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quinta-feira, 18 de abril de 2024

A surpresa dos pacotes dourados

 A surpresa dos pacotes dourados 


Foto de Lara Rocha 

    Era uma vez um cesto com uns pacotinhos dourados muito atraentes, brilhantes, que apareceram num descampado, onde pastavam animais. 

    Uma alma solitária passeava durante a noite, sobre um céu de lua cheia, e estrelas cintilantes. Essa pessoa já conhecia a zona de trás para a frente, e da frente para trás, todos os esconderijos, todas as árvores, todos os animais.  

    Mas viu uma coisa nova, nesse passeio noturno, que o deixou muito surpreso. Os animais estavam calmos, por isso não seria ameaçador, ficou muito intrigado com uma cesta que continha pacotinhos de luz dourada. 

    Olhou, voltou a olhar, olhou outra vez, rodeou a cesta, ansioso por lhe tocar, até que um esquilo grita de uma árvore: 

- Não mexas aí. 

    O rapaz estremeceu, olhou para o esquilo: 

- É teu? 

- Não! 

- Então porque não posso mexer? Quero ver o que é, se é perigoso para nós. 

- Não, não é perigoso para nós. 

- Como é que sabes? 

- Porque tem uma luz dourada. 

- E o que é que isso garante que é seguro? 

- É. 

- Quem pôs isto aqui? 

- Não sei. 

- Apareceu aqui do nada...? 

- Sim. Bem, quer dizer...do nada não deve ter sido, mas também não sei quem foi, nem para quê! 

- É tão bonito...até apetece tocar. 

- Mas é melhor não tocarmos.

- Porquê? 

- Porque não é nosso. 

- Pois, aí tens razão! 

    Aparece o dono da cesta: 

- Mexeste aí? 

- Não! Estava só a olhar. Porquê?

- Porque vou ser eu que vou distribuir estes pacotinhos pelas portas. 

- Áh! Que lindos, e o que têm? 

- Têm coisas especiais. 

- São de comer? 

- Alguns. 

- E outros? 

- Outras coisas. 

- De onde vieste? 

- Das estrelas! 

- Das estrelas? (ri) Só se for nos teus sonhos. 

- É verdade. Vim das estrelas, são desejos que me pediram. 

- Desejos? (ri à gargalhada) Coitadinhos, santa inocência…!

- O quê? Nunca tiveste desejos? 

- Sim, mas nunca se realizaram, nem foram distribuir pacotinhos dourados pela porta, com os desejos realizados. 

- Porque não eram possíveis de realizar, ou não pediste com o coração. 

- E quem pediu esses? 

- Muita gente. 

- Esses são realizados? 

- São! Com licença, vou ao meu trabalho. 

    Pega na cesta, e começa a distribuir os pacotinhos dourados pelas casas, e põe-nos na beirada da janela. Uns pacotinhos tinham rebuçados com sabor a fruta, outros tinham um pozinho e quando abrissem sairia um animalzinho. 

    Outro pacote tinha sorrisos, que se espalhariam por todo o lado. Outro muito grande, tinha abraços para todos, cada um ia recebê-los quando alguém abrisse o pacotinho. 

    Noutro pacotinho estava um irmãozinho para uma criança que pediu esse desejo, noutro tinha um passarinho, noutros, um lindo boneco que dava luz, para umas crianças que tinham medo do escuro. 

    Noutro muito grande, havia comida, que chegaria para cada um, e outro seria levado para países onde há fome. Outro pacote muito grande, tinha pontinhos de luz, que eram todos os pedidos de cura, para quem sofria, por parte de adultos e crianças, que pediram esse desejo, seriam espalhados por todos os hospitais e casas que precisavam. 

     Outro pacotinho tinha livros, a pedido de uma criança que adorava ler, mas a família não tinha dinheiro para comprar muitos livros, o que o deixava muito triste. 

     Mas o maior pacote dourado de todos, continha o pedido de Paz para o Mundo, era tão grande, que o dono da cesta teve de saltar em cima dele, para o abrir, fez um grande estrondo. 

    A alma solitária que tinha falado com o dono da cesta, estremeceu, e gritou: 

- Mentiroso! A dizer que os pacotinhos não eram perigosos, e tinham desejos. Tinham era bombas. 

    E vai a correr ver se o encontra. Quando o vê, murmura: 

- Afinal…

    Aproxima-se dele: 

- Então disseste que esses pacotinhos dourados não eram perigosos, e ouvi um estouro...têm bombas? 

    O dono da cesta ri: 

- Para de dizer disparates e olha à tua volta, olha para o que está a acontecer diante dos teus olhos, e ali, aquelas partículas douradas a circular. 

    Abriu, e todo o pó espalhou-se no ar, onde era possível ver as partículas luminosas a seguir o seu caminho por toda a atmosfera, e dirigir-se para esses países. 

- É pó tóxico? 

- Não, claro que não. É um pó muito especial, vais já ver qual é. 

    Todos se assustaram com o estrondo, abriram as janelas e as portas, viram os pacotinhos, viram o dono da cesta, e as partículas douradas pelo céu, quase se confundiam com as estrelas. 

- Este é o vosso maior desejo, comum a todos, e lá vai ele… olhem que bonito! E estão aí os de cada um. - diz o dono da cesta. 

    Todos aplaudem, felizes, maravilhados com aqueles pontos de luz dourada, para a paz no mundo, e para a cura de quem estava em sofrimento, por doenças e outras razões. 

    Cada um abre o seu pacotinho e agradece ao dono da cesta, todos ficam com uma lagriminha de felicidade ao ver que o desejo de paz e de cura para quem sofre, ia a caminho, e seria realizado. Esperavam e acreditavam eles. 

- Desculpa. Tinhas razão! É mesmo especial. 

- Nunca pediste esse desejo? 

- Não, mas daqui para a frente vou pedir. 

- Boa! Vais vê-lo assim! 

- Gratidão! - gritam todos, e aplaudem. Abraçam-se, sorriem, ficam a apreciar as viagens das partículas douradas pelo céu. 


                                            FIM 

                                       Lara Rocha 

                                     18/Abril/2024 

    Vamos pedir também esse desejo? 

Todos e cada um de nós, vamos pedir um pacotinho dourado de Paz para o Mundo, o fim do Sofrimento, e da fome, o fim da Guerra, a cura para quem está doente e a sofrer? 

    Vamos acreditar que veremos esse pozinho dourado a cobrir os céus, juntamente com as estrelas, e que esses nossos desejos vão realizar-se? 

    Que desejos pediriam? 

Incluíam esses desejos de paz, e cura? 

Como imaginam essa cestinha? 

E os pacotinhos dourados? Acreditam ou acreditariam, acreditarão que esses desejos podem ser realizados? 

Porque não experimentamos, pedir com o máximo de pessoas com quem nos damos bem, e nós próprios, todas as próximas noites, pedir um pacotinho de paz e cura para o Mundo? 

Podem deixar nos comentários, se quiserem :) 

                                    


terça-feira, 25 de julho de 2023

De que cor é a paz?


aguarela 


    Era uma vez um menino que andava muito pensativo, sobre a Guerra e a Paz. 

    Não gostava nada do que via na televisão sobre os países em guerra, nem de ouvir os adultos a falar sobre Guerra, mas era o que existia. 

    Chorava quando ia dormir, agradecia por o seu país ter Paz, e por tanto ele como a família estarem em Paz. Pedia nas suas orações em conjunto com a família, que a Guerra acabasse e que houvesse Paz. 

     Antes de ir dormir, aquelas imagens e a pena que sentia daquelas pessoas, perturbavam-no, mesmo não estando lá, porque conseguia imaginar-se naqueles sítios, imaginava o que ele próprio sentiria e a sua família se algum dos seus estivesse lá. 

     Adormecia com as lágrimas a cair, mas acreditava que um dia a Guerra acabaria. Para tornar o sono mais agradável, depois de pensar na Guerra, pensava e perguntava-se: 

- Será que a Paz só tem a cor branca? Ou será que tem as cores da bandeira onde andam em Guerra, e as nossas em so...li...soli...solidaridade...ai...solidariedade, acho que é assim que se diz. 

        No dia seguinte, de manhã, ao pequeno almoço, perguntou à mãe: 

- Mãe...de que cor é a Paz? 

- É branca! 

- Será que não tem outra cor? 

- Não. Despacha-te mas é, esquece lá a cor da paz...! Temos de sair a seguir. 

- Está bem! 

        Entra o pai, e o menino pergunta: 

- Pai, de que cor é a paz? 

- É da cor do não me chateies, que estou cheio de pressa e do despacha-te! 

- Porque é que estão tão zangados? Também querem a Guerra, é? 

- Come e despacha-te. - gritam os dois 

- Deixa lá a Guerra, ela não está cá. 

     O menino fica tão triste, que quase não toma o pequeno almoço, e os pais cheios de pressa nem reparam. 

     Engolem os deles, pegam no menino, metem-no no carro e vão depressa levá-lo ao colégio, a mãe num carro e o pai no outro, com velocidade, a murmurar, a resmungar baixinho, a bufar, por causa do trânsito, a buzinar, a bater com as mãos no volante. 

     Nem um beijo deram um ao outro, nem ao menino, largam-no à porta do colégio e avisam-no que a Avó vai buscá-lo ao fim do dia. 

      O menino está triste como a noite. Entra na sala, cumprimenta a educadora, senta-se num canto triste. 

     A educadora vai ter com ele, preocupada, e pergunta: 

- Então, príncipe, estás muito triste hoje, o que aconteceu? 

    O menino desata num pranto, a educadora abraça-o, acaricia-o na cara, e o menino a soluçar responde: 

- Os meus pais hoje foram maus comigo, como são sempre. 

- Foram maus…? Mas....o que fizeram? Bateram-te? 

- Não. Gritaram comigo, eu perguntei se a paz tinha outra cor, mandaram-me despachar, disseram que a Paz tinha a cor do não me chateies e do despacha-te...isso não são cores, pois não? 

- Não! 

- Estão sempre a correr, sempre a gritar um com o outro e comigo, eu não gosto da Guerra, choro sempre à noite, por aquelas imagens, e agradeço por estarmos em paz, mas afinal, os meus pais não fazem pela paz, fazem Guerra. 

- Óh, meu querido, isso é muito bonito de tua parte. Os teus pais fizeram isso sem pensar, estavam com pressa para ir para o trabalho, os adultos são assim. 

- Nem deram um beijinho um ao outro, nem a mim...eu não gosto quando eles falam assim um com o outro e comigo! Parece que gostam da Guerra. 

- Não, eles não pensaram, só estavam com pressa, mas de certeza que te amam, e que querem a paz. 

- Mas, eu queria saber se havia outra cor da paz...eu gosto da Paz. Não sei porque ficaram tão zangados com essa pergunta! 

- Vais ver que à noite, já estão mais calmos. 

- Não gosto de os ver sempre a correr. Tu também corres? 

- Às vezes, sim, corro, quando me atraso, e às vezes também resmungo com o meu marido e com os meus filhos, mas gostamos da paz, fazemos pela paz, e ao fim do dia estamos todos bem. 

- Porque é que fazem isso? 

- Olha, porque...os adultos são uns apressados! Deixa lá, agora vamos mas é brincar! 

- Mas, e tu, achas que a Paz tem outra cor? 

- Huuummm… a paz tem a cor branca! Mas sim, pode ter outra cor. Que agora não sei. E tu, achas que a paz pode ter outra cor? 

- Sim! Azul, ou...amarelo, ou verde. 

- Áh, sim? Porquê?

- Azul porque é a cor do céu, do dia, o amarelo porque dá claridade e luz, o verde porque é natureza, e traz bem. 

- Olha, muito bem visto! Concordo contigo. Essas cores também me trazem Paz. Gosto muito dessas cores. 

- Eu também. 

- Agora lembrei-me de outra cor da paz…

- Qual? 

- A do sorriso! 

- Áh! Sim, e a dos abraços...-diz o menino

- Também! 

     A educadora abraça o menino, e este retribui o sorriso e o abraço. 

- E qual é a cor dos abraços? - pergunta o menino

- São muitas cores! Todas as alegres. 

- E a cor dos sorrisos? 

- Todas as cores alegres. 

- Tu gostas dessas cores? 

- Adoro. E tu? 

- Eu também. 

- Vamos lavar a carinha, brincar com os meninos e tu pode ir perguntando ou perguntamos na roda, aos outros meninos qual é a cor da Paz, combinado? 

- Combinado. 

   O menino abre um grande sorriso, vai brincar com os meninos, alegre, e quando se sentam na roda, a Educadora pergunta: 

- Meus amores...hoje o nosso amiguinho trouxe uma pergunta muito boa e bonita: qual é a cor da Paz? Eu quero saber o que cada menino acha! 

- Branca! - respondem em coro 

- Mas que outras cores podem ter? 

- A cor dos abraços. - diz uma menina 

- Que lindo! - diz a educadora 

- Tem a cor de quando nos portamos bem! - diz um menino 

- Gosto muito dessa cor! - diz a educadora a sorrir 

- Azul. - diz uma menina 

- Boa! Gosto muito dessa cor, para mim também me faz sentir paz. 

- É a cor dos jardins! - diz uma menina 

- Boa! Qual é a cor dos jardins? 

- São muitas. Verdes, todas as cores das flores. 

- A água! 

- Os rios! 

- Os lagos!

- Os pássaros. 

- A cor da amizade! 

- A cor dos risos. 

- A cor dos sorrisos. 

- A cor das estrelas e dos animais.

- A cor do carinho. 

- A cor de algumas canções! 

- A cor do canto dos pássaros. 

- A cor das borboletas e das joaninhas.

- A cor do vento. 

- A cor da chuva. 

- A cor das árvores, das folhas nas estações do ano. 

- A cor do dizer «bom dia», do «obrigado», do «gosto muito de ti». 

- A cor da praia. 

- A cor do mar. 

- É os pais não andarem sempre a discutir. 

- Pois, os meus andam sempre a discutir. 

- Os meus também! Às vezes nem falam comigo, só quando eu saio de onde eles estão. Apetece-me pô-los de castigo, ou dar-lhes umas sapatadas, como eles fazem.

      Todos dão uma gargalhada. 

- Não gosto nada quando eles fazem isso! 

- Nem eu! 

- Os adultos são mesmo assim. - diz a educadora 

- É os pais não andarem sempre a correr. 

- Os meus pais estão sempre a correr, engolem o pequeno almoço, fazem-me correr e engolir o pequeno almoço. 

- Os meus também. 

- Mas isso não é paz. 

- Depois de certeza que fazem as pazes…! 

      E ficam ali um bom bocado de tempo a dizer as cores que achavam que tinham a paz, na verdade, era tudo o que lhes trazia paz, o que os fazia sentir paz. 

      A falar de paz, e de Guerra, dão as mãos e pedem pela paz. O menino estava feliz com tanta coisa bonita que ouviu, e para ele tudo o que ouviu também eram as cores da paz. 

     No fim do dia, a Avó vai buscá-lo ao colégio, abraça-o, beija-o, e leva-o para sua casa, faz-lhe um lanche com tudo o que ele gosta. O menino pergunta ao Avô: 

- Avô, a Paz tem outras cores? 

- Sei lá, nunca a vi! 

- Já parecem as respostas dos meus pais! - diz o menino 

- Ááááhhhh...então não vives em paz comigo? - diz a Avó 

- Tem dias! - diz o Avô 

- Avó, para ti qual é a cor da paz? 

- Hummm…são muitas cores! 

      Enquanto o menino lancha com a Avó, a Avó diz-lhe cores parecidas com as que os meninos disseram. O menino sorri:

- Obrigada, Avó! Disseste coisas parecidas com o que os meninos disseram hoje. É que os meus pais estão sempre zangados, a correr, sempre a mandar-me despachar, sempre a correr, sempre a resmungar...eu acho que eles não conhecem a Paz. Eu não gosto da Guerra, quando adormeço peço sempre para a Guerra acabar, e agradeço por estar em paz, afinal vem os meus pais e andam em guerra. 

- Santa Inocência! - murmura e ri o Avô 

- Não, filho. Não andam em guerra, andam é mais nervosos, com muitas coisas a fazer, pensam em muita coisa ao mesmo tempo, atrasam-se, é o trabalho, é o trânsito...mas isso não é Guerra.

- Gritam um com o outro, e comigo, mandam-me despachar, fiz esta pergunta, o meu pai disse que era a cor do despacha-te e do não me chateies, nem repararam que eu nem tomei o pequeno almoço todo. Não me deram beijinhos, foram o caminho todo a resmungar. 

- Tu quando fores mais crescido, vais perceber melhor, mas não é Guerra, como a da televisão. 

- Mesmo assim não gosto. 

- Eu sei, mas é normal. 

     A Avó conversa com o menino mais um pouco, os pais vão buscá-lo quase à noite, e veem que o menino não quer ir. 

- Então filho? 

     Ele não responde, está triste. 

- Fez queixinhas. - diz a Avó 

- De quê? - perguntam os dois 

     A Avó conta a conversa que teve com ele, os pais ficam envergonhados, pegam nele ao colo, pedem desculpa, abraçam-no, beijam-no. 

- Eu não quero ir para a Guerra, nem para casa, para vos ouvir sempre aos gritos um com o outro, e comigo, a mandar despachar-me, ou a dizer que não me chateies. 

- Desculpa, filho. Estávamos nervosos, cheios de coisas para fazer, mas agora estamos mais calmos. 

- Não interessa. Magoaram-me! E magoam-me muitas vezes com as vossas pressas...parece que não existo. Só sirvo para vos atrasar, e para ser mais uma coisa a fazer. 

- Não, não é isso. 

- És o nosso filho, trabalho é trabalho, filho é filho. 

- Não parece. Vocês não gostam um do outro, nem de mim. 

- Claro que gostamos, amamo-nos, e a ti também. 

- Então porque estão sempre aos gritos um com o outro, a bufar, a gritar comigo, a mandar-me despachar...sempre a correr...isso é Paz? Não conheço essa cor, como Paz. 

- Desculpa, filho! - dizem os dois 

- Os adultos às vezes são muito mauzinhos, mas não é por mal. É sem querer, sem pensar. 

- Mesmo assim, amam-se e amam os filhos. 

- Como te amamos a ti. 

- A Avó não grita comigo, nem me manda despachar. Vou ficar com ela. 

- Prometemos que não voltamos a fazer isso, está bem? 

- Não acredito! 

- Podes acreditar. 

- Só estão bem no meio da Guerra, para vocês não existem cores da paz. Que tristeza! E deixam-me muito triste. 

- Nós sabemos

- Vamos! - diz a mãe 

- Jantamos e brincamos contigo, contamos-te uma história… pode ser? 

- Não acredito que vão fazer isso. Estão sempre com pressa! Até ao jantar, e para me deitar. 

- Mas a partir de agora vai ser diferente! 

- Se não for diferente, eu fujo para a casa da Avó. 

- Está bem. - diz o pai a rir 

- Vamos? - diz a mãe 

- Avó, está atenta ao telefone, se faz favor. Eu não acredito neles! 

- Obrigado, filho, por nos abrires os olhos! - diz o pai, triste 

- Obrigada, meu amor...não imaginávamos o quanto sofrias. 

- Mas em casa, explicamos-te, ou quando cresceres. 

- Eu não quero ser grande...quero viver sempre na Paz. Vocês nem sabem as cores da Paz, não veem nada, como podiam ver a minha tristeza…? É sempre o despacha-te, não há bom dia, nem beijinhos… 

- Tens razão! - dizem todos 

     Todos riem, e lá convencem o menino a ir para casa. Nesse dia cumprem o que prometeram e viram a diferença na criança. 

     Nos dias seguintes, sempre que podiam, evitavam discutir um com o outro, e gritar com a criança. 

     E para vocês…? Qual é ou quais são as cores da Paz, além do branco? Porquê? (crianças e pais, tios, avós...) 

Já pensaram nesta situação real em muitas famílias? A correria todas as manhãs, outras prioridades, em vez de estar inteiros com os filhos? Já imaginaram como eles se sentirão? Mesmo que as vossas preocupações sejam compreensíveis? Já agradeceram o vivermos num país em Paz? Tudo o que temos, e tudo o que os inocentes em Guerra perderam? 


Coisas simples, podem encher-nos de Paz. 


Podem deixar nos comentários se quiserem.

                                            FIM 

                                     Lara  Rocha 

                                   25/Julho/2023 





quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

a vela e a lua

fotos de Lara Rocha 


Era uma vez uma vela que estava à janela da sua casa, apagada, à noite, e lembrou-se de olhar para o céu cheio de estrelas cintilantes. Era um momento que ela repetia muitas noites, para descansar, e relaxar, já conhecia muitos barulhos noturnos, entre cigarras, grilos, corujas a cantar, água a correr, vento, folhas a abanar, chuva, trovoada, neve, e às vezes descobria novos barulhos.                                             Quando estava mau tempo, ela ficava a apreciar a tempestade da janela do seu quarto, às vezes juntava-se com outras velas que tinham medo, outras vezes faziam reuniões e festas, pediam para as Guerras acabarem, e haver paz. 

Mas nessa noite, ouviu uma voz pequenina: 

- Boa noite! 

- Quem está aí? 

            Que grande susto que ela apanhou, recuou, estremeceu, voltou à janela com uma chama enorme no seu pavio, era o seu coração acelerado. Procurou da janela, olhou para todo o lado e ouviu risinhos. 

- Quem está í? - pergunta a vela muito assustada 

- Sou eu... estou aqui em cima! - diz a lua 

- Onde? (olha para cima) Não vejo nada, nem ninguém. 

- Aqui... sou a Lua.

             A vela já tinha visto a Lua muitas vezes, mas não tão bonita como estava nessa noite! 

- Áh! Olá! Desculpa, pensei que era um visitante aqui nas redondezas da minha casa. - explica a vela 

- Não faz mal (ri a lua). Não queria assustar-te. Mas vi-te aí tão quieta, tão silenciosa, e escura! Estás triste? 

- Não. Estava a descansar. Eu gosto destes momentos de silêncio e sossego, gosto muito de ver as estrelas, e a ti,  Lua. Pensei que não falavas! 

- Óh, desculpa interromper o teu descanso, não sabia. 

- Não faz mal. 

- Hoje estás especialmente bonita. Desculpa a minha indiscrição, mas vais a algum sítio especial, alguma festa? - pergunta a vela 

- Não. (ri a lua) É que sou a Lua Cheia, a maior de todas, a mais luminosa, é a minha vez de iluminar a noite. 

- Sei. Mas que linda. 

- Eu ia propor-te um passeio e um jogo, queres? 

- Um passeio, e um jogo...? Hummm... está bem. Porque não? E onde vamos? Tu vens cá abaixo? 

- Olha para o chão à tua volta. Já estou aí. - diz a lua  

- Áhhhh... Estou a ver uma claridade diferente. 

- Pois, sou eu. 

- E estás aí em cima? 

- Sim. 

- Então como vamos jogar, e passear? 

- Já vais ver. Eu acompanho-te, Ora, sai de casa, então. 

            A vela sai, intrigada, com o seu pavio aceso, de forma mais pequena, e olha para a lua. 

- E agora? 

- Agora, começa a andar por onde quiseres. Olha à tua volta, e vê as diferenças, vê o que muda...vês... eu também estou a andar contigo! 

- Áh, que giro! Como é que estás aí em cima, e aqui em baixo ao meu lado? 

- Magia...?! (ri) Não. É mesmo isso que acontece. 

            A vela enfraquece a sua chama para ver melhor a diferença da luz da luz refletida no campo. Corre, e vê que a luz da lua a acompanha, mexe-se e a lua parece que se mexe para a acompanhar. 

- Estou encantada a ver isto, mas...qual é o jogo, afinal? 

- É este. Para onde quer que vás, eu vou também, tu mexes-te, e eu mexo-me ao teu lado, à tua frente.

- A minha sombra é muito mais pequenina que a tua. - repara a vela 

- Claro que é! Mas é bonita. A minha luz e a sombra que veem aí em baixo é muito maior, porque estou muito cá em cima, para iluminar a noite, nesta via láctea que nunca mais acaba, tenho de ser muito maior. As estrelas que tu vês daí, parecem pequenas mas na verdade, também são enormes. 

- A sério? 

- Sim. 

- Realmente parecem mesmo pequeninas. 

- Pois, e eu gigante, como o sol.

- Sim. Mas aí em baixo só me veem quando estou neste formato. 

- Óhhh....a minha luz desaparece à beira da tua! 

- E depois? - pergunta a lua - os candeeiros também dão a luz que precisam de dar, e não deixam de ser candeeiros, a luz deles é importante, e não é como a minha. Querias ter uma luz maior? 

- Queria! 

- Para quê? 

- Para levar paz ao mundo! 

- Isso é bonito! Mas...E achas que uma vela só, como tu, vai chegar para levar paz ao mundo? 

- Pois. Sou demasiado pequena! A minha luz é demasiado fraca... 

- A Guerra é muito maior do que milhares de velas, ou milhares de luas. Mas não é a intensidade ou o tamanho da luz das velas, que vão mudar o mundo. A vossa intenção é ótima, mas até entre vocês, velas, existem tamanhos que dão luzes maiores outras mais pequenas, não é? 

- Sim, é verdade. 

- Cada vela é importante, mas uma só não chega para o tamanho da maldade humana, comos os que fazem a Guerra. 

- Pois, acho que tens razão! Tu vês a Guerra aí de cima? 

- Sim, infelizmente vemos! 

- Eu e muitas velas juntamo-nos muitas vezes, encostamo-nos umas às outras, umas vezes acendemo-nos umas às outras, pensamos em Paz, pensamos em saúde para todos os humanos e animais, desejamos em conjunto que a Guerra acabe. As nossas luzes ficam muito mais fortes, mais puras nessas noites e nesses lugares por onde passamos. 

- Áh, que bonito! Acho que já vos vi a fazer isso! 

- É, mas não funciona. 

- Funciona, claro que funciona, para vocês, que sentem paz, e fazem quem olha para a vossa luz, sentir paz! Isso é muito bom! Vocês servem para muita coisa aí em baixo. 

- Sim, é verdade...Como é que sabes? 

- Nós sentimos cá em cima! 

- A sério? 

- Sim! 

- A tua luz, também é relaxante. 

- Então porque é que a Guerra não acaba, com as nossas luzes? 

- Pois...gostava de saber responder a essa pergunta, mas não sei. Nem sei porque fazem a Guerra, se a paz é muito melhor! Eu gosto das vossas luzes! 

- Obrigada! - sorri a vela

            A vela e a lua continuam a conversar e a brincar às sombras, a comparar o tamanho da luz de uma e o tamanho da luz da outra, em diferentes sítios, correm, brincam, saltam, riem, dançam, a Lua vê o seu reflexo nos ribeiros, e a vela também. 

- Olha que grande que pareço aqui. - diz a vela 

- Sim, é verdade, e olha eu....áh, áh, áh, pareço uma bola ainda maior, cheia de ondas, ou às riscas. 

- É da água em movimento. E olha a minha chama, que esquisita! 

          As duas dão uma gargalhada, mexem-se, colocam-se em diferentes posições, a vela conta coisas sobre o lugar onde mora, mostra à Lua pormenores que ela nunca tinha visto. 

- Que giro que é o lugar onde vives. Olha, eu ficava aqui contigo o resto da noite, mas vejo que estás cansada, vou deixar-te descansar. 

- Sim, é verdade, estou com sono, e cansada, mas estava tão bom, eu estava a gostar tanto de falar contigo. 

- Não te preocupes, voltarei noutro dia! 

- Adorei as nossas brincadeiras. 

- Eu também! Uma boa noite, amiga. 

- Obrigada, Boa Noite para ti também e para vocês todos aí. Adoro ver-vos. 

- Continuem a juntar-se, vocês, velas, porque não podem acabar com a Guerra, mas enquanto estão juntas, sente-se paz à vossa volta, isso é o mais importante, e transmitem coisas boas para a Terra, para vocês! Não desistam. 

- Combinado! Obrigada por este bocadinho. - diz a vela 

- De nada! Obrigada eu. Até breve! 

         A vela recolhe para a sua casa, e a Lua continua lá em cima, linda, enorme, luminosa, sorridente. Ganhou uma nova amiga, e fez a vela sentir-se apreciada, querida, mesmo pequenina, é importante. Algum tempo depois, a vela junta as amigas e apresenta-as à Lua, repetem as brincadeiras, e divertem-se. A lua tornou-se a sua melhor amiga. 

         Cada vela, cada vida humana ou animal importa, mesmo que seja simples, cada um tem a sua própria luz, maior ou menor, umas vezes mais forte, outras vezes mais fraca, mas precisam da luz uma das outras. 

                                                                        FIM 

                                                                    Lara Rocha 

                                                                      23/2/2022 

            

sábado, 23 de outubro de 2021

Uma criança sentada à beira do rio


    
       


 Um dia uma criança imaginou...uma criança sentada à beira do rio, deixou que a sua imaginação mergulhasse naquelas águas, que pareciam lágrimas. Ele sabia que o mundo que pensava ser cor de rosa, cheio de amor, paz, igualdade, alegria, carinho, atenção, cheio de felicidade e coisas boas, afinal não existia. 

        Os adultos contavam cada coisa, que ele pensou que realmente não existia um mundo assim tão bom! Seria por isso que as águas para onde olhava pareciam lágrimas. Ele até achava que as águas liam os seus pensamentos, ou o seu coração e percebiam que estava triste. 

        A criança sentada à beira do rio, começou a imaginar...que era uma nuvem enorme, cheia de gotas. Cada gota que se desprendia dela tinha a sua função. Uma caiu numa testa, acariciou os olhos e a cara de alguém que não conseguia chorar. 

        Outras regaram terras secas onde não havia alimento e depois delas caírem nessa terra, tiveram o que comer. Outras curaram doentes, outras aliviaram dores, outras desataram nós nas gargantas e outras cicatrizaram corações feridos. 

        Outras transformaram-se em luz, e fizeram povos em guerra, dar as mãos e chorar pela paz. Outras fizeram companhia e transformaram-se em vozes amigas para quem sofre. Outras brilharam em olhos felizes, e em sorrisos sinceros.

        Ficou tão feliz com o que imaginou, que deixou cair algumas lágrimas naquelas águas, e ondularam-nas. Se tudo isto não fosse um sonho e se cada um tivesse lágrimas como estas, o mundo seria mais humano. 

        Haveria mais paz, amor e felicidade. Mas foi só imaginação de uma criança, que se misturou com as águas que viu, ao que juntou a sua vontade de um dia isto acontecer. 

E vocês, leitores, se fossem como esta criança que se sentou à beira do rio e imaginou um mundo melhor, o que imaginavam? 

                                                    FIM 

                                                Lara Rocha 

                                              28/Agosto/2015 

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

o menino e o papagaio especiais






            Era uma vez um menino que vivia numa aldeia, e passava parte das suas tardes a lançar um papagaio, de plástico, colorido, preso por um fio à sua mão, a correr livre e solto, feliz, com um grande sorriso a levar com o vento na cara que brincava com os seus cabelos encaracolados. Era um menino sorridente, e o papagaio não se cansava de voar ao sabor das suas corridas pelos campos. 
           Os dois conversavam muito, o papagaio contava ao menino coisas que via de cima, e o menino ouvia-o encantado, conseguia imaginar o que o papagaio descrevia. 
Um dia, o menino contou ao seu papagaio o seu desejo de levar uma luz que curasse doentes, aos lugares onde houvesse, e milhares de luzes para que houvesse paz no mundo. O papagaio riu, mas ficou pensativo. 
          Ambos sabiam que ia ser difícil isso acontecer, mas acreditavam que talvez um dia fosse possível acontecer, também não sabiam onde iam arranjar essas luzes tão poderosas, se os médicos não conseguiam curar todas as doenças! 
         Fizeram o seu dia-a-dia normal, as suas corridas e brincadeiras, conversas, e não pensaram mais no assunto. À noite, o menino não conseguia dormir, estava inquieto, dava voltas e mais voltas na cama, mexia e remexia, cobria-se, destapava-se, mas o sono não vinha. Ficou a pensar no seu desejo, e como poderia realizá-lo. Decidiu que iria pedir ajuda ao feiticeiro da aldeia. Sossegou, adormeceu e sonhou com o seu desejo. De manhã, foi a casa do feiticeiro, explicou-lhe o seu desejo, e o feiticeiro riu com vontade: 
- Meu filho, isso é o desejo do mundo inteiro, de todas as pessoas do bem que não praticam a guerra. Eu sou feiticeiro, mas não vou poder realizar esse teu desejo! Desculpa. 
- Porque não? 
- Porque não há nenhuma magia que eu possa fazer para que as pessoas maldosas deixem de pensar em guerra. 
- O amor não pode fazer isso? 
- Pode, mas não há amor assim...por aí, à venda. Tem de vir do coração de cada um de nós, juntamente com a felicidade, a bondade, a vontade de ser bom, e a humildade. O amor é mágico, mas os feiticeiros não podem fabricá-lo! Tem de partir de cada um, já tem de estar em cada um. 
- E os sorrisos? Os abraços? 
- Tudo isso é bom, é do bem, só existe nos corações, eu também não posso fabricar. 
- Porque não? 
- Porque isso também não há assim à venda, há dentro de algumas pessoas, as pessoas que fazem bem, no coração delas, eu não posso andar por aí a roubar bocadinhos de amor, de abraços, e sorrisos, ou outras coisas bonitas. 
- Mas não podes criar uma luz que transmita paz, e que se solte nos sítios que mais precisam? 
- Hummm...não sei. Acho que não! Mas, agora vai brincar, se eu conseguir digo qualquer coisa. 
- Está bem, obrigada. 
            O menino saiu, e o feiticeiro riu às gargalhadas. 
- Santa Inocência! Coitadinho... 
            E continuou a rir, mas de repente parou, pensativo: 
- Espera ai...ele é inocente, mas...uma luz que acalme... talvez consiga criar! Pelo menos para ele não ficar tão triste, e até pode ser que funcione! Uma luz que acalme...que transmita paz....
            Revirou vários livros, procurou, pediu inspiração, e conseguiu criar umas luzinhas muito leves, de cores muito suaves, que acreditava acalmarem. Chamou o menino e comunicou-lhe a invenção. O menino ficou todo iluminado com um sorriso de orelha a orelha. 
- Mas como vais lançar estas luzinhas? - Pergunta o feiticeiro 
- Presas no papagaio. 
- Áh! Está bem! Boa sorte...e vamos acreditar que vão funcionar. Pede ao vento que tas leve para os países em guerra. 
- Está bem! Muito obrigada. 
          O feiticeiro guarda as luzinhas todas num saco. 
- São lindas...! - Diz o menino quase hipnotizado
- Sim, são. - Diz o feiticeiro 
         O menino agradece mais uma vez, e vai logo ter com o seu amigo papagaio. Prendeu as luzinhas no papagaio, e explicou para pedir ao vento que as leve para longe, mas pelo caminho podia largar as luzinhas em muitos sítios onde havia pessoas doentes. O papagaio estava preparado, orgulhoso e feliz por levar umas luzinhas tão poderosas, que acreditava cumprirem o seu desejo. 
- Vai amigo! Boa sorte, estou aqui... vai-me dizendo para onde devo levar-te. 
- Combinado! 
          O menino corre de um lado para o outro, como sempre livre, leve, solto, feliz, e o papagaio voa ao sabor dos seus movimentos, dando indicações ao menino para onde virar. Em todos os sítios onde chegou e sabia que havia pessoas doentes, largou centenas de luzinhas, que seguiram o seu caminho, e foram ter com quem mais precisavam. As pessoas melhoraram e ficaram curadas. 
           Depois, pediu ao vento para levar as luzes para mais longe, onde havia guerra. As luzes voltaram para os campos do menino, umas semanas depois, todas furadas e fundidas, umas largas centenas. O menino nem queria acreditar! Os dois choraram destroçados, perceberam logo que a maldade tinha ganho nesses países, e que até desfizeram as luzes. Começaram a pensar em como estariam as pessoas...se as luzes estavam naquele estado...como não estariam as pessoas, e as crianças, as casas...tudo! 
- O feiticeiro tinha razão! O amor não se vende por aí, tem de vir do coração de cada um de nós, juntamente com a felicidade, a bondade, a vontade de ser bom, e a humildade. O amor é mágico, mas os feiticeiros não podem fabricá-lo! Tem de partir de cada um, já tem de estar em cada um. - Diz o menino ainda a chorar
 - Óh! E nós temos isso tudo, porque nos devolveram as luzes naquele estado? - Lamenta o papagaio 
- Porque não tinham o mesmo que tu, filho! - Diz o feiticeiro que apareceu de repente, sem se saber de onde. 
- Ai que susto...estava tão mergulhado na minha tristeza que não te vi chegar. Já viste o que aconteceu? As luzes que mandei para os países em guerra, voltaram todas furadas! - E desata outra vez a chorar. 
- Claro! Entendo a tua tristeza! Eu disse-te que não podia fabricar paz, tentei fazer umas luzes que despertassem a paz, mas a maldade é tanta que eles nem as viram, não perceberam para que eram! 
- As outras foram entregues, e resultaram! - Diz o menino a chorar 
- Pois! As que curaram. Porque essas pessoas precisam de amor, de abraços, de todos os ingredientes vindos de corações bons, puros, como o teu! O teu desejo era sincero e funcionou.- Diz o feiticeiro 
- Mas o meu desejo para a paz nos países em guerra também era sincero! - Garante o menino 
- Não tenho dúvidas disso. Mas o deles não era! Foi por isso que elas voltaram. - Diz o feiticeiro 
- Óh, estou tão triste! - Diz o menino
- Eu também. Tinha tanta esperança que iam funcionar! - Acrescenta o papagaio
- Parte dela funcionou! Deves sentir orgulho e ficar feliz por isso.- Diz o feiticeiro
- E a outra? - Pergunta o menino 
- Com a outra não podes fazer mais nada, filho! Não vais ser tu a mudar os corações de pedra, que só tem maldade! 
- Porque é que eles são assim? Já pensaram na quantidade de pessoas que...bem, nem quero imaginar como estarão as pessoas, as casas e tudo...se as luzes ficaram assim! 
- Pois! É melhor nem imaginar! Mas continua a pedir nas tuas orações, que haja paz. Pode ser que um dia chegue lá a tua luz, e a de muita gente, a luz da bondade, a luz do amor, do bem. Não podemos fazer mais nada, infelizmente. Apenas podemos espalhar essa luz tão bonita, pelos que estão mais perto de nós, e pelos que querem recebê-la! - Explica o feiticeiro
- Entendi. - Diz o menino
            E naquela tarde, o menino continua triste, arruma as luzes numa gruta, e por cima de cada uma delas deixa cair uma lágrima, tal como o papagaio que o ajuda a arrumar. À noite, chorou outra vez e pediu paz. Ele não conseguiu levar paz e luz aos países que estão em guerra, como queria, mas conseguiu distribuir a sua luz, pelas pessoas que mais precisavam à sua volta, a quem ele ajudava, sorria, abraçava, visitava, com quem brincava, e falava, a quem dava carinho, e a quem dizia palavras simpáticas.
           Ele era um menino bom! Depois da tristeza, voltou a ser o menino feliz que era, que corria livre pelos campos, e adorava que o vento brincasse com os seus cabelos, a fazer voar o seu amigo papagaio. 
           Nós também não podemos acabar com a guerra nos países lá muito longe, mas podemos levar as nossas luzinhas mágicas, às pessoas mais próximas de nós, do bem, com corações bons, ao fazermos pequeninas coisas por elas, como o menino! 
           Experimentem, e podem experimentar rezar também pela paz! A paz só podemos fazer por nós, connosco e com os outros à nossa volta, ela já existe em alguns corações. Vocês conhecem corações bons? 

Fim 
Lálá 
22/Janeiro/2018
 

quarta-feira, 23 de março de 2016

A lenda do jardim silencioso

                                             foto de Lara Rocha 

Era uma vez um jardim, há muitos, muitos anos, que começou por ser um matagal de silvas, folhas secas, lixo, flores murchas e terra, sombras, árvores muito velhas e secas.
Era um sítio assustador para a maioria das pessoas que passavam por lá, mas nem se atreviam a entrar. Muita gente dizia que ouvia vozes, gritos, barulhos de feras, rugidos, uivos e outras coisas estranhas que arrepiavam a espinha.
Um dia, uma rapariga com uma cara bonita, mas muito histérica, misteriosa, de quem toda a gente fugia pelo seu aspecto, que só gritava, era má, estava sempre irritada, a resmungar, não era nada simpática, e era solitária, lembrou-se de entrar naquele jardim horrível.
Quando a viram entrar para lá, acharam que ela era uma bruxa e que iria fazer maldades…aliás, ela era a única que tinha conseguido entrar no jardim. Entrou e rapidamente desapareceu entre as enormes silvas. Os habitantes ouviram a voz estridente dela, e ficaram atentos, à escuta atrás das janelas.  
Olhou em volta, e gritou:
- Não gosto deste sítio.
O vento soprou, e ela respondeu:
- Isso. Quero mudar, tudo menos as silvas.
O vento falou outra vez, e ela respondeu:
- É. Faz o que eu mando e não me faças perguntas. Sim, quero mudar tudo, menos as silvas da entrada. Já te disse para não me fazeres perguntas.
O vento soprou forte, formaram-se redemoinhos e ventos de diferentes intensidades, trovoadas, chuvas, viam-se chamas altas, saia fumo.
Os habitantes ficaram muito assustados, ouviam barulhos estranhos, estridentes, estalidos, gargalhadas, trovões, e o jardim ficou desfeito. Só restaram as silvas como ela queria.
- Muito bem. Excelente trabalho. Agora…vais pôr tudo o que eu mandar.
Ela senta-se no chão, e começa a dizer palavras soltas, de coisas que ela quer ver no jardim. A cada palavra que diz, aparecem flores de todas as cores e tamanhos, folhas, árvores pequeninas e grandes, fontes de água corrente, cascatas, grutinhas pequeninas, com cristais, um lago com patos, e cisnes, pássaros raros, erva, sol e sombra, borboletas, joaninhas, e várias espécies de fadas, coelhos, pandas, lobos, um barquinho, e uma pequena montanha com muitas espécies de plantas.
Quem via por fora, não conseguia imaginar a beleza em que aquele espaço se tinha transformado. A jovem abriu um grande sorriso, aplaudiu, riu, cheirou todos os aromas fantásticos, e correu o jardim todo.
Enquanto isso conversou com o vento, e contou-lhe que aquele jardim era como o seu interior. Na verdade, por fora, ela era uma figura assustadora, porque a tristeza tomara conta dela, desde muito pequena.
Os seus pais tinham-na abandonado, quando era bebé, e deixaram-na entregue a uma senhora que conheciam, mas apesar de cuidar muito bem dela, ela sentia-se muito sozinha, rejeitada, abandonada, solitária, triste, e revoltada.
Nunca tinha conhecido ninguém que gostasse dela, e nunca a tinham ensinado a ser boa com os outros, a ser amiga dos outros. Ela só percebeu isso muito mais tarde, uns quantos anos depois…quando cresceu.
Ela era fria, distante, má, mas no fundo não gostava de ser assim, porque todos se afastavam. Ela quis mudar, e provar a todos os que pensavam que ela era uma bruxa, por ser tristonha, e por andar sempre vestida de escuro… que não era como pensavam.
O ar malvado dela, era uma máscara, uma defesa para ela não se magoar mais. O seu coração era mesmo um lindo jardim, mas nunca lhe tinham dado oportunidade de o mostrar, porque a julgavam pelo seu ar.
O vento ouviu-a muito atento e comovido, até deixou escapar umas lágrimas, e abraçou-a. Esse abraço, e aquele novo jardim mudaram a jovem por completo.
Ela tornou-se muito simpática, sorridente, tranquila, meiga, preocupada com os outros, até as cores das suas roupas ficaram mais claras.
Todos os que tinham medo dela, viram-na sair daquele jardim muito diferente. Nem parecia ela…ficaram muito surpresos, e não sabiam o que tinha acontecido, mas…não voltaram a ouvir gritos, nem estalidos, nem uivos, nem rugidos…
A rapariga começou a falar com toda a gente, a colaborar com todos e sempre que estava mais triste…ia para esse jardim, em vez de descarregar nas pessoas. Saía de lá como nova.
As silvas à entrada eram para proteger o jardim de invasores, ou de pessoas que pudessem estragar…aquele jardim era só dela, era o seu refúgio, a sua renovação, a sua força e luz.
Dizem que ela foi viver para o jardim. Muito tempo depois, muitas pessoas entraram no jardim à vontade, mas não a viram. Houve quem dissesse que ela estava no vento, que conversava com elas, outras diziam que a viam a dançar com os cisnes no lago, transformada em brilhantes na água, outras diziam que a ouviam a cantar juntamente com os pássaros, outras, sentiam a sua presença nas flores, outras, nos raios de sol que passeavam entre os ramos das árvores, e outras nas pequeninas grutas, transformada em cristais.
Mas todos saiam diferentes desse jardim, tal como aconteceu com ela. A rapariga era a paz que sentimos em todos os jardins, mas todos acreditavam que ela foi uma lenda, mesmo assim, ainda há histórias parecidas com as dela.


E o vosso jardim interior, como é? Acham que nos jardins onde vocês já foram, ou vão, pode estar a rapariga desta história? Onde? Descrevam-no…

Fim
Lálá
(23/Março/2016)


terça-feira, 24 de março de 2015

LUZINHA NO SONHO

 
Foto de Lara Rocha 

Era uma vez uma luzinha que desceu pendurada numa estrela, lá de cima, e foi largada no cimo de uma montanha cheia de neve. 

   A luzinha era muito quente, mas o gelo era mais forte, e não derreteu à sua passagem. Havia muitos iglôs espalhados por essa montanha, onde viviam uns cientistas e estudiosos. 

  Já estavam habituados a ter muito frio, mesmo assim, a luzinha espreitou pela janela. Alguns, nem repararam na sua presença, mas uma senhora viu-a, e mandou-a entrar.  
    Abriu a porta, e luzinha entrou.
- Boa Noite! Em que posso ajudá-la? Precisa de mim? –              Perguntou a luzinha
- Sim! Preciso de companhia. O meu marido só pensa em trabalhar, está sempre metido naquele laboratório e nem se lembra que tem uma mulher que o ama!
- Mas como pode ser? – Pergunta a luzinha
- Pois é! Também não sei. Podes dar-me um bocadinho de luz, para me fazer companhia? 
- Claro que sim.
   A luzinha dá a mão à rapariga, e entre as duas, nasce uma luzinha, as duas separam as mãos e a luzinha fica lá.
- Óh! Que linda luz. Obrigada! Muito obrigada.
- Esta será a tua companhia. – Diz a luzinha
- Muito obrigada.
   A luzinha abraça a mulher, e a outra envolve-a.
- Até à próxima.
- Até à próxima.
  A luzinha sai a porta. A mulher fica com a outra luz em sua casa, feliz. A luz vai à casa que é o laboratório onde o marido trabalha. 
   O marido não repara nela, mas ela entra discretamente pela chaminé e toca nos corações dos homens que lá estão. Os 
corações ganham luz, e os homens tornam-se outra vez apaixonados pelas suas mulheres, como no primeiro dia em que as conheceram. 

 Num instante, saem do laboratório e vão para casa, carinhosos.

   Noutros iglôs, estão uns casais com os filhos doentes. A luzinha passa lá, envolve os pequenos num abraço, pouco depois estão recuperados. Aqui, ninguém deu pela sua presença.

     Depois, a luzinha libertou uma centena de focas, golfinhos, lontras, pinguins e leões-marinhos e até ursos, que tinham sido presos por caçadores que se preparavam para dar cabo deles. 

     Os bichos correm assustados e desesperados procuram os seus familiares. Quando estão todos reunidos em segurança, voltam para os seus refúgios. Alguns estão feridos, e a luzinha cura-os num instante. 

     Ela ficou tão triste com o que viu, que quase deixou de brilhar, mas logo se tornou outra vez mais forte quando viu crianças a chorar com fome num outro lugar. 

   Rapidamente deu uma série de voltas, e a cada volta, apareceram alimentos. As crianças e os adultos recolheram aquelas toneladas de alimentos frescos e outros mais secos, mas necessários, e cozinharam-nos. 

   Além disso, a luzinha transformou-se em pessoa e ensinou-os a cozinhar, a limpar, a fazer roupas e arranjos, a cultivar alimentos e ainda lhes ofereceu uma série de fontes com água pura, fresca e limpa, e ensinou a terem higiene
   
  Como esta tinha muitos mais sítios onde ir, tirou de si, vários pedacinhos de luz que se transformaram em mulheres bondosas para ficarem lá, e cuidarem deles como devia ser. Todos as adoraram. 
    
 A luzinha foi para outro pais, onde encontrou polícias e militares com armas horríveis, nas mãos, granadas, explosivos, e outras coisas que destruíam, e ainda mais grave: crianças rodeadas de bombas, a brincar com perigos, e algumas com armas.
  
Não gostou nada do que viu! Tornou-se numa mulher invisível, e começou a apertar as mãos das crianças sem elas sentirem, e elas deixaram cair as armas.

    Os adultos preparavam-se para agredir as crianças, mas a luzinha invisível apertou e torceu os pulsos dos adultos com tanta força, que eles quase desmaiavam e deixaram cair as armas. 

  A luzinha envolve um por um, e toca-lhes no coração. Essa luz que lhes enche o coração tão duro que até parecia uma pedra, por tanta maldade e tanta indiferença, e tornaram-se bons. 

   Olharam uns para os outros, choraram, deram as mãos, e 
abraçaram-se. Pegaram nas crianças ao colo, e encheram-nas de carinho. 

 As armas transformaram-se em brinquedos, livros, alimentos, roupas e medicamentos para todos. As crianças puderam finalmente brincar livres, correr sem perigos, andar sem medo, e as suas lágrimas de terror, transformaram-se em sorrisos. 

Todos os adultos se tornaram amigos, e conviveram alegremente.
    
   O sol nasce…e…Maria Luísa acorda.

- Luzinha, volta…continua… (p.c. triste) Óóóhhh…não acredito! Estou no meu quarto…na minha cama…na minha casa…então, quer dizer que…foi tudo um sonho! Óhhh…! Queria tanto ser essa luzinha! Ou ter uma luzinha daquelas…fazia tanta coisa boa pelo mundo! Óhhh…Não é justo! O mundo ia ser tão diferente…tão bom! Não sei porque é que toda a gente que me conhece, diz que sou uma menina de luz! Como é que sou uma menina de luz? Sou uma menina, como todas as meninas…e luz…só tenho a de casa, dos candeeiros, mas essa, não transforma nada! Bem…vamos lá para a escola. E que haja uma luz que torne o mundo melhor.  Algumas dessas melhorias,  poderemos ser nós a fazer…uns com os outros, não? Vamos tentar?

    E vocês? Gostavam de ter uma luzinha, ou ser uma luzinha para fazer bem?

FIM
Lara Rocha 
(24/Março/2015)