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domingo, 21 de abril de 2024

A obsessão do rapaz pianista



 Era uma vez um rapaz que estudava e tocava piano, e outros instrumentos. Era todo virado para a música, adorava o que aprendia de novo, e ensaiava horas, dias, até sair perfeito. 

Os pais sentiam um orgulho enorme, não lhe diziam diretamente, mas o próprio sentia que tinha de ser perfeito, o melhor, para que continuassem a gostar dele. 

O rapaz achava que se falhasse, os pais e todos os que o ouviam, deixariam de gostar dele, e sentiria uma enorme vergonha. 

Muitas vezes, os familiares e amigos convidavam-no para sair, distrair-se, brincar, fazer outras coisas. Umas vezes aceitava, mas os comportamentos dele, era de mexer os dedos como se estivesse a tocar piano, abanar a cabeça, e as mãos, imaginar que estava a tocar violino, enquanto conversava. 

Outras vezes, não aceitava porque tinha de ensaiar, tinha falhado uma nota, e gritava nervoso, frustrado, tinha crises de choro e ansiedade. Tremia como uma vara verde. 

Quando os pais lhe perguntavam o que tinha acontecido, gritava que tinha errado uma nota musical. 

Os pais diziam que aquele comportamento era um exagero, toda a gente falha, até os grandes músicos falharam, os artistas erram muitas vezes, mesmo assim, as palavras dos pais, acalmavam-no por pouco tempo. 

Mandavam-no parar, e fazer coisas diferentes, mas estava sempre ansioso por voltar a casa para estudar, tocar os instrumentos. 

De noite, acordava muitas vezes aos gritos, a transpirar, com o coração a bater muito rápido, falta de ar, ou a chorar. 

Os pais iam ver, e ele dizia que tinha tido um pesadelo, que tinha errado aquela nota, ou que estava num espetáculo e tinha-se esquecido da pauta toda, bloqueava. 

Os pais começaram a ficar preocupados com aquela obsessão do filho, porque só estava voltado para a música, demasiado centrado nos instrumentos musicais, no estudo da música, e andava com muitos comportamentos ansiosos, pesadelos constantes. 

Numa das grandes crises de ansiedade, em que os pais tiveram de o levar ao hospital, porque estava fora de si, só gritava, chorava, dava murros no piano, pontapés na cama, ficaram seriamente preocupados. 

Depois de o examinar, o médico disse que o rapaz estava a sofrer de grandes níveis de stresse, andava muito nervoso, muito ansioso pela obsessão com a música, e não descansava. 

Um médico perguntou-lhe: 

- Oh rapaz, porque é que não fazes as coisas que todos os rapazes da tua idade fazem? 

- Não sei, nem me interessa saber o que os outros rapazes da minha idade fazem. Só quero a minha música, os meus instrumentos, as minhas pautas, não dar erros, acertar todas as notas musicais, tocar tudo e mais alguma coisa, sem nunca falhar. 

A mãe, grita, nervosa e cansada daquela obsessão: 

- Ou fazes o que o Dr. te disser, ou sais da música! Essa tua ideia fixa está a destruir a tua saúde, e a nossa também. É isso que tu queres? Dar cabo de ti e de nós? Um rapaz da tua idade, não tem essas ideias fixas. (faz-se silêncio) Desculpe, Dr. 

- Não se preocupe. A tua mãe tem razão! 

- Eu tenho de ser o melhor! - diz o rapaz 

- Quem é que te disse? - pergunta a mãe irritada 

- Eu! 

- Para quê? - pergunta o médico 

- Para os meus pais e amigos, familiares e professores, a escola toda, sentirem orgulho em mim. 

- O quê? - perguntam os pais 

- Vamos ter orgulho nessa tua ideia fixa…? - pergunta o pai 

- Alguma vez te dissemos que tinhas que ser o melhor, se não, não sentíamos orgulho em ti? - pergunta a mãe 

- Alguma vez exigimos que nunca errasses, que fizesses sempre tudo bem, que fosses o melhor, o perfeito…? Isso não existe! - pergunta o pai 

- Achas que queremos um filho famoso? Queremos é que sejas feliz, que tenhas sucesso, claro, mas não que chegues a este ponto. - acrescenta a mãe 

- É claro que nós sentimos orgulho em ti! - diz o pai 

- E vamos sentir orgulho em ti, mesmo a falhar, mesmo a dar erros, mas não é preciso estares sempre a ensaiar, quase a enlouquecer, só porque falhaste, ou te esqueceste de alguma coisa. 

- Não percebemos nada de música, só gostamos de ouvir, por isso para nós é igual, falhares, esqueceres-te, errares...O orgulho é igual - diz a mãe 

- Ainda tens tantos anos pela frente, rapaz! Eu e todos os meus colegas erramos centenas, milhares de vezes, gostamos do fazíamos, mas havia outras coisas tão ou mais importantes do que o estudo! Havia o convívio, as festas, as brincadeiras, as namoradas, os passeios, as tunas, não era só estudar, e queríamos que os nossos pais sentissem orgulho em nós. Sabíamos que sim! E eles nunca exigiram que fossemos os melhores, nem os perfeitos. Reprovamos muitas vezes, a muitas cadeiras, mas nunca nos recriminaram por isso, sabiam muito bem como era a vida de estudantes! Fazíamos de novo, mais tarde. E os teus pais também sabem! É claro que eles sentem muito orgulho em ti, com erros, com reprovações, que servem para aprenderes, com as tuas brincadeiras com os outros, sentem orgulho em ver-te com namoradas, feliz, a sair, a descansar. A vida não é só estudo, e perfeição. Nem obsessões em ser os melhores, ainda tens muito tempo para aprender, melhorar, evoluir, mas primeiro, sê criança, sê jovem, diverte-te, não estejas sempre em casa, sempre a estudar, sempre a tocar instrumentos. Também erras porque estás sempre a fazer o mesmo, sempre a tocar, sempre a insistir, ficas com raiva quando erras, claro, a tua cabeça não aguenta! Nem a tua, nem a de ninguém. Os teus pais eram iguais a mim, com certeza! E olha como eles agora são bons profissionais! - diz o médico

Os pais sorriem. 

- É verdade! - dizem os dois 

- E continuamos a errar, a falhar, a não saber tudo, mas vamos aprendendo, melhorando. - diz o pai 

- Claro. - confirma a mãe 

- E a nossa vida de estudantes, não era ficar fechados no quarto a estudar o dia todo. É claro que sim, também íamos a festas, convivíamos, saímos, brincávamos, fazíamos parte das tunas, reprovamos em muitos testes e exames, porque a vida de estudante não era só estudar. Como hás-de aguentar? Claro que não. - reforça o pai 

- E mesmo assim, vamos sentir muito orgulho em ti, também já fomos da tua idade, estudantes como tu. 

- Isso mesmo! Vou medicar-te, e vais prometer-me que vais mudar a tua vida, que vais ser um rapaz como os da tua idade, estudar e fazer outras coisas, sem estar o dia todo a estudar. Prometes que vais reprovar algumas vezes também, e que isso não significa que és mau, só significa que és jovem, que estás a aprender, e tens possibilidade de fazer bem, a seguir a um ensaio? Prometes que vais errar e falhar, como todos os da tua idade? Prometes que vais ter as tuas saídas e namoradas? Isso traz-te novas ideias, e saúde, nova inspiração. Para que queres ser o melhor, o perfeito? Ninguém é o melhor, ninguém é perfeito, fazemos bem umas coisas, outras nem tanto, mas somos todos assim! Para quê perseguir uma ideia que não existe? Uma realidade que não passa de ficção?  Isso não existe, só te destrói e até te afasta das pessoas, o que é muito mau! - pergunta o médico 

- Prometo! - diz o menino 

- É que se não prometeres, vens para aqui, e olha que aqui não é bom! - diz o médico 

- Está bem. 

O médico medica-o, agradecem, marcam encontro para passados uns tempos, e o menino quando regressa a casa, fica deitado, em silêncio, a pensar no que o médico tinha dito. 

Vai para o piano, começa a tocar, a fraquejar, até que adormece em cima das teclas. O pai pega nele ao colo, deita-o, cobre-o, e ele continua a dormir, com a persiana mais baixada.

O menino começou a tomar a medicação, e decidiu seguir as indicações do médico. Descansou uns dias, com passeios pela natureza, a apreciar coisas que nunca tinha visto, por estar só centrado na música. Começou a dar caminhadas com os pais, feliz, e quando voltava, ensaiava mais leve. 

Passou a sair com amigos, a ir a festas, muito mais calmo, ensaiava na mesma, mas intercalava com outras atividades, ria e brincava com os amigos. 

Como um rapaz da idade dele, teve amizades coloridas e namoricos, quando errava, voltava a ensaiar, mais calmo, ria de si próprio, e como estava mais inspirado, até criou novas letras de músicas, que compôs com a ajuda dos professores. 

Era um rapaz muito diferente do que estava obessecado em ser o melhor, em fazer tudo perfeito, porque ficou a saber que os pais sentiam muito orgulho nele, mesmo com o que ele achava imperfeito ou errado. 

Deixou de ter pesadelos, e tanta ansiedade, deixou de ser obessecado pela perfeição, sempre com o apoio dos pais, dos amigos, dos professores, e do médico que o acompanhava constantemente, também muito feliz pela mudança. 

O rapaz partilhava com o médico as coisas novas que fazia, e o médico elogiava-o, incentivava-o a continuar, mas com regra, sem pressão, e na brincadeira. 


                                                FIM 

                                           Lara Rocha 

                                          (20/Abril/2024) 


Qual é, (ou quais são as vossas) obsessões? 

Como é que elas vos fizeram ou ainda fazem sentir? 

Como lidam com elas? 

Se quiserem, podem deixar nos comentários. 

                                        


sábado, 22 de julho de 2023

A DANÇARINA DE RUA

 

    Era uma vez uma linda e elegante rapariga, mascarada, vestida com cores coloridas.     Todos os dias vestia uma roupa diferente, tal como fazia com as pinturas da sua cara. 

      Fazia parte do seu trabalho uma bola de acrílico, grande, transparente, às vezes preenchida com luzes, outras vezes brilhantes, cores e água. 

      As suas atuações eram tão mágicas que pareciam fáceis, deixavam todos na expectativa e às vezes assustados quando ela dançava e lançava a bola ao ar. 

     Adoravam vê-la pôr a bola a girar nas pontas dos dedos, um por um, em cada mão, e parecia tão leve como penas, em conjunto com o que tinha nas bolas, e o seu sorriso a mostrar ao público. 

      Dançava, contorcia-se, ondulava o corpo, soprava, deitava-se, a bola parecia ter cola no ar, quando se deitava a bola caía sobre as pontas dos dedos dos pés, e ela girava-as. 

      Aplaudiam-na, ela sorria, outras vezes utilizava várias bolas que flutuavam e não caiam ao chão, ela brincava com elas, soprava-lhes, e elas dançavam sozinhas no ar, misturavam-se, o que dava um efeito tão bonito que quem via parecia ficar hipnotizado! 

       A rapariga dobrava uma perna para trás, atirava a bola, ou várias bolas para as costas, elas desciam a rolar pelas costas e pousavam direitinho nos pés. 

       Quando chegavam aos pés, ela saltava como se tivesse uma corda nas mãos, e as bolas giravam, cruzavam, iam de um lado para o outro, umas para cima, outras para baixo e voltavam a subir. 

       Noutros espetáculos, a jovem dançava com as bolas e as mãos, era muito bonito de ver. Às vezes atirava as bolas livremente e estas percorriam os seus longos cabelos, como se estivessem a penteá-los, e ela apanhava-as no fundo das costas, atirando-as novamente para a frente, soprando e dançando com elas, como se fossem gente. 

       Eram todos tão bonitos, diferentes, tão apreciados...mas um dia cansou! Ficou sem ideias para os seus espetáculos. Olhava para as suas bolas, triste, e perguntava: 

- O que vou fazer convosco? Porque é que isto tinha de acontecer comigo? E agora? 

        Deixou de atuar duas noites, pensou, repensou, deambulou pelas ruas à procura de ideias, chorou, perguntou aos pais, mas os pais também não sabiam, parou na ponte a olhar para o rio. 

        Uma menina adolescente reconheceu-a: 

- Olá! Porque não estás a atuar? Gostamos tanto de te ver, mas não te temos visto! Está tudo bem? 

- Óh minha querida, obrigada...está tudo...

- Então porque estás a chorar? 

- É...porque...o rio...emociona-me...

- Claro, e eu nasci ontem! 

- Fizeste anos ontem? 

- (ri) Não, o que eu quero dizer é que sei que não estás a chorar porque o rio emociona-te! Mas não és obrigada a contar-me. Se precisares, eu estou aqui, só gostaria que voltasses a atuar. 

- (sorri) Tão querida! Pois, tens razão, eu não estou assim porque o rio emociona-me. Gosto do rio, claro que sim, mas estou mais triste por outra coisa. É que estou sem ideias para os meus espetáculos, e procuro novas ideias. 

- Sei o que sentes, eu sou igual, quando não consigo fazer trabalhos de grupo ou individuais, quando estou sem ideias, ou a pensar noutras coisas. Mas porque queres novas ideias? 

- Porque as pessoas não gostam dever sempre a mesma coisa, todos os dias. 

- Mas não são sempre as mesmas pessoas que te veem, e se forem, gostam de ver. Aquelas tuas bolas são mágicas, não cansam, apetece ver mais e mais. Adoro. Olha, porque não convidas quem te vê a brincar também com as tuas bolas? 

        A jovem fica pensativa, olha para a adolescente:

- Tu...achas que iam gostar? 

- Tu gostas do que fazes? 

- Adoro! 

- Eu adoro ver-te. Acho que ficamos todos com vontade de tocar e brincar com as tuas bolas. 

- A sério? 

- Sim, para saber se são leves, e como tu seguras nas pontas dos dedos, sem as deixar cair...como é que elas descem dos teus cabelos e tu consegues apanhá-las no fundo das costas, elas voltam a subir e parece que flutuam, que dançam contigo. É tão bonito! E tu danças tão bem! 

- Obrigada, princesa! - diz a jovem a sorrir 

- Faz mais espetáculos desses! E se queres fazer diferente, podes...pintar as bolas com outras coisas, sei lá...botões, balões, feijões, cascas, musgo, folhas secas, flores, pintas, conchas, areia, digo eu...não sei como as fazes, mas já vi pessoas a fazer isso, ou numas parecidas. E podes convidar o público a atuar contigo, ou outros amigos teus...! 

       A jovem abre um grande sorriso, abraça a adolescente, feliz e diz: 

- Mas que ideias maravilhosas que m deste hoje! Óh! Não sei como te agradecer. Já sei...queres ajudar-me a encher as bolas com coisas diferentes, e serás a primeira a ser convidada quando fores ver os meus espetáculos. 

- Eu aceito! - diz a adolescente feliz 

- Eu falo com os teus pais. Onde estão? 

- Ali! 

     A adolescente dá a mão à jovem e vai ter com os pais que ralham com ela: 

- O que é isto? Onde foste? Estávamos preocupadas contigo à tua procura, e agora aparecem com...ahhhh....é a jovem que atua, não é? (sorriem) 

- É. 

- Sim, sou eu, os senhores têm uma filha de ouro! - diz a jovem

- Ela estava triste, eu reconheci-a. 

- E se não fosse ela? - disse a mãe 

- Se não fosse ela, e estivesse em apuros, ia na mesma! Mas eu sabia que era ela. 

- Tem razão! - diz a jovem 

- Mas devias ter avisado...desapareces assim de repente... - ralha o pai 

- Desculpem, estavam a falar com aqueles amigos vosso... 

- Jovem, muitos parabéns pelo trabalho! - diz o pai a sorrir 

- Muito obrigada! - sorri a jovem

- Que bonita que és, com máscaras e sem máscaras! - diz a mãe a sorrir 

- Condizem com  os espetáculos! - acrescenta a adolescente 

- É verdade! - dizem todos 

- Obrigada! - diz a jovem a sorrir 

- Não te temos visto! - diz a mãe 

- Estava sem ideias, mas a vossa filha acabou de me dar umas excelentes ideias. 

        A jovem conta aos pais, e pede autorização, os pais sorriem orgulhosos. 

- Claro que sim! - dizem os dois

- Se os pais também tiverem ideias são muito bem vindas! - diz a jovem a sorrir 

- Vamos ver...quem sabe! - diz a mãe

- Mas realmente não deixe de atuar! - diz o pai 

        Os pais combinam com a jovem, como vão fazer, e o que fazer. 

- Muito obrigada! - diz a jovem 

        As duas abraçam-se. Nos dias seguinte, a adolescente e a jovem encontram-se na casa da adolescente, e as duas divertem-se como nunca. A mãe também dá sugestões, e ajuda, a conversar alegremente. 

        Vão em busca de plantas, flores, enchem algumas bolas de areia, pedrinhas, feijões, flores, pintam de várias cores, cantam, ensaiam juntas. 

       E a jovem volta a fazer lindos espetáculos, a fazer as delícias de todos os que viam, deixando sempre moedinhas e notas num saquinho, embora ela não o fizesse com esse objetivo, como já antes acontecia. 

       Convida o público para participar nas brincadeiras e espetáculos, tão bonitos, tao mágicos, como os dela. Aplaudem, fotografam, riem, interagem com ela, com muita gargalhada, dança, música, alegria e voltou a sentir-se feliz, com cada vez mais público a vê-la. 

       Nos espetáculos, pedia opinião aos espectadores sobre o que gostavam de ver, o que imaginavam que tinham aquelas bolas, e com isso ela ganhava novas ideias para mudar os espetáculos. 

      Cansou, mas não desistiu. Às vezes também cansamos, ficamos sem ideias, tristes, parece que os pensamentos nos fogem ou que estamos perdidos, mas encontramos uma nova inspiração e uma nova alegria, em pequenas coisas, pequenos carinhos, palavras de incentivo, conversas, partilhas, paisagens. 

       Se é mesmo o que gostamos, às vezes podemos mudar alguma coisa e tudo volta a ser como antes. 

E vocês? O que punham nas bolas? Podem imaginar e deixar nos comentários. 

                                                    FIM 

                                                Lara Rocha       

                                             8/Julho/2023                                      

                                           



sexta-feira, 18 de novembro de 2022

A lenda da mulher dos corais


        
















pintado por Lara Rocha, no Livro de pintar para adultos 

    Era uma vez uma praia, de sonho, daquelas maravilhosas, que só parecem existir na nossa imaginação. Mas esta existia mesmo, e tinha uma lenda. 

     Além das suas areias limpas e águas transparentes, onde se viam milhares de corais, peixes, pedras, algas, rochas, a lenda com centenas de anos contava que havia uma criatura marinha, diziam parecer mulher, outrora com uma beleza hipnotizante. 

     Mas não era de carne e osso como nós, o seu corpo era feito de belos corais, estrelas do mar e algas nos cabelos muito compridos, um búzio gigante como boca, conchas enormes na cara, e algumas coladas nos corais do seu corpo, pérolas nos olhos. 

     Muitas vezes vestia belos vestidos de peixes que se encostavam a ela, outras vezes, quando se mexia debaixo de água e nadava, enchia o fundo do mar com bolinhas de ar, e tudo à sua volta ficava mágico. 

     Dizia que aparecia à noite, aos pescadores, mas era perigosa, mesmo sem querer: às vezes brincava com os barcos de pesca, empurrando-os, outras vezes virava-os, e levava os pescadores a ver o fundo do mar, trazendo-os novamente à superfície. 

      As esposas dos pescadores, ficavam muito ciumentas quando ouviam falar dela, e um dia quiseram afastá-la dos maridos, para eles não correrem riscos, nem se apaixonarem por ela. 

      Uniram-se, e construíram um homem parecido com um pescador, mas era um boneco. Tão bonito, que parecia real, mas o seu enchimento era tóxico, perigoso para os corais. 

      Lançaram-no ao mar, e a mulher dos corais foi logo ter com ele, agarrou-o, dançou com ele, conversaram os dois, alegremente, ela seduziu-o, ele era igualmente encantador. 

      E sem se aperceber o corpo do ser marinho estava a desfazer-se, os corais separaram-se, e caíram no fundo do mar. O boneco marinheiro disse que queria casar com ela nessa noite, pois era o amor da sua vida, mentiroso! 

      Mas ela acreditou, ele disse que ia buscar uma prenda para ela, e já voltava. A mulher entusiasmada, nem reparou no seu corpo a desfazer, e esperou, esperou, esperou...o homem nunca mais aparecia, e no dia seguinte, ela ficou despedaçada, totalmente destruída de tanta desilusão e tristeza. 

      Todos os seus pedaços ficaram no fundo do mar, separados, uns mais próximos outros mais distantes, o búzio que era a sua boca ficou pousado na areia, as estrelas do mar e as algas espalharam-se por vários sítios dos corais do seu corpo, tal como as conchas e as pérolas dos olhos. 

      Um dos marinheiros soube do que as mulheres fizeram, ficou muito zangado, e não achou piada nenhuma. Foi o fim do seu namoro, e mergulhou até ao fundo do mar, com muitos outros que também quase se separavam das suas esposas. 

      Ralharam com elas, e proibiram-nas de serem ciumentas, possessivas, ainda mais de fazerem maldades contra um ser que nem sabiam se era humano.

      Eles relembraram que elas também tinham amigos homens, e eles não ficavam ciumentos, nem as proibiam de os ter, tal como eles tinham amigas, e nem por isso deviam ficar ciumentas. 

      Eram casados ou namorados, confiavam um no outro, ou então ia cada um para o seu lado! Elas ficaram magoadas com eles, mas compreenderam e acharam que na verdade eles tinham razão, porque realmente nunca tinham regressado com sinais de ataque dessa criatura. 

      Elas próprias ficavam na dúvida se existia ou não, nunca a tinham visto, mesmo assim quiseram jogar pelo seguro, e avisar os maridos que estavam a tomar conta deles, que se preocupavam com eles, que queriam protegê-los.          

     Eles não gostaram, e proibiram-nas de os controlar, disseram que não precisavam que tomassem conta deles, que já eram grandinhos, e esse ser até já os tinha ajudado. 

      As mulheres arrependeram-se, ficaram a pensar no que tinham feito, e no que podiam fazer para que os maridos não ficassem tão zangados.

      Eles disseram que não podiam fazer nada, tinham ficado magoados com essa atitude delas, mas só o tempo iria ajudar a esquecer o que elas tinham feito. 

      Como não a tinham esquecido, viram que todos os seus pedaços formaram um gigantesco espaço de corais marinhos, cheios de surpresas, as conchas maravilhosas, os búzios. 

      Os homens adoraram aquele espaço, mas deram as mãos e pediram um desejo: voltar a ver aquela mulher marinha. Então, foram ouvidos, e quando abriram os olhos, a mulher dos corais, estava novamente construída como antes a conheceram. 

      Eles pediram desculpa pelo que as mulheres fizeram, e prometeram ao ser marinho que não iam falar mais dela às suas esposas, e namoradas. 

      Ela agradeceu-lhes e prometeu que não lhes ia aparecer, porque o seu coração estava partido, a não ser quando eles precisassem de ajuda, ela estaria lá. 

      Enquanto ela não aparecia, debaixo de água era um belo conjunto de corais, cheio de coisas maravilhosas para descobrir, ver, tocar, e muita gente mergulhava para a ver. 

      Quando sentia segurança, aparecia à superfície, em festas de jovens na praia, mas achavam que era efeito do excesso de álcool, nunca pensaram que ela fosse verdadeira, divertia-se com eles. 

      Tirava alguns da água quando se atiravam, e no fim, já que ficavam todos a dormir na areia, era quem limpava todo o lixo que deixavam. Essa era a parte que ela não gostava, mas alguém tinha de o fazer. 

      Com a raiva, espalhava ouriços do mar pela praia à volta deles, e pedras grandes. Quando acordavam, os jovens não se lembravam de nada, e assustavam-se quando viam os ouriços e pedras. 

      Ainda hoje fazem longas caminhadas, e visitas para ver se encontram essa mulher tão bonita, mas apenas veem os fantásticos corais, embora antes de chegar a eles, se perceba que tem formato de corpo de uma mulher. 

      Uma lenda, talvez para ensinar as mulheres, namoradas ou esposas a confiar nos maridos, namorados, e mesmo em amigos, a não serem possessivas, e possessivos, a serem verdadeiros e verdadeiras quando não gostam de ser demasiado controlados e controladas, dizerem-no, e que não vale a pena ser ciumentas, ou ciumentos. 

       Isso não é amor! Nem a vingança, porque o amor quando tem de acontecer, acontece naturalmente, começa pela amizade, tem confiança, não é posse, nem controlo excessivo!

                                                FIM 

                                           Lara Rocha 

                                           18/11/2022

E para vocês? O que é que esta lenda ensina? (Podem deixar nos comentários, se quiserem) 

                                                            

domingo, 2 de maio de 2021

Sereia ou peixe?

         


Era uma vez uma Vila de pescadores, onde viviam famílias simples, trabalhadoras e humildes. Os homens, desde os mais novos até aos mais velhos, saiam antes do sol nascer, e algumas das esposas, namoradas, sentiam o coração muito apertadinho. Tinham medo que não voltassem, ou que lhes acontecesse alguma coisa. Então, sempre que os homens iam para o mar, as mulheres de todas as idades não dormiam mais. Abraçavam e beijavam os filhos, os namorados, recomendando-lhes cuidado. Seguravam as lágrimas até eles irem  para os barcos no mar alto, juntavam-se, davam as mãos e rezavam por proteção! Aí sim, as lágrimas pelo medo saiam dos seus olhos! Não erram homens de fé, achavam que tinham muita coragem, era a missão deles, só tinham de a cumprir, mesmo que soubessem que era arriscado, e diziam com segurança que o mar era amigo deles. Um dos jovens perguntou à namorada: 

- Porque é que vocês se põem com essas cerimónias de lamechices quando vamos para o mar? 

A namorada responde: 

- Não são lamechices, é medo! 

- Medo...! Que ridículo. - graceja o namorado 

- Vocês não têm medo, queres ver? 

- Claro que não! Isso é coisa de mulheres. O que fazem? 

- Rezamos! Pedimos proteção, que voltem sãos e salvos, que pesquem muito peixe, mas façam boas viagens. 

- Não tendes mais nada que fazer? Que patetice, isso não existe? 

- Ai não? Felizmente têm voltado sempre. Já que não acreditas, pelo menos respeita porque dói-nos muito! Ficamos com o coração muito apertadinho! 

- Está bem, desculpa! Acredita lá no que quiseres. 

- E se rezássemos às sereias, aí vocês também rezavam não era? Até faziam outras coisas com elas. 

O namorado ri. 

- Sereias? Também achas que existem? Vives no mundo da infância. Coitadinha, cresce. 

        A namorada fica zangada, não se falam mais nesse dia, cada um está no seu trabalho. De madrugada, o mesmo ritual repete-se. Todas rezam, mas a namorada não dá beijo nem abraça o namorado, só lhe diz: 

-  Que as sereias te guiem. Ingrato... 

- As sereias? E tu não ficas com ciúmes se for com elas? 

- Não. 

            O namorado ri-se, vai para o barco com os outros homens, e nessa noite o mar está muito revolto. As gaivotas estão muito nervosas, piam, voam desvairadas, parecem perdidas. 

- Mas o que é que se passa hoje? - pergunta uma mãe 

- O mar está muito revolto...as gaivotas tão inquietas, os nossos homens hoje não deviam ter ido. 

- Ai, que nervos! - diz outra 

        Enquanto as mulheres estão nervosas e rezam, outras choram e acendem velas, os barcos dos maridos andam aos trambolhões, no mar, os marinheiros gritam, tentam lutar contra a força das ondas, mesmo não tendo por hábito rezar como as mulheres, sentem vontade de o fazer, porque correm perigo. Dizem que não sabem como, mas veem uma sombra que não conseguem distinguir se é de peixe ou de uma mulher com cauda de peixe que lhes dá uma valente chicotada com a cauda e atira-os a grande velocidade para a costa, onde chegam todos ensopados, mas sãos e salvos. As mulheres respiram de alívio. 

- Hoje não deviam ter ido para o mar! - resmunga uma mais nova

- Tendes razão! - dizem todos 

- Não imaginávamos que o mar ia estar tão bravo! - diz outro 

- Andamos aos trambolhões, mas alguém nos atirou para aqui! 

- Quem? - perguntam todas 

- Uma sombra com cauda de peixe! Não conseguimos ver o que era. 

- Acho que alucinaram com o medo! - comenta uma namorada 

- Rezaram? - pergunta outra mãe 

- Sim! - respondem todos 

- Foram ouvidos! Talvez agora percebam porque fazemos aquelas lamechices todas, não é, amor? - pergunta a namorada irónica 

- É! Desculpa!

- Foi uma sereia? 

- Não. Não sei. . 

- Qual sereia? Foi a força da oração deles e da nossa crença. 

            Todos concordam, abraçam, beijam as esposas e namoradas, e nesse dia há festa para retribuir as orações que os salvaram. Silenciosamente, os homens achavam que foi uma sereia que os salvou, mas para disfarçar, diziam que foi um peixe, mandado pelos pedidos das mães, esposas, e namoradas. A partir desse dia, respeitaram as suas esposas, e aprenderam a fazer o mesmo. Rezavam antes de sair para o mar, porque sabiam que com o mar não se brinca, mas respeita-se. Nunca sabiam na verdade o que esperavam. Mas pelo menos sentiam-se mais protegidos, e quando  viam o mar revolto, já não iam. E vocês? Acham que eles foram salvos por uma sereia ou um peixe? 


                                                                    FIM 

                                                                 Lara Rocha 

                                                                2/Maio/2021 

sábado, 7 de março de 2020

O cubo de gelo e a glaciar

         

Era uma vez um planeta gelado, onde às vezes havia sol, mas o gelo era tanto que não se sentia calor. Lá viviam grandes famílias, de gelo, em casas de gelo. Todos eram frios uns com os outros, mas diziam que era assim que demonstravam o seu amor uns pelos outros, com silêncio e frieza. 
       Um dia receberam a visita de um cubo de gelo gigante que vinha da terra, e foi passear para um sítio diferente, sem rumo. Era um ser que estava dominado pela igual frieza da terra, onde não havia tempo para nada, todos corriam, era casa, trabalho, trabalho casa, tantos afazeres, computadores, barulhos, guerras, imagens violentas, discussões, gritos, indiferença, solidão. 
         Já mal de abraçavam, tocavam ou sorriam. Tudo tomava comprimidos, andavam como se fossem robôs. Tudo era impaciência, revolta, raiva. As crianças já não tinham liberdade para brincar, sufocavam-nas com atividades, escola, com a obrigação de estudarem, serem os melhores, mas eram muito frios uns com os outros, competiam, não conversavam, só trocavam mensagens, por telemóveis e computadores. 
         O cubo de gelo estava em estado de exaustão, e quis parar. Encontrou essa cidade, silenciosa, cheia de gelo. Só se ouvia o som de alguma água. Os habitantes estavam todos recolhidos àquela hora. 
- Não está aqui ninguém? Mas que lugar tão estranho. As casas são de gelo...se calhar não vive aqui ninguém. Pelo menos está tudo silencioso. 

         De repente aparece a Glaciar. Uma linda mulher, de uma beleza incrivelmente gelada, que tratou o cubo de gelo, de forma fria, como trata todos os seus semelhantes:

- Quem és tu? 

         O cubo de gelo estremece: 

- Desculpa, já estavas aí há muito? 

         Cai uma bolinha de gelo da Glaciar. 

- Ui, caiu-te uma bolinha... 

- E depois? O que tens a ver com isso? - pergunta a Glaciar brusca 

- Desculpa, tens razão...parece que estou aqui a mais. Vou-me embora. Eu vim da terra, mas parece que nem saí dela. - murmura - Que gelo, esta mulher...

- Não. Espera... ! Disseste que vieste da Terra? 

- Sim. 

- O que vieste cá fazer? 

- Vim, descansar a minha alma. Lá em baixo está tudo muito gelado! 

- Então porque vieste para outro sítio, gelado? - pergunta a Glaciar 

- Porque pensei que ia ter a um lugar diferente. Mas também não tinha nenhum lugar definido. Só queria sair de lá. Mas, não te preocupes, vou-te deixar sossegada. Desculpa, não sabia que aqui viviam pessoas...? Parecem pessoas. 

          Cai outra bolinha de gelo da Glaciar. 

- Senta-te. - ordena a Glaciar. 

- Óh, não, não quero incomodar. 

- Mas sou eu que te estou a mandar sentar. - Reforça a Glaciar 

- Ok. Com licença... 

         Os dois sentam-se, e cai outra bolinha do Glaciar. 

- Queres beber ou comer alguma coisa? - pergunta a Glaciar 

- Não, obrigada. 

- Então, tu vens da terra...! - diz a Glaciar 

- Sim, sabes onde é? 

- Sei. Chega aqui muito gelo de lá. 

- A sério? Gelo? Como é que vocês sabem que é de lá? 

- Lá existe muito gelo, certo?

- Sim. E não é pouco. Dizem que não há tempo para nada, todos correm, casa, trabalho, trabalho casa, tantos afazeres, computadores, barulhos, guerras, imagens violentas, discussões, gritos, indiferença, solidão. Já mal nos abraçamos, tocamos ou sorrimos. Tudo é para ontem ou anteontem, toma-se comprimidos, andamos como se fossemos robôs. Tudo é impaciência, raiva. As crianças já não têm liberdade para brincar,  nem para respirar, ver a paisagem ou expressarem-se! Sufocam-nas com atividades, escola, com a obrigação de estudarem, serem os melhores, mas estão muito frios uns com os outros, competem, não conversam, só trocam mensagens, por telemóveis e computadores. Eu cansei de tanto gelo e tanta indiferença.

- Entendo o que dizes. É muito mau. Por isso é que és um cubo de gelo. 

- Sim. 

- Eu sou uma Glaciar. Aqui também somos todos gelados. Vivemos em casas de gelo, somos feitos de gelo, e somos frios uns com os outros. Aqui tudo é gelado, mas pelo menos é mais silencioso, e não tem solidão nem indiferença. Também não temos essas coisas de comprimidos, nem competição, temos tempo para tudo, convivemos bastante, à nossa maneira gelada. 

- Pois. Vocês são gelados, mas na terra, não éramos assim, quando eu era mais pequeno, havia mais calor, mais conversa, mais brincadeira, mais abraços e carinhos, sorrisos. Não houve sempre esta loucura que há agora. 

- Porquê? 

- Não sei. 

- Tu gostas de viver nesse caos todo? 

- Não, fico muitas vezes triste, desanimado, desiludido. Foi por isso, cansei, quis vir à procura de um pouco de sossego. 

- Aqui, sossego não te falta! Como é que são essas coisas...que tu falaste... de... abraços ou sorrisos...? - pergunta Glaciar 

- São uma coisa maravilhosa. Não sei explicar por palavras, mas derrete o gelo, cura, aquece, protege, envolve, aproxima, conforta, preenche, faz bem. Abraços, é... quando cada um de nós passa a ter quatro braços, dois corações e sorrisos. - explica o cubo de gelo

- Que seres assustadores. Como assim? Então, não é bom! Transformam-se? E voltam ao normal?

- É bom, é. Eu tenho dois braços, e tu também, eu tenho um coração, e tu também, que não era de gelo, mas agora é. Quando abraçamos alguém, ganhamos quatro braços, porque são os nossos, e os dois da outra pessoa. Quando abraçamos alguém, o nosso corpo também se junta, o nosso coração bate, e o coração da outra pessoa também! Por isso dizemos que ganhamos dois corações. E sorrisos, porque gostamos de trocar abraços.

- Áh! Acho que estou a perceber! 

- Vocês não fazem isso? 

- Fazemos, mas não sentimos nada disso, para nós, só temos um coração em cada corpo.

- Mas o nosso gelo é tanto... deve ser por isso! 

- Agora na minha terra também estamos assim, como vocês, aqui. 

- A sério? 

- Sim! Infelizmente. 

        E caem uma série de bolinhas e cristais da Glaciar. 

- Desculpa a minha pergunta: mas, porque é que te estão a cair essas bolinhas? 

- É que estou triste! - diz Glaciar

- Vocês aqui também ficam tristes? 

- Claro. É uma maneira de nos mantermos gelados. 

- Mas, então para ti não faz mal estar triste...? 

- Para vocês, faz? 

- Sim, muito mal. Há muita gente doente por causa da tristeza. Porque é que estás triste?

- Fiquei triste com o que me disseste! 

- Porquê? 

- Não sei! Acho que derreteste um bocadinho do meu gelo. 

- Óh, desculpa. 

- Não faz mal. 

        E caem mais bolinhas e cristais da Glaciar. 

- Queres conhecer os meus abraços, é? 

- Achas que não me faz mal? 

- Espero que não. 

- Como é que eu faço? 

         O Cubo de gelo pega delicadamente nos braços da glaciar, e abraça-a. A glaciar soluça, e começam a cair muitas pedrinhas de gelo. 

- Está tudo bem? - pergunta o cubo de gelo 

- Sim. Não me largues já... por favor! Óh... como é bom! Adoro...como é possível na tua terra não darem abraços...? Não admira que andem tão tristes. 

- Sim, tens razão, eu também sinto falta de abraços.Também adoro, mas na minha terra, não há tempo para abraços. 

- Mas isso é tão mau! 

- Pois é. Mas não posso fazer nada. 

           A Glaciar abre um enorme sorriso, e olha para o cubo de gelo. Os olhos dos dois estão brilhantes e com as cores do arco-íris, refletido em todo o seu rosto. 

- Mas que linda que estás! - diz o cubo de gelo a sorrir 

- Obrigada, tu também! - diz a Glaciar 

            Ouve-se uma voz a chamar pela Glaciar. 

- Óh, não! Desculpa, já tenho de ir embora. Mas prometo que voltaremos a encontrar-nos, para me dares mais abraços, pode ser? - diz Glaciar 

- Claro que sim! Mas, como é que eu vou saber que és tu? 

- Não contes nada lá em baixo, mas em breve, toda a tua terra vai ficar gelada, com muito frio, neve, vento... vou ser eu! Depois encontramo-nos num sítio quentinho, pode ser? 

- Claro. Com todo o gosto. 

- Encontramo-nos lá em baixo. Adorei transformar-me, ficar com quatro braços, e dois corações a bater. Adorei os teus abraços! Boa viagem. Até já...- ri a Glaciar 

          O cubo de gelo, volta feliz para a sua terra. Como prometido, rapidamente, a Glaciar vai visitar a terra do cubo de gelo. Por onde passa fica tudo cheio de neve, gelo, vento e nuvens carregadas, granizo e chuva. O cubo de gelo soube logo que era ela. 
Ela viu-o e foi ter consigo. O gelo dos dois derreteu, enquanto deram um longo abraço. A Glaciar transformou-se numa linda mulher, e ele num homem encantador. 
          Os dois conversaram horas e horas, riram, tornaram-se inseparáveis. 

Uma voz soa a gritar: 

- Huuuuuuuuuuugooooo...anda comer! 

Hugo acorda sobressaltado e percebe que foi só um sonho criado a partir da sua realidade, o viver numa sociedade indiferente, gelada, que vive cada um só para si, onde não há tempo para nada, onde há caos, e onde faltam realmente abraços. Pelo menos no seu sonho, Hugo sentiu a liberdade de concretizar um desejo e satisfazer uma necessidade de sentir afeto, abraços, comunicar, brincar, ter tempo para o outro, e para apreciar a natureza. Vivemos num mundo em que somos cada vez mais glaciares e cubos de gelo uns com os outros. 

                                                             FIM 
                                                         Lara Rocha
                                                        7/Março/2020