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sábado, 3 de maio de 2025

Rosa Amor

 

foto de Lara Rocha 


    Há uns anos atrás, uma jovem misteriosa, chamada Natureza, ofereceu a um casal, um lindo botão de flor, fechado. 

    Disse para cuidarem dele com amor, regar com carinho, educação, sensibilidade atenção e dedicação, para falar com ele. 

    Acrescentou que desabrocharia passado nove meses, numa linda flor e desapareceu. O casal ficou surpreso e apreensivo, sem perceber o que tinha acabado de acontecer, e o que significaria aquilo.

    Procuraram por ela, mas não a viram em lado nenhum, estava escondida, e a sorrir. 

- Tenho a certeza que estarás muito bem entregue! - murmura a jovem Natureza, ao ver o carinho com que o casal segurou a flor

    Assim aconteceu, o casal cuidou do botão de flor com amor, e estavam ansiosos por saber que flor seria, e porque demoraria tanto tempo. Regaram-na, falavam com ela, o botãozinho ia crescendo, alargando, tentavam imaginar a cor que teria, mas ele não a mostrava. 

    O casal não tinha preferência, pois adoravam todas as flores, em botão, e, ou abertas. Acariciavam o botãozinho, mudavam de terra de vez em quando, punham-no a apanhar sol, e ar, quando estava vento recolhiam-no. 

    O botãozinho ouvia as conversas todas, e sorria fechado nas pétalas, quando o casal lhe tocava. Não viam, mas era um sorriso luminoso, por se sentir acarinhado, acolhido, amado. 

    Passados nove meses, como a Natureza anunciou, o botãozinho de flor, abriu. Era uma linda rosa cor-de-fogo, com amarelo, laranja e vermelho! Uma perfeição, parecia que estava a sorrir, com as pétalas delicadas, o casal não ouvia, mas imaginava, o som do sorriso da rosa, quando lhe tocavam com carinho. 

    Que surpresa tão agradável, o casal não podia estar mais feliz, e continuaram a cuidar dele, com tanto amor e dedicação que cresceu como nunca se tinha visto. 

    Que lindo que era, sempre viçoso e vistoso, brilhante, adorava sol, e ficava ainda mais bonito, continuaram a regá-lo, a alimentá-lo, a conversar com ele. Deram-lhe o nome de Rosa Amor. 

    Um nome que fazia todo o sentido, porque era o símbolo do amor do casal, um pelo outro, dos dois pela Natureza, um prémio por terem cuidado tão bem dele. 

    Era como se fosse um filho, aliás, quando a esposa soube que vinha a caminho, um bebé verdadeiro. Pensaram que a flor iria murchar de tristeza, ou ciúmes, mas não. 

    Porque tinham atenção e amor para os dois; para o bebé, para a flor, a diferença é que este botãozinho que vinha a caminho, era uma pessoa. Um ser vivo, como um botãozinho em flor, que exigia mais amor, mais dedicação, mais regras, mais atenção, carinho. 

    Sem nunca se esquecerem da  Rosa Amor, que mesmo sendo uma flor, estava feliz por ter um irmãozinho em forma de pessoa, nunca se sentiu excluída, nem abandonada. 

     Quando o bebé nasceu, a flor chorou de alegria, surgiram gotas de água nas suas pétalas, e algumas caíram, ao ver aquele ser delicado, frágil e lindo como ela. 

     Rosa Amor, sorria ao ver a ternura dos pais, com aquele bebé, e a gratidão do bebé a olhar para eles, o carinho que ele recebia, e chegava para a flor. Mostraram o bebé à flor, e esta inclinou-se, encostou-se à carinha dele, com as suas pétalas macias, e voltou a chorar de alegria como se estivesse a fazer uma carícia ou a dar um beijinho no seu irmãozinho humano. 

     O bebé e os pais sorriram de alegria, pegaram na mãozinha do bebé, e fizeram uma festinha das pétalas da flor. Ela sorriu e brilhou com tanto amor. Cresceram juntos, nunca faltou carinho, atenção, dedicação, amor, regras, diálogo, aos dois, e formaram uma linda família.  

    Todos os dias agradeciam à Natureza, aquele botãozinho maravilhoso, e o botãozinho verdadeiro, o bebé que também adorava a flor. Ela abanava-se e ele desatava à gargalhada, que fazia o mesmo com os pais. 

    Parecia que os dois comunicavam um com o outro, só entre eles, balbucios e gargalhadas, trocas de mimos, e papagueados que só a flor e o bebé entendiam. 

    O casal agradecia todos os dias, a saúde, e a alegria, o amor que havia naquela casa, com aquela flor. A jovem Natureza apreciava encantada, espreitava e sorria à flor, esta retribuía. 

    Sentia-se orgulhosa, e de vez em quando as duas conversavam sobre a felicidade da flor naquela casa, o bebé, a forma como eram tratados, e outros assuntos. 

    E assim se constroem as amizades, os amores, com dedicação, paciência, carinho, diálogo, respeito, acolhimento, atenção, sem pressa, com delicadeza. Botõezinhos fechados, que se vão abrindo em lindas flores. 

                                            FIM 

                                       Lara Rocha 

                                      2/Maio/2025 

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

A oferta da jardineira

  

fotos de Lara Rocha 

  Era uma vez uma vez um jardim público de uma cidade. Numa tarde, uma senhora que lá ia todos os dias, apreciar cada rosa e cada flor, cada cor, encantada. 

     Observava flor por flor, todos os pormenores, e era como se estivesse a vê-las pela primeira vez, fotografava-as, olhava para elas lentamente, como se estivesse a comê-las e a saboreá-las, com um sorriso. 

      Andava à volta delas, tocava nas pétalas, carinhosamente e às vezes até lhe escapavam algumas lágrimas de felicidade. Por isso, agradecia aos jardineiros e jardineiras que já a conheciam, dando a mão e dois beijinhos, sorridente: 

- Olá! Bom dia! 

- Bom dia! - respondiam todos a sorrir 

- Como está, querida? - pergunta uma jardineira 

- Bem, obrigada, e a minha amiga? 

- Também, obrigada! 

- Como não podemos estar bem, neste jardim tão bonito, tão bem tratado, por vocês? Muito obrigada a cada um e a todos por isto.

- Obrigado! - diziam todos e todas 

- Estão fantásticas estas flores! 

- São cuidadas com amor e carinho! - diz outra jardineira 

- É verdade! É como eu trato as minhas, por isso é que estão tão bonitas. 

- Não tenho dúvidas disso! - diz outra jardineira 

        Uma outra jardineira pega numa semente que ia plantar de uma flor que ela sabia ser especial, para aquela senhora. Oferece-lhe e diz: 

- Obrigada pela sua simpatia e por nos dar valor! Por isso, ofereço-lhe esta semente de flor, para plantar num vaso, e pôr onde quiser na sua casa! 

- Óh! Mas que amor....levo com muito gosto, farei isso! Estou curiosa para saber qual é. 

- Isso, minha amiga, só quando ela despertar...acho que não demorará muito! 

- A seu tempo! Sei que elas precisam de tempo, carinho, dedicação, atenção, alimento, como nós! 

- Isso mesmo! 

- Bem, vou andando! Muito obrigada e até amanhã! - diz a senhora 

- Até amanha! - respondem todos 

        A senhora regressa a casa, planta a semente num vaso, cobre com terra, rega e deixa-a à luz do sol na varanda. 

- Bem vinda à minha casa! Foste-me dada com todo o carinho por uma pessoa boa, que já conheço há muito tempo! Ias nascer num jardim público, mas ela quis que crescesses aqui, comigo! Vou cuidar de ti! Que flor serás tu, sementinha? Cresce ao teu ritmo, não tenhas pressa, eu espero! Vais passar por várias fases, passa por cada uma delas, o tempo que precisares. 

        A senhora vai fazer outras coisas, e a semente ouviu a sua voz. 

- Que voz é esta? É...meiga! Pelo menos acho que gostei do que ela disse! De onde terei vindo? 

       Nesse dia seguinte, tudo na mesma, no dia seguinte também, A Sra. fala com ela todos os dias, rega quando é preciso, põe-na ao sol. 

        A sementinha ouve com atenção e ri-se. Ao fim de algum tempo, começa a aparecer o pezinho verde pequenino, fininho, leve, com umas folhinhas e uma cabecinha...a da flor, que se cansou de estar no escuro, e achou que já podia sair. Mas ainda não se mostra. 

- Áh! Aqui parece bem melhor! - diz a flor 

        As outras flores da varanda olham-na em silêncio, mas já sabem que é nova ali. A senhora fica numa grande alegria quando vê a flor a começar a aparecer. Bate palminhas, sorri-lhe: 

- Olá! Bons olhos te vejam pequenina flor! Já estás cá fora? Hummmm... 

        E conta-lhe como foi o dia. Para as outras não ficarem ciumentas, a senhora também cuida delas. O pezinho vai crescendo e alargando, tal como a cabecinha da flor, agora, em botão. 

- Áh! És uma rosa! - diz a senhora a sorrir - como cresceste! Já estás em botão! Que linda! De que cor serás? Para já não consigo ver! Mas deixa-te estar! Quando estiveres pronta, abre! 

        De tanto falar com ela, e cuidar com carinho, amor, a flor cresce rapidamente, Começa a falar com as outras que lhe dão as boas vindas. 

- Vocês são tão bonitas! E simpáticas. Obrigada por isso!

        As flores riem: 

- Ora essa! Nós é que agradecemos! 

- Tu também és igual a nós… 

- Quer dizer....igual não, tens uma cor diferente, mas és muito simpática e bonita!

- Óhhh…A sério? Obrigada! Já se vê a minha cor? 

- Quase! - dizem todas 

- Vermelha, cor de fogo...talvez! 

- Áh! Que giro! E que claridade é esta? Às vezes é muito escuro e fresco, outras vezes, fica assim uma claridade quente! Sabem dizer-me o que é? 

- É a noite! E o sol, o dia

- Ás vezes de dia não há sol, há nuvens e chuva! Mas há alguma claridade. 

- É. O muito escuro, é a noite! Quando a nossa mãe dorme! 

- Áh! - diz a flor - então agora é dia! 

- Sim! - dizem todas 

- E com sol! - acrescenta outra 

- Que agradável que é! - diz a flor 

- Sim! 

- Vocês gostam de estar aqui? - pergunta a flor 

- Sim! Muito. 

- Somos muito bem tratadas 

- Acredito! A mãe é muito carinhosa. 

- É! - dizem todas 

- A voz dela, e o carinho dela ajudam-nos a crescer, e a ficar mais bonitas, como ela disse! 

- Que giro! E à noite quando está muito escuro, o que fazem? 

- Fechamo-nos em nós mesmas. Cobrimo-nos com as nossas pétalas, quando há sol abrimo-nos para receber a claridade e guardar o calor que nos aquece à noite. 

- Áh! 

        As flores têm longas conversas, e riem. Uns dias depois, a flor cada vez maior, abre-se e mostra a sua cor. A outra flor tinha razão: ela é uma rosa cor de fogo, com rajadas vermelhas, cor de laranja, amarelas e uns toques de rosa. 

        As outras flores ficam maravilhadas com ela. 

- Áh! Ela tinha razão! És mesmo cor de fogo. Que bonita! 

- Vocês conseguem ver as minhas pétalas? 

- Sim! Já estás grande e aberta! 

- As nossas cores são todas diferentes! 

- Pois são! - dizem todas 

- Lindas, lindas! 

- Obrigada. Tu também és! 

        A Sra. chega da rua, e vai ter com as flores. Solta uma grande exclamação de surpresa e encanto: 

- Olá minhas belezas! Já viram a vossa amiga, como também é bonita? Que cores maravilhosas! Estás enorme. 

        A Sra. acaricia as pétalas de cada uma das rosas, sorri como costuma fazer no jardim, onde vai, fotografa e mostra `jardineira que lhe ofereceu a semente. A jardineira e as outras ficam deliciadas com aquela beleza. 

- Como é bonita essa rosa! É como a senhora. Não sabia o que estava na semente, mas é realmente especial. E como está enorme! Falou muito com ela, não? - pergunta a jardineira com um sorriso

- Sim, como falo com todas as outras! Mais uma vez muito obrigada por este presente! 

- De nada! Dei-lhe com todo o gosto, por dar valor ao nosso trabalho! 

- Claro que dou valor ao vosso trabalho! Se não fossem vocês isto não existia nem estaria bonito! 

- Obrigada, obrigado! - dizem em coro, jardineiras e jardineiros 

- Obrigada, nós! E volte sempre. Estamos por aqui. 

- Que bom que estão por aqui! 

        Dão um abraço, sorriem, e as flores tratam muito bem da rosa cor de fogo! São uma verdadeira família de flores. Conversam, riem, apreciam a paisagem de dia, surpreendem-se com as mudanças do tempo.

       Sentem o vento, abraçam-se  e encostam-se mais umas às outras quando está mais frio, veem a chuva, adoram ouvir o seu barulho a cair, e às vezes também apanham com algumas gotas.  

        Sentem o sol, e adoram o seu calor, a claridade, à noite recolhem-se e descansam. A Sra. nunca as abandona. Vai todos os dias falar com elas, quando está a chover tocada à vento, e quando está frio, ela puxa-as para uma zona coberta da varanda, põe um biombo à sua frente para não se molharem, rega-as, acaricia-lhes as pétalas, uma por uma, e elas agradecem com a sua beleza. 

        Já pensaram como os jardineiros dos jardins das cidades são importantes? São eles que tornam esses espaços tão bonitos aos nossos olhos que adoramos fotografar, e apreciar. São os jardineiros e jardineiras que põem as flores na terra e cuidam delas com carinho e amor regam-nas, alimentam-nas, falam com elas e mantêm o espaço à sua volta, limpo. 

        A minha gratidão a todos os jardineiros e jardineiras que fazem tudo para ajudar a natureza a presentear-nos com a sua beleza! E a todas as pessoas que têm flores em casa e cuidam tão bem delas com carinho, dedicação, atenção e amor! 

E vocês tratam bem das flores? Gostam de as ver? Conhecem alguém que trate de flores? Agradeçam-lhes por tratarem tão bem delas. 

                                            FIM 

                                       Lara Rocha 

                                     10/Janeiro/2024 

domingo, 12 de setembro de 2021

O monstrinho marinho




Era uma vez uma criatura marinha muito estranha, que vivia com a sua família nas ruinas de um barco afundado há muitos séculos. O seu ar era muito assustador, mas tinha um grande coração e na verdade era muito generoso, carinhoso, dedicado. 

Como ia muitas vezes à superfície, todos conseguiam avistá-lo, entravam em pânico, gritavam e fugiam, mas quando alguém estava em apuros, era o monstrinho que lhes valia, tirando-os da água, salvava-os e desaparecia.  

Os que que eram salvos, contavam que tinha sido um ser estranho, monstruoso, a socorre-los, mas os outros não acreditavam, riam, diziam que tinha sido resultado da água e do medo. Ajudava marinheiros, o que para ele era uma brincadeira divertida. levantar os barcos no alto mar, transportá-los nas suas escamas e lombo, quando as ondas pareciam engolir os barcos e os marinheiros.  

Os marinheiros confiavam totalmente nele, e sentiam-se protegidos, além disso, o monstrinho sabia muito bem onde havia o melhor peixe para eles. Era um bom guia, como o farol. Também gostava de fazer festas à luz da lua, e em noites de lua cheia adorava juntar-se a grupos de jovens, dezenas ou centenas, que vestiam de maneira diferente, reuniam-se na praia, com música muito alta e barulhenta, animada, dançavam, cantavam, batiam palmas, bebiam, comiam e brincavam. 

O monstrinho acompanhava-os e divertia-se tanto ou mais que eles, dançava na areia e na berma da água, próximo deles, era muitas vezes o centro das atenções, como se estivessem a ver uma atuação de circo ou um espetáculo marinho, cheio de magia e alegria. 

Todos o adoravam, aplaudiam, gritavam, acariciavam-no, dançavam com ele, por vezes as suas costas serviam de palco para os que cantavam, e desfilava com eles como um palco flutuante com atuações.                                                                                                                                        Ninguém acreditava porque achavam ser imaginação dos jovens. Apesar de todos quererem conhecê-lo, ele continuava a preferir ficar na sombra, no seu recanto sossegado, e ajudar quem precisava.

                                                                    FIM 

                                                           Lara Rocha 

                                                                                                                                               11/Setembro/2021 

  

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

O mosaico da aldeia



   Era uma vez numa aldeia pequenina, com poucos habitantes, uma parede enorme, muito branca, que nem sabiam muito bem quem a tinha posto lá. 
     Todos os dias, um senhor olhava para aquela parede e sentia uma grande tristeza, um enorme vazio. Não sabia explicar porque sentia isso, mas não gostava daquela parede branca. 
     Um dia, um pintor sentou-se à janela da sua casa e olhou para a parede. Rabiscou uma tela, para tentar inspirar-se, mas não lhe saiu nada de ideias. Passou esse senhor que não gostava da parede branca, e comentou: 

- Não gosto nada desta parede branca! Provoca-me uma grande tristeza e um enorme vazio. 

- Óh, estou a ver. Sabe que eu também não gosto muito desta parede tão branca, mas às vezes quando olho para ela, consigo imaginar umas imagens. E que tal se experimentarmos desenhar aí alguma coisa...? Sem se preocupar se está bem desenhado ou não... 

- Hummm...eu não sei desenhar, mas se diz que não interessa se sei ou não desenhar...acho que consigo riscar ali qualquer coisa. 

- Isso. Força! 

- Vai fazer o mesmo? 

- Sim. Faça primeiro. 

- Com o quê? 

        O pintor dá-lhe um pincel e algumas tintas. O senhor fica a olhar para aquilo, sem saber o que pintar. 

- Arrisque! Não tenha medo, nem pense muito. Olhe para a cor que lhe chamar mais a atenção, ou misture algumas... 

        O senhor sorri. Molha o pincel um bocadinho em cada cor e salpica um cantinho da parede. 

- Que bonito! Deu-me uma ideia... 

          O pintor vai ter com ele, molha o pincel, com as mesmas cores, e faz uns traços soltos. 

- Áh! Parece o arco-íris. 

- Isso. Vamos dizendo palavras, e vemos se surge alguma coisa. 

     Os dois disparam palavras, as mais bonitas que conhecem, que transmitem boas mensagens, e vão desenhando sobre essas palavras, com cores, formas, pintas. 

    À medida que outros habitantes vão passando por lá, apreciam a parede, e o pintor convida-os a participar, dizendo as palavras mais bonitas que conhecem, e a desenhar alguma coisa que gostassem, onde quisessem ao longo da parede. 

      Este desafio é do agrado de todos, participam com entusiasmo, vontade e alegria. Uns fazem desenhos maravilhosamente perfeitos, lindos, outros coisas mais simples de que gostam. 

       Entre salpicos, pintas, riscos, vão nascendo: nuvens, flores, ondas, linhas, pássaros, casas, árvores, casais, crianças, peixes, fontes, cascatas, montanhas, avós, sol, chuva, e outros animais. 

        O pintor completa com a sua perfeição e com novas imagens que lhe surgem ao ver o que está lá. 

        Num instante, a parede fica completa. Uma verdadeira obra de arte, cheia de cor e vida, luz, amor. 

- Como está maravilhosa esta parede! Que orgulho! - suspira o pintor com um grande sorriso 

           Decidem fazer uma festa para inaugurar e apreciar a parede. Todos concordam, reúnem-se com petiscos, o pintor faz um discurso de agradecimento a todos os habitantes, dá os parabéns a todos, chovem fotografias para a parede, palmas, atá vai para o jornal das outras terras, que invadem a aldeia para ver ao vivo e de perto. A aldeia ganhou uma nova vida, e a parede ficou conhecida como o mosaico da aldeia. 

                                                   FIM 

                                             Lara Rocha 

                                                                                                                                 29/Janeiro/2021 

                    

                                                        

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

O sonho mágico do rapaz mágico

           Era uma vez um jovem rapaz, bonito, elegante, que tinha nascido com um dom de fazer magia. Simpático, brincalhão, não falava por palavras mas tinha um coração bom e era tão expressivo, que através da mímica e do olhar, transmitia luz a quem o via. Às vezes aparecia com a cara pintada, outras vezes, não.  Queria distribuir alegria por todo o lado e o que gostava mais era de ver a expressão de surpresa e sorrisos de quem o via. Para isso, oferecia pequenas lembranças e conseguia que sorrissem.
           Passou por uma menina que ficou a olhar para ele, muito séria. Ele olhou para ela, sorriu, tirou o chapéu, ajoelhou-se e ofereceu uma flor maravilhosa, com pétalas brilhantes. Ele beijou delicadamente a flor, estendeu a mão para a menina, ofereceu-lhe a flor. A menina encantou-se com ele, abriu um lindo e aberto sorriso, agradeceu, e o rapaz levantou-se, feliz, com um sorriso de orelha a orelha, saltitou e soprou pequenas luzinhas em forma de pó. 
            Mais à frente, viu uma criança a chorar. Quando a criança o viu parou de chorar, olhou-o, o mágico sacudiu o chapéu e de lá saltou um balão em forma de lua cheia. O menino riu, e o rapaz sorriu. A mãe do bebé quase resmungou, mas quando viu o rapaz, ficou calada. O rapaz roda o chapéu no ar, e tira uma estrela que dava gargalhadas, tão engraçadas que a mãe do pequeno riu como já não acontecia há muito tempo. O seu filho até ficou surpreso e riu também. 
             Depois, passou por um homem que dormia debaixo de um banco de jardim, aquecido pelo candeeiro. O rapaz sentiu pena dele, e enquanto dormia, num toque mágico construiu-lhe uma casa pequena, mas toda mobilada, com alimentos, água e roupas. O homem acordou assustado, quase o agredia, mas o mágico indicou-lhe a casa. O senhor ficou tão emocionado que lhe pediu desculpa e entrou na sua nova casa. Nem queria acreditar no que estava a ver. O senhor nunca mais dormiu na rua. 
             Num hospital, o rapaz mesmo com muita vontade de chorar, sorria para todos, e oferecia do seu chapéu: bonecos, flores, brinquedos com música, luzinhas, borboletas que davam beijinhos, e com isso, conseguiu curar muitos doentes.
             A sua mãe vai ao quarto, e acorda-o: 
- Filho...está na hora de ires para a escola. 
- Mãe… eu quero ser mágico. 
- Sim, sim. A tua magia agora é estudares. 
- Mas, mãe…é a minha missão. Eu sonhei com isso! 
- A tua missão é estudares, para seres alguém. 
- Mas eu quero ser alguém...quero ser mágico. 
- Cala-te! Eu dou-te a magia. Magia é alguma profissão? Magia dá valor a alguém? Francamente. Não me voltes a falar nisso. 
- Claro que é uma profissão. Claro que faz de mim alguém...posso fazer bem a muita gente. 
- Esquece lá a magia e despacha-te! E ai de ti, que os professores digam que estás distraído. 
             O rapaz levanta-se, zangado. Arranja-se para ir para a escola, toma o pequeno almoço, sopra a mão e deixa uma flor para a mãe em cima da mesa. A mãe fica surpresa.
- Até logo, mamã. Amo-te. Ainda vais ter orgulho no teu filho. E na magia! 
             A mãe quase ralha com ele, porque não gosta que ele seja mágico, não quer reconhecer que o filho tem esse dom, e acha que é tudo um disparate da cabeça dele. Ele podia não ter o chapéu de mágico, e claro, todas as magias que ele sonhou, não se realizaram, mas...fazia magia de outra maneira! Com a sua simpatia, delicadeza, educação, sensibilidade, meiguice e amizade. A verdadeira magia deste rapaz estava na sua bondade. No que ele fazia despertar nos outros. Todos gostavam dele. Uns anos mais tarde, tirou um curso de magia, e outro curso para trabalhar como enfermeiro. Era feliz, e continuou a fazer grandes magias por ser como era. 

                                                                                     FIM 
                                                                                     Lálá 
                                                                              16/Janeiro/2019 
              

terça-feira, 7 de abril de 2015

O guarda-chuva girassol


Era uma vez um belo guarda-chuva que voava pelo ar ao sabor do vento, parecia quase um balão de ar. Era de amarelo-claro e coberto de girassóis, o cabo era verde, e por dentro tinha milhões de palavras soltas, bonitas, que não tinham ligação entre si.
Os girassóis do guarda-chuva giravam enquanto voavam, sorriam a quem passava, e fechavam-se em si mesmos quando as aves tentavam agarrá-los ou pousar em cima deles. Todos ficavam espantados, ao ver aquele guarda-chuva de girassóis.
Mas de quem seria? Como é que ele foi parar às nuvens? Ele saiu da varanda de uma casa, onde estava aberto para secar. Foi levado pelo vento que gostou tanto dele, que queria ficar com ele e levá-lo a uma senhora velhinha que vivia numa floresta.
O vento faz descer o guarda-chuva das nuvens e pousou-o na varanda dessa velhinha, uma boa senhora de muita idade que andava triste e vivia solitária. Quando viu o guarda-chuva, ficou feliz e abriu um grande e luminoso sorriso.
- É para ti, boa senhora. – Diz o vento
- Óh! Que lindo! Onde arranjaste? – Perguntou ela
-Não interessa onde… arranjei-o para ti, para te ver sorrir outra vez. Adoro o teu sorriso, e andavas muito triste, por isso resolvi oferecer-te flores.
- Que lindo! Obrigada! É mesmo fantástico. Cheio de flores, cor e leveza…! – Diz a senhora a sorrir  
        Entretanto, a dona do guarda-chuva chegou à varanda para recolher o guarda-chuva e não o vê.
- Áhhh…Onde está o meu guarda-chuva? Eu deixei-o aqui… (Olha para baixo e para cima, e não o vê). Mas…onde está?
        Procura por todo o lado, leva um outro guarda-chuva e procura na rua, no caixote do lixo, noutra varanda…mas nem sinal. A senhora fica um pouco triste. Aparece um anjinho pequenino e sussurra-lhe:
- O teu guarda-chuva foi roubado pelo vento, para dar a uma velhinha que estava triste.
- O quê?
- Isso mesmo. O guarda-chuva foi a voar, e está na casa dessa senhora.
- Como é que foi o vento que o levou?
- A soprar…
- E agora?
- Agora…está noutra casa.
- E sabes para onde foi?
- Sei. Queres que te leva lá?
- Sim, se faz favor.
        O anjinho da senhora leva-a até à casa onde está o guarda – chuva. As duas encontram-se.
- Áh! Está aqui o meu guarda-chuva!
        A dona do guarda-chuva bate à porta. O anjinho recomenda:
- Cuidado…não sejas má com ela…ela é muito velhinha e não foi ela quem roubou.
        A velhinha abre a porta.
- Boa tarde…
- Boa tarde, desculpe estar a incomodar…
- Entre…venha tomar um chá e comer uns bolinhos, e vamos conversar um pouco.
- Mas…
- Entre… (as duas entram) Olhe que lindo guarda-chuva…
- Sim, é mesmo lindo! Eu tinha um igualzinho, mas desapareceu.
- A sério? Como é que desapareceu?
- Acho que foi roubado…
- Mas que maldade.
        O vento fica muito envergonhado. As duas entram e têm uma longa conversa, enquanto tomam o chá. A senhora do guarda-chuva está feliz com a velhinha, e esta com ela. As duas conversam bastante, e riem ainda mais. Contam uma à outra, coisas das suas famílias, acontecimentos importantes, boas recordações.
- Desculpe…eu falo muito, mas sabe, sinto-me muito sozinha, de maneira que, quando encontro alguém gosto de conversar…até converso sozinha, ou com a natureza! – Diz a velhinha
- Fale à vontade. Estou a adorar ouvi-la, e também gosto muito de conversar.
        A velhinha pega no guarda-chuva e devolve à senhora sua dona, porque algo lhe dizia que aquele guarda-chuva era dela.
- Pegue o seu guarda-chuva. É seu, não é? – Pergunta a velhinha
- Bom..creio que pode ser…não sei…mas fique com ele.
- Não. Eu sei que é seu…o vento trouxe-o da sua varanda para eu ficar feliz, porque andava muito triste, e adoro flores.
- Ai, que vergonha…por favor não pense que vim atrás do guarda-chuva. Vim porque o meu anjo guiou-me até aqui, para a conhecer…e ainda bem, porque a senhora é uma maravilha. Virei mais vezes visitá-la.
- Obrigada filha…a sua visita é muito melhor que mil girassóis num guarda-chuva. E traga-me os seus poemas para lermos aqui…adoro poemas. E o interior do seu guarda-chuva está cheio de palavras bonitas…raras…hoje em dia! Eu sei que é seu…leve-o. E volte sempre que quiser…terei muito gosto em conversar mais consigo…
- Está prometidíssimo. Virei já amanhã e trarei os meus poemas.
- Eu vou ensinar-lhe a fazer bonecas de pano, se quiser…
- Claro que sim.
- Então venha…e leve o seu guarda-chuva. É lindo!
        O vento responde envergonhado:
- Sim, é verdade, Avó…esse guarda-chuva é dessa senhora…eu trouxe-o da sua varanda. Perdoe-me…eu só a queria ver sorrir, e feliz. Não roubei por maldade!
- Que feio, vento…! Isso não se faz…! - Diz a velhinha
- Tem toda a razão. – Diz o vento
- Óh, o vento não fez por mal. – Diz a dona do guarda-chuva
- Pois não… Perdoe-me, senhora…! - Diz o vento
- Não voltes a fazer isso…mas desta vez ainda bem que o fizeste, porque ganhei uma amiga para o resto da minha vida. – Diz a velhinha
- Isso tem toda a razão! – Diz a senhora
        E as duas abraçam-se, sorridentes. A senhora leva o guarda-chuva.
- Até amanhã…eu à noite telefono-lhe… - Diz a senhora
- Não te preocupes… e vamos tratar-nos por tu…sim?
- Como quiser…quiseres…por mim, sim.
- Até amanhã, querida…e muito obrigada pela visita…por teres entrado na minha vida.
- Muito obrigada eu.
        Dão mais um abraço, sorridentes.
- Até amanhã. – Dizem as duas
        E tanto uma como outra, estão muito felizes por se terem encontrado, por causa do guarda-chuva dos girassóis. A senhora chega a casa e prega girassóis num guarda-chuva para oferecer à velhinha e ficar com um igual ao seu. À noite, telefona para saber como é que ela está e desejar-lhe uma boa noite.
        No dia seguinte, as duas voltam a encontrar-se e trocam mimos e conhecimentos, aprendem muito uma com a outra. A senhora fica muito feliz com o guarda-chuva e com todos os pequeninos carinhos que a senhora lhe levou. Passam uma tarde excelente.
        Depois desse dia, nunca mais se separaram. Encontravam-se quase todos os dias, na casa uma da outra, à vez, iam passear de braço dado, riam e conversavam muito, e tornaram-se uma verdadeira família. A velhinha nunca mais se sentiu sozinha nem triste, e a senhora só ganhou com tudo o que a doce e simpática velhinha lhe ensinou.
        Roubar não se faz! É muito feio e mau, até o vento se arrependeu, ficou envergonhado e pediu desculpa. Foi por causa dos girassóis que nasceu uma bela amizade e uma família, mas também foi porque ambas tinham bons sentimentos. É melhor oferecermos uns aos outros o que temos, ou o que podemos oferecer, sem tirar ou roubar por maldade. Podemos oferecer um sorriso, uma pequena flor, um carinho, um colo, um ombro, uma mão, uns ouvidos…
Foi muito bem aceite por toda a família da senhora, principalmente pelos netos pequenos que também tratavam a velhinha como uma Avó, aprenderam muito com ela, deram-lhe muitos carinhos e atenção.
        Temos sempre muito que aprender com os mais velhos, por isso devemos respeitá-los, não os roubar, nem os maltratar.

                                       FIM
                                       Lálá

                                     (7/Abril/2015) 

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

BRILHO NOS OLHOS

Era uma vez uma menina que vivia com a sua mãe num apartamento pequenino. O seu pai não vivia com elas porque não se entendia com a mãe, e esta estava sempre muito ocupada com o trabalho…tão ocupada que não tinha tempo para estar e brincar com a menina.
            Sempre a menina lhe pedia para brincar, a mãe respondia-lhe que não podia, que estava muito ocupada, e às vezes até resmungava e ralhava com ela. Dizia-lhe para ir para o pai. Mas é claro que tudo era da boca para fora, porque a mãe sabia que a menina nunca iria para o pai.
            Para tentar compensar, e manter a pequena ocupada, enchia a filha de coisas materiais, que embora ela gostasse, cansava rápido. Isso não a preenchia. O que ela queria mesmo, pedia todos os dias nas suas orações: o carinho da mãe, o colo, os beijos, os abraços, o seu calor.
            A mãe não a ouvia rezar, e a menina fingia que estava feliz, só para a mãe não ficar triste…percebia que a mãe tinha muito trabalho. Quando o Natal se aproximou, a mãe perguntou à filha o que queria de prenda. A filha respondeu com o que pedia na oração.
A mãe não deu importância à resposta da menina, mas à noite, isso veio à sua mente…reflectiu e percebeu que realmente era muito desligada da filha, e que já tinha muitos brinquedos, mas o que a pequena queria mesmo, a mãe não dava. Só pensava em trabalhar, e nunca tinha tempo para ela.
Nesse momento, a mãe chorou e na sua oração pediu perdão por abandonar a filha e só querer saber de trabalho, e jurou mudar. Prometeu a si mesma que ia ser uma mãe mais presente, e que não ia pensar tanto no trabalho.
Desde essa noite, tudo foi diferente, entre mãe e filha. A mãe queria devolver o sorriso alegre e o brilho do olhar à filha. Sem lhe dizer nada, quis compensar todo o tempo perdido até aquele momento. Então, logo de manhã surpreendeu a filha…acordou mais cedo e foi para a beira dela, abraçou-a e encheu-a de beijos. A menina ficou muito surpresa e muito feliz. trocam carinhos, tomam o pequeno-almoço juntas, conversam, riem, e como eram férias foram juntas às compras de prendas, sempre de mão dada, a rir, a brincar e a conversar.
Quando chegaram a casa brincaram juntas. E todos os dias seguintes a mãe dedicou-se à filha, tornaram-se inseparáveis. Na noite de Natal, alem de estarem em família, com avós, tios e primos, e dos presentes, a mãe viu como a filha estava e andava tão feliz…e os seus olhos brilhavam muito mais que antes.
Para a mãe a felicidade e o brilho nos olhos da filha, foram o seu melhor presente de Natal. Para a filha, a presença da mãe todos os dias, todas as conversas, gargalhadas e mimos que a mãe lhe dera de um momento para o outro, foram o melhor presente de Natal para ela.
Às vezes a mãe não brincava muito tempo com ela, mas todos os dias tirava uns momentos para estar com ela, brincar, conversar, trocar carinhos, e isso era suficiente para deixar as duas muito felizes.
A mãe percebeu que tinha uma filha com um coração muito bom, porque uma coisa tão simples, vale muito mais do que mil brinquedos. às vezes não são precisos muitos brinquedos pois o que eles querem, e gostam realmente é de amor, carinho e atenção…a presença da mãe, pai, ambos ou outros que os amam.
Valores como estes, são prendas que os pais podem e devem dar todo o ano, são gratuitas, simples, não ocupam espaço, não se estragam e fazem muito bem à saúde.

FIM
Lálá

(21/Novembro/2014) 

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

O CAMPO


      Era uma vez um lavrador que tinha um campo enorme recheado de abóboras. Umas ainda só tinham os troncos e as folhas arrepiadas e enormes, que cobriam delicadamente as flores de futuras abóboras, outras, já tinham as cabecinhas a espreitar, e outras já estavam a crescer.
        Além das abóboras, o lavrador tinha no seu campo, belos e enormes cachos de uvas pendurados nas redes…Huummm…tentadoras! Apetecia comer só com os olhos. Maçãs, pêras, laranjas, romãs e amoras silvestres também faziam parte.
        Era um lavrador orgulhoso e vaidoso do seu campo. Tudo era tão apetitoso e provocador, que até toupeiras e companhia chegaram a comer sementes de abóbora e cabaço. Viam-se muitos buracos na terra.
        O lavrador ficou fora de si, de tão raivoso, e tentou várias vezes apanhá-las mas elas eram muito espertas…só apareciam ao fim da tarde, quando o lavrador não estava.
        Pensando que resolvia o atrevimento das toupeiras e impedia que comessem as outras sementes, construiu um espantalho assustador!
Um molho de palha, enorme, vestiu-lhe uma roupa, pôs-lhe um bigode e barba feitos em lã, uns olhos gigantes, feitos de bolas de futebol, com casca de laranja, uma carcaça de espiga, sem bolinhas de milho, a fazer de nariz e uma boca de tábuas com pregos a fingir que estava aberta e cheia de dentes.
Pôs um chapéu e uma vela no cimo. Estava mesmo assustador. Mas, infelizmente as coisas não correram como ele esperava. Uns morcegos passaram a voar baixinho e chocaram com a vela acesa. Ficaram com as asas chamuscadas, e guincharam nervosos. Deitaram a vela abaixo, e esta queimou o espantalho todo. O seu suporte e toda a palha de que era feito…a roupa…não sobrou nada! O espantalho ficou em cinzas.
O lavrador ficou muito assustado e triste. Não percebeu que foram os morcegos a destruir com a vela. Mas não desistiu. Ele tinha mesmo de proteger aquele campo, por isso, construiu outro espantalho, com uma decoração ainda mais feia e aterradora. Pô-lo no mesmo sítio do outro, com a certeza de que agora estava mesmo seguro.
Mas, infelizmente…saiu tudo ao contrário do que ele esperava! Durante a noite…enquanto o lavrador dormia, vários casais de cegonhas que vinham de muito longe, gostaram do sítio e estavam muito cansadas. Então, instalaram-se lá...atacaram o espantalho, tirando muitos pedaços de palha para fazer os ninhos.
Por estar incompleto e faltarem várias partes, vários outros passarinhos aproveitaram e tiraram mais pedaços. Isso fez o boneco desfazer-se e cair.
As ovelhas, os cavalos, os burros e as vacas aproveitaram logo e comeram a palha do boneco que estava no chão. As toupeiras continuaram a rabear por baixo da terra e a comer raízes e sementes. Por causa disso, alguns legumes e espigas apareceram ruídos ou estragados e murchos. As folhas das couves e alfaces começaram a aparecer ruídas…eram os caracóis que as comiam. Eles sabiam o que era bom.
O lavrador pensou que estava a ter um pesadelo, e não queria acreditar que o campo estava em reboliço.

- Malditos! Vou dar cabo de vocês… - Grita o lavrador muito zangado, quase a explodir.

        Todos os que tinham estragado o campo, riram com vontade.

- E agora…o que é que eu vou fazer?

        Dá uma volta pelo campo, pensativo, pára a olhar para todo o lado, triste, e não se lembra de nada.

- Como é que aqueles horríveis entraram aqui e fizeram isto com o meu campo? Malditos! – Grita – Apareçam covardes.

        É claro que eles não aparecerem, nem responderam, pois sabiam que não iam acabar bem. O lavrador dá outra volta, e tem uma ideia:

- Já sei! Desta vez não falha.

        Constrói vários espantalhos, terrivelmente feios e espalha-os pelo campo. No dia seguinte vê tudo na mesma. Planta novas sementes.
Entretanto, numa linda noite de lua cheia, o campo é visitado por uma bruxa e as suas aprendizes, que resolveram fazer uma festa. O resultado dessa desta com bruxas não podia ser bom. E não foi.
Destruíram tudo. Comeram abóboras inteiras, picaram-nas, e comeram o recheio, conviveram, dividiram as abóboras com os morcegos que também quiseram participar na festa, e nada sobrou.
Depois ainda se juntaram umas criaturas horríveis, desconhecidas que comeram os restos…pássaros enormes que comeram as uvas, pequenos seres estranhos e muito feios, despiram as espigas todas e levaram com elas as bolinhas de milho.
E por fim, uns cogumelos venenosos devoraram num abrir e fechar de olhos, os troncos, os troços, e as folhas dos cabaços. Não sobrou nada! No dia seguinte, o lavrador ficou destroçado, estava tão triste que desistiu de cuidar do campo.
Na noite seguinte, uma grande surpresa…o campo é visitado por um agricultor feito de estrelas cintilantes, e fadas. O agricultor de estrelas e as fadas alisam a terra, limpam-na, aspiram-na, sopram-na, afugentam todo o tipo de bichos que tentam aproximar-se com uma luz que dá choques eléctricos.
Depois da terra limpa e alisada, o agricultor e as fadas trabalham em conjunto: ele cava um buraquinho, uma fada deita as sementes, outra tapa com terra, outra regra, outra aduba.
Fazem vários carreirinhos na terra e plantam abóboras, cabaços, cenouras, cebolas, batatas, couves, milho, flores, feijões de várias qualidades, pepinos, curgetes, olhos franceses, xuxus, nabos, nabiças, e muitas mais coisas, incluindo árvores de frutos, nozes, castanhas, amêndoas, dióspiros, romãs e de tudo um pouco.
Por fim, outra fadinha sacode as asas e deixa uns lindos brilhantes na terra, e sobre tudo o que plantaram. Refugiam-se numa casinha num tronco velho e ficam a descansar.
Todos os dias e várias noites, várias semanas, as fadas e o agricultor feito de estrelas, iam vigiar o campo e cuidar dele. O lavrador recuperou da tristeza quando olhou para o seu campo e tudo estava tratado, limpo, com as produções a espreitar na terra.

- Áh! Quem esteve aqui?

        O lavrador nunca teve resposta para esta pergunta…só viu o resultado final…um maravilhoso campo recheado de coisas boas. tudo o que tinha sido plantado, cresceu enorme, suculento, tenro, fresco, de encher o olho.
        O lavrador colhe tudo quanto pode e come deliciado. Oferece algumas coisas aos seus familiares, amigos e vizinhos, e nascem umas coisas atrás das outras.
Com isso, o lavrador enriquece e volta a cuidar dos seus campos com muita dedicação, carinho e atenção, claro…com a ajuda do agricultor de estrelas e das fadas que ele nunca viu.
Mesmo que não os vejamos, podemos sentir, e sabemos que eles estão lá, por todas as coisas maravilhosas que comemos, e que colhemos da terra. Só pode ser tudo obra de uns seres muito especiais como…anjos…ou…fadas…ou…bom…aqueles que vocês quiserem. Não acham?
A natureza é um verdadeiro milagre! Ela dá-nos tudo o que tem de melhor, mesmo quando não a tratamos bem. Por isso, não faremos muito, se lhe retribuirmos de alguma maneira…por exemplo, a cuidar bem dela, protegê-la, e todos os dias agradecer o que ela nos dá! O ar, a vida, a água, a comida…a felicidade e a paz!

FIM
Lálá
(26/Outubro/2014)