Número total de visualizações de páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta peça de teatro para adolescentes e adultos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta peça de teatro para adolescentes e adultos. Mostrar todas as mensagens

sábado, 12 de fevereiro de 2022

a professora humana (monólogo para professores, sobre sinais de alarme e suicídio nos alunos)

     



       Uma professora da disciplina de Português, enquanto passeava pela sala e falava sobre a matéria, espreitou ao de leve os cadernos, mas um deles, chamou-lhe mais a atenção. 

    Era de uma aluna que costumava ser muito ativa, alegre, brincalhona, faladora, participativa, e de há uns dias para cá, a professora percebeu que havia algum problema com essa menina.

    O seu caderno estava riscado, a cor preta, a jovem que usava muita cor tanto no caderno como na roupa, agora vestia roupa preta. Apresentava um ar pálido, triste, descuidado, com olheiras, sonolenta, chegou a deitar a cabeça em cima da mesa. Parecia alheada de tudo, um estar lá, só por estar.

    Deixou de fazer os trabalhos de casa, e a escrever frases estranhas, desenhos de cariz mórbidos. A professora sentiu que a aluna não estava bem, e escreveu-lhe um bilhetinho, entregando-o discretamente, pousando a mão na secretária da aluna e deixando o papel dizendo que se ela precisasse de falar, no fim da aula estaria disponível.

    Nesse dia, a aluna viu o bilhetinho mas foi embora. A professora encontrou-a no recreio isolada de todos, num choro compulsivo que quase lhe tirava o ar, deitada no chão, enrolada sobre si mesma.

    Todos olhavam para ela, mas não faziam nada. 

- Porque é que aquela colega está isolada, afastada do grupo todo? - pergunta a professora 

- Porque ela não vale nada. - diz uma aluna arrogante 

- Ninguém gosta dela, assim. - diz outra 

- Porquê? - pergunta a professora 

- É uma pobre alma penada! - diz outro aluno 

(Todos riem) 

- E porque é que a põem de lado? - pergunta a professora 

- Porque ela parece um pau de virar tripas, fala por todos os poros, tem a mania que é boa. - diz outro colega 

- Deves ter muita moral para julgar. - diz a professora 

- Para mim, ela é que se põe de lado, ela é que se afasta, se calhar ela é que não gosta de nós, também não vamos obrigá-la a ficar connosco, se não nos curte. Nós também não a curtimos. - explica um aluno considerado o líder que leva todos atrás. 

- Stôra, olhe para aquilo! 

- Um bando de patetas aqui a olhar para a colega que está a sofrer, e ninguém faz nada... vocês, realmente. Por acaso já perguntaram o que é que ela tem e se precisam de alguma coisa? Ficava-vos bem! - pergunta a professora 

- Stôra já viu os cadernos dela? - diz um companheiro de carteira 

- O que é que tem? - disfarça a professora 

- Agora faz cada desenho mais nojento. Macabros. 

- E já lhe perguntaste o que significam? Ela pode estar triste, deprimida, doente, ou ter perdido alguém. Pode ter problemas em casa... - diz a professora 

- Ninguém se quer aproximar daquele trambolho. - comenta outro colega 

- Quem é que quer aquilo? 

- Mas que falta de respeito...deves ter a mania que és um príncipe, não? Coitadinho... - diz a professora. 

(Todos riem à gargalhada) 

- Stôra, ela anda passada! - diz um aluno 

- O que é que te faz dizer isso? - pergunta a professora 

- O que ela era, e o que está agora. - diz uma aluna 

- A stôra já viu como ela anda...? Toda de preto, mete medo! - diz outra aluna 

- Cada um anda como gosto. Os vossos trajes também não me agradam, mas não sou vossa mãe, não me meto nisso. Se fossem meus filhos eu não permitia. 

- Só chora. Parece uma fonte. - comenta outro a rir 

- E vocês não podem ouvi-la sequer, mas que grandes amigos que sois. Se fosse um de vós, queria ver se gostavam. Olhem como ela está. 

- Anda metida em coisas que não deve...depois ressaca. 

- Isso são maneiras de falar? Não sabem nada sobre a vida da colega, para que estão a julgar? Podem estar totalmente errados. 

- E vocês não andam metidos em nada...claro que não. São uns santinhos e santinhas. Até fazem às escondidas como eu já vi. 

(Todos riem) 

- E a stôra não experimentou nada? 

- Era só o que faltava! A vossa adolescência não tem nada a ver com a minha. Se víssemos alguma colega naquele estado, íamos logo ver o que se passava, não ficávamos a olhar para ele, como vocês. - conta a professora 

- É que ela gosta dele, e ele não gosta dela. 

- Eu perguntei-te alguma coisa? Mete-te na tua vida. Vocês não sabem nada! 

- Ela já anda estranha há algum tempo. - diz uma aluna 

- E vocês nem se atrevem a ir ter com ela, dizer que estão preocupados, ou perguntar se está tudo bem. Se ela fosse um de vós, queria ver se gostavam de ser postos de lado, e deixados ao abandono quando mais precisassem. 

- Ela deve andar a fumar umas coisas, ou metida na droga, porque afasta-se! - comenta uma 

- Como é que sabes o que se passa com ela? Se é isso ou se é outra coisa qualquer se não falas com ela. Vocês são uma tristeza. 

    Há um rapaz no grupo que também mudou o comportamento, está triste, a olhar para a rapariga, e a professora percebe que se passa alguma coisa com ele também. 

- Tu...fica-te bem mostrares sentimentos, mas porque não vais lá ter com ela, também! - convida a professora

- Ela gosta dele, mas ele não gosta dela, não deve ser por isso que ela está assim. - diz outro colega 

- Não têm nada se meter na vida amorosa dos colegas e amigos, nem de ninguém. Não são obrigados a corresponder, mas há uma coisa que se chama educação! Sensibilidade, humanidade. Vocês não têm nada disso, que miseráveis. Independentemente de gostarem ou não, a vossa colega precisa de vocês, e vocês podem estar a fazer dela um juízo totalmente errado. É muito feio estar a falar no ar. Alguma vez falaram com ela, ou convidaram-na para se juntar? Isso é bom para vocês, especialmente se forem diferentes, e são todos diferentes. Eu tenho a certeza que se fosse um de vós, ela iria ter convosco. - ralha a professora 

- Não ia nada, stôra! Aquilo é um cubo de gelo! - diz uma aluna invejosa 

- Tanta arrogância numa criatura tão pequena, é lamentável. Querem que eu marque uma reunião com os vossos pais, para eles verem quem têm? Até os ensino a educar-vos para serem seres humanos. - comenta a professora

- Não, stôra...por favor... - dizem todos 

- Pois é, descubro-vos os podres...aprendam a ser gente ou eu faço mesmo isso. Não quero ver mais aquela colega sozinha, nem naquele estado. Ouviram? - diz a professora 

- Sim, stôra. - dizem todos 

- É. Sim stôra, mas tenho a certeza que não vão fazer nada. Só por causa disto, um dia destes, vão ter um teste surpresa, por isso, em vez de estarem a fazer juízos de valor sem sentido, e mostrarem tanta insensibilidade, vão mas é estudar. 

    Começam todos a resmungar, a dizer que não. 

- Calou! Se não é já na próxima aula, se vejo que a colega está outra vez isolada. E se calhar vai ser mesmo. Vão chumbar todo, tenho a certeza. - ri a professora 

    Todos vão para a aula seguinte, e a professora vai ter com a aluna, fez-lhe uma carícia, deu-lhe a mão:

- Queres conversar, não queres? Eu sei que queres, e que precisas, podes contar comigo! vamos até ali à sala. 

    A aluna abraça-se à professora, as duas vão para uma sala. A professora disponibilizou-se novamente:

- Agora que estamos aqui, podes estar à vontade! Tenho-me apercebido que estás diferente, mais calada, mais triste, mais obscura, vestes cores muito escuras, tens escrito frases e feito desenhos muito...pesados! Nas aulas estás ausente, e noto a tua expressão triste, com olheiras. Eras tão aplicada, e de há uns tempos para cá, baixaste muito as notas, não participas, não fazes os trabalhos de casa, quase dormes em cima da mesa, estás com ar de doente. O que se passa? Podes confiar em mim, não conto a ninguém. 

- A professora reparou nessa mudança? 

- Reparei! Em muitas mudanças, e que me preocupam! Eu preocupo-me contigo! E com o facto de os teus colegas não irem ter contigo, e saber o que se passa. Mas disso já tratei. 

- É. A professora tem razão. Por favor, não conte a ninguém! Mas, eu não ando bem. Quero desaparecer, não presto, sou um monstro, odeio-me! Não quero mais viver, estou cansada, desiludida, não estou cá a fazer nada, ninguém repara em mim, estou sozinha. Nem o rapaz que eu gosto, quer saber de mim. Apaixonei-me, odeio-me por isso, porque ele não gosta de mim, disse-me na cara, nem soube por mim, foi outra venenosa que lhe foi dizer, também deve gostar dele. 

- Tu achas que alguém manda no coração, e que somos nós que decidimos ou escolhemos por quem nos apaixonamos? Claro que não! Essas paixões acontecem naturalmente, fazem parte do ser humano, de nós todos. Não tens de te odiar por isso, ele não está interessado em ti, hoje, mas nunca se sabe quando não virá a estar daqui a uns tempos. Não deves é esconder-te, deves mostrar que ele é que está a perder, em não querer conhecer-te. 

- Como, professora? Se ele foge de mim, não gosta de mim. 

- Pode haver outro interessado, não sabes. E também qual é a pressa, rapariga? Ainda és tão nova, pode nem ser paixão o que sentes por ele, vais conhecer muitos mais rapazes, que podem corresponder-te. Óh filha, compreendo bem o que sentes, mas este não vai ser com certeza o teu amor para sempre. Vais crescer muito, claro que dói, mas olha que ele não merece que fiques assim. 

- A professora viu a indiferença dele? E de toda a gente? 

- Vi, sim. Achas que se ele quisesse alguma coisa contigo, te ignorava como os outros? Não mendigues amor. Não é esse, não tem que ser aquele que gostamos, esse que gostamos pode não ter nada para nos dar, é apenas uma ilusão da nossa cabeça, a nossa vontade de sermos correspondidas, é normal, mas não tem de ser assim. 

- Mas dói tanto. Eu não aguento essa dor, prefiro desaparecer, também não lhe vai fazer diferença. 

- Para ele pode não fazer diferença, que tu desapareças, mas para mim, para os teus pais, para outros amigos que tenhas, e família, vai fazer muita diferença, e até para outros rapazes que venham a aparecer. 

- Esta dor nunca vai desaparecer! 

- Claro que vai desaparecer. E terás muitas mais, muito piores, por outros motivos. 

  A professora partilha algumas experiências da sua adolescência e de outras adolescentes, da sua geração, e de agora. Dá-lhe conselhos, e consegue arrancar alguns sorrisos. As duas têm uma longa conversa, e a aluna sai com outro ar, disse que aprendeu muito com  a professora, que aquela conversa mudou o resto do dia, e os seguintes. 

     No final da aula, o rapaz de quem ela gostava, vai ter com ela.

- Vieste ver se já me matei por tua causa? Perdeste tempo...vai lá para os teus amiguinhos e para aquela cobra venenosa. Não precisas de te preocupar comigo. 

- Ei, calma. Podemos conversar? 

- É contigo...não és obrigado a falar com quem não gostas! Problema teu. 

- Desculpa. 

- O quê? 

- Eu não sabia que andavas assim por minha causa. Também não quero que ver-te nesse estado por minha causa. Quero conhecer-te, posso? Podemos ser amigos? 

- Mas que grandessíssima lata...! Magoaste-me, e ainda achas que vou aceitar tua amiga. Partiste-me o coração. 

- Vá lá...eu não sabia. 

- Não sabias...coitadinho, claro que não! 

- Fiquei preocupado contigo. Mas realmente não mereço que fiques nesse estado por minha causa. Podemos conhecer-nos ou não? Vá lá....por favor...eu quero saber como és. Nem que fiquemos só amigos, e depois vemos no que dá! Mas eu quero conhecer-te. Posso? Não quero saber o que os outros dizem de ti...quero ter a minha opinião sobre ti - diz o rapaz, meigo 

- A sério? Para vocês é tudo tão fácil...magoam uma rapariga, não correspondem e ainda se atrevem a dizer que querem ser amigos delas. Não mandamos no coração, nem nas paixões. Desculpa eu, eu é que não tinha nada que me interessar por ti, devia ter percebido logo que não querias nada comigo. 

- Vá lá...eu sei que estás magoada, e percebo-te, mas posso tentar? 

- É contigo. 

- Posso? 

- Quem sou eu para responder por ti, tu é que sabes... 

- Eu quero conhecer-te, quero ser teu amigo, quero saber como és. 

- A sério? 

- Sim, vá lá, dá-me essa oportunidade. Os outros têm uma ideia sobre ti, que eu acho que não corresponde, por isso quero conhecer-te, se quiseres, claro. 

- E se me provocas mais dor?

- Não provoco nada...ou então, dás-me uma chapada. 

- Combinado! Negócio fechado. 

- Vamos dar uma volta por aí, e conversar? 

- E os outros se nos veem? 

- Quero lá saber dos outros... vamos? 

- Vamos. 

        O rapaz tinha razão. Quando começou a falar com  ela, percebeu que nada do que os outros diziam dela, correspondia à realidade. Ele gostou muito dele, tornaram-se grandes amigos, ela voltou a ser como era, e com o tempo, foram-se apaixonando, estudavam juntos. 

     Ela voltou a usar cores, a dedicar-se às aulas, e os dois acabaram por namorar, surpreendendo tudo e todos, até contaram a novidade à professora humana, e pediram para ser a madrinha de namoro deles. Ela aceitou, qualquer problema que tinha, iam falar com ela. 

        A professora sentiu-se realizada, e muito feliz, principalmente porque evitou a destruição de uma vida ainda jovem, ensinou- lhe muita coisa, e tudo acabou bem. A ajuda da professora humana foi essencial, e qualquer professor deve estar atento a alterações de comportamento ou emocionais dos alunos, conhecê-los bem, ser próxima deles, e atuar na hora certa. 

                                                     FIM 

                                                    Lara Rocha 

                                                     12/Fevereiro/ 2022 



sábado, 31 de julho de 2021

Amor de Verão e amores a sério (para adolescentes e adultos)



Mulheres falam entre si, de amores de Verão e de relações mais adultas. 

M1 - Dizem que amores de Verão enterram-se na areia. Vivem-se, e esquecem-se. Eu acho que não é bem assim, vivem-se e recordam-se para sempre, mesmo que seja só aqueles poucos dias, se forem intensos, já vale a pena. 

M2 - Quem nunca os teve? 

M3 - A extraterrestre da minha prima. 

(Riem) 

M4 - Se calhar essa também teve, mas não diz. 

M5 - Eu acho que não existem. 

M1 - Porque é que achas que não existem? 

M5 - Acho que é pouco tempo para construir uma relação. 

M2 - Pode ser pouco tempo, mas são coisas que não conseguimos controlar. Eu pelo menos não resisto, se tiver um homem jeitoso a desfilar diante de mim, e se mostrar interesse, eu respondo. 

M4 - O quê? Também nunca os tiveste? 

M5 - Não! 

M6 - Não sei como conseguiste não ter nenhum. 

M7 - Eu quando vou de férias, aproveito tudo o que vem à rede! Tudo a que há direito. 

M5 - E depois quando regressas a casa, se ele é doutra cidade? 

M1 - Agora existem as novas tecnologias que aproximam. 

M5 - Sim, há outras maneiras de contato, mas não é a mesma coisa que o cara a cara, e a proximidade física. 

Todas - Claro. 

M8 - Podes curtir só com alguém, sem grande ligação. 

M2 - Isso! Apesar de eu achar difícil não te envolveres, não sentires nada, e curtires só porque sim. 

M3 - Isso também concordo. 

M4 - Eu acho que não chega a ser Amor...talvez...atração.

M7 - Sim, mas também não tens que ter obrigatoriamente alguma coisa com eles, só porque gostas do aspeto. Alguns também não querem nada, só aproveitar o momento, a oferta para se sentirem muito machos. 

M5 - Depois de acabar, o que fica? 

Todas - Nada. 

M8 - Fica a baixa auto-estima! 

(Todas riem) 

Todas - É verdade. 

M2 - O nojo, no meu caso!

M4 - Sentiste nojo do teu ex? 

M2 - Senti. Foi um amor de Verão que eu imaginava ser para a vida toda. Tanta fantasia minha! 

M7 - Essa é a fantasia de qualquer mulher. 

Todas - É. 

M1 - Às vezes ficam filhos indesejados. 

Todas - Também. 

M2 - Ou alguma IST. 

Todas - Pois. 

M1 - Mas, eu que acabei de chegar de férias, vivi um amor que começou no Verão, sim, este mês...aquele príncipe que desfilou diante de mim, foi com a minha cara, gostou do meu ar, e fez tudo para cativar a minha atenção. Eu não queria que ele percebesse, mas a mim também me agradava ao olho. Não facilitei, mas essa minha defesa durou poucas horas, porque no dia seguinte, na piscina meteu conversa comigo, e eu caí, feita pata, agora estou numa depressão profunda, porque ele falhou com a promessa dele. Que desilusão. Curtimos, de forma escaldante, ele beijou-me como se não houvesse amanhã, e eu deixei-me levar, saímos algumas noites para os bares, e claro, aquela música a rebentar com tudo, dançamos, e fomos descansar para a praia. O que aconteceu na praia, foi fixe, mas só curtimos. Passados uns dias, qual não é o meu espanto… vejo a mulher dele e 4 filhos a chegar, crianças ainda pequenas, lindas como ele, a mulher carregada de coisas, e ele passou por mim, como se não me conhecesse, um seco bom dia, e boa tarde. Eu, claro, como não queria escândalo, fiz o mesmo, mas que vontade de o esganar. Maldito. Disse-me que era solteiro. Senti-me uma sucata, usada, com nojo de mim mesma. 

Todas - A sério? 

M1 - Sim. Aquela explosão de hormonas, apagou logo que vi a mulher dele com os filhos. Que nojo. Apetecia-me chibá-lo, mas tive pena da respetiva e das crianças… porque se fosse eu a esposa dele, com filhos e alguma outra me viesse dizer na fuça que o marido, pai dos 4 filhos andou com outra enquanto a escrava trabalhou, que até teve de ir mais tarde… 

M2 - É só fogo de vista. Mas acontece. Eu na minha adolescência tive uma pequena curte com um rapazito, que já nem me lembro da cara dele, nem do nome, às tantas até já nos cruzamos pelo mesmo sítio e nem nos reconhecemos. 

M3 - Claro, esquecem-se rápido. E os teus pais souberam? 

M2 - Não, a minha geração era muito controlada pelos pais. Sofri em silêncio, chorei às escondidas, disfarcei a minha dor. Nem ficamos com o contato um do outro. Mas ele era giro, ainda éramos talvez pré-adolescentes. 

M4 - Às vezes esses namoricos inocentes deixam boas recordações. 

M6 - Tu tiveste algum? 

M4 - Tive. (ri) Começou com a mesma rapidez que acabou, e não sofri, porque na verdade acho que não sentia nada por ele, era só aquela coisa de...atração. Quisemos experimentar. 

M7 - Deram asas à fantasia. 

M4 - É. Foi isso. Foi giro e tal, mas parecia uma cena de novela. 

M1 - Eu acho que quando escolhes que não queres nada sério, e alguém te dá troco, pensando da mesma maneira, até podem viver momentos escaldantes, mas logo que o fogo apaga, vês que eles ficam na maior, e a mulher às vezes fica mal. 

M2 - Eu acho difícil estares com alguém por quem não sentes nada. 

M6 - Eu também acho, e não seria capaz, mas sei de muita gente que consegue. 

M8 - Depois devem ficar mal emocionalmente. 

Todas - Claro. 

M3 - Acho que alguns adolescentes só curtem para imitar o que veem nas novelas. 

M6 - Claro, e andam com praticamente tudo de fora, reveem a matéria de ciências e biologia, fazem os testes na prática e tudo. 

M5 (a rir) - Está muito bem visto. 

M7 - Para muitos adolescentes, umas curtes de Verão, quando acabam, parece que ficam no fim do mundo, com tanta tristeza. Uns tempos depois já não se passou nada, a não ser, contar aos outros que são muito pretendidos e desejados. 

M8 - Sim, eles acham que sabem muito, mas muito do que pensam saber, vão buscar à Internet, o que não é a melhor forma de aprenderem. 

M2 - Pois, quando passam para a prática, é só asneirada. 

M4 - O pior ainda é praticarem, a achar que sabem muito, e sem proteção! Depois...ai, o que aconteceu... 

Todas - Pois é. 

(Todas riem) 

M1 - É preciso maturidade, e às vezes não existe na idade adulta, quanto mais na adolescência. Mas eu acho bem que os adolescentes vivam essas ilusões, mesmo que não passem de ilusões. Eu na minha geração, também teria vivido se me dessem mais liberdade. 

M3 - Concordo, mas fomos de um extremo ao outro, nesse ponto. 

M5 - Realmente. Eu vejo fazer coisas, agora, que se fosse na nossa geração, levávamos logo uma tareia. 

Todas - Mesmo.

M6 - Havia mais respeito, e mais cuidados. Agora banaliza-se a palavra namoro, e amor, relações, intimidade e outras. 

M7 - Uns tios meus, começaram por ser namorados de Verão, encontravam-se todos os anos, são de cidades vizinhas, mas foi uma coisa mais séria, começaram com uma curte, trocaram contatos e perceberam que era mais que um amor de Verão, passaram a falar-se todos os dias, encontravam-se ao fim de semana, e depois foram para a mesma universidade. Continuaram o namoro. 

Todas - Que máximo. 

M1 - E achas que eles foram fiéis? Hummm...tanto tempo...? 

M5 - Duvido. 

M2 - Eles na altura eram mais fiéis, e não havia tanta oferta. 

Todas - Pois. 

M4 - A minha mãe diz que eu fui feita num amor de Verão, e o meu pai não assumiu, mas depois entenderam-se uns anos mais tarde. 

M3 - Uns primos meus, ficam bué de deprimidos quando voltam de férias, porque conhecem meninas, e travam amizades com elas, mas são de longe, ou são da mesma cidade, mas é como se não fossem. E agora têm outras possibilidades de contato uns com os outros, lá com as redes sociais e telemóveis. 

M8 - Os meus tios gozam à brava, quando os meus primos sofrem depois das férias, por causa de miúdas que conhecem, como se fosse uma relação muito séria, às vezes nem têm coragem de se envolverem com elas, ou trocam uns beijitos e já acham que é para a vida toda. 

(Riem) 

M1 - Coitadinhos, Santa Inocência. Nós na idade deles, não tínhamos hipótese. 

M5 - Eu não tive porque era muito tímida, e acho que também não reparavam em mim, mas lembro-me que as minhas primas tiveram para aí uns amores de Verão, que hoje lembram-se e dizem não perceber o que tinham visto naquilo. 

(Riem) 

M3 - Pois, também já me aconteceu. Mas isso faz parte. 

M2 - Eu acho que com aquela euforia do fogo de vista, nem pensam no que pode vir a acontecer, e passam por cima dos sentimentos. Isso pode ser bom, mas talvez tenha as suas consequências, dependendo da idade. 

M4 - Eu tive várias desilusões antes do meu amor recente. 

M8 - E conseguiste voltar a apaixonar-te? 

M4 - Sim, sem problema. Depois de passar a dor, pensei que ele estava bem, já tinha outra, e eu ia ficar no fundo do poço? Ele não me ia lá buscar. Eu é que tinha de sair de lá, e tinha o mesmo direito de arranjar outra pessoa, melhor do que ele. Este é mesmo melhor do que ele. E não demorei muito a sair da tristeza. Por acaso...começaram os dois no Verão, e acabaram no Verão, o primeiro durou 2 anos, e este, dura há 6 anos. 

M7 - O meu atual foi o meu amor de Verão este ano, dura há algumas semanas. Vamos ver se vou enterrá-lo na areia, no fim do Verão, ou se vou continuar. 

(Todas riem) 

M2 - Hoje nada é certo. 

M7 (ri) - Por isso é que estou a dizer. 

M3 - Mas tiveste algum amor de Verão, na tua adolescência, ou idade adulta? 

M7 - Não. Na adolescência, tive algumas ilusões, mas nunca me envolvi com nenhum, porque eles eram de outras cidades, e na verdade não estavam interessados em grande coisa. Não houve tempo.  Entretanto construí amizade com três deles, de quem gosto muito, e falo com eles muitas vezes. 

M5 - Pois, eu acho que é preciso tempo para construir amizades, ainda mais para construir uma relação de amor, séria, segura, que na prática pode não ser assim tão séria, nem tão segura, mas pelo menos, que haja alguma garantia. 

Todas - Claro. 

M6 - A paixão dura poucos segundos a poucas horas, só serve para aproximar, depois, passa a ter outra intensidade e outros nomes. A atração é a primeira coisa que surge numa relação. 

Todas - Sim. 

(M1 para M5): 

M1 - E o teu primeiro amor, foi de Verão? 

M5 - O meu primeiro amor...a amizade começou no fim do Verão, mas o namoro já começou no Outono. Ele era de outra cidade, mas encontrávamo-nos 1 vez por semana, e falávamo-nos todos os dias, víamo-nos pela web cam, até eu conhecer a família dele, onde passei alguns dias, e ele também veio à minha casa, mas eu passei mais tempo na casa dele, do que ele na minha. 

M1 - O teu namoro durou muito tempo. 

M5 (ri) - E podia ter durado muito mais...ele é que não quis. 

M3 - É porque ele não tinha que ser para ti. 

M6 - Pois, e o que ficou depois disso…? 

M5 - Boa pergunta. Não sei bem! Raiva...tristeza...cheguei a sentir...ódio e nojo...um vazio interior, uma tristeza...senti-me desrealizada e despersonalizada. Tive algum acompanhamento psicológico, que ajudou, mas foi um processo longo. 

M8 - É quase um luto, não é? 

M5 - Sim. 

M2 - Mas já ultrapassaste…? 

M5 - Acho que sim. Nunca mais se volta a ser a mesma pessoa. 

M1 - Não voltaste a ter alguém? 

M5 - Não. Não voltei a apaixonar-me. 

M1 - Mas isso é muito tempo. 

M2 - Eu não vou buscá-los. Sabes que a nossa educação era diferente da de agora. 

Todas - Claro. 

M8 - Então se calhar não fizeste bem esse luto. 

M5 - Não sei. Acho que fiz, mas cansei de amores não correspondidos e de desilusões. Parece que ficou um glaciar dentro de mim. 

(Todas riem) 

M6 - Vais ver que quando menos esperares, ou quando for o momento certo, alguém vai aparecer, e provar-te que há diferentes. 

M5 - Isso era o que toda a gente me dizia, mas eu não acreditava. E acho que agora continuo a não acreditar. Realmente apareceu alguém que provou ser diferente, e que gostou de mim, apareceu quando não esperava, e quando já tinha desistido...mas não sei se vai voltar a aparecer. Acho que não acredito muito nisso. Perdi a magia toda, o romantismo todo, e a capacidade de acreditar. 

M8 - Acho que as relações são difíceis de construir. 

Todas - Claro que sim. 

M1 - E atualmente, todos têm muita pressa em construir relações, como aquelas amizades que duram a vida toda.

M4 - Não sei se ainda existem essas relações. 

M5 - Eu acho que podem existir, mas é mais raro. Dá muito trabalho conhecer alguém em quem acreditas que podes confiar, e há sempre a possibilidade de não seres correspondida. 

M2 - Sem dúvida. 

M8 - Mas isso até nas amizades, as desilusões acontecem. 

Todas - Claro. 

M6 - Mas nas amizades que desiludem acho que é mais fácil ultrapassar do que uma relação a quem te entregas e depois desiludes-te. 

M1 - Acho que a dor deve ser ela por ela. Sim, mas acho que tens razão. 

M7 - É pena. 

Todas - É. 

M8 - Acho que na verdade, são opções que se fazem, e cabe a cada um assumir o sim, ou o não, o querer ou não querer, o envolver-se ou não ou o esperar para ver o que dá. Hoje talvez não estejam dispostos e dispostas a esperar, mas quando corre mal...o que fica...? 

Todas - O nada! 

M1 - O nojo. 

M2 - A raiva. 

M3 - A frustração.  

M4 - A desilusão.

M5 - O vazio e o medo! 

M6 - As lágrimas, e o gelo, até à próxima paixão, atração, ilusão e desilusão. 

M7 - Até ao amor real. 

M8 - Mesmo que não seja para sempre, o amor é sempre amor, e enquanto dura, é bom, aproveita-se, quando acaba, o amor desaparece, e vamos levá-lo para outro lado. 

M1 - Amores de Verão, não precisam de se enterrar na areia, podem ser vividos com segurança, respeito. 

M2 - E não, é não! Mesmo que doa, quando não se é correspondido.

M4 - Amores de Verão podem transformar-se em amizades para a vida. 

M6 - Depende de cada um. 

M8 - Amores de Verão não são posse. 

M5 - Amores de Verão podem ser uma ilusão, ou acabar numa desilusão porque é preciso tempo para ver nascer emoções e sentimentos tão bonitos. 

M3 - Para que sejam memórias inesquecíveis, para a vida. 

M7 - O amor acontece em qualquer altura do ano, e quando é verdadeiro, é melhor que um amor de Verão. 

M1 - Amores de Verão...quem os não teve…? Talvez não fosse de verdade, amor...mas uma fantasia, uma paixoneta na idade da inocência. 

M2 - Amores de Verão, são eternos, na nossa memória. 

Todas - Amores, 

M5 - Amores...de Primavera, Verão, Outono e Inverno.  

M8 - Amores quando acontecem. 


Debate: 

M6 - O que é para vocês, cada um de vocês, um amor de Verão, e um amor verdadeiro? 


                                                                FIM 

                                                            Lara Rocha 

                                                           30/Julho/2021 

quinta-feira, 8 de março de 2012

A boneca Luisinha e os seus novos amigos

A boneca Luisinha e os seus novos amigos marinhos

Desenhada por Lara Rocha 

Personagens:
Narradora
1 Boneca
1 Estrela-do-mar
1 Caranguejo
2 Algas
Mãe
Filha

NARRADORA - Era uma vez uma linda boneca que foi deixada na praia pela mãe de uma adolescente que vivia numa vivenda pequenina em cima da areia. 
    A filha do casal deixou de ser criança, e a mãe resolveu arrumar o quarto dela, quando ela não estava em casa, tirando todos os bonecos que ela lá tinha, incluindo essa boneca de infância que ela tanto adorava. 
    A menina adorava essa boneca, mas a sua mãe não, porque sempre que olhava para ela lembrava-se do ex companheiro, pai da Adolescente. A mãe jurou a si mesma que se havia de livrar dessa boneca. 
    É claro que a menina não permitia que a mãe retirasse a sua Luisinha…a boneca. Muitos dos bonecos foram para o sótão da casa, mas Luisinha não teve sorte. 
    O quarto da menina tornou-se triste, monótono, sem cor…acho que a menina não vai gostar. A mãe pegou na boneca Luisinha e levou-a para a praia, para que fosse levada pelo mar. 
    Aproximou-se das possecas, olhou em volta, e como não estava ninguém a ver, deitou a boneca na areia molhada. 
    Quis dar a entender que foi esquecida por alguma criança.  A mãe olha para a boneca friamente e diz:

MÃE– Finalmente a minha filha cresceu! Vou – me livrar de ti. De ti, e das recordações daquele maldito, imbecil. (p.c) A minha filha já não precisa de ti para nada! (p.c) Já nem se deve lembrar que exististe.
Dá uma gargalhada e suspira aliviada:
MÃE - Ááááhhh…que alívio…! Parece que me saiu uma tonelada de cima das costas…e da cabeça.
NARRADORA - Vira costas e sai. Não vos é familiar, alguém assim…? Má…? Má por tirar a boneca preferida, uma doce recordação da infância, inofensiva…e má…por estar a poluir a praia. 
    Sim, é essa mesma! O mar está muito calmo, o sol está luminoso e escaldante, e a boneca deitada na areia, ainda a dormir. 
  Um caranguejo que passeava preguiçoso, por ali, depois da sua ginástica matinal, distraído, pousa nos cabelos da boneca, pensando que era uma alga, e com as suas tenazes aperta os cabelos dela, e puxa-os, remexe-os. 
NARRADORA - A boneca acorda sobressaltada e dá um grito.
BONECA – Ááááhhh…Aaaaaiiii…!  
NARRADORA - O caranguejo assusta-se e corre para a areia, e ainda assustado, com a respiração ofegante grita:
CARANGUEJO – Ai…! Que susto! (Boneca e caranguejo olham-se fixamente) O que temos aqui…hummm (olha-a de cima a baixo) Uma nova espécie de sereia…ou…peixe…?
NARRADORA - A boneca olha para ele e os dois dialogam um com o outro:
BONECA – És um boneco?
CARANGUEJO – Um quê?
BONECA – Um boneco…como eu…!
CARANGUEJO – Olha não sei o que é isso…sei que sou um caranguejo. E tu?
BONECA – Eu sou uma boneca.
CARANGUEJO – Coitadinha…está a bater um bocadinho mal…diz coisas esquisitas.
BONECA – Desculpa?
CARANGUEJO – Ahh…vamos ao que interessa…desculpa se te magoei…não tinha reparado que estavas aqui. Vim da minha ginástica matinal…repousei acho que nos teus cabelos…pensei que era uma alga…eu estava a acamá-la.
BONECA – Não faz mal…eu estava a dormir…senti alguém a puxar-me os cabelos.
NARRADORA - Enquanto a boneca conversa com o caranguejo, num rochedo perto estão duas grandes algas (alga 1; alga 2) a espreitar: 
ALGA 1 – Olha…temos visitas!
ALGA 2 – Naaa…aquilo deve ser uma nova conquista do caranguejo.
ALGA 1 – Um bocado estranha…
ALGA 2 – Sim, não sei onde é que ele foi desencantar aquela espécie de…sei lá o quê…!
ALGA 1 – É uma sereia.
ALGA 2 – Que sereia? Não, não é! Isso sei que não é…não tem cauda de peixe! Tem pernas e braços como as meninas, meninos e crescidos que aqui passam.
ALGA 1 – Hum…pois é…tens razão…! É um ser muito estranho. Será uma nova espécie de peixe? Ou…um ser de outro planeta…ou…uma bruxa disfarçada…ou… (Alga 2 interrompe)
ALGA 2 – Cala-te…! Não estás a pensar no que estás a dizer, com certeza. Um peixe com pernas, braços e cabelo…Naaa…! Óh mulher, tu nem parece que vives no mar…não sabes como são os peixes?
ALGA 1 – Sei sim…mas não conheço todos os que vivem aqui…Tu conheces…todos?
ALGA 2 – Não, claro que não conheço todos.
ALGA 1 – Não é peixe, nem uma sereia…é uma criança…sim…é isso…se calhar foi abandonada aqui na praia…ou…os pais esqueceram-se dela aqui, ou perdeu-se…ai…coitados dos pais, devem estar num sofrimento sem fim…ou…estava num barco e caiu…ou…pior ainda…atiraram-na…! Aaaaaahh…coitada…que horror…
ALGA 2 – É melhor ficares por aqui…cruzes! Que trágica! Tens cada ideia…!
ALGA 1 – Estou só a pensar em pistas para a Investigação deste…abandono.
ALGA 2 – Mas quem é que te garante que ela foi abandonada…se calhar nenhuma dessas tuas hipóteses terríficas está certa.
  Uma Estrela-do-mar fica intrigada com tanto alvoroço das algas e quer saber o que se passa:
ESTRELA - DO - MAR – Meninas…o que é que se passa? Estão muito nervosas.
ALGA 1 – Olha para ali…aquela…que está ali a falar com o caranguejo…
   A estrela-do-mar não vê qualquer problema no que a Alga 1 acabou de dizer e comenta:
ESTRELA - DO - MAR – O que é que tem? Não pode estar a falar com ele?
ALGAS – Sim, pode!
   A estrela-do-mar ri-se e diz com ironia:
ESTRELA - DO -MAR - Estás cheia de ciúmes…ela não lhe vai comer nenhum pedaço por estar a falar com ele.
  A Alga 2 ri-se, mas a Alga 1 fica ofendida mas não assume e disfarça ao responder à Estrela-do-mar:
ALGA 1 – Humm…eu cheia de ciúmes…? Cruzes…! Nem sequer gosto dele…só como amigo…e se lhe comer um pedaço é problema dele. É porque deixou.
  A Alga 2 e a Estrela – do – Mar perceberam bem os ciúmes da amiga e respondem a rir:
ALGA 2 E ESTRELA-DO-MAR – Pois, pois…!
      A alga 1 responde a disfarçar o embaraço:
ALGA 1 – E é verdade…
     A alga 2 e a Estrela-do-mar respondem a rir:
ALGA 2 E ESTRELA-DO-MAR – Sim, sim…nós sabemos!
    A Estrela-do-mar ri e comenta:
ESTRELA - DO - MAR – Claro. É mesmo sedutor este caranguejola…
  A Alga 2 também partilha o seu incómodo pela situação. 
ALGA 1 – O que nos incomoda realmente não é ele estar a falar com ela, até porque ela não mexeu connosco…mas…não sabemos o que é que ela é…
ALGA 2 - Nem de onde veio…
ALGA 1 - Não sabemos se é uma espécie nova de peixe…
ALGA 2 – Uma sereia também não é…mas pode ser uma criança abandonada pelos pais, ou atirada de um barco…
   A Estrela – do – mar ri-se das ideias das amigas e comenta:
ESTRELA-DO.-MAR – Cruzes…estás a delirar…ou a ter um pesadelo…?!
     A Alga 2 ri-se 
ALGA 2 – Ainda tu não sabes da missa a metade…o que eu já ouvi desta maluca…!
    A Alga 1 mostra-se preocupada e tenta justificar os seus ciúmes de outra maneira:
ALGA 1 – O nosso amigo pode estar em perigo…!
ALGA 2 – Ele e nós…
  A Estrela-do-mar conhece muito bem o amigo caranguejo e para tranquilizar as amigas diz-lhes a rir:
ESTRELA - DO - MAR – Ele sabe defender-se muito bem, não se preocupem! E sabe defender-nos, se for preciso! (p.c) Tenho a certeza que é uma boneca deixada…esquecida por alguma criança.
   As algas suspiram de alívio, mas ainda não estão muito convencidas e dizem em coro:  
ALGAS – Ááááhhh…!
ALGA 1 – Uma das minhas pistas de investigação está correta.
     A Alga 2 ri-se e diz à Estrela-do-mar:  
ALGA 2 – Não ligues Estrela…
NARRADORA - A boneca levanta-se, meia atordoada, a esfregar os olhos, o caranguejo acompanha – a até ao rochedo onde estão as amigas. Ela está confusa e não sabe onde está…nunca esteve naquele sítio…pelo menos que se lembre…e questiona-se:
BONECA – Ai, ai…onde estou? (Olha a toda a volta) Este não é o sítio onde costumava estar…ah…tanta água…mas…o sítio onde eu costumava estar não tinha água, nem…ei…tanta luz…! E…este chão…não é igual ao chão onde eu estava…Óhhh… (triste) mas…onde é que eu estou…? (p.c) Como é que eu vim aqui parar…?! (p.c) Óhhh…onde está a minha amiga…?!
CARANGUEJO – Apresento-vos uma nova amiga. Aaahhh…como te chamas mesmo…
BONECA – Luisinha.
    Todas sorriem
TODAS – Olá, muito gosto…!
   A boneca está mais preocupada em saber onde está e volta a perguntar:
BONECA – Que sítio é este? 
CARANGUEJO – Já me perguntaste isso há bocado, e eu já te disse há bocado…!
    A Alga 1 segreda para a Alga 2:
ALGA 1 – Ela é muito estranha…devemos ter cuidado com ela…nem sabe que sítio é este!
CARANGUEJO – Estamos na praia.
     A boneca já ouviu falar nesse nome e responde:  
BONECA – Sim, é isso.
  A Estrela-do-mar quer saber mais sobre ela e pergunta:
ESTRELA - DO  - MAR – E tu, de onde vens?
ALGA 1 – Como é que vieste aqui ter?
NARRADORA - Como a boneca estava a dormir quando foi deixada na praia, não sabe como foi lá parar e responde:
BONECA – Eu não sei como vim aqui parar…!
ALGA 1 – Se não conhecias os sítios não devias ter saído de onde estavas. Fugiste de casa?
    Isso a boneca tem a certeza e responde com firmeza:
BONECA – Não.
  O Caranguejo não gostou deste comentário da amiga e responde:
CARANGUEJO – Alguinha…não estás a ser muito simpática…
ALGA 1 (zangada) – Cala-te, mal agradecido…só estou preocupada contigo…e connosco…! Arranjas-nos cada peça…
CARANGUEJO – Mas o que é que te deu…?
ESTRELA - DO - MAR – Luisinha, não ligues…estes dois adoram-se…só que não admitem.
    Todos riem. Alga 2 tenta ajudar a boneca a lembrar-se do sítio de onde vinha e pergunta:  
ALGA 2 – Mas como era o sítio onde estavas?
BONECA – Eu não fugi de casa…alguém me tirou de lá.
ALGA 1 – E não viste quem foi? 
BONECA – Acho que foi a mãe da minha amiga que disse que eu ia para o lixo.
     O Caranguejo fica chateado e responde:  
CARANGUEJO – Mas aqui não é o lixo! Aqui é o mar…a praia…
ESTRELA-DO-MAR – Sim, aqui infelizmente há lixo por todo o lado porque as pessoas não têm respeito por nós…mas não é o lixo! Nem a lixeira.
ALGA 1 – Mas como é que é possível a mãe da tua amiga dizer-te que vais para o lixo? Que maldade.
CARANGUEJO – Não devia gostar de ti!
BONECA (triste) – Mas eu gostava tanto delas…
     A Estrela-do-mar tenta aliviar a tristeza da boneca e sugere-lhe:  
ESTRELA-DO-MAR – Bem…senta-te aí no rochedo para secares e para te protegeres.
    A boneca pensa procurar um sítio para ficar e pede ajuda:  
BONECA – Conhecem algum sítio onde eu possa ficar abrigada?
CARANGUEJO – Não te preocupes, nós vamos encontrar.
ALGA 2 – Sozinha já não estás.
CARANGUEJO – Sim, nós estamos contigo.
ESTRELA-DO-MAR – Sim, somos teus amigos. Estamos e estaremos sempre por aqui.
BONECA – Obrigada! E vocês moram aqui…com o caranguejo? Neste sitio que chamam mar…e…praia…?  
TODOS – Sim.
ALGA 1 – Eu e ela somos algas! A nossa família está espalhada por toda a praia…
ESTRELA - DO- MAR – Eu também tenho família por aí…sou uma estrela – do – mar.
BONECA – O sítio onde eu vivia era em pedra, fechado, toneladas de pó e…silencioso…só quando os outros que lá estavam se lembravam de sair das caixas e faziam festas…era muito animado quando isso acontecia! (p.c) Gostam de viver aqui?
TODOS (sorriso aberto) – Sim.
CARANGUEJO – Também não conhecemos outros sítios. 
ALGA 1 – Aqui temos liberdade, paz, luz…
ALGA 2 – O teu sítio devia ser horrível…! Acho que não queria viver lá!
ESTRELA-DO-MAR – Eu também não! Só de te ouvir descrever, fiquei com falta de ar…!
BONECA – Eu também não achava o melhor sítio! Gostava mais quando estava no quarto da minha amiga…pequenina! Depois ela mandou-nos para aquele sítio! Cresceu!
     Todos ficam com pena da boneca
TODOS – Óhhh…coitadinha…!
CARANGUEJO – Desculpa dizer-te isto, mas ela não era uma verdadeira amiga!
ALGAS – Pois não!
ALGA 1 – Se ela fosse tua verdadeira amiga não te abandonava, nem te mandava para aquele sítio feio.
BONECA – Sim…também acho!
ALGA 1 - Os verdadeiros amigos, nós vemo-los aqui na praia…!
ALGA 2 - Pois é, as crianças vêm para a praia com as suas amigas bonecas…
BONECA - Eu considero que sempre fui uma boa amiga da minha amiga…! Pelo menos era o que ela dizia…andávamos sempre juntas, passamos momentos muito felizes…e quando ela estava triste procurava-me, abraçava-me, contava-me tudo…não percebo porque é que ela me abandonou do nada…sem qualquer justificação.
   O Caranguejo constrói uma frase muito bonita e diz com ar meditativo, profundo, poético:
CARANGUEJO - Pois é, querida…a amizade é uma flor delicada…se uma pétala fica murcha, as outras vão atrás. E tu és uma flor delicada…com certeza, depois da tua amiga te abandonar, deves ter ficado com uma pétala murcha…mas rega de novo a terra em que está plantada a tua flor, com a nossa amizade, e não permitas que as gostas de chuva que caem dos teus lindos olhos, acabem de murchar as outras todas…sorri e rega a tua flor com o chafariz da nossa amizade!
    Faz-se silêncio, ficam todas de boca aberta, batem palmas e comentam admiradíssimas:
ALGA 1 - Áh…estou parva…!
ALGA 2 - Este não é o Caranguejo que conhecemos pois não?!
ESTRELA - DO MAR - Que coisas tão bonitas que disseste…!
ALGA 1 - Tens é muita treta.
ALGA 2 - Onde e o que andaste a ler?
     O Caranguejo responde vaidoso e importante:
CARANGUEJO - Mau…já estás a querer saber demais…! Não li em lado algum…apenas…senti…esta boneca que está aqui é que me inspirou!
  A boneca ri-se. As Algas já conhecem a peça e abanam a cabeça. A Estrela-do-mar pergunta:
ESTRELA - DO - MAR – Então tu…és uma boneca…!
BONECA – Sim! Como é que sabes?
     A Estrela – do – mar sorri e recorda:  
ESTRELA-DO-MAR – Há muitas crianças que deixam aqui as amigas perdidas!
     A boneca muito surpresa pergunta:
BONECA – Ááááhhh…ai sim?
TODOS – Sim.
    A boneca identifica-se com a tristeza que as meninas sentirão…e as outras bonecas também, e pergunta:
BONECA – Mas, ninguém as vem buscar?
ESTRELA-DO-MAR – Às vezes ainda procuram, mas as bonecas escondem-se…porque algumas são maltratadas. 
BONECA – Eu…era bem tratada…quer dizer…mais ou menos…comparando com outras bonecas…coitadas! Eu até tinha pena delas! Algumas eram agarradas pelo pescoço…pelos cabelos…!
ALGA 1 – E...se a tua amiga pequena te vier buscar, tu vais com ela outra vez?
BONECA (triste) – A minha amiga já é grande…se calhar já nem se lembra de mim! Já não lhe deve interessar onde estou!
ALGA 2 - Não…se ela é tua amiga mesmo, nunca te esquece!
TODOS - É verdade!
  A Alga 1 mostra a sua felicidade de ser como é e responde:  
ALGA 1 – Fico feliz por ser uma alga…
ALGA 2 – Eu também!
ESTRELA-DO-MAR – Também gosto de ser como sou…!
BONECA – Não gostavam de ser humanos?
TODOS – Não!
CARANGUEJO – Eu não trocava esta vida por nada!
    A boneca olha em volta, sorri e comenta:
BONECA – Este sítio é mesmo bonito…! (p.c) Está decidido…não vou sair daqui…!
    Todos sorriem, batem palmas e respondem em coro felizes:
TODOS – Fixe!
CARANGUEJO -  É uma excelente escolha!
ESTRELA-DO-MAR – Queres vir connosco, conhecer melhor este espaço maravilhoso?
BONECA – Sim!
ALGA 1 – Então…acompanha-nos…vais adorar.
NARRADORA - O Caranguejo, as algas e a estrela – do – mar acompanham e guiam a boneca, andam pela praia alegremente, numas conversas muito animadas, mergulham, brincam uns com os outros, riem…entretanto, a adolescente que era amiga da boneca está em casa á procura dela e tem uma conversa com a mãe
ADOLESCENTE – Mãe…o que é que aconteceu aqui?
MÃE – Estive a arrumar o teu quarto! Já estás crescidinha, já não precisas de ter bonecas aqui…estão lá em cima!
ADOLESCENTE – Este quarto está…horrível… (zangada) quatro paredes brancas…uma cama…móveis…sem cor… (p.c) por alma de quem é que tiraste os bonecos…? (p.c) vou buscá-los outra vez lá cima.
MÃE – Nem te atrevas…deu-me um trabalhão arrumá-los…aqui só atrapalham.
ADOLESCENTE (zangada) - Arrumaste porque quiseste…eu não te pedi…para mim, o quarto estava muito bem como estava…!
MÃE – Parecia uma feira! O quarto é para repousar…não é para estar cheio de quinquilharia…eu não tinha nenhum no meu quarto! A tua avó tirou-mos todos quando fui adolescente!
ADOLESCENTE (zangada) - E ficaste feliz por isso?
MÃE – Tive de ficar…! Não me adiantava de nada ficar chateada. Eu sabia que era para meu bem.
ADOLESCENTE (zangada) - Sim, fez – te tão bem que te espetaste logo de cabeça com o meu pai…!
MÃE (zangada) - Cala-te…tu não sabes o que estás a dizer…
ADOLESCENTE (zangada) - Gostaste do teu quarto sem bonecos?
MÃE – Tive de gostar. Mesmo que não gostasse, tinha de fazer a vontade à tua avó.
ADOLESCENTE – Que coisa mais sem pés nem cabeça…que tristeza…onde é que já se viu…! (p.c) Os meus bonecos preferidos vão voltar para aqui!
MÃE – Então passas tu a arrumar o teu quarto. Ou chiqueiro…
ADOLESCENTE – Está bem! (quando a filha sobe, a mãe murmura) A esta hora já deve estar bem longe…na boca de um cão…ou nas mãos de uma criança…ou no fundo do mar…! (gargalhadas) procura, procura…não tens que fazer…
NARRADORA - A rapariga vai ao sótão e vasculha os caixotes, nervosa, tira alguns bonecos, abraça-os felizes, mas não encontra a sua boneca Luisinha. Volta para o quarto com os bonecos ao colo e pergunta à Mãe e voltam a discutir.
ADOLESCENTE – Mãe…onde está a Luisinha?
MÃE – Que Luisinha?
ADOLESCENTE – Aquela boneca linda que andava comigo para todo o lado.
MÃE – O mar levou-a…!
ADOLESCENTE (zangadíssima) - O quê? (p.c) Ainda ontem a vi aqui, e não a vi lá em cima!
MÃE (fria) - Deitei-a ao lixo!
ADOLESCENTE (zangadíssima) - O quê? (p.c) Mas o que é que te deu?! Deitas os meus brinquedos fora sem a minha autorização? Onde é que a deitaste fora?
MÃE (fria) - Na praia! Aqui em frente. E já devia ter feito à mais tempo!
ADOLESCENTE - Sim, pois era a tua vontade já há muito…bem sei…
MÃE - Só não o fiz antes porque tu eras muito pequena e disseste que ias atrás dela nem que te afogasses. É claro que uma mãe não gosta de ouvir isso de uma filha…
ADOLESCENTE (chateadíssima) - Na praia…? Mas que monstruosidade! Estás a poluir a praia…o que é que ela te fez para a deitares ao lixo?
MÃE (chateada e fria) - Não gosto dela! É do tempo do vagabundo, traidor do teu pai…traz-me más recordações!
ADOLESCENTE (chateada) - Então também tens que me deitar ao lixo, eu sou filha dele…não é a Luisinha. Nem foi a Luisinha que o mandou fazer o que fez…! (p.c) Se tu tivesses continuado com as tuas amigas bonecas já tinhas esquecido o que o meu pai fez de mau! (p.c) Eu…ainda nem acredito que arrumaste uma boneca de infância…! Acabaste de me matar…
MÃE (zangada e fria) - Não digas disparates…já não tens idade para ter bonecos.
ADOLESCENTE – Preferes que eu te dê netos verdadeiros é?
MÃE (embaraçada) - O quê…? Estás louca? Nem penses numa coisa dessas. Lá virá o tempo, agora não…quer dizer…se os fizeres agora assumes a responsabilidade. Pensas que é alguma brincadeira?
ADOLESCENTE – Então deixa os meus bonecos em paz…aqui no meu quarto. É por isso que estás carregada de rugas…!
MÃE (ofendida, passa as mãos na cara) - Estás a chamar-me velha?
ADOLESCENTE – É! É como tu estás…! Já te viste bem ao espelho? Estás horrível.  
MÃE – Que atrevimento. Aliás…se tenho assim tantas rugas foste tu que mas puseste…
ADOLESCENTE - Ai eu é que te pus as rugas…claro…olha…sempre deve ser melhor levar com rugas na cara do que levar com um par de cornos na testa…!
MÃE - Miserável… (dá-lhe uma sapatada e resmunga chateada) És ordinária como o teu pai. É ele que te ensina essas coisas…?
ADOLESCENTE (zangada) - Atrevimento tiveste tu…em deitar fora as minhas bonecas, e uma em especial.
MÃE - Vê lá como falas comigo…sou tua mãe…ainda estás em idade de levar uns bons sopapos.  
ADOLESCENTE (grita) - Bruxa.
MÃE (grita chateada) - Espera até seres mãe, que tu vais ver o que é bom…! Estafermo…sai mesmo ao vagabundo do pai…ai…o que é que eu fiz para merecer isto…?
NARRADORA - A Adolescente sai disparada a chorar e vai para a praia em frente a casa olha para as dunas, anda de um lado para o outro, não vê a boneca…a mãe aprecia da janela a rir e diz orgulhosa e fria:
MÃE – A esta hora já deve estar bem longe, no mar alto, na boca de um peixe, no bico de uma gaivota ou…com sorte…nos braços de uma criança. (gargalhadas e vai para a cozinha). 
NARRADORA - A Adolescente vai para a beira do mar muito triste. A boneca já voltou, para o mesmo sítio, está a falar com os amigos. A adolescente vê-a e grita com lágrimas nos olhos mas a sorrir:
ADOLESCENTE – Luisinha…
  Corre para a boneca, pega nela contentíssima, abraça-a, a sorrir, dá-lhe beijinhos e diz:
ADOLESCENTE - Luisinha…estás aqui…à minha espera…que bom!
    A Estrela-do-mar intrigada exclama:
ESTRELA - DO - MAR – Encontraste rápido uma nova amiga!
ALGA 1 – Se fores maltratada foge e anda para aqui.
   A boneca está feliz por ter visto de novo a sua amiga e diz às amigas a sorrir:
BONECA – Não! Esta é a minha amiga. A menina crescida de que vos falei.
    O Caranguejo sorri um pouco emocionado e diz:
CARANGUEJO – Boa! Eis um excelente exemplo do que é uma verdadeira amizade!
   A Alga 2 está feliz pela amiga, mas também tem pena que ela vá embora e pergunta:
ALGA 2 – Então…já vais embora…!
    A boneca informa os amigos da sua vontade de ficar:
BONECA – Óóóhhhh… mas…eu queria ficar aqui convosco!
  A Adolescente sente-se envergonhada pelo que a mãe fez à sua boneca e tenta pedir desculpa à boneca dizendo:
ADOLESCENTE (a sorrir) - Que bom que estás aqui…a minha mãe foi muito má comigo e contigo! Vou voltar a levar-te.
  Embora a boneca esteja feliz com o reencontro, ela sente-se a mais na casa da amiga, e ficou magoada com a mãe da menina. Ela diz:
BONECA – Mas eu não quero ir.
ADOLESCENTE – Gosto tanto de ti, Luisinha. Desculpa o que a minha mãe fez contigo.
   A boneca não consegue esquecer o que lhe fizeram, e não quer ir. Ela diz:
BONECA – Mas, eu não quero ir contigo! Tu vais voltar a meter-me naquele sítio horrível!
ADOLESCENTE – Vais ficar no meu quarto…não vais para o sótão!
   O Caranguejo apesar de ter ficado triste incentiva a boneca:
CARANGUEJO – Vai com ela!
BONECA – Estava aqui tão bem!
ALGA 2 – Nós também estávamos a gostar tanto de ti…! Óóóhhhh… que pena!
ADOLESCENTE (sorri) – Vamos…vou-te vestir, pentear-te, pôr-te a secar e ficas em cima da minha cama!
  A Estrela-do-mar repara que a Adolescente ainda gosta muito da boneca e diz:
ESTRELA - DO - MAR – Ela gosta mesmo de ti!
BONECA – Estou para ver se é mesmo assim. Se me puseres naquele sítio nojento…eu fujo! (p.c) Até breve, queridos! Obrigada, e venho visitar-vos…
   Todos estão com pena que a amiga vá embora, mas dizem a sorrir:
TODOS – Está bem…até breve! 
   A adolescente vai abraçada á boneca contente. 
ALGA 1 – Fico contente que ela tenha reencontrado a sua amiga!
ALGA 2 – Eu também. Menos lixo vem para o mar.
ALGA 1 – Afinal tinha uma ideia errada dela…
ESTRELA-DO-MAR – Espero que ela nos venha visitar em breve.
CARANGUEJO – Sim, ela vive aqui em frente…naquela casa! Bem pode vir aqui visitar-nos.
Quando a mãe vê a adolescente a entrar em casa com a boneca ao colo, nem quer acreditar e fica a ferver.
MÃE (furiosa, grita) - Maldição…!
     A Adolescente diz irónica:
ADOLESCENTE – Lamento…mas os teus planos de te livrar da minha amiga foram por água abaixo…ela estava à minha espera. Isto sim…é uma verdadeira amiga.
    A mãe fica possessa e grita furiosa:
MÃE – Maldita boneca! (p.c) Ainda vou acabar com ela um dia destes.
    A boneca não entende o porquê de tanta raiva que a mãe da rapariga lhe tem, e pensa para si mesma:
BONECA – Que raio de mulher…! Nunca lhe fiz mal, para que é que ela quer acabar comigo?
    A Adolescente defende a boneca e diz à mãe:
ADOLESCENTE – Antes de acabares com ela, vais ter de acabar comigo!
    A boneca chateada murmura:
BONECA – Não é preciso…fica com ela…eu salto pela janela!
   A mãe não aceita este gosto da filha pela boneca e critica-a ironicamente:
MÃE – Queres uma chupetinha…?! (chateada) Que tristeza…é preciso tanta coisa por causa de uma porcaria de uma boneca…com esta idade.
     A boneca pensa para si mesma:
BONECA – Está cheia de inveja de não ser como eu…! Linda…
   A adolescente põe a boneca à janela a secar, penteia-a e a boneca grita:
BONECA – Amigos…estou aqui…!
NARRADORA - Eles sorriem e acenam. Depois de seca, a adolescente veste a boneca e põe-na em cima da cama, trata-a com carinho. 
    Quando a menina não está em casa, a boneca sai pela janela e vai para a praia brincar alegremente com as algas, a Estrela – do – Mar e o Caranguejo.
   A adolescente também fica mais feliz por ter a boneca de volta e por ter o quarto mais colorido, mais bonito…a adolescente está no quarto, olha para as bonecas, pega na Luisinha ao colo, sorri e diz:
ADOLESCENTE – A infância é a fase mais bonita da nossa vida…e mesmo quando crescemos, essa fase deve estar presente seja através dos bonecos no nosso quarto seja através dos bonecos no nosso quarto seja de outra maneira…eles dão cor aos espaços e alegria ao nosso coração! (p.c) Mesmo em adultos, nunca se separem dos bonecos ou das boas coisas da infância…isso não deixa envelhecer…! Mesmo que apareçam as rugas na cara, o mais importante é que o vosso coração não as ganhe.
FIM
Lara Rocha 
(7/Abril/2011)