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sábado, 31 de julho de 2021

Amor de Verão e amores a sério (para adolescentes e adultos)



Mulheres falam entre si, de amores de Verão e de relações mais adultas. 

M1 - Dizem que amores de Verão enterram-se na areia. Vivem-se, e esquecem-se. Eu acho que não é bem assim, vivem-se e recordam-se para sempre, mesmo que seja só aqueles poucos dias, se forem intensos, já vale a pena. 

M2 - Quem nunca os teve? 

M3 - A extraterrestre da minha prima. 

(Riem) 

M4 - Se calhar essa também teve, mas não diz. 

M5 - Eu acho que não existem. 

M1 - Porque é que achas que não existem? 

M5 - Acho que é pouco tempo para construir uma relação. 

M2 - Pode ser pouco tempo, mas são coisas que não conseguimos controlar. Eu pelo menos não resisto, se tiver um homem jeitoso a desfilar diante de mim, e se mostrar interesse, eu respondo. 

M4 - O quê? Também nunca os tiveste? 

M5 - Não! 

M6 - Não sei como conseguiste não ter nenhum. 

M7 - Eu quando vou de férias, aproveito tudo o que vem à rede! Tudo a que há direito. 

M5 - E depois quando regressas a casa, se ele é doutra cidade? 

M1 - Agora existem as novas tecnologias que aproximam. 

M5 - Sim, há outras maneiras de contato, mas não é a mesma coisa que o cara a cara, e a proximidade física. 

Todas - Claro. 

M8 - Podes curtir só com alguém, sem grande ligação. 

M2 - Isso! Apesar de eu achar difícil não te envolveres, não sentires nada, e curtires só porque sim. 

M3 - Isso também concordo. 

M4 - Eu acho que não chega a ser Amor...talvez...atração.

M7 - Sim, mas também não tens que ter obrigatoriamente alguma coisa com eles, só porque gostas do aspeto. Alguns também não querem nada, só aproveitar o momento, a oferta para se sentirem muito machos. 

M5 - Depois de acabar, o que fica? 

Todas - Nada. 

M8 - Fica a baixa auto-estima! 

(Todas riem) 

Todas - É verdade. 

M2 - O nojo, no meu caso!

M4 - Sentiste nojo do teu ex? 

M2 - Senti. Foi um amor de Verão que eu imaginava ser para a vida toda. Tanta fantasia minha! 

M7 - Essa é a fantasia de qualquer mulher. 

Todas - É. 

M1 - Às vezes ficam filhos indesejados. 

Todas - Também. 

M2 - Ou alguma IST. 

Todas - Pois. 

M1 - Mas, eu que acabei de chegar de férias, vivi um amor que começou no Verão, sim, este mês...aquele príncipe que desfilou diante de mim, foi com a minha cara, gostou do meu ar, e fez tudo para cativar a minha atenção. Eu não queria que ele percebesse, mas a mim também me agradava ao olho. Não facilitei, mas essa minha defesa durou poucas horas, porque no dia seguinte, na piscina meteu conversa comigo, e eu caí, feita pata, agora estou numa depressão profunda, porque ele falhou com a promessa dele. Que desilusão. Curtimos, de forma escaldante, ele beijou-me como se não houvesse amanhã, e eu deixei-me levar, saímos algumas noites para os bares, e claro, aquela música a rebentar com tudo, dançamos, e fomos descansar para a praia. O que aconteceu na praia, foi fixe, mas só curtimos. Passados uns dias, qual não é o meu espanto… vejo a mulher dele e 4 filhos a chegar, crianças ainda pequenas, lindas como ele, a mulher carregada de coisas, e ele passou por mim, como se não me conhecesse, um seco bom dia, e boa tarde. Eu, claro, como não queria escândalo, fiz o mesmo, mas que vontade de o esganar. Maldito. Disse-me que era solteiro. Senti-me uma sucata, usada, com nojo de mim mesma. 

Todas - A sério? 

M1 - Sim. Aquela explosão de hormonas, apagou logo que vi a mulher dele com os filhos. Que nojo. Apetecia-me chibá-lo, mas tive pena da respetiva e das crianças… porque se fosse eu a esposa dele, com filhos e alguma outra me viesse dizer na fuça que o marido, pai dos 4 filhos andou com outra enquanto a escrava trabalhou, que até teve de ir mais tarde… 

M2 - É só fogo de vista. Mas acontece. Eu na minha adolescência tive uma pequena curte com um rapazito, que já nem me lembro da cara dele, nem do nome, às tantas até já nos cruzamos pelo mesmo sítio e nem nos reconhecemos. 

M3 - Claro, esquecem-se rápido. E os teus pais souberam? 

M2 - Não, a minha geração era muito controlada pelos pais. Sofri em silêncio, chorei às escondidas, disfarcei a minha dor. Nem ficamos com o contato um do outro. Mas ele era giro, ainda éramos talvez pré-adolescentes. 

M4 - Às vezes esses namoricos inocentes deixam boas recordações. 

M6 - Tu tiveste algum? 

M4 - Tive. (ri) Começou com a mesma rapidez que acabou, e não sofri, porque na verdade acho que não sentia nada por ele, era só aquela coisa de...atração. Quisemos experimentar. 

M7 - Deram asas à fantasia. 

M4 - É. Foi isso. Foi giro e tal, mas parecia uma cena de novela. 

M1 - Eu acho que quando escolhes que não queres nada sério, e alguém te dá troco, pensando da mesma maneira, até podem viver momentos escaldantes, mas logo que o fogo apaga, vês que eles ficam na maior, e a mulher às vezes fica mal. 

M2 - Eu acho difícil estares com alguém por quem não sentes nada. 

M6 - Eu também acho, e não seria capaz, mas sei de muita gente que consegue. 

M8 - Depois devem ficar mal emocionalmente. 

Todas - Claro. 

M3 - Acho que alguns adolescentes só curtem para imitar o que veem nas novelas. 

M6 - Claro, e andam com praticamente tudo de fora, reveem a matéria de ciências e biologia, fazem os testes na prática e tudo. 

M5 (a rir) - Está muito bem visto. 

M7 - Para muitos adolescentes, umas curtes de Verão, quando acabam, parece que ficam no fim do mundo, com tanta tristeza. Uns tempos depois já não se passou nada, a não ser, contar aos outros que são muito pretendidos e desejados. 

M8 - Sim, eles acham que sabem muito, mas muito do que pensam saber, vão buscar à Internet, o que não é a melhor forma de aprenderem. 

M2 - Pois, quando passam para a prática, é só asneirada. 

M4 - O pior ainda é praticarem, a achar que sabem muito, e sem proteção! Depois...ai, o que aconteceu... 

Todas - Pois é. 

(Todas riem) 

M1 - É preciso maturidade, e às vezes não existe na idade adulta, quanto mais na adolescência. Mas eu acho bem que os adolescentes vivam essas ilusões, mesmo que não passem de ilusões. Eu na minha geração, também teria vivido se me dessem mais liberdade. 

M3 - Concordo, mas fomos de um extremo ao outro, nesse ponto. 

M5 - Realmente. Eu vejo fazer coisas, agora, que se fosse na nossa geração, levávamos logo uma tareia. 

Todas - Mesmo.

M6 - Havia mais respeito, e mais cuidados. Agora banaliza-se a palavra namoro, e amor, relações, intimidade e outras. 

M7 - Uns tios meus, começaram por ser namorados de Verão, encontravam-se todos os anos, são de cidades vizinhas, mas foi uma coisa mais séria, começaram com uma curte, trocaram contatos e perceberam que era mais que um amor de Verão, passaram a falar-se todos os dias, encontravam-se ao fim de semana, e depois foram para a mesma universidade. Continuaram o namoro. 

Todas - Que máximo. 

M1 - E achas que eles foram fiéis? Hummm...tanto tempo...? 

M5 - Duvido. 

M2 - Eles na altura eram mais fiéis, e não havia tanta oferta. 

Todas - Pois. 

M4 - A minha mãe diz que eu fui feita num amor de Verão, e o meu pai não assumiu, mas depois entenderam-se uns anos mais tarde. 

M3 - Uns primos meus, ficam bué de deprimidos quando voltam de férias, porque conhecem meninas, e travam amizades com elas, mas são de longe, ou são da mesma cidade, mas é como se não fossem. E agora têm outras possibilidades de contato uns com os outros, lá com as redes sociais e telemóveis. 

M8 - Os meus tios gozam à brava, quando os meus primos sofrem depois das férias, por causa de miúdas que conhecem, como se fosse uma relação muito séria, às vezes nem têm coragem de se envolverem com elas, ou trocam uns beijitos e já acham que é para a vida toda. 

(Riem) 

M1 - Coitadinhos, Santa Inocência. Nós na idade deles, não tínhamos hipótese. 

M5 - Eu não tive porque era muito tímida, e acho que também não reparavam em mim, mas lembro-me que as minhas primas tiveram para aí uns amores de Verão, que hoje lembram-se e dizem não perceber o que tinham visto naquilo. 

(Riem) 

M3 - Pois, também já me aconteceu. Mas isso faz parte. 

M2 - Eu acho que com aquela euforia do fogo de vista, nem pensam no que pode vir a acontecer, e passam por cima dos sentimentos. Isso pode ser bom, mas talvez tenha as suas consequências, dependendo da idade. 

M4 - Eu tive várias desilusões antes do meu amor recente. 

M8 - E conseguiste voltar a apaixonar-te? 

M4 - Sim, sem problema. Depois de passar a dor, pensei que ele estava bem, já tinha outra, e eu ia ficar no fundo do poço? Ele não me ia lá buscar. Eu é que tinha de sair de lá, e tinha o mesmo direito de arranjar outra pessoa, melhor do que ele. Este é mesmo melhor do que ele. E não demorei muito a sair da tristeza. Por acaso...começaram os dois no Verão, e acabaram no Verão, o primeiro durou 2 anos, e este, dura há 6 anos. 

M7 - O meu atual foi o meu amor de Verão este ano, dura há algumas semanas. Vamos ver se vou enterrá-lo na areia, no fim do Verão, ou se vou continuar. 

(Todas riem) 

M2 - Hoje nada é certo. 

M7 (ri) - Por isso é que estou a dizer. 

M3 - Mas tiveste algum amor de Verão, na tua adolescência, ou idade adulta? 

M7 - Não. Na adolescência, tive algumas ilusões, mas nunca me envolvi com nenhum, porque eles eram de outras cidades, e na verdade não estavam interessados em grande coisa. Não houve tempo.  Entretanto construí amizade com três deles, de quem gosto muito, e falo com eles muitas vezes. 

M5 - Pois, eu acho que é preciso tempo para construir amizades, ainda mais para construir uma relação de amor, séria, segura, que na prática pode não ser assim tão séria, nem tão segura, mas pelo menos, que haja alguma garantia. 

Todas - Claro. 

M6 - A paixão dura poucos segundos a poucas horas, só serve para aproximar, depois, passa a ter outra intensidade e outros nomes. A atração é a primeira coisa que surge numa relação. 

Todas - Sim. 

(M1 para M5): 

M1 - E o teu primeiro amor, foi de Verão? 

M5 - O meu primeiro amor...a amizade começou no fim do Verão, mas o namoro já começou no Outono. Ele era de outra cidade, mas encontrávamo-nos 1 vez por semana, e falávamo-nos todos os dias, víamo-nos pela web cam, até eu conhecer a família dele, onde passei alguns dias, e ele também veio à minha casa, mas eu passei mais tempo na casa dele, do que ele na minha. 

M1 - O teu namoro durou muito tempo. 

M5 (ri) - E podia ter durado muito mais...ele é que não quis. 

M3 - É porque ele não tinha que ser para ti. 

M6 - Pois, e o que ficou depois disso…? 

M5 - Boa pergunta. Não sei bem! Raiva...tristeza...cheguei a sentir...ódio e nojo...um vazio interior, uma tristeza...senti-me desrealizada e despersonalizada. Tive algum acompanhamento psicológico, que ajudou, mas foi um processo longo. 

M8 - É quase um luto, não é? 

M5 - Sim. 

M2 - Mas já ultrapassaste…? 

M5 - Acho que sim. Nunca mais se volta a ser a mesma pessoa. 

M1 - Não voltaste a ter alguém? 

M5 - Não. Não voltei a apaixonar-me. 

M1 - Mas isso é muito tempo. 

M2 - Eu não vou buscá-los. Sabes que a nossa educação era diferente da de agora. 

Todas - Claro. 

M8 - Então se calhar não fizeste bem esse luto. 

M5 - Não sei. Acho que fiz, mas cansei de amores não correspondidos e de desilusões. Parece que ficou um glaciar dentro de mim. 

(Todas riem) 

M6 - Vais ver que quando menos esperares, ou quando for o momento certo, alguém vai aparecer, e provar-te que há diferentes. 

M5 - Isso era o que toda a gente me dizia, mas eu não acreditava. E acho que agora continuo a não acreditar. Realmente apareceu alguém que provou ser diferente, e que gostou de mim, apareceu quando não esperava, e quando já tinha desistido...mas não sei se vai voltar a aparecer. Acho que não acredito muito nisso. Perdi a magia toda, o romantismo todo, e a capacidade de acreditar. 

M8 - Acho que as relações são difíceis de construir. 

Todas - Claro que sim. 

M1 - E atualmente, todos têm muita pressa em construir relações, como aquelas amizades que duram a vida toda.

M4 - Não sei se ainda existem essas relações. 

M5 - Eu acho que podem existir, mas é mais raro. Dá muito trabalho conhecer alguém em quem acreditas que podes confiar, e há sempre a possibilidade de não seres correspondida. 

M2 - Sem dúvida. 

M8 - Mas isso até nas amizades, as desilusões acontecem. 

Todas - Claro. 

M6 - Mas nas amizades que desiludem acho que é mais fácil ultrapassar do que uma relação a quem te entregas e depois desiludes-te. 

M1 - Acho que a dor deve ser ela por ela. Sim, mas acho que tens razão. 

M7 - É pena. 

Todas - É. 

M8 - Acho que na verdade, são opções que se fazem, e cabe a cada um assumir o sim, ou o não, o querer ou não querer, o envolver-se ou não ou o esperar para ver o que dá. Hoje talvez não estejam dispostos e dispostas a esperar, mas quando corre mal...o que fica...? 

Todas - O nada! 

M1 - O nojo. 

M2 - A raiva. 

M3 - A frustração.  

M4 - A desilusão.

M5 - O vazio e o medo! 

M6 - As lágrimas, e o gelo, até à próxima paixão, atração, ilusão e desilusão. 

M7 - Até ao amor real. 

M8 - Mesmo que não seja para sempre, o amor é sempre amor, e enquanto dura, é bom, aproveita-se, quando acaba, o amor desaparece, e vamos levá-lo para outro lado. 

M1 - Amores de Verão, não precisam de se enterrar na areia, podem ser vividos com segurança, respeito. 

M2 - E não, é não! Mesmo que doa, quando não se é correspondido.

M4 - Amores de Verão podem transformar-se em amizades para a vida. 

M6 - Depende de cada um. 

M8 - Amores de Verão não são posse. 

M5 - Amores de Verão podem ser uma ilusão, ou acabar numa desilusão porque é preciso tempo para ver nascer emoções e sentimentos tão bonitos. 

M3 - Para que sejam memórias inesquecíveis, para a vida. 

M7 - O amor acontece em qualquer altura do ano, e quando é verdadeiro, é melhor que um amor de Verão. 

M1 - Amores de Verão...quem os não teve…? Talvez não fosse de verdade, amor...mas uma fantasia, uma paixoneta na idade da inocência. 

M2 - Amores de Verão, são eternos, na nossa memória. 

Todas - Amores, 

M5 - Amores...de Primavera, Verão, Outono e Inverno.  

M8 - Amores quando acontecem. 


Debate: 

M6 - O que é para vocês, cada um de vocês, um amor de Verão, e um amor verdadeiro? 


                                                                FIM 

                                                            Lara Rocha 

                                                           30/Julho/2021 

terça-feira, 7 de abril de 2020

encanto/desencanto - monólogo


encanto/desencanto


        Alma sonhadora, alma que deseja, alma vazia que sonha e fantasia, alma sozinha, alma que se entrega, e abre as portas à desilusão. Alma, que se encanta tanto, que se deixa levar, pelo canto do encanto, encantada, desilude-se quando acorda para o desencanto, e percebe que toda a música era encantadora...quando o rádio se desligou, tudo terminou...E depois?  
        Quem nos cura da desilusão? Quem criou a ilusão? Não! O coração? Não, porque fica ferido...A mente? Talvez...talvez tenha sido ela que criou a ilusão...Os olhos? Não! Esses são as vítimas inocentes, são os navegantes da ilusão que viagem nas águas da desilusão, levados pela ilusão, à procura da realidade, de compreensão, de força e de olhos bem abertos para ver a desilusão! 
       Pobre coração que alimenta uma ilusão que nem existe...Porque fazes isso, coração? A nossa mente, o nosso ser, a nossa pessoa precisa das ilusões e desilusões para se contruir, cair, crescer, e renascer, descobrir-se. 
     Porque fazes isso, mente? Porque fazes isso? Fico com raiva de ti, quando crias ilusões, que depois não passam de fantasias, mas enquanto acreditamos nas ilusões que crias, parece que nos sentimos preenchidos.  
     Porque precisamos de sonhar, criar, para percebermos quem somos na verdade. E somos muito mais do que as ilusões e as desilusões. Vivemos entre o encanto e o desencanto...a ilusão e a desilusão... Quem as cria? Nós...o coração, os olhos, a mente? Talvez...apenas...nós.



quinta-feira, 24 de março de 2016

cabelos de conchas (Adolescentes e adultos)

NARRADORA - Era uma vez um grupo de princesas que vivia no fundo do mar, mas passeavam-se constantemente pela praia. Todas eram lindas e maravilhosas, diferentes e cada uma com as suas particularidades. A sua beleza hipnotizava e bloqueava o cérebro dos homens que para elas olhassem, e estes acabavam muitas vezes por arriscar a própria vida, com a vontade de lhes tocar. Eles queriam, mas elas eram fechadas e misteriosas…não abriam as suas conchas presas aos longos cabelos para qualquer um, e assim, elas defendiam-se, ao mesmo tempo que tentavam ensinar os homens a respeitar as mulheres, porque muitos deles eram já casados e com filhos. Uns aprendiam a lição, e não voltavam a olhar para elas…passavam a dar valor às suas mulheres e a respeitá-las. Quando não aprendiam, elas davam-lhes umas boas lições, uns sustos de arrepiar os cabelos, e davam-se ao respeito, preparando algumas armadilhas. Certo dia de Verão, um jovem pescador foi até à praia. Era casado, mas quando viu uma das sereias com os cabelos de conchas, ficou louco…fascinado com a sua beleza, e atirou-se ao mar para tentar agarrá-la. Ela sabia que era casado, portanto, não lhe deu qualquer valor, mas ele queria a qualquer custo conquistá-la e satisfazer o seu instinto animalesco…queria…devorá-la…Ele nadou, nadou, nadou…atrás da sereia que desfilava lentamente pelas águas e se afastava. Ela, farta de ser perseguida, mergulhou os enormes cabelos e rodou-os com toda a força, rodando a cabeça e a cauda, e com isto formou uma onda enorme, que apanhou o jovem, deu-lhe voltas e mais voltas…ele grita e pede socorro, tenta nadar, mas está a ficar cansado, de tanta sacudidela.
JOVEM (grita, muito aflito) – Socorro! Ajuda-me!
SEREIA – Safa-te…! Luta!
JOVEM (grita, aflito) – Não consigo.
SEREIA – Claro que consegues!
JOVEM (aflito) – O mar…estava mesmo apetitoso…distraí-me! Por favor…ajuda-me…estou a afogar-me.
SEREIA – Porque te meteste no mar?
JOVEM (aflito) – Porque…sei nadar…! E…Porque te vi…! 
SEREIA – Porque vieste atrás de mim?
JOVEM – Porque tu chamaste-me!
SEREIA – Eu? Nem abri a boca!
JOVEM – Enfeitiçaste-me!
SEREIA – Eu? Como é que te enfeiticei se não sou bruxa?
JOVEM – Com a tua beleza…!
SEREIA – O que é que tem a minha beleza? Ela não fala.
JOVEM – Não resisti.
SEREIA – Eu não te obriguei a vir atrás de mim, tu é que vieste!
JOVEM – Sim, porque queria ver se existes mesmo, ou se és uma alucinação.
SEREIA – E porque seria uma alucinação? Sou uma mulher como as outras, apenas vivo aqui na praia. Não tens mulher?
JOVEM – Tenho…mas…
SEREIA – Mas…não te chega uma não é?
JOVEM – Chega…mas…tu és melhor que ela!
SEREIA – Ei…muito cuidado! Melhor…? A comida é que é melhor ou pior…o sabor…os cheiros…as relações entre os amigos…agora…eu…sou melhor que ela? Não sou de comer!
JOVEM – Eu bem que te espetava o dente…és muito mais bonita e jeitosa que ela.
SEREIA - Não te iludas com a minha beleza, nem de outra mulher qualquer! Tudo não passa de uma tentação enganosa…uma armadilha dos teus olhos. O amor não está na beleza. Quem está ao teu lado, quem cuida de ti, quem dorme na tua cama, quem te cozinha, quem te beija…é quem te ama, não é aquela que te acende a chama do desejo, só porque os olhos se encantam com ela. Eu sou bonita, mas posso ser um diabo para ti…o que ganhas em ficar com uma mulher que te agrada aos olhos, mas não te preenche o coração?
JOVEM – Achas que ela nunca me traiu com outro que achou mais bonito?
SEREIA – Tenho a certeza disso! Se ela te ama não fez isso, ao contrário do que tu estás a fazer. Ama-la?
JOVEM – Sim…se não, não tinha casado com ela.
SEREIA – Isso não é justificação…podes ter casado com ela pela beleza que os teus olhos viram.
JOVEM – Não…eu já nem a acho bonita.
SEREIA – Mas para te satisfazer ela serve não é?
JOVEM – Serve. E que mais há no casamento?
SEREIA – Para ti o casamento é só…satisfazer as tuas necessidades corporais, é isso?
JOVEM – Não…eu gosto muito dela…amo-a.
SEREIA – Então porque vieste atrás de mim?
JOVEM – Porque tu fizeste qualquer coisa para me trazeres para aqui, é porque também queres…
SEREIA – Quero o quê?
JOVEM (sorri) – Ter alguma coisa comigo.
SEREIA (ri) – Como és ignorante e convencido. Tu conheces a mulher que tens ao teu lado?
JOVEM – Claro que conheço…já estou casado com ela há tanto tempo, namoramos muitos anos.
SEREIA – Mulher…na sua totalidade!
JOVEM – Sim…
SEREIA – Conheces o corpo dela…mas…interiormente sabes como ela é?
JOVEM – Sim, é quase como eu, e como tu…
SEREIA – Estou a falar de emoções, sentimentos, vontades e tristezas…
JOVEM – Não sei, isso são coisas dela…quando está de trombas eu mando-a dar uma volta, não faltava mais nada…ter de a aturar.
SEREIA – Não sabes o que é uma mulher, nem o que é amar.
JOVEM – Sei, sim!
SEREIA – Então porque vieste atrás de mim…?
JOVEM – Já disse…porque a tua beleza enfeitiçou-me.
SEREIA – A minha beleza tem as costas largas, queres ver…?
JOVEM – Vá lá…deixa-me agarrar-te…conhecer-te…
SEREIA (ri) – Queres…possuir-me, queres tu dizer…! Não é?
JOVEM – Sim, é. Tenho a certeza que ias gostar…!
SEREIA (ri) – Como és idiota…ignorante…primitivo! Só porque conheces o físico da tua mulher, e de outras mulheres, já achas que entendes muito de mulheres, e que todas gostam. Devias ter vergonha. Lá porque os homens só funcionam com os olhos, e às vezes mal…as mulheres funcionam com o coração e com as emoções…coisa que vocês não fazem a mais pequena ideia do que seja! A mulher é muito mais do que…um objecto de prazer…como vocês as fazem sentir.
NARRADORA – Ela sacode os cabelos, e dá com eles na cara do jovem. O mar agita-se mais, e aperta-o. Ele grita.
JOVEM (aflito) – Ai…! O que é isto…?
SEREIA – É para pensares na mulher que tens.
JOVEM (aflito) – Estou farto dela…ela já não me diz nada. Já não vale nada…estamos sempre a discutir.
SEREIA – Está na hora de acordares, e aprenderes a olhar para a tua mulher! A tua mulher é muito mais que a única coisa a que vocês dão valor nela…e para ela é completamente secundária. A tua mulher é muito mais do que aquilo que os olhos vêem…tudo o que ela diz…Todo o corpo da mulher…cada milímetro de pele dela é uma concha fechada com verdadeiras jóias raras para serem descobertas. A mulher é um tesouro completo, principalmente o seu oceano interior. Está na hora de os descobrires. Verás que esses tesouros são muito mais bonitos que eu!
A tua mulher não é para ser possuída, nem comida…mas sim, acariciada, mimada, respeitada, valorizada!
JOVEM (aflito) – Mas…
SEREIA – Mas…?
JOVEM – Como faço isso?
SEREIA – Deixa-te levar pelo amor…e descobrirás como.
JOVEM – Mas…e a ti, como te vou descobrir?
SEREIA – Jamais me descobrirás.
JOVEM – Porque é que estás a fazer-te de difícil?
NARRADORA – A sereia não responde, envolve os cabelos à volta dele, e depois de várias voltas na água, atira-o para areia chateada. Ele está deitado na areia, a tossir, tonto e a gemer. 
SEREIA – Pensa muito bem em tudo o que te disse!
JOVEM (zangado) – Bruxa…acabaste de destruir o meu coração.
SEREIA – Tem mas é vergonha na cara…! Como é que eu destrui o teu coração se não tivemos nada um com o outro? Poderás destruir o coração da tua mulher…! Se não sabes amá-la, aprende!
NARRADORA – O jovem a pingar caminha pela praia, pensativo e devagar. A sereia desaparece. E quando regressa a casa, o jovem está realmente muito diferente! Aprendeu a amar de verdade a mulher que escolheu para casar, e torna-se muito mais carinhoso, atencioso, educado, respeitador, presente. Aos poucos, vai abrindo todas as conchas fechadas de cada milímetro de pele da sua mulher. A mulher nunca ficou a saber deste seu encontro com a sereia, mas adorou a mudança do marido. A sereia tinha toda a razão. Os dois vão passear pela praia de mão dada, e ele olha para o mar…vê a sereia a sorrir e a brilhar intensamente, feliz e emocionada. Ele olha para a sua mulher…
JOVEM (sorri) – És a mulher mais linda do mundo!
MULHER (sorri) – Há quanto tempo não me dizias isso…meu amor. Estás tão diferente!
JOVEM (sorri) – És uma mulher muito especial!
MULHER (sorri) – Que lindo!
JOVEM (sorri) – Amo cada milímetro da tua pele…amo os teus olhos, a tua boca…amo o teu coração, amo-te, minha mulher…meu amor! O teu corpo é um tesouro maravilhoso…e o teu coração, um oceano cheio de doces mistérios.
MULHER (sorri, emocionada) – Ai, meu amor…! Que doçura.
JOVEM (sorri) – É tudo verdade. Perdoa-me de nunca te ter dito antes.
MULHER (sorri) – Ainda estás muito a tempo de dizer!
NARRADORA – Os dois beijam-se e abraçam-se. A sereia deixa escapar umas lágrimas de encanto e de felicidade. De repente, olha para o céu e escurece-o. Por trás das nuvens pretas, desenha um coração cheio de estrelas cintilantes, e brilha no mar. Os dois ficam maravilhados.
JOVEM (sorri) – A nossa praia…!
MULHER (sorri) – Sim, foi aqui que nos conhecemos.
JOVEM (sorri) – Sim! E foi aqui que descobri a mulher com quem casei e sou muito feliz. A praia do renascimento!
NARRADORA – A sereia está orgulhosa. Os dois continuam a passear apaixonados, e a sereia continua a dar lições a quem precisa.

FIM
Lálá
(3/Novembro/2013)

  

encontro na lua

foto de Lara Rocha 

NARRADORA - Era uma vez uma rapariga que se refugiava muitas vezes no mundo da Lua, onde se sentia livre, feliz, compreendida, pois lá podia libertar a sua raiva e a sua dor, gritar, chorar, rir, desabafar com a Lua, dançar, saltar, falar com as estrelas, e com o Sol e os planetas. Apesar de estar acompanhada pelos seus amigos do espaço, ela sentia que faltava qualquer coisa…para se sentir mais completa. Não havia mais humanos nesse espaço, era só ela. Até que um dia…a rapariga lá estava no espaço a chorar e a gritar, e os amigos já não a podiam aturar. O Sol, com pena dela, reúne com a Lua e os dois conversam sem a rapariga ouvir.
SOL – Minha querida…desde já obrigada por teres vindo!
LUA – Ora, meu amor, tu sabes que eu nunca falto quando me chamas! Por acaso…já tinha saudades de te encontrar pessoalmente! (p.c) Falamo-nos todos os dias, e graças às novas tecnologias podemos ver-nos todos os dias…mas é muito diferente…não há nada como isto para sentir o teu calor…!
SOL (sorri) – Áh, áh, áh…sempre amorosa! (p.c) Estás coberta de razão! (p.c) Continuas linda!
LUA (ri) – Ai, seu sedutor…não me aqueças demasiado…senão…posso fazer alguma asneira!
SOL (ri) – Ai, ai…sua tentadora…! Por mim, podes fazer as asneiras que quiseres. (p.c) Adoro quando me provocas…!
(Os dois riem). 
LUA – A conversa está a ficar incendiada! Muito boa…mas…tu não marcaste este encontro comigo, para me seduzires, ou para namorar pois não querido? (p.c.) Não é que eu não tenha saudades, mas…bom…temos de ser fortes, e aguentar a nossa sina. 
SOL (embaraçado) – Óh…nem me fales nisso, até murcho com as saudades! Mas sim, tens razão…e sabes que te adoro e que não tenho problemas em elogiar-te…!
LUA (ri) – Sei, meu amor…fazes isso todos os dias, mas sei que tens algo muito importante para me dizer hoje (vaidosa) para além das minhas qualidades…! (p.c) Vá…fala logo, sem rodeios…!
SOL (sorri) – Adoro essa tua sensibilidade!
LUA (sorri) – Lembra-te que sou mulher!
SOL (sorridente) – Óóóhhhh…Sim…Uma bela mulher!
LUA (sorri) – És sempre o mesmo engatatão. Mas diz lá…! Porque é que me chamaste aqui?
SOL – Está bem…! Eu…decidi falar contigo por causa destes gritos que estou a ouvir.
LUA – Já não são estranhos…eu ouço estes gritos a choros todos os dias, desde há muito tempo.
SOL – Mas…quem é que grita assim…?
LUA – A minha amiga!
SOL – Aquela terráquea?
LUA – Sim.
SOL – Cruzes…parece um bicho com dores…! Ai…até me gelam…e os meus raios até se encolhem…! O que é que ela tem?
LUA – Tem o coração partido, e ferido!
SOL (com pena) – Óóóhhhh…Coitadinha! Como é que ela se magoou?
LUA – Apaixonou-se pela pessoa errada!
SOL (com pena) – Empurraram-na foi?! Ou atiraram-lhe qualquer coisa?
LUA – É. Empurraram-na para a tristeza!
SOL – E onde é que é isso? Um novo planeta…aqui…algures neste grande universo?
(A Lua ri-se)
LUA – Não…é no território do coração dela! (p.c) Dentro dela!
SOL (intrigado) – Não sei onde é! (p.c) Bem…também, isso agora não é importante. Eu quero é que ela pare com estes gritos e que pare de chorar… (p.c) Ela já não se pode aturar.
LUA – Deixa-a estar sossegada!
SOL – Mas…ela não pode continuar assim! Isso incomoda-me! (p.c) Não sei há quanto tempo é que ela está com estes gritos e choros, mas se continua assim, vai enlouquecer o Universo.
LUA – Quanto a enlouquecer, podes ficar descansado, querido, isso não vai acontecer! Quem dera ao Universo suportar estes gritos e choros…em vez de suportar a poluição e a destruição que os desgraçados dos terráqueos estão a provocar-lhe. (p.c) Isso sim…é que está a pôr o Universo de pernas para o ar.
SOL – Mas por que raio é que ela tinha que vir para aqui fazer isso…e com tanto espaço lá em baixo…!
LUA – Porque lá em baixo também já ninguém a atura…!
SOL – Como eu os compreendo…! Não admira…! Então que pare de uma vez por todas com isso!
LUA – Ninguém a compreende…só eu!
SOL – Não sei como aguentas ouvir isto.
LUA – Ora…sou mulher…! Compreendo-a! A dor dela é muito grande! E a ferida no coração dela não fecha.
SOL – Ora…ela que vá ao médico. Tu não és médica para lhe tratar das feridas…não tem que vir para aqui incomodar toda a gente.
LUA – Esta dor não passa com medicamentos nem com médicos…!
SOL – Não…?
LUA – Não.
SOL – Que dor tão estranha. (p.c) Por favor…deusa das deusas espaciais…tu és amiga dela, manda-a calar!
LUA (vaidosa) – Eu não posso fazer isso com ela!
SOL – Mas porquê? Não te incomodam os gritos dela?
LUA – Bom…não consigo ficar indiferente, mas sou amiga dela…deixo-a estar…dou-lhe o meu espaço, a minha presença e os meus ouvidos…! Para ela se libertar da dor.
SOL – Até aí entendo…e se podermos ser uns para os outros…estar disponíveis…fantástico…agora…dias e dias a ouvir estes gritos…chega! És amiga dela, mas podes muito bem mandá-la calar e parar com isso…! 
LUA – Aqui é o único espaço que ela tem disponível e livre, para estar sozinha, e a chorar e a gritar…para aliviar a sua dor. Na terra toda a gente faz o que tu queres que eu faça com ela, mas isso não está correto.
SOL – E não podes acabar com a dor dela?
LUA – Não! Isso não sou eu que decido! (p.c) Só ela saberá quando pode parar de chorar e de gritar…só ela pode saber quando já não lhe dói.
SOL – Acho que devíamos ajudar esta rapariga para bem de todos…mandá-la de volta para a terra…e aí, ela que faça o que entender.
LUA – Isso não é ser amigo, meu amor…se eu estivesse assim triste como ela…tu mandavas-me embora…? Abandonavas-me? (p.c) Aliás, eu também já estive assim, quando nos proibiram de nos encontrarmos…! E doeu muito…tal como ela…também chorei dias e dias…e noites e noites…até fiquei doente…! Até reapareceres…! É por isso que entendo bem a dor dela. (p.c) A minha também ninguém ma tirou!
SOL (triste) – Óóóóóóóhhhh…meu amor…isso também me doeu muito!
LUA – E porque é que compreendes a minha dor…nessa situação e não compreendes a dela…? (p.c) É a mesma dor…a minha e a dela…no coração! Eu fiquei com uma ferida enorme, e ela também. Estamos a ajudá-la deixando-a estar aqui, sozinha…sem criticá-la…até fechar a ferida. Mas esse fecho só depende dela…e pode demorar muito ou pouco.
SOL – Mas eu estava triste, e não gritava desta maneira…nem chorava.
LUA – Eu sim. Tinha dias em que gritava e chorava como ela…outras vezes era mais baixo…conforme a intensidade da dor! (p.c) Vocês homens têm uma maneira diferente de mostrar os sentimentos e a dor incluída.
SOL – Está bem…és mulher…e ela também…compreendem-se. Mas custa-me muito ouvi-la assim…!
LUA – Compreendo-te querido…mas não podemos fazer muito mais nada…a não ser…deixá-la aqui, entregue à sua dor! (p.c) Ao fazer isso já estamos a ajudá-la.
SOL – Mas que chatice…! Que bichos mais complicados, são vocês, mulheres…! (A Lua ri-se) Olha, diz a essa tua amiga que se despache a fechar a ferida e que pare de gritar e de chorar dessa maneira…ou que mude de sítio.
LUA – Diz isso ao coração dela.
SOL – E digo! Como é que entro em contacto com ele?
LUA (a rir) – Não consegues. Deixa-a estar sossegada.
SOL – Não consigo porquê?
LUA (a rir) – Não há telecomunicações para lá!
SOL (murmura) – Ainda por cima…!
LUA (sorri) – Em breve, ela vai ficar bem.
SOL – Assim espero!
LUA (sorri) – Sim, podes ter a certeza que sim.
SOL – Ai…! Amor…o que eu não faço por ti…!
(Sorriem)
LUA (sorri, vaidosa) – Eu sei que fazes tudo por mim…é por isso que te amo tanto!
SOL (sorridente) – Eu sei minha querida! Eu também ardo de amor por ti!
LUA (sorridente) – Eu sei… (p.c) Já me disseste tudo?
SOL – Sim!
LUA – Então…vamos trabalhar e encontramo-nos mais tarde, no baile de sempre!
SOL (sorri) – Claro, minha rainha. Até já…!
LUA (sorri) – Até já amor!
SOL (sorri) – Mil beijos…já com saudades…!
(Os dois riem, e vão trabalhar. A Lua vai ter com a rapariga).
LUA – Amiga…!
(A rapariga olha para ela e para de chorar)
RAPARIGA – Olá amiga Lua…desculpa!
LUA – Desculpa de quê?
RAPARIGA – Por eu estar aqui outra vez, e a chorar e a gritar outra vez!
LUA – Não tens que pedir desculpa! Este espaço é teu! É como se fosse a tua casa!
RAPARIGA – Obrigada! Aqui é muito melhor que a minha casa! Aqui é o único sítio onde posso estar sozinha, sem me criticarem…e sem me chamarem de louca…tu…Lua…és a única que me compreendes.
LUA – Sim, compreendo-te muito bem! (p.c) Sou mulher, e já passei pelo mesmo!
RAPARIGA – As mulheres da terra não me compreendem…nunca devem ter passado pelo mesmo.
LUA – Não acredites nisso! Elas não demonstram…mas de certeza que já passaram pelo menos…se calhar não lhes doeu tanto…isso depende da sensibilidade de cada uma de nós.
RAPARIGA – É…deve ser isso! (p.c) Sabes, eu já estou um bocado farta de chorar e de gritar…e queria acabar logo com esta dor…mas…não consigo!
LUA – Não é fácil, eu sei…e sei bem como dói. Mas em breve tenho a certeza que vais conseguir livrar-te dessa dor!
RAPARIGA – Às vezes parece que nunca vai passar.
LUA – Claro que vai passar! (p.c) Tudo passa, minha querida! Por muito doloroso que seja.
NARRADORA – As duas conversam mais um pouco, e enquanto isso, chega um rapaz, desnorteado, a olhar para todo o lado e um pouco assustado.
RAPAZ – Eeeiii…! Mas…onde é que estou…? (p.c) Quase podia jurar que estava no meu quarto…mas isto não é o meu quarto…aqui há eco…no meu quarto não… (Olha em volta…e para a frente, e vê a Lua) Ááááááhhhh…eu estou a ver a Lua…?
(A Lua apercebe-se do rapaz, sorri).
LUA (sorridente) – Olha…temos visitas…!
RAPARIGA – Óhhh…não acredito! Nem aqui eu estou em paz…?!
(A rapariga olha para trás e assusta-se)
RAPARIGA – Um gajo…não pode ser…! Como é que ele veio aqui parar.
LUA (ri) – Calma, amiga…há espaço para todos! (p.c) Ele é humano como tu! Da Terra.
RAPARIGA – É uma besta…! (p.c) Eu vim para aqui, para ter paz, não foi para me encontrar com…aquela espécie…da idade da pedra…! (p.c) O que eu quero neste momento e para sempre, é nunca mais me envolver e encontrar com homens…!
LUA (ri) – Olha que ele é bem jeitoso…!
RAPARIGA – Só tem areia na cabeça, e calhaus no coração!
LUA (ri) – Nem o conheces…coitado do moço…! Ele pode estar aqui pelos mesmos motivos que os teus!
RAPARIGA – Achas…? Eles não sofrem!
LUA (sorri) – Eu não tenho tanta certeza disso. Olha que muitos terráqueos homens, procuram-me para desabafar e sofrem.
RAPARIGA – Isso é só fachada…! (p.c) Não tenho pena nenhuma deles. (p.c) É muito bom que sofram…muito…para aprender a respeitar a mulher…!
LUA – Sim, tens razão, mas pelo menos fala com ele, pode ser que seja diferente.
RAPARIGA (chateada) – Eu não quero esses malditos, nem como amigos! (p.c) Eles não prestam. Não valem nada.
LUA (a rir) – Estás a julgar todos…por causa de um!
RAPARIGA – Isso é o que todos dizem lá em baixo, mas é tudo mentira. Ainda não conheci nenhum diferente.
LUA (sorri) – Óh querida, são todos diferentes. Tu és diferente de mim…eu sou diferente de ti…o sol…é diferente de nós…as estrelas são diferentes…mas somos todos amigos.
RAPARIGA – Mas vocês são puros…não tem maldade, ao contrário dos humanos…! 
LUA – Sim, tu és humana, e nós somos seres do espaço…mas…e daí?
RAPARIGA – Não se apaixonam…nem têm desgostos.
LUA – Áh, áh…ai não…isso é o que tu pensas! (p.c) Também nos chateamos e temos desgostos…!
RAPARIGA – A sério?
LUA – Claro.
(O rapaz grita)
RAPAZ – Eeeeeeiiii…Luuuuuuuuuaaaaaaaa… (eco)  
(Ele anda mais um pouco em direção á Lua)
RAPAZ – Luuuuuuaaaaa….?!
LUA – Sim…sou eu! (sorri) Olá, muito bem - vindo.
RAPAZ – Onde estou?
LUA (sorri) – Na minha casa…na… Lua!
RAPAZ (sorri) – Óóóhhhh…sim…?! (p.c) Quase podia jurar que estava no meu quarto, mas isto aqui não é o meu quarto…e…estou a ver-te!
RAPARIGA (murmura) – Estavas lá tão bem…para que é que saíste de lá…!
LUA (sorri) – Sim, estás a ver-me!
RAPAZ (sorri) – Esta…é tua filha…?
RAPARIGA (resmunga) – Esta…vírgula…! Eu não sou um pedaço de Lua, ou uma cratera…! Tenho uma cratera mas não sou cratera…ás vezes não me importava de ser.
RAPAZ – Desculpa…não te queria ofender. Não és um pedaço de Lua…ou cratera…mas és um pedaço de mulher…!
RAPARIGA (irónica) – Acredito mesmo que isso seja verdade… (p.c) só tens treta…!
RAPAZ – Desculpa…?! Por acaso conhecemo-nos?
RAPARIGA – Não.
RAPAZ – É tua filha, Lua?
RAPARIGA – Quem me dera…!
LUA (sorri) – Não. É uma grande amiga, que me veio visitar.
RAPAZ – Ááááhhh…está bem…! (segreda à Lua) É pouco simpática. (p.c) Devias escolher melhor as tuas amigas…!
LUA (segreda) – Não digas isso…ela está triste!
RAPAZ (baixinho) – Ááááhhh…OK.
RAPARIGA – Segredinhos…?
RAPAZ – Olha óhhh…pedaço de Lua…ou de estrela…não penses que a Lua é só tua…eu também sou amigo dela, e posso ter segredos com ela…assim como tu tens! Não é, Lua?
LUA (sorri) – Claro que sim.
RAPAZ – Que coisa mais feia…!
RAPARIGA (chateada) – Já não é novidade para mim, ouvir dizer que sou feia.
RAPAZ – Acontece que eu não estava a falar de ti…sua…convencida!
RAPARIGA (ofendida) – Mas que grande lata…!
RAPAZ – Eu estava a dizer que coisa mais feia…teres ciúmes da nossa amiga, só porque eu também estava a falar com ela. (p.c) Óh Lua, como é que eu vim aqui parar…? Não me lembro!
RAPARIGA (resmunga) – Estavas tão bem lá na tua casota…!
RAPAZ (chateado) – Aaaaaiiii…! Óh amiga…estás mal, podes ir para outro sítio…! (p.c) Que bicho…!
LUA (baixinho) – Calma…! Não precisas de lhe dizer essas coisas…!
RAPAZ – Se estás de trombas, com os diabos à solta…dá aí uns pinchinhos a ver se melhoras…!
RAPARIGA (resmunga) – Que parvalhão!
RAPAZ – O que é que estás aqui a fazer…? Além de chatear a nossa amiga…?
LUA – Então…? Chatear…? Quem é que falou em chatear…?
RAPARIGA – Vim à procura de paz! (p.c) De libertar a minha raiva e dor…
RAPAZ – Magoaste-te? Onde…? Precisas de ajuda?
RAPARIGA – Magoaram-me…! (p.c) Não…não preciso de ajuda. (p.c) Magoaram-me no coração! E tu…? O que é que estás aqui a fazer?
RAPAZ – Eu…? (p.c) Vim…mudar de ares…! (p.c) Queria descansar um bocadinho, vir para um sítio diferente…! (p.c) Aqui também tenho um pouco de paz…quer dizer…pensava que tinha…mas estando aqui tu…! (p.c) Já estás cá há muito tempo?
RAPARIGA – Já!
RAPAZ – E gostas de estar aqui?
RAPARIGA – Sim!
RAPAZ – De onde vens?
RAPARIGA – Da Terra. Não se vê? E tu vais ficar aqui muito tempo?
RAPAZ – Eu também venho da Terra…não sei…porquê?
RAPARIGA – Então vou para outro sítio.
RAPAZ – Fica à vontade…faz o que entenderes…!
RAPARIGA – Tu és homem…!
RAPAZ – Sim…e tu és mulher…e daí? (p.c) Não podemos estar no mesmo sítio?
RAPARIGA – Não.
RAPAZ – Antes não podiam…mas agora…não vejo problema nenhum nisso. (p.c) Vais mudar de sítio por minha causa?
RAPARIGA – Vou!
RAPAZ – Está bem…muda lá…! Eu não te mordo, mas faz o que entenderes que é melhor para ti.
RAPARIGA (chateada) – Eu quero distância de vocês, homens…!
RAPAZ – Tudo bem…estás no teu direito. Se a tua escolha é mulheres…não tenho nada contra…e isso acho que não deve ser motivo para fugires de mim. Estás à vontade…é a tua escolha…o que interessa é que sejas muito feliz.
RAPARIGA (chateada) – O que é que estás para aí a pensar e a dizer?
RAPAZ – Nada…nada… (p.c) Olha, por gostares de mulheres, não precisas de te afastar ou de sofreres por causa disso…os comentários dos outros não interessam. Por mim podes ficar descansada, que não me vou pronunciar sobre isso.
RAPARIGA (indignada) – O que é que estás para aí a insinuar…?
RAPAZ – Nada…!
RAPARIGA – Eu não gosto de mulheres…!
RAPAZ – Está bem…! Pronto.
RAPARIGA – Acho que não estamos em sintonia.
RAPAZ – É provável…aqui não há rede…!
RAPARIGA (indignada) – Estás a dizer que sou uma máquina?
RAPAZ – Não, não…! Tu é que estás a dizer que não estamos em sintonia…e sintonia…é das máquinas.
RAPARIGA – Tu és um bocado burro, não és?
RAPAZ – Acho que estás a ver um bocadinho mal…estou…desfigurado…ou são os teus olhos que estão assim, de tanto chorar…?
RAPARIGA (chateada) – Ááááhhh…que atrevimento!
RAPAZ (ri) – Calma, estou só a brincar contigo, a ver se melhoras essas fuças…! Assim ficas muito feia.
RAPARIGA (chateada) – Que idiota…!
RAPAZ (sorri) – Óh…obrigado. Como é que sabes que tenho muitas ideias…?!
RAPARIGA (grita) – Cala-te!
RAPAZ (ri) – Pois…estás num nível mais abaixo que o meu.
RAPARIGA (grita) – Que estúpido…mando-te já daqui abaixo…!
LUA – Calma, meninos…! (p.c) Não falem mais…fiquem caladinhos e quietinhos…a relaxar…está bem? (p.c) Não precisam de ficar no mesmo sítio da minha casa.
RAPAZ – Por mim, cabemos os dois aqui, no mesmo sítio.
RAPARIGA (chateada) – Eu quero ficar no sítio onde estava, mas longe desta coisa.
RAPAZ – Eu não mexo contigo…fica aí, que eu fico aqui…! E não precisamos de nos falar…mas se quiseres…à vontade.
RAPARIGA – Combinado…é…acho que é mesmo melhor calarmo-nos, se não…a casa da Lua vai abaixo.
LUA (sorri) – Isso…estão muito melhor caladinhos…!
NARRADORA – Os dois sentam-se, afastados, e ficam um pouco em silêncio. A Lua sorri ao apreciar os dois, que trocam olhares em separado, não se olham diretamente, e disfarçam. De repente, os olhares dos dois fixam-se, o rapaz sorri e ela sorri levemente.
RAPARIGA – O que é que foi?
RAPAZ (calmo) – Nada…estava só a ver se estarias a dormir…!
NARRADORA – Os dois voltam a fazer silêncio e a olhar para a Lua. O rapaz deita-se um pouco, e olha para a rapariga. A rapariga olha para ele, enquanto ele não olha.
RAPARIGA – Desculpa…
(O rapaz olha)
RAPAZ (calmo) – Diz…
RAPARIGA – Posso dizer-te uma coisa?
RAPAZ – Claro! Tudo o que quiseres. Mesmo que seja insultos.
RAPARIGA (ri) – Não…não são insultos. Mas…nada…esquece…podes interpretar mal.
RAPAZ (intrigado) – Ãããããããhhhh…? (p.c) Está bem…tu é que sabes! Queres dizer, diz…não queres, não digas…!
RAPARIGA – Juras que não interpretas mal?
RAPAZ – Diz…seja o que for!
RAPARIGA – Eu…estou a gostar muito de estar no mesmo sítio que tu! (p.c) Mesmo não estando a falar contigo…estou a sentir-me bem na tua presença! (p.c) Mas não penses que estou apaixonada por ti ou interessada…ou que quero alguma coisa contigo.
(O rapaz ri-se)
RAPAZ (ri) – Desculpa…?! Deves ter perdido alguns parafusos pelo caminho.
RAPARIGA – O quê?
RAPAZ (a rir) – Estou a brincar…não leves a mal…! (p.c) É que…tens feito cada observação que mais parece de um E.T.
RAPARIGA (ofendida) – O quê? Mas…que grande ousadia…eu sei que sou feia, mas comparares-me com um E.T. Uou…!
RAPAZ (a rir) – Mas alguém disse que és algum E.T? Ainda por cima feia…? Tu é que estás a dizer! (p.c) Posso acabar a minha opinião…? Por favor…?
RAPARIGA – Sim…desculpa…!
RAPAZ – O que estás a dizer…e os teus pensamentos é que parecem de um E.T. Porque é que eu haveria de dizer ou achar que estás interessada em mim ou que queres alguma coisa comigo se nos encontramos agora…? (p.c) Só porque disseste que te sentes bem na minha presença…! (p.c) O que é que isso tem de mais…? (p.c) Tens cada uma…! (p.c) Ainda bem que te sentes bem na minha presença…já sentia a minha cabeça a prémio, da maneira que estavas com os pirolitos no ar…! Cruzes…!
(A rapariga ri-se)
RAPARIGA (a rir) – Desculpa…pois…tens razão…! (p.c) Ainda bem que não interpretaste mal. (p.c) Pelo menos não és convencido.
RAPAZ – Nunca fui. (p.c) Se quiseres dividir comigo o que sentes…podes falar à vontade…se não… ficamos os dois outra vez calados, está bem?
RAPARIGA – Está bem…desculpa ter interrompido a tua paz.
RAPAZ (sorri) – Não faz mal.
(Volta a fazer-se silêncio e a trocar-se olhares).
RAPAZ (murmura) – Huuuummmm…está-se bem aqui!
RAPARIGA (sorri) – Sim. Está mesmo! É por isso que eu venho para aqui tantas vezes!
RAPAZ – Como é que descobriste este sítio?
RAPARIGA – Olha, vi umas imagens deste planeta e adorei. Fechei os olhos, e vim aqui parar. (p.c) Aqui posso libertar os meus demónios, e gritar, chorar…!
RAPAZ – Pois…estou a ver! Eu também estou a gostar muito deste sítio, só não esperava encontrar-te aqui. Uma rapariga…!
RAPARIGA – Sim, sou uma rapariga!
RAPAZ – Pois és, bem bonita.
RAPARIGA – Achas?
RAPAZ (sorri) – Sim, se não achasse não te dizia.
RAPARIGA – A sério?
RAPAZ – Sim! (p.c) És tão desconfiada!
RAPARIGA – Pois sou! Porque sofri muito por causa de um homem. (p.c) E agora…fico sempre com medo…e a achar que são todos como o outro palerma…que todos mentem…que todos vão gozar comigo…e magoar-me!
RAPAZ – Certo…mas não devias pensar assim! Toda a gente se magoa, mas passa, e em algum momento, encontramos a felicidade ao lado de outra pessoa! (p.c) Só porque alguns nos fazem sofrer, não vão ser…todos! (p.c) E esses que te fizeram sofrer com certeza ensinaram-te alguma coisa muito importante não foi?
RAPARIGA – Ensinaram-me que são todos iguais e que nenhum presta!
RAPAZ – Dizes isso agora, porque ainda estás triste e magoada…mas olha…deixa essa tua opinião aqui no espaço…e vais ver que lá na terra há homens diferentes e que te vão fazer muito feliz! Boa?
RAPARIGA – E como é que eu faço isso?
RAPAZ – Humm…grita para o espaço…ou… (a Lua interrompe)
LUA – Não…por favor…não grites aqui! Escreve…num papel que te vou dar…e mete ali no rochedo!
RAPARIGA (sorri) – Áh! Está bem. (para o rapaz) Achas que vai funcionar?
RAPAZ – Sim! Claro!
RAPARIGA – Já alguma vez tentaste fazer isso?
RAPAZ – Aqui…não…! Mas na terra já fiz muitas vezes!
RAPARIGA – E funcionou?
RAPAZ – Sim! Tudo de mau que eu sentia, escrevia num papel e amassava-o…riscava-o…rasgava-o…era muito bom!
RAPARIGA – Eu…não quero sair daqui!
LUA – Mas vais ter que sair! Aqui é só o teu refúgio, não é a tua casa!
RAPARIGA (ofendida) – Estás a expulsar-me?
LUA – Não, claro que não! (p.c) Sabes que as portas da minha casa estão sempre abertas para ti, mas não podes ficar aqui o resto da tua vida! (p.c) Na terra fazes falta!
RAPARIGA – Mas eu não quero…lá em baixo sofro muito!
LUA – Sofres muito, porque queres! (p.c) No inicio ainda se compreende que te tenha custado muito, e que tenhas ficado triste…mas…já chega, amiga! (p.c) Olha que ele está a rir-se na tua cara…não penses que ficou triste como tu! (p.c) Está na hora de te livrares dessa tristeza! (p.c) Já vai há tanto tempo…! (p.c) Siga para a frente, rapariga!
RAPARIGA – Achas?
LUA – Acho!
RAPARIGA – Eu queria livrar-me desta tristeza e desta dor…e raiva…mas não consigo!
LUA – Claro que consegues. Aqui…não consegues, porque não há homens…
RAPAZ (ofendido) – Eeeeeeiiii…e eu sou o quê?
LUA (ri) – Desculpa amigo!
(A rapariga ri)
RAPAZ (sorri) – Tens um sorriso tão bonito! (p.c) E quando ris…ficas ainda mais encantadora.
LUA (sorri) – É verdade!
RAPARIGA (sorri) – Obrigada…! (p.c) Mas olha…eu não consigo! Nem quero ir lá para baixo, muito menos conhecer homens idiotas que me magoem outra vez!
RAPAZ (zangado) – Irraaaaa…Tu és impossível! Com todo o respeito…mas é que estás sempre a bater na mesma tecla…! Sempre a dizer mal dos homens…assim, é claro que não conheces homens bons, e claro…assim vais continuar a sofrer.
RAPARIGA – Mas o que é que tem uma coisa a ver com a outra?
RAPAZ (zangado) – Claro que tem tudo a ver…! Com esse pensamento tão mau a respeito dos homens, só consegues afastá-los!
RAPARIGA – Mas eles não sabem que eu acho isso deles!
LUA – Não sabem, mas tu fechaste o teu coração…e isso eles reparam e nem se aproximam.
RAPARIGA – Claro que fechei o meu coração para sempre…mas foi para o amor…e para namorados…porque não quero voltar a apaixonar-me por nenhum homem, nem quero conhecer mais nenhum homem! Mas não fechei o coração para a amizade.
RAPAZ – Isso não é possível. Estás rodeada de homens e de certeza que há muitos que gostavam de te conhecer…Tu é que não permites…olhas para eles com cara de Rottweiler…! (p.c) Claro, eles fogem.
LUA – Com certeza há homens que pelo menos para ser amigos servem!
RAPARIGA – Duvido! Nunca conheci nenhum!
RAPAZ – Não quer dizer que não venhas a conhecer! (p.c) Basta mudares alguma coisa em ti!
RAPARIGA (chateada) – Acabaste de dizer que sou bonita…e afinal tenho que mudar alguma coisa em mim…? (p.c) Como é? Estás a gozar comigo?
RAPAZ – Eu disse que eras bonita e és! (p.c) Não estou a falar em mudares coisas em ti…fisicamente…! (p.c) Estou a falar de…abrires mais o teu coração! (p.c) Deixar que se aproximem de ti e dar-te a conhecer!
RAPARIGA – Mas vocês ficam logo todos convencidos…
RAPAZ (indignado) – O quê? (p.c) Achas que todos temos ar na cabeça, e que todos temos um amor-próprio do tamanho do mundo? (p.c) Estás muito enganada. Tens mesmo de conhecer vários homens para veres como somos diferentes.
LUA – Vá, amiga! Ouve este rapaz. Ele tem toda a razão no que diz! (p.c) Só tens que dar uma nova oportunidade ao teu coração! Vais ver que com o que aprendeste de todos os desgostos, desta vez vai ser muito diferente.
RAPARIGA – Mas…e se corre mal, outra vez?
LUA – Se corre mal outra vez…aprendes mais alguma coisa, e no próximo já vai ser melhor! (p.c) Isso faz parte, minha querida…magoam-se…sim, claro, ninguém disse que é fácil estabelecer relações uns com os outros na terra…e ninguém disse que o primeiro amor vai ser aquele para o resto da vida! (p.c) Sofre-se, mas também se aprende de umas vezes para as outras, e alguma vez vai aparecer a pessoa certa… (p.c) Aquela…especial que te amará…! (p.c) Mas isso…na hora saberás! (p.c) Não é possível prever. (p.c) Mas os vossos corações saberão quem é essa pessoa! (p.c) Só não podes prender e fechar o teu coração, como tu estás a fazer agora…aqui…presa à tua tristeza e à tua dor! (p.c) Deixa tudo isso aqui de uma vez por todas e volta lá para baixo, para a maravilhosa terra…quando abrires o teu coração, vais conhecer gente muito boa, muito especial, entre elas… (p.c) alguém…muito especial que curará todas as tuas feridas e dores…! (p.c) Liberta-te e…vai sem medo!
RAPARIGA – Aaaaaiiii…! É tão difícil!
LUA – Não é nada difícil! A tua vontade de te livrares dessa tristeza e dor é enorme…e a tua força é ainda maior!
RAPARIGA – Óhhh…não é nada! (p.c) Eu sou muito fraca!
LUA – Não sei porque estás a dizer isso! Nunca experimentaste! (p.c) Anda lá, amiga… (p.c) Liberta-te…deixa tudo isso de mau…ali…na fogueira…e vai lá para baixo!
RAPAZ – Quando te livrares disso, vais ver como tudo vai mudar! (p.c) Não te vão faltar homens para ser teus amigos, e homens apaixonados por ti!
RAPARIGA – Como é que sabes?
RAPAZ – Sou homem…! E sei muito bem como é…! Assim como vocês mulheres têm comportamentos iguais, os homens também.
LUA (sorri) – Claro, a raça já tem características próprias muito bem definidas e muito semelhantes. (p.c) Vai, rapariga!
RAPARIGA – Como é que eu faço isso?
LUA (dá-lhe um bloco e uma caneta) – Escreve tudo aqui, e atira para a fogueira!
RAPARIGA – Está bem…! Vou tentar!
LUA – E vais conseguir! (p.c) E tu, rapaz, queres fazer o mesmo?
RAPAZ – Não, obrigado. Eu…vim só mesmo para mudar de ares!
LUA (sorri) – Muito bem!
RAPAZ – Eu espero por ela.
NARRADORA – A rapariga escreve toda a tristeza, dor e revolta, muito chateada, de vez em quando grita, chora e rosna enquanto escreve. O rapaz e a Lua apreciam e riem em silêncio. No fim de escrever, a rapariga amassa os papéis todos, nervosa, e atira-os para a fogueira de forma agressiva. Suspira de alívio e sorri.
LUA (sorridente) – Então?
PRINCESA (sorridente) – Ááááááhhhh…que alívio! (p.c) Muito melhor! (p.c) Estou ótima.
LUA (sorridente) – Vês?! Eu disse-te! (p.c) E muito em breve vais estar em condições de seguir em frente…com o coração aberto e conhecer muitas pessoas especiais!
RAPAZ (sorridente) – Sim, é verdade! Para de chorar por quem não te merece.
PRINCESA (triste) – Vou ter saudades tuas!
LUA (ri) – Ora rapariga! (p.c) Não precisas de ficar assim! (p.c) Podes vir visitar-me sempre que quiseres! (p.c) Estarei sempre aqui. (p.c) Mas não quero que me venhas visitar triste, nem para gritar e chorar…está bem?
RAPARIGA (sorridente) – Está bem…não vou chorar mais por aquele palerma!
LUA (sorridente) – É isso mesmo! (p.c) E quando tiveres essa pessoa especial ao teu lado, podes vir para aqui com ela namorar…
RAPAZ (sorri) – Excelente ideia…! Também posso?
LUA (sorridente) – Claro.
RAPAZ (sorridente) – Aqui é um sítio excelente para namorar…não há mirones, nem concorrência…!
(Todos riem).
LUA (sorridente) – Agora…vão!
RAPAZ – Anda comigo.
LUA (sorridente) – Vocês vão encontrar-se lá em baixo! As vossas almas já se encontraram muitas vezes, e já se tocaram! Mas os vossos corpos ainda não!
RAPARIGA – O que é que queres dizer com isso?
LUA (sorridente) – Em breve vão perceber o que estou a dizer…agora…vão, meus amigos! Apareçam e sejam fortes…pacientes e felizes…combinado?
RAPAZ E RAPARIGA – Anda connosco!
LUA – Eu…? Lá para baixo, convosco…? Naaa…! Estou muito bem aqui…gosto muito de vocês, mas não posso. Também há muita gente que precisa de mim…não lhes posso virar as costas…também não o fiz para vocês!
RAPARIGA – Muito obrigada por tudo, querida Lua! (p.c) És a minha única, melhor e verdadeira amiga!
LUA (sorri) – Não tens nada que agradecer…não fiz nada de mais…só o que uma amiga deve fazer!
RAPARIGA – Foste a única que fizeste isso.
RAPAZ – Obrigado, Lua.
LUA (sorri) – De nada. Até breve…!
NARRADORA – Os dois dão a mão, olham-se fixamente, sorriem e volta para a Terra. Antes de ir cada um para o seu quarto, os dois agradecem um ao outro, abraçam-se, dão dois beijos e vão para sítios diferentes. Muito poucos dias depois, os dois voltam a encontrar-se, na Terra, falam durante horas, e rapidamente descobrem muitos pontos em comum. A amizade deles cresceu e tornou-se mais forte. Sempre que se encontravam riam muito, sentiam-se bem um com o outro, brincavam…e trocavam alguns carinhos. Os dois andavam muito felizes. Com o passar do tempo, marcaram um encontro na Lua, e aí iniciaram o seu namoro! Na Lua, os dois agradecem.
RAPARIGA (sorri) – Lua…eu consegui!
LUA (sorridente e feliz) – Vês?! Eu disse-te que ias conseguir! (p.c) Que bom ver-vos juntos e felizes! (p.c) Muito bem…souberam esperar…começaram pela amizade, falaram abertamente e muito…um com o outro, abriram os vossos corações…a amizade foi crescendo…até que agora…as vossas almas finalmente conjugaram-se com os vossos corpos que se encontraram!
RAPAZ (sorri) – Claro, o namoro não nasce assim do ar…é preciso viver primeiro a amizade…mesmo que gostássemos muito um do outro…tínhamos que nos conhecer. Não podíamos ficar pelo fogo de vista!
RAPARIGA (sorri) – Nem eu estava para pressas.
LUA (sorridente) – Fizeram muito bem! É assim mesmo que deve acontecer! Primeiro…a amizade, o diálogo, o respeito…nada de pressas.
RAPARIGA (sorridente) – Ele é uma pessoa muito especial. (p.c) Tu tinhas razão amiga Lua! (p.c) O meu coração sabe que é ele…a pessoa especial que me ama e que vai curar tudo!
RAPAZ (sorri) – Verdade! (p.c) Tu tinhas razão, Lua! As nossas almas já se tinham encontrado.
LUA (sorri) – Veem…?! Eu sei o que digo!
OS DOIS (sorridentes) – Sim! Muito obrigada!
LUA (sorridente) – Apesar de já saber o que ia acontecer…estou muito feliz pela notícia, e pela vossa presença! (p.c) Esta minha casa também é vossa casa! Apareçam quando quiserem!
RAPARIGA (sorri) – Obrigada, amiga! (p.c) Queres ser a nossa madrinha de namoro?
LUA (surpresa, sorri orgulhosa) – Eu…? Madrinha do vosso namoro?
RAPARIGA E RAPAZ – Sim!
LUA (sorridente) – Mas, mas…é preciso madrinha no namoro…? Só conhecia madrinha de casamento, ou de batizado…!
RAPARIGA (sorridente) – Não é que seja preciso, mas nós os dois queremos! Aceitas?
RAPAZ – Mas nós queremos ter madrinha, e que sejas tu, porque foi aqui na tua casa que nos conhecemos, e tu foste testemunha!
RAPARIGA (sorri) – Pois!
LUA (sorridente, feliz) – Bem…eu não fiz nada de especial…mas se fazem tanta questão que eu seja vossa madrinha de namoro…quem sou eu para dizer que não! (p.c) Aceito…até porque adoro ver-vos juntos!
RAPARIGA (sorri) – Sei que vamos ser abençoados por ti, e que vamos viver um grande amor!
LUA (ri) – Sim, isso é verdade! (p.c) Devem plantá-lo todos os dias, regá-lo com carinhos, respeito, sinceridade, diálogo, alegria…
NARRADORA – Os dois falam e riem mais um pouco com a Lua, dão um abraço e um beijo e a Lua fica deliciada e feliz. A partir desse dia, os dois foram muitas vezes namorar para a Lua, pois lá tinham paz…passado uns anos, os dois casam na Lua, e a Lua volta a ser a madrinha. Ela tinha razão…as almas dos dois encontraram-se muitas vezes, e muito antes dos seus corpos se encontrarem, foi por isso que o amor dos dois durou para sempre, e foram sempre felizes. Grande Lua…! Ela tinha razão em tudo! E que grande lição…! Obrigada, Lua.

FIM!
Lara Rocha  
(14/Julho/2012)