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quinta-feira, 3 de outubro de 2024

O esquilo bondoso



    Era uma vez um esquilo que não parava um segundo!   Enquanto estava de olhos abertos, tinha sempre o que fazer, parecia ligado à tomada. 

   Corria de um lado para o outro, pedia aos trabalhadores no campo, que lhe emprestassem cestas, baldes, bacias, e desaparecia na floresta. 

    Os trabalhadores emprestavam-lhe, não sabiam para que era, mas achavam engraçada e misteriosa aquela correria toda. 

    Apanhava uma série de bolotas, pinhas, castanhas, folhas de Outono, enchia tudo o que podia, ficava com uma boa quantidade para si, para poder comer no Inverno, no conforto da sua casinha de árvore, e partilhar se precisasse. 

    Armazenava, mas distribuía por quem mais gostava, dizia que não podia perder tempo e tinha muito que fazer. 

    O que iria fazer um esquilo, com aquilo tudo? - perguntavam os trabalhadores 

    O esquilo fazia embrulhos de bolotas nas folhas que caiam das árvores, de várias cores, e oferecia aos outros esquilos, aos porcos que também comiam bolotas. 

    Deixava à porta dos trabalhadores tudo o que lhe emprestavam, com pequenos mimos, embrulhados nas folhas: pinhas que pintava com muitas cores diferentes, as cores do Outono.  

    Outras mais brilhantes, uvas com um tamanho grande, e um sabor delicioso, que eles desconheciam, maçãs grandes, bonitas e doces, castanhas grandes.

    Os trabalhadores ficavam muito surpresos, e numa tarde em que o esquilo passou a correr, perguntaram:

- Ei...obrigado por teres devolvido o nosso material! 

- De nada! Obrigado eu - diz o esquilo a sorrir 

- Onde vais a correr tanto? 

- Podemos ajudar? 

- Fica aqui um bocadinho connosco! 

- Ahhh...está bem! - diz o esquilo, um pouco cansado

- Mas, porque o trouxeste com isto tudo? - pergunta uma senhora 

- Para vos agradecer, e lembrar que é Outono! 

- Mas que coisas tão bonitas! - diz uma senhora 

- E são deliciosas! - diz outro senhor 

- Onde foste buscá-las? - pergunta outras senhora  

- Fui...por aí! O que interessa é que tenham gostado! - responde o esquilo 

- Claro que sim! - respondem todos 

- Mas gostávamos de saber onde é, para irmos apanhar também. - comenta outra senhora 

- Aaaaahhhh... eu trago-vos! 

- Mas que querido! - comenta uma senhora a sorrir 

- Que esquilo tão generoso! - diz uma menina 

- Também dou a quem precisa mais, sim. - confirma o esquilo 

- Então, estás convidado para a nossa festa. 

- Está bem! Obrigado. Quando é? E onde? 

    Os trabalhadores explicam tudo, contam a tradição, e o motivo da festa. O esquilo não fazia ideia, mas adorou ouvir tudo sobre a famosa tradição no Outono. 

    Depois de muita conversa: 

- Muito obrigado. Adorei saber tudo o que me contaram. Cá estarei. Se precisarem de alguma coisa de mim, eu ando sempre por aí.

- E andas sempre a correr? 

- Bem...quase sempre! Não posso perder muito tempo. Tenho muita coisa para fazer. Não sei andar de outra maneira - diz o esquilo 

- Mas também precisas de descansar! 

    Todos riem. 

- Sim, também descanso! Então...até já.

- Até já. - dizem todos 

    Lá vai o esquilo, e a festa começa a ser preparada. Sem que estivessem a contar, no dia da festa, de manhã bem cedo, o esquilo estava no largo, verdejante, a fazer a decoração das mesas, com coisas que tinha feito, parecido com os presentes que ofereceu aos trabalhadores.

    Cheio de energia, feliz, pinhas aqui, pinhas ali, pintadas de diferentes cores, castanhas espalhadas, uvas em cima de folhas de árvores, nozes ao natural, outras pintadas na casca de fora, lindas! Velas em cascas de nozes, e outros objetos decorativos que o esquilo tinha criado. 

    Quando os trabalhadores viram, nem queriam acreditar. 

- Ááhhhhh... que coisa mais linda! - suspiram 

- Obrigado! - diz o esquilo a sorrir 

- Mas não precisavas de ter este trabalho todo! 

- Fiz com todo o gosto, não foi trabalho nenhum. Trabalho têm vocês, a preparar as refeições e petiscos todos! 

- Sim, mas também fazemos com gosto. 

- Acredito! Estou curioso para provar - diz o esquilo

- Já está quase tudo pronto, daqui a bocadinho começamos a trazer. 

- Querem ajuda? 

- Não, obrigado! Já fizeste tanto. 

- Está bem. 

    Os trabalhadores estão maravilhados, e como o esquilo não consegue estar quieto, vai ajudar. Todos riem com a energia dele. 

    Depois de tudo pronto, começa a festa. Vestidos a rigor, muita música, muita animação, muita dança, muitos abraços, cantares, fotografias, petiscos, brincadeiras, jogos, o esquilo come de tudo, adora tudo, até não poder mais, como os trabalhadores. 

    Há momentos de contemplação da Natureza em silêncio, e agradecimento de cada um a tudo o que ela dá, tudo o que ela tem de maravilhoso. 

    Escrevem bilhetinhos, e põem aos pés de uma árvore, abraçam a árvore, acariciam-na, encostam-se a ela, dão as mãos à volta da árvore, de olhos fechados, e dizem em coro, em voz alta: «gratidão, Mãe Natureza por tudo o que nos dás!» 

    Largam as mãos, sorriem, aplaudem, e depois a animação continua noite dentro, com o esquilo sempre divertido, a fazer rir toda a gente, muita gargalhada e brincadeiras, a beber e a brindar com sumos de frutas, deliciosos, dançam, batem palmas, e a festa acaba com a chegada do nascer do sol, apreciado por todos. 

    O esquilo e os habitantes estão muito cansados e com sono, e cada um vai para sua casa. Depois de recuperados, ao fim do dia, comem o que sobrou, e ajudam a arrumar as coisas, com o esquilo todo elétrico. 

    O esquilo passa a ser visto como um amigo, um elemento de uma grande família, que visitava praticamente todos os dias, além da dele, mesmo no Inverno, com neve e frio, bem agasalhado, perguntava a todos se precisavam de alguma coisa. 

    Era muito bem recebido nas casas todas, ofereciam-lhe chá e biscoitos deliciosos. E no Natal voltavam a fazer uma grande festa, com a presença do esquilo, e os seus presentes tão lindos para cada um. 

    Estava sempre presente, e até apresentou a sua família, e amigos, aos trabalhadores, que nunca tinham visto tanto esquilo junto, e tão simpáticos como eram. 

    No Inverno ficava mais recolhido, a preparar presentes, mesmo assim, visitava a família e os amigos humanos. 

    Era um esquilinho mesmo bondoso! 

E vocês? 

Se fizessem uma festa no Outono, quem levariam? 

O que poriam nas mesas? 

Que produtos de Outono conhecem? 

Como seria essa festa? 

Podem deixar nos comentários, se quiserem :) 


                                            FIM 

                                      Lara Rocha 

                                       3/10/2024 

domingo, 5 de novembro de 2023

Evolução


 Evolução…

No início...raiva, raiva e mais raiva! As entranhas remexiam-se a toda a hora, dia e noite. Queriam sair de onde estavam, expulsar o que lhes pesava, o que sentiam. 

coração e o estômago reclamavam...uma sede imensa de vingança povoava a minha mente, o meu corpo, todo o meu ser. 

Pela dor que me causaste, e por todos os sonhos construídos, com toda a perfeição...e carinho, durante quatro anos. 

Sonhos de felicidade, de amor, de família, do eu-tu igual a nós...destruídos como um terramoto em segundos que não deixa nada de pé. 

De um dia para o outro, restou a desilusão, a tristeza, a solidão, a baixa auto-estima, a ponto de te dar razão! Onde já se viu? Hoje sei que nunca a tiveste. 

À medida que o coração foi secando, e as lágrimas cristalizaram,  a raiva foi dando lugar à indiferença, a indiferença que mostrou que não me merecias. 

E de facto, não! Com isto surgiu a revolta e o arrependimento por tudo o que te dei. Tudo o que te dei com amor, tu mandaste para a fogueira da ilusão, e para o terramoto da minha desilusão. 

Doeu! Muito! Muito tempo. Com uma imensa cratera que ficou  cheia de lixo! Recentemente...a cratera permanece, mas ao contrário de antes, atualmente a cratera está vazia. 

Agora...não há lá nada. Nem raiva, nem ódio, nem indiferença ou sede de vingança sequer! Tudo o que pudesse lá ficar, seria muito mau! 

Seria um lixo tóxico, e seria continuar a valorizar-te. Isso não podia continuar a acontecer. Agora...o que às vezes ainda permanece, é o sentimento de gratidão por todos os bons momentos, e muito bons. 

Felizes, românticos, de grande carinho, ternura, inocência, simplicidade, risos, e sonhos construídos em conjunto. 

Gratidão, por um dia me teres dado valor, por me permitires mostrar o que eu era. Gratidão por receberes o meu amor, por me deixares amar-te, pela possibilidade de libertar amor. 

Gratidão, por me fazeres sentir alguém especial, e amada! Gratidão por ter olhado, um dia, para mim com os olhos do coração! 

Sim, gratidão, é muito vasta, não se restringe a ti. Mas por agora...é para ti...gratidão pelas boas recordações! Nada mais! Gratidão por tudo, e até...um dia!

                                                                                FIM 

                                                                         Lara Rocha 

                                                                        

        

sábado, 23 de outubro de 2021

pés, caminhos, reflexão

     

quadro pintado a óleo por Lara Rocha 


       Alguma vez pensamos nos pés? Sim, quando eles doem, quando temos as unhas encravadas, quando as cortamos, quando os sapatos nos fazem bolhas, quando nos apertam, quando nos cansam, quando os lesionamos, torcemos, partimos. 

       Temos pés, e é bom senti-los, é bom sentir que estão a doer, que estão quentes ou que estão gelados. 

       É sinal que temos pés, e mais ou menos perfeitos temos pés. Podemos senti-los. Mesmo a doer, podemos senti-los, e é bom porque eles podem levar-nos a todos os lugares onde quisermos. 

       Mas, e os que não têm pés, ou que não podem mexe-los? Nem se lembram deles, não podem caminhar, nem correr. Os que têm pés e não conseguem mexe-los, nem senti-los, não sentem nem frio, nem calor nem dor? Será que pensam nos pés? 

        Quando caminho, quando toco os pés no chão…sinto o chão que piso…sinto a terra…o seu calor e o seu frio…sinto as minhas pulsações e as pulsações da Terra…Umas vezes serenas, outras vezes aceleradas.

Caminhamos, a correr, com os pés assentes no chão, mas nem percebemos que o fazemos. Mais rápido, mais devagar. Damos os pés como adquiridos, como partes do nosso corpo, mas andamos muitas vezes sem sentir que estamos a andar. 

Mexemos os pés, mas não nos lembramos que temos pés, nem para que servem, muito menos que são eles que nos permitem fazer mil e uma coisas, dentro e fora de casa, sozinhos e uns com os outros.

Mexemos os pés, mas será que sentimos realmente o chão onde pisamos? A maioria das vezes penso que não, porque vamos a pensar noutras coisas, a resmungar da pressa que levamos, ou dos atrasos, dos contratempos, e nos problemas para resolver. 

Nós lá, em cima...e os nossos pés, no chão, a levar-nos por muitos caminhos diferentes, que se pensarmos bem, nem sabemos quais são na realidade. Vamos de forma automática. Os pés levam-nos, o que interessa é lá chegarmos.  

Sorrimos enquanto caminhamos? Uns sim, outros não, umas vezes sorrimos enquanto caminhamos, porque nos lembramos de alguma coisa agradável, ou porque aceleramos os passos para chegar com entusiamo onde queremos, para nos encontrarmos com quem gostamos, fazer recados, ou simplesmente...passear! 

Passeamos, ou andamos de forma automática, sem pensar nos pés, e sem ver o que realmente temos de bom à nossa volta? Alguma vez pensaram que ao andar, podemos sentir, ou imaginar...o sorriso e a felicidade da Terra, o sol…a energia que nos percorre todo o corpo…e invade o nosso ser, a nossa mente?

Também acho que podemos sentir, ao caminhar com os nossos pés e com todos os sentidos apurados, as lágrimas da Terra, quando chove…a sua doença…o seu rosto de dor, de cansaço…a sua desilusão por tanto mal que lhe fazemos, em troca de tanta coisa boa que ela nos dá, quando está nublado, ou cinzento! 

Já sentiram as lágrimas da terra? Já, e nem repararam...quando chove! Porque só reclamamos que é uma tristeza, é uma chatice estar a chover, que fica tudo cinzento e triste, que parece que as pessoas adormecem, que seca...! Parece noite todo o dia. 

E os nossos pés, lá continuam, firmes, resistentes, às vezes o dia todo encharcados em água e resistem, porque recolhem, respeitam e tentam transformar as lágrimas da terra em coisas boas! 

Os nosso pés aguentam! E os caminhos que percorremos com eles encharcados também aguentam, o nosso peso, a nossa resmunguice, o nosso desagrado, o nosso cansaço. Ai, se os caminhos falassem! 

Enquanto os nosso pés percorrem os caminhos, nem olhamos para eles, ou se olhamos é para ver se não pisamos dejetos de animais ou se encontramos dinheiro. Não pensamos nas pessoas que deram no duro vários dias ou meses a construir os passeios que nos tornam as caminhadas mais seguras, nem o que eles sofreram. 

Às vezes, a Terra é o reflexo do que sentimos, ou seremos nós, que nos refletimos na Terra…? Penso muitas vezes nisso. Não há respostas corretas…tudo depende da perspetiva!

Sinto a raiva da Terra…nas buzinas e na poluição, nas guerras, nos gritos, na impaciência, e a paz! Enquanto caminho sinto o meu corpo e os meus ossos…a minha respiração. 

Sinto a respiração da Natureza e da Terra, as suas pulsações que se fundem e confundem nas minhas, as suas carícias nas brisas e as suas explosões de mau humor nas ventanias.  

Sinto vida, e sinto-me viva enquanto caminho, sinto a vida da Terra…em tudo o que mexe diante dos meus olhos, e nas coisas mais simples. Sinto a magia e o recomeço…o fim…e o renascimento…

Às vezes, enquanto caminho…os meus pés fazem-me caminhar por outros locais, onde sinto outras emoções, onde brinco com seres mágicos, danço, rio, converso e choro. Tenho os meus pés biológicos, e os meus pés imaginários. 

Os meus pés imaginários fazem-me caminhar por florestas, onde sinto a erva, e a Terra fofa, onde abraço árvores, e onde me deito à sombra…a apreciar os sons que a floresta me proporciona…o canto dos passarinhos, o sussurrar dos rios, o lamurio das águas, a delicadeza das flores…onde escuto o murmúrio do vento que tal como um verdadeiro cavalheiro, aparece tímido entre os pinheiros…

São experiências das quais me orgulho por ter tido a oportunidade de viver e experimentar, mas muitas crianças não têm essa experiência. Por isso, os meus pés reais às vezes vão pelos caminhos e relembram outros caminhos por onde já andaram! Uma defesa, possivelmente, para não reparar tanto no que há de menos bom, e mau, feio à nossa volta. 

Outras vezes…os meus pés imaginários…fazem caminhar por praias paradisíacas, onde sinto a areia, a água a lavar-me a alma, e a atravessar a pele…Outras vezes sinto nuvens debaixo dos pés, enquanto caminho…e picos…e vidros…e paus, e pedras…mas estou calçada…!

Enquanto caminho, sinto toda a essência da terra, e tudo o que esta me oferece. Quando uso sapatos novos, para um dia especial…sinto…sinto a insatisfação dos meus pés, por algo que não estão habituados, e às vezes pelo desconforto, mas também alguma vaidade neles…! 

Ainda mais, e apesar de adorar andar descalça, quando me lembro que muitos povos onde não há sapatos ficaram na maior felicidade por ter sapatos, nem que os magoasse no início. Por isso, apesar da dor e do desconforto, é bom sentir isso! É sinal que temos pés e sapatos. 

Quando olho para trás…para os caminhos por onde os meus pés me levaram…eles já caminharam por muitos tipos de caminho, mas saíram sempre intactos, embora cansados, desgastados, doridos, torcidos...aguentaram, seguraram-me…e continuam a fazer muito por mim. 

Levam-me onde eu quero! Estou orgulhosa deles…e mais tortos, menos tortos (pé muito raso )…são meus. São uns verdadeiros guerreiros, como eu, caminharam comigo por caminhos de luz, de trevas. 

Sofreram, quase desistiram, outras vezes saíram de caminhos mesmo com medo do desconhecido, voltaram atrás, andaram para a frente, recuaram, pararam, viram outros caminhos, seguiram-nos, uns com coragem, outros para ver onde iam dar. 

Os meus pés percorreram caminhos que gostaram, e outros que não gostaram, mas estiveram sempre lá, e estão! Cresceram comigo, e fizeram-me crescer como pessoa. Continuam a levar-me por caminhos que mal começam, acabam, e voltam para trás, outros caminhos onde sentem muito medo, mas vão, e até descobrem coisas interessantes, outros são escuros, e eles não vão. 

Às vezes vão por caminhos que parecem luminosos no início, mas lá para o meio e fim não têm saída, há que voltar para trás pelo mesmo sítio, e não descobrem nada! Os meus pés às vezes percorrem caminhos que os iludem, e desiludem. 

Sim, é mesmo verdade...não raras vezes…o corpo anda, e a alma fica parada, perdida num sítio cheio de casas e ruas chamadas sentimentos. Às vezes o corpo anda vazio, pela rua, mas o seu morador ficou noutro sítio, muito …muito longe…

O corpo anda apenas comandado por um piloto automático, mas o seu interior, não leva bagagem…às vezes, ainda bem que não leva, pois, se a alma saísse connosco, não fazíamos nada, não éramos nada…imagino o que as almas encontram nessas ruas! Às vezes não é bonito.

Gosto muito de areia fresca nos pés descalços, nas noites, e nos dias de Verão…e de Inverno…adoro andar descalça. Andar para trás…não gosto, mas às vezes, ando para trás sem querer, procuro logo andar para a frente, e os meus pés teimam em não avançar, nem recuam, apenas param para ver o que é melhor.

Andar para trás, estar parado, não é bom, dói, faz sofrer, chorar, mas às vezes também é preciso pôr os pés a descansar, sem percorrer outros caminhos a não ser os da luz, os da paz, os do silêncio, que nem sempre é de ouro e em algumas situações, o silêncio mata. 

Os pés biológicos, andam a par com os pés da cabeça, e a nossa alma caminha com muitos pés diferentes…umas vezes, caminha com pés de lã…outras vezes, com pés de algodão. 

Umas vezes, os pés são de gelo…outras, manteiga…temos pés de pedra, chumbo, prata ou ouro…outras vezes andamos com pés de açúcar, e com pés de passarinho. Pés de bailarinos, e pés de vidro. 

Outras vezes, somos caminhantes ao sabor das nossas emoções. Umas vezes, são pés que percorrem caminhos de sede, de medo, de segurança ou insegurança. Caminhos de vontade, coragem, determinação e superação. 

Caminhos iluminados pela felicidade e realização, caminhos sombrios, de tristeza, dor e cansaço…também são feitos de espuma do mar, de vento, de veludo…às vezes…nem reparamos de que são feitos os nossos pés…só reparamos que eles existem, e deixamos que eles nos conduzam!

Independentemente de que sejam feitos os meus pés, ou no que eles se transformem, e dos caminhos que me levam, eu agradeço aos meus pés, porque eles funcionam, estão vivos. 

Já pensaram na importância dos nossos/ vossos pés? 

Por que caminhos vos levam? 

De que são feitos os vossos pés? 


                                                                FIM 

                                                             Lara Rocha 

                                                            (Abril/2010)  


sexta-feira, 25 de março de 2016

Amizade canina (Adolescentes e adultos)



           

                






         



foto de Lara Rocha 

              Era uma vez um casal com filhos, que por não ter dinheiro suficiente para sustentar os filhos e os animais de estimação abandonou duas cadelinhas lindas, meigas, simpáticas, fiéis, excelentes companhias desde que foram para essa casa. Tudo corria bem, e as cadelinhas eram felizes na casa onde estavam, eram tratadas como elementos da família.
        Certo dia, o dono das cadelinhas (marido e pai) saiu de manhã cedo de casa, deixou a porta aberta com a pressa e foi despedido do emprego. As cadelinhas Juca e Dida, ficaram à porta para que ninguém entrasse, e entretanto trocam impressões:
- Sabes, Dida…estou preocupada com o nosso dono!
- Eu também Juca! Ele anda muito estranho ultimamente…!
- Sim, isso também já reparei, aliás, não é só ele que anda estranho. Acho que toda a família anda estranha. 
- O que se passará com eles?
- Não sei…mas o outro dia ouvi a nossa dona a dizer para ele ter calma, caso contrário ia dar-lhe alguma coisa muito má…
- Andará doente?
- Também pensei isso.
- Esperamos que não!
- Claro! Mas que andam todos diferentes andam.
- Sim, tens razão!
- Ainda hoje, saíram todos a voar, até deixaram a porta aberta…
- Pois foi, e logo de manhã começam aos gritos uns com os outros, não nos ligam nenhuma. 
- Eu fico triste sempre que os ouço a gritar uns com os outros.
- Eu também…principalmente pela nossa dona…que fica sempre com uma cara…e consigo sentir as energias negativas dela.
- Sim, eu gosto do nosso dono, mas ele às vezes é tão mau com a nossa dona, que me apetece furá-lo de dentadas.
- A mim também. Até eu fico com medo que ele nos faça alguma coisa de mal.
- Eu também já senti isso!
- Ainda bem que viemos as duas para esta casa…! Acho que ia ser muito difícil aguentar este ambiente se estivesse sozinha.
- Eu estava precisamente a pensar nisso.
         Ouvem o barulho de um carro a aproximar-se, e ficam alerta a olhar para todo o lado e a ladrar. Juca reconhece o barulho do carro.
- É o nosso dono!
- Ui…ele não costuma chegar tão rápido.
- Pois não, mas se calhar hoje não trabalha.
- É…pode ser…!
- Ui estou a sentir uma coisa esquisita…!
- O quê?
- Não sei…acho que se passa alguma coisa com o nosso dono.
         Elas ficam agitadas.
- Realmente…ele vem com os demos todos.
         O dono entra rapidamente, muito nervoso, a resmungar sozinho, as cadelinhas aproximam-se e começam a ladrar. Ele grita-lhes:
- Calem-se diabos…!
         Elas ficam assustadas, mas põem-se de volta dele, para tentar acalmá-lo, só que ele dá um pontapé em cada uma. Elas ganem assustadas e de dor e Juca partilha a sua dor com Dida:
- Mas que besta!  
- Acredita!
- O que se passa com ele?
- Não sei, mas não é boa coisa.
- Ele nunca nos tratou assim…!
- Pois não!
- Devíamos espetar-lhe uma boa dentada naqueles presuntos…
- Essa era a minha vontade, mas é melhor não…pode ser pior!
- Achas?
- Sim.
- Mas…ele magoou-nos.
- Pois foi, mas vamos ver se ele nos vem pedir desculpa. É melhor para já ficarmos aqui quietinhas…deixa-o acalmar.
- Achas?
- Sim.
- Mas…o que é que nós fizemos para levar um pontapé?
- Nada…acho eu!
- Pois não. Mas então…?! Porque isto?
- Gostava de ter uma resposta para ti, mas não tenho. Não ladres.
- Ai…acho que isto não vai acabar bem!
- Não digas isso…! Ele só está um bocado stressado!
- Olha, vem aí a nossa dona.
- Ai, coitada.
         Ouvem-se coisas a partir dentro de casa, e gritos. É o marido que está a descarregar a sua raiva nas coisas. Entra a mulher, as cadelinhas cumprimentam-na, lambem-na, ela acaricia-as sorridente, mas assusta-se com os barulhos dentro de casa. Entra em casa e o marido está completamente louco. A mulher assustada pergunta da porta.
Mulher – Quem é que anda aí?
         Vê – se uma faca a voar pela janela fora, e passa de fininho pelas cadelinhas, que muito assustadas vão rasteirinhas ao chão esconder-se atrás da dona. Juca e Dida estão preocupadas uma com a outra, e assustadas com o que está a acontecer. Falam uma com a outra.
- Dida…estás bem?
- Sim, Juca…quer dizer…acho que sim. Só estou muito assustada. E tu?
- Eu também! Mas não estás ferida pois não?
- Não! E tu?
- Eu também não!
- Acho que tivemos muita sorte.
- Sim, também acho. Aquilo que voou da janela pareceu-me perigoso…
- A mim também.
- Eu se fosse à nossa dona não entrava ali.
- Nem eu.
- Mas aconteça o que acontecer, nós vamos defendê-la.
         As cadelinhas ficam atentas e em silêncio, agachadas. Entretanto, dentro de casa, a mulher está muito assustada, mas tenta manter a calma, e falar decentemente com o marido que está completamente louco, a gritar e a partir coisas. A mulher pergunta-lhe:
- Então, querido…? O que é que estás a fazer?
         O marido atira uma panela e grita:
- Não me dirijas a palavra.
         A mulher assustada pergunta:
- Mas porque é que estás tão nervoso?
         Ele grita:
- Fui despedido…e a culpa é tua!
         A mulher não percebe onde possa estar a culpa nela e pergunta:
- O quê? A culpa é minha…? Porquê? Não fui eu que te despedi!
         Ele grita:
- Tu com tanta paneleirice atrasas-me sempre…lá com todas essas porcarias que pões nas fuças…e depois primeiro que saias de casa…! Chego sempre atrasada.
         Ela fica chateada e responde:
- Que grande lata. Tu é que dormes que nem um porco…depois sais em cima da hora, apanhas trânsito e chegas atrasado. Eu é que levo as crianças à escola e nunca chego atrasada. Com certeza foste despedido por outros motivos. Mas como estás furioso, descarregas em mim.
         O homem não a ouve, e dirige-se para ela, aos gritos, e com uma faca na mão. As cadelinhas estão muito agitadas, e quando a mulher grita, elas entram a correr disparadas, e num grande salto dão uma dentada na mão do homem, ele deixa cair a faca, e grita, as cadelinhas não o largam, rosnam e mordem-no em vários sítios, quanto mais ele as sacode e grita, mais elas o atacam:
- Larguem-me suas nojentas…estúpidas…Aaaaaiiii…monstras…larguem-me…
         A mulher desata a chorar de nervos e de alívio, pega na faca atira-a pela janela fora, e implora ao marido:
- Por favor…acalma-te! Vamos falar decentemente…! (p.c) Eu sei que estás com raiva, mas chega…vamos falar…e tudo se vai resolver…está bem?
         O marido grita:
- Tira-me estas idiotas de cima de mim…! Olha o que elas me estão a fazer…
         A mulher sorri e diz:
- Estão a defender-me! (p.c) Prometes que não vais fazer nenhuma loucura…? Eu digo para elas pararem…
         O homem responde:
- Está bem, eu não faço nenhuma loucura.
         A dona ordena às cadelinhas que o larguem. Elas param, e ficam no chão. A dona acaricia-as, elas abanam o rabo felizes, e lambem-na. O homem está ferido em várias partes do corpo. A mulher recomenda, enquanto acaricia as cadelas:
- É melhor desinfectar isto…! E vamos ver se não precisas de ir ao hospital cozer…
         Ele grita nervoso:
- Eu não preciso de porcaria de hospital nenhum, nem curativo…Aaaaaiiii…que isto dói.
         As cadelinhas rosnam a olhar para o homem. Ele dá uma sapatada a cada cadela, elas ganem e rosnam. A mulher resmunga com ele:
- Pára quieto. Nem te atrevas a fazer mal às bichinhas, se não quem apanha és tu!
         Mesmo ofendidas e zangadas, as cadelinhas ficam do lado da dona, enquanto os dois falam. A mulher começa.
- Senta-te aqui imediatamente.
         O homem grita nervoso:
- Não me vou sentar coisa nenhuma. Eu vou é acabar comigo e dessas cadelas estúpidas.
         As cadelas rosnam e preparam-se para atacar novamente. A dona acaricia-as e grita com o marido:
- Ou sentas-te ou vou ser obrigada a tomar medidas drásticas e ai vais sentar-te à força.
         A mulher levanta-se, empurra o marido para o sofá e ele senta-se. Ela dá-lhe um estalo na cara e grita-lhe:
- Agora vais ouvir tudo o que eu tenho para dizer, e vais pensar comigo…em vez de desfazeres a casa…! (p.c pega nas cadelas) Importas-te de explicar como deve ser o que aconteceu realmente?
         O marido ainda muito nervoso conta o que aconteceu, e a mulher grita:
- Achas que são maneiras de falar sobre as coisas…e de pensar sobre o que aconteceu…ou como dar a volta aos problemas? (p.c) Destruir a casa toda? (p.c) É o caminho? (p.c) Que grande imbecil. (p.c) E eu…? Nem sequer era da tua empresa…o que é que eu tinha a ver com o despedimento…? (p.c) Estúpido! Palerma. (p.c) Monstro… (p.c) Infelizmente hoje em dia é o mais comum…é ser despedido…mas há muitas outras coisas para se fazer…mas não é cruzar os braços, e desfazer a casa, ou matar-se ou matar a mulher e os filhos…é ir à luta…à procura…aqui e ali…! (p.c) E as cadelinhas…o que tem a ver com isso…?
         O marido desata a chorar envergonhado e pede desculpa à mulher. A mulher prometeu ajudá-lo, e ele pede desculpa às cadelinhas, embora esteja com raiva delas. Ele vai tratar as feridas e as cadelas recebem mimo da dona. Estão felizes por ter salvo a sua vida. Em casa, Juca e Dida voltam a falar uma com a outra:
- Ai, Dida, acho que este foi o maior susto que apanhei em toda a minha existência.
- Para mim também foi muito difícil, Juca.
- Que stress!
- Ainda bem que estávamos presentes, e não fomos embora depois de levar o pontapé.
- Pois foi. Coitada da nossa dona…nem quero imaginar o que lhe poderia ter acontecido…
- Mas estivemos bem!
- Sim, claro. É essa é a nossa função…proteger a nossa dona!
- Mas acredita que fiquei com muito medo.
- Eu também, mas não me deixei influenciar por ele. Fui mais forte que ele…pela nossa dona.
- As dentadas libertaram-me.
- A mim também. Ele merecia muitas mais.
- Pois.
- Devemos continuar atentas.
- Sim.
         As duas cadelinhas conversam mais um pouco, e o marido volta, com muitos pensos e ligaduras, depois das dentadas das cadelas. Ele passa por elas, elas rosnam-lhe e ele murmura-lhes:
- Vão pagá-las! Não perdem por esperar.
         A mulher ouve, e relembra-lhe:
- Ai de ti que lhes toques num único pelo.
         Ele responde:
- Não percebo tanto amor que tens a estas malditas pulguentas.
         A resposta das cadelinhas é ignorá-lo. Pouco depois, ele cumpre a promessa. Apanha a mulher fora de casa, e vinga-se nas cadelas. Maltrata-as, bate-lhes com várias coisas que encontra e deixa-as muito feridas. Elas não têm hipótese de se defender, porque são apanhadas desprevenidas e ele não permite. Ele dá-lhes um pontapé e põe-nas fora de casa de forma violenta. Elas ganem, e uivam por causa das feridas, e caminham lentamente com muita dificuldade, a ganir, muito tristes e com dores. Juca pára e deita-se na relva onde começa o pinhal. Dida encosta-se à amiga, lambe-a no focinho e na cabeça e deita-se também. Juca pergunta:
- Ai, amiga…o que nos aconteceu?
         Dida responde:
- Não sei bem! Olha…se quiseres podes continuar caminho e procurar ajuda…não te preocupes comigo…! Eu fico aqui.
         Juca responde:
- Não, não ter vou deixar aqui sozinha, muito menos assim sozinha. Vais ver que vai aparecer aqui alguma alma caridosa e vamos arranjar um sítio onde tratar estas feridas, e onde ficar.
         Dida e Juca partilham as suas dores e a decepção do que lhes aconteceu:
- Aquele monstro…!
- Nem me fales…!
- Vai pagá-las! 
- Podes crer que vai.
- Como é que ele teve coragem de nos fazer isto?
- Ele está louco…temos que proteger a nossa amiga. Apanhou-nos desprevenidas, desta vez, mas não vai levar a melhor!
- E como é que vamos proteger a nossa amiga, com aquele empecilho e depois do que ele nos fez?
- Não te preocupes gora com isso…havemos de encontrar uma maneira…
- Mas como, se ele nos pôs fora de casa.
- Tem de haver uma maneira de a protegermos…mesmo sem entrar em casa.
- Estou cheia de dores…
- Eu também amiga, mas temos de ser mais fortes que a dor…quando estivermos melhores encontraremos uma solução.
         Fazem silêncio um bocadinho, ganem…e continuam a desabafar.
- Estou tão triste amiga!
- Eu sei, eu também.
- Tenho pena da nossa dona…
- Eu também.
         De repente ouvem uma voz feminina e um ladrar. As duas levantam as orelhas. Juca e Dida partilham as suas expectativas:
- Vem aí alguém.
- Será a nossa dona?
- Não.
- Será uma das nossas meninas?
- Não. O cheiro é diferente. (p.c) Mas pode ser uma alma caridosa que vai cuidar de nós.
         Aparece uma cadela com a sua dona, que ao cheirá-las vai ter com elas, ladra sem parar, e tenta acariciar as cadelinhas mas a dona ao vê-las grita:
- Que nojo…sai daí Jita. Antes que apanhes uma doença.
         A cadelinha não sai e fala com as duas:
- Olá…são novas aqui?
         As duas respondem em coro:
- Sim.
         Dida pergunta:
- Tu és desta área?
         A cadelinha responde:
- Sim. Esta é a minha dona! (p.c) O que é que vos aconteceu?
         As cadelinhas suspiram e ganem. Juca responde triste:
- O nosso dono bateu-nos e chutou-nos.
         A cadelinha fica horrorizada e com pena das duas. A dona volta a chamá-la, mas ela insiste em não largar as duas. Dida aconselha a cadelinha:
- Olha, é melhor ires, se não a tua dona ainda te enforca…
         A cadelinha ri e responde com segurança:
- Não, nada disso. Fiquem descansadas. Ela é muito boazinha e minha amiga. Vai ajudar-vos, tenho a certeza.
         Juca informa a cadelinha:
- Não me parece que a tua dona nos vá ajudar. Ela está com pena de nós, mas não irá fazer muito mais.
         A dona da cadelinha tem pena das bichinhas e comenta:
- Pobres bichas…Não sei se são vadias. Se calha foram abandonadas…eu não tenho condições para vocês se não levá-vos. Mas posso ligar para o canil. Aqui na rua é que não podem ficar.
         A cadelinha fica nervosa e acha injusta a opção da dona. Começa a rosnar para a dona, e diz às cadelinhas, nervosa:
- Não…para esse sitio não aceitem! Por favor…fujam…se vão para o canil é o vosso fim.
         Dida comenta triste:
- Talvez seja mesmo melhor esse sítio.
         Juca repreende-a e encoraja-a:
- Não digas isso, os canis são sítios horríveis…se ninguém nos vier buscar, teremos força para fugir, e haveremos de encontrar um abrigo…
         A cadelinha reforça:
- Sim, é isso mesmo, mas não queiram ir para o canil.
         Passa uma outra senhora que fica com muita pena dos bichos e já acolheu uma série deles. A dona da cadelinha pergunta-lhe:
- Olhe…por acaso não conhece aqui um canil? É uma obra de caridade para estes bichos…!
         A cadelinha rosna á dona. A outra senhora responde:
- Canil? Felizmente não conheço.
         A dona da cadelinha explica a razão da pergunta:
- Estes bichinhos estão aqui a penar…olhe para eles…estão num estado miserável…coitadinhos…!
A outra senhora responde:
- Sim, estão num estado crítico, mas vão recuperar…e não vão para o canil.
         A senhora pega nas cadelinhas ao colo carinhosamente, a dona da cadelinha fica horrorizada e alerta:
- Cuidado…não pegue nos bichos, ainda apanha alguma doença ou carraça ou pulgas…
         A senhora responde:
- Não se preocupe! Elas vão para minha casa! Apanha-se muitas mais doenças bem mais graves entre seres humanos, do que dos animais. (p.c) Elas deviam ter dono…eu vou tratar de vocês queridas…
         A dona da cadelinha desabafa:
- Que crueldade!
         A senhora responde:
- Acredite! Gostava muito de saber quem fez isto para lhe dar um correctivo.
         A dona da cadelinha concorda totalmente:
- Tem toda a razão…e era muito bem dado.
         A cadelinha ladra feliz, e saltita, põe as patinhas na perna da senhora e diz:
- Boa…! Trata bem das minhas amigas! (p.c) Meninas…vão ter sorte esta dona! Vemo-nos por aqui…! Coragem e as melhoras…!
         As cadelinhas agradecem. A cadelinha pendura-se na dona, feliz, lambe-a, a dona faz-lhe festinhas. A outra senhora despede-se da dona da cadelinha:
- Até logo…
         A dona da cadelinha retribui:
- Até logo! E obrigada por as acolher…! Eu se tivesse condições tinha-as acolhido…fiquei com pena delas…!
         A senhora responde a sorrir:
- Não tem que agradecer…eu compreendo-a. Olhe e já agora, se não se importar, quando encontrar aqui gatos ou cães abandonados, pode entregá-los ali na minha casa, aquela do inicio da rua.
         A dona da cadelinha responde:
- Está bem!
         A senhora leva as cadelinhas para casa, fala com elas, e quando entra, os dez cães vem recebê-la e ladram sem parar. As cadelinhas ganem no colo da senhora. A senhora acalma os ciúmes dos cães:
- Calma meninos…então…? Isso é maneira de me receber?!
         Um cão comenta:
- Olhem, olhem…intrusos…!
         Outro cão resmunga:
- Ora essa…não faltava mais nada!
         Outro cão resmunga:
- Óh valha-nos todos os santos caninos…!
         Outro acrescenta:
- Já somos tantos…!
         A senhora diz:
- Lá porque venho com mais duas meninas, não quer dizer que deixo de gostar de vocês!
         Os cães continuam a reclamar, e a rosnar. As cadelas da casa impõem-se:
- Calem-se!
         Uma cadela ralha com eles:
- Que falta de respeito!
         Outra cadela acrescenta a ralhar:
- Pois é…! Que maneira mais idiota de receber gente nova na casa…ainda por cima estão feridas…
         Outra cadela resmunga:
- Seus insensíveis. Possessivos…
         Os cães ficam ofendidos mas calam-se, e um deles manda uma piada:
- Mais mulherio…estamos fritos!
         A senhora ordena:
- Atenção, estas duas princesinhas são para ser bem tratadas, entendido?
         Os cães rosnam. As cadelinhas dão as boas-vindas:
- Bem-vindas!
         Outra cadelinha acrescenta:
- Vieram parar a um sítio paradisíaco!
         Uma outra cadela confirma:
- Sim, estão muito bem entregues!
         Outra acrescenta:
- Não vos vai faltar nada!
         Outra confirma e acrescenta:
- Sim! E podem contar connosco para qualquer coisa que precisem!
         As duas cadelinhas agradecem. Aparece o marido, e pergunta:
- Então…? Que algazarra toda é esta, putos?
         Os cães põem-se de volta deles. O senhor acrescenta:
- Assim não conquistam as cadelinhas…onde está o vosso romantismo…? Ai…ai…!
         A senhora explica ao marido:
- Estas cadelinhas foram encontradas ali fora…eu trouxe-as!
         O marido apoia a decisão da senhora:
- Fizeste muito bem querida! Estão muito maltratadas…coitadinhas…vamos já tratar dessas feridas!
         Os cães começam a rosnar. Os donos mandam-nos calar, eles obedecem. Uma outra cadela comenta com as outras, feliz:
- Meninas…temos mais duas aliadas!
         As cadelas saltitam de alegria, sorriem e encorajam as novas amigas:
- Não tenham medos, meninas!
- Estão em excelentes mãos!
- São muito meigos…e vão dar-vos tudo o que precisam!
- Coragem!
- Estamos convosco amigas!
- Vai correr tudo bem!
         A senhora leva uma cadelinha ao colo, o marido leva a outra. Juca e Dida falam entre si:
- Parece que tinhas razão.
- Eu senti que era uma boa pessoa que se aproximava!
- Aquela cadelinha foi impecável…se não fosse ela a dar sinal, acho que até agora ninguém nos tinha encontrado!
- Sim, é verdade!
- No inicio a dona dela estava enojada, mas vá lá que perguntou a esta senhora boa se conhecia um canil. Acho que ficou com pena de nós. 
- Sim, mas tu querias ir para o canil.
- Isso foi só da boca para fora, porque estava tão triste que já nada mais me importava.
- Eu percebi…! Olha se íamos para o canil…! Nem quero pensar (p.c) Estamos muito tristes é certo, mas estamos juntas (p.c) eu não ia conseguir viver sem ti… (p.c) se fosses para outro sítio eu ia atrás de ti, onde quer que fosses.
- Eu sei amiga…eu fazia o mesmo por ti! Só me lembrei do canil como uma situação provisória, porque…ao menos lá tínhamos uma casota, comida…água…e haveria lá outros cães.
- Isso íamos encontrar noutro sítio qualquer. Não era preciso ir para o canil…há pessoas boas que têm pena de nós e dão-nos sempre qualquer coisa. Temos que seguir em frente, amiga…mesmo com esta dor.
- Espero que esta dor seja passageira!
- Eu também!
- Quer dizer…acho que só vai passar rápido a dor física, porque o coração não dá para fazer curativos!
- Pois não! Sim, é verdade que dói muito, mas temos que ser mais fortes que essa dor para salvar a nossa dona…
- Sim, eu fiquei muito preocupada com ela!
- Temos de arranjar uma maneira de a salvar daquele monstro.
- Havemos de encontrar!
         Elas ganem com as feridas. Os novos donos dão-lhes comida e água, tratam-lhes das feridas e acariciam-nas. Elas ganem de dor, mas comportam-se bem. Depois de tudo resolvido, os donos levam-nas para a beira das outras. A dona alerta os outros cães:
- Meninos…atenção! Trouxe aqui duas meninas novas…duas irmãs para vocês e amigas! Mas é para as tratarem bem, entendido?
         Todos ladram. A Sra. Põe as cadelinhas na casota e os cães viram costas e afastam-se, mas as cadelinhas ficam de volta delas, e perguntam em coro:
- Então?
         As cadelas querem saber tudo, e cada uma faz uma pergunta:
- Como se sentem?
         Juca e Dida respondem:
- Mais ou menos.
         Juca diz:
- Estamos muito magoadas e tristes…
         Outra cadelinha pergunta:
- E os nossos donos trataram-vos bem?
         As duas cadelinhas respondem em coro:
- Sim, muito bem!
         Dida acrescenta:
- Foram muito carinhosos.
         Juca recorda:
- Deram-nos de comer, de beber, e carinho…
         Dida acrescenta:
- São uns amores!
         As cadelas perguntam em coro:
- Mas o que é que vos aconteceu?
         As duas cadelinhas respondem em coro:
- Fomos maltratadas.
         Dida reforça:
- O nosso dono teve um ataque de loucura e tentou tratá-lo a espancar-nos.
         As cadelas respondem:
- Que monstros!
         Uma cadela esclarece-se com as cadelinhas:
- Então vieram de um casa…
         As duas respondem:
- Sim.
         Juca lembra:
- Gostávamos muito dos nossos donos, e dos filhos deles, mas o que aquele…nos fez…não tem perdão!
         Dida:
- Ainda salvamos a nossa dona de uma desgraça, porque o monstro ia fazer-lhe muito mal.
         Juca acrescenta a rir:
- Fizemos dele carne picada…espetamos-lhe umas belas dentadas…só tive pena de não ter veneno nos dentes para dar cabo dele…!
         As cadelas riem, e uma responde:
- Compreendo-te amiga!
         Outra cadela acrescenta:
- Mas não se preocupem…ele vai ter o correctivo que merece!
         Outra cadela reforça e incentiva:
- E podeis contar connosco para isso!
         As duas cadelinhas ficam felizes, sorriem, agradecem e Juca diz:
- Boa! Obrigada…acho que vamos precisar mesmo…mas tem que ser uma coisa bem feita…! 
         As cadelas combinam um castigo para o homem, ex dono delas. Juntam-se todas, e nesse mesmo dia, quando vão passear com os seus donos, ouvem a dona a gritar…o marido está louco, bate nela, destrói a casa…as cadelinhas ladram…foi um sinal combinado entre elas…e desatam todas a correr, saltam o muro da casa, e a Sra. Preocupada segue-as para ver o que vão fazer.
As cadelas silenciosamente entram em casa, e desatam a ladrar, atirando - - se para o homem, ele cai para tentar livrar-se delas, e ainda é pior, porque oito cadelas juntas, umas bem grandes que só de olhar impõem respeito, nervosas…cuidado com elas. Elas rosnam e dão-lhe várias dentadas.
A mulher grita e chora muito assustada, o homem grita por ter as cadelas em cima dele a ladrar sem parar, a arranhá-lo a rosnar e a morde – lo.
A dona dos cães pede permissão para entrar:
- Desculpe…posso entrar…?
         A mulher abraça-se à Sra. E pede-lhe ajuda:
- Sim, por favor…ajude-me! Chame a polícia, o meu marido está completamente louco…ia acabando com a minha raça…e…estou sem telefone…
         A Sra. Está horrorizada e pergunta:
- Ele maltratou-a?
         A mulher responde:
- Sim.
         A Sra. Acalma-a:
- Não se preocupe…desta ele não vai escapar…vai para a cadeia…(ri) desculpe estar a rir…mas…já viu os carinhos que ele está a receber das minhas bichinhas…?
         A mulher apesar de muito assustada e triste, consegue rir e pergunta surpresa:
- São todas suas?
         A Sra. Responde:
- Sim! E estas duas encontrei-as ali no caminho muito maltratadas…

         A mulher responde:
- Tão lindas…eu tinha duas iguais a estas, que me salvaram o outro dia, mas não sei o que esta besta lhes fez…desapareceram. (p.c) Mas como é que elas entraram aqui?
         A Sra. Responde:
- Devem ter ouvido os gritos…não sei…sei que se dirigiram para aqui e eu vim atrás…com licença…vou chamar a polícia.
         As cadelas não saem de cima do homem, e sempre que ele se mexe, depois de bem mordido, elas rosnam e ladram, ele fica quieto. Enquanto a Sra. Liga para a polícia, a mulher aprecia as cadelinhas, sorri deliciada, e acaricia-as. As duas bichinhas lambem a dona. A mulher reconhece-as e grita feliz:
- São elas! São as minhas queridas cadelinhas…!
         A Sra. Fica feliz, e diz:
- Que bom! Fica com elas?
         A mulher responde feliz:
- Eu gostava de ficar com elas…nem sei como lhe agradecer por as ter acolhido…!
         A Sra. Responde:
- Se não tem condições, eu fico com elas até a senhora ter condições…
         A mulher responde:
- Sim, tenho…muito obrigada!
         A Sra. Responde sorridente:
- Não tem que agradecer…só peço que as trate bem, e por favor, qualquer coisa que precise, diga-me…eu sou veterinária…vivo ali naquela casa…
         Enquanto a polícia não chega, as duas conversam, e as bichinhas não largam o homem.
O homem é preso em flagrante, e as cadelinhas estão muito felizes! Recebem muito carinho da dona e da outra senhora.
As duas senhoras tornam-se boas amigas, a mulher fica de novo com as duas cadelinhas, o que também as deixa muito felizes. Juca, Dida e as outras cadelinhas prometeram continuar a encontrar-se, o que passa a acontecer sempre que vão passear com as donas, e tal como as suas donas, também as cadelinhas se tornam grandes amigas, e vão para casa umas das outras brincar.
Esta amizade canina foi com certeza verdadeira!
Esta amizade canina devia servir de exemplo para muitos seres humanos, que não sabem o significado verdadeiro de amizade!
           

Fim!
Lálá 
(11/Setembro/2011)