras mais bonitas, as personagens e nomes que eram bondosas, ações e espaços das histórias que a faziam sonhar.
        Um dia a estrelinha ouviu dizer que a menina estava quase a fazer anos. Decidiu oferecer-lhe uma prendinha para retribuir o que aprendia com as histórias que ouvia. 
        Numa noite em que regressou a casa depois de ouvir mais uma história, e ter anotado umas palavras bonitas, a estrelinha foi ter com a sua mãe e a sua avó, que eram costureiras, e pediu ajuda.
         Explicou às duas que queria oferecer uma prenda especial à menina que contava histórias, e mostrou-lhes o bloco. 
        Perguntou se conseguiam concretizar esse presente. As duas gostaram tanto da ideia, ficaram tão orgulhosas desse gesto da estrelinha, que puseram logo mãos à obra, e a estrelinha ajudou.
       Fizeram uma linda manta, toda feita de fios de lã de lua, muito aconchegante, macia e quente. 
       Pregaram todas as palavras, frases, personagens, nomes, ações, espaços, que tinha gostado mais, e que a estrelinha tinha escrito no caderninho. 
       Enquanto pregavam, a estrelinha recontava a história, falava sobre o circo, os artistas, os espetáculos, e conversavam sobre eles.
      Ainda juntaram cotõezinhos de lãs azuladas, amarelas e salpicos de brilho das próprias estrelas. 
      Num instante, e quase sem dar por isso, a manta estava pronta! Olharam para a manta, aberta, soltaram uma grande exclamação, e abriram um enorme sorriso.
- Áh! Mas que bonita que está. - suspira a mãe orgulhosa
- Está perfeita! - Sorri a Avó
- Uau! Obrigada, Mamã...Obrigada, Avó! Vocês são mesmo fantásticas.
       Trocam abraços e beijos. Chega o dia de aniversário da menina, e houve espetáculo. A estrelinha entra sorrateira na caravana onde vive a menina, e pousa a mantinha em cima da cama dela, com um cartãozinho que dizia: «Obrigada pelo que aprendo com as tuas histórias! Adoro. Muitos parabéns, muita saúde, muitas felicidades, e até já!»
       A estrelinha transforma-se em cigarra, para ver a reação da menina. Quando o espetáculo acaba, estão todos eufóricos, muito felizes com a forma como tinha corrido, e fizeram uma festa surpresa à menina.
      Atuaram só para ela, os palhaços que ela mais gostava, riram muito, aplaudiram, cantaram os parabéns, dançaram, e as surpresas não ficaram por aqui. Quando se preparava para deitar, viu a mantinha em cima da cama, e o cartãozinho.
- Mamã... tenho aqui mais uma prenda... foste tu?
- Prenda...? Não... não sei do que estás a falar.
       A menina mostra a manta à mãe e o cartão.
- Não fui eu, nem nenhum de nós, tenho a certeza! Mas, que linda... está cheia de palavras, frases...Como fizeram isto?
      A menina lê o cartão à mãe. Batem à porta, aparece uma menina, linda, que nunca ninguém a tinha visto.
- Boa noite! Podemos ajudar...? - Pergunta a mãe da menina
- Boa noite. Estou à procura da menina que faz anos hoje.
- Sou eu! Mas, não nos conhecemos... - Diz a menina
         A estrelinha sorri:
- Tu não me conheces, mas eu conheço muito bem as tuas histórias, aprendo muito com elas. Esta manta que acabaste de receber, fui eu que te ofereci, onde estão as palavras, frases, cenários, nomes, pessoas, lugares que mais gostei.
- Está excelente. Mas como é que ouves as minhas histórias, se não nos conhecemos...?
- Não posso dizer.Gostaste da manta, é o mais importante para mim. Muitos parabéns, e continua a ler e a inventar as tuas histórias que adoro ouvir.
        A menina sorri.
- Muito obrigada. Mas como é que te chamas?
- Estrela.
- Áh! Eu sou a Diana. Não queres entrar...? Pode entrar, não pode, mãe?
- Sim, mas vê lá, já é tarde. Onde estão os teus pais, Estrela?
- Lá fora, na minha casa.
- Vê lá, não vão ficar preocupados?
- Não. Eles sabem que eu vim aqui.
- Está bem. Queres um bocadinho de bolo que sobrou?
- Acho que aceito. Obrigada.
       A estrela conversa com a menina, como se fosse tal e qual uma amiga dela, come o bolo.
- Hum, está muito bom, este bolo. Obrigada.
- Obrigada eu. - Diz a mãe
- Bom, vou voltar para a minha casa, e tu, Diana, não tarda muito, também vais dormir, não é?
- É. Por favor, volta mais vezes! - Confirma a Diana
- Claro que sim! - promete a estrela
        Trocam um abraço, e dois beijinhos.
- Obrigada pela prenda, e muito gosto em conhecer-te! - diz Diana
- Boa noite, dorme bem. Até já...Boa noite, pais da Diana! - diz a estrela
- Boa noite! - respondem os pais da Diana
       A estrela dá alguns passos e desaparece. Diana fica pensativa, nunca tinha visto aquela menina em lado nenhum, como é que ela sabia tanta coisa, ouvia as histórias, e ainda por cima deixou-lhe uma prenda tão bonita! 
       Ela e os pais deitam-se, a menina envolve-se na manta, deliciada com a maciez, e os brilhantes.
      Quando ela estava quase a dormir, a estrela volta a aparecer, pousada na sua manta, em forma de estrela iluminada. 
      Pediu à Diana que não gritasse, e que não se assustasse. Contou-lhe como a conhecia, e pediu que não contasse a ninguém, pois tinha medo que não acreditassem nela, ou que achassem ser da sua imaginação.
      Diana não contou nada, e a partir dessa noite, as duas tornaram-se grandes amigas, encontravam-se, a Diana contava e ouvia lindas histórias, conversavam, riam, faziam companhia uma à outra, brincavam, sem fazer barulho. 
      Às vezes escolhiam uma palavra da manta à sorte, ou uma frase, uma personagem, e recontavam ou inventavam essa história.
     De vez em quando, a estrela aparecia em forma de menina, principalmente de dia, quando a Diana brincava mais sozinha, ao ar livre, a ensaiar os números de circo e a ver os outros. Uma linda prenda de aniversário, e uma amizade.

E se vocês recebessem uma manta como a de Diana? Que palavras teria pregadas?

                                                                           FIM
                                                                           Lálá
                                                                      2/Maio/2020



          
            

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

O sonho mágico do rapaz mágico

           Era uma vez um jovem rapaz, bonito, elegante, que tinha nascido com um dom de fazer magia. Simpático, brincalhão, não falava por palavras mas tinha um coração bom e era tão expressivo, que através da mímica e do olhar, transmitia luz a quem o via. Às vezes aparecia com a cara pintada, outras vezes, não.  Queria distribuir alegria por todo o lado e o que gostava mais era de ver a expressão de surpresa e sorrisos de quem o via. Para isso, oferecia pequenas lembranças e conseguia que sorrissem.
           Passou por uma menina que ficou a olhar para ele, muito séria. Ele olhou para ela, sorriu, tirou o chapéu, ajoelhou-se e ofereceu uma flor maravilhosa, com pétalas brilhantes. Ele beijou delicadamente a flor, estendeu a mão para a menina, ofereceu-lhe a flor. A menina encantou-se com ele, abriu um lindo e aberto sorriso, agradeceu, e o rapaz levantou-se, feliz, com um sorriso de orelha a orelha, saltitou e soprou pequenas luzinhas em forma de pó. 
            Mais à frente, viu uma criança a chorar. Quando a criança o viu parou de chorar, olhou-o, o mágico sacudiu o chapéu e de lá saltou um balão em forma de lua cheia. O menino riu, e o rapaz sorriu. A mãe do bebé quase resmungou, mas quando viu o rapaz, ficou calada. O rapaz roda o chapéu no ar, e tira uma estrela que dava gargalhadas, tão engraçadas que a mãe do pequeno riu como já não acontecia há muito tempo. O seu filho até ficou surpreso e riu também. 
             Depois, passou por um homem que dormia debaixo de um banco de jardim, aquecido pelo candeeiro. O rapaz sentiu pena dele, e enquanto dormia, num toque mágico construiu-lhe uma casa pequena, mas toda mobilada, com alimentos, água e roupas. O homem acordou assustado, quase o agredia, mas o mágico indicou-lhe a casa. O senhor ficou tão emocionado que lhe pediu desculpa e entrou na sua nova casa. Nem queria acreditar no que estava a ver. O senhor nunca mais dormiu na rua. 
             Num hospital, o rapaz mesmo com muita vontade de chorar, sorria para todos, e oferecia do seu chapéu: bonecos, flores, brinquedos com música, luzinhas, borboletas que davam beijinhos, e com isso, conseguiu curar muitos doentes.
             A sua mãe vai ao quarto, e acorda-o: 
- Filho...está na hora de ires para a escola. 
- Mãe… eu quero ser mágico. 
- Sim, sim. A tua magia agora é estudares. 
- Mas, mãe…é a minha missão. Eu sonhei com isso! 
- A tua missão é estudares, para seres alguém. 
- Mas eu quero ser alguém...quero ser mágico. 
- Cala-te! Eu dou-te a magia. Magia é alguma profissão? Magia dá valor a alguém? Francamente. Não me voltes a falar nisso. 
- Claro que é uma profissão. Claro que faz de mim alguém...posso fazer bem a muita gente. 
- Esquece lá a magia e despacha-te! E ai de ti, que os professores digam que estás distraído. 
             O rapaz levanta-se, zangado. Arranja-se para ir para a escola, toma o pequeno almoço, sopra a mão e deixa uma flor para a mãe em cima da mesa. A mãe fica surpresa.
- Até logo, mamã. Amo-te. Ainda vais ter orgulho no teu filho. E na magia! 
             A mãe quase ralha com ele, porque não gosta que ele seja mágico, não quer reconhecer que o filho tem esse dom, e acha que é tudo um disparate da cabeça dele. Ele podia não ter o chapéu de mágico, e claro, todas as magias que ele sonhou, não se realizaram, mas...fazia magia de outra maneira! Com a sua simpatia, delicadeza, educação, sensibilidade, meiguice e amizade. A verdadeira magia deste rapaz estava na sua bondade. No que ele fazia despertar nos outros. Todos gostavam dele. Uns anos mais tarde, tirou um curso de magia, e outro curso para trabalhar como enfermeiro. Era feliz, e continuou a fazer grandes magias por ser como era. 

                                                                                     FIM 
                                                                                     Lálá 
                                                                              16/Janeiro/2019 
              

sexta-feira, 25 de março de 2016

Amo-te mesmo com rugas (Adultos)





NARRADORA – Era uma vez um casal especial e diferente: ela uma bruxa, e ele um feiticeiro. Viviam numa casa isolada da floresta, e eram felizes à maneira deles…embora sempre a discutir e a resmungar um com o outro, amavam-se e adoravam estar juntos. Certo dia…numa manhã, a bruxa olha para o espelho e assusta-se com a sua própria imagem, pois esta reflectida no espelho dá uma valente e sonora gargalhada…estridente…na cara da bruxa. A bruxa não sabe quem é…nem que a imagem que ela vê no espelho, é ela mesma, por isso dá um grito que abana a casa toda. Os gatos fogem. O feiticeiro que estava descansado na sala a ler, assusta-se e murmura:
FEITICEIRO – Que grito foi este…? (p.c) Pois…já foi aquela bruxa com quem casei…fez alguma…! (p.c) É melhor ir ver…ou…não…não vou nada ver! (p.c) Ela já costuma ter estes ataques de loucura…e aqueles guinchos… (p.c) É…. Bruxa louca… fica para lá com a tua loucura… antes que me transformes numa coisa horrenda…! (p.c) Daqui a pouco vem aqui reclamar que não fui lá vê-la… mas… não me interessa. Já estou habituado! (p.c) Deve ser da idade… está cada vez mais histérica… coitada! (p.c) Tenho que lhe dar um desconto. (p.c levanta-se e vai à porta do quarto, põe-se à escuta) Está tudo bem contigo, bruxinha linda…?
BRUXA (disfarça) – Sim. Está tudo bem… queres entrar…?
FEITICEIRO – Não…! Qualquer coisa, estou na sala.
BRUXA – Está bem. Eu estou aqui…!
FEITICEIRO (murmura e encolhe os ombros)  Eu vi logo… Já lhe passou. Mas pelo sim, pelo não… perguntei… às vezes podia estar com algum problema… sim… porque podia acontecer… pelo grito que ela mandou… até os gatos fugiram. (p.c para o público em tom de confissão, e com alguma pena) Estas mulheres… são muito estranhas… mas… nós não vivemos sem elas, não é? Reclamamos delas... e elas de nós… mas no fundo… queremo-las! (p.c) Além disso, foi a mulher que escolhi… e gostei dela… mas às vezes… põe-me o sal na moleira…! (p.c) O que vale é que a chama do amor… ainda continua viva… Ela não sabe… porque eu ainda não lhe disse… mas… acho que tem ganho mais rugas ultimamente! (p.c) Só que… mesmo assim… eu continuo a achá-la… linda…! Porque afinal de contas… se casei com ela… é porque gostei dela! (p.c) E gostei… (sorri) Apaixonei-me ao primeiro olhar… (p.c) Ela era tão bonita… (p.c) Sabem, homens…? Era daquelas mulheres… boas… jeitosas… sexys… com que qualquer homem sonha… nem que seja só para se sentir poderoso… e dar umas curvas com elas… para desfilar…! (p.c) Na verdade… depois quando mergulhamos nelas… vemos que é só pacote por fora, porque por dentro… não têm nada para nos oferecer… só para nos chupar a carteira…! (p.c) Pelo menos consolam os olhos… (p.c) Mas sejamos sinceros… não é uma gaja dessas que nós queremos mesmo pois não…? (p.c) Apesar de bonitas… e boas… mas elas na verdade não cuidam de nós… não fazem nada nas casas… e… bem… não servem! (p.c) Com a minha mulher foi diferente… como eu ia a dizer… ela era novinha… jeitosa… bonitona… atraente… e… claro… apaixonei-me pela beleza dela… depois… conheci-a a fundo… como pessoa… e olhem… estou com ela até hoje… desde há muitos, muitos anos! (p.c) Eu sabia que ela não ia ter sempre aquele ar… mas… a sua beleza interior é tão grande, que a torna mais bonita por fora. (p.c) E mesmo com rugas… ela continua linda! E como sempre a amei, e amo… respeito-a e valoriza-a… porque ela faz tudo por mim… mesmo quando não sou assim lá muito bom! (p.c) Se ela der mais um grito, vou lá ver…
NARRADORA – O feiticeiro volta a sentar-se e continua a ler e a bruxa está a olhar o espelho intrigada, e pergunta.
BRUXA – Quem és tu?
BRUXA DO ESPELHO – Sou tu!
BRUXA – O quê?
BRUXA DO ESPELHO – A imagem que tu estás a ver… esta que está a falar contigo… és tu!
BRUXA – Mas…eu dupliquei – me foi?
BRUXA DO ESPELHO – Não! Tu é que te estás a ver ao espelho, como fazes todos os dias!
BRUXA – Sim, eu vejo-me todos os dias ao espelho…mas nunca vi.
BRUXA DO ESPELHO – Como nunca me viste? Ao veres-te ao espelho todos os dias, vês-me…vês a tua imagem… e essa imagem… sou eu! Que és tu!
BRUXA – Mas que raio de língua é que tu falas, mulher?
BRUXA DO ESPELHO – A mesma que tu… Português…!
BRUXA – Não deve ser a mesma que eu… porque não estou a perceber nada do que estás a dizer! (p.c) Quando me vejo ao espelho… vejo a minha imagem… linda…de deusa… princesa… elegante… atraente… sexy…como sempre fui… e não…esta coisa feia que estou a ver! (p.c) Tu és horrível…! És casada?
BRUXA DO ESPELHO (ri) – Obrigada pelos elogios. Sim, sou casada…tu és…eu também sou.
BRUXA – Ai, coitado do teu marido…deve ver muito mal!
BRUXA DO ESPELHO (ri) – Usa óculos…só para ler… sabes que com a idade…!
BRUXA – Não tem nada a ver com o meu maridão…ele sempre viu muito bem, e continua a ver…!
BRUXA DO ESPELHO (ri) – Devias levá-lo ao oftalmologista…e tu também devias ir…porque não estás a ver bem.
BRUXA – Não estou a ver bem? Claro que estou a ver bem! Não uso óculos…
BRUXA DO ESPELHO (sorri) – Por estares sem óculos é que não vês, como és feia…!
BRUXA (zangada) – O quê? (p.c) Que palavra odiosa… passo já pimenta com cebola na tua língua…sua porca…imunda…!
BRUXA DO ESPELHO (ri) – Tu é que a vais engolir…!
BRUXA (zangada) – Vamos ver quem é que vai engolir o quê…! (p.c) Mas quem és tu…óh grande ordinária…, feiosa… cheia de coisas…vincas na fronha…
BRUXA DO ESPELHO (ri) – Obrigada…és mesmo adorável…só não te dou um beijo porque estou no espelho…! (p.c) Eu sou uma bruxa…
BRUXA (zangada) – Eu também sou uma bruxa…!
BRUXA DO ESPELHO (ri) – Somos uma bruxa…! (p.c) Não te esqueças que eu sou tu…e tu…és eu.
BRUXA (resmunga ofendida) – Tu bem querias ser igual a mim, porque eu sou muito mais bonita que tu… (p.c) Felizmente… graças a todos os bruxos e bruxas…não temos nada a ver uma com a outra.
BRUXA DO ESPELHO (suspira) – Ai, ai, não me estou a fazer entender…!
BRUXA – De onde vens, óh criatura tenebrosa…?
BRUXA DO ESPELHO (irónica) – Ai, assim até me deixas sem jeito…fico vaidosa! (p.c) Venho daqui…do mesmo sítio que tu!
BRUXA – Tu moras aqui?
BRUXA DO ESPELHO – Claro…!
BRUXA – Onde?
BRUXA DO ESPELHO – Aqui…neste quarto, neste espelho, e nesta casa.
BRUXA (zangada) – Isso querias tu, grande usurpadora…! Maria nabiça que tudo cobiça. (p.c) Porque é que não vais para outro sítio…?
BRUXA DO ESPELHO – Tu é que sabes…! Se tu fores…para outro sítio, eu também vou.
BRUXA (zangada) – Quem é que te deu autorização para estares aqui…? (p.c) Nunca te vi antes, nem te convidei!
BRUXA DO ESPELHO (ri) – Nem tinhas nada que convidar…! As pessoas não se convidam a si mesmas…!
BRUXA (grita, zangada) – Vai-te embora…feiosa…intrometida…! (p.c) Tu queres é ficar com o meu marido…e estás a ver se me confundes a cabeça, para ele achar que estou louca, livrar-se de mim, e ficar contigo, não é…? Confessa…! ~
BRUXA DO ESPELHO (ri) – Eu…? Ficar com o teu marido…? (p.c) Ainda se ele fosse um pedaço de mau caminho, ou um gato…agora…aquele troglodita…? Sinceramente…!
BRUXA (grita) – Vê lá como falas do meu marido! (p.c) Eu bato-te.
NARRADORA – A bruxa tenta fazer uma maldade mas não consegue. A do espelho ri-se. A bruxa fica nervosa e guincha, salta, bate com as mãos no espelho, abana-o, dá pontapés…e a imagem do espelho ri-se às gargalhadas.
BRUXA (grita) – Vai-te embora sua ordinária. Deixa-me em paz! (p.c) És horrível, feia, parvalhona, ainda por cima estás a rir-te da minha cara! (p.c) És tu que me estás a tirar os poderes, não és, sua bruxa maldita? (p.c) Invejosa…Malvada!
BRUXA DO ESPELHO (às gargalhadas) – É! Estás mesmo a ficar velha! (p.c) Olha para essa fronha…cheia de rugas…! (p.c) Sim…! Já foste isso tudo…maldita…invejosa…malvada…horrível…feia! (p.c) Estás a perder os poderes…é normal…estás velha…já não precisas de poderes! (p.c) Mais te vale aceitares isso, e viveres feliz com o teu marido.
BRUXA – Mas que atrevimento… (grita) ordinária! (p.c) Estás cheia de dor de cotovelo…é por isso que me estás a chamar essa coisa feia!
BRUXA DO ESPELHO (ri) – Eu? Com dor de cotovelo…de ti…? (ri) essa é boa! (p.c) A tua época de glória já passou! (p.c) Velha! Carcaça.
BRUXA (nervosa) – Eu desfaço-te!
(Tenta fazer magia, mas não consegue e fica fora dela).
BRUXA DO ESPELHO (ri) – Velha! (p.c) Esquece!
BRUXA (grita) – Eu vou dar cabo de ti!
BRUXA DO ESPELHO (ri) – Porque é que continuas a insistir? (p.c) Já não serves para nada!
BRUXA (nervosa) – O quê? Sua maldita…és tu que estás a acabar comigo!
BRUXA DO ESPELHO (ri) – Eu? Tenho mais o que fazer…! (p.c) Velha…horrível…feia (p.c) Vai descansar que bem precisas!
BRUXA (grita) – Se voltas aqui…não sei do que sou capaz de te fazer…desaparece!
NARRADORA – A bruxa do espelho desata às gargalhadas e desaparece. A bruxa explode de raiva…grita, saltita aos guinchos, tenta fazer magia mas não consegue…olha outra vez para o espelho a medo e vê-se a ela própria.
BRUXA – Mas…o que é que aconteceu? (p.c) Não percebi…! (p.c) Há bocado estava ali uma anormal…a falar comigo…a chamar-me nomes…a dizer que estou velha…e agora…não está ali…? (p.c) Aquela…já é a imagem que vejo todos os dias! (p.c) Mas…estarei a ficar louca? (p.c) Já nem consigo fazer…mas…onde estão os meus poderes…? (p.c) Deve ser aquele palerma do meu marido…que me está a tirar os poderes…! (p.c) Ou…será que me rogou uma praga…? (p.c) Se foi ele…nem sei do que sou capaz de lhe fazer… (p.c) Vou ter que tirar isto a limpo! (olha-se ao espelho) Eu…vou ter que melhorar este aspecto…tenho aqui umas coisas estranhas…foi aquela parva. De certeza, ou então é o maridão que está a ver se vai porta fora…!
NARRADORA – A bruxa vai á sala ter com o marido, carrancuda, chateada e nervosa. Os gatos poem-se de volta dela. Ela acaricia-os e olha para o marido, que viu que ela entrou mas ignorou.
BRUXA (murmura) – Mau…! (p.c) Estarei invisível? (p.c) Não…não pode ser…estou a tocar nos gatos! (p. c, grita) Olá!
FEITICEIRO (sorri) – Olá, amor…minha bruxinha adorada!
BRUXA – Pensei que não me estavas a ver!
FEITICEIRO – Estava nas minhas leituras, e tu entraste silenciosa! Desculpa.
BRUXA – Eu…? Entrei silenciosa…?! (p.c) Deves estar a ouvir um bocado mal…!
FEITICEIRO – Eu? A ouvir mal…? Não! (p.c) Estava só concentrado!
BRUXA – Pois… (grita) Achas que eu nasci ontem?
FEITICEIRO – Não…eu sei que já nasceste há muitas centenas de anos.
BRUXA (Zangada) – Também tu, me estás a chamar velha…? (p.c) Dou cabo de ti.
FEITICEIRO (irónico) – Eu…? A chamar-te velha…? Claro que não, minha bruxinha encantadora…! (p.c) Somos da mesma idade…eu não sou velho, por isso tu também não és! (p.c) Quem te disse que eras velha?
BRUXA (zangada) – Uma estúpida de uma gaja que estava no nosso quarto!
FEITICEIRO – Uma mulher no nosso quarto?
BRUXA (zangada) – Sim…uma mulher! (p.c) Não sei de onde ela veio, nem como ela entrou…só sei que foi muito estúpida comigo! (p.c) Apareceu no espelho e pôs-se lá com uma conversa…que eu…era ela…ou que ela era eu… e depois…riu-se descarada e escandalosamente na minha cara…além de me ter chamado…velha…! (p.c) Maldita! (p.c) Ela disse que vivia ali no nosso quarto, na nossa casa… (p.c) Eu nunca a vi!
FEITICEIRO (ri) – Ora, minha querida…não ligues! Não te preocupes…se calhar sonhaste! E essa rapariga não existe!
BRUXA – Não sonhei. Estava bem acordada! Ela apareceu…só para me provocar e chatear…e humilhar…tentei transformá-la, para a castigar…e não consegui…e ela disse que eu já estava velha…que estava a perder os poderes com a idade!
FEITICEIRO – Não, filha…deves ter sonhado (p.c) Até fui ver o que se passava quando te ouvi gritar, e perguntei-te…lembras-te? Tu disseste que estava tudo bem. Os teus gritos até abanaram a casa toda.
BRUXA – Sim…pois foi…! E nessa altura foi quando entrou aquela palerma.
FEITICEIRO – Deixa lá…não penses mais nisso. Já passou.
BRUXA (zangada) – Tu…ainda gostas de mim?
FEITICEIRO (sorridente) – Claro que sim, meu pimpolhinho demoníaco…! Tu sabes que sim!
BRUXA (sorridente e vaidosa)  Ai…adoro quando me chamas isso…meu monstrão…!
FEITICEIRO (sorridente) – Ai, que doçura…! Monstrão…tão fofinha…! (p.c) Vês…como ainda te amo?!
BRUXA (sorridente) – É! Estou a ver…E…olha para mim… (p.c) Ainda me achas horrivelmente atraente?!
FEITICEIRO (sorridente) – Sim…minha venenosa enrugada…!
BRUXA (zangada) – O que é que tu me chamaste?
FEITICEIRO (sério e embaraçado)  Princesa…foi o que te chamei!
BRUXA – Pois…bem me pareceu! (p.c) Achas-me atraente?
FEITICEIRO – Sim! Muito!
BRUXA (sedutora, sorri) – Óh…meu bonecão, monstrão…rechonchudão…macacão…ursão…bonzão...então se me amas mesmo…põe-me mais nova e devolve-me os poderes.
FEITICEIRO – O quê? Eu vi logo que querias alguma coisa…!
BRUXA (zangada) – Mas que lata…estás a insinuar que quando sou carinhosa contigo…ou quando te faço muitos elogios…é porque quero alguma coisa…?
FEITICEIRO (irónico) – Não… (p.c) Que ideia… eu já te conheço…!
BRUXA (zangada) – Amas-me ou não?
FEITICEIRO – Já te disse que sim!
BRUXA – Então…?
FEITICEIRO – Então, o quê?
BRUXA (zangada) – Faz o que eu te disse…põe-me mais nova.
FEITICEIRO – Mas…tu queres que te ponha mais nova e que te dê os poderes para quê? (p.c) Queres ficar mais nova, para andares aí á caça de outros…?
BRUXA (zangada) – Estás totó…! Já para te aturar às vezes não é fácil…ia agora caçar outros…! Para quê? (p.c) Achas que sou alguma tarada…?!
FEITICEIRO – Não sei…podias querer um mais novato…!
BRUXA (ralha) – Queres que te castigue…?
FEITICEIRO – Não….fica quietinha…!
BRUXA – Fico…quietinha…porquê…? O que é que anda atrás de mim, ou à minha volta…?
FEITICEIRO – Nada…só quero é que não digas mais disparates.
BRUXA – Então se não queres que eu diga mais disparates, põe-me mais nova! (p.c) E escusas de ser cínico…ao dizer que ainda gostas de mim… (p.c) Só dizes isso para ser simpático. Na verdade, sei que já nem reparas em mim…
FEITICEIRO – Mas eu estou a dizer a verdade!
BRUXA – Não estás nada! (grita) Há bocado chamaste-me velha…eu bem entendi. Tenho olhos na cara…sei muito bem que estou com umas coisas novas aqui na cara, e os meus poderes estão mais fracos. (p.c) Só tu podes devolver-mos! (p.c) Foste tu que mos tiraste não foste?
FEITICEIRO – Não! porque faria isso?
BRUXA (resmunga) – Não sei…por não gostares de mim, ou…podes ter medo de mim.
(Feiticeiro dá uma gargalhada)
FEITICEIRO (ri) – Eu…? Medo de ti…? (p.c) Querida…bebeste alguma coisa que não devias… (p.c) Eu gosto de ti.
BRUXA (resmunga) – Como é que gostas de mim?
FEITICEIRO – Porque…casei contigo!
BRUXA (grita) – Isso não é garantia nenhuma…não quer dizer nada.
FEITICEIRO – Não sei porque é que para ti, não é garantia nenhuma…se eu não gostasse de ti, podes ter a certeza que já me tinha ido embora.
BRUXA (zangada) – Já estamos casados há tantos anos…e já há muito tempo que parecemos dois monstros desconhecidos na mesma casa!
FEITICEIRO – Cada um de nós tem uma vida diferente…e trabalha…estamos sempre tão ocupados…que depois não temos tempo para nós!
BRUXA – Mas devíamos ter tempo para nós… (p.c) Mesmo com trabalho! (p.c, suspira) Ai…tenho tantas saudades de quando éramos namorados.
FEITICEIRO – Não estás feliz por estar casada comigo, podes deixar-me.
BRUXA – É claro que estou feliz por estar casada contigo…mas sinto falta, daqueles momentos…bons…só nossos… (sorri) quando éramos namorados!
FEITICEIRO (com pena) – Pois, mas por não termos muito tempo para namorarmos…não quer dizer que não goste de ti, ou não te ame…! (p.c) Eu também tenho saudades dos tempos em que namorávamos, mas assumimos juntos o casamento…já sabíamos que não íamos ter muito tempo para nós…mas a companhia um do outro seria bom.
BRUXA – E é muito boa a companhia um do outro…mas eu queria mais! (p.c) Erramos…em não termos aproveitado mais…tivemos pressa de casar.
FEITICEIRO – Estás arrependida?
BRUXA – Não. Só que queria ter mais tempo contigo…! (p.c) Tu não demonstras há muito tempo que gostas de mim, e que me amas, como acontecia no nosso namoro…que me oferecias coisas bonitas…davas-me muito mimo…flores…nunca mais me deste nada disso. (p.c) Eu era tão feliz!
FEITICEIRO – Eu sei que não tenho sido um marido muito dedicado…ou nada…nem muito presente…! (p.c) Mas meu amor…pensei que não era preciso demonstrar-te…que tu sabias… e sentias o meu amor por ti.
BRUXA – Eu sinto o teu amor por mim…mas…sabes como é…as mulheres gostam sempre de pequenos gestos dos maridos… (para o público) Verdade… mulheres aqui presentes…? Mesmo casadas, nós precisamos de provas dos nossos maridos, não é? E gostamos que eles nos ofereçam pequenos mimos…! (p.c, para o feiticeiro) Sabes, eu gostava que nós os dois voltássemos a namorar… (p.c) Deixássemos o trabalho mais um pouco de lado, e que nos dedicássemos um bocadinho mais a nós… (p.c) Eu sinto que a nossa fogueira está fracota… preciso de a reacender… (p.c) Qualquer relação precisa disso, (para o público) …verdade? (p.c) Não é mesmo isso que queremos, e precisamos… mulheres? (p.c) Eles não percebem mesmo nada de nós, pois não…? (p.c) Para eles, isso não significa nada, mas para nós…é tudo… preenche-nos…! Não é…? (se obtiver resposta…bater palmas e sorrir) Pois…eu sei que vocês me compreendem…mulheres…aqui presentes…! (p.c) Claro…como eles nos dizem…somos todas iguais, não é…? 
FEITICEIRO (sorri) – Já percebi…! (p.c) E tens toda a razão. Mas de uma coisa podes ter a certeza… e não duvides nunca disso… apesar de eu não demonstrar… continuo a amar-te como no primeiro dia! (p.c) Nós os homens somos um bocado…tímidos nessas coisas… de demonstrações… (para o público) não é homens…? Mas elas acham que por não demonstrarmos, já não gostamos delas ou temos outra… não é? (p.c) Estamos fritos…! (p.c) Elas são complicadas… não são…? (p.c) Como é que as vamos entender…? (p.c) São um mistério…exigem de mais… (p.c) Não acham…? (p.c) Mas… temos de as respeitar… e fazer-lhes as vontades…! Bem…aquelas que estão ao nosso alcance! (p.c) Elas podem ter muitos defeitos, mas temos de as respeitar…e merecem…! Não vivemos mesmo sem elas.
BRUXA – Tu amas mesmo?
FEITICEIRO – Outra vez…? Sim, minha Bruxosa… jeitosa… apetitosa…! (para o público) Ai, ai… elas adoram ouvir isto…mas torna-se cansativo para nós, porque temos de estar sempre a repetir… (p.c) E mesmo assim… parece que estão sempre desconfiadas…!
BRUXA – Mesmo com estas coisas na minha cara?
FEITICEIRO (sorri) – Isso…são…rugas, minha bruxinha…!
BRUXA (zangada) – Rugas…? Tira-mas! Se me amas…tira-mas! Já…! Ou atiro-te já pela janela fora!
FEITICEIRO (zangado) – Que disparate. (p.c) Não vou tirar isso, coisa nenhuma.
BRUXA (zangada) – Porquê?
FEITICEIRO (zangado) – Porque não posso! Nem quero!
BRUXA (zangada) – E porque é que não queres?
FEITICEIRO – Porque gosto de ti assim.
BRUXA (zangada) – Mentiroso…! (p.c) Eu estou muito feia…é claro que não gostas de mim assim!
FEITICEIRO (zangado) – Estás a precisar de óculos. É claro que gosto de ti assim.
BRUXA (zangada) – Só estás a ser agradável, porque estou zangada, não é?
FEITICEIRO – Não. Estou só a dizer a verdade! (p.c) Não sei porque duvidas de mim… nunca te menti!
BRUXA (grita, zangada) – Mentiroso! (p.c) Tira-me esta porcaria da cara e dá-me os poderes de volta.
FEITICEIRO – Não! (p.c) Pede-me tudo o que quiseres, menos isso.
BRUXA (zangada)  Porquê?
FEITICEIRO – Porque eu não posso fazer isso.
BRUXA (fula) – Mas que raio! Amas-me, ou não?
FEITICEIRO (zangado) – Sim, amo-te! É por isso que não posso fazer o que me estás a pedir.
BRUXA (zangada) – Mas o que é que tem uma coisa a ver com a outra? (p.c) És feiticeiro…tens poderes.
FEITICEIRO – Mas tu também tens! (p.c) Eu gosto de ti…não é pelos teus poderes…gosto de ti por aquilo que és…não me apaixonei pelos teus poderes…nem pelas tuas rugas! Eu também tenho rugas! Amo-te e quero passar o resto da minha vida contigo! Não é com os teus poderes que quero viver.
BRUXA – Óóóhhhh…que lindo! (p.c) Palavras leva-as o vento… (para o público) É lindo, não é…? E sabe bem ouvir isto…mas nós queremos provas… verdade…mulheres…? (p.c) Acham que ele está a dizer a verdade…? (para o feiticeiro) Mas eu odeio estas coisas na minha cara.
FEITICEIRO – Rugas! Isso chama-se rugas, meu amor!
BRUXA (horrorizada) – Aaaaaaaiiiiiii…Odeio essa palavra…até me dá calafrios ouvi-la… e odeio estas coisas… tira-me isto…por favor…! (p.c) Eu não quero esta porcaria!
FEITICEIRO – Não! (p.c) Eu também as tenho.
BRUXA (zangada) – Mas tu és homem.
FEITICEIRO (zangado) – E tu és mulher…grande diferença…!
BRUXA (zangada) – Nos homens quase não se notam as rugas…mas nas mulheres é diferente…e quando ganhamos rugas…ficamos muito feias…e com medo que vocês arranjem uma gaja jeitosa…mais nova…!
FEITICEIRO (ri) – Que disparate! (p.c) Vocês é que tem a mania que nós, homens, só olhamos para as novas, para as catraias…! (p.c) Isso era enquanto éramos novos…! Chegamos a uma certa idade, essas coisas já não contam para nada…principalmente depois de aturarmos a mesmo mulher anos e anos…! Queremos paz e sossego! (p.c, para o público) Não é homens, aqui presentes…? (p.c, para a Bruxa) Tu odeia-las, mas vais ter de te habituar a elas!
BRUXA (irritada) – Mas eu não as quero! (p.c) Fico muito feia com elas aqui! (p.c) E ao ficar feia…tu não vais gostar mais de mim.
FEITICEIRO (zangado) – Outra vez…?
BRUXA (zangada) – Estás a tentar convencer-me de que gostas de mim…com estas coisas feias na minha cara!
FEITICEIRO (chateado) – Eu não casei contigo pela tua beleza física! Não sei porque estás a fazer tanto alarido por causa de uma coisa tão natural, que toda a gente tem…rugas! (p.c) Olha para as minhas.
(A bruxa olha para o marido, sorri)
BRUXA – Quase nem se notam…! Tu és tão bonito.
FEITICEIRO (sorri) – E tu também és muito bonita. Por fora, e por dentro… (p.c) Eu amo-te minha bruxinha diabólica…tal e qual…como tu és. (p.c) Isso inclui rugas! (p.c) E rugas…não quer dizer que estás velha…só quer dizer…experiência de vida, sabedoria…até devias ficar feliz, porque estás bem…tens saúde, tens tudo no sítio…estás mais madura… e continuas linda…sexy…com rugas…aliás…até parece que estás ainda melhor.
BRUXA (sorri) – Só tens treta! (p.c) Só estás a dizer isso para me animar.
FEITICEIRO – Eu sou algum palhaço, ou bobo da corte, para animar…? (p.c) Eu nunca fui simpático…só sou…sincero.
BRUXA (sorri) – Amas-me mesmo…? (p.c, zangada) Então tira-me estas maldições. 
FEITICEIRO (grita) – Não tiro, já disse! (p.c) Se fosse uma coisa muito feia ou muito má…tirava-te, agora isso não tiro! Eu quero-te assim…como és…e ponto final. (p.c) Esquece que tens rugas…e tu amas-me?
BRUXA – Sim, amor…mas…não queres que eu fique mais bonita?
FEITICEIRO (zangado) – Não! Já tens beleza que chegue assim…não é lá por teres mais rugas que vais ser feia… eu quero-te assim! (p.c) Amo-te com todo o meu coração… com peles penduradas, enrugada, com elas pingonas… gorda… baleia… esquelética… de cabelo preto, branco, cinzento, roxo, vermelho, de qualquer maneira… não me interessa! (p.c) O que me interessa é que o meu amor por ti, continua igual desde o primeiro dia em que te conheci! (p.c) Usa os teus poderes para coisas boas e bonitas…para ajudar os outros… (p.c) o que me importa é o teu coração…e esse sim…nunca deve enrugar…nem o teu amor por mim, deve acabar. (p.c) Por favor…não mudes nada em ti! É assim que eu gosto de ti! (p.c) Só estás a pensar nas rugas…os teus poderes não funcionam bem…claro! (p.c) Mas sabes que eles nunca acabam…podem enfraquecer…mas não acabam. (p.c) Por favor…não voltes a dizer que estás velha! Ou feia! Ou a perguntar se te amo…e a pedir-me para te tirar rugas ou outra coisa… (p.c) Eu quero-te assim. (p.c) Prometo-te que te vou dar mais atenção, e provar-te que te amo como tu és! (p.c) Também me prometes que não falas mais nisso?
BRUXA (sorri) – Prometo.
FEITICEIRO – Tu ainda tens muito para dar, e para ensinar…lembra-te que daqui a pouco temos alunos…e tu precisas de estar bem dessa cabeça!
BRUXA (sorri) – Tens razão!
FEITICEIRO (sorri) – Vamos dar uma volta? Passar uns dias fora daqui…?
BRUXA (sorri) – Excelente ideia…vamos.
FEITICEIRO (sorri) – Sou todo teu! (p.c) Esquece a porcaria das rugas, e lembra-te só de mim, está bem? Minha princesa Bruxosa…?
BRUXA (ri) – Está bem.
NARRADORA – Os dois abraçam-se e vão passear alegremente, como dois adolescentes apaixonados, muitas trocas de carinho, muitas gargalhadas, e truques de magia para aquecer o momento. É assim mesmo, feiticeiro…grande lição…isso sim…é o verdadeiro amor e respeito pela mulher que se escolheu…com rugas ou sem elas…a beleza interior é que mantém acesa a chama do amor…e é possível isso acontecer em qualquer idade…desde que se saiba olhar para o outro com respeito, com sinceridade, carinho e com os olhos do coração! Porque a beleza física sofre alterações ao longo dos anos, mas a beleza interior mantém-se, ou até melhora muitas vezes com o passar dos anos…! Devem tratar a mulher que escolheram, como um ser humano…porque…com rugas, de cabelos brancos, ou mais cheinha…a mulher é sempre mulher! Um ser especial, digno de amor…em qualquer idade…é sempre possível acender ou reacender o fogo da paixão, do desejo e do amor. Maridos…dêem valor à mulher que têm ao vosso lado! Digam às vossas mulheres que as amam, constantemente…e mostrem sem medo e sem vergonha esses sentimentos…! Reconquistem-na todos os dias…com pequenos gestos de carinho e atenção, respeito e dedicação… companhia e compreensão… pequenas surpresas…elas dão muito valor a esses pequenos salpicos de romantismo…redescubram-na todos os dias…elas possuem mistérios e verdadeiros tesouros que se vão ganhando com a idade…respeitem-nas sempre…e as suas vontades! E terão um verdadeiro vulcão ao vosso lado…

FIM.
Lálá 
(6/Setembro/2012)