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segunda-feira, 5 de junho de 2023

O diário, a caneta e as mãos

Foto e material de Lara Rocha 

        Era uma vez um diário com cadeado, arrumado numa prateleira de uma jovem adulta. Tinha algumas páginas escritas pela jovem quando esta era adolescente talvez ela já nem se lembrasse do que lá tinha contado.

        A jovem andava com a chave, mas já não o abria há muito tempo, entretanto, estava uma caneta pousada na mesma prateleira. O diário ficou tão feliz por ver a caneta que deu uma sonora gargalhada, bateu palmas, saltitou e saiu do sítio onde estava.

       Os outros livros apanharam um grande susto e ficam a apreciar. Até a caneta dá um grito, assustada.

- O que é que lhe deu? - pergunta um livro

- Não sei! Passou-se… - responde outro

- Nunca o vi assim! - acrescenta outro livro

- Uma caneta! - suspira o diário

- Estás a falar comigo? - pergunta a caneta

- Sim! - responde o livro

- O que é que eu tenho?

- (ri) já não via uma caneta há tantos séculos!

- Azar o teu. O que é que eu tenho a ver com isso? Estou onde a menina me põe!

- Eu sei! Desculpa a minha manifestação de alegria, mas é que não via uma caneta tão de perto há tantos séculos, que quando te vi, não contive a minha emoção.

- Foi por isso que gritaste daquela maneira?

- Foi.

- Ah! Está bem.

(Todos riem)

        Entra a jovem. Faz-se silêncio. O diário pensa para si próprio: «será que é desta que vou ser outra vez utilizado, acariciado, riscado…? Que mãos bonitas aquelas! Porque deixaste de escrever em mim? Eu gostava tanto do que partilhavas comigo!»

       Enquanto o diário está mergulhado nos seus pensamentos, a jovem pega na chave, a seguir no diário, pega nele e depois na caneta.

- Olá! - diz a jovem

- Ah! Mas o que é que aconteceu aqui? Vais-me tirar o pó?

        A menina sacode o pó do diário. Este ri à gargalhada de felicidade.

- Desculpa, não percebo qual a tua histeria com o que está a acontecer. - diz a caneta

- É que já só tinha mais pó do que palavras…

- E depois?

- E depois? Não gosto de pó, nem de estar sozinho, sem palavras, sem ser escrito, já tinha muitas saudades de sentir uma caneta e de estar entre duas mãos.

      A jovem relê as páginas escritas do diário, este está tão feliz que até pensa ser um sonho.

- Óh, diz-me que isto é real!

- Sim, é real! Não sei se ela vai realizar o teu desejo de… me sentires e de escrever em ti, mas pelo menos tirou-te o pó.

- É verdade.

         A jovem ri e comenta:

- Eiiii...que coisa mais pré-histórica. Já nem lembro desta criatura, felizmente não voltei a vê-la. Acho que não ia dar certo...parecia quase um romance daqueles de filmes...ele já nem se deve lembrar de mim! E…nem eu me lembro dele. Vou voltar a escrever no diário, tem acontecido coisas tão boas que são para ser registadas, não vá a memória atraiçoar-me daqui a uns anos.

         O diário chora de alegria, e ri à gargalhada:

- O meu desejo foi realizado. Ah! Finalmente, vou livrar-me do pó, abraçar outra vez palavras, e sentir canetas…que maravilha! Obrigada, amiga! Como ela está diferente! Realmente as palavras que escreveste aqui, não me souberam muito bem, mas a minha função não é avaliar o que me contas, é apenas ouvir...ou...ler...bem, não sei como se diz...mas...receber as tuas palavras e guardá-las. Obrigada pela tua confiança em mim, menina…!

- Nunca outra vi…! - ri a caneta

- Desculpa…?!

- Nunca vi um diário fazer tanta desta por ser escrito.

- Deixa para lá!

        A menina acaricia o diário, sorri, o diário fica tão feliz que sorri, suspira e comenta:

- Óh! Que saudades que eu tinha deste carinho! Que mãos maravilhosas, macias, delicadas...adoro!

       Pega na caneta e começa a escrever. O diário fica deliciado ao sentir a caneta, ao vê-la dançar tão bem no papel e as palavras a aparecer no papel com todas as formas, cores, cheiros, sons, tamanhos. O diário aplaude a dança e o cantar da caneta, ela ri.

     A jovem escreve páginas e páginas, milhares de palavras, sobre acontecimentos atuais que a fazem sentir-se realizada, feliz, coisas que a preocupam, medos, pessoas e situações que a irritam e fazem sentir raiva. Sonhos que gostava de realizar, outros que sabe não serem possíveis, fantasias, palavras que gostava de dizer e não pode, porque magoará outros, recordações.

      Descreve paisagens, aventuras com pessoas, escreve letras de músicas, poemas, que gosta, e de repente…o diário fica totalmente preenchido. A jovem para:

- Óh! Acabou este diário. Vou comprar outro, para te fazer companhia. Obrigada querido diário, por estares aí! Ao fim de tanto tempo em que conversava contigo, deixei de o fazer, porque achava que escrever diários era coisa de adolescentes, mas agora que sou adulta, voltei a sentir necessidade de escrever. Pelo menos, sei que em ti posso confiar.

- Eufórico – Ela está a agradecer-me, que querida! Eu é que fico feliz e agradeço a partilha, a confiança, a amizade...não há idades para escrever num diário, pelo menos, foi o que sempre ouvi dizer, e vi mãozinhas pequeninas, a escrever, mãos maiores, outras com muita experiência de vida que usavam muito as mãos com certeza...qualquer um pode usar-nos! Mas...espera aí...depois destas coisas tão boas, e bonitas...ela vai deitar-me para o lixo? Só porque já tenho todas as folhas escritas?

- Não! Ela vai comprar outro, e pôr à tua beira. - diz a caneta.

- Ah! Que susto. Seria muito injusto, não achas?

- Sim!

- Tu também tens um diário?

- Claro que não! Eu só escrevo o que me mandam.

- Estás cansada?

- Não! Gosto muito de transmitir o que me pedem nas folhas.

- Gostei muito de te ver dançar, e de todas as palavras que deixaste sair.

- Até já, querido diário. Obrigada. Vou buscar um companheiro para ti.

- Até já!

        O diário e a caneta continuam numa conversa muito animada enquanto a jovem vai buscar outro diário. Este diário não podia estar mais feliz, e vocês, usam diários? O que escrevem neles? Se quiserem podem partilhar nos comentários.


                                                                 FIM

                                                           Lara Rocha

                                                          5/Junho/2023


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

A jovem e o seu vizinho luminoso

            
Desenhado por Lara Rocha 


        Era uma vez uma jovem que para descansar os olhos da luz da cidade, ao entardecer, antes de entrar em casa, olhava para uma árvore cheia de buracos. 
       Ela sentia que aquela árvore tinha alguma coisa de especial, não sabia explicar. Já não era a primeira vez que ela tinha a sensação de ter visto a sair de um dos buracos um arco, com uma luzinha.
       Nunca deu importância, nem quis investigar, porque achou que era de cansaço, e que a sua mente procurava alguma coisa para relaxar, mesmo que não existisse. Ela sorria e voltava a entrar com outra energia.
       Um dia chegou do trabalho, olhou para a árvore, e viu outra vez o arco com a luzinha. Desta vez, quis ver de perto, para tirar dúvidas se era real, ou se estava a imaginar. Aproximou-se, e para sua grande surpresa...
- Áhhhhhhh!!! É real! Eu via mesmo este arco e uma luzinha. Que lindo! Mas como é que isto veio aqui parar...? De onde veio?
        Antes que a jovem continuasse a fazer mais perguntas, a luzinha começa a tocar, no arco, sem cordas.
- Mas, está a tocar sozinho, o arco?
        Era a luzinha que tocava maravilhosamente bem.
- Que música tão suave! Mas... como é que este arco dá música...?
        A luzinha aumenta de tamanho, e pisca, o arco continua a tocar. A luzinha mexe-se de um lado para o outro, roda no arco, desliza, como se estivesse a tocar cordas que não existiam. 
       A jovem estava tão deliciada a ver e a ouvir aquilo que quase não se mexia. Quando a luzinha para de tocar, ganha a forma de um lindo e pequeno pirilampo, que tocava num arco sem cordas, porque era ele que cantava e tocava, pois não tinha dinheiro para comprar um arco com cordas, como ele adorava poder ter.          
       Partilhou a sua história com a jovem, que gostou tanto dele, e ficou com pena dele, ofereceu fio de pesca e ajudou-o a pôr cordas no arco, bem presas e próximas umas das outras, como se fosse uma harpa.
      O pirilampo ficou tão feliz e tão agradecido à jovem, que quis logo experimentar. Ele nem queria acreditar que estava a tocar em fios verdadeiros.
      Tocou delicadamente em cada corda, primeiro, depois, soltou toda a sua alegria enquanto tocava músicas alegres, saltitando de fio em fio, dando cambalhotas, rodopios, saltinhos e até algumas lágrimas, que também o ajudaram a compor músicas.
        A jovem aplaudia e ria ao ver a felicidade do pequeno, com uma coisa tão simples, mas para ele era tudo. 
        O pirilampo nunca mais abandonou aquela árvore, e todos os dias, várias vezes ao dia, tocava para a jovem, como forma de agradecimento, conversava com ela, ajudava-a a adormecer, e fazia-lhe companhia.
        Em troca, ela dava-lhe abrigo, calor, alimentação e amizade, a ponto de acolher o pirilampo na sua sala de estar, ou no seu quarto, quando estava mais triste. 
        Às vezes a jovem cantava com ele, e outras vezes, os dois abraçavam-se, choravam juntos. Eram uma verdadeira família.

                                            FIM
                                            Lálá  
                                                                                                                            26/Fev/2020

quinta-feira, 24 de março de 2016

cabelos de conchas (Adolescentes e adultos)

NARRADORA - Era uma vez um grupo de princesas que vivia no fundo do mar, mas passeavam-se constantemente pela praia. Todas eram lindas e maravilhosas, diferentes e cada uma com as suas particularidades. A sua beleza hipnotizava e bloqueava o cérebro dos homens que para elas olhassem, e estes acabavam muitas vezes por arriscar a própria vida, com a vontade de lhes tocar. Eles queriam, mas elas eram fechadas e misteriosas…não abriam as suas conchas presas aos longos cabelos para qualquer um, e assim, elas defendiam-se, ao mesmo tempo que tentavam ensinar os homens a respeitar as mulheres, porque muitos deles eram já casados e com filhos. Uns aprendiam a lição, e não voltavam a olhar para elas…passavam a dar valor às suas mulheres e a respeitá-las. Quando não aprendiam, elas davam-lhes umas boas lições, uns sustos de arrepiar os cabelos, e davam-se ao respeito, preparando algumas armadilhas. Certo dia de Verão, um jovem pescador foi até à praia. Era casado, mas quando viu uma das sereias com os cabelos de conchas, ficou louco…fascinado com a sua beleza, e atirou-se ao mar para tentar agarrá-la. Ela sabia que era casado, portanto, não lhe deu qualquer valor, mas ele queria a qualquer custo conquistá-la e satisfazer o seu instinto animalesco…queria…devorá-la…Ele nadou, nadou, nadou…atrás da sereia que desfilava lentamente pelas águas e se afastava. Ela, farta de ser perseguida, mergulhou os enormes cabelos e rodou-os com toda a força, rodando a cabeça e a cauda, e com isto formou uma onda enorme, que apanhou o jovem, deu-lhe voltas e mais voltas…ele grita e pede socorro, tenta nadar, mas está a ficar cansado, de tanta sacudidela.
JOVEM (grita, muito aflito) – Socorro! Ajuda-me!
SEREIA – Safa-te…! Luta!
JOVEM (grita, aflito) – Não consigo.
SEREIA – Claro que consegues!
JOVEM (aflito) – O mar…estava mesmo apetitoso…distraí-me! Por favor…ajuda-me…estou a afogar-me.
SEREIA – Porque te meteste no mar?
JOVEM (aflito) – Porque…sei nadar…! E…Porque te vi…! 
SEREIA – Porque vieste atrás de mim?
JOVEM – Porque tu chamaste-me!
SEREIA – Eu? Nem abri a boca!
JOVEM – Enfeitiçaste-me!
SEREIA – Eu? Como é que te enfeiticei se não sou bruxa?
JOVEM – Com a tua beleza…!
SEREIA – O que é que tem a minha beleza? Ela não fala.
JOVEM – Não resisti.
SEREIA – Eu não te obriguei a vir atrás de mim, tu é que vieste!
JOVEM – Sim, porque queria ver se existes mesmo, ou se és uma alucinação.
SEREIA – E porque seria uma alucinação? Sou uma mulher como as outras, apenas vivo aqui na praia. Não tens mulher?
JOVEM – Tenho…mas…
SEREIA – Mas…não te chega uma não é?
JOVEM – Chega…mas…tu és melhor que ela!
SEREIA – Ei…muito cuidado! Melhor…? A comida é que é melhor ou pior…o sabor…os cheiros…as relações entre os amigos…agora…eu…sou melhor que ela? Não sou de comer!
JOVEM – Eu bem que te espetava o dente…és muito mais bonita e jeitosa que ela.
SEREIA - Não te iludas com a minha beleza, nem de outra mulher qualquer! Tudo não passa de uma tentação enganosa…uma armadilha dos teus olhos. O amor não está na beleza. Quem está ao teu lado, quem cuida de ti, quem dorme na tua cama, quem te cozinha, quem te beija…é quem te ama, não é aquela que te acende a chama do desejo, só porque os olhos se encantam com ela. Eu sou bonita, mas posso ser um diabo para ti…o que ganhas em ficar com uma mulher que te agrada aos olhos, mas não te preenche o coração?
JOVEM – Achas que ela nunca me traiu com outro que achou mais bonito?
SEREIA – Tenho a certeza disso! Se ela te ama não fez isso, ao contrário do que tu estás a fazer. Ama-la?
JOVEM – Sim…se não, não tinha casado com ela.
SEREIA – Isso não é justificação…podes ter casado com ela pela beleza que os teus olhos viram.
JOVEM – Não…eu já nem a acho bonita.
SEREIA – Mas para te satisfazer ela serve não é?
JOVEM – Serve. E que mais há no casamento?
SEREIA – Para ti o casamento é só…satisfazer as tuas necessidades corporais, é isso?
JOVEM – Não…eu gosto muito dela…amo-a.
SEREIA – Então porque vieste atrás de mim?
JOVEM – Porque tu fizeste qualquer coisa para me trazeres para aqui, é porque também queres…
SEREIA – Quero o quê?
JOVEM (sorri) – Ter alguma coisa comigo.
SEREIA (ri) – Como és ignorante e convencido. Tu conheces a mulher que tens ao teu lado?
JOVEM – Claro que conheço…já estou casado com ela há tanto tempo, namoramos muitos anos.
SEREIA – Mulher…na sua totalidade!
JOVEM – Sim…
SEREIA – Conheces o corpo dela…mas…interiormente sabes como ela é?
JOVEM – Sim, é quase como eu, e como tu…
SEREIA – Estou a falar de emoções, sentimentos, vontades e tristezas…
JOVEM – Não sei, isso são coisas dela…quando está de trombas eu mando-a dar uma volta, não faltava mais nada…ter de a aturar.
SEREIA – Não sabes o que é uma mulher, nem o que é amar.
JOVEM – Sei, sim!
SEREIA – Então porque vieste atrás de mim…?
JOVEM – Já disse…porque a tua beleza enfeitiçou-me.
SEREIA – A minha beleza tem as costas largas, queres ver…?
JOVEM – Vá lá…deixa-me agarrar-te…conhecer-te…
SEREIA (ri) – Queres…possuir-me, queres tu dizer…! Não é?
JOVEM – Sim, é. Tenho a certeza que ias gostar…!
SEREIA (ri) – Como és idiota…ignorante…primitivo! Só porque conheces o físico da tua mulher, e de outras mulheres, já achas que entendes muito de mulheres, e que todas gostam. Devias ter vergonha. Lá porque os homens só funcionam com os olhos, e às vezes mal…as mulheres funcionam com o coração e com as emoções…coisa que vocês não fazem a mais pequena ideia do que seja! A mulher é muito mais do que…um objecto de prazer…como vocês as fazem sentir.
NARRADORA – Ela sacode os cabelos, e dá com eles na cara do jovem. O mar agita-se mais, e aperta-o. Ele grita.
JOVEM (aflito) – Ai…! O que é isto…?
SEREIA – É para pensares na mulher que tens.
JOVEM (aflito) – Estou farto dela…ela já não me diz nada. Já não vale nada…estamos sempre a discutir.
SEREIA – Está na hora de acordares, e aprenderes a olhar para a tua mulher! A tua mulher é muito mais que a única coisa a que vocês dão valor nela…e para ela é completamente secundária. A tua mulher é muito mais do que aquilo que os olhos vêem…tudo o que ela diz…Todo o corpo da mulher…cada milímetro de pele dela é uma concha fechada com verdadeiras jóias raras para serem descobertas. A mulher é um tesouro completo, principalmente o seu oceano interior. Está na hora de os descobrires. Verás que esses tesouros são muito mais bonitos que eu!
A tua mulher não é para ser possuída, nem comida…mas sim, acariciada, mimada, respeitada, valorizada!
JOVEM (aflito) – Mas…
SEREIA – Mas…?
JOVEM – Como faço isso?
SEREIA – Deixa-te levar pelo amor…e descobrirás como.
JOVEM – Mas…e a ti, como te vou descobrir?
SEREIA – Jamais me descobrirás.
JOVEM – Porque é que estás a fazer-te de difícil?
NARRADORA – A sereia não responde, envolve os cabelos à volta dele, e depois de várias voltas na água, atira-o para areia chateada. Ele está deitado na areia, a tossir, tonto e a gemer. 
SEREIA – Pensa muito bem em tudo o que te disse!
JOVEM (zangado) – Bruxa…acabaste de destruir o meu coração.
SEREIA – Tem mas é vergonha na cara…! Como é que eu destrui o teu coração se não tivemos nada um com o outro? Poderás destruir o coração da tua mulher…! Se não sabes amá-la, aprende!
NARRADORA – O jovem a pingar caminha pela praia, pensativo e devagar. A sereia desaparece. E quando regressa a casa, o jovem está realmente muito diferente! Aprendeu a amar de verdade a mulher que escolheu para casar, e torna-se muito mais carinhoso, atencioso, educado, respeitador, presente. Aos poucos, vai abrindo todas as conchas fechadas de cada milímetro de pele da sua mulher. A mulher nunca ficou a saber deste seu encontro com a sereia, mas adorou a mudança do marido. A sereia tinha toda a razão. Os dois vão passear pela praia de mão dada, e ele olha para o mar…vê a sereia a sorrir e a brilhar intensamente, feliz e emocionada. Ele olha para a sua mulher…
JOVEM (sorri) – És a mulher mais linda do mundo!
MULHER (sorri) – Há quanto tempo não me dizias isso…meu amor. Estás tão diferente!
JOVEM (sorri) – És uma mulher muito especial!
MULHER (sorri) – Que lindo!
JOVEM (sorri) – Amo cada milímetro da tua pele…amo os teus olhos, a tua boca…amo o teu coração, amo-te, minha mulher…meu amor! O teu corpo é um tesouro maravilhoso…e o teu coração, um oceano cheio de doces mistérios.
MULHER (sorri, emocionada) – Ai, meu amor…! Que doçura.
JOVEM (sorri) – É tudo verdade. Perdoa-me de nunca te ter dito antes.
MULHER (sorri) – Ainda estás muito a tempo de dizer!
NARRADORA – Os dois beijam-se e abraçam-se. A sereia deixa escapar umas lágrimas de encanto e de felicidade. De repente, olha para o céu e escurece-o. Por trás das nuvens pretas, desenha um coração cheio de estrelas cintilantes, e brilha no mar. Os dois ficam maravilhados.
JOVEM (sorri) – A nossa praia…!
MULHER (sorri) – Sim, foi aqui que nos conhecemos.
JOVEM (sorri) – Sim! E foi aqui que descobri a mulher com quem casei e sou muito feliz. A praia do renascimento!
NARRADORA – A sereia está orgulhosa. Os dois continuam a passear apaixonados, e a sereia continua a dar lições a quem precisa.

FIM
Lálá
(3/Novembro/2013)

  

sexta-feira, 12 de junho de 2015

As casinhas à beira do rio

Desenhado por Lara Rocha 


Era uma vez um pequeno bairro de casinhas construídas quase na berma de um rio com muita água e cascatas. 
Cada casinha era feita de pedra, com janelinhas pequenas, pintadas de cores diferentes, portas, e jardins pequeninos, cheios de flores. 
As casinhas estavam desabitadas, e vazias, mas ninguém sabia quem as tinha construído, nem quem tinha plantado as flores. 
Num dia de chuva torrencial numa montanha muito alta, um pobre urso caiu na água gelada do lago, depois do gelo onde ele tinha pousado, ter partido. Como a água corria muito forte, o urso foi levado para esse cantinho da floresta.
Depois de muitos trambolhões, e tentativas de se agarrar para sair da água, o urso só parou quando chocou com uma rocha. Não sabia onde estava, mas achava que já tinha andado muito. Olhou à sua volta e gostou do sítio. Saiu da água cansado, e viu as casinhas. Espreitou. Estava tudo vazio.

- Acho que não está habitada…vou instalar-me aqui para descansar. Se aparecer o dono, peço desculpa, explico o que aconteceu e saio.

Instalou-se e dormiu o resto do dia, e de noite. Sentiu-se tão bem naquela casinha que decidiu ficar por lá. Foi à procura de coisas para a sua casa e encontrou, inventou, construiu e montou troncos de árvores, raminhos, rolinhos e tudo o que encontrou.

- Está ótimo!

O urso era grande em tamanho mas muito bondoso e às vezes preguiçoso. Adorava estar sentado ou deitado à sombra num barco de madeira que encontrou abandonado. Só quando a fome apertava é que ele despertava e ia pescar no rio.
Uns dias depois o urso ganhou novos vizinhos: uma família enorme de macacos que faziam muito barulho, principalmente quando se zangavam uns com os outros, e ocuparam quatro casas que estavam vazias.
Foram logo simpáticos com o urso, pois sabiam que era melhor para eles serem amigos de um urso, apesar do seu tamanho assustador. Tão simpáticos que quando encontraram fruta, guardaram para si e dividiram com o urso… Para agradecer, o urso em troca, ofereceu-lhes mel.
Fizeram várias festas de convívio e tornaram-se grandes amigos. Uns dias depois, apareceram na floresta duas panteras artistas, cantoras de ópera, à procura de uma casa. Perguntaram aos animais onde poderiam encontrar, e eles disseram que a casa ao lado dos macacos estava livre, ou as outras.
O urso e os macacos ajudaram como puderam as duas panteras a mobilar a casa, ofereceram algumas coisas, e elas foram buscar outras. Para agradecer, as duas cantaram e encantaram todos com a sua voz, e durante várias noites seguintes, elas cantaram.
Depois apareceram quatro casais de chitas e leopardos que se instalaram nas casas ao lado das panteras. Para agradecer aos vizinhos que os ajudaram as chitas e os leopardos foram à caça e dividiram-na com todos…até os macacos comeram e gostaram.
Nas outras casas, instalaram-se lobos e lobas, loucos por festas e músicos que se juntavam com as panteras cantoras. Eram todos amigos, gostavam de partilhar, e conviver uns com os outros.
Um dia, esse bairro onde já todos se davam como família, ganhou novos habitantes que chegaram com um atrelado, puxado por cavalos. Todos os animais ficaram a olhar para eles, um pouco assustados a olhar para eles.

- O que trazem aí? – Pergunta o urso
- A nossa casa! – Respondem todos
- Como?
- Aqui neste atrelado.

Era um bando de morcegos, que tinham encontrado uma casca de caracol abandonada, e aproveitaram-na para ser a sua casa. Quando a tiraram do atrelado, os animais ficaram todos surpresos, e os morcegos todos juntos conseguiram pôr a casinha no sítio muito bem escolhido, à beira do rio. Aí estavam frescos, no escuro e tinham humidade garantida, por isso também não lhes ia faltar alimento.
Os cavalos que transportaram a casa dos morcegos, iam embora, mas chegou um pónei e fez logo amizade com eles, depois de uma tarde cheia de brincadeira, o pónei arranjou uma casinha para os cavalos, na quinta onde vivia, que também ficava à beira do rio.
Ainda ficaram casinhas livres, mas entretanto chegou outro habitante: um palhacinho tristonho, a arrastar os pés, com a trouxa às costas a lamentar-se. Todos os animais ficaram preocupados, e perguntaram ao palhacinho se estava tudo bem, ou se precisava de alguma coisa.
O palhacinho respondeu que estava à procura de uma casinha, e todos se lembraram que essa estava vazia. Levaram-no lá, ele abriu um lindo e luminoso sorriso que encantou todos os animais, e retribuíram o sorriso.
Cada vizinho ofereceu o que podia ao palhacinho que não tinha quase nada, e num instante rechearam a casa com móveis, candeeiros, sofá, cama, mesas, cadeiras, televisão, panelas, fogão, copos, pratos…tudo o que é preciso numa casa, e roupas para ele, toalhas, almofadas, roupas de cama e comida à farta.
O palhacinho ficou tão feliz que brilhava, e não sabia como retribuir todas aquelas coisas boas. Nessa noite, foi a casa de cada um dos vizinhos e ofereceu um abraço, um por um, que deixou todos com as lágrimas nos olhos de felicidade, pelo carinho e sinceridade que sentiram naquele abraço. Gostaram tanto daquele abraço que quiseram repetir, e o palhacinho abriu sempre grandes sorrisos.
     As panteras começaram a cantar docemente, os lobos e as lobas completaram, entraram na festa e tocaram muitos dos seus instrumentos. O palhacinho gostou tanto que entrou na brincadeira com eles, e fez nascer muitas gargalhadas.
Aquele espaço encheu-se de música e alegria, todos trocaram aplausos, carinhos e gargalhadas, todos dançaram e brincaram uns com os outros…até o urso perdeu a preguiça dançou, saltou, rebolou e os morcegos também se juntaram.  
Já se deitaram quase com o nascer do sol, cansados, mas muito felizes, com os olhos brilhantes…parecia que todas as estrelas do céu nessa noite tinham entrado nos seus olhos, e sorrisos, sentiam o coração preenchido, e vão repousar.
Antes de dormir, o palhacinho sentou-se na beira do rio, e ficou em silêncio a ouvir o que ele dizia. O rio usou uma linguagem que só o palhacinho entendeu…mas com certeza disse-lhe coisas boas, porque até o rio estava mais bonito!
O palhacinho agradeceu, sorriu e num gesto de magia, fez aparecer das suas mãos, lindas e grandes flores, fechadas mas com uma surpresa lá dentro…e deixou na beira do rio, com o nome de cada vizinho.
Foi-se deitar. Quando os vizinhos acordaram, viram que aquilo era para cada um eles. Quando pegaram na flor, esta abriu-se e saiu de lá uma borboleta cheia de cor e de luz, que envolveu cada habitante e fez sentir neles um delicioso abraço caloroso, depois, das suas asas saltaram beijinhos, e as borboletas todas juntas, deram as mãozinhas, formando a palavra «obrigado». Outras tantas, formaram um sorriso…
Todos sentiram que foi o palhacinho, e encheram-se de alegria. Para retribuir, prepararam-lhe um piquenique surpresa, com as atuações das panteras e dos lobos e lobas. O palhacinho não saiu mais de lá.
O tempo passou e uns meses depois chega á floresta uma jovem rapariga com um bebé muito pequenino de colo. Vinha com frio, e fome…fraca. O palhacinho ficou cheio de pena dela e do bebé. Acolheu-os na sua casa, deu-lhes de comer, deixou-os tomar banho, e deu-lhes roupa para vestir.
Enquanto os novos habitantes se acomodavam, o palhacinho foi falar com os seus amigos, preocupado, sem saber o que fazer. Decidiram em conjunto mobilar a outra casa ao lado que ainda estava livre, à beira do rio, graciosa, mimosa, pequena, mas muito confortável. Todos ajudaram, cada um naquilo que podia e no que sabia, e num instante a casa fica completa. Até para o bebé arranjaram.
A jovem passou para essa casa com o seu bebé, mesmo ao lado da casa do palhacinho, feliz, e sempre acompanhada, os vizinhos nunca a deixaram sozinha, estavam sempre preocupados, e ajudaram-na muito.
Os dois palhacinhos foram trabalhar para os arredores da grande cidade de onde tinham saído. Lá foram sempre muito bem recebidos, muito aplaudidos, e valorizados, e o bebé ficou algumas vezes com os vizinhos.
Todos eram uma verdadeira família, faziam muitas festas e sempre muito bondosos uns com os outros. As casas que começaram por estar vazias, ficaram todas habitadas, e este sítio á beira do rio era amado, respeitado e protegido, cuidado, tal como os seus habitantes entre si.

E vocês? Se tivessem uma casinha à beira do rio, como é que ela seria?
Que outras casas haveriam, ou como seriam?
Quem gostariam de ter como vossos vizinhos?

FIM
Lálá
(11/Junho/2015)