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sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Até qualquer dia, sonho

 



Até qualquer dia, sonho! 

Olá sonho! Gratidão por toda a companhia que me fizeste, estes anos todos, gratidão pela tua presença durante estes anos, e por manteres viva em mim, a eterna, pensava eu, esperança de sermos companheiros diários. 

Gratidão, sonho, por me fazeres acreditar que nos íamos encontrar, realizar os nossos projetos conjuntos, gratidão por me levares a visitas na biblioteca e nos livros, que me fizeram enriquecer a mente, material, mais material, e material, porque achava que podia precisar, que este e aquele dariam jeito, este ou aquele era melhor retirar apontamentos, posso precisar. Fizeste-me acreditar que seria bom ter esses apontamentos. 

Gratidão, sonho, por me fazeres ter objetivos estes anos todos, de procurar, divulgar, concorrer, esperar respostas positivas, quando só recebemos respostas negativas e silêncios. 

Mesmo assim, sonho, continuaste comigo, e dizias-me: continua a tentar, faz isto, ou faz aquilo, experimenta fazer assim, deixa aqui, deixa ali, tentei, tentamos estes anos todos, sem sucesso. 

Mesmo assim, tu continuaste comigo! Tínhamos lugar, tínhamos contacto, tínhamos a luz da esperança acesa, que às vezes se apagava, mas tu estavas lá, e a luz voltava a acender, para se manter na penumbra, até que umas vezes se apagava e outras vezes se acendia mais forte, mas quase se apagar outra vez. 

Gratidão, sonho, pelos dois primeiros anos em que trabalhamos juntos, felizes, em que nos sentimos realizados e úteis, em que tivemos sucesso, até que a luz apagou, voltou a acender com outros objetivos e tu estavas lá, a manter a esperança viva, para eu não desistir. 

Mas a realidade é que nada mudou, continuamos juntos, com os nossos projetos, ideias, estudos, formações, e continuamos a luta para manter a luz acesa, que algum dia desses que já passaram há uns anos, ia realizar novamente o nosso...sonho! 

Muitas coisas influenciaram a não realização do nosso projeto conjunto, e continuam a influenciar, mas desta vez, ao fim de cerca de oito anos, tu cansaste de estar ao meu lado. 

Percebeste melhor a realidade do que eu, gratidão por isso, já que eu não percebi logo, talvez tu já soubesses que não iriamos vencer, mesmo assim, incentivaste-me a tentar, a não desistir, a procurar, a partilhar, a investir, a estudar, a continuar. 

Eu também cansei, desculpa! Cansei de acreditar que íamos conseguir, desisti, qualquer pessoa desistiria mais cedo, com certeza, mas tu, sonho, mantiveste-te do meu lado, fizemos uma boa equipa, apesar dos frutos não terem vingado. 

Nenhum de nós tem responsabilidade, são coisas do mundo em que vivemos. Vivemos alguns bons momentos juntos, de entusiasmo, confiança, acreditar que as coisas iam melhorar, mais dia menos dia. 

Eu e tu, sonho, construímos expectativas irrealistas, planos com base nos nossos desejos, e porque corria bem para outros, também pensávamos que correria para nós! 

Foi duro, sim, todo o investimento, os altos e baixos, foi triste, sim, enquanto acreditamos juntos, foi bom, mas logo a seguir, tudo se desmoronava, com a frustração dos «nãos», dos «silêncios», dos «já temos», dos «ficaremos com o seu contacto e se precisarmos ligamos», entre outros, que no início mantinham a luz acesa, até que se apagava. 

Continuamos a tentar, tudo na mesma...um dia tínhamos de cansar e decidimos desistir. A nossa união foi enfraquecendo, praticamente não nos encontramos, não construímos mais projetos, porque tu sabias que não se iam concretizar, mesmo assim, continuavas comigo, e davas-me força para eu não desanimar. 

Mas eu desanimei. Desculpa, sonho! Obrigada por me abrires os olhos, e desculpa eu só cair na realidade, agora. Hoje, a luz do nosso castelo, onde residiam os nossos sonhos, apagou! Permaneceu o vazio que já existia e tínhamos esperança que se enchesse. 

Por tempo indeterminado…! Como aconteceu desde o início, porque perdemos a esperança, porque desistimos de acreditar e de lutar, porque vimos que com a realidade que nos rodeia, não valia a pena continuar a construir o nosso cantinho. 

Cansamos, ficamos e estamos tristes, mas há-de passar, como das outras vezes em que sentimos tristeza. Não sabemos o que virá a seguir, mas os dois acreditamos que os mesmos planos tão desejados não será. Cansaste de me alimentar, e eu também. 

Deixamos tudo no nosso castelo, onde esteve tudo, estes anos todos. Hoje, a luz apagou mesmo! Não custou, mas acho que na minha essência, custou, doeu, como das outras vezes. 

Ficaste lá, sonho! Eu vim embora. Prometo que te vou visitar, também podes vir, para conversarmos sobre outras coisas, para matarmos saudades...o meu coração e a minha mente, estão sempre abertos para ti, como tu sabes, e como estiveram estes anos. 

Descansa, sonho! Eu também vou descansar, o que precisares, sempre que quiseres, sabemos onde estamos. Dorme, sonho, descansa, não estás lá sozinho, tens contigo todos os meus (nossos) sonhos, todos os projetos, todos os planos, todas as tentativas, os fracassos também, toda a força que me deste, as lembranças da minha companhia, os sucessos. 

Tudo. Trata bem de tudo, e até qualquer dia, quem sabe, encontramo-nos por aí, noutro castelo qualquer, ou no nosso. 

Por agora, dorme, sonho, descansa, logo veremos. Vemo-nos qualquer dia, obrigada por tudo. 

                                                                Lara Rocha 

                                                                9/8/2024 

segunda-feira, 13 de maio de 2024

Todas as lágrimas

TODAS AS LÁGRIMAS

Se eu juntasse todas as lágrimas

que chorei por ti,

poderia agora matar a sede

aos povos, 

aos animais 

e aos vegetais

que sofrem 

por não a ter em abundância.

Sim! Essas mesmas.

As lágrimas que caíram dos meus olhos

sempre que nos separávamos

enquanto trabalhaste fora

e ficávamos ou mês ou dois

sem que os nossos corpos se sentissem.

Era triste e duro

mas só no primeiro momento

porque depois

os nossos olhos tocavam-se

sempre que falávamos

no computador

e no telefone,

no telemóvel

mas não era a mesma coisa.

Era o possível.

Dava-me força para suportar a distância,

o teu argumento melodioso,

de que estavas a trabalhar para nós,

para construir o nosso futuro…

Sim, era o que estávamos a planear,

quando eu e tu,

éramos um só!

Mas de repente, os sonhos…

desprenderam-se

e perderam-se no Universo!

Quando o nós,

se dividiu em eu...e tu,

despedaçando-se como cometas

quando tu escolheste apagar o amor que nos unia

e que dizias sentir por mim.

Eu, como te amava,

na minha inocência, acreditava que sentias o mesmo.

Mas será que alguma vez sentiste mesmo isso?

Será que sabias mesmo

o que é o amor?

Então, porque acabou?

Se fosse amor como dizias…

Não tinha acabado!

Porque o amor não tem tempo para acabar!

Não é um produto com data de validade!

Porque o amor não acaba!

Nem se deixa adormecer por outra,

nem põe prazo limite de duração da relação!

O amor não se alimenta de chantagens,

Nem de pressões!

O amor espera,

E sabe esperar.

Tu é que quiseste assim!

Espero que estejas muito feliz agora! 

Lara Rocha 

21/3/2014 





sexta-feira, 16 de abril de 2021

monólogo: gelo, chuva fria e gotas de orvalho













A cada desilusão, a cada ilusão que criamos, a cada tristeza que sentimos. A cada perda, cada derrota, cada abandono...cada doença, a cada maldade, a cada injustiça...lançamos um pedaço de gelo para o nosso coração. 

Umas vezes grande, outras vezes pequeno, mas é sempre uma pedra de gelo! 
Uns pedaços derretem, outros não! Uns transformam-se em lágrimas, outros ganham ainda mais força, peso e espessura. 

E quanto mais gelo acumulamos mais pesados ficamos. E mais frios somos. Quem pode desfazer os cubos de gelo? Talvez...Cada um de nós, alguém, ou nunca os desfaremos. Mas mais cedo ou mais tarde, o gelo torna-se visível Mais gelado, mais duro. E nós? Em que nos transformamos? Em nada  a não ser...Gelo! 

As lágrimas que caem dos nossos olhos, umas vezes são chuva fria, outras vezes são água do mar. Umas vezes são águas limpas,  outras vezes, águas poluídas. Umas vezes transportam alegria outras vezes tristeza.

Outras saudades de bons momentos, de pessoas especiais, outras, muitas outras coisas. Mas todas lavam a alma, e desatam os nós que às vezes apertam tanto tempo a garganta  E o coração. Cada gota de orvalho brilha com os raios de sol.

Cada gota de orvalho é um brilhante oferecido pelos anjos. Cada gota de orvalho conta um desgosto da terra, uma dor, por cada  crueldade do homem. Em cada gota de orvalho pode também brilhar um olhar ou um sorriso feliz. Cada gota de orvalho é um lindo mistério, um toque mágico, uma promessa boa, um bom presságio, pelo menos, de um momento de paz!  Enquanto vemos uma gora de orvalho a brilhar  com o sol. 

                                                                Fim 

                                                            Lara Rocha 

                                                            16/4/2021





quarta-feira, 11 de novembro de 2020

monólogo para adolescentes e adultos «Saudades de um outro…»



(Suspira ao olhar para o telemóvel e para uma foto).

RAPARIGA - Releio as tuas mensagens…as poucas que me mandaste desde que entraste na minha vida! E porque tenho saudades…! Não entraste há muito tempo, na minha vida, mas eu já te tinha acolhido no meu coração…mas também rapidamente saíste dela. Da minha vida, porque continuas no meu coração, adormecido…! Como uma estrelinha sem brilho, perdida numa imensa galáxia…Sem brilho, porque está doente…! Sim, para mim estavas a ser uma estrelinha! Não, não fui eu que te mandei embora…tu é que quiseste sair. De livre vontade, ou talvez não…talvez…a tua doença é que te tenha retirado! Sim, essa retirou-te muitas mais coisas, principalmente a boa disposição, a calma, a paciência, a alegria, a simpatia, a meiguice, a delicadeza… a vontade de falar…! Releio as tuas mensagens, e vejo a tua foto, a única que tenho, desde o último encontro, aliás…último e único…depois de tantas promessas que me fizeste, de que nos iríamos encontrar muitas mais vezes… foi inesperado e doce, o nosso primeiro e único encontro. Sim, foi lindo! Parecíamos dois adolescentes envergonhados…! Mas foi como um lindo sonho, que durou aquela hora, mas pouco depois…um monstro…o monstro dos pesadelos…levou esse sonho! Para onde? Não sei, isso só tu poderás responder. Se calhar…nem tu sabes bem por onde andas! Andas perdido nos teus pensamentos, nas palavras que não dizes…mesmo a quem te quer bem! Eu estava tão feliz quando a nossa amizade começou… (rir) Amizade…?! Será mesmo? Será que sentias isso…como eu senti…? As nossas conversas, sempre tão agradáveis, sobre diferentes temas…Como tu dizias…adoravas falar comigo…! E admiravas-me! Isso estava a fazer-me tão bem ao ego… à auto-estima! As palavras simpáticas que só tu me dizias…a força que me transmitias com as tuas mensagens…e a alegria que trazias aos meus dias, sempre que falávamos, ou nas mensagens queridas que me mandaste param o telemóvel. Será que estava mesmo a começar uma amizade…Ou terei sido eu, que na minha inocência, e romantismo, ou infantilidade, talvez…que imaginei que aquela troca de mensagens ou de palavras, seria o nascimento de uma linda amizade?! Ou seria a minha vontade de ter um amigo…? Homem…! O erro pode ter sido meu…talvez tenha uma visão muito cor-de-rosa das coisas, das relações…talvez ache que sejam todos como eu! Sinto a tua falta… Sinto saudades do homem, amigo… que estava a começar a conhecer. Até que… aos poucos… tudo se transformou…! Em silêncio, em frieza, em distância… em esquecimento… talvez! Aos poucos, afastaste-te, deixaste de falar comigo, deixaste de ser aquele homem simpático, brincalhão, animado, dedicado, que transmitia força… e luz…! A tua doença… talvez… é que te tenha transformado num novo ser…! Sinto saudades! A tua frieza, nas duas últimas vezes que falamos, já quase foi preciso eu arrancar-te da garganta palavras…quer dizer…monossílabos… preocupou-me… deixou-me triste, gelada…Apesar de isso me ter congelado o coração, não dei muita importância, pois todos nós temos dias maus…!Tinha esperança que…amanhã seria outro dia, e tu estarias melhor…que amanhã… tu voltarias a ser aquele amigo…! Mas no dia seguinte…e no seguinte…e no outro…e no outro a seguir…até hoje… de tua parte só recebi o silêncio…Um silêncio que de dia para dia atravessa a minha pele, o meu coração. A maneira como falaste comigo da última vez…Talvez não fosses tu a falar… talvez fosse a tua doença a falar por ti! Porquê…? Porquê…? O silêncio! Vá lá…deixa que te ajude…! Eu…e os teus…que te amam! Só tens de abrir o teu coração para mim, em vez do teu silêncio. Quanto mais os dias passam… e as noites… sem uma única palavra tua, sem uma única mensagem tua… mais o silêncio se torna insuportável para mim, mais o coração dói, e mais triste eu fico! Mesmo com o teu silêncio, com o teu gelo, a tua distância… eu ficarei à espera…à tua espera…Amigo! De dia para dia, as saudades aumentam, assim como a tristeza…e o sentimento de impotência! Não sei lidar contigo…! Quero ajudar-te, mas não consigo…Porque tu não te abres comigo! Com o teu silêncio não poderei ajudar-te! Dizes que não queres falar, nem comigo, nem com ninguém…está bem! Não és obrigado. Eu entendo… a tua doença é que deve dizer isso…quer dizer…ela é que te domina… ela é que fala por ti… Quero voltar a ser feliz e a sorrir, por ter um amigo como tu…Quero que a sementinha da nossa amizade que estava a nascer… renasça e cresça mais forte! O silêncio é que não por favor! Esse não vai fazer com que a sementinha cresça…! Quero que a tua frieza, se transforme em calor…em luz…em brilho…por favor…deixa-me ajudar-te! Quero que a estrelinha que está no meu coração, volte a brilhar dentro de mim! Tenho saudades! Amanhã é outro dia…esta noite vou sonhar contigo, com a volta da tua amizade…! E com o fim da tua doença! Amigo…espero por ti! Estou sempre aqui…neste momento com saudades! E que a nossa amizade renasça. Beijos repenicados, e grandes…como nós dizíamos um ao outro, depois de falarmos. Não te esqueças…estou aqui! Amigo!!!


Lara Rocha

(4/Dezembro/ 2012)



  



quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Os cachecóis da Avó Sonho


Era uma vez uma senhora chamada Maria do Sonho, mãe de 8 filhos, e Avó de 18 netos. Estava divorciada há uns anos, vivia numa vivenda nos arredores de uma grande cidade, com alguns gatos e cães, e era feliz. Todas os dias e noites a senhora tinha lá netos, que dormiam com ela, e até levavam amigos. A senhora quase não tinha sossego, mas os momentos que tinha livre gostava de costurar cachecóis, cada qual o mais bonito, colorido, macio, algumas mantas e colchas, roupinhas para bebés e outros mimos. Enquanto os construía, sorria. Um dia, um dos netos ficou a observá-la e perguntou-lhe:
- Avó, porque fazes tantas coisas dessas?
- O quê?
- Isso, com as agulhas e linhas.
- São cachecóis.
- E porque fazes isso?
- Gostas?
- São bonitos.
- Faço porque gosto.
- Então é por isso que sorris?
- Sim! Cada linha, cada cor, é uma recordação feliz da minha vida.
- A sério?
- Sim.
- É por isso que sorris?
- Também! Gosto de recordar momentos felizes! E quando recordamos momentos felizes, sorrimos!
- Pois é. E que recordações são essas?
- São de muitas situações. Da minha infância, da minha adolescência, com os teus pais, com os teus tios, contigo e com os teus primos...
           De repente a Avó fica com dores nos dedos e nas mãos. Para assustada, suspira e geme.
- Aiiii...
- O que foi Avó?
- Estou com dores nas mãos e nos dedos.
- Óh...queres que eu chame ajuda?
- Não. Deixa estar. Isto já passa.
- Descansa um bocadinho.
- Isso, mesmo! Deve ser mesmo destes movimentos repetitivos.
          Pousa a agulha e as linhas, e vai para a beira do neto, vão os dois alimentar os animais. No dia seguinte, a Avó Sonho tenta tricotar, mas as dores nos dedos e nas mãos não a deixam. Ela fica aflita, e chora, triste. Vai ao médico, e este diz-lhe que não pode voltar a tricotar. A pobre Avó desata num choro sem fim.
- Óh. Não posso acreditar! Como é que isto foi acontecer? E agora? O que é que eu vou fazer?
         Ao chegar a casa, liga para os filhos, cheia de tristeza e lágrimas. Os filhos enchem-lhe a casa, com os netos, e tentam animá-la, mas nessa noite não dorme. Fica a olhar para as linhas, e fala com elas:
- Óh, minhas queridas, e agora que não posso mexer-vos mais? O que vou fazer sem vocês? Como vou bordar e tricotar as minhas recordações felizes, antes que a minha memória me atraiçoe? O que vou fazer convosco, memórias felizes, se agora não vos posso juntar, nem fio por fio, misturar-vos e ligar-vos? Óh! Como vou sorrir, agora? Eu gostava tanto de vocês... era tão feliz!
           De repente, ouve uma voz:
- Então, Sonho, que tristeza é essa?
           A avó estremece:
- Quem está aí?
- Sou uma recordação tua, feliz.
- Quem?
           Aparece uma pequenina luz.
- Reconheces-me?
           A avó abre um grande sorriso:
- Olá! Há quanto tempo que não nos víamos. Por onde andaste?
- Estive sempre aqui, e já me tricotaste várias vezes nas tuas coisas! Ainda estes dias.
- Sim, é verdade...lembro-me de ti.
- Fomos tão felizes, juntas, não fomos?
- Fomos! Estou muito triste...o médico diz que estou velha, não posso mais tricotar, porque se o fizer, posso não conseguir mexer mais os dedos. O que vou fazer agora, para que a minha memória dos momentos felizes, não me atraiçoe? Os momentos tristes não faz mal se não me lembrar, mas os momentos felizes, não quero esquecer.
- Não te acredites no médico! Só tens de descansar um pouco mais.
- Óh, eu já não sirvo para nada...
- Não digas isso, nem penses numa coisa dessas. As tuas memórias felizes não te vão deixar, elas estarão sempre aí, eu tomo conta delas. Daqui a uns dias vais voltar a conseguir tricotar outra vez.
- Achas? Como?
- Acredita em mim! Nós estamos aqui para te ajudar.
           As duas têm uma longa conversa, riem, bebem um chá juntas, e a Avó adormece quase de manhã. A luzinha sua amiga cobre-a com carinho, com uma grande manta que a Avó fez, e calça-lhe umas luvinhas mágicas que lhe tiraram a dor. Deixou-lhe uma flor com uma mensagem: «Querida sonho, voltarei em breve! Continua a tricotar memórias felizes.»
           Quando a Avó Sonho acorda, fica surpresa, mexe as mãos e para grande felicidade, não sente dores. Volta a tricotar, e faz um cachecol sobre as suas lágrimas que chorou nessa noite, e linhas mais coloridas que representavam a felicidade de já não sentir dores, e de poder voltar a tricotar. Mas percebeu que não podia fazê-lo durante muitas horas, como antes, e aprendeu a fazer outras coisas que gostava, mas nunca deixou de tricotar. Tricotava sempre com um enorme sorriso, e toda a família ficou feliz com essa recuperação da Avó Sonho.
          A sua amiga luzinha tinha toda a razão, e voltou para partilhar com ela mais momentos felizes. Por serem recordações felizes é que tudo o que a Avó Sonho tricotava era tão especial e bonito! Quando estamos felizes tudo é mais bonito, temos mais saúde, ficamos mais bonitos, e deixamos outros com mais luz, porque talvez possamos fazer parte das suas recordações felizes, que os fazem sorrir.

E vocês? Se tricotassem, ou se tivessem uma Avó Sonho que tricotasse, que cores usariam? Que recordações tricotariam?

                                                                         FIM
                                                                         Lálá
                                                              (13/Dezembro/2017)
                                                                        
     

sexta-feira, 25 de março de 2016

Acorda preguiçoso (adolescentes e adultos)

     
 Era uma vez um lindo e simpático palhacinho, ainda novo, muito divertido e brincalhão, que adorava ver as pessoas a rir. 

      Um dia, as coisas não correram bem, as pessoas que o viram não acharam piada às brincadeiras dele, e ele ficou muito triste, desanimado, e foi para casa. Tirou as pinturas, e o fato de palhacinho, sempre a chorar e murmurou.

- Que porcaria de palhaço que eu sou. Como é que agora vou ajudar os meus pais? Como é que eu lhes vou contar…que não presto…e que…não consigo fazer rir as pessoas? Eles vão ficar muito tristes comigo…vão ter vergonha de mim. (p.c) Vou desaparecer…! (p.c) Também…ninguém deverá sentir a minha falta. Que vergonha…

     Uma fadinha que o conhece, ao passar na sua janela, viu que ele estava a chorar e entrou, com pena dele. Pousou na sua mesinha de cabeceira, e diz.

- Nunca vi um palhacinho tão triste!

      O palhacinho olha para ela e pergunta.

- O que é que estás aí a fazer?

      A fadinha responde ofendida:

- Isso é maneira de falar com uma amiga?

      O palhacinho responde a chorar.

- Já não sou palhaço…nem sou teu amigo! (p.c) Não gosto mais de ti…tu disseste-me que ias estar sempre comigo…! (p.c) que…toda a gente ia gostar de mim…

      A fadinha fica ofendida, a sua luz fica mais fraca, e ela encolhe-se triste, sem dizer nada, e sai discretamente. Fica encostada à beirada da janela e murmura.

- Que mal agradecido! (p.c) Não sei que raio de bicho lhe mordeu…também…já não me interessa…! (p.c) Ele se quiser que compre um rabo e que fale para ele! (p.c) Fica aí com a tua telha seu ingrato…vou ver quem me merece.

     O palhacinho olha para a mesinha de cabeceira, a chorar mas a fadinha já não está lá. Ele para de chorar, fica de boca aberta e chama-a.

- Fadinha…fadinhaaaa…! (p.c) Óh fadinha…já foste embora? Desculpa…eu sei que fui injusto contigo…mas volta…eu preciso muito de ti!

   O palhacinho desata a chorar, aparece outra fadinha, entra e pergunta.

- Então…precisas de ajuda?

      O palhacinho grita-lhe zangado:

- Vai-te embora…! (p.c) Sai daqui…deixa-me estar.~

         A luz da fadinha apaga-se mas ela não sai de lá e insiste.

- Porque é que estás tão triste?

         O palhacinho responde brusco.

- Não tens nada a haver com isso!

         A fadinha insiste.

- Nunca vi um palhaço tão triste!

         O palhacinho responde triste.

- E depois…não posso estar triste? (p.c) Além disso já não sou palhaço, nem quero ser mais palhaço!

         A fadinha responde.

- Não acredito no que estou a ouvir! (p.c) Com esse jeito todo, e essa beleza natural…e não queres ser palhaço? Acho que vou ter que te dar um chapadão para aterrares.

         O palhacinho responde triste.

- De que é que me adianta ser bonito e ter jeito…? As pessoas já não gostam de mim! já não se riem do que eu faço!

         A fadinha ri-se e responde.

- És mesmo fraco!

         O palhacinho fica surpreso.

- Ei, eu sei que sou fraco, mas também escusavas de me dizer na cara. Mas…porque é que dizes que sou fraco?

         A fadinha responde.

- Então…?! (p.c) As pessoas que desistem à primeira situação que não corre bem…são fracas! (p.c) Como é que sabes que as pessoas já não gostam de ti? Perguntaste-lhes?

         O palhacinho responde.

- Não lhes perguntei, mas percebi pelas caras delas…não se riem, e fogem de mim! É porque não gostam de mim.

         A fadinha ri-se e pergunta.

- Que conclusão tão palerma. Tu gostas mesmo do que fazes?

         O palhacinho responde.

- Sim, estava a gostar muito de ver as pessoas felizes e a rir quando me viam! Mas deixaram de fazer isso.

         A fadinha pergunta.

- E o que é que tu lhes fizeste?

         O palhacinho responde:

- O mesmo de sempre…as mesmas brincadeiras que me ensinaram.

         A fadinha pergunta.

- E para onde foste?

         O palhacinho responde.

- Fui para os mesmos sítios de sempre…! Que me disseram para eu ir.

         A fadinha pergunta.

- E tu gostas de ir sempre para os mesmo sítios, fazer sempre as mesmas coisas?

         O palhacinho fica pensativo e responde.

- Humm…sim…são os sítios que conheço!

         A fadinha pergunta.

- E com certeza já conheces todas as pessoas que passam sempre nesses sítios, não?

         O palhacinho responde.

- Sim.

         A fadinha responde.

- Claro…sabes porque é que eles já não se riem das tuas brincadeiras?

         O palhacinho fica pensativo e responde.

- Não, mas se calhar é por não gostarem de mim.

         A fadinha zangada grita-lhe e ralha-lhe.

- Não, palerma, não é por não gostarem de ti, é por tu mostrares sempre as mesmas coisas, andares sempre nos mesmos sítios…!

         O palhacinho fica muito admirado, a fadinha acrescenta.

- Mas isso não é motivo para ficares tão triste e para deixares de ser palhaço.

         O palhacinho responde.

- Ai não? (p.c) Só se não for para ti. Se as pessoas não gostassem de ti, continuavas a ser palhaça…? Ou…fada…

         A fadinha responde.

- Claro que continuava a ser fada, palhaça…o que fosse! Há muita gente que não me aprecia, nem acredita em mim, mas eu continuo a fazer as mesmas coisas…porque gosto de mim como sou, e há sempre alguém que me aprecia e valoriza…além disso…adoro o que faço, independentemente dos outros gostarem ou não.

         O palhacinho responde.

- Mas…eu não sei fazer mais nada…

         A fadinha responde.

- Nunca experimentaste outras coisas, como é que sabes que não sabes fazer mais nada? (p.c) Só tens que inventar novas brincadeiras, mudar as roupas…mostrar coisas diferentes. Mas todas essas coisas novas que criares, tem de ser com amor e o gostar tem de começar em ti…tu tens de gostar primeiro e divertir-te primeiro. Tens de te sentir feliz com o que fazes.

         O palhacinho fica espantado e comenta.

- Para ti, é tudo tão fácil não é?

         A fadinha responde.

- E para ti também…tenho a certeza!

         O palhacinho responde.

- Eu…só sei fazer aquilo que me ensinaram.

         A fadinha ralha.

- O quê? Mas que palermice…não sejas preguiçoso…e…pensa…há muitas coisas diferentes que podes fazer para que as pessoas voltem a gostar das tuas brincadeiras. (p.c) Tu queres ajudar os teus pais e manos, certo?

         O palhacinho responde:

- Claro que sim. Mas desta maneira não vou conseguir…! como não gostam de mim, já ninguém me liga, não me dão dinheiro!

         A fadinha ralha.

- Sim, sentado aí, infeliz, e sem fazeres nada, claro que vai continuar tudo na mesma. Para ajudares a tua família não podes deixar de ser palhaço. Quer dizer…podes fazer outra coisa qualquer que não gostes e que te deixe infeliz…mas não vai trazer bom resultado, acredita! (p.c) Tendo esse talento natural…que não é para qualquer um…não deves desperdiçá-lo.

         O palhacinho fica admirado, pensativo.

- Não sei o que fazer!

         A fadinha responde.

- Claro que sabes! Só tens que pensar um bocadinho. (p.c) Tenho a certeza que te vai ocorrer alguma coisa boa…! (p.c) Pensa…! (p.c) Ou…quando fores dormir, pode ser que sonhes com alguma coisa.

         O palhacinho implora.

- Por favor, ajuda-me!

         A fadinha ri e responde.

- Não querias mais nada…?! Na, na, na…primeiro pensas tu, até porque eu posso ter umas ideias que não gostas.

         O palhacinho tenta novamente.

- Vá lá…tenho a certeza que já tens alguma ideia. Ajuda-me...estou tão triste que não consigo pensar.

         A fadinha ri e ralha.

- Ninguém te manda estar triste. Põe-te feliz e pensa. Não sejas preguiçoso. Não te vou dizer nada…tenho a certeza que vais ter alguma ideia boa.
    
     O palhacinho fica a pensar um bocadinho…a fadinha sai. O palhacinho grita: 

- Não vás embora.

         A fadinha responde.

- Estou aqui perto. Pensa…já volto.

      Na beirada da janela, a fadinha toca clarinete e o palhacinho ouve uma linda música tocada por ela. Ele sorri e acaba de ter uma ideia genial. 

       Abre a janela de repente, a fadinha assusta-se, saltita, larga o clarinete, a sua luz fica a piscar intermitente…e ela diz.

- Ai, que susto! Vais atirar-te da janela em vez de pensar?

         O palhacinho desata a rir e responde.

- Desculpa, não te queria assustar. Pensei que me tinhas visto.

         A fadinha ainda assustada responde.

- Não, quando toca, fico tão feliz que não vejo ninguém, nem nada. Mas…o que me querias?

         O palhacinho sorridente responde.

- Então eras tu que estavas a tocar essa música tão boa e tão bonita…!

         A fadinha responde.

- Sim, porque?

         O palhacinho sorridente responde.

- Acabei de ter uma ideia excelente.
         A fadinha responde sorridente.
- Áááhhh…ai foi? Ainda bem…qual?
         O palhacinho responde.
- Vou vestir-me com outra farda e tocar clarinete…! Podes ensinar-me a tocar?
         A fadinha saltita de alegria, sorri, a sua luz fica mais forte e ela responde.
- Mas que excelente ideia, querido! (p.c) É claro que te ensino a tocar…com todo o gosto! (p.c) Olha…e por esta excelente ideia que tiveste vou oferecer-te um fato novo!
       O palhacinho fica contente. A fadinha estala os dedos, e aparece um baú, onde tem um conjunto de fatos, cabeleiras e outros acessórios de palhaço diferentes. 
      A fadinha dá um clarinete ao palhacinho, e ensina-o a tocar. Ele aprende rápido. A fadinha bata-lhe palmas, e ensina-lhe novas brincadeiras, os dois riem muito, e ensina também a tocar outros instrumentos musicais diferentes. 
    Nos dias seguintes, o palhacinho volta para as ruas, apresenta sempre brincadeiras, roupas e acessórios diferentes, com a ajuda da fadinha que se transforma numa linda menina para atrair as atenções e brinca com ele e com as pessoas, toca com ele. 
    Todas as pessoas que assistem ficam encantadas com o palhacinho e com a beleza da fadinha, riem muito, cantam, dançam, batem muitas palmas, interagem alegremente com os dois, dão dinheiro ao palhacinho, muito mais do que ele estava habituado e muito mais do que antes. 
     É assim que ele consegue ajudar a família, que tem muito orgulho nele. Ainda bem que o nosso palhacinho não desistiu, só porque as pessoas não se riam dele. 
  É o que todos devemos fazer…às vezes basta uma pequena mudança, ou aproveitarmos para rentabilizar as nossas capacidades especiais para algumas coisas, e mostrar a quem nos vê, os nossos dons. 
    Para que sejamos felizes e para que nos sintamos felizes, assim também estamos a fazer nem que seja uma só pessoa feliz. Embora não pareça há sempre alguém que nos dá valor e que repare em nós, ou que se sente feliz com a nossa presença. 
   O importante é nunca desistirmos. Muitas vezes, à primeira situação que não corre como gostávamos, queríamos ou esperávamos…desistimos. 
    Mas esta não é a saída. Muito pelo contrário, ainda entramos mais no precipício. Portanto devemos fazer como o nosso amigo: ter boas ideias, apostar noutras coisas, inovar…mas nunca nos entregarmos à tristeza, e nunca desistir.

Fim

Lara Rocha 

(21/Maio/2011)