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sábado, 12 de fevereiro de 2022

a professora humana (monólogo para professores, sobre sinais de alarme e suicídio nos alunos)

     



       Uma professora da disciplina de Português, enquanto passeava pela sala e falava sobre a matéria, espreitou ao de leve os cadernos, mas um deles, chamou-lhe mais a atenção. 

    Era de uma aluna que costumava ser muito ativa, alegre, brincalhona, faladora, participativa, e de há uns dias para cá, a professora percebeu que havia algum problema com essa menina.

    O seu caderno estava riscado, a cor preta, a jovem que usava muita cor tanto no caderno como na roupa, agora vestia roupa preta. Apresentava um ar pálido, triste, descuidado, com olheiras, sonolenta, chegou a deitar a cabeça em cima da mesa. Parecia alheada de tudo, um estar lá, só por estar.

    Deixou de fazer os trabalhos de casa, e a escrever frases estranhas, desenhos de cariz mórbidos. A professora sentiu que a aluna não estava bem, e escreveu-lhe um bilhetinho, entregando-o discretamente, pousando a mão na secretária da aluna e deixando o papel dizendo que se ela precisasse de falar, no fim da aula estaria disponível.

    Nesse dia, a aluna viu o bilhetinho mas foi embora. A professora encontrou-a no recreio isolada de todos, num choro compulsivo que quase lhe tirava o ar, deitada no chão, enrolada sobre si mesma.

    Todos olhavam para ela, mas não faziam nada. 

- Porque é que aquela colega está isolada, afastada do grupo todo? - pergunta a professora 

- Porque ela não vale nada. - diz uma aluna arrogante 

- Ninguém gosta dela, assim. - diz outra 

- Porquê? - pergunta a professora 

- É uma pobre alma penada! - diz outro aluno 

(Todos riem) 

- E porque é que a põem de lado? - pergunta a professora 

- Porque ela parece um pau de virar tripas, fala por todos os poros, tem a mania que é boa. - diz outro colega 

- Deves ter muita moral para julgar. - diz a professora 

- Para mim, ela é que se põe de lado, ela é que se afasta, se calhar ela é que não gosta de nós, também não vamos obrigá-la a ficar connosco, se não nos curte. Nós também não a curtimos. - explica um aluno considerado o líder que leva todos atrás. 

- Stôra, olhe para aquilo! 

- Um bando de patetas aqui a olhar para a colega que está a sofrer, e ninguém faz nada... vocês, realmente. Por acaso já perguntaram o que é que ela tem e se precisam de alguma coisa? Ficava-vos bem! - pergunta a professora 

- Stôra já viu os cadernos dela? - diz um companheiro de carteira 

- O que é que tem? - disfarça a professora 

- Agora faz cada desenho mais nojento. Macabros. 

- E já lhe perguntaste o que significam? Ela pode estar triste, deprimida, doente, ou ter perdido alguém. Pode ter problemas em casa... - diz a professora 

- Ninguém se quer aproximar daquele trambolho. - comenta outro colega 

- Quem é que quer aquilo? 

- Mas que falta de respeito...deves ter a mania que és um príncipe, não? Coitadinho... - diz a professora. 

(Todos riem à gargalhada) 

- Stôra, ela anda passada! - diz um aluno 

- O que é que te faz dizer isso? - pergunta a professora 

- O que ela era, e o que está agora. - diz uma aluna 

- A stôra já viu como ela anda...? Toda de preto, mete medo! - diz outra aluna 

- Cada um anda como gosto. Os vossos trajes também não me agradam, mas não sou vossa mãe, não me meto nisso. Se fossem meus filhos eu não permitia. 

- Só chora. Parece uma fonte. - comenta outro a rir 

- E vocês não podem ouvi-la sequer, mas que grandes amigos que sois. Se fosse um de vós, queria ver se gostavam. Olhem como ela está. 

- Anda metida em coisas que não deve...depois ressaca. 

- Isso são maneiras de falar? Não sabem nada sobre a vida da colega, para que estão a julgar? Podem estar totalmente errados. 

- E vocês não andam metidos em nada...claro que não. São uns santinhos e santinhas. Até fazem às escondidas como eu já vi. 

(Todos riem) 

- E a stôra não experimentou nada? 

- Era só o que faltava! A vossa adolescência não tem nada a ver com a minha. Se víssemos alguma colega naquele estado, íamos logo ver o que se passava, não ficávamos a olhar para ele, como vocês. - conta a professora 

- É que ela gosta dele, e ele não gosta dela. 

- Eu perguntei-te alguma coisa? Mete-te na tua vida. Vocês não sabem nada! 

- Ela já anda estranha há algum tempo. - diz uma aluna 

- E vocês nem se atrevem a ir ter com ela, dizer que estão preocupados, ou perguntar se está tudo bem. Se ela fosse um de vós, queria ver se gostavam de ser postos de lado, e deixados ao abandono quando mais precisassem. 

- Ela deve andar a fumar umas coisas, ou metida na droga, porque afasta-se! - comenta uma 

- Como é que sabes o que se passa com ela? Se é isso ou se é outra coisa qualquer se não falas com ela. Vocês são uma tristeza. 

    Há um rapaz no grupo que também mudou o comportamento, está triste, a olhar para a rapariga, e a professora percebe que se passa alguma coisa com ele também. 

- Tu...fica-te bem mostrares sentimentos, mas porque não vais lá ter com ela, também! - convida a professora

- Ela gosta dele, mas ele não gosta dela, não deve ser por isso que ela está assim. - diz outro colega 

- Não têm nada se meter na vida amorosa dos colegas e amigos, nem de ninguém. Não são obrigados a corresponder, mas há uma coisa que se chama educação! Sensibilidade, humanidade. Vocês não têm nada disso, que miseráveis. Independentemente de gostarem ou não, a vossa colega precisa de vocês, e vocês podem estar a fazer dela um juízo totalmente errado. É muito feio estar a falar no ar. Alguma vez falaram com ela, ou convidaram-na para se juntar? Isso é bom para vocês, especialmente se forem diferentes, e são todos diferentes. Eu tenho a certeza que se fosse um de vós, ela iria ter convosco. - ralha a professora 

- Não ia nada, stôra! Aquilo é um cubo de gelo! - diz uma aluna invejosa 

- Tanta arrogância numa criatura tão pequena, é lamentável. Querem que eu marque uma reunião com os vossos pais, para eles verem quem têm? Até os ensino a educar-vos para serem seres humanos. - comenta a professora

- Não, stôra...por favor... - dizem todos 

- Pois é, descubro-vos os podres...aprendam a ser gente ou eu faço mesmo isso. Não quero ver mais aquela colega sozinha, nem naquele estado. Ouviram? - diz a professora 

- Sim, stôra. - dizem todos 

- É. Sim stôra, mas tenho a certeza que não vão fazer nada. Só por causa disto, um dia destes, vão ter um teste surpresa, por isso, em vez de estarem a fazer juízos de valor sem sentido, e mostrarem tanta insensibilidade, vão mas é estudar. 

    Começam todos a resmungar, a dizer que não. 

- Calou! Se não é já na próxima aula, se vejo que a colega está outra vez isolada. E se calhar vai ser mesmo. Vão chumbar todo, tenho a certeza. - ri a professora 

    Todos vão para a aula seguinte, e a professora vai ter com a aluna, fez-lhe uma carícia, deu-lhe a mão:

- Queres conversar, não queres? Eu sei que queres, e que precisas, podes contar comigo! vamos até ali à sala. 

    A aluna abraça-se à professora, as duas vão para uma sala. A professora disponibilizou-se novamente:

- Agora que estamos aqui, podes estar à vontade! Tenho-me apercebido que estás diferente, mais calada, mais triste, mais obscura, vestes cores muito escuras, tens escrito frases e feito desenhos muito...pesados! Nas aulas estás ausente, e noto a tua expressão triste, com olheiras. Eras tão aplicada, e de há uns tempos para cá, baixaste muito as notas, não participas, não fazes os trabalhos de casa, quase dormes em cima da mesa, estás com ar de doente. O que se passa? Podes confiar em mim, não conto a ninguém. 

- A professora reparou nessa mudança? 

- Reparei! Em muitas mudanças, e que me preocupam! Eu preocupo-me contigo! E com o facto de os teus colegas não irem ter contigo, e saber o que se passa. Mas disso já tratei. 

- É. A professora tem razão. Por favor, não conte a ninguém! Mas, eu não ando bem. Quero desaparecer, não presto, sou um monstro, odeio-me! Não quero mais viver, estou cansada, desiludida, não estou cá a fazer nada, ninguém repara em mim, estou sozinha. Nem o rapaz que eu gosto, quer saber de mim. Apaixonei-me, odeio-me por isso, porque ele não gosta de mim, disse-me na cara, nem soube por mim, foi outra venenosa que lhe foi dizer, também deve gostar dele. 

- Tu achas que alguém manda no coração, e que somos nós que decidimos ou escolhemos por quem nos apaixonamos? Claro que não! Essas paixões acontecem naturalmente, fazem parte do ser humano, de nós todos. Não tens de te odiar por isso, ele não está interessado em ti, hoje, mas nunca se sabe quando não virá a estar daqui a uns tempos. Não deves é esconder-te, deves mostrar que ele é que está a perder, em não querer conhecer-te. 

- Como, professora? Se ele foge de mim, não gosta de mim. 

- Pode haver outro interessado, não sabes. E também qual é a pressa, rapariga? Ainda és tão nova, pode nem ser paixão o que sentes por ele, vais conhecer muitos mais rapazes, que podem corresponder-te. Óh filha, compreendo bem o que sentes, mas este não vai ser com certeza o teu amor para sempre. Vais crescer muito, claro que dói, mas olha que ele não merece que fiques assim. 

- A professora viu a indiferença dele? E de toda a gente? 

- Vi, sim. Achas que se ele quisesse alguma coisa contigo, te ignorava como os outros? Não mendigues amor. Não é esse, não tem que ser aquele que gostamos, esse que gostamos pode não ter nada para nos dar, é apenas uma ilusão da nossa cabeça, a nossa vontade de sermos correspondidas, é normal, mas não tem de ser assim. 

- Mas dói tanto. Eu não aguento essa dor, prefiro desaparecer, também não lhe vai fazer diferença. 

- Para ele pode não fazer diferença, que tu desapareças, mas para mim, para os teus pais, para outros amigos que tenhas, e família, vai fazer muita diferença, e até para outros rapazes que venham a aparecer. 

- Esta dor nunca vai desaparecer! 

- Claro que vai desaparecer. E terás muitas mais, muito piores, por outros motivos. 

  A professora partilha algumas experiências da sua adolescência e de outras adolescentes, da sua geração, e de agora. Dá-lhe conselhos, e consegue arrancar alguns sorrisos. As duas têm uma longa conversa, e a aluna sai com outro ar, disse que aprendeu muito com  a professora, que aquela conversa mudou o resto do dia, e os seguintes. 

     No final da aula, o rapaz de quem ela gostava, vai ter com ela.

- Vieste ver se já me matei por tua causa? Perdeste tempo...vai lá para os teus amiguinhos e para aquela cobra venenosa. Não precisas de te preocupar comigo. 

- Ei, calma. Podemos conversar? 

- É contigo...não és obrigado a falar com quem não gostas! Problema teu. 

- Desculpa. 

- O quê? 

- Eu não sabia que andavas assim por minha causa. Também não quero que ver-te nesse estado por minha causa. Quero conhecer-te, posso? Podemos ser amigos? 

- Mas que grandessíssima lata...! Magoaste-me, e ainda achas que vou aceitar tua amiga. Partiste-me o coração. 

- Vá lá...eu não sabia. 

- Não sabias...coitadinho, claro que não! 

- Fiquei preocupado contigo. Mas realmente não mereço que fiques nesse estado por minha causa. Podemos conhecer-nos ou não? Vá lá....por favor...eu quero saber como és. Nem que fiquemos só amigos, e depois vemos no que dá! Mas eu quero conhecer-te. Posso? Não quero saber o que os outros dizem de ti...quero ter a minha opinião sobre ti - diz o rapaz, meigo 

- A sério? Para vocês é tudo tão fácil...magoam uma rapariga, não correspondem e ainda se atrevem a dizer que querem ser amigos delas. Não mandamos no coração, nem nas paixões. Desculpa eu, eu é que não tinha nada que me interessar por ti, devia ter percebido logo que não querias nada comigo. 

- Vá lá...eu sei que estás magoada, e percebo-te, mas posso tentar? 

- É contigo. 

- Posso? 

- Quem sou eu para responder por ti, tu é que sabes... 

- Eu quero conhecer-te, quero ser teu amigo, quero saber como és. 

- A sério? 

- Sim, vá lá, dá-me essa oportunidade. Os outros têm uma ideia sobre ti, que eu acho que não corresponde, por isso quero conhecer-te, se quiseres, claro. 

- E se me provocas mais dor?

- Não provoco nada...ou então, dás-me uma chapada. 

- Combinado! Negócio fechado. 

- Vamos dar uma volta por aí, e conversar? 

- E os outros se nos veem? 

- Quero lá saber dos outros... vamos? 

- Vamos. 

        O rapaz tinha razão. Quando começou a falar com  ela, percebeu que nada do que os outros diziam dela, correspondia à realidade. Ele gostou muito dele, tornaram-se grandes amigos, ela voltou a ser como era, e com o tempo, foram-se apaixonando, estudavam juntos. 

     Ela voltou a usar cores, a dedicar-se às aulas, e os dois acabaram por namorar, surpreendendo tudo e todos, até contaram a novidade à professora humana, e pediram para ser a madrinha de namoro deles. Ela aceitou, qualquer problema que tinha, iam falar com ela. 

        A professora sentiu-se realizada, e muito feliz, principalmente porque evitou a destruição de uma vida ainda jovem, ensinou- lhe muita coisa, e tudo acabou bem. A ajuda da professora humana foi essencial, e qualquer professor deve estar atento a alterações de comportamento ou emocionais dos alunos, conhecê-los bem, ser próxima deles, e atuar na hora certa. 

                                                     FIM 

                                                    Lara Rocha 

                                                     12/Fevereiro/ 2022 



terça-feira, 9 de outubro de 2018

O gigante esfomeado

  

Era uma vez um ser gigante, que sobrevoava muitas cidades. Quer dizer...na verdade ele não era assim tão gigante! 
Só parecia, porque quando o viam ele estava muito esfomeado, como só conheciam a sua sombra e os barulhos que fazia, imaginavam-no com um tamanho assombroso, uma bocarra enorme, garras e patas que impunham respeito.
Mas ao aterrar para ir buscar comida, ninguém pensava que ele era a figura escura que viam, porque tinha um tamanho normal, não passava de um gato grande. 
Como é que ele parecia tão gigante, ninguém sabe explicar. Talvez fosse a sua fome, que o tornava muito maior do que era na realidade.
Mesmo assim, ele continuava a assustar, porque a sua fome não era bem de comida. Corria atrás das pessoas, e todos gritavam, porque pensavam que ia atacá-los, ou comê-los. O pequeno gigante não entendia porque todos fugiam dele.
Um dia, o sábio da aldeia, farto de queixas desse ser assustador, pediu para ser chamado quando esse tal monstro aparecesse que ele queria vê-lo. O sábio não acreditava que fosse um monstro, havia alguma coisa que lhe dizia que as pessoas estavam a exagerar.
         E assim foi. Quando o terrível monstro imaginário voltou a aparecer, todos os habitantes gritaram. O sábio apareceu. O gigante ficou assustado, e tremia, branco, com o medo.

- É ele! - Gritam todos

- Cuidado! - Recomenda um vizinho

- Ele é perigoso, olhe que tem máscaras e tudo, porque quando o vemos aqui por cima é enorme e ruidoso, aqui em baixo é esta amostra.

- Não se deixe levar pelo ar dele... é falso.

- Calem-se! Vão para as vossas casas. Eu quero ficar a sós com ele.

- Mas... - dizem todos surpresos

- Eu já disse. Vão para casa.

- Mestre...

- Casa! - Ordena o sábio

- Veja lá!- Alertam todos

- Casa. - Diz o sábio firmemente

- Se precisar...

- Vão!

Todos se retiram, com medo, e o gigante ainda com mais medo. O sábio olha-o de cima a baixo. Suspira, fecha os olhos, fica em silêncio uns segundos e dá uma risadinha...depois... solta uma valente gargalhada, que quase congela o gigante.

- Óh, pequeno...desculpa a minha gargalhada! - Diz o sábio

O gigante está quase congelado com o medo

- Então... tu... é que... (outra gargalhada) és o...tal monstro... que sobrevoa a cidade e ataca?

- Ah... sou? Talvez... não sei, acho que é o que dizem para aí.

O sábio dá outra gargalhada

- Muito gosto em conhecer-te...(gargalhada) tenebroso gigante.

- Não se ria para ele! - grita uma voz dentro de uma janela

O gigante ri nervoso.

- Onde está o teu gigantismo? - pergunta o sábio a rir

- Não sei porque dizem que sou gigante.

O sábio ri:

- A cabeça desta gente inventa cada uma...é o medo do desconhecido que desperta a imaginação!

- Áh! Não sei o que é isso. Mas...E o senhor não tem medo de mim? Está-se a rir?

- Não! Claro que não tenho medo de ti. Sei que és do bem!

- Como é que sabe?

- Sei! O que fazes por aqui?

- Estou esfomeado... vim à procura de comida.

- Comida...? Huuummmm... mas não é uma comida qualquer, como a nossa pois não? - pergunta o sábio

- É. - Diz o gigante

- Não é! Sentes fome?

- Sinto!

- Fome de comida?

- Sim.

- Não!

- Então... eu é que sei como está a minha barriga. Está vazia.

- Certo...mas... e a tua alma está alimentada?

- Está... - Diz o gigante, triste

- De quê?

- De... da comida que lhe dou.

- Vá lá... tu sabes que não é desse tipo de comida que estou a falar.

- Não?

- Claro que não! Tu vens à procura de comida para a tua alma! Queres saciar a tua fome de carinho, amizade, amor, atenção, afeto, risos... companhia... não é?

- É? - Pergunta o gigante muito surpreso

- É! E tu sabes muito bem do que estou a falar!

                O gigante faz silêncio e olha para o chão.

- Porque é que toda a gente diz que sou gigante?

- De facto não és assim tão grande em tamanho, mas as pessoas vêem o tamanho da fome da tua alma, com o tamanho dos ruídos que fazes, e por correres atrás deles.

- Mas eu não corro atrás deles para lhes fazer mal.

- Certo, mas eles não sabem da fome da tua alma. Tu só transmites a fome interior...que eles não conhecem! Como é gigante a tua fome! Toda a gente tem fome...as mesmas fomes que tu...a do corpo e a da alma, mas só conhecem a do corpo. Se conseguissem ver a da alma, tudo seria diferente.

- E porque é que eles não conseguem a fome deles...?

- Há muitas coisas que não os deixa ver essa fome interior deles...

- Como é que eu posso matar a minha fome...?

O sábio suspira.

- Deixa-me pensar um pouco, por favor. Enquanto isso, podes vir a minha casa.

O sábio entra em casa com o gigante, os dois conversam durante muito tempo, enquanto tomam chá. O Sábio decide fazer um baile com todos os habitantes, a que chamou: baile dos gigantes, e apresenta o gigante.

O sábio fala da fome interior, e todos deixam escapar algumas lágrimas, quando reconhecem que também eles têm um gigante dentro deles, ruidoso e faminto de amor, de atenção, carinho, afeto, diálogo, amizade, companhia.

Nesse dia todos os gigantes esfomeados se encontraram, partilharam afetos, abraços, carinhos, amizade, conversaram, acolheram o gigante, pediram desculpa, e encheram-no de carinho. Ele não podia estar mais feliz, e passou a ser mais um daquela cidade.

Somos cada vez mais, gigantes esfomeados de valores, de amor, de amizade, dos outros, embora tenhamos medo de nos aproximarmos. Há muitos fatores que não deixam ver os gigantes uns dos outros, se não, veríamos que afinal somos mais iguais na nossa essência, do que alguma vez imaginamos, e por muito diferentes que sejamos, não deixamos de ser... gigantes esfomeados!



FIM

Lara Rocha

9/Outubro/2018