Era uma vez uma boneca diferente das outras, que foi oferecida por uma tia a uma sobrinha. A boneca que parecia com expressão séria, sorriu, no dia em que foi comprada.
Histórias infantis, para crianças, adolescentes, e adultos, peças de teatro e monólogos
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quinta-feira, 4 de abril de 2024
A boneca que mudava de cor de olhos
Era uma vez uma boneca diferente das outras, que foi oferecida por uma tia a uma sobrinha. A boneca que parecia com expressão séria, sorriu, no dia em que foi comprada.
quarta-feira, 29 de novembro de 2023
O mar com uma espuma diferente
Era uma vez um mar numa ilha paradisíaca, com a água transparente, onde se via o fundo, cheio de pedras, conchas, búzios, pedras e peixes.
A areia era muito branca, e as ondas quase não se viam, eram tão calmas! Um dia, uma coisa estranha aconteceu: a espuma das ondinhas que era branca, começou a aparecer de todas as cores em tons claros, vindas não se sabia de onde.
Os habitantes ficaram muito intrigados e assustados. Foram investigar, e não viram nada que pudesse indicar aquelas cores, nem sequer tinha mau cheiro.
No dia seguinte, as cores mudaram outra vez, mas eram mais escuras. Voltaram a procurar e não encontraram nada de estranho!
- Alguma coisa muito má, muito estranha está a acontecer aqui. - comenta um habitante
- Estas cores não são nada normais, na espuma! - observa outro
- Ontem eram claras, hoje são escuras. - acrescenta outro
- Mas no mar não vimos nada de tintas.
- Pois não!
- É isso que é esquisito.
Faz-se silêncio, e veem a sair do mar alto, um ser feito de água, transparente e com brilhantes, ao longe nem se via se era uma cara humana ou um outro ser qualquer, com uma paleta de cores, pincéis na mão, uma tela de areia.
Os habitantes esconderam-se com medo, e ficaram a espreitar. O ser misterioso não se deu por achado, e pôs-se a desenhar sentado na areia.
Respirou fundo, olhou para a paisagem, voltou a olhar e desenhou na areia com cores, que apareceram misteriosamente, pois a paleta não tinha cores.
Fez uns lindos desenhos, perfeitos, ao longo de toda a praia, uns desenhos eram mais claros, outros mais escuros, uns onde se via bem o que estava desenhado, outros, pareciam mais sem formas, ou com formas geométricas, coloridas.
No fim da praia, desenhou um corpo, com brilhantes, o dele, com uma lágrima a cair. Foi lavar os pinceis e a paleta ao mar, a sorrir, e...mistério desfeito!
As cores da espuma vinham do pintor misterioso que não era humano, mas feito de água e brilhantes. Os habitantes rodearam-no, com ar ameaçador.
- Áh! Então és tu que andas a poluir o nosso mar...? - diz um morador
- Poluir? O que é isso? - pergunta o ser
- Estás agora a fazer-te de santinho...muito inocente! Olha para esta porcaria de espuma! - reclama um habitante
- A nossa espuma era branca, e tem aparecido com cores. Investigamos, e não vimos de onde poderiam vir, agora já sabemos. - explica outro
- Mas...esta praia é vossa? - pergunta o pintor peixe
- É! - respondem todos
- O que vens para aqui fazer? Sujar tudo? - ralha um senhor
- Não! Eu vim pintar. - responde o pintor peixe
- E lavas os pincéis no mar! Para ficarmos com poluição, não é? Muito bonito…! - ralha uma senhora
- Não. Esta tinta não é poluente, nem tóxica, é natural. Vem toda do que o mar dá. - explica o peixe
- E o mar dá poluição. - insiste outra senhora a ralhar
- Não, não é poluição! É feito das algas, das pedras de corais, de escamas de peixes, areia. - responde o peixe
- Não vimos cores nenhumas, só agora na areia, e na espuma! - diz uma menina
- Mas é isso mesmo! As cores que aparecem na areia e na espuma são naturais. - volta a explicar o peixe
- De onde vens? - pergunta outra senhora
- És tão estranho! - comenta outra menina
- Eu sou um peixe pintor.
- Peixe pintor? - perguntam em coro
- Nunca outra ouvimos! - comenta um rapaz
- E vocês também pode experimentar...querem? - convida o peixe
- Eu quero! - disse um
- Com muito gosto. Aproxima-te que eu não mordo! - desafia o peixe
- Os desenhos que fizeste na areia, são...bonitos. - aprecia uma menina
- Obrigado. - responde o peixe
- Este último é...triste! - repara um menino
- É. Sou eu.
- És tu? E estás triste? - pergunta o menino
- Às vezes também fico! - diz o peixe
- Porquê? - pergunta o menino
- Por causa de uma sereia que não gosta de mim, mas eu gosto dela.
- E porque não vais atrás dela, e fazes tudo para a conquistar? - sugere uma jovem
- Não! O amor não se obriga, nem se força. Se a outra pessoa não quer, não podemos obrigá-la, nem insistir.
- Mas já lhe disseste que gostas dela? - pergunta outra jovem
- Sim!
- E ela disse-te na cara que não gosta de ti? - pergunta um jovem rapaz
- Disse.
- Não foi nada simpática! - comenta o jovem rapaz
- E tu, o que fizeste? - pergunta outro jovem
- Deixei-a em paz! Respeitei a vontade dela.
- Óh, mas isso é triste, e dói. - diz uma jovem
- É. Mas as coisas são assim mesmo! É essa tristeza que pinto com as cores escuras, principalmente este último, que sou eu com uma lágrima. Dói muito, claro! E as cores claras, são a esperança que algum dia, se não for ela, conheça outra, que goste de mim, como eu gostar dela. Ou então, que sejamos bons amigos!
- Áh! Que lindo! - dizem todos
- Ela pediu distância, eu dou-lhe distância.
- Ela magoa-te e tu ainda gostas dela? - comenta uma jovem rapariga
(Cai uma lágrima com estrelas, dos olhos do peixe, enquanto faz silêncio)
- Pinto para curar a minha dor! - responde o pintor
- E resulta? - pergunta outra jovem rapariga
- Para mim, sim! Vocês conseguem sempre conquistar quem gostam?
- Não! - respondem todos
- Mas tentamos, insistimos a conquistar de maneiras diferentes, tentamos, até que da outra parte haja sinais. - explica outro jovem rapaz
- Mas não perdemos muito tempo. - diz outro jovem rapaz
- Perder tempo? Para conquistar é preciso tempo, não é perder tempo, nem acontece de um dia para o outro. Eu e ela éramos amigos, mas quando eu disse que gostava dela, ela transformou-se, e disse que amigos podíamos ser, mas não queria mais nada. Mas agora, acho que nem amigos!
- E não continuaste a tentar? - pergunta outro jovem rapaz
- Não! O que tiver de acontecer, acontecerá. Se tivermos de ter alguma coisa um com o outro, ou se nunca tivermos de ter nada um com outro, outra virá que queira, ou não!
- Áh! Que lindo. - dizem todos
- És forte! - comenta uma jovem rapariga
- Não, sou fraco, é por isso que ela não gostou de mim.
- Acho que não. Ela não gostou de ti, porque não tinha de ser essa! - responde uma senhora
- Acha?
- Acho, pelo menos é o que nós dizemos aqui, quando não somos correspondidos no amor.
- Áh! Também está bem visto, sim senhora.
- Estes desenhos vão desaparecer com a água! - comenta um senhor
- Os de ontem, também desapareceram. Não faz mal, lava a minha dor!
- Então, tens a certeza que essas tintas não são poluentes? - pergunta outro senhor
- Tenho. Queria experimentar, não queria? Venha!
O ser misterioso, orienta, explica como se faz, e todos ficam encantados. Veem os outros desenhos na areia, um por um, e tentam imaginar o que significam.
- Que bonitos! - suspira uma menina a sorrir
- Obrigado. - diz o peixe
- Já experimentaste oferecer-lhe um desenho teu, destes tão bonitos ou outros? - pergunta uma jovem rapariga
- Não!
- Porque não? Ela até podia gostar. - comenta outra jovem rapariga
- Ela não está disponível para me ver através dos desenhos.
- Então ela não te merece. - acrescenta outra senhora
- Podias experimentar! A ver se a conquistavas. - sugere um jovem rapaz
- É espetacular, este tipo de pinturas! - comenta o senhor que experimenta
- Olha que bonitas. Muito bem. Mais alguém quer aprender? - diz o peixe
- Eu, eu, eu, eu...- todos querem aprender
- Boa! Então virei quando quiserem aqui ensinar-vos.
- Obrigado, obrigada, desculpa a nossa ameaça, pensávamos que era poluição. - comenta um senhor
- Não faz mal, compreendo. Eu acho que pensaria o mesmo!
Combinam os dias, e todos aprendem a fazer aqueles desenhos, a espuma branca ganha todos os dias novas cores, umas mais alegres, outras mais escuras, conforme os sentimentos e emoções que cada um pintava.
O pintor peixe, estava feliz e orgulhoso, por ensinar a sua arte, e os habitantes, felizes por aprender. Tornaram-se uma família, divertiam-se sempre muito, ele ajudava quem precisava, conversavam muito e faziam lanches, festas.
Ainda bem, que não era poluição! Uns tempos mais tarde, quando a sua dor estava curada, o pintor peixe encontrou um amor correspondido e apresentou-o aos amigos, que os pintaram na areia, dentro de um coração.
FIM
Lara Rocha
29/11/2023
terça-feira, 25 de julho de 2023
De que cor é a paz?
aguarela
Era uma vez um menino que andava muito pensativo, sobre a Guerra e a Paz.
Não gostava nada do que via na televisão sobre os países em guerra, nem de ouvir os adultos a falar sobre Guerra, mas era o que existia.
Chorava quando ia dormir, agradecia por o seu país ter Paz, e por tanto ele como a família estarem em Paz. Pedia nas suas orações em conjunto com a família, que a Guerra acabasse e que houvesse Paz.
Antes de ir dormir, aquelas imagens e a pena que sentia daquelas pessoas, perturbavam-no, mesmo não estando lá, porque conseguia imaginar-se naqueles sítios, imaginava o que ele próprio sentiria e a sua família se algum dos seus estivesse lá.
Adormecia com as lágrimas a cair, mas acreditava que um dia a Guerra acabaria. Para tornar o sono mais agradável, depois de pensar na Guerra, pensava e perguntava-se:
- Será que a Paz só tem a cor branca? Ou será que tem as cores da bandeira onde andam em Guerra, e as nossas em so...li...soli...solidaridade...ai...solidariedade, acho que é assim que se diz.
No dia seguinte, de manhã, ao pequeno almoço, perguntou à mãe:
- Mãe...de que cor é a Paz?
- É branca!
- Será que não tem outra cor?
- Não. Despacha-te mas é, esquece lá a cor da paz...! Temos de sair a seguir.
- Está bem!
Entra o pai, e o menino pergunta:
- Pai, de que cor é a paz?
- É da cor do não me chateies, que estou cheio de pressa e do despacha-te!
- Porque é que estão tão zangados? Também querem a Guerra, é?
- Come e despacha-te. - gritam os dois
- Deixa lá a Guerra, ela não está cá.
O menino fica tão triste, que quase não toma o pequeno almoço, e os pais cheios de pressa nem reparam.
Engolem os deles, pegam no menino, metem-no no carro e vão depressa levá-lo ao colégio, a mãe num carro e o pai no outro, com velocidade, a murmurar, a resmungar baixinho, a bufar, por causa do trânsito, a buzinar, a bater com as mãos no volante.
Nem um beijo deram um ao outro, nem ao menino, largam-no à porta do colégio e avisam-no que a Avó vai buscá-lo ao fim do dia.
O menino está triste como a noite. Entra na sala, cumprimenta a educadora, senta-se num canto triste.
A educadora vai ter com ele, preocupada, e pergunta:
- Então, príncipe, estás muito triste hoje, o que aconteceu?
O menino desata num pranto, a educadora abraça-o, acaricia-o na cara, e o menino a soluçar responde:
- Os meus pais hoje foram maus comigo, como são sempre.
- Foram maus…? Mas....o que fizeram? Bateram-te?
- Não. Gritaram comigo, eu perguntei se a paz tinha outra cor, mandaram-me despachar, disseram que a Paz tinha a cor do não me chateies e do despacha-te...isso não são cores, pois não?
- Não!
- Estão sempre a correr, sempre a gritar um com o outro e comigo, eu não gosto da Guerra, choro sempre à noite, por aquelas imagens, e agradeço por estarmos em paz, mas afinal, os meus pais não fazem pela paz, fazem Guerra.
- Óh, meu querido, isso é muito bonito de tua parte. Os teus pais fizeram isso sem pensar, estavam com pressa para ir para o trabalho, os adultos são assim.
- Nem deram um beijinho um ao outro, nem a mim...eu não gosto quando eles falam assim um com o outro e comigo! Parece que gostam da Guerra.
- Não, eles não pensaram, só estavam com pressa, mas de certeza que te amam, e que querem a paz.
- Mas, eu queria saber se havia outra cor da paz...eu gosto da Paz. Não sei porque ficaram tão zangados com essa pergunta!
- Vais ver que à noite, já estão mais calmos.
- Não gosto de os ver sempre a correr. Tu também corres?
- Às vezes, sim, corro, quando me atraso, e às vezes também resmungo com o meu marido e com os meus filhos, mas gostamos da paz, fazemos pela paz, e ao fim do dia estamos todos bem.
- Porque é que fazem isso?
- Olha, porque...os adultos são uns apressados! Deixa lá, agora vamos mas é brincar!
- Mas, e tu, achas que a Paz tem outra cor?
- Huuummm… a paz tem a cor branca! Mas sim, pode ter outra cor. Que agora não sei. E tu, achas que a paz pode ter outra cor?
- Sim! Azul, ou...amarelo, ou verde.
- Áh, sim? Porquê?
- Azul porque é a cor do céu, do dia, o amarelo porque dá claridade e luz, o verde porque é natureza, e traz bem.
- Olha, muito bem visto! Concordo contigo. Essas cores também me trazem Paz. Gosto muito dessas cores.
- Eu também.
- Agora lembrei-me de outra cor da paz…
- Qual?
- A do sorriso!
- Áh! Sim, e a dos abraços...-diz o menino
- Também!
A educadora abraça o menino, e este retribui o sorriso e o abraço.
- E qual é a cor dos abraços? - pergunta o menino
- São muitas cores! Todas as alegres.
- E a cor dos sorrisos?
- Todas as cores alegres.
- Tu gostas dessas cores?
- Adoro. E tu?
- Eu também.
- Vamos lavar a carinha, brincar com os meninos e tu pode ir perguntando ou perguntamos na roda, aos outros meninos qual é a cor da Paz, combinado?
- Combinado.
O menino abre um grande sorriso, vai brincar com os meninos, alegre, e quando se sentam na roda, a Educadora pergunta:
- Meus amores...hoje o nosso amiguinho trouxe uma pergunta muito boa e bonita: qual é a cor da Paz? Eu quero saber o que cada menino acha!
- Branca! - respondem em coro
- Mas que outras cores podem ter?
- A cor dos abraços. - diz uma menina
- Que lindo! - diz a educadora
- Tem a cor de quando nos portamos bem! - diz um menino
- Gosto muito dessa cor! - diz a educadora a sorrir
- Azul. - diz uma menina
- Boa! Gosto muito dessa cor, para mim também me faz sentir paz.
- É a cor dos jardins! - diz uma menina
- Boa! Qual é a cor dos jardins?
- São muitas. Verdes, todas as cores das flores.
- A água!
- Os rios!
- Os lagos!
- Os pássaros.
- A cor da amizade!
- A cor dos risos.
- A cor dos sorrisos.
- A cor das estrelas e dos animais.
- A cor do carinho.
- A cor de algumas canções!
- A cor do canto dos pássaros.
- A cor das borboletas e das joaninhas.
- A cor do vento.
- A cor da chuva.
- A cor das árvores, das folhas nas estações do ano.
- A cor do dizer «bom dia», do «obrigado», do «gosto muito de ti».
- A cor da praia.
- A cor do mar.
- É os pais não andarem sempre a discutir.
- Pois, os meus andam sempre a discutir.
- Os meus também! Às vezes nem falam comigo, só quando eu saio de onde eles estão. Apetece-me pô-los de castigo, ou dar-lhes umas sapatadas, como eles fazem.
Todos dão uma gargalhada.
- Não gosto nada quando eles fazem isso!
- Nem eu!
- Os adultos são mesmo assim. - diz a educadora
- É os pais não andarem sempre a correr.
- Os meus pais estão sempre a correr, engolem o pequeno almoço, fazem-me correr e engolir o pequeno almoço.
- Os meus também.
- Mas isso não é paz.
- Depois de certeza que fazem as pazes…!
E ficam ali um bom bocado de tempo a dizer as cores que achavam que tinham a paz, na verdade, era tudo o que lhes trazia paz, o que os fazia sentir paz.
A falar de paz, e de Guerra, dão as mãos e pedem pela paz. O menino estava feliz com tanta coisa bonita que ouviu, e para ele tudo o que ouviu também eram as cores da paz.
No fim do dia, a Avó vai buscá-lo ao colégio, abraça-o, beija-o, e leva-o para sua casa, faz-lhe um lanche com tudo o que ele gosta. O menino pergunta ao Avô:
- Avô, a Paz tem outras cores?
- Sei lá, nunca a vi!
- Já parecem as respostas dos meus pais! - diz o menino
- Ááááhhhh...então não vives em paz comigo? - diz a Avó
- Tem dias! - diz o Avô
- Avó, para ti qual é a cor da paz?
- Hummm…são muitas cores!
Enquanto o menino lancha com a Avó, a Avó diz-lhe cores parecidas com as que os meninos disseram. O menino sorri:
- Obrigada, Avó! Disseste coisas parecidas com o que os meninos disseram hoje. É que os meus pais estão sempre zangados, a correr, sempre a mandar-me despachar, sempre a correr, sempre a resmungar...eu acho que eles não conhecem a Paz. Eu não gosto da Guerra, quando adormeço peço sempre para a Guerra acabar, e agradeço por estar em paz, afinal vem os meus pais e andam em guerra.
- Santa Inocência! - murmura e ri o Avô
- Não, filho. Não andam em guerra, andam é mais nervosos, com muitas coisas a fazer, pensam em muita coisa ao mesmo tempo, atrasam-se, é o trabalho, é o trânsito...mas isso não é Guerra.
- Gritam um com o outro, e comigo, mandam-me despachar, fiz esta pergunta, o meu pai disse que era a cor do despacha-te e do não me chateies, nem repararam que eu nem tomei o pequeno almoço todo. Não me deram beijinhos, foram o caminho todo a resmungar.
- Tu quando fores mais crescido, vais perceber melhor, mas não é Guerra, como a da televisão.
- Mesmo assim não gosto.
- Eu sei, mas é normal.
A Avó conversa com o menino mais um pouco, os pais vão buscá-lo quase à noite, e veem que o menino não quer ir.
- Então filho?
Ele não responde, está triste.
- Fez queixinhas. - diz a Avó
- De quê? - perguntam os dois
A Avó conta a conversa que teve com ele, os pais ficam envergonhados, pegam nele ao colo, pedem desculpa, abraçam-no, beijam-no.
- Eu não quero ir para a Guerra, nem para casa, para vos ouvir sempre aos gritos um com o outro, e comigo, a mandar despachar-me, ou a dizer que não me chateies.
- Desculpa, filho. Estávamos nervosos, cheios de coisas para fazer, mas agora estamos mais calmos.
- Não interessa. Magoaram-me! E magoam-me muitas vezes com as vossas pressas...parece que não existo. Só sirvo para vos atrasar, e para ser mais uma coisa a fazer.
- Não, não é isso.
- És o nosso filho, trabalho é trabalho, filho é filho.
- Não parece. Vocês não gostam um do outro, nem de mim.
- Claro que gostamos, amamo-nos, e a ti também.
- Então porque estão sempre aos gritos um com o outro, a bufar, a gritar comigo, a mandar-me despachar...sempre a correr...isso é Paz? Não conheço essa cor, como Paz.
- Desculpa, filho! - dizem os dois
- Os adultos às vezes são muito mauzinhos, mas não é por mal. É sem querer, sem pensar.
- Mesmo assim, amam-se e amam os filhos.
- Como te amamos a ti.
- A Avó não grita comigo, nem me manda despachar. Vou ficar com ela.
- Prometemos que não voltamos a fazer isso, está bem?
- Não acredito!
- Podes acreditar.
- Só estão bem no meio da Guerra, para vocês não existem cores da paz. Que tristeza! E deixam-me muito triste.
- Nós sabemos…
- Vamos! - diz a mãe
- Jantamos e brincamos contigo, contamos-te uma história… pode ser?
- Não acredito que vão fazer isso. Estão sempre com pressa! Até ao jantar, e para me deitar.
- Mas a partir de agora vai ser diferente!
- Se não for diferente, eu fujo para a casa da Avó.
- Está bem. - diz o pai a rir
- Vamos? - diz a mãe
- Avó, está atenta ao telefone, se faz favor. Eu não acredito neles!
- Obrigado, filho, por nos abrires os olhos! - diz o pai, triste
- Obrigada, meu amor...não imaginávamos o quanto sofrias.
- Mas em casa, explicamos-te, ou quando cresceres.
- Eu não quero ser grande...quero viver sempre na Paz. Vocês nem sabem as cores da Paz, não veem nada, como podiam ver a minha tristeza…? É sempre o despacha-te, não há bom dia, nem beijinhos…
- Tens razão! - dizem todos
Todos riem, e lá convencem o menino a ir para casa. Nesse dia cumprem o que prometeram e viram a diferença na criança.
Nos dias seguintes, sempre que podiam, evitavam discutir um com o outro, e gritar com a criança.
E para vocês…? Qual é ou quais são as cores da Paz, além do branco? Porquê? (crianças e pais, tios, avós...)
Já pensaram nesta situação real em muitas famílias? A correria todas as manhãs, outras prioridades, em vez de estar inteiros com os filhos? Já imaginaram como eles se sentirão? Mesmo que as vossas preocupações sejam compreensíveis? Já agradeceram o vivermos num país em Paz? Tudo o que temos, e tudo o que os inocentes em Guerra perderam?
Coisas simples, podem encher-nos de Paz.
Podem deixar nos comentários se quiserem.
FIM
Lara Rocha
25/Julho/2023
quarta-feira, 13 de dezembro de 2017
Os cachecóis da Avó Sonho
Era uma vez uma senhora chamada Maria do Sonho, mãe de 8 filhos, e Avó de 18 netos. Estava divorciada há uns anos, vivia numa vivenda nos arredores de uma grande cidade, com alguns gatos e cães, e era feliz. Todas os dias e noites a senhora tinha lá netos, que dormiam com ela, e até levavam amigos. A senhora quase não tinha sossego, mas os momentos que tinha livre gostava de costurar cachecóis, cada qual o mais bonito, colorido, macio, algumas mantas e colchas, roupinhas para bebés e outros mimos. Enquanto os construía, sorria. Um dia, um dos netos ficou a observá-la e perguntou-lhe:
- Avó, porque fazes tantas coisas dessas?
- O quê?
- Isso, com as agulhas e linhas.
- São cachecóis.
- E porque fazes isso?
- Gostas?
- São bonitos.
- Faço porque gosto.
- Então é por isso que sorris?
- Sim! Cada linha, cada cor, é uma recordação feliz da minha vida.
- A sério?
- Sim.
- É por isso que sorris?
- Também! Gosto de recordar momentos felizes! E quando recordamos momentos felizes, sorrimos!
- Pois é. E que recordações são essas?
- São de muitas situações. Da minha infância, da minha adolescência, com os teus pais, com os teus tios, contigo e com os teus primos...
De repente a Avó fica com dores nos dedos e nas mãos. Para assustada, suspira e geme.
- Aiiii...
- O que foi Avó?
- Estou com dores nas mãos e nos dedos.
- Óh...queres que eu chame ajuda?
- Não. Deixa estar. Isto já passa.
- Descansa um bocadinho.
- Isso, mesmo! Deve ser mesmo destes movimentos repetitivos.
Pousa a agulha e as linhas, e vai para a beira do neto, vão os dois alimentar os animais. No dia seguinte, a Avó Sonho tenta tricotar, mas as dores nos dedos e nas mãos não a deixam. Ela fica aflita, e chora, triste. Vai ao médico, e este diz-lhe que não pode voltar a tricotar. A pobre Avó desata num choro sem fim.
- Óh. Não posso acreditar! Como é que isto foi acontecer? E agora? O que é que eu vou fazer?
Ao chegar a casa, liga para os filhos, cheia de tristeza e lágrimas. Os filhos enchem-lhe a casa, com os netos, e tentam animá-la, mas nessa noite não dorme. Fica a olhar para as linhas, e fala com elas:
- Óh, minhas queridas, e agora que não posso mexer-vos mais? O que vou fazer sem vocês? Como vou bordar e tricotar as minhas recordações felizes, antes que a minha memória me atraiçoe? O que vou fazer convosco, memórias felizes, se agora não vos posso juntar, nem fio por fio, misturar-vos e ligar-vos? Óh! Como vou sorrir, agora? Eu gostava tanto de vocês... era tão feliz!
De repente, ouve uma voz:
- Então, Sonho, que tristeza é essa?
A avó estremece:
- Quem está aí?
- Sou uma recordação tua, feliz.
- Quem?
Aparece uma pequenina luz.
- Reconheces-me?
A avó abre um grande sorriso:
- Olá! Há quanto tempo que não nos víamos. Por onde andaste?
- Estive sempre aqui, e já me tricotaste várias vezes nas tuas coisas! Ainda estes dias.
- Sim, é verdade...lembro-me de ti.
- Fomos tão felizes, juntas, não fomos?
- Fomos! Estou muito triste...o médico diz que estou velha, não posso mais tricotar, porque se o fizer, posso não conseguir mexer mais os dedos. O que vou fazer agora, para que a minha memória dos momentos felizes, não me atraiçoe? Os momentos tristes não faz mal se não me lembrar, mas os momentos felizes, não quero esquecer.
- Não te acredites no médico! Só tens de descansar um pouco mais.
- Óh, eu já não sirvo para nada...
- Não digas isso, nem penses numa coisa dessas. As tuas memórias felizes não te vão deixar, elas estarão sempre aí, eu tomo conta delas. Daqui a uns dias vais voltar a conseguir tricotar outra vez.
- Achas? Como?
- Acredita em mim! Nós estamos aqui para te ajudar.
As duas têm uma longa conversa, riem, bebem um chá juntas, e a Avó adormece quase de manhã. A luzinha sua amiga cobre-a com carinho, com uma grande manta que a Avó fez, e calça-lhe umas luvinhas mágicas que lhe tiraram a dor. Deixou-lhe uma flor com uma mensagem: «Querida sonho, voltarei em breve! Continua a tricotar memórias felizes.»
Quando a Avó Sonho acorda, fica surpresa, mexe as mãos e para grande felicidade, não sente dores. Volta a tricotar, e faz um cachecol sobre as suas lágrimas que chorou nessa noite, e linhas mais coloridas que representavam a felicidade de já não sentir dores, e de poder voltar a tricotar. Mas percebeu que não podia fazê-lo durante muitas horas, como antes, e aprendeu a fazer outras coisas que gostava, mas nunca deixou de tricotar. Tricotava sempre com um enorme sorriso, e toda a família ficou feliz com essa recuperação da Avó Sonho.
A sua amiga luzinha tinha toda a razão, e voltou para partilhar com ela mais momentos felizes. Por serem recordações felizes é que tudo o que a Avó Sonho tricotava era tão especial e bonito! Quando estamos felizes tudo é mais bonito, temos mais saúde, ficamos mais bonitos, e deixamos outros com mais luz, porque talvez possamos fazer parte das suas recordações felizes, que os fazem sorrir.
E vocês? Se tricotassem, ou se tivessem uma Avó Sonho que tricotasse, que cores usariam? Que recordações tricotariam?
FIM
Lálá
(13/Dezembro/2017)



