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quarta-feira, 5 de outubro de 2022

Onde está o meu coração?

 Onde está o meu coração?










foto de Lara Rocha 


Já alguma vez se sentiram como se não soubessem onde está o vosso coração? 

Alguma vez o procuraram? 

Umas vezes…

Parece que o nosso coração sai do peito

Parece ou será que sai mesmo? 

Com o vazio que sentimos, deve sair mesmo!

Alguma vez...O procuraram fora de vocês…?

Eu sim! Já o procurei muitas vezes, fora de mim.

Cheguei a pensar que ele estava no peito,

Mas logo duvidei,

E pensei que era o eco das suas batidas

A impressão que ele estava fora,

Continuava,

Embora o sentisse bater.

Bateria mesmo, ou estaria eu a imaginar?

Com a dor que sentia, e pela quantidade de lágrimas que caíam dos meus olhos

Acho que ele estava mesmo fora do sítio

Ou...estaria mesmo lá?

Porque é que sentimos dor, e vazio…?

E porque é que as lágrimas caem?

Talvez porqueO coração está mesmo fora do peito.

Às vezes cai, outras vezes levanta-se

Às vezes sai, outras vezes entra

Às vezes fere-se e nunca se cura,

Outras vezes, fere-se e cura-se.

Pobre coração!

Sofre mais que um condenado

Umas vezes é esquecido,

Apertado,

Enforcado,

Maltratado,

Desvalorizado,

Pisado,

Humilhado,

Torturado,

Partido,

Ferido,

E mesmo assim

Continua a bater,

E a manter-nos vivos.

E mesmo assim,

Continua a inventar paixões impossíveis

Gostas de sofrer, coração?

Ou fazes tudo isso

Para nos castigar

E relembrar-nos que existes?

Para nos acordar?

Para nos sentirmos vivos,

Só porque bates mais depressa?

Obrigada

Mas sinceramente

Podias arranjar outra maneira

De darmos por ti

Sem sofreres outra vez

Amores não correspondidos

Fazem-nos sentir vivos,

Mas também nos fazem chorar.


                                                                   Lara Rocha 
                                                                 22/Março/2018 

quarta-feira, 23 de março de 2016

A lenda do jardim silencioso

                                             foto de Lara Rocha 

Era uma vez um jardim, há muitos, muitos anos, que começou por ser um matagal de silvas, folhas secas, lixo, flores murchas e terra, sombras, árvores muito velhas e secas.
Era um sítio assustador para a maioria das pessoas que passavam por lá, mas nem se atreviam a entrar. Muita gente dizia que ouvia vozes, gritos, barulhos de feras, rugidos, uivos e outras coisas estranhas que arrepiavam a espinha.
Um dia, uma rapariga com uma cara bonita, mas muito histérica, misteriosa, de quem toda a gente fugia pelo seu aspecto, que só gritava, era má, estava sempre irritada, a resmungar, não era nada simpática, e era solitária, lembrou-se de entrar naquele jardim horrível.
Quando a viram entrar para lá, acharam que ela era uma bruxa e que iria fazer maldades…aliás, ela era a única que tinha conseguido entrar no jardim. Entrou e rapidamente desapareceu entre as enormes silvas. Os habitantes ouviram a voz estridente dela, e ficaram atentos, à escuta atrás das janelas.  
Olhou em volta, e gritou:
- Não gosto deste sítio.
O vento soprou, e ela respondeu:
- Isso. Quero mudar, tudo menos as silvas.
O vento falou outra vez, e ela respondeu:
- É. Faz o que eu mando e não me faças perguntas. Sim, quero mudar tudo, menos as silvas da entrada. Já te disse para não me fazeres perguntas.
O vento soprou forte, formaram-se redemoinhos e ventos de diferentes intensidades, trovoadas, chuvas, viam-se chamas altas, saia fumo.
Os habitantes ficaram muito assustados, ouviam barulhos estranhos, estridentes, estalidos, gargalhadas, trovões, e o jardim ficou desfeito. Só restaram as silvas como ela queria.
- Muito bem. Excelente trabalho. Agora…vais pôr tudo o que eu mandar.
Ela senta-se no chão, e começa a dizer palavras soltas, de coisas que ela quer ver no jardim. A cada palavra que diz, aparecem flores de todas as cores e tamanhos, folhas, árvores pequeninas e grandes, fontes de água corrente, cascatas, grutinhas pequeninas, com cristais, um lago com patos, e cisnes, pássaros raros, erva, sol e sombra, borboletas, joaninhas, e várias espécies de fadas, coelhos, pandas, lobos, um barquinho, e uma pequena montanha com muitas espécies de plantas.
Quem via por fora, não conseguia imaginar a beleza em que aquele espaço se tinha transformado. A jovem abriu um grande sorriso, aplaudiu, riu, cheirou todos os aromas fantásticos, e correu o jardim todo.
Enquanto isso conversou com o vento, e contou-lhe que aquele jardim era como o seu interior. Na verdade, por fora, ela era uma figura assustadora, porque a tristeza tomara conta dela, desde muito pequena.
Os seus pais tinham-na abandonado, quando era bebé, e deixaram-na entregue a uma senhora que conheciam, mas apesar de cuidar muito bem dela, ela sentia-se muito sozinha, rejeitada, abandonada, solitária, triste, e revoltada.
Nunca tinha conhecido ninguém que gostasse dela, e nunca a tinham ensinado a ser boa com os outros, a ser amiga dos outros. Ela só percebeu isso muito mais tarde, uns quantos anos depois…quando cresceu.
Ela era fria, distante, má, mas no fundo não gostava de ser assim, porque todos se afastavam. Ela quis mudar, e provar a todos os que pensavam que ela era uma bruxa, por ser tristonha, e por andar sempre vestida de escuro… que não era como pensavam.
O ar malvado dela, era uma máscara, uma defesa para ela não se magoar mais. O seu coração era mesmo um lindo jardim, mas nunca lhe tinham dado oportunidade de o mostrar, porque a julgavam pelo seu ar.
O vento ouviu-a muito atento e comovido, até deixou escapar umas lágrimas, e abraçou-a. Esse abraço, e aquele novo jardim mudaram a jovem por completo.
Ela tornou-se muito simpática, sorridente, tranquila, meiga, preocupada com os outros, até as cores das suas roupas ficaram mais claras.
Todos os que tinham medo dela, viram-na sair daquele jardim muito diferente. Nem parecia ela…ficaram muito surpresos, e não sabiam o que tinha acontecido, mas…não voltaram a ouvir gritos, nem estalidos, nem uivos, nem rugidos…
A rapariga começou a falar com toda a gente, a colaborar com todos e sempre que estava mais triste…ia para esse jardim, em vez de descarregar nas pessoas. Saía de lá como nova.
As silvas à entrada eram para proteger o jardim de invasores, ou de pessoas que pudessem estragar…aquele jardim era só dela, era o seu refúgio, a sua renovação, a sua força e luz.
Dizem que ela foi viver para o jardim. Muito tempo depois, muitas pessoas entraram no jardim à vontade, mas não a viram. Houve quem dissesse que ela estava no vento, que conversava com elas, outras diziam que a viam a dançar com os cisnes no lago, transformada em brilhantes na água, outras diziam que a ouviam a cantar juntamente com os pássaros, outras, sentiam a sua presença nas flores, outras, nos raios de sol que passeavam entre os ramos das árvores, e outras nas pequeninas grutas, transformada em cristais.
Mas todos saiam diferentes desse jardim, tal como aconteceu com ela. A rapariga era a paz que sentimos em todos os jardins, mas todos acreditavam que ela foi uma lenda, mesmo assim, ainda há histórias parecidas com as dela.


E o vosso jardim interior, como é? Acham que nos jardins onde vocês já foram, ou vão, pode estar a rapariga desta história? Onde? Descrevam-no…

Fim
Lálá
(23/Março/2016)


quinta-feira, 2 de abril de 2015

A lenda dos olhos da fonte

 

  
Há muitos, muitos anos atrás, uma marioneta de madeira foi abandonada pelo seu manejador com quem fez muitos espectáculos. 
        O seu manejador cresceu e deixou de gostar de marionetas, por isso, foi passear e levou-a, prometendo que iam apenas passear, largou-a e foi embora sem nunca mais ser visto.
       Durante muitas horas, noites e dias, a pobre marioneta pensando que era uma brincadeira do seu manejador, esperou e enquanto isso apreciou a paisagem e conheceu alguns amigos.
- Amigo…onde estás? Escondeste-te mesmo bem! – Dizia ela
        E procurava em tudo quanto era sítio, falando com ele, como se ele estivesse lá a ouvi-la. No dia seguinte ela começou a achar um pouco estranho aquela demora em aparecer, e aquele silêncio e ficou preocupada.
- Será que…ai…não! Não pode ser!
        E continuava a procurar e a chamar, mas nada…nem uma resposta.
- Viram por aí um rapaz? – Perguntou a marioneta por quem passava
        A resposta era sempre a mesma:
- Não! Não passou por aqui ninguém. Não…não vi ninguém!
        Até que mais à frente, uma preguiça que estava a espreguiçar-se muito devagar no tronco de uma árvore diz:
- Estás perdida?
- Não sei! – Responde a marioneta
- Como não sabes?
- Não sei…eu estava com o meu manejador.
- Quem?
- Aquele de quem estou à procura…um rapaz.
- Huummm…já andas há vários dias não já?
- Sim…acho que sim! Pelo menos já vi a lua e o sol lá em cima, muitas vezes, não sei quantas.
- Querida marioneta…desculpa dizer-te, mas foste abandonada.
- O quê?
- É! Não te vale a pena procurares mais.
- Mas…
- Eu vi esse rapaz a passar por aqui há vários dias…deve ser esse quem procuras.
- Não pode ser!
- Não achas estranho ele não te responder, e nunca mais aparecer?
- Sim, mas no inicio pensei que estávamos a brincar às escondidas, e que ele estava bem escondido, porque procurei-o e ele não apareceu, mas depois, chamei-o várias vezes, e ele nunca me respondeu…
- E não é estranho?
- Sim! Será que ficou doente, ou magoou-se?
- Não! Ele foi mesmo embora.
- Que tristeza…não pode ser…não quero acreditar nisso!
- Mas acredita. É melhor para ti, do que continuares a sonhar ou à espera que ele apareça. Isso não vai acontecer…a não ser que ele se arrependa.
- Então…ele…abandonou-me?
- Infelizmente sim!
- Aiiii…não! Não pode ser, não acredito.
- Acredita. É mesmo a verdade…gostava de te dizer outra coisa, mas infelizmente é isso que tenho para te dizer. Ele abandonou-te!
- Óhhhh…
- Também fico muito triste por ti.
- Como é que ele teve coragem de fazer isso? Depois…de tanta coisa boa que vivemos…
- Eram muito amigos?
- Eu achava que sim.
A marioneta conta à preguiça. Lembra-se que andaram muito, mas isso ela já não estranhava e até gostava de passear, além disso, os dois tinham sempre temas de conversas, e davam muitas gargalhadas juntos.
A marioneta era a sua confidente, e companheira de brincadeiras. A preguiça ouve-a atentamente, trocam um abraço e a marioneta está muito triste.
Chorou, noites e dias seguidos, de tristeza, desilusão e de solidão. A preguiça e outros animais tentam animá-la, mas ela não consegue.
Um dia, depois de tanto chorar, aparece uma fonte misteriosa de madeira, com uns olhos verdes, e água a cair de cada um deles. A marioneta identificou os olhos como do seu manejador, o que se confirmou quando suou uma voz da fonte:
- Perdoa-me!
        Ela como ainda está muito magoada responde:
- Não perdoo. Magoaste-me muito, desiludiste-me, abandonaste-me, mesmo depois de tudo o que passamos juntos, e depois de tudo o que te dei.
- Fui enfeitiçado, e transformado numa fonte, nesta de madeira que vês... Abandonei-te porque iludi-me com a beleza de uma mulher que depois fez de mim gato e sapato, e transformou-me nisto.
- Não tenho pena de ti. Quantas vezes te disse para não te deixares levar pela beleza de fora de uma mulher…? Nunca me deste ouvidos.
- Agora sou uma fonte de madeira…e tu, uma marioneta de madeira.
- Nunca estivemos tão parecidos.
- É verdade. Mas agora eu vou ficar aqui, e quero que me dês uma oportunidade…que me perdoes…eu sei que é difícil. Mas podes tentar…
        Ela respira fundo, e vira costas.
- Preciso de pensar um bocadinho…posso? – Pergunta a marioneta
- Claro que sim. Eu compreendo-te. Eu não vou a lado nenhum, estou aqui transformado em fonte. Preso ao chão…
        Ela vai para uma fonte, um bocadinho à frente, e vê-se reflectida na água. Fica pensativa, e dos seus olhos cai uma lágrima. O barulho que a lágrima fez ao cair na água, fez vibrar o seu coração, e a água começa a serpentear.
- Sim? – Pergunta ela, baixinho
- Sim! – Responde a imagem dela reflectida na água
- Perdoo? – Pergunta ela, baixinho
- Perdoa. – Responde a imagem dela reflectida na água
        Ela ficou magoada, mas acredita que a amizade entre os dois, não arrefeceu, só adormeceu porque ele quis separar-se, mesmo assim, ela ainda gosta muito dele.
- Chorei tanto por causa dele, e agora…perdoo?
- Sim! – Responde a fonte
        Cai outra lágrima dos olhos da marioneta na água:
- Perdoa, os elos da vossa amizade são muito forte, ainda não se partiram…só congelaram um pouco. Pode voltar a renascer. Ele está a ser sincero.
        Ela olha para ele discretamente, e vê que também está a chorar e a soluçar. Ela vai ter com ele, ele olha para ela, e vira os olhos para o chão. Os dois suspiram.
- Não sei se me vou arrepender…mas também se me desiludir já não será a mesma dor, nem parecida com esta.
        (Os dois olham-se):
- Desculpa! – Diz ele
- Está bem, mesmo depois de me teres triturado…eu perdoo-te e dou-te uma segunda oportunidade, agora vê lá o que fazes, porque a próxima não tem perdão…e vai devagar. – Diz ela
        Ele abre um grande sorriso:
- Gosto muito de ti.
        Ela abraça-o, e a amizade que os unia era mesmo tão forte que a madeira incendiou e a fonte reaparece como manejador. Os seus braços esticam-se, e as pernas crescem. Ela sente algo estranho e afasta-se. Olha para ele:
- Áh! O que aconteceu? – Pergunta a marioneta
- Uau! – Diz o manejador feliz – Voltei a ser pessoa…o feitiço quebrou-se…
- Ááááááhhhh…!
- Sim, foi isso…tu perdoaste-me, e voltamos a ser amigos… isso foi tão bom que quebrou o feitiço que me tinham lançado.  
- Boa! – Gritam os dois
- Muito obrigado…
        Os dois abraçam-se outra vez, ele senta-se no seu colo e põem a conversa em dia, com algumas gargalhadas e lágrimas. Voltam para casa e a sua amizade não tem fim…voltam a fazer tudo o que faziam antes, e a ser os melhores amigos. Muito felizes.
        Esta amizade foi tão sincera e tão forte que se tornou uma lenda conhecida por toda a floresta, que emocionou todos e inspirou… Esta foi a lenda dos olhos da fonte, os olhos que choraram, os olhos que perdoaram, e os olhos que fizeram renascer uma amizade que estava adormecida, pelo gelo do afastamento ou abandono. Os olhos da verdade, os olhos do coração.
São os olhos e até as lágrimas que devemos consultar e ouvir em certas decisões que temos de tomar, como esta se perdoamos ou não alguém que nos magoa…ou se a amizade é mais forte e valiosa, ou se é mais fraca e termina.  
São os olhos que sabem tudo, e muito mais que nós!
FIM
Lálá

(1/Abril/2015)