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domingo, 21 de junho de 2015

Mergulho


Era uma vez uma tartaruga jovem que vivia num aquário de uma casa, e hibernou. Os seus donos cansaram-se de a ver dentro da sua carapaça e levaram-na ainda a dormir para um monte.
Abriram a janela do carro e atiraram-na como se fosse uma pedra ou lixo, sem dó nem piedade de cima do monte. A tartaruga resvalou monte abaixo e pelo caminho acordou sobressaltada, estremeceu, sentiu tudo a andar a roda e ficou muito assustada. Só parou quando bateu contra o portão de uma casa. Abriu os olhos, saiu da sua casca, respirou, e olhou em volta.
- Onde estou? O que aconteceu? (boceja) Que acordar tão estranho…Ui…quer dizer… nem sei se já acordei ou se estive a dormir, nem quanto tempo estive a dormir. Óh…estou perdida. Não conheço este sítio! Ou conheço?
E caminha um pouco para reconhecer o sítio. Está confusa, anda à procura de alguma coisa familiar, ou até de água.
- Ai! Tenho as patas todas empenadas! Devo ter dormido mesmo muito…espera aí, onde estão os meus donos? Esta não é a minha casa! (Inspira e expira) Agora tenho a certeza que não estou onde estava. Na outra casa estava dentro de água, num sítio pequeno, até nem tinha grande luz…aqui…tenho muito espaço e não tenho água. Mas os meus donos? Onde estão? Onde foram? Foram eles que me mandaram para aqui? Mas porquê?
De repente ouve uma buzina de um carro. Dá um grito, fica gelada, arregala os olhos, e anda de um lado para o outro, sem saber o que é aquilo, ou para onde fugir.
São os donos da casa do portão onde ela bateu que chegaram com os filhotes das compras. O cão da família sente alguma coisa diferente, e logo que lhe abrem a porta, ele salta e vai atrás da tartaruga.
- Só faltava este também…ai…socorro!
O cão detecta a tartaruga e cheira.
- Áh, que nojo. Vai-te embora! Xô. – Ordena a tartaruga cheia de medo
Mas o cão insiste, e começa a ladrar sem parar.
- Cala-te! Estás a irritar-me! – Pede a tartaruga
Os pequenos vão ver o que se passa, porque é que o cão ladra sem parar. Quando chegam ao pé dele gritam em coro:
- Uma tartaruga!
- Áh! Que gira… - Diz a menina
- Como é que ela veio ter aqui? – Pergunta o menino
- Óh mãe…óh pai… - Gritam os meninos
O cão vai ter com os donos a ladrar. Os adultos vão ver.
- Olhem…uma tartaruga. – Diz o pai
- Hum…é muito estranho, uma tartaruga por aqui. - Comenta a mãe
- Se calhar fugiu de alguma casa.
- Ou foi largada…deitada fora. Às tantas ela estava a hibernar, e pensaram que ela estaria doente ou algo assim. – Diz o pai
- Coitadinha! – Diz a menina
- Óh mãe…vamos levá-la connosco! – Pedem os dois
- Não me parece boa ideia. – Diz a mãe
- Isto não dá trabalho nenhum nem suja a casa. – Diz o pai
-E onde a vais pôr? Tens que a alimentar, sabes o que é que ela come…? – Pergunta a mãe
- Vá lá, mamã…não a deixes aqui fora. – Diz a menina
- Pomo-la na piscina e num aquário. – Sugere o menino
- Isso mesmo. – Diz o pai
A mãe não quer, o pai e os filhos começam todos a protestar e a arranjar argumentos para acolherem a tartaruga. Discutem, negoceiam, resmungam, e tentam de todas as maneiras convencer a mãe a autorizar que levassem a tartaruga para casa.  
- Acho que é melhor fugir daqui…já está muita confusão! Antes que dêem cabo de mim! – Murmura a tartaruga.
A mãe para não se chatear mais autoriza a que levem a tartaruga para casa.
- Mas porque é que vocês ganham sempre! – Resmunga a mãe
- Porque tu és a melhor… - Dizem as crianças em coro
- Tu também gostas de animais. – Comenta o filho
- Vocês é que vão ter essa responsabilidade de tomar conta dela, eu já tenho muito que fazer. – Lembra a mãe
- Sim! – Dizem todos
Por isto, eles enchem a mãe de mimos.
- Boa! Estou salva…obrigada miúdos, obrigada senhor. - Diz a tartaruga aliviada e feliz.
Em casa, metem a tartaruga na piscina, e ela nada feliz, livre, enquanto o pai vai comprar um aquário e comida para ela.
- Áh! Este sim, é o meu meio…o meu mundo! Uau! Está fresquinha a água. Valeu a pena ter batido contra o portão, e ainda bem que aquele farrusco veio atrás de mim. Já nem sabia o que era água. Áh! Tanto espaço…
As crianças deliciam-se a ver a tartaruga na piscina, entram na piscina e brincam com ela felizes. O pai chega e mudam-na para o aquário com um cenário de fundo do mar e água. Ela fica encantada.
- Isto sim…é um aquário. Aqui não me importo de ficar! Gosto deste sítio. (ri) Parece que estou no fundo do mar…um sítio onde gostava de ir com certeza! Pode ser que estes donos vão à praia um dia destes e que me levem.
E o sonho da tartaruga realizou-se! Uns dias depois de se ter instalado na casa, os donos levaram-na no aquário para a praia, onde passaram uns belos dias, e a tartaruga teve a grande felicidade de experimentar com a sua família de humanos, a praia, o mar, e o mergulho.
A diferença é que a tartaruga não precisava de máscara de oxigénio para mergulhar como os seus donos, mas nunca se afastou deles…e quando eles voltavam à superfície, ela também voltava e instalava-se no seu aquário.
A tartaruga estava mesmo feliz, teve muita sorte, e sentia-se como se fosse mesmo parte da sua nova família. Davam-lhe carinho, atenção, e levavam-na para todo o lado onde fossem.
FIM
Lálá
(21/Junho/2015)

      

quinta-feira, 2 de abril de 2015

A lenda dos olhos da fonte

 

  
Há muitos, muitos anos atrás, uma marioneta de madeira foi abandonada pelo seu manejador com quem fez muitos espectáculos. 
        O seu manejador cresceu e deixou de gostar de marionetas, por isso, foi passear e levou-a, prometendo que iam apenas passear, largou-a e foi embora sem nunca mais ser visto.
       Durante muitas horas, noites e dias, a pobre marioneta pensando que era uma brincadeira do seu manejador, esperou e enquanto isso apreciou a paisagem e conheceu alguns amigos.
- Amigo…onde estás? Escondeste-te mesmo bem! – Dizia ela
        E procurava em tudo quanto era sítio, falando com ele, como se ele estivesse lá a ouvi-la. No dia seguinte ela começou a achar um pouco estranho aquela demora em aparecer, e aquele silêncio e ficou preocupada.
- Será que…ai…não! Não pode ser!
        E continuava a procurar e a chamar, mas nada…nem uma resposta.
- Viram por aí um rapaz? – Perguntou a marioneta por quem passava
        A resposta era sempre a mesma:
- Não! Não passou por aqui ninguém. Não…não vi ninguém!
        Até que mais à frente, uma preguiça que estava a espreguiçar-se muito devagar no tronco de uma árvore diz:
- Estás perdida?
- Não sei! – Responde a marioneta
- Como não sabes?
- Não sei…eu estava com o meu manejador.
- Quem?
- Aquele de quem estou à procura…um rapaz.
- Huummm…já andas há vários dias não já?
- Sim…acho que sim! Pelo menos já vi a lua e o sol lá em cima, muitas vezes, não sei quantas.
- Querida marioneta…desculpa dizer-te, mas foste abandonada.
- O quê?
- É! Não te vale a pena procurares mais.
- Mas…
- Eu vi esse rapaz a passar por aqui há vários dias…deve ser esse quem procuras.
- Não pode ser!
- Não achas estranho ele não te responder, e nunca mais aparecer?
- Sim, mas no inicio pensei que estávamos a brincar às escondidas, e que ele estava bem escondido, porque procurei-o e ele não apareceu, mas depois, chamei-o várias vezes, e ele nunca me respondeu…
- E não é estranho?
- Sim! Será que ficou doente, ou magoou-se?
- Não! Ele foi mesmo embora.
- Que tristeza…não pode ser…não quero acreditar nisso!
- Mas acredita. É melhor para ti, do que continuares a sonhar ou à espera que ele apareça. Isso não vai acontecer…a não ser que ele se arrependa.
- Então…ele…abandonou-me?
- Infelizmente sim!
- Aiiii…não! Não pode ser, não acredito.
- Acredita. É mesmo a verdade…gostava de te dizer outra coisa, mas infelizmente é isso que tenho para te dizer. Ele abandonou-te!
- Óhhhh…
- Também fico muito triste por ti.
- Como é que ele teve coragem de fazer isso? Depois…de tanta coisa boa que vivemos…
- Eram muito amigos?
- Eu achava que sim.
A marioneta conta à preguiça. Lembra-se que andaram muito, mas isso ela já não estranhava e até gostava de passear, além disso, os dois tinham sempre temas de conversas, e davam muitas gargalhadas juntos.
A marioneta era a sua confidente, e companheira de brincadeiras. A preguiça ouve-a atentamente, trocam um abraço e a marioneta está muito triste.
Chorou, noites e dias seguidos, de tristeza, desilusão e de solidão. A preguiça e outros animais tentam animá-la, mas ela não consegue.
Um dia, depois de tanto chorar, aparece uma fonte misteriosa de madeira, com uns olhos verdes, e água a cair de cada um deles. A marioneta identificou os olhos como do seu manejador, o que se confirmou quando suou uma voz da fonte:
- Perdoa-me!
        Ela como ainda está muito magoada responde:
- Não perdoo. Magoaste-me muito, desiludiste-me, abandonaste-me, mesmo depois de tudo o que passamos juntos, e depois de tudo o que te dei.
- Fui enfeitiçado, e transformado numa fonte, nesta de madeira que vês... Abandonei-te porque iludi-me com a beleza de uma mulher que depois fez de mim gato e sapato, e transformou-me nisto.
- Não tenho pena de ti. Quantas vezes te disse para não te deixares levar pela beleza de fora de uma mulher…? Nunca me deste ouvidos.
- Agora sou uma fonte de madeira…e tu, uma marioneta de madeira.
- Nunca estivemos tão parecidos.
- É verdade. Mas agora eu vou ficar aqui, e quero que me dês uma oportunidade…que me perdoes…eu sei que é difícil. Mas podes tentar…
        Ela respira fundo, e vira costas.
- Preciso de pensar um bocadinho…posso? – Pergunta a marioneta
- Claro que sim. Eu compreendo-te. Eu não vou a lado nenhum, estou aqui transformado em fonte. Preso ao chão…
        Ela vai para uma fonte, um bocadinho à frente, e vê-se reflectida na água. Fica pensativa, e dos seus olhos cai uma lágrima. O barulho que a lágrima fez ao cair na água, fez vibrar o seu coração, e a água começa a serpentear.
- Sim? – Pergunta ela, baixinho
- Sim! – Responde a imagem dela reflectida na água
- Perdoo? – Pergunta ela, baixinho
- Perdoa. – Responde a imagem dela reflectida na água
        Ela ficou magoada, mas acredita que a amizade entre os dois, não arrefeceu, só adormeceu porque ele quis separar-se, mesmo assim, ela ainda gosta muito dele.
- Chorei tanto por causa dele, e agora…perdoo?
- Sim! – Responde a fonte
        Cai outra lágrima dos olhos da marioneta na água:
- Perdoa, os elos da vossa amizade são muito forte, ainda não se partiram…só congelaram um pouco. Pode voltar a renascer. Ele está a ser sincero.
        Ela olha para ele discretamente, e vê que também está a chorar e a soluçar. Ela vai ter com ele, ele olha para ela, e vira os olhos para o chão. Os dois suspiram.
- Não sei se me vou arrepender…mas também se me desiludir já não será a mesma dor, nem parecida com esta.
        (Os dois olham-se):
- Desculpa! – Diz ele
- Está bem, mesmo depois de me teres triturado…eu perdoo-te e dou-te uma segunda oportunidade, agora vê lá o que fazes, porque a próxima não tem perdão…e vai devagar. – Diz ela
        Ele abre um grande sorriso:
- Gosto muito de ti.
        Ela abraça-o, e a amizade que os unia era mesmo tão forte que a madeira incendiou e a fonte reaparece como manejador. Os seus braços esticam-se, e as pernas crescem. Ela sente algo estranho e afasta-se. Olha para ele:
- Áh! O que aconteceu? – Pergunta a marioneta
- Uau! – Diz o manejador feliz – Voltei a ser pessoa…o feitiço quebrou-se…
- Ááááááhhhh…!
- Sim, foi isso…tu perdoaste-me, e voltamos a ser amigos… isso foi tão bom que quebrou o feitiço que me tinham lançado.  
- Boa! – Gritam os dois
- Muito obrigado…
        Os dois abraçam-se outra vez, ele senta-se no seu colo e põem a conversa em dia, com algumas gargalhadas e lágrimas. Voltam para casa e a sua amizade não tem fim…voltam a fazer tudo o que faziam antes, e a ser os melhores amigos. Muito felizes.
        Esta amizade foi tão sincera e tão forte que se tornou uma lenda conhecida por toda a floresta, que emocionou todos e inspirou… Esta foi a lenda dos olhos da fonte, os olhos que choraram, os olhos que perdoaram, e os olhos que fizeram renascer uma amizade que estava adormecida, pelo gelo do afastamento ou abandono. Os olhos da verdade, os olhos do coração.
São os olhos e até as lágrimas que devemos consultar e ouvir em certas decisões que temos de tomar, como esta se perdoamos ou não alguém que nos magoa…ou se a amizade é mais forte e valiosa, ou se é mais fraca e termina.  
São os olhos que sabem tudo, e muito mais que nós!
FIM
Lálá

(1/Abril/2015)