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sábado, 16 de agosto de 2025

A borboleta de xaile

 


Era uma vez uma borboleta enorme, leve, de asas vermelhas, muito bonita e generosa , que usava uma xaile preto, sempre que saía ou para se agasalhar. Era uma borboleta mágica. 

    Uma noite, ouviu uns gritos e choros no campo de plantações ao lado da flor onde repousava. Ficou atenta, de ouvidos bem abertos, e olhos ainda mais a ver se percebia de onde vinham realmente. 

    Uma outra borboleta disse-lhe que era no campo e que já há uma série de noites, dias, talvez semanas, ouvia esses gritos e choros. A borboleta veste o xaile preto e vai por cima do campo numa noite fantástica de Lua Cheia, luminosa, parecia amanhecer, mas ainda era de noite. 

  Quem chorava e gritava era um boneco de palha, um espantalho, que apanhou um grande susto ao ver uma sombra enorme da borboleta refletida no chão. O boneco de palha solta um grito e estremece a soluçar: 

- Lá vem mais um...!Óh não! - 

- Mais um quê? - pergunta a borboleta - Isso não é maneira de falar comigo! Boa noite! 

- Desculpa! - pede o boneco triste e a olhar para ela envergonhado - Boa noite. Mas como é que eu posso ter uma boa noite, ou um bom dia...-resmunga o boneco. 

- Não sei porque estás a falar assim comigo! Calma, sou do bem! Porque estás tão irritado, e choroso? Nervoso…

- Quem és tu? - pergunta o boneco a choramingar 

- Sou uma borboleta!   

- És muito estranha! Eu sou um boneco de palha pelo que dizem. Não sei, nunca me vi. Só sei que estou farto de estar aqui, farto de levar com raios de pássaros que pousam em mim, comem-me pedaços em tudo quanto é sítio. Sou um boneco de palha, farto de levar com...bem...com o que elas fazem...com...porcaria de pássaros, penas, patas! Estou farto de ser comido por burros, gado, cegonhas, chuva, sol, vento, trovoada. Percebes? Estou farto de  levar com outros insetos irritantes em cima de mim, como se fosse de comer! Depois fazem de mim...cama! Estou farto daqueles pássaros enormes de todo o tipo que me picam com aquelas horríveis garras e bicos de quilómetros (a borboleta ri) Estás a rir porque não és tu que levas com eles. Sacodem-se em cima de mim, que nojo! Deixam-me penas e outras porcarias, outras criaturas irritantes. Alguém me pôs aqui, a achar que ia ser a solução para esses bicharocos estranhos, mas não adiantou nada! Nem quando estão aqui pessoas. Vem para aqui crianças e adultos, dar-me pontapés, murros, puxam-me fios de palha, descem-me o fecho das calças que me vestiram, não sei para quê, põem-se com risinhos, também não sei porquê, nem qual a piada. Só sei que se riem e fazem comentários estranhos. Metem-me coisas nos bolsos, da camisa, e das calças, tiram-me o chapéu, põem nas cabeças deles, usam uma caixa, que nem sei o que é aquilo, nem para que usam, tentam tirar-me as sapatilhas...são um terror! Estou farto. Queria fugir daqui. E tu, o que fazes aqui? 

- Ouvi alguém a gritar e a chorar, vim ver se podia ser útil...ajudar alguém ou algum animal. 

- Óh…não sei o que queres dizer com isso, mas senti uma coisa boa!  Ouviste os meus gritos e choro? (surpreso) 

- Sim! Ouvi. 

- Desculpa, se calhar estavas a dormir, não? - pergunta o boneco 

- Não, não te preocupes! Já viste a Lua que bonita que está? - pergunta a borboleta 

- Lua? Quem é a Lua? - pergunta o boneco

- Esta luz que está no campo! 

- Áh! Nunca tinha visto...quer dizer, já tinha visto mas não sabia o que era! 

- Pois! Estavas sempre centrado em ti, e no que te faziam, que a tristeza e a raiva não te deixavam ver. 

- Se fosses tu, se calhar também ficavas triste, e com raiva, não? 

- Bom...sim...talvez! 

- Mas ela está perto? Parece... 

- Não! Está muito longe, mas parece estar perto porque está muito, muito grande. Está lá em cima, onde estão as estrelas. 

- Áh! É bonita. Conheces? 

- Conheço. As estrelas e a Lua! Em que te posso ajudar? - pergunta a borboleta 

- Não sei se me podes ajudar. 

- Mas...o que mais querias neste momento? - pergunta a borboleta 

- Sair daqui, deixar de estar aqui pendurado a fazer figuras tristes e a servir de diversão para uns, alimento para muitos, saco de porrada para outros tantos, e por aí fora. 

- Claro! Compreendo a tua revolta e o teu desejo. 

- Obrigado, mas acho que não me podes ajudar, não foste tu que me fizeste assim. 

- Posso! - diz a borboleta 

- Como? 

- Posso tirar-te daí e transformar-te num menino, se quiseres, para teres uma casa, com todo o conforto, pais, irmãos, amigos. Gostavas que isso acontecesse? 

- Não sei que nomes são esses que disseste,  mas, senti uma coisa boa...acho que gostava. Sempre será melhor do que estar aqui neste estado. 

- Muito melhor! 

- Mas podes fazer isso? 

- Posso. 

   A borboleta abre o xaile, o boneco fica encantado com as asas dela. 

- Que bonita que tu és! Nunca vi uma borboleta assim. 

   A borboleta sorri: 

- Obrigada, mas eu já estou cá há muito e bem perto. 

- Já sei, a minha tristeza e raiva, não deixaram. 

- Isso mesmo! 

- Preparado? 

- Sim. 

- Agora não fales, por favor. Nem tenhas medo. Confia em mim, está bem? 

- Está bem. 

   A borboleta murmura alguma coisa, roda o xaile em cima do boneco, à volta dele, passa o xaile pelo boneco todo, várias vezes, o boneca fica um pouco assustado e incrédulo, mas com esperança e curiosidade para saber o que vai acontecer. 

  Prometeu que confiava na borboleta e assim  fez. Num toque de magia, o boneco desaparece cheio de estrelas douradas, e aparece em forma de menino de carne e osso.

  Estava vestido com a roupa de boneco de palha, calçado com as sapatilhas. 

- Desejo realizado! - diz a borboleta a sorrir - Que lindo! Vão adorar-te. 

   A borboleta ri, retira um espelho da capa, e o menino vê o seu reflexo. Primeiro, fica muito surpreso, depois sorri.

- Ele está a fazer o mesmo que eu! 

- Sim. 

  A borboleta explica pacientemente. 

- Agora: salta, corre, toca em ti, para veres do que és feito. - diz a borboleta

  O menino sorri, não sabe como fazê-lo, a borboleta saltita, ensina tudo o que ele tem de aprender, ajuda-o, ele vê que tem pernas, pés, braços, mãos, dedos nas mãos, dedos nos pés, cara, olhos claros, boca, dentinhos, mãos, orelhas, sobrancelhas, cabelo. 

  Tudo! Como nós, humanos, mas ainda demora algum tempo a perceber as diferenças e faz muitas perguntas à borboleta que explica tudo pacientemente, exemplifica, para eles fazer o mesmo e aprender. 

- Muito obrigada, borboleta! - diz o boneco, agora menino - acompanha-me, por favor! Se não te importares. Tenho... 

- Tens medo! - diz a borboleta 

- Acho que é isso. 

- Está bem. 

- Isso é bom ou mau? 

- Depende, mas geralmente é bom. Vais aprender isso com os teus pais e irmãos. 

 O menino segue as instruções da borboleta, para andar, correr, saltar, respirar, sorrir, falar, cantar, lidar com as pessoas. O menino explora, feliz, todo o ambiente. Corre, salta, encontra-se com outros animais, vê toda a natureza, brinca com a borboleta, rebola na relva, no chão. 

  Os dois têm longas conversas. Já de manhã, a borboleta leva-o para uma casa de um casal já com filhos da idade do menino, mais novos e mais velhos, muito simpáticos, carinhosos, sensíveis, que falam com ele, para o conhecer, e adoram-no. 

 O casal planeava adotar uma criança mas estava difícil. A borboleta sabia disso, e mandou para lá esse menino, que o apresenta, em forma de uma linda mulher, de xaile preto, roupa vermelha, cabelos muito longos e escuros, olhos escuros, pele morena, o menino está abismado com quem vê: 

- Bom dia, aqui está o vosso menino que tanto desejavam adotar! 

 O casal sorri, emocionado, abraça-se, abraça os filhos, abraça a borboleta em forma de mulher, e abraça o menino. Não cabem neles, de felicidade. O menino também não podia estar mais feliz. 

- Bem vindo, meu amor! Nosso amor. - diz a mãe 

- Não te vai faltar nada, prometemos! - diz o pai

    Os irmãos sorriem, e ele retribui. 

- Não temos palavras para lhe agradecer, Sra...? - diz a mãe 

- Luz. Luz, chega! Não é preciso o Sra. De nada. Tratem-no bem, como tratam os vossos filhos, e o que precisarem de mim, estou por aqui, vou passando por aqui. Até já. 

  A borboleta abraça todos, os irmãos e os pais, levam-no para dentro de casa, onde mostram a casa toda, dão-lhe o nome Hugo, ele sorri muito, dão-lhe de comer e beber, preparam uma cama para ele, confortável, com uma almofada, coisas que nunca tinha experimentado, mas estava nas nuvens. 

 Os irmãos emprestaram-lhe brinquedos, deram-lhe roupas, era um menino educado, calmo, sorridente, que ajudava nas tarefas, brincava com os irmãos, muito carinhoso com todos, ouve histórias que os irmãos contam, até vai para a escola como os irmãos. 

  Todos os adoram, acolhem-no, ajudam-no, ensinam-lhe coisas novas e a brincar, muito atento, esperto, educado, simpático, um menino muito querido. A borboleta está sempre vigilante, atenta, todos os dias, umas vezes como mulher, outras vezes como borboleta de xaile preto. 

 Os dois conversam alegremente, todos os dias, quando o menino está sozinho, e ele diz à borboleta como está feliz. Uns dias depois, o menino apresenta a borboleta aos irmãos, e aos pais, que ficam maravilhados com ela. 

 Esta, de vez em quando deixa-lhes uns pequenos presentes, mimos, por tratarem tão bem do seu amigo, com as magias do seu xaile preto. 

Que prendas acham que a borboleta de asas vermelhas e xaile preto, deixava? 

Já viram uma borboleta vermelha de xaile preto? 

E se vocês fossem o boneco de palha? Pediam o mesmo que ele? 

Realizavam o desejo do menino se fossem a borboleta? Como? 

Podem deixar nos comentários, se quiserem. 

                                                              FIM 

                                                      Lara Rocha 

                                                    16/Agosto/2025 


sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Até qualquer dia, sonho

 



Até qualquer dia, sonho! 

Olá sonho! Gratidão por toda a companhia que me fizeste, estes anos todos, gratidão pela tua presença durante estes anos, e por manteres viva em mim, a eterna, pensava eu, esperança de sermos companheiros diários. 

Gratidão, sonho, por me fazeres acreditar que nos íamos encontrar, realizar os nossos projetos conjuntos, gratidão por me levares a visitas na biblioteca e nos livros, que me fizeram enriquecer a mente, material, mais material, e material, porque achava que podia precisar, que este e aquele dariam jeito, este ou aquele era melhor retirar apontamentos, posso precisar. Fizeste-me acreditar que seria bom ter esses apontamentos. 

Gratidão, sonho, por me fazeres ter objetivos estes anos todos, de procurar, divulgar, concorrer, esperar respostas positivas, quando só recebemos respostas negativas e silêncios. 

Mesmo assim, sonho, continuaste comigo, e dizias-me: continua a tentar, faz isto, ou faz aquilo, experimenta fazer assim, deixa aqui, deixa ali, tentei, tentamos estes anos todos, sem sucesso. 

Mesmo assim, tu continuaste comigo! Tínhamos lugar, tínhamos contacto, tínhamos a luz da esperança acesa, que às vezes se apagava, mas tu estavas lá, e a luz voltava a acender, para se manter na penumbra, até que umas vezes se apagava e outras vezes se acendia mais forte, mas quase se apagar outra vez. 

Gratidão, sonho, pelos dois primeiros anos em que trabalhamos juntos, felizes, em que nos sentimos realizados e úteis, em que tivemos sucesso, até que a luz apagou, voltou a acender com outros objetivos e tu estavas lá, a manter a esperança viva, para eu não desistir. 

Mas a realidade é que nada mudou, continuamos juntos, com os nossos projetos, ideias, estudos, formações, e continuamos a luta para manter a luz acesa, que algum dia desses que já passaram há uns anos, ia realizar novamente o nosso...sonho! 

Muitas coisas influenciaram a não realização do nosso projeto conjunto, e continuam a influenciar, mas desta vez, ao fim de cerca de oito anos, tu cansaste de estar ao meu lado. 

Percebeste melhor a realidade do que eu, gratidão por isso, já que eu não percebi logo, talvez tu já soubesses que não iriamos vencer, mesmo assim, incentivaste-me a tentar, a não desistir, a procurar, a partilhar, a investir, a estudar, a continuar. 

Eu também cansei, desculpa! Cansei de acreditar que íamos conseguir, desisti, qualquer pessoa desistiria mais cedo, com certeza, mas tu, sonho, mantiveste-te do meu lado, fizemos uma boa equipa, apesar dos frutos não terem vingado. 

Nenhum de nós tem responsabilidade, são coisas do mundo em que vivemos. Vivemos alguns bons momentos juntos, de entusiasmo, confiança, acreditar que as coisas iam melhorar, mais dia menos dia. 

Eu e tu, sonho, construímos expectativas irrealistas, planos com base nos nossos desejos, e porque corria bem para outros, também pensávamos que correria para nós! 

Foi duro, sim, todo o investimento, os altos e baixos, foi triste, sim, enquanto acreditamos juntos, foi bom, mas logo a seguir, tudo se desmoronava, com a frustração dos «nãos», dos «silêncios», dos «já temos», dos «ficaremos com o seu contacto e se precisarmos ligamos», entre outros, que no início mantinham a luz acesa, até que se apagava. 

Continuamos a tentar, tudo na mesma...um dia tínhamos de cansar e decidimos desistir. A nossa união foi enfraquecendo, praticamente não nos encontramos, não construímos mais projetos, porque tu sabias que não se iam concretizar, mesmo assim, continuavas comigo, e davas-me força para eu não desanimar. 

Mas eu desanimei. Desculpa, sonho! Obrigada por me abrires os olhos, e desculpa eu só cair na realidade, agora. Hoje, a luz do nosso castelo, onde residiam os nossos sonhos, apagou! Permaneceu o vazio que já existia e tínhamos esperança que se enchesse. 

Por tempo indeterminado…! Como aconteceu desde o início, porque perdemos a esperança, porque desistimos de acreditar e de lutar, porque vimos que com a realidade que nos rodeia, não valia a pena continuar a construir o nosso cantinho. 

Cansamos, ficamos e estamos tristes, mas há-de passar, como das outras vezes em que sentimos tristeza. Não sabemos o que virá a seguir, mas os dois acreditamos que os mesmos planos tão desejados não será. Cansaste de me alimentar, e eu também. 

Deixamos tudo no nosso castelo, onde esteve tudo, estes anos todos. Hoje, a luz apagou mesmo! Não custou, mas acho que na minha essência, custou, doeu, como das outras vezes. 

Ficaste lá, sonho! Eu vim embora. Prometo que te vou visitar, também podes vir, para conversarmos sobre outras coisas, para matarmos saudades...o meu coração e a minha mente, estão sempre abertos para ti, como tu sabes, e como estiveram estes anos. 

Descansa, sonho! Eu também vou descansar, o que precisares, sempre que quiseres, sabemos onde estamos. Dorme, sonho, descansa, não estás lá sozinho, tens contigo todos os meus (nossos) sonhos, todos os projetos, todos os planos, todas as tentativas, os fracassos também, toda a força que me deste, as lembranças da minha companhia, os sucessos. 

Tudo. Trata bem de tudo, e até qualquer dia, quem sabe, encontramo-nos por aí, noutro castelo qualquer, ou no nosso. 

Por agora, dorme, sonho, descansa, logo veremos. Vemo-nos qualquer dia, obrigada por tudo. 

                                                                Lara Rocha 

                                                                9/8/2024 

sábado, 22 de julho de 2023

A DANÇARINA DE RUA

 

    Era uma vez uma linda e elegante rapariga, mascarada, vestida com cores coloridas.     Todos os dias vestia uma roupa diferente, tal como fazia com as pinturas da sua cara. 

      Fazia parte do seu trabalho uma bola de acrílico, grande, transparente, às vezes preenchida com luzes, outras vezes brilhantes, cores e água. 

      As suas atuações eram tão mágicas que pareciam fáceis, deixavam todos na expectativa e às vezes assustados quando ela dançava e lançava a bola ao ar. 

     Adoravam vê-la pôr a bola a girar nas pontas dos dedos, um por um, em cada mão, e parecia tão leve como penas, em conjunto com o que tinha nas bolas, e o seu sorriso a mostrar ao público. 

      Dançava, contorcia-se, ondulava o corpo, soprava, deitava-se, a bola parecia ter cola no ar, quando se deitava a bola caía sobre as pontas dos dedos dos pés, e ela girava-as. 

      Aplaudiam-na, ela sorria, outras vezes utilizava várias bolas que flutuavam e não caiam ao chão, ela brincava com elas, soprava-lhes, e elas dançavam sozinhas no ar, misturavam-se, o que dava um efeito tão bonito que quem via parecia ficar hipnotizado! 

       A rapariga dobrava uma perna para trás, atirava a bola, ou várias bolas para as costas, elas desciam a rolar pelas costas e pousavam direitinho nos pés. 

       Quando chegavam aos pés, ela saltava como se tivesse uma corda nas mãos, e as bolas giravam, cruzavam, iam de um lado para o outro, umas para cima, outras para baixo e voltavam a subir. 

       Noutros espetáculos, a jovem dançava com as bolas e as mãos, era muito bonito de ver. Às vezes atirava as bolas livremente e estas percorriam os seus longos cabelos, como se estivessem a penteá-los, e ela apanhava-as no fundo das costas, atirando-as novamente para a frente, soprando e dançando com elas, como se fossem gente. 

       Eram todos tão bonitos, diferentes, tão apreciados...mas um dia cansou! Ficou sem ideias para os seus espetáculos. Olhava para as suas bolas, triste, e perguntava: 

- O que vou fazer convosco? Porque é que isto tinha de acontecer comigo? E agora? 

        Deixou de atuar duas noites, pensou, repensou, deambulou pelas ruas à procura de ideias, chorou, perguntou aos pais, mas os pais também não sabiam, parou na ponte a olhar para o rio. 

        Uma menina adolescente reconheceu-a: 

- Olá! Porque não estás a atuar? Gostamos tanto de te ver, mas não te temos visto! Está tudo bem? 

- Óh minha querida, obrigada...está tudo...

- Então porque estás a chorar? 

- É...porque...o rio...emociona-me...

- Claro, e eu nasci ontem! 

- Fizeste anos ontem? 

- (ri) Não, o que eu quero dizer é que sei que não estás a chorar porque o rio emociona-te! Mas não és obrigada a contar-me. Se precisares, eu estou aqui, só gostaria que voltasses a atuar. 

- (sorri) Tão querida! Pois, tens razão, eu não estou assim porque o rio emociona-me. Gosto do rio, claro que sim, mas estou mais triste por outra coisa. É que estou sem ideias para os meus espetáculos, e procuro novas ideias. 

- Sei o que sentes, eu sou igual, quando não consigo fazer trabalhos de grupo ou individuais, quando estou sem ideias, ou a pensar noutras coisas. Mas porque queres novas ideias? 

- Porque as pessoas não gostam dever sempre a mesma coisa, todos os dias. 

- Mas não são sempre as mesmas pessoas que te veem, e se forem, gostam de ver. Aquelas tuas bolas são mágicas, não cansam, apetece ver mais e mais. Adoro. Olha, porque não convidas quem te vê a brincar também com as tuas bolas? 

        A jovem fica pensativa, olha para a adolescente:

- Tu...achas que iam gostar? 

- Tu gostas do que fazes? 

- Adoro! 

- Eu adoro ver-te. Acho que ficamos todos com vontade de tocar e brincar com as tuas bolas. 

- A sério? 

- Sim, para saber se são leves, e como tu seguras nas pontas dos dedos, sem as deixar cair...como é que elas descem dos teus cabelos e tu consegues apanhá-las no fundo das costas, elas voltam a subir e parece que flutuam, que dançam contigo. É tão bonito! E tu danças tão bem! 

- Obrigada, princesa! - diz a jovem a sorrir 

- Faz mais espetáculos desses! E se queres fazer diferente, podes...pintar as bolas com outras coisas, sei lá...botões, balões, feijões, cascas, musgo, folhas secas, flores, pintas, conchas, areia, digo eu...não sei como as fazes, mas já vi pessoas a fazer isso, ou numas parecidas. E podes convidar o público a atuar contigo, ou outros amigos teus...! 

       A jovem abre um grande sorriso, abraça a adolescente, feliz e diz: 

- Mas que ideias maravilhosas que m deste hoje! Óh! Não sei como te agradecer. Já sei...queres ajudar-me a encher as bolas com coisas diferentes, e serás a primeira a ser convidada quando fores ver os meus espetáculos. 

- Eu aceito! - diz a adolescente feliz 

- Eu falo com os teus pais. Onde estão? 

- Ali! 

     A adolescente dá a mão à jovem e vai ter com os pais que ralham com ela: 

- O que é isto? Onde foste? Estávamos preocupadas contigo à tua procura, e agora aparecem com...ahhhh....é a jovem que atua, não é? (sorriem) 

- É. 

- Sim, sou eu, os senhores têm uma filha de ouro! - diz a jovem

- Ela estava triste, eu reconheci-a. 

- E se não fosse ela? - disse a mãe 

- Se não fosse ela, e estivesse em apuros, ia na mesma! Mas eu sabia que era ela. 

- Tem razão! - diz a jovem 

- Mas devias ter avisado...desapareces assim de repente... - ralha o pai 

- Desculpem, estavam a falar com aqueles amigos vosso... 

- Jovem, muitos parabéns pelo trabalho! - diz o pai a sorrir 

- Muito obrigada! - sorri a jovem

- Que bonita que és, com máscaras e sem máscaras! - diz a mãe a sorrir 

- Condizem com  os espetáculos! - acrescenta a adolescente 

- É verdade! - dizem todos 

- Obrigada! - diz a jovem a sorrir 

- Não te temos visto! - diz a mãe 

- Estava sem ideias, mas a vossa filha acabou de me dar umas excelentes ideias. 

        A jovem conta aos pais, e pede autorização, os pais sorriem orgulhosos. 

- Claro que sim! - dizem os dois

- Se os pais também tiverem ideias são muito bem vindas! - diz a jovem a sorrir 

- Vamos ver...quem sabe! - diz a mãe

- Mas realmente não deixe de atuar! - diz o pai 

        Os pais combinam com a jovem, como vão fazer, e o que fazer. 

- Muito obrigada! - diz a jovem 

        As duas abraçam-se. Nos dias seguinte, a adolescente e a jovem encontram-se na casa da adolescente, e as duas divertem-se como nunca. A mãe também dá sugestões, e ajuda, a conversar alegremente. 

        Vão em busca de plantas, flores, enchem algumas bolas de areia, pedrinhas, feijões, flores, pintam de várias cores, cantam, ensaiam juntas. 

       E a jovem volta a fazer lindos espetáculos, a fazer as delícias de todos os que viam, deixando sempre moedinhas e notas num saquinho, embora ela não o fizesse com esse objetivo, como já antes acontecia. 

       Convida o público para participar nas brincadeiras e espetáculos, tão bonitos, tao mágicos, como os dela. Aplaudem, fotografam, riem, interagem com ela, com muita gargalhada, dança, música, alegria e voltou a sentir-se feliz, com cada vez mais público a vê-la. 

       Nos espetáculos, pedia opinião aos espectadores sobre o que gostavam de ver, o que imaginavam que tinham aquelas bolas, e com isso ela ganhava novas ideias para mudar os espetáculos. 

      Cansou, mas não desistiu. Às vezes também cansamos, ficamos sem ideias, tristes, parece que os pensamentos nos fogem ou que estamos perdidos, mas encontramos uma nova inspiração e uma nova alegria, em pequenas coisas, pequenos carinhos, palavras de incentivo, conversas, partilhas, paisagens. 

       Se é mesmo o que gostamos, às vezes podemos mudar alguma coisa e tudo volta a ser como antes. 

E vocês? O que punham nas bolas? Podem imaginar e deixar nos comentários. 

                                                    FIM 

                                                Lara Rocha       

                                             8/Julho/2023                                      

                                           



sábado, 3 de dezembro de 2022

Cabeça e coração, cansamos! - Monólogo ou peça de teatro para Adultos


M/H - Cansamos! E desistimos. Dizemos não, enquanto o coração insiste em dizer que sim. Não, não queremos desistir do que achamos que queremos, de quem pensamos ser a nossa alma gémea, o amor por quem tanto esperamos, com quem tanto desejamos estar, e pensamos que era para sempre! Mas cansamos, e acabamos por desistir, ao perceber com a maturidade que as pessoas que nós queremos, sonhamos, desejamos, não nos querem na vida delas. Criamos uma guerra entre o coração e a mente porque, o coração diz... 

CORAÇÃO - Não, não desistas, continua a insistir, se ele ou ela tiver de ser teu ou tua, será, a vida vai juntar-vos, o destino. Continua a acreditar, porque quando menos esperares vai aparecer. É sempre o que ouvimos dizer. Mas o coração acredita, porquê? Se do outro lado nem sinal, para que estamos a iludir o coração? Ou ele é que se ilude?

M/H - Se calhar gosta de sonhar como nós! 

M/H - Mas, e se não se realiza o sonho? 

M/H - Cansamos de esperar que apareça, cansamos de esperar que aconteça, cansamos de acreditar. 

OS DOIS/ 1 - Desistimos. 

M/H - Lá vem o coração e a mente, conversarem uma com a outra dentro de nós. A mente diz: 

MENTE - Esquece, ele, ou ela, não quer nada contigo, porque se quisesse já te teria procurado, ligado, mandado mensagem. Mas não fez nada disso. Ignora-te a toda a hora. Faz o mesmo! Esquece-o, ou esquece-a, ignora-o, ignora-a, é melhor para ti!». 

M/H - Mas o coração não gosta de ouvir essas palavras, e teima em não acreditar, então diz: 

CORAÇÃO - Não acredites no que estás a pensar. Acredita em ti, acredita que é possível, hoje ignora-te, amanhã pode procurar-te, hoje não fala, hoje não te liga, hoje não te responde às mensagens, mas pode ser que esteja ocupado, ou não ter tempo como diz sempre. Espera. Não desistas, é porque ainda não tem de ser já.

M/H - Vem a cabeça e contradiz: 

MENTE - Não acredites no que o coração diz. Não é verdade. Olha que ele ou ela não te quer, se ele ou ela quisesse alguma coisa contigo, arranjava tempo para te falar, para te ligar, para te mandar uma mensagem de vez em quando, nem que fosse para saber como estás, se precisas de alguma coisa. Se ele ou ela quisesse alguma coisa contigo, arranjava um minuto ou vários para ler as tuas mensagens, os teus e-mails, responder, perguntar. Ele ou ela não faz nada disso. Porque teimas em continuar a pensar nisso, em querer que aconteça, em querer que seja ele ou ela, ou a achar que é ele ou ela só porque achaste piada á cara dele. Não é só a cara que conta, até pode ser bonito, ou bonita mas não ser para ti. Não, não estou a dizer que és feia, ou feio, mas estou a dizer só para não te iludires, para não acreditares a 100% no que pensas, sentes ou achas que pensas e sentes. Desiste! É porque não tem de ser esse ou essa. É apenas coisa da tua imaginação, tu na verdade não sentes nada, a não ser atração, porque como podes sentir, querer, desejar alguém com quem te cruzas, vês nas redes sociais, ou no dia a dia mas nunca se falaram? 

M/H - Quem tem razão? A mente, ou o coração? 

M/H - Os dois, talvez! 

M/H (os dois, ou um/a) - Porque... 

M - Às vezes desistimos mesmo! Não porque queremos, porque na verdade queríamos era que os nossos desejos se realizassem, receber atenção da outra pessoa, mas desistimos porque cansamos. Não aguentamos mais continuar a esperar uma coisa que o coração até sabe que é real, ou seja, que o que nós desejamos não vai acontecer. O que tanto queríamos, ou não é mesmo para nós, ou ainda não é, nunca será. Isso não sabe, talvez, mas sabe que o melhor é mesmo esquecer. Esquecer...quer dizer...desistir! Não queríamos desistir, queríamos continuar a acreditar, mas é demasiada utopia, porque somos tantos no mundo, e podemos não ser o que a outra pessoa deseja. Também, como podemos querer se não a conhecemos. De que adianta gostar do físico que atrai, se na verdade não sabemos como é o outro, ou a outra, nem ele ou ela sabem de nós! Claro que todos fantasiamos, mas as fantasias na sua maioria não se realizam. Por isso de que adianta continuar a fantasiar sequer? 

CORAÇÃO - Fantasiar é só para dares mais força à tua vontade que quem sabe, pode realizar-se! 

MENTE - Ou não realizar-se, que será o mais certo. Temos olhos, podemos ver, gostamos de ver, faz-nos bem ver, de preferência caras bonitas, mas isso não quer dizer que aconteça alguma coisa. Somos tantos milhões, cruzamo-nos com tantas dezenas por dia, umas caras bonitas, outras que não nos atraem, como nós, alguém pode reparar em nós, e outros não. 

CORAÇÃO - Mas fantasiar é só para te desiludires! Enquanto fantasias, achas que vai acontecer, ou desejas que possa acontecer, mas não sabes se sim, ou se não! 

M/H - É por isso que cansamos! Não queremos desistir, mas cansamos. 

M/H - Cansamos de receber Indiferença, silêncio, frieza, em troca de atenção. Cansamos de dividir o coração com alguém que desliga, que nem repara no carinho, ou interpreta mal... 

M/H (ou os dois) - Às vezes desistimos, não porque queremos, mas porque cansamos! 

M/H - E cansamos da bondade...Quando recebemos de volta o gelo da indiferença, do silêncio. 

CORAÇÃO - Óh, não, não é caso para cansar, nem interpretar como gelo de indiferença, silêncio. 

MENTE - É claro que só pode significar isso, é dessa maneira que ele ou ela te trata: com indiferença, silêncio, é claro que sentem gelo. 

CORAÇÃO - A mente é que faz sentir-vos um cubo de gelo, mas não acreditem nela. 

M/H - Às vezes desistimos, não porque queremos, mas porque percebemos que não vale a pena! 

CORAÇÃO - Claro que vale a pena! Nada de desistir, as coisas podem mudar. 

MENTE - Claro que é melhor desistir, é claro que se cansam de esperar, de não receber nada em troca, o que esperavam, o que desejavam, o que sonhavam, de quem queriam. E não vale a pena! 

M/H - Às vezes, desistimos, não porque queremos, mas porque cansamos Da tristeza, da solidão. A cada desilusão, a cada ilusão que criamos. 

MENTE - Não tenho nada a ver com isso! 

CORAÇÃO - Tens sim, tu é que crias ilusões. 

MENTE - Pensa bem se sou eu que crio ilusões....pensa bem! 

M/H - A cada tristeza que sentimos, a cada perda, a cada derrota, a cada abandono...a cada doença, a cada maldade, a cada injustiça...Lançamos um pedaço de gelo para o nosso coração. 

CORAÇÃO - Confirmo! 

MENTE - A culpa é tua! 

CORAÇÃO - Ninguém te perguntou nada. 

M/H - Umas vezes grande, outras vezes pequeno, mas é sempre uma pedra de gelo! 

CORAÇÃO - É verdade, eu é que levo com elas. Uns pedaços de algumas  derretem, outros não! Uns transformam-se em lágrimas, outros ganham ainda mais força, peso e espessura. 

MENTE - Não tens vergonha de pôr as pessoas a chorar, e aceitas as pedras? Gostas de sofrer? 

CORAÇÃO - Tu também as atiras. 

MENTE - Era só o que faltava…! 

M/H - E quanto mais gelo acumulamos mais pesados ficamos e mais frios somos. Quem pode desfazer os cubos de gelo? 

CORAÇÃO - Isso também gostava de saber, porque não gosto nada de carregar com elas. Talvez tu, óh mente…! 

MENTE - Não tenho nada a ver com isso. 

M/H - Talvez...Cada um de nós, alguém, ou nunca os desfaremos. 

CORAÇÃO - Que medo! Que previsões terríveis…! 

M/H - Mas mais cedo ou mais tarde, o gelo torna-se visível Mais gelado, mais duro. E nós? Em que nos transformamos? Em nada A não ser… Gelo! 

CORAÇÃO - Em lágrimas! 

MENTE - E cada lágrima conta um segredo, nunca confessado! Aqueles momentos em que querem ser vocês a mandar mensagens, a ligar, a chamar a atenção, e têm de ficar com o desejo nunca realizado para vocês. 

CORAÇÃO -  As lágrimas veem-se, e cada lágrima transporta um sonho, uma recordação, recordações, felizes, tristes, doces, românticas que já viveram, mas não sabem se vão viver desta vez.

MENTE - Em cada lágrima, vai um sentimento, uma emoção, um medo, mágoas, rancores, iras, frustrações, que o outro não vê, porque te ignora. E tu continuas a acreditar, ou desistes?! 

CORAÇÃO - Eu digo, não desistas, porque tudo pode acontecer, tudo pode mudar, quando estiveres preparado, preparada para amar, quando curares as feridas que ainda não estão fechadas, quando te deres o direito de esquecer o passado, e pensar que o futuro será outro, muito melhor. 

MENTE - Tanta ilusão, pobre coração! Sejam realistas...não há respostas do outro lado, esqueçam, não vai mudar. 

CORAÇÃO - Porque é que és tão quadrado. 

MENTE - Não sou quadrado, tenho muitos caminhos, recantos. 

H/M - Cansaço, desilusão, realidade e a ilusão, razão, coração, emoção. 

M - Quem ganha? 

H - Quem tem razão? 

M/H (os dois) - Uma pergunta sem resposta. 

                                                  FIM 

                                             Lara Rocha 

                                            3/12/2022