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sexta-feira, 11 de julho de 2025

Os cubos doces


 

    Era uma vez uma casinha de campo, onde vivia um casal com filhos, e os netos, porque os pais tinham ficado no desemprego. Havia cada vez menos flores, por causa da poluição, e dos terrenos secos, pelo calor, e falta de chuva. 

  Isto era perigoso, e estava a tornar-se um problema, porque as abelhas precisavam de pólen, mas estava a tornar-se escasso. 

    Até as abelhas estavam a ficar desesperadas, com as flores secas. Um dia aproximaram-se da janelinha da casa, espreitaram, viram que havia um pacote em cima da mesa, com alguma coisa que os habitantes punham numa chávena. 

  Quando a família saiu, deixou uma frincha na janela, aberta. Entraram, cheirou-lhes a doce, puseram uma patinha, provaram, e era mesmo doce. Eram cubinhos de açúcar. Sem pensar duas vezes, chamaram umas pelas outras, e cada uma levou um cubinho para uma árvore. 

  Não sabiam que era açúcar, mas queriam era comer. A família regressou e reparou que o pacote estava quase vazio. 

   Muito assustados, procuraram pela casa, vestígios. Não descobriram nada, entretanto, na árvore, a Abelha Rainha ficou completamente possuída, ao saber que as abelhas tinham invadido uma casa, e roubado cubos de açúcar. 

  Chamou todas, olha-as nos olhos, com um ar ameaçador, e intimidatório, que elas congelaram. Sentiu vontade de gritar, e ralhar, respirou fundo e perguntou, desiludida: 

- O que é que vocês fizeram?

- Fomos… fomos… - dizem todas com medo 

- Foram onde? - pergunta a Rainha a tentar responder de forma calma 

- Fomos…

- Onde? - grita, zangada 

- Ahhh...

- Fomos à procura de comida. 

- À procura de comida...roubada? - explode a Rainha e grita: Roubaram cubos de açúcar...numa casa! (Põe a pata na testa, respira fundo) Verdade? 

- Sim…- dizem todas encolhidas e com medo 

- Não posso acreditar! Como puderam fazer uma coisa dessas? Como se atreveram? Quem é que vos ensinou a fazer isso? - grita a Rainha 

   As abelhitas, ficam muito envergonhadas e tristes, a olhar para o chão. 

- Pensaram no que fizeram? - pergunta a Rainha - que vergonha! 

- Desculpe Rainha, é que estávamos cheias de fome. - diz uma 

- Cheias de fome...francamente! - Resmunga a Rainha 

- É que há poucas flores, infelizmente, está tudo muito seco, temos de arranjar em algum sítio. - explica outra 

- Mas precisavam de roubaaaaaaaarrrr? - grita a Rainha com raiva e de olhos muito abertos

- Aquilo é docinho. - diz outra 

- Mas não é para vocês. - ralha a Rainha 

- Não faltam flores nos arredores, basta dar corda às patas e às asas, e procurar. Eu vi uma série delas. Vão imediatamente devolver os cubos de açúcar à família e pedir desculpa. - ordena a Rainha 

- Mas...

- Mas o quê? Não há mas, nem meio mas. Rápido, e eu estou de olho. 

- E se eles nos fazem mal? 

- Problema vosso. Ninguém vos mandou mexer no que não é vosso. Vão…! Eu estou a ver. 

      As abelhitas, tristes, pegam nos cubos de açúcar que sobraram, e pousam na janela da casa. Quando a família as vê, abre a janela, e repara que têm os cubos de açúcar na mão. A abelha Rainha vai atrás. 

- Encontraram os cubos de açúcar? - pergunta a dona da casa 

     A abelha Rainha vigia, e acena com a cabeça. 

- Nós...roubamos! - diz uma envergonhada 

- Roubaram? Como assim? - pergunta a senhora 

  A abelha Rainha acena com a cabeça, e dá a entender que também não percebe 

- Viemos devolver. - diz outra 

- E pedimos desculpa. - dizem todas 

- É que aqui quase não há flores e estão secas. 

- Pois! Não admira, da maneira que está o clima. 

- Estávamos cheias de fome. Isto era docinho, comemos algumas, mas viemos devolver as outras. 

- Realmente já tínhamos reparado que faltavam cubos, mas nunca pensamos que tivessem sido vocês. - diz o Senhor 

- Pois, têm razão! - dizem todas 

- Não voltamos a fazer isso. - diz outra 

- Podemos entrar para os colocar outra vez no saco? - pergunta uma abelha 

- Claro que sim. - diz a senhora 

- Obrigada! - dizem todas 

       Os donos da casa sentem pena delas, e põe um potinho de mel à disposição na janela.

- Isto é para vocês! Feito por vocês, ou por abelhas como vocês. Compreendemos que sentem fome! Por isso, como devolveram os cubos de açúcar, podem comer à vontade, fica aqui na janela, do lado de fora, e uma tacinha com água. Temos aqui mais. 

- Não nos vão atacar, pois não? 

- Não, claro que não! - garantem as abelhas 

- Estamos envergonhadas por termos roubado estes cubos de açúcar. 

- Está tudo bem, deixem isso para lá! Devolveram, obrigada, agora têm a recompensa: este potinho à disposição, com água, e quando este acabar, há mais. - diz a senhora 

- Muito obrigada! - dizem todas as abelhas 

- Em breve haverão mais flores, para se deliciarem com o pólen delas, e a nós, com o vosso trabalho, este mel, delicioso! 

- Que bom! - gritam todas as abelhas felizes, e tocam as asinhas umas nas outras 

- Sirvam-se à vontade! Com licença...vamos jantar - diz a senhora 

- Bom jantar, e muito obrigada. - dizem todas 

- Mais uma vez, pedimos desculpa 

- Estão desculpadas. 

  Apesar de zangada, a Abelha Rainha está orgulhosa, e as abelhitas deliciam-se com o mel, e a água, enquanto a família da casa janta. Recolhem, a Abelha Rainha diz sentir-se orgulhosa delas, para não se voltar a repetir, e ficou feliz com o prémio por terem devolvido os cubos de açúcar. 

    Todos os dias vão cumprimentar, alimentar-se, e conversar com a família, de repente, formam-se violentas tempestades, com trovoada, chuva, vento, vários dias e noites seguidas. Isso abre as sementes das flores que a senhora falou, às dezenas de todas as espécies, e cores. 

    Na altura de recolher o pólen, as abelhas estavam maravilhadas com as flores, e a qualidade do pólen, até ofereciam à família, que adorava comer pólen. Agradeciam às abelhas, e estas à família. A janela passou a ser a segunda casa das abelhas, e o local de trabalho. 

 Ganharam amigos humanos, com quem conversavam e partilhavam pólen, mel, água, dedicação, carinho, até aconchego em dias frios, ou quando queriam descansar, como recompensa. Também levavam à Abelha Rainha que parecia estar a comer um banquete de príncipes, sorria orgulhosa e deliciada, tal como a restante família das abelhitas. 

    Nunca mais passaram fome.

E vocês, acham que a Abelha Rainha teve razão? 

E as abelhitas, fizeram bem ter pedido desculpa e devolver os cubos de açúcar? 

Vocês faziam o mesmo que a senhora da casa? Sim, não, porquê? 

Podem deixar nos comentários, se quiserem. 

                                                                            Fim 

                                                                       Lara Rocha   

                                                                     11/Julho/2025 




quarta-feira, 27 de novembro de 2024

Os beijinhos das flores



     Era uma vez uma bela montanha com grandes rochedos, desviada da cidade de onde brotavam belos riachos de água. 

    Estes formavam cascatinhas, primeiro pequeninas, depois aumentavam a intensidade da água, à medida que seguiam caminho para um grande lago, onde havia um espaço muito agradável, verde, cheio de árvores, bancos e mesas para merendas, e um rio. 

    Mas além da água que se formava nas grutinhas das rochas, entre muitas fissuras espalhadas até ao rio, nasciam lindas flores selvagens, de várias cores, tamanhos, e  delicadas. 

    Tinham a companhia dos lobos, há muitos anos, das águias, dos falcões, dos veados, das corças, dos esquilos, morcegos, mochos, corujas, lagartixas, coelhos bravos, linces, corvos, e muitos outros. 

    Os pastores levavam o gado: as vacas, os bois, as ovelhas, as cabras, os bodes, para o pasto que naquela zona era muito bom, juntamente com os seus cães. 

    O vento, a chuva, o sol, o calor, as trovoadas, a neve, também marcavam a sua presença, de forma mais ou menos intensa, de acordo com a estação do ano. 

    Os pastores tinham sempre as suas casinhas de resguardo, porque já sabiam o tempo podia mudar. Infelizmente, nos últimos tempos, as cascatinhas e os riachos, tal como o grande rio do parque estavam praticamente secas e paradas, quase não circulavam pelas rochas, nem nas grutinhas. 

    Estavam sem força, e em vez de transparente, a sua cor, era verde, da pouca que circulava. As flores dos rochedos e da margem do lago, bebiam dela, mas andavam a sentir-se estranhas. 

    O sabor não era o mesmo, uma água que antes sabia tão bem, agora, sentiam um sabor estranho, não sabiam o que estava a acontecer. 

    Nunca tinham visto a água daquela cor, sentiam medo, mas bebiam-na porque não havia outra, e precisavam dela, caso contrário, secavam. 

    Uma tarde, ouviram dois pastores que tinham levado o gado, nos rochedos a comentar um com o outro: 

- Moço, já viste que está quase tudo seco, aqui? 

- Pois! Já reparei. Se calhar tem raízes ou lixo ali nas grutas! 

- Pode ser! Ou é de não chover há muito. 

- É verdade! Pode ser das alterações climáticas! Olha a cor da água! 

- Está horrível. Até lá em baixo! 

- Aquilo não será perigoso? 

    As flores ficam em pânico, agarradas aos caules, e trocam olhares: 

- Pois! Também tenho medo! Aquilo...aquela cor parece veneno. 

- Veneno? - murmuram as flores umas com as outras 

- Se for veneno, estamos todos fritos. 

- Fritos mesmo! Nós e o gado, tudo o que aqui está. 

- Não sei como é que as flores resistem.  

- Mas também veneno não será, se não, os nossos animais ficavam mal dispostos, e não estão. 

- Pois. Mas pelo sim, pelo não, é melhor analisarmos a água, não? Os animais bebem-na pelo caminho, mas para percebermos porque é que está daquela cor. 

- É. Boa ideia. Pode ser uma alga. Os meus às vezes também bebem, mas esta de cima também está quase seca, acho que é melhor do que a de lá de baixo! 

-É, mesmo assim, já está com uma cor estranha! 

- Vamos ver às grutinhas de onde ela sai, se há alguma coisa a poluir. 

- Boa ideia. 

    As flores ficam muito ansiosas e com muito medo. Os pastores entram nas grutinhas, iluminam o espaço, e não há nada a impedir a passagem da água, nem a polui-la. Quando voltam a sair, os dois comentam: 

- Nada! 

- É. Deve ser a própria poluição do ar, e de estarem paradas! Mesmo assim, já não são nada do que eram, e pelo sim, pelo não...vamos levar uma amostra para análise. 

- É. É melhor. Estas flores não estão com um ar muito saudável, mas deve ser da pouca água. 

    Os pastores recolhem um bocadinho de água num frasco limpo, em cima e em baixo, e levam ao laboratório. As flores, olham para a água, para ver o seu aspeto. 

- Que exagero, aqueles dois pastores! - comenta uma flor 

- Não estamos assim com tão mau aspeto. - comenta outra 

- Nem eu! - diz outra 

    Mesmo com muito medo, uma flor inclina-se e encosta as pétalas às águas, que tem ao seu lado, como se fosse dar um beijinho, soprar ou fazer uma oração. 

- Óh maravilhas águas, por favor...não estejam doentes, se não, onde vamos beber? Precisamos muito de vocês. Gratidão, gratidão, gratidão, Natureza, por estas águas que nos fazem bem! 

- A quem é que estás a agradecer? - pergunta uma 

- À Natureza! Ela gosta que lhe agradeçam, e acredito que está tão feliz, que vai limpar estas águas. 

- Ela não está boa do caule, nem das pétalas! - diz uma flor surpresa 

- A água deve ter mesmo qualquer coisa venenosa, nunca disse isto. - comenta outra 

    Dá mais um beijinho com a pétala, e endireita-se. As outras gritam: 

- Cuidado! Não te encostes a essas águas. 

- Também acho melhor não, enquanto não soubermos o que está a acontecer com essas águas. 

- Façam o mesmo! Ou não vão beber, só porque aqueles falaram? - convida a flor 

- O que é que tu fizeste? 

- Dei-lhe dois beijinhos e disse o que vocês ouviram. 

- E achas mesmo que as águas vão ficar limpas, só porque disseste isso… 

- Com certeza! Façam, e vão ver amanhã. 

- És mesmo sonhadora. - diz outra 

- Mas…- diz outra assustada 

- O que é que tem o mas? - pergunta a flor 

- Não sei...acho que não...quer dizer...não queria! Mas depois do que aqueles disseram, fiquei a pensar que podia estar ou podemos ficar doentes! - diz outra flor nervosa. 

- Há quanto tempo já bebemos desta água e as de lá de baixo, e nunca nos aconteceu nada? - pergunta a flor 

- Já há bastante tempo, é verdade, quer dizer...desde sempre que estamos aqui. Mas a água não era daquela cor. - responde a outra flor 

- Que mudou de cor e está fraca, está! Porquê? Não sabemos...-repara outra 

- Pode ser a poluição do ar, a falta de chuva. - diz a flor 

- Sim, é...! É verdade. Pelo que sei...desde que estamos aqui, quando não chove há muito tempo, ela fica com esta cor. - lembra outra flor 

- Pois é! - diz a flor 

- Vamos experimentar! Dar também um beijinho nas águas, para ver se acontece alguma coisa. - aceita outra flor 

- E não se esqueçam de agradecer. - reforça a flor 

- Boa! - dizem todas 

- É isso. - concordam todas

    Cada uma encosta as pétalas como fazem para beber, tocam com as pétalas nas águas e nas rochas, como se fossem a dar um abraço às rochas. As águas vibram e fazem pequeninas ondinhas, dão beijinhos com as pétalas e agradecem à Natureza. Convidam as de baixo a fazer o mesmo, e fazem.  

    Na manhã seguinte, nem querem acreditar no que estão a ver...as águas pareciam sair de todos os buracos e mais alguns, até de espaços invisíveis, como se tivesse chovido vários meses, e enchesse os riachos. 

    Uma água limpa, a correr com toda a força, as flores de cima e da berma do rio, aplaudem, felizes, e provam a água: 

- Humm...que delícia! - Suspiram todas 

- Como está transparente e abundante. - comenta uma 

- Mas o que é que aconteceu aqui? - pergunta outra 

- Parece que choveram meses seguidos de ontem para hoje! - comenta uma flor surpresa 

- Realmente! - dizem em coro 

- Que maravilha! - sorriem todas 

- Olhem a de lá de baixo, que espetáculo. Com o sol a dar, parecem brilhantes. - repara outra flor 

- Eu disse que ia resultar! - diz a flor que começou, orgulhosa. 

- Tinhas razão, a Natureza gostou que lhe agradecêssemos. - comenta outra flor 

- E dos nossos beijinhos. - acrescenta outra 

- Claro! Eu disse, e vamos agradecer outra vez, em coro? - sugere a flor 

- Claro que sim, ela merece. Meninas aí de baixo, gritem connosco...vamos agradecer à Natureza! 

- Estamos convosco! - gritam as de baixo 

- Um...dois...três…- grita uma flor de cima 

- Gratidão, gratidão, gratidão, querida Natureza!

    Dizem todas em coro e aplaudem. Chegam os pastores com o gado, e ficam quase congelados com a surpresa de ver tanta água e tão limpa. 

- Mas, mas...o que é que aconteceu aqui? - pergunta um pastor 

- Não sei. Mas realmente as análises deram tudo bem. 

    O gado bebe deliciado, e manifestam-se, como se estivessem a confirmar que aquela água está mesmo boa, e até eles ficaram surpresos. 

    Os pastores sobem com o gado, provam a água das rochas. 

- Que diferença! - diz um pastor 

- Realmente...é pura! - diz o outro 

    Ajoelham-se, rezam e agradecem o regresso e a limpeza da água. 

- E quando for época das chuvas, das trovoadas e da neve é que vai ser! - acrescenta um pastor 

- Pois é. - concorda o outro 

    Os dois dão uma gargalhada, de tão felizes: 

- Até as flores estão mais bonitas! - comenta um pastor 

- Pois estão. 

- Vou já encher a minha garrafa. 

- Eu também. 

    E os dois ficam a apreciar a mudança, encantados, enquanto o gado pasta e bebe a água, sem saberem que foram os beijinhos, os abraços e a gratidão das flores, à Natureza. 

                                                    FIM 

                                               Lara Rocha

                                        25/Novembro/2024  





quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

A oferta da jardineira

  

fotos de Lara Rocha 

  Era uma vez uma vez um jardim público de uma cidade. Numa tarde, uma senhora que lá ia todos os dias, apreciar cada rosa e cada flor, cada cor, encantada. 

     Observava flor por flor, todos os pormenores, e era como se estivesse a vê-las pela primeira vez, fotografava-as, olhava para elas lentamente, como se estivesse a comê-las e a saboreá-las, com um sorriso. 

      Andava à volta delas, tocava nas pétalas, carinhosamente e às vezes até lhe escapavam algumas lágrimas de felicidade. Por isso, agradecia aos jardineiros e jardineiras que já a conheciam, dando a mão e dois beijinhos, sorridente: 

- Olá! Bom dia! 

- Bom dia! - respondiam todos a sorrir 

- Como está, querida? - pergunta uma jardineira 

- Bem, obrigada, e a minha amiga? 

- Também, obrigada! 

- Como não podemos estar bem, neste jardim tão bonito, tão bem tratado, por vocês? Muito obrigada a cada um e a todos por isto.

- Obrigado! - diziam todos e todas 

- Estão fantásticas estas flores! 

- São cuidadas com amor e carinho! - diz outra jardineira 

- É verdade! É como eu trato as minhas, por isso é que estão tão bonitas. 

- Não tenho dúvidas disso! - diz outra jardineira 

        Uma outra jardineira pega numa semente que ia plantar de uma flor que ela sabia ser especial, para aquela senhora. Oferece-lhe e diz: 

- Obrigada pela sua simpatia e por nos dar valor! Por isso, ofereço-lhe esta semente de flor, para plantar num vaso, e pôr onde quiser na sua casa! 

- Óh! Mas que amor....levo com muito gosto, farei isso! Estou curiosa para saber qual é. 

- Isso, minha amiga, só quando ela despertar...acho que não demorará muito! 

- A seu tempo! Sei que elas precisam de tempo, carinho, dedicação, atenção, alimento, como nós! 

- Isso mesmo! 

- Bem, vou andando! Muito obrigada e até amanhã! - diz a senhora 

- Até amanha! - respondem todos 

        A senhora regressa a casa, planta a semente num vaso, cobre com terra, rega e deixa-a à luz do sol na varanda. 

- Bem vinda à minha casa! Foste-me dada com todo o carinho por uma pessoa boa, que já conheço há muito tempo! Ias nascer num jardim público, mas ela quis que crescesses aqui, comigo! Vou cuidar de ti! Que flor serás tu, sementinha? Cresce ao teu ritmo, não tenhas pressa, eu espero! Vais passar por várias fases, passa por cada uma delas, o tempo que precisares. 

        A senhora vai fazer outras coisas, e a semente ouviu a sua voz. 

- Que voz é esta? É...meiga! Pelo menos acho que gostei do que ela disse! De onde terei vindo? 

       Nesse dia seguinte, tudo na mesma, no dia seguinte também, A Sra. fala com ela todos os dias, rega quando é preciso, põe-na ao sol. 

        A sementinha ouve com atenção e ri-se. Ao fim de algum tempo, começa a aparecer o pezinho verde pequenino, fininho, leve, com umas folhinhas e uma cabecinha...a da flor, que se cansou de estar no escuro, e achou que já podia sair. Mas ainda não se mostra. 

- Áh! Aqui parece bem melhor! - diz a flor 

        As outras flores da varanda olham-na em silêncio, mas já sabem que é nova ali. A senhora fica numa grande alegria quando vê a flor a começar a aparecer. Bate palminhas, sorri-lhe: 

- Olá! Bons olhos te vejam pequenina flor! Já estás cá fora? Hummmm... 

        E conta-lhe como foi o dia. Para as outras não ficarem ciumentas, a senhora também cuida delas. O pezinho vai crescendo e alargando, tal como a cabecinha da flor, agora, em botão. 

- Áh! És uma rosa! - diz a senhora a sorrir - como cresceste! Já estás em botão! Que linda! De que cor serás? Para já não consigo ver! Mas deixa-te estar! Quando estiveres pronta, abre! 

        De tanto falar com ela, e cuidar com carinho, amor, a flor cresce rapidamente, Começa a falar com as outras que lhe dão as boas vindas. 

- Vocês são tão bonitas! E simpáticas. Obrigada por isso!

        As flores riem: 

- Ora essa! Nós é que agradecemos! 

- Tu também és igual a nós… 

- Quer dizer....igual não, tens uma cor diferente, mas és muito simpática e bonita!

- Óhhh…A sério? Obrigada! Já se vê a minha cor? 

- Quase! - dizem todas 

- Vermelha, cor de fogo...talvez! 

- Áh! Que giro! E que claridade é esta? Às vezes é muito escuro e fresco, outras vezes, fica assim uma claridade quente! Sabem dizer-me o que é? 

- É a noite! E o sol, o dia

- Ás vezes de dia não há sol, há nuvens e chuva! Mas há alguma claridade. 

- É. O muito escuro, é a noite! Quando a nossa mãe dorme! 

- Áh! - diz a flor - então agora é dia! 

- Sim! - dizem todas 

- E com sol! - acrescenta outra 

- Que agradável que é! - diz a flor 

- Sim! 

- Vocês gostam de estar aqui? - pergunta a flor 

- Sim! Muito. 

- Somos muito bem tratadas 

- Acredito! A mãe é muito carinhosa. 

- É! - dizem todas 

- A voz dela, e o carinho dela ajudam-nos a crescer, e a ficar mais bonitas, como ela disse! 

- Que giro! E à noite quando está muito escuro, o que fazem? 

- Fechamo-nos em nós mesmas. Cobrimo-nos com as nossas pétalas, quando há sol abrimo-nos para receber a claridade e guardar o calor que nos aquece à noite. 

- Áh! 

        As flores têm longas conversas, e riem. Uns dias depois, a flor cada vez maior, abre-se e mostra a sua cor. A outra flor tinha razão: ela é uma rosa cor de fogo, com rajadas vermelhas, cor de laranja, amarelas e uns toques de rosa. 

        As outras flores ficam maravilhadas com ela. 

- Áh! Ela tinha razão! És mesmo cor de fogo. Que bonita! 

- Vocês conseguem ver as minhas pétalas? 

- Sim! Já estás grande e aberta! 

- As nossas cores são todas diferentes! 

- Pois são! - dizem todas 

- Lindas, lindas! 

- Obrigada. Tu também és! 

        A Sra. chega da rua, e vai ter com as flores. Solta uma grande exclamação de surpresa e encanto: 

- Olá minhas belezas! Já viram a vossa amiga, como também é bonita? Que cores maravilhosas! Estás enorme. 

        A Sra. acaricia as pétalas de cada uma das rosas, sorri como costuma fazer no jardim, onde vai, fotografa e mostra `jardineira que lhe ofereceu a semente. A jardineira e as outras ficam deliciadas com aquela beleza. 

- Como é bonita essa rosa! É como a senhora. Não sabia o que estava na semente, mas é realmente especial. E como está enorme! Falou muito com ela, não? - pergunta a jardineira com um sorriso

- Sim, como falo com todas as outras! Mais uma vez muito obrigada por este presente! 

- De nada! Dei-lhe com todo o gosto, por dar valor ao nosso trabalho! 

- Claro que dou valor ao vosso trabalho! Se não fossem vocês isto não existia nem estaria bonito! 

- Obrigada, obrigado! - dizem em coro, jardineiras e jardineiros 

- Obrigada, nós! E volte sempre. Estamos por aqui. 

- Que bom que estão por aqui! 

        Dão um abraço, sorriem, e as flores tratam muito bem da rosa cor de fogo! São uma verdadeira família de flores. Conversam, riem, apreciam a paisagem de dia, surpreendem-se com as mudanças do tempo.

       Sentem o vento, abraçam-se  e encostam-se mais umas às outras quando está mais frio, veem a chuva, adoram ouvir o seu barulho a cair, e às vezes também apanham com algumas gotas.  

        Sentem o sol, e adoram o seu calor, a claridade, à noite recolhem-se e descansam. A Sra. nunca as abandona. Vai todos os dias falar com elas, quando está a chover tocada à vento, e quando está frio, ela puxa-as para uma zona coberta da varanda, põe um biombo à sua frente para não se molharem, rega-as, acaricia-lhes as pétalas, uma por uma, e elas agradecem com a sua beleza. 

        Já pensaram como os jardineiros dos jardins das cidades são importantes? São eles que tornam esses espaços tão bonitos aos nossos olhos que adoramos fotografar, e apreciar. São os jardineiros e jardineiras que põem as flores na terra e cuidam delas com carinho e amor regam-nas, alimentam-nas, falam com elas e mantêm o espaço à sua volta, limpo. 

        A minha gratidão a todos os jardineiros e jardineiras que fazem tudo para ajudar a natureza a presentear-nos com a sua beleza! E a todas as pessoas que têm flores em casa e cuidam tão bem delas com carinho, dedicação, atenção e amor! 

E vocês tratam bem das flores? Gostam de as ver? Conhecem alguém que trate de flores? Agradeçam-lhes por tratarem tão bem delas. 

                                            FIM 

                                       Lara Rocha 

                                     10/Janeiro/2024 

quarta-feira, 23 de março de 2016

A bruxa irada



Era uma vez umas flores muito belas que viviam sossegadas no seu jardim. Certo dia, uma bruxa que odiava flores, perguntou ao seu namorado:
- Bruxão, monstrão…meu horroroso…quem é mais bonita…eu…ou aquelas coisas?
- Claro que és tu, minha horrorosidade monstrona. – Responde o namorado
- Pois claro! Eu sabia! É claro que não ias gostar daquelas pirosas, vaidosas, pois não?
- Claro que não! Eu só gosto de ti…quer dizer, odeio-te, minha monstruosa horrível.
        A bruxa desata a rir, e trocam carinhos. Entretanto, sem ela saber, e enquanto tomava o seu banho em lama quente, o namorado foi ter com as flores, ao jardim.
        Ele tinha dito à bruxa que não gostava de flores, mas mentiu! Na verdade, ele gostava mesmo muito das flores, e até ia ter com elas, disfarçado de vespa.
        As flores não sabiam quem ele era, mas gostavam dele…ele tinha sempre uma conversa muito agradável e simpática, era delicado. As flores nem imaginavam que era o monstro namorado da bruxa.
E por falar na bruxa…quando ela não viu o seu namorado em casa, e ele não respondia às suas chamadas, foi ao seu caldeirão ver se o descobria.
Quando a bola de cor de fogo do caldeirão abriu, ela viu o seu namorado disfarçado de vespa, de volta das flores de quem ela tinha tanta inveja e tanto detestava.
- Mas o que é isto? O que é que ele está a fazer de volta destas pirosas?
- Ele mentiu-te! – Soa uma voz
- Mentiu? Como assim?
- Mentiu! Disse-te que não gostava das flores, mas na verdade…gosta…e olha como! Olha para ele, vestido ou disfarçado de vespão, para andar à volta delas…! E mais…
- Mais? Não chegava mentir-me?
- Não! Mentiu-te, e chega! A mentira que ele te disse, não foi só essa, de que não gostava das flores…ele acha-as lindas!
- O quê?
- Isso mesmo…ele acha as flores muito mais bonitas do que tu!
- Não pode ser!
- É! Olha para ele, todo derretido com elas…
- Ááááhhh… (grita) não pode ser!  
- Pode! E é!
- Mas como é possível? Como é que ele fez isto comigo? Maldito! E malditas flores…
- Confessa lá…tu até gostas delas…
- Claro que não. Já me conheces bem…
- Estás ruída de inveja delas.
- Bom…claro…isso sim. Mas a culpa é dele.
- Pois. Ninguém diz o contrário. Porque estás tão ciumenta?
- E achas que não é para estar?
- Acho que não! Elas são só umas flores…tu és uma bruxa. Com as flores, nunca vai poder ter nada…e contigo…pode…e tem!
- Ele nunca me fez isto.
- Que tu saibas…
- Sabes de alguma coisa, que eu não sei?
- Não. Só sei tudo o que tu sabes.
- Huummm…
- Mas que saibamos, ele nunca te enganou, nem tu a ele.
- Eu já. Ele é que não soube!
- A sério? Ááááhhh…
- Claro.
- Conta-me…
- Noutra altura, agora não posso! Tenho de me concentrar no castigo… ele mentiu-me a dobrar… maldito!
        Fica tão nervosa, tão irritada e chateada, que grita, guincha, e pensa numa vingança.
- Malditas…e maldito! Vão ver…
        Prepara no caldeirão um castigo: uma valente tempestade! Primeiro, põe milhares de nuvens no céu, roxas, pretas, cinzentas, azuis-escuras, quase a rebentar. O sol fica completamente tapado.
- Ei…! – Dizem todas as flores
- O que aconteceu? – Pergunta uma flor
- Ficou noite, de repente? – Pergunta outra flor
- Não! – Dizem todas
        Olham para o céu.
- Parece que vai chover! – Diz o namorado da bruxa
- Pois! – Dizem todas
- Óh não! – Diz o namorado da bruxa
- O que foi? – Pergunta outra flor
        O namorado suspeita, mas disfarça:
- Áh! Acho que vamos ter de nos abrigar.
- Onde? – Perguntam as flores
- Acho que vamos ter de levar com ela! – Comenta outra flor
        A bruxa desata às gargalhadas, e grita, gira as mãos, e faz levantar uma forte ventania. A vespa que era o seu namorado, tenta voar, mas não consegue, e dá uma série de cambalhotas com o vento.
        As flores gritam e quase são arrancadas da terra, batem várias vezes na terra e choram muito assustadas, abraçam-se para tentar segurar-se.
        A vespa bate várias vezes nas árvores pelo jardim, e desata a chover, uma valente tromba de água. As flores ficam rodeadas de lama, e quando estavam quase a afogar-se, com tanta água, o namorado da bruxa chama uma nuvem amiga sua, e boa. Ela desce ao jardim e protege-as da chuva.
        A bruxa fica completamente histérica de raiva.
- Outra…? Mas que traidor…
        Castiga o namorado de várias maneiras, sacode-o, puxa-lhe as asas, aperta-o, tenta esmagá-lo, dá-lhe sapatadas através do vento, e forma-se trovoada. As flores não se molharam mais, com a nuvem a protegê-las. A bruxa puxa o namorado, todo amassado. Ele grita quando a vê:

- Olha o que me fizeste! Foste tu, não foste?
- Quem mais podia ser? Idiota…traidor…- grita a bruxa
- O quê?
- O quê? Pergunto eu… o que é que estavas a fazer de volta daquelas pirosas malditas? E disseste que não gostavas delas…
- Eu sabia que isso tinha garra tua.
        Ela dá-lhe um estalo e puxa-lhe os cabelos. Agarra-lhe no pescoço e grita-lhe:
- Mentiste-me! Maldito! Disseste que não gostavas daquelas nojentas, e afinal disfarças-te de vespa para andar de volta delas.
- Sou só amigo delas!
- Sou só amigo delas…que palerma! Odeio essa palavra. Isso é traição.
- Não. É amizade. Tu também tens amigos, e amigas, mas és minha namorada.
- Mas eu não me disfarço para ir ter com eles, e tu sabes quem são…tu disfarças-te de vespa para andar de volta delas. E ainda chamaste outra…para as defender…que ódio…
- Claro. Como é que eu ia chegar a elas? Que outra?
- Aquela nuvem. Não tinhas nada que te chegar a elas.
- Porquê?
- Porque eu odeio-as…são horrorosas…e tu, todo babado com elas…que nojo. Mentiste-me!
- Não menti…só não te disse!
- Estúpido. Não me disseste, e mentiste!
- Ciumenta.
- Claro que sou. E depois?
- E depois? É mau.
- É como nós. Podias gostar de outra coisa…de outra bruxa qualquer…agora…daquelas…francamente! Traíste-me.
- Não te traí. Amigas não são a mesma coisa que namoradas. Não sejas assim.
- Estás feito bonzinho agora…? Foram elas que te deram a volta à cabeça? Disseste que eu era a mais bonita, então porque foste atrás delas?
- E és. Mas as flores também são bonitas.
- Ainda confessas?
- Confesso. Acho-as bonitas, mas não podia dizer-te porque já sei que és muito ciumenta.
- Quem é mais bonita afinal?
- És tu! Mas elas também são, não és a única bonita…
- Palerma! Pelo menos agora não me mentiste…é a tua sorte…mas, ai de ti que vás outra vez ter com elas.
- Mas o que é que tem, ir ter com elas?
- Ainda perguntas? Não podes.
        Dá-lhe umas fustigadas.
- Ai! – Geme ele
- É para aprenderes que sou tua! E mais ninguém pode ser.
- Elas são minhas amigas.
- Não podem ser. Ou elas, ou eu.
- Que disparate. Então o nosso namoro fica por aqui.
- Vais atrás delas?
- Vou. Para ver se ganhas juízo.
        Ele sai a porta, e a bruxa faz uma série de maldades, para tentar destruir as flores e o namorado. Mas ele defende-se e defende sempre as amigas. Protege-as.
        Mais tarde, a bruxa sentiu falta do namorado e pediu-lhe que voltasse, prometendo que o deixava ser amigo das flores. Ele não acreditou nela, e não voltou.
        A bruxa cansou-se, e desistiu de chatear o rapaz, entregando-se à tristeza e à solidão. O choro dela ouvia-se muito longe, e estava a ficar doente, fraca.
Isto fez com que ela deixasse de ser má, e tornou-se também amiga das flores, que a ajudaram com pena dela. Assim, ganhou outra vez o amor do namorado.
        E foram felizes para sempre…com a amizade das flores, a quem a bruxa pediu desculpa. Ela deixou de ser má e de ser ciumenta.

FIM
Lálá 
(23/Fevereiro/2015)





domingo, 12 de abril de 2015

A lenda do jardim adormecido

                                    
Foto tirada por Lara Rocha 

      Era uma vez um jardim cheio de flores, animais e árvores, onde não havia barulho nem movimentos, nem sons, nem cores. Só havia silêncio, um silêncio que arrepiava e dava medo. Até o vento quando passava por lá, muito raramente, corria o mais depressa que podia para sair rápido, pois aquele sítio não era saúde para ninguém. Até ele que às vezes é frio, sentia frio nesse jardim.
Além disto, era um jardim muito escuro, parecia ser sempre noite, aquelas noites sem estrelas, nem lua. O sol já não entrava lá há muitos anos, por isso, em muitos sítios até havia nevoeiro, humidade e vapores mal cheirosos.
Muito pouco gente sabia da existência do jardim, só os habitantes mais velhos dessa pequenina vila que só tinham ido lá quando eram ainda muito pequenos, depois ficaram com tanto medo que nunca mais voltaram.
Quando as crianças se portavam mal eram ameaçadas que iam para lá. Elas não conheciam o local, só sabiam que era parecido com o quarto escuro que os pais falavam, e por ser tão escuro, tinham medo.
Um dia, esse vale é visitado por uma fada que transportava consigo uma harpa, e ia montada num lindo unicórnio branco, brilhante, de olhos azuis. Era tão branco que iluminava o caminho porque a luz da lua reflectia nele e tornava-se mais forte. Ela gostava muito de passear à noite com o seu amigo, para se inspirar e construir novas músicas, descansar da confusão e da agitação do dia-a-dia.
De repente o unicórnio pára.
- O que foi amigo? Estás cansado?
- Não.
- Então, porque paraste?
- Sinto algum mistério no ar… as vibrações não são boas.
- Estás com medo?
- Não, mas desconfortável.
- Onde será aquele jardim adormecido?
- Pois…não sei.
- Se calhar estamos perto.
- Mas tu queres ir lá?
- Quero.
- Para quê?
- Para conhecer.
- Desculpa, acho que não é boa ideia.
- Porque não?
- Não sei explicar, só sei que não gosto das vibrações.
- Eu já venho.
- Vais entrar ali?
- Vou só ver…fica descansado.
- Se precisares chama-me.
- Está bem.
        O unicórnio fica inquieto, nervoso e preocupado…muito atento a todos os movimentos da fada. Ela voa e de cima vê o jardim.
- Acho que encontrei! – Grita ela para o unicórnio
        O unicórnio encontra uma entrada, muito escura, e entra. Ilumina o caminho.
- Isto parece um jardim. – Comenta a fada
- É… Mas eu não gosto deste jardim. Já percebi, as vibrações vinham daqui. - Diz o unicórnio
- Eu quero conhecer.
- Mas como vais conhecer? Não tem nada…só se vê escuro.
- De certeza que tem alguma coisa.
- Não me parece.
- A lenda diz que era um jardim, e ficou adormecido com o feitiço daquela duende muito ciumenta e solitária, que foi abandonada pelo seu elfo que se apaixonou por outra duende.
- Óh, mas que injustiça.
- Acontece!
- Eu acho que ela não devia ter ficado assim tão triste…haveriam muitos mais elfos disponíveis para ela.
- Ela devia amá-lo mesmo.
- Óh, não gosto dessa lenda. É triste.
- Tem o seu lado bonito…
- A lenda devia ter terminado com eles a voltarem um para o outro, porque era sinal que o amor era mais forte…
        A fada ri-se.
- És mesmo romântico.
- Sim, sou. Eu não abandonava a minha apaixonada.
- Isso eras tu, mas a ti também pode acontecer…podes apaixonar-te por outra unicórnia ou ela por outro.
- Óh, não…não quero isso.
- Às vezes não depende da vontade. Acontece.
        De repente ouve-se alguém que manda calar:
- Xiiiiiuuuuuu…
        A fada estremece. O unicórnio encolhe-se e estica-se. Os dois ficam quase estáticos.
- Acho que está aqui mais alguém… - Diz a fada baixinho
        Ela dá um pequenino acorde, suave na harpa. Ouve-se um grito:
- Ááááááhhhh…pouco barulho…vão-se embora.
        A fada baixa mais um pouco, e liga a sua lanterna.
- Quem está aí? – Pergunta a fada
        Ninguém responde. Ela continua a tocar a sua harpa. Todo o jardim fica encantado com o som da harpa, e muito devagar, começa a despertar…as árvores…uma de cada vez, depois as flores, uma por uma, e depois os animais. Estão um pouco assustados e perdidos.
A duende da lenda aparece sentada na berma de uma fonte que também começou a deitar água, e despertou todas as outras. Agora o jardim tem sons e movimentos: sons das árvores e das flores a bocejar, a espreguiçar-se, e a reconhecer o espaço, o som e o movimento dos animais que saem das tocas e dos troncos, chilreiam, guincham, e correm de um lado para o outro, e o leve som da água.
- Como é que entraste aqui? – Pergunta a duende da lenda
- Olá…és a duende da lenda?
- Lenda? Que lenda? Sou só uma duende. Eu quero saber como é que entraste aqui?
- Toda a gente me tinha falado de um jardim adormecido…e ao passear por aqui, percebi que havia alguma coisa de diferente.
- Que interessante…! É sinal que vês bem. E porque é que entraste?
- Porque quis ver como era, de perto.
- E o que é que diziam deste jardim?
- Diziam que este jardim ficou adormecido por causa da tristeza de uma duende que foi abandonada pelo seu elfo que se apaixonou por uma outra duende.
- Sim, foi verdade…não foi lenda. Essa de quem falam era eu.
- Áh! Deve ter sido muito triste…
- Claro! O jardim adormeceu com a minha tristeza…viveu comigo a tristeza, e adormeceu quando eu me cansei de chorar e de ficar triste. Eu também adormeci. Acordei agora com a tua harpa.
- Este jardim é muito escuro…
- Claro. Quando há tristeza, não há luz. A tua harpa despertou todos nós.
- Há quanto tempo estavam a dormir?
- Não faço a mais pequena ideia. Quando vim para aqui, perdi a noção do tempo, e de tudo. Deixei de existir, tal como este jardim.
        A luz da lua entra no jardim, e o unicórnio também, muito preocupado.
- Há quanto tempo não via a luz da lua! Que linda que é! Lembro-me que adorava ver a Lua. Vais ficar aí a pairar? Desce e senta-te aqui…! – Diz a duende
- Obrigada.
        As duas sentam-se, olham-se e sorriem:
- Que linda que és. E adoro esse instrumento que tocas.
- Harpa.
- Sim.
- Obrigada.
- Obrigada eu, por nos despertares.
        A duende conta tudo à fada. A fada e o unicórnio ouvem atentamente, umas vezes ficam tristes como a duende, outras vezes suspiram e sorriem.
- Que linda, mas triste história de amor. – Diz o unicórnio
- Foi feliz e linda enquanto durou, depois acabou. Já não sei há quanto tempo. – Diz a duende
- Dizem que vai mesmo há muito tempo. – Acrescenta a fada
        E de manhã bem cedo, o sol começa a entrar nesse jardim. A duende fecha os olhos.
- É o sol… - Diz ela
- Sim!
- O sol faz-nos muito bem! – Diz o unicórnio
- Estás habituada ao escuro, faz-te impressão. – Diz a fada
- Pois é. Mas passa já.
        Todo o jardim acorda, e transforma-se num lugar cheio de cores, além dos movimentos e sons que já se iam ouvindo.
- Não quero mais ficar triste, nem viver no escuro. Quero rir outra vez, brincar como fazia antes, e começar tudo de novo. – Diz a duende, feliz
        E a fada aplaude. O jardim festeja.
- Posso ir contigo? – Pergunta a fada
- Claro que sim…
        E as duas saem do jardim, montadas no unicórnio. No jardim, todos cantam, dançam, correm, trocam carinhos e elogios, conversam, refrescam-se nas fontes, saltitam, rirem muito. Até as fontes ganham mais força. Há milhares de cores e flores, árvores de todo o tipo, aves enormes, e outros pássaros de espécies raras.
O unicórnio corre com elas livremente, salta, depois vão a pé, exploram todo o jardim, e os campos, rebolam na relva, riem muito, não param um segundo. Os habitantes ainda não sabem o que aconteceu, mas vêem muita luz naquele jardim que avistavam sempre escuro.
- Áh! Olhem…há luz, ali. – Comenta uma senhora
- Ui, no jardim adormecido? – Pergunta outra senhora
- Sim!
- O que terá acontecido?
- Se calhar, o feitiço quebrou-se… - Diz uma menina
- Ou ele voltou para ela. – Diz outra menina
- E agora vão ser muito felizes… - acrescenta outra senhora
- Vamos lá visitar… - sugere um senhor
        E todos saem de casa. Vão visitar esse espaço…que agradável surpresa. Vêem o sol a dar nas flores e na água, parece que até dão luz. Afinal não tinha nada a ver com a lenda que contavam.
Andaram à procura da duende, na esperança que ela ainda estivesse lá, para que confirmasse a lenda, mas não tiveram essa sorte, porque ela andava a divertir-se e a reconhecer o espaço, depois de tanto tempo que dormiu e que viveu no escuro. A duende nunca mais parou…acompanhou a fada nos seus trabalhos, e como estava feliz. Adorava ajudá-la, e às vezes voltava ao jardim onde esteve muito tempo a dormir, só para visitar os amigos que viveram com ela a tristeza, e também dormiram.
Todos no jardim estavam muito felizes por ela. Agora, este jardim, que ficou adormecido, era um lugar muito visitado e apreciado.
        E vocês? O que acham?
Terá sido uma lenda, ou realidade?
Que personagem gostariam de ser? A fada, a duende, ou o unicórnio? O que faziam?  
        Se estivermos muito tempo na tristeza, ficamos adormecidos para tudo o que há de bonito à nossa volta, como a duende no jardim adormecido. A tristeza faz parte de nós, e da vida, mas é melhor não ficarmos muito tempo com ela. Precisamos de sol, e de luz.

                                       FIM
                                       Lálá
                                (12/Abril/2015)