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quarta-feira, 29 de novembro de 2023

O mar com uma espuma diferente


Era uma vez um mar numa ilha paradisíaca, com a água transparente, onde se via o fundo, cheio de pedras, conchas, búzios, pedras e peixes. 

A areia era muito branca, e as ondas quase não se viam, eram tão calmas! Um dia, uma coisa estranha aconteceu: a espuma das ondinhas que era branca, começou a aparecer de todas as cores em tons claros, vindas não se sabia de onde. 

Os habitantes ficaram muito intrigados e assustados. Foram investigar, e não viram nada que pudesse indicar aquelas cores, nem sequer tinha mau cheiro. 

No dia seguinte, as cores mudaram outra vez, mas eram mais escuras. Voltaram a procurar e não encontraram nada de estranho! 

- Alguma coisa muito má, muito estranha está a acontecer aqui. - comenta um habitante 

- Estas cores não são nada normais, na espuma! - observa outro 

- Ontem eram claras, hoje são escuras. - acrescenta outro 

- Mas no mar não vimos nada de tintas. 

- Pois não! 

- É isso que é esquisito. 

Faz-se silêncio, e veem a sair do mar alto, um ser feito de água, transparente e com brilhantes, ao longe nem se via se era uma cara humana ou um outro ser qualquer, com uma paleta de cores, pincéis na mão, uma tela de areia. 

Os habitantes esconderam-se com medo, e ficaram a espreitar. O ser misterioso não se deu por achado, e pôs-se a desenhar sentado na areia. 

Respirou fundo, olhou para a paisagem, voltou a olhar e desenhou na areia com cores, que apareceram misteriosamente, pois a paleta não tinha cores. 

Fez uns lindos desenhos, perfeitos, ao longo de toda a praia, uns desenhos eram mais claros, outros mais escuros, uns onde se via bem o que estava desenhado, outros, pareciam mais sem formas, ou com formas geométricas, coloridas. 

No fim da praia, desenhou um corpo, com brilhantes, o dele, com uma lágrima a cair.  Foi lavar os pinceis e a paleta ao mar, a sorrir, e...mistério desfeito! 

As cores da espuma vinham do pintor misterioso que não era humano, mas feito de água e brilhantes. Os habitantes rodearam-no, com ar ameaçador. 

- Áh! Então és tu que andas a poluir o nosso mar...? - diz um morador 

- Poluir? O que é isso? - pergunta o ser

- Estás agora a fazer-te de santinho...muito inocente! Olha para esta porcaria de espuma! - reclama um habitante 

- A nossa espuma era branca, e tem aparecido com cores. Investigamos, e não vimos de onde poderiam vir, agora já sabemos. - explica outro 

- Mas...esta praia é vossa? - pergunta o pintor peixe 

- É! - respondem todos 

- O que vens para aqui fazer? Sujar tudo? - ralha um senhor 

- Não! Eu vim pintar. - responde o pintor peixe 

- E lavas os pincéis no mar! Para ficarmos com poluição, não é? Muito bonito…! - ralha uma senhora 

- Não. Esta tinta não é poluente, nem tóxica, é natural. Vem toda do que o mar dá. - explica o peixe 

- E o mar dá poluição. - insiste outra senhora a ralhar 

- Não, não é poluição! É feito das algas, das pedras de corais, de escamas de peixes, areia. - responde o peixe 

- Não vimos cores nenhumas, só agora na areia, e na espuma! - diz uma menina 

- Mas é isso mesmo! As cores que aparecem na areia e na espuma são naturais. - volta a explicar o peixe 

- De onde vens? - pergunta outra senhora 

- És tão estranho! - comenta outra menina 

- Eu sou um peixe pintor. 

- Peixe pintor? - perguntam em coro 

- Nunca outra ouvimos! - comenta um rapaz 

- E vocês também pode experimentar...querem? - convida o peixe 

- Eu quero! - disse um 

- Com muito gosto. Aproxima-te que eu não mordo! - desafia o peixe 

- Os desenhos que fizeste na areia, são...bonitos. - aprecia uma menina 

- Obrigado. - responde o peixe 

- Este último é...triste! - repara um menino 

- É. Sou eu.

- És tu? E estás triste? - pergunta o menino 

- Às vezes também fico! - diz o peixe 

- Porquê? - pergunta o menino 

- Por causa de uma sereia que não gosta de mim, mas eu gosto dela. 

- E porque não vais atrás dela, e fazes tudo para a  conquistar? - sugere uma jovem 

- Não! O amor não se obriga, nem se força. Se a outra pessoa não quer, não podemos obrigá-la, nem insistir. 

- Mas já lhe disseste que gostas dela? - pergunta outra jovem 

- Sim! 

- E ela disse-te na cara que não gosta de ti? - pergunta um jovem rapaz 

- Disse. 

- Não foi nada simpática! - comenta o jovem rapaz 

- E tu, o que fizeste? - pergunta outro jovem 

- Deixei-a em paz! Respeitei a vontade dela. 

- Óh, mas isso é triste, e dói. - diz uma jovem 

- É. Mas as coisas são assim mesmo! É essa tristeza que pinto com as cores escuras, principalmente este último, que sou eu com uma lágrima. Dói muito, claro! E as cores claras, são a esperança que algum dia, se não for ela, conheça outra, que goste de mim, como eu gostar dela. Ou então, que sejamos bons amigos! 

- Áh! Que lindo! - dizem todos 

- Ela pediu distância, eu dou-lhe distância. 

- Ela magoa-te e tu ainda gostas dela? - comenta uma jovem rapariga 

(Cai uma lágrima com estrelas, dos olhos do peixe, enquanto faz silêncio) 

- Pinto para curar a minha dor! - responde o pintor 

- E resulta? - pergunta outra jovem rapariga 

- Para mim, sim! Vocês conseguem sempre conquistar quem gostam? 

- Não! - respondem todos 

- Mas tentamos, insistimos a conquistar de maneiras diferentes, tentamos, até que da outra parte haja sinais. - explica outro jovem rapaz 

- Mas não perdemos muito tempo. - diz outro jovem rapaz 

- Perder tempo? Para conquistar é preciso tempo, não é perder tempo, nem acontece de um dia para o outro. Eu e ela éramos amigos, mas quando eu disse que gostava dela, ela transformou-se, e disse que amigos podíamos ser, mas não queria mais nada. Mas agora, acho que nem amigos! 

- E não continuaste a tentar? - pergunta outro jovem rapaz 

- Não! O que tiver de acontecer, acontecerá. Se tivermos de ter alguma coisa um com o outro, ou se nunca tivermos de ter nada um com outro, outra virá que queira, ou não! 

- Áh! Que lindo. - dizem todos 

- És forte! - comenta uma jovem rapariga 

- Não, sou fraco, é por isso que ela não gostou de mim. 

- Acho que não. Ela não gostou de ti, porque não tinha de ser essa! - responde uma senhora 

- Acha? 

- Acho, pelo menos é o que nós dizemos aqui, quando não somos correspondidos no amor. 

- Áh! Também está bem visto, sim senhora. 

- Estes desenhos vão desaparecer com a água! - comenta um senhor 

- Os de ontem, também desapareceram. Não faz mal, lava a minha dor! 

- Então, tens a certeza que essas tintas não são poluentes? - pergunta outro senhor  

- Tenho. Queria experimentar, não queria? Venha!  

O ser misterioso, orienta, explica como se faz, e todos ficam encantados. Veem os outros desenhos na areia, um por um, e tentam imaginar o que significam.

- Que bonitos! - suspira uma menina a sorrir 

- Obrigado. - diz o peixe 

- Já experimentaste oferecer-lhe um desenho teu, destes tão bonitos ou outros? - pergunta uma jovem rapariga 

- Não! 

- Porque não? Ela até podia gostar. - comenta outra jovem rapariga 

- Ela não está disponível para me ver através dos desenhos. 

- Então ela não te merece. - acrescenta outra senhora 

- Podias experimentar! A ver se a conquistavas. - sugere um jovem rapaz 

- É espetacular, este tipo de pinturas! - comenta o senhor que experimenta 

- Olha que bonitas. Muito bem. Mais alguém quer aprender? - diz o peixe 

- Eu, eu, eu, eu...- todos querem aprender 

- Boa! Então virei quando quiserem aqui ensinar-vos. 

- Obrigado, obrigada, desculpa a nossa ameaça, pensávamos que era poluição. - comenta um senhor 

- Não faz mal, compreendo. Eu acho que pensaria o mesmo! 

Combinam os dias, e todos aprendem a fazer aqueles desenhos, a espuma branca ganha todos os dias novas cores, umas mais alegres, outras mais escuras, conforme os sentimentos e emoções que cada um pintava. 

O pintor peixe, estava feliz e orgulhoso, por ensinar a sua arte, e os habitantes, felizes por aprender. Tornaram-se uma família, divertiam-se sempre muito, ele ajudava quem precisava, conversavam muito e faziam lanches, festas. 

Ainda bem, que não era poluição! Uns tempos mais tarde, quando a sua dor estava curada, o pintor peixe encontrou um amor correspondido e apresentou-o aos amigos, que os pintaram na areia, dentro de um coração. 

                                                    FIM

                                                Lara Rocha 

                                                29/11/2023 


domingo, 2 de maio de 2021

Sereia ou peixe?

         


Era uma vez uma Vila de pescadores, onde viviam famílias simples, trabalhadoras e humildes. Os homens, desde os mais novos até aos mais velhos, saiam antes do sol nascer, e algumas das esposas, namoradas, sentiam o coração muito apertadinho. Tinham medo que não voltassem, ou que lhes acontecesse alguma coisa. Então, sempre que os homens iam para o mar, as mulheres de todas as idades não dormiam mais. Abraçavam e beijavam os filhos, os namorados, recomendando-lhes cuidado. Seguravam as lágrimas até eles irem  para os barcos no mar alto, juntavam-se, davam as mãos e rezavam por proteção! Aí sim, as lágrimas pelo medo saiam dos seus olhos! Não erram homens de fé, achavam que tinham muita coragem, era a missão deles, só tinham de a cumprir, mesmo que soubessem que era arriscado, e diziam com segurança que o mar era amigo deles. Um dos jovens perguntou à namorada: 

- Porque é que vocês se põem com essas cerimónias de lamechices quando vamos para o mar? 

A namorada responde: 

- Não são lamechices, é medo! 

- Medo...! Que ridículo. - graceja o namorado 

- Vocês não têm medo, queres ver? 

- Claro que não! Isso é coisa de mulheres. O que fazem? 

- Rezamos! Pedimos proteção, que voltem sãos e salvos, que pesquem muito peixe, mas façam boas viagens. 

- Não tendes mais nada que fazer? Que patetice, isso não existe? 

- Ai não? Felizmente têm voltado sempre. Já que não acreditas, pelo menos respeita porque dói-nos muito! Ficamos com o coração muito apertadinho! 

- Está bem, desculpa! Acredita lá no que quiseres. 

- E se rezássemos às sereias, aí vocês também rezavam não era? Até faziam outras coisas com elas. 

O namorado ri. 

- Sereias? Também achas que existem? Vives no mundo da infância. Coitadinha, cresce. 

        A namorada fica zangada, não se falam mais nesse dia, cada um está no seu trabalho. De madrugada, o mesmo ritual repete-se. Todas rezam, mas a namorada não dá beijo nem abraça o namorado, só lhe diz: 

-  Que as sereias te guiem. Ingrato... 

- As sereias? E tu não ficas com ciúmes se for com elas? 

- Não. 

            O namorado ri-se, vai para o barco com os outros homens, e nessa noite o mar está muito revolto. As gaivotas estão muito nervosas, piam, voam desvairadas, parecem perdidas. 

- Mas o que é que se passa hoje? - pergunta uma mãe 

- O mar está muito revolto...as gaivotas tão inquietas, os nossos homens hoje não deviam ter ido. 

- Ai, que nervos! - diz outra 

        Enquanto as mulheres estão nervosas e rezam, outras choram e acendem velas, os barcos dos maridos andam aos trambolhões, no mar, os marinheiros gritam, tentam lutar contra a força das ondas, mesmo não tendo por hábito rezar como as mulheres, sentem vontade de o fazer, porque correm perigo. Dizem que não sabem como, mas veem uma sombra que não conseguem distinguir se é de peixe ou de uma mulher com cauda de peixe que lhes dá uma valente chicotada com a cauda e atira-os a grande velocidade para a costa, onde chegam todos ensopados, mas sãos e salvos. As mulheres respiram de alívio. 

- Hoje não deviam ter ido para o mar! - resmunga uma mais nova

- Tendes razão! - dizem todos 

- Não imaginávamos que o mar ia estar tão bravo! - diz outro 

- Andamos aos trambolhões, mas alguém nos atirou para aqui! 

- Quem? - perguntam todas 

- Uma sombra com cauda de peixe! Não conseguimos ver o que era. 

- Acho que alucinaram com o medo! - comenta uma namorada 

- Rezaram? - pergunta outra mãe 

- Sim! - respondem todos 

- Foram ouvidos! Talvez agora percebam porque fazemos aquelas lamechices todas, não é, amor? - pergunta a namorada irónica 

- É! Desculpa!

- Foi uma sereia? 

- Não. Não sei. . 

- Qual sereia? Foi a força da oração deles e da nossa crença. 

            Todos concordam, abraçam, beijam as esposas e namoradas, e nesse dia há festa para retribuir as orações que os salvaram. Silenciosamente, os homens achavam que foi uma sereia que os salvou, mas para disfarçar, diziam que foi um peixe, mandado pelos pedidos das mães, esposas, e namoradas. A partir desse dia, respeitaram as suas esposas, e aprenderam a fazer o mesmo. Rezavam antes de sair para o mar, porque sabiam que com o mar não se brinca, mas respeita-se. Nunca sabiam na verdade o que esperavam. Mas pelo menos sentiam-se mais protegidos, e quando  viam o mar revolto, já não iam. E vocês? Acham que eles foram salvos por uma sereia ou um peixe? 


                                                                    FIM 

                                                                 Lara Rocha 

                                                                2/Maio/2021