desenhada por Lara Rocha
Olá,
sou a J., sobrevivente de uma tentativa de suicídio, uma não,
várias! Mas esta última é a que me lembro mais porque é a mais
recente, e...quase me fazia não estar aqui para contar.
Tenho
um bebé, que amo com todo o meu ser, aliás, ele passou a ser a
minha razão de viver, e o que dá sentido à minha existência. Mas
nem sempre foi assim. Durante muito tempo, odeei e recusei, não
desejei esse bebé, mais precisamente, desde que o pai dele me
deixou.
Trocou-me
por outro homem, que na verdade eu também conhecia mas nunca
imaginei que tivessem tanta intimidade. Senti nojo dele, a pensar que
ele me tinha dado um filho, e andado já com...outro!
A
minha felicidade de ter um filho, o meu desejo e fantasias, ter um
filho fazia parte do meu sentido de vida, de família, de mulher,
tudo se apagou quando me revelou a sua homossexualidade.
Eu
não tinha nada contra os homossexuais, mas nunca imaginei que
lidasse com um tão de perto. Depois do nojo e da revolta, da vontade
de tirar o bebé que ele me tinha dado, para ficar com um
homem...conversamos os três, de forma civilizada, e percebi que ele
queria esse filho, mas não fazia sentido para ele, estar comigo, sem
me amar.
A
minha feminilidade deixou de existir, senti-me...usada, vazia, como é
que eu ia ter um filho de um homossexual? Como é que eu ia contar ao
nosso filho que nasceu do amor falso, entre um homem e uma mulher,
que eram mais amigos do que marido e mulher? Como é que ter uma
relação de pai e mãe, com o nosso filho, se ele estaria com outro
homem?
Nada
parecia real, tudo parecia um pesadelo, um filme de terror...mas era
bem real, existia, e estava diante dos meus olhos, do meu corpo, que
foi usado para fabricar uma criança, que depois…não ia ter...um
pai a viver com a mãe!
Surreal.
Que vergonha seria para mim, e para o nosso filho, dizer aos outros
que era filho de um homem, e tinha uma relação com outro homem. Foi
um turbilhão de emoções, um sofrimento, uma angústia que nunca
tinha vivido antes.
Porquê
a mim? Que sonhava com uma família como a minha… um pai, uma mãe
e o rebento! Não, uma mãe, um filho e um pai homossexual que estava
com outro homem. Nem eu parecia real, acho que deixei de existir, de
ser alguém quando ele me disse que escolheu esse caminho.
Queria
desaparecer, e reaparecer numa forma normal. Então...achei que só
conseguiria se desse cabo de mim. Não queria aquela realidade,
tentei mudar. E mudei, nem me lembro como o fiz, mas sei que acordei
no hospital, nos cuidados intensivos, cheia de máquinas, e
buzininhas, luzinhas, tubos, batas brancas e verdes, máscaras, gente
estranha, que nem sabia quem era, ou se era mesmo gente.
Nem
me lembrei que estava grávida. Não era eu, era outra qualquer, que
nem eu própria conhecia. Vi o pai do meu filho com o companheiro,
nem os reconheci, estavam lavados em lágrimas.
Foram
eles que me trouxeram para aqui, onde ainda estou a recuperar, pelos
vistos, há várias semanas, e no início não dava sinais de
recuperação. Tiveram de me tirar o bebé que foi para a incubadora,
fazer tratamentos, e já tinha bastante tempo de gestação, mas com
o que fiz…ficou com sequelas.
Felizmente,
estão a fazer de tudo, e ele tem melhorado. Sobrevivemos os dois, e
quando peguei nele ao colo, pouco depois de recuperar...não sei o
que senti! Mas parecia que não conhecia aquele ser, nem eu, nem ele.
Não
sentia nada! Só aquele corpinho minúsculo, e magrinho, numa paz,
encostado a mim. Olhei para o pais dele e para o companheiro, que
choravam e sorriam do lado de fora.
Fiquei
com raiva deles, pareciam dois idiotas, quando saí, olhamos os três
para a incubadora...uns para os outros, conseguimos conversar, e
chegamos a um acordo. Ele, o pai, assumiria o seu papel, o
companheiro iria contribuir com tudo o que pudesse, seria o padrinho,
a quem a criança também chamaria de tio, e...seríamos uma família.
Que
bonito! Que coisa tão romântica e fácil. Não sei o que senti na
hora...mas...quando olhei para o bebé…uma nova coisa estava a
nascer em mim. Eu olhava-me ao espelho, não me reconhecia, nem me
identificava.
Tinha
medo de mim mesma, do meu reflexo! Achava que era outra a
perseguir-me. Tive de me reconstruir, reinventar, aquela criatura
precisava de mãe e de pai, e tinha! Recebi todo o apoio do pai do
meu filho, do companheiro, decidi e consegui respeitar, aceitar a
escolha dele, e a ajuda do pessoal de saúde.
Tem
sido um processo muito difícil e longo, mas se sobrevivi...é porque
tinha de ser… é porque… a criança queria ter-me como…mãe...não
sei se sou! Hoje sinto raiva, medo, desconfiança e insegurança, mas
já tenho alguma consciência do que sou, de quem sou!
Parece
que perdi parte, ou a totalidade de quem era, e de quem sou agora,
ainda desconheço de mim. Sinto raiva, por não ter aceitado logo a
escolha do pai do meu filho, não compreendi que ele não era
obrigado a ficar comigo, só porque aconteceu de engravidar!
Talvez
eu até o tenho ajudado a descobrir e a assumir a sua escolha, a sua
verdadeira identidade sexual. Desde que ele cumpra as suas funções
de pai. Esse acontecimento destruiu toda a noção de família que me
transmitiram.
Eu
achava que família, era pai, mãe, juntos na mesma casa, que se
amam, e os filhos! Mas fui-me apercebendo que muitos amigos, não
viviam com os dois pais na mesma casa, o amor entre os pais acabava,
mas continuavam a encontrar-se com os filhos.
Para
mim, fazia-me confusão, mas hoje é cada vez mais comum, e não há
problema, a não ser quando não assumem o divórcio, ou quando se
vingam nos filhos da frustração.
Pelo
menos, o pai do meu filho assumiu. Eu acreditava que por ser
homossexual, o pai do meu filho não poderia, nem saberia amar o
filho! Estava totalmente errada. Por causa daquele preconceito, sem
sentido...porque...na verdade, ele e o companheiro provam-me todos os
dias que me amam, à maneira deles, talvez...um amor mais puro, mais
sincero.
Amam
o meu...o nosso filho! Como um pai verdadeiro. Lá porque é
homossexual, não deixa de ser pai. Temos medo, eu e eles, por causa
do que vão dizer, quando a criança crescer...mas já combinamos que
seremos uma família, o pai estará presente, o tio e padrinho
também, e depois veremos!
Agora
é aproveitar, lutar, ajudá-lo, respeitamo-nos os 3, temos uma
relação maravilhosa, e o nosso filho, é amado! Agora sim, a minha
vida faz sentido! Faz sentido eu continuar a existir, faz sentido o
amor, faz sentido a união.
Faz
sentido o pai não ter que ficar obrigatoriamente com a mãe, se para
ele não faz sentido, nem é feliz, não é o que quer, só porque
existe um filho! O amor é o que faz sentido, seja de que forma for!
E
como é lindo, o resultado do nosso amor! Como é lindo este amor.
Lara
Rocha
29/Dezembro/2020