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sexta-feira, 11 de julho de 2025

Os cubos doces


 

    Era uma vez uma casinha de campo, onde vivia um casal com filhos, e os netos, porque os pais tinham ficado no desemprego. Havia cada vez menos flores, por causa da poluição, e dos terrenos secos, pelo calor, e falta de chuva. 

  Isto era perigoso, e estava a tornar-se um problema, porque as abelhas precisavam de pólen, mas estava a tornar-se escasso. 

    Até as abelhas estavam a ficar desesperadas, com as flores secas. Um dia aproximaram-se da janelinha da casa, espreitaram, viram que havia um pacote em cima da mesa, com alguma coisa que os habitantes punham numa chávena. 

  Quando a família saiu, deixou uma frincha na janela, aberta. Entraram, cheirou-lhes a doce, puseram uma patinha, provaram, e era mesmo doce. Eram cubinhos de açúcar. Sem pensar duas vezes, chamaram umas pelas outras, e cada uma levou um cubinho para uma árvore. 

  Não sabiam que era açúcar, mas queriam era comer. A família regressou e reparou que o pacote estava quase vazio. 

   Muito assustados, procuraram pela casa, vestígios. Não descobriram nada, entretanto, na árvore, a Abelha Rainha ficou completamente possuída, ao saber que as abelhas tinham invadido uma casa, e roubado cubos de açúcar. 

  Chamou todas, olha-as nos olhos, com um ar ameaçador, e intimidatório, que elas congelaram. Sentiu vontade de gritar, e ralhar, respirou fundo e perguntou, desiludida: 

- O que é que vocês fizeram?

- Fomos… fomos… - dizem todas com medo 

- Foram onde? - pergunta a Rainha a tentar responder de forma calma 

- Fomos…

- Onde? - grita, zangada 

- Ahhh...

- Fomos à procura de comida. 

- À procura de comida...roubada? - explode a Rainha e grita: Roubaram cubos de açúcar...numa casa! (Põe a pata na testa, respira fundo) Verdade? 

- Sim…- dizem todas encolhidas e com medo 

- Não posso acreditar! Como puderam fazer uma coisa dessas? Como se atreveram? Quem é que vos ensinou a fazer isso? - grita a Rainha 

   As abelhitas, ficam muito envergonhadas e tristes, a olhar para o chão. 

- Pensaram no que fizeram? - pergunta a Rainha - que vergonha! 

- Desculpe Rainha, é que estávamos cheias de fome. - diz uma 

- Cheias de fome...francamente! - Resmunga a Rainha 

- É que há poucas flores, infelizmente, está tudo muito seco, temos de arranjar em algum sítio. - explica outra 

- Mas precisavam de roubaaaaaaaarrrr? - grita a Rainha com raiva e de olhos muito abertos

- Aquilo é docinho. - diz outra 

- Mas não é para vocês. - ralha a Rainha 

- Não faltam flores nos arredores, basta dar corda às patas e às asas, e procurar. Eu vi uma série delas. Vão imediatamente devolver os cubos de açúcar à família e pedir desculpa. - ordena a Rainha 

- Mas...

- Mas o quê? Não há mas, nem meio mas. Rápido, e eu estou de olho. 

- E se eles nos fazem mal? 

- Problema vosso. Ninguém vos mandou mexer no que não é vosso. Vão…! Eu estou a ver. 

      As abelhitas, tristes, pegam nos cubos de açúcar que sobraram, e pousam na janela da casa. Quando a família as vê, abre a janela, e repara que têm os cubos de açúcar na mão. A abelha Rainha vai atrás. 

- Encontraram os cubos de açúcar? - pergunta a dona da casa 

     A abelha Rainha vigia, e acena com a cabeça. 

- Nós...roubamos! - diz uma envergonhada 

- Roubaram? Como assim? - pergunta a senhora 

  A abelha Rainha acena com a cabeça, e dá a entender que também não percebe 

- Viemos devolver. - diz outra 

- E pedimos desculpa. - dizem todas 

- É que aqui quase não há flores e estão secas. 

- Pois! Não admira, da maneira que está o clima. 

- Estávamos cheias de fome. Isto era docinho, comemos algumas, mas viemos devolver as outras. 

- Realmente já tínhamos reparado que faltavam cubos, mas nunca pensamos que tivessem sido vocês. - diz o Senhor 

- Pois, têm razão! - dizem todas 

- Não voltamos a fazer isso. - diz outra 

- Podemos entrar para os colocar outra vez no saco? - pergunta uma abelha 

- Claro que sim. - diz a senhora 

- Obrigada! - dizem todas 

       Os donos da casa sentem pena delas, e põe um potinho de mel à disposição na janela.

- Isto é para vocês! Feito por vocês, ou por abelhas como vocês. Compreendemos que sentem fome! Por isso, como devolveram os cubos de açúcar, podem comer à vontade, fica aqui na janela, do lado de fora, e uma tacinha com água. Temos aqui mais. 

- Não nos vão atacar, pois não? 

- Não, claro que não! - garantem as abelhas 

- Estamos envergonhadas por termos roubado estes cubos de açúcar. 

- Está tudo bem, deixem isso para lá! Devolveram, obrigada, agora têm a recompensa: este potinho à disposição, com água, e quando este acabar, há mais. - diz a senhora 

- Muito obrigada! - dizem todas as abelhas 

- Em breve haverão mais flores, para se deliciarem com o pólen delas, e a nós, com o vosso trabalho, este mel, delicioso! 

- Que bom! - gritam todas as abelhas felizes, e tocam as asinhas umas nas outras 

- Sirvam-se à vontade! Com licença...vamos jantar - diz a senhora 

- Bom jantar, e muito obrigada. - dizem todas 

- Mais uma vez, pedimos desculpa 

- Estão desculpadas. 

  Apesar de zangada, a Abelha Rainha está orgulhosa, e as abelhitas deliciam-se com o mel, e a água, enquanto a família da casa janta. Recolhem, a Abelha Rainha diz sentir-se orgulhosa delas, para não se voltar a repetir, e ficou feliz com o prémio por terem devolvido os cubos de açúcar. 

    Todos os dias vão cumprimentar, alimentar-se, e conversar com a família, de repente, formam-se violentas tempestades, com trovoada, chuva, vento, vários dias e noites seguidas. Isso abre as sementes das flores que a senhora falou, às dezenas de todas as espécies, e cores. 

    Na altura de recolher o pólen, as abelhas estavam maravilhadas com as flores, e a qualidade do pólen, até ofereciam à família, que adorava comer pólen. Agradeciam às abelhas, e estas à família. A janela passou a ser a segunda casa das abelhas, e o local de trabalho. 

 Ganharam amigos humanos, com quem conversavam e partilhavam pólen, mel, água, dedicação, carinho, até aconchego em dias frios, ou quando queriam descansar, como recompensa. Também levavam à Abelha Rainha que parecia estar a comer um banquete de príncipes, sorria orgulhosa e deliciada, tal como a restante família das abelhitas. 

    Nunca mais passaram fome.

E vocês, acham que a Abelha Rainha teve razão? 

E as abelhitas, fizeram bem ter pedido desculpa e devolver os cubos de açúcar? 

Vocês faziam o mesmo que a senhora da casa? Sim, não, porquê? 

Podem deixar nos comentários, se quiserem. 

                                                                            Fim 

                                                                       Lara Rocha   

                                                                     11/Julho/2025 




terça-feira, 9 de outubro de 2018

O gigante esfomeado

  

Era uma vez um ser gigante, que sobrevoava muitas cidades. Quer dizer...na verdade ele não era assim tão gigante! 
Só parecia, porque quando o viam ele estava muito esfomeado, como só conheciam a sua sombra e os barulhos que fazia, imaginavam-no com um tamanho assombroso, uma bocarra enorme, garras e patas que impunham respeito.
Mas ao aterrar para ir buscar comida, ninguém pensava que ele era a figura escura que viam, porque tinha um tamanho normal, não passava de um gato grande. 
Como é que ele parecia tão gigante, ninguém sabe explicar. Talvez fosse a sua fome, que o tornava muito maior do que era na realidade.
Mesmo assim, ele continuava a assustar, porque a sua fome não era bem de comida. Corria atrás das pessoas, e todos gritavam, porque pensavam que ia atacá-los, ou comê-los. O pequeno gigante não entendia porque todos fugiam dele.
Um dia, o sábio da aldeia, farto de queixas desse ser assustador, pediu para ser chamado quando esse tal monstro aparecesse que ele queria vê-lo. O sábio não acreditava que fosse um monstro, havia alguma coisa que lhe dizia que as pessoas estavam a exagerar.
         E assim foi. Quando o terrível monstro imaginário voltou a aparecer, todos os habitantes gritaram. O sábio apareceu. O gigante ficou assustado, e tremia, branco, com o medo.

- É ele! - Gritam todos

- Cuidado! - Recomenda um vizinho

- Ele é perigoso, olhe que tem máscaras e tudo, porque quando o vemos aqui por cima é enorme e ruidoso, aqui em baixo é esta amostra.

- Não se deixe levar pelo ar dele... é falso.

- Calem-se! Vão para as vossas casas. Eu quero ficar a sós com ele.

- Mas... - dizem todos surpresos

- Eu já disse. Vão para casa.

- Mestre...

- Casa! - Ordena o sábio

- Veja lá!- Alertam todos

- Casa. - Diz o sábio firmemente

- Se precisar...

- Vão!

Todos se retiram, com medo, e o gigante ainda com mais medo. O sábio olha-o de cima a baixo. Suspira, fecha os olhos, fica em silêncio uns segundos e dá uma risadinha...depois... solta uma valente gargalhada, que quase congela o gigante.

- Óh, pequeno...desculpa a minha gargalhada! - Diz o sábio

O gigante está quase congelado com o medo

- Então... tu... é que... (outra gargalhada) és o...tal monstro... que sobrevoa a cidade e ataca?

- Ah... sou? Talvez... não sei, acho que é o que dizem para aí.

O sábio dá outra gargalhada

- Muito gosto em conhecer-te...(gargalhada) tenebroso gigante.

- Não se ria para ele! - grita uma voz dentro de uma janela

O gigante ri nervoso.

- Onde está o teu gigantismo? - pergunta o sábio a rir

- Não sei porque dizem que sou gigante.

O sábio ri:

- A cabeça desta gente inventa cada uma...é o medo do desconhecido que desperta a imaginação!

- Áh! Não sei o que é isso. Mas...E o senhor não tem medo de mim? Está-se a rir?

- Não! Claro que não tenho medo de ti. Sei que és do bem!

- Como é que sabe?

- Sei! O que fazes por aqui?

- Estou esfomeado... vim à procura de comida.

- Comida...? Huuummmm... mas não é uma comida qualquer, como a nossa pois não? - pergunta o sábio

- É. - Diz o gigante

- Não é! Sentes fome?

- Sinto!

- Fome de comida?

- Sim.

- Não!

- Então... eu é que sei como está a minha barriga. Está vazia.

- Certo...mas... e a tua alma está alimentada?

- Está... - Diz o gigante, triste

- De quê?

- De... da comida que lhe dou.

- Vá lá... tu sabes que não é desse tipo de comida que estou a falar.

- Não?

- Claro que não! Tu vens à procura de comida para a tua alma! Queres saciar a tua fome de carinho, amizade, amor, atenção, afeto, risos... companhia... não é?

- É? - Pergunta o gigante muito surpreso

- É! E tu sabes muito bem do que estou a falar!

                O gigante faz silêncio e olha para o chão.

- Porque é que toda a gente diz que sou gigante?

- De facto não és assim tão grande em tamanho, mas as pessoas vêem o tamanho da fome da tua alma, com o tamanho dos ruídos que fazes, e por correres atrás deles.

- Mas eu não corro atrás deles para lhes fazer mal.

- Certo, mas eles não sabem da fome da tua alma. Tu só transmites a fome interior...que eles não conhecem! Como é gigante a tua fome! Toda a gente tem fome...as mesmas fomes que tu...a do corpo e a da alma, mas só conhecem a do corpo. Se conseguissem ver a da alma, tudo seria diferente.

- E porque é que eles não conseguem a fome deles...?

- Há muitas coisas que não os deixa ver essa fome interior deles...

- Como é que eu posso matar a minha fome...?

O sábio suspira.

- Deixa-me pensar um pouco, por favor. Enquanto isso, podes vir a minha casa.

O sábio entra em casa com o gigante, os dois conversam durante muito tempo, enquanto tomam chá. O Sábio decide fazer um baile com todos os habitantes, a que chamou: baile dos gigantes, e apresenta o gigante.

O sábio fala da fome interior, e todos deixam escapar algumas lágrimas, quando reconhecem que também eles têm um gigante dentro deles, ruidoso e faminto de amor, de atenção, carinho, afeto, diálogo, amizade, companhia.

Nesse dia todos os gigantes esfomeados se encontraram, partilharam afetos, abraços, carinhos, amizade, conversaram, acolheram o gigante, pediram desculpa, e encheram-no de carinho. Ele não podia estar mais feliz, e passou a ser mais um daquela cidade.

Somos cada vez mais, gigantes esfomeados de valores, de amor, de amizade, dos outros, embora tenhamos medo de nos aproximarmos. Há muitos fatores que não deixam ver os gigantes uns dos outros, se não, veríamos que afinal somos mais iguais na nossa essência, do que alguma vez imaginamos, e por muito diferentes que sejamos, não deixamos de ser... gigantes esfomeados!



FIM

Lara Rocha

9/Outubro/2018