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quarta-feira, 6 de julho de 2022

A flor da praia

     Era uma vez uma flor que apareceu misteriosamente numa duna da praia. 

  Não se sabe quem, ou como nasceu uma flor num sítio ventoso e árido, mas a realidade é que ela estava lá e sobrevivia. 

      Tinha sempre amigas gaivotas que a abrigavam quando estava feio, fazendo um círculo à sua volta, os pescadores regam-na sempre que é preciso e as plantas das dunas também a protegiam, fechando e encostando-se para a abrigar. 

       Ela tinha uma paisagem privilegiada, para o mar, sentia uma enorme curiosidade de experimentar sempre que ouvia as gaivotas, os pescadores e outras pessoas que iam à praia, falar do mar. 

        Só não queria incomodar para que a levassem ao mar. Sentia aquela aragem e cheirinho a maresia, a peixe, a sal, a algas. 

       Dormia sonecas embalada pelo som do movimento das ondas, via os barquinhos e as suas luzes, apreciava o pôr e o nascer do sol, as suas cores mágicas, as estrelas à noite. 

       Imaginava como seria estar na água, mas queria sentir a água. Um dia contou esse seu desejo às suas amigas gaivotas, e pouco tempo depois, estava um dia tão quente, que quase não se respirava, não se via ninguém na areia, um sol que crestava tudo. 

       As gaivotas também estavam tão cansadas com o calor que só conseguiam estar à sombra e na água. 

       Convidaram a flor para ir à agua. Ela disse logo que sim, e ficou tão feliz, que até lhe cairam umas lágriminhas. 

        As gaivotas lavaram-na no bico. Entraram no mar, e a flor nem conseguia acreditar. Primeiro estranhou e sentiu um bocadinho de medo, mas as gaivotas encheram-na de coragem: nadaram com ela, molharam-se várias vezes, brincaram com ela, saltitaram, riram, nadaram, boiaram. 

        A água estava agradavelmente quente, e calma, a flor adorou senti-la, juntamente com a aragem, o sal e o sol.  Viu peixes e tudo o que via do seu lugar parecia assustadoramente grande! Sentiu as cossegas das algas no seu pé e nas pétalas, e adorou a sensação.  

       Depois do banho e já mais fresca, as gaivotas voltaram a po-la na sua areia. Conversaram alegremente, a flor não tinha palavras para descrever o que tinha sentido, como estava feliz, nem sabia como agradecer às gaivotas por a terem levado a experimentar o mar, como tanto queria! 

       As gaivotas sentiram-se orgulhosas e tão felizes como a flor. Ficou a promessa de voltarem ao mar, muito em breve. 

       Esta flor vivia num belo sitio, e realizou o seu sonho. Foi sortuda! E vocês, já viram uma flor na praia? Se vissem esta flor ou outra, o que faziam? O que veriam? 

Podem deixar as vossas respostas nos comentários. 

                                       Fim

                                     Lara Rocha 

                                   6/Julho/2022 


 












domingo, 2 de maio de 2021

Sereia ou peixe?

         


Era uma vez uma Vila de pescadores, onde viviam famílias simples, trabalhadoras e humildes. Os homens, desde os mais novos até aos mais velhos, saiam antes do sol nascer, e algumas das esposas, namoradas, sentiam o coração muito apertadinho. Tinham medo que não voltassem, ou que lhes acontecesse alguma coisa. Então, sempre que os homens iam para o mar, as mulheres de todas as idades não dormiam mais. Abraçavam e beijavam os filhos, os namorados, recomendando-lhes cuidado. Seguravam as lágrimas até eles irem  para os barcos no mar alto, juntavam-se, davam as mãos e rezavam por proteção! Aí sim, as lágrimas pelo medo saiam dos seus olhos! Não erram homens de fé, achavam que tinham muita coragem, era a missão deles, só tinham de a cumprir, mesmo que soubessem que era arriscado, e diziam com segurança que o mar era amigo deles. Um dos jovens perguntou à namorada: 

- Porque é que vocês se põem com essas cerimónias de lamechices quando vamos para o mar? 

A namorada responde: 

- Não são lamechices, é medo! 

- Medo...! Que ridículo. - graceja o namorado 

- Vocês não têm medo, queres ver? 

- Claro que não! Isso é coisa de mulheres. O que fazem? 

- Rezamos! Pedimos proteção, que voltem sãos e salvos, que pesquem muito peixe, mas façam boas viagens. 

- Não tendes mais nada que fazer? Que patetice, isso não existe? 

- Ai não? Felizmente têm voltado sempre. Já que não acreditas, pelo menos respeita porque dói-nos muito! Ficamos com o coração muito apertadinho! 

- Está bem, desculpa! Acredita lá no que quiseres. 

- E se rezássemos às sereias, aí vocês também rezavam não era? Até faziam outras coisas com elas. 

O namorado ri. 

- Sereias? Também achas que existem? Vives no mundo da infância. Coitadinha, cresce. 

        A namorada fica zangada, não se falam mais nesse dia, cada um está no seu trabalho. De madrugada, o mesmo ritual repete-se. Todas rezam, mas a namorada não dá beijo nem abraça o namorado, só lhe diz: 

-  Que as sereias te guiem. Ingrato... 

- As sereias? E tu não ficas com ciúmes se for com elas? 

- Não. 

            O namorado ri-se, vai para o barco com os outros homens, e nessa noite o mar está muito revolto. As gaivotas estão muito nervosas, piam, voam desvairadas, parecem perdidas. 

- Mas o que é que se passa hoje? - pergunta uma mãe 

- O mar está muito revolto...as gaivotas tão inquietas, os nossos homens hoje não deviam ter ido. 

- Ai, que nervos! - diz outra 

        Enquanto as mulheres estão nervosas e rezam, outras choram e acendem velas, os barcos dos maridos andam aos trambolhões, no mar, os marinheiros gritam, tentam lutar contra a força das ondas, mesmo não tendo por hábito rezar como as mulheres, sentem vontade de o fazer, porque correm perigo. Dizem que não sabem como, mas veem uma sombra que não conseguem distinguir se é de peixe ou de uma mulher com cauda de peixe que lhes dá uma valente chicotada com a cauda e atira-os a grande velocidade para a costa, onde chegam todos ensopados, mas sãos e salvos. As mulheres respiram de alívio. 

- Hoje não deviam ter ido para o mar! - resmunga uma mais nova

- Tendes razão! - dizem todos 

- Não imaginávamos que o mar ia estar tão bravo! - diz outro 

- Andamos aos trambolhões, mas alguém nos atirou para aqui! 

- Quem? - perguntam todas 

- Uma sombra com cauda de peixe! Não conseguimos ver o que era. 

- Acho que alucinaram com o medo! - comenta uma namorada 

- Rezaram? - pergunta outra mãe 

- Sim! - respondem todos 

- Foram ouvidos! Talvez agora percebam porque fazemos aquelas lamechices todas, não é, amor? - pergunta a namorada irónica 

- É! Desculpa!

- Foi uma sereia? 

- Não. Não sei. . 

- Qual sereia? Foi a força da oração deles e da nossa crença. 

            Todos concordam, abraçam, beijam as esposas e namoradas, e nesse dia há festa para retribuir as orações que os salvaram. Silenciosamente, os homens achavam que foi uma sereia que os salvou, mas para disfarçar, diziam que foi um peixe, mandado pelos pedidos das mães, esposas, e namoradas. A partir desse dia, respeitaram as suas esposas, e aprenderam a fazer o mesmo. Rezavam antes de sair para o mar, porque sabiam que com o mar não se brinca, mas respeita-se. Nunca sabiam na verdade o que esperavam. Mas pelo menos sentiam-se mais protegidos, e quando  viam o mar revolto, já não iam. E vocês? Acham que eles foram salvos por uma sereia ou um peixe? 


                                                                    FIM 

                                                                 Lara Rocha 

                                                                2/Maio/2021 

segunda-feira, 4 de março de 2019

A lição do lixo à volta das escamas

           


Era uma vez um ouriço-do-mar que fugiu do oceano onde vivia com a sua família, de muito longe por causa da poluição. Percorreram longos quilómetros à procura de uma casa onde não houvesse lixo. Estava difícil de encontrar, mas finalmente, passaram por uma montanha aquática onde a água era transparente, morna e bem salgada como eles gostavam! Cheirava bem a algas.
           Estavam muito cansados, por isso instalaram-se no primeiro sítio que viram, e caíram num sono como já não se lembravam de ter. Tudo parecia calmo, outros animais que passavam, olhavam para eles, mas não lhes tocavam.
          Mas um acontecimento inesperado, despertou-os de repente, e assustou-os muito. Um violento tremor de terra! Instalou-se a agitação e o terror debaixo de água. Não sabiam bem o que estava a acontecer, mesmo assim, viam todos a correr de um lado para o outro, e um peixinho gritou-lhes:

- Saiam daí. Estão num sítio muito perigoso.

- O que é que está a acontecer, pergunta um ouriço-do-mar.

- Não temos tempo de explicar, agora. Venham atrás de nós! Rápido.

           Os ouriços-do-mar seguem-nos, assustados. Levanta-se um monte de areia que se move a uma velocidade arrepiante, e corre debaixo da água, formam-se centenas de bolhas de água que sobem em redemoinho para a superfície, e quase arrasta tudo o que é animal, mas eles já sabem que quando isso acontece, juntam-se e escondem-se num abrigo que construíram no casco de um navio afundado há muitos anos.
           O caos vai para a superfície, e as água nas profundezas acalmam. Todos respiram de alívio.

- Passou! - suspiram todos

           Um peixe matreiro, muito bonito, mas perigoso, grita:

- Intrusos!

           Estava a falar dos ouriços-do-mar. Como eram todos muito unidos, e todos obedeciam às ordens desse peixe, porque tinham medo dele, o que ele dissesse, tinham de fazer, se não, eram castigados.  Na verdade não gostavam de muitas coisas que ele fazia ou dizia, mas ninguém tinha coragem de o desafiar.

- Óh, não...nós viemos na paz, à procura de um lugar para viver, porque o nosso estava cheio de lixo! Quase não conseguíamos respirar! - explica um deles

- Eu não perguntei nada! - exclama o peixe arrogante

- Ele odeia perguntas... - diz outro peixe 

- Fora daqui. - Grita o peixe

- Mas nós... - tenta outro ouriço-do-mar

- Não quero saber de explicações! Fora... - Grita o peixe

           Os ouriços-do-mar afastam-se tristes. O peixe malvado vai passear todo emperuado e de repente algo se enrola nas suas barbatanas. Não consegue nadar, nem sair do mesmo sítio, e quanto mais tenta libertar-se, mais atado fica.
           Os ouriços-do-mar vêem a aflição do peixe, vão ter com ele, e ele escorraça-os, grita com eles, chama-lhes nomes feios, mas eles não se deixam intimidar.

- Vão-se embora...eu não vos quero aqui. - Grita o peixe 

- Para de te mexer e de gritar! - recomenda um ouriço

- Olha que porcaria que ele tem aqui à volta...

- Como vamos tirar daqui isto?

          Os ouriços-do-mar agem rapidamente, juntam-se e quando encontram uma possível saída do lixo, uns puxam dum lado, outros doutro, cortam com os seus picos partes dos fios, passa um peixe espada e ajuda a cortar os fios, e aos bocadinhos vão libertando o peixe.
          No fim estavam todos completamente exaustos. Respiram fundo, e caem na areia lentamente.Os ouriços agradecem ao peixe espada. O peixe está ofegante e muito nervoso, mas ao mesmo tempo envergonhado, por isso, depois de estar um pouco em silêncio, começa a soluçar e a chorar. Os ouriços-do-mar aproximam-se, olham-no, a medo, recuam.

- Estás bem? - pergunta um ouriço

- Ele odeia perguntas, lembras-te? - relembra o ouriço  

- Vamos... - diz um ouriço com medo

- Óh... esperem! - Diz o peixe a chorar

           Eles param, e olham para o peixe

- Estou muito envergonhado! Desculpem... muito obrigado por me terem tirado aquela porcaria! Ai, quase me acontecia alguma coisa má! Não sei de onde veio aquilo.

- Nós tínhamos toneladas...talvez... dessa porcaria na nossa zona!

- E o que é?

- É lixo... coisas que os humanos já não precisam...

- É que... não devem ter onde pôr.

- Parece que é o que dizem!

- Malditos! - Grita o peixe zangado

- Nós? - perguntam os ouriços assustados

- Não! Aqueles...

- Áh, sim! Tens razão...

- Eu fui muito bruto convosco. Escorracei-vos e vocês ainda me libertaram do lixo! Desculpem.

- Na hora de precisar...

- Pois, eu sei! Não merecia.

- Não foi isso que quisemos dizer!

- Na hora de alguém precisar não pensamos muito. Respondemos!

- Mas eu fui tão estúpido, que vocês deviam deixar-me ali enrolado naquela coisa.

- Porquê?

- Isso ia tirar-te a brutidade?

- Tu realmente não és nada simpático, és arrogante e bruto, mas talvez também tenhas as tuas razões para ser assim!

- Sim, têm razão!

- Toda a gente tem medo de ti.

- Medo de mim? Acham?

- Claro que sim!

- Óh, também não queria isso... é que eu acho que se não for mau, ninguém vai gostar de mim.

- Que disparate!

- Acham?

- Claro. Eles e toda a gente gostam de amigos bons.

- Que vergonha... sou um monstro!

- Não... és bonito, mas podes ser mais suave a falar como os outros.

- Como?

- Queres aprender?

- Quero! É uma forma de vos pedir perdão, e de agradecer!

- Podemos ficar?

- Claro que sim! Por favor!

             Os ouriços-do-mar dão umas verdadeiras aulas ao peixe, de como ser amigo e generoso com os outros, para gostarem dele, sem ser mau. Mas que grande mudança. O peixe mau passou a ser  um verdadeiro doce, cavalheiro, colaborador, educado, delicado, sedutor, brincalhão, divertido... e todos os outros que o rodeavam repararam. Elogiaram-no, chamavam-no sempre que precisavam, ele fazia convívios e divertia-se muito!
            Deixou de ser um chefe mau, e tornou-se no que sempre tinha sido: um peixe amigo, como os outros, que precisava dos outros, e que ajudava quem precisava. Desde esse dia, aquele lugar subaquático nunca mais foi o mesmo. Ao primeiro sinal de lixo, instalava-se a confusão, juntavam-se todos, e devolviam o lixo à superfície, na tentativa que os humanos deixassem de fazer lixo nas praias.

Acham que seria uma boa solução para resolver o problema dos lixos nas praias e nos mares?
               
                                                                         FIM
                                                                         Lálá
                                                                     4/Março/2019 

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

A lenda da fechadura


fotografia de Lara Rocha 


Era uma vez uma praia como todas as praias…com areia, mar e rochas, que recebia muitas visitas porque tinha algo de diferente das outras. Esta tinha uma rocha com uma forma estranha, e uma fechadura, que nem sempre estava à mostra, mas não havia chave.

Muita gente que visitava esta praia, especialmente a rocha que tinha uma fechadura, dizia sentir vibrações diferentes, tanto ouviam um silêncio aterrador, gelado, como sentiam uma ventania de cortar a respiração e os ossos, só nesse canto da rocha.

Umas vezes conseguiam ouvir choros, gritos, uma voz que cantava melodias tristes e pesadas, outras vezes cantava doces, lindas e leves canções que pareciam músicas instrumentais, e percebiam que as ondas umas vezes ficavam serenas, outras vezes com um tamanho monstruoso que corria toda a gente da praia. Umas vezes passava água por baixo da rocha da fechadura, outras vezes não.

Era um mistério que muita gente tentava descobrir, mas não conseguiam. Só um marinheiro sabia o segredo, mas não o desvendava, porque gostava de ver tanta gente na praia curiosa, e que sentiam coisas como ele dizia.

O mistério era uma lenda muito antiga, embora alguns ainda mais antigos dissessem ser verdadeiro…contavam os marinheiros que era nesse lugar que se encontravam com a princesa dos mares.

Essa princesa era uma mulher demasiado linda, linda demais para ser verdadeira, elegante, muito sedutora, que despertava invejas em todas as outras princesas e seres marinhos, que queriam ser tão bonitas como ela.

Como não conseguiam seduzir os marinhos, porque na verdade eles gostavam mesmo dela, as outras aprenderam uns truques maldosos com a feiticeira dos mares, para conseguir conquistar, e tentaram roubar todos os marinheiros que puderam. Aos que iam pescar, elas formavam tempestades, apareciam a dançar, hipnotizavam-nos, e eles deixavam-se encantar.

A princesa não sabia de nada, nem precisava de fazer feitiços ou hipnotizar para que os marinheiros se encantassem por ela, sentia-se muito sozinha, porque na verdade ela salvava os marinheiros, e queria a companhia deles, porque sentia-se muito sozinha. Começou a achar muito estranho não aparecerem.

Uma vez ficou transparente e assistiu a tudo o que as outras fizeram. Ficou muito triste e com muita raiva, gritou até ficar quase sem voz, levantou ondas gigantes, revirou o mar todo com os seus movimentos de fúria, sacudiu os barcos, e todos os marinheiros caíram à água. As outras ficaram realmente apavoradas, e fugiram.

Ela pegou nos marinheiros e atirou-os todos para a areia numa grande ventania que formou com a sua raiva. Salvaram-se todos, mas ela ficou muito perturbada. Refugiou-se numa rocha para se acalmar. Nessa rocha…

Nessa rocha gritou tudo o que sentia, toda a sua raiva pela desilusão que as outras com quem ela se dava tão bem, e considerava quase família, lhe tinham provocado.

Como é que elas puderam fazer isso com ela…perguntou-se muitas vezes, e praguejou…a voz dela parecia um tremor de terra num túnel, que se ouvia na praia toda.

Depois de conseguir libertar a sua raiva, chorou tanto que as suas lágrimas formaram uma baía à volta da rocha. Por fim, completamente cansada calou-se, deitou-se na areia e adormeceu.

Os seus pais compreenderam o estado em que ela ficou, e deixaram-na lá ficar até recuperar forças. Cobriram-na, deixaram-lhe alimentos e bebidas, e roupas secas, e fecharam aquele canto com uma porta que abriram na pedra, para que ninguém a perturbasse, mas nunca a deixaram sozinha, estavam sempre vigilantes.

Depois de muitas horas a dormir, ela abriu os olhos, olhou em volta, não sabia onde estava, alimentou-se e bebeu, trocou de roupa que estava toda molhada, e ficou em silêncio.

Os pais foram vê-la e conversaram com ela, ouviram todas as suas revoltas, dores, tristezas, angustias, desilusões, tentaram consola-la, e ela voltou com eles para casa.

Nos dias seguintes, ela ainda ficou muito irritada, e nesses momentos, pegava na chave e refugiava-se no seu recanto, nessa rocha. Gritava, chorava, às vezes tanto que a água passava por baixo da porta e aparecia na praia.

Quando havia marinheiros em perigo, principalmente à noite, a princesa pegava neles, e acolhia-os no seu recanto, alimentando-os, dando-lhes de beber e cobrindo-os, fechava-lhes a porta na rocha, ficando assim protegidos até que amanhecesse para saírem em segurança, e falava com eles, de forma muito meiga, simpática, amigável. Eles adoravam-na, e depois não conseguiam libertar-se dela…iam ter com ela.   

A lenda foi rapidamente divulgada, porque um dia viram um velho marinheiro sentado à porta da rocha, e perguntaram-lhe o que estava ali a fazer…ele respondeu que estava à espera que a princesa do mar lhe abrisse a porta, que queria reencontrá-la ao fim de tantos anos.

Acharam que ele estava louco, ou a delirar, mas ele contou o que tinha acontecido há muitos anos atrás, quando a princesa o salvou e o fechou no seu recanto para o proteger.

Contou com tantos pormenores que quem o ouviu quase conseguiu ver e sentir. Como percebeu que estavam a duvidar dele, mostrou a fechadura na rocha que nesse dia estava à mostra, e sem água. Disse para fazerem silêncio, e ouviram vozes…o marinheiro sorriu e disse que ela estava ali com alguém.

Todos se arrepiaram porque realmente tinham ouvido vozes. Espreitaram pela fechadura, não viram nada, nem ouviram nada. Ele explicou que ela tinha ido embora…e na verdade…só se ouvia o vento, que parou de repente, e só se ouviu o silêncio.

De repente aparece um fiozinho de água por baixo da fechadura na rocha. O marinheiro sorriu e disse que aquele fiozinho de água eram umas lagrimazinhas da princesa do mar que o reconheceu…ele sabia que um dia destes iriam reencontrar-se, e conversar.

Todos os que ouviram arrepiaram-se, e o marinheiro entrou pela porta da rocha que se abriu, quando a maré ficou vasa. Sentou-se na areia e viu a princesa, a princesa fechou a porta, e quem ficou do lado de fora ouviu vozes, e gargalhadas…mas só viam o senhor pela fechadura.

Pensaram que ele estava a delirar, ou a sonhar…e foram embora, pensando como é que ele iria sair dali. Mas saiu, quando a princesa, depois de uma longa e animada conversa com o marinheiro que recordaram os tempos em que se encontraram, voltou para casa, com a promessa de se encontrarem mais vezes.

E o marinheiro voltou lá mais vezes. Ainda hoje, quando a maré vasa o marinheiro e quem vai visitar a praia vão a essa rocha da fechadura e ouvem vozes, quando a fechadura não está à mostra, sentem vibrações, e movimentos estranhos.

Há muitas pessoas que vão para esse sítio na esperança de ver e falar com essa princesa dos mares que era tão linda…mas nunca a veem…só os marinheiros conseguem vê-la e conversar com ela.

Os outros, apenas sentem, arrepiam-se, sentem-se estranhos, e ficam deixam-se levar pelo encanto do cantinho, ou da…lenda…ou será que foi mesmo verdade? Se calhar foi verdade para os marinheiros, pelo menos salvaram-se.

E vocês? Acham que foi lenda, ou pode ter acontecido na realidade? Será que foi imaginação dos marinheiros com o medo, para ganharem força de se salvarem? Ou será que essa princesa existiu mesmo…? Será que ela ainda existe? Porque é que acham que só os marinheiros a conseguem ver?

FIM

Lálá

(31/Agosto/2016)

terça-feira, 8 de setembro de 2015

A ONDINHA IRRITADA



Era uma vez uma praia como as outras, com areia, mar e rochas. Na praia havia sempre muitas pessoas a apanhar sol, crianças a jogar futebol, e a brincar. No mar, os animais e as ondas tinham os seus trabalhos e era um ambiente sossegado, mas de um dia para o outro, tudo se transformou.
Passou a ser muito agitado por causa de uma ondinha que parecia pequena mas ultimamente andava armada em onda grande, muito revoltada, inquieta agitada, irada, irritada, e quando vinha à superfície aproveitava para descarregar o seu mau-humor e a sua ira na praia.
Só fazia asneiras! Se via crianças a construir castelinhos de areia, ou a brincar vinha e destruía os castelinhos. Outras vezes, dava banho completo às crianças, e elas desatavam a fugir, a chorar e a tremer de frio, aos gritos. Arrastava brinquedos, e tirava as bolas aos adultos que estavam a jogar, ou quando via casais de namorados também gostava de os refrescar, para os lembrar que estavam na praia, e deitava-os para trás, empurrando-os, ou molhando-os e enchendo-os de areia da cabeça aos pés.
Enquanto todos ficavam muito zangados, a ondinha ria às gargalhadas e voltava para o fundo do mar mais relaxada, toda feliz. A rainha do mar via tudo, e recebeu várias queixas de outros seres do mar, da ondinha…isto deixou-a realmente irritada e mandou que chamassem a ondinha.
- Mas o que é que se passa com ela? Só faz asneiras…Chamem aquela endiabrada da Ondinha…
Os guardas da rainha vão chamar a ondinha. A ondinha não sabia a rainha já tinha visto tudo. Ela espreita, e a Rainha diz-lhe docemente, e sorridente:
- Estás a espreitar? – Mas logo fica muito séria e grita – Entra!
A ondinha estremece, a rainha respira fundo para não explodir.
- Precisas de alguma coisa, rainha?
- Senta-te! – Ordena
A ondinha senta-se a medo.
- Os teus pais? – Pergunta a rainha
- Estão na praia.
- Vou ter de falar com eles! E vou directa ao assunto contigo. Não sei como é que eles ainda não perceberam que estás muito diferente…talvez porque te misturas com as outras, e eles nem vêem…confiam…acham que têm uma menina muito bem comportada. Mas não gosto nada do que tu andas a fazer.
- Eu?
- Não…! Eu! Claro que és tu. O que é que se passa contigo? Andas muito irritada, só fazes asneiras. Vais lá para cima, pareces inofensiva, e de repente, do nada…transformas-te em algo parecido com tsunami…destróis tudo. Destróis os castelinhos das crianças que elas fazem com tanto carinho, paciência e arte! Arrastas os seus brinquedos, dás-lhes banho dos pés à cabeça! Levas bolas de futebol e outros jogos dos adultos. Enrolas namorados, arrastas toalhas, molhas roupas, lavas roupas e chapéus…Ai! Mas o que significa isto tudo? Quem é que tu pensas que és? Nunca foste assim. – Diz a rainha, primeiro calma, depois, com a irritação sobe no tom de voz.
A ondinha fica assustada e preocupada responde:
- Rainha, eu…não sabia que já tinhas visto tudo!
- Ora! Estás farta de saber que vejo sempre tudo, e vieram-me fazer queixas! Não posso permitir que faças coisas como estas que tens feito!
- Mas é assim tão mau?
- É. Mesmo muito mau. Pões vidas de pessoas em risco…e depois…? Quem é que as ia tirar daqui? Ias-nos meter em sarilhos, e é tudo o que nós não queremos.
- Eu só queria brincar!
- Tens muita coisa para brincar cá em baixo, porque raio hás-de brincar com vidas humanas?
- Eles também brincam connosco.
- Sei muito bem que andas a fazer isto por mal. Sinto-te muito revoltada…tudo o que estás a fazer é por revolta! Não pode ser.
- É que…eu…adoro a praia.
- Não és só tu. Todos adoramos a praia. E as pessoas também. Isso não justifica o que estás a fazer.
- É que…eu…só estava a tentar proteger a praia daqueles malditos.
- O quê?
- Sim, os humanos só poluem, só estragam.
- Isso é verdade, mas também não serve de justificação. Não vais conseguir evitar que eles poluam, infelizmente, porque eles não têm nada nas cabeças. Mas não vais ser tu, a fazer essas coisas, que lhes vais pôr alguma coisa nos miolos para deixarem de poluir. Um dia…vão pagar cêntimo por cêntimo, as consequências do que fazem, aliás, já estão a pagar, mas ainda não repararam. Isso nunca vão perceber, mas é problema deles!
- Eu odeio aqueles objectos dos pequenos.
- Que objectos?
- Aquilo com que eles fazem castelos, e tiram a areia.
- Não é justificação para essas asneiras.
- Odeio bolas.
- Eu também, mas o que é que isso implica contigo?
- Nada! Mas não gosto, e podem estragar a praia.
- O quê? Que disparate. Nunca ninguém se queixou de estragos por bolas.
- Odeio aqueles namoradinhos sentados na areia. Eu gosto de os enrolar para os acordar e lembrarem-se que estão na praia…há gente a vê-los.
- É muito pior ver guerra.
- Não gosto.
- Não é motivo para fazeres as asneiras que fazes.
- Eu só quero proteger a praia, o mar e a ti…!
- Isso é muito bonito de tua parte, mas não serve de desculpa para o que fazes. Vou ter de te castigar.
- Óh não! Por favor, rainha. Desculpa, eu não volto a fazer asneiras.
- Pensa em silêncio no que tens feito. Aí…quieta. (pequena pausa, silêncio) Minha pequena…ainda és muito criança, com muitos sonhos, sem maldade, achas que és super criança, que tens poderes para salvar o mundo, e a humanidade, mudar as mentes…melhorar o planeta. (Silêncio) Já percebi, estás revoltada com os humanos pelas asneiras que eles fazem, e maldades contra nós, contra a nossa casa. Tens razão. Todos nós ficamos, claro que é injusto, revolta, magoa…e temos imensa vontade de nos vingarmos deles, de fazer ainda pior do que eles nos fazem. Mas…por muito que queiras, as tuas maldades, asneiras, não vão servir para os emendar, nem ensinar, ou mudar as mentes. Descansa, o planeta tratará de lhes ensinar e castigar. Aliás, já está a tratar disso. O planeta tem a força de todos nós juntos e muita mais que só ele sabe! Deixa-os aproveitar enquanto têm!
A ondinha fica pensativa.
- O que posso fazer agora?
- Não voltes a fazer asneiras e tenta ser amiga dos humanos, carinhosa como as outras.
- Está bem.
Aparecem as filhas da rainha do mar, lindas como ela.
- E o castigo, rainha? Qual vai ser? – Pergunta a ondinha triste
A rainha suspira, olha para as filhas, elas sorriem-lhe:
- Bem…preciso de pensar… o que acham?
- Mamã…eu acho que ela está a precisar de um abraço! – Diz uma
- O que ela fez não foi bom, mas à beira do que eles nos fazem, também não foi nada de mal…só foi…umas brincadeirinhas…uns sustinhos a fingir… - Diz outra
- Acho que ela não fez por mal. – Diz outra
- É. Acho que ela fez isso só para chamar a atenção. Como é pequenita, quer que reparem nela…fingindo que é grande. – Diz outra
- Pois. A sua raiva é grande…eu sinto as vibrações… ui…! – Diz a mais velha
- Sim! – Dizem todas
- Olha que daqui a pouco o mar ainda fica mais poluído do que o que está, com a tua revolta. – Diz um caranguejo
- Xiu! – Mandam todas
- É. Eu não fiz por mal. – Confirma a ondinha
- Huummm…um abraço…huuummmm… bem…acho que…- Pensa a rainha
- Siiiiiiiiiiiiiiimmmmmmmmm… - Dizem todas a sorrir
- Parece-me…bem! Menina agora vê lá o que fazes! Não te esqueças do que eu te disse, e vou dizer aos teus pais que precisam de estar mais atentos.
- Está bem! Não me esquecerei. Muito obrigada.
- Agora…podem ir.
E as princesas, uma por uma abraçam a ondinha, depois dão um abraço colectivo e vão para a superfície brincar. A ondinha gostou tanto daqueles abraços que voltou a ser tão meiga como era antes, carinhosa, e durante muito tempo pensou no que a rainha lhe tinha ensinado.
A ondinha e as princesas tinham combinado que para a ondinha não voltar a fazer maldades e asneiras, sempre que se sentisse irritada, raivosa, revoltada e com vontade de se vingar…procurava as princesas, elas davam-lhe um abraço e brincavam juntas. Foi mesmo isso que ela fez, desde esse dia. Talvez a verdadeira razão fossa a falta de um abraço…tornaram-se uma verdadeira família.
Os abraços fazem milagres, tornam-nos melhores pessoas, não é? Ficamos mais calmos com um abraço, ganhamos mais saúde, e ficamos mais felizes não é?
Já experimentaram?
Vamos dar todos um abraço pelo menos a quem está ao nosso lado? Como se sentiram?
A ONDINHA SENTIU-SE ÓPTIMA.
FIM
Lálá
(7/Setembro/2015)


domingo, 21 de junho de 2015

Mergulho


Era uma vez uma tartaruga jovem que vivia num aquário de uma casa, e hibernou. Os seus donos cansaram-se de a ver dentro da sua carapaça e levaram-na ainda a dormir para um monte.
Abriram a janela do carro e atiraram-na como se fosse uma pedra ou lixo, sem dó nem piedade de cima do monte. A tartaruga resvalou monte abaixo e pelo caminho acordou sobressaltada, estremeceu, sentiu tudo a andar a roda e ficou muito assustada. Só parou quando bateu contra o portão de uma casa. Abriu os olhos, saiu da sua casca, respirou, e olhou em volta.
- Onde estou? O que aconteceu? (boceja) Que acordar tão estranho…Ui…quer dizer… nem sei se já acordei ou se estive a dormir, nem quanto tempo estive a dormir. Óh…estou perdida. Não conheço este sítio! Ou conheço?
E caminha um pouco para reconhecer o sítio. Está confusa, anda à procura de alguma coisa familiar, ou até de água.
- Ai! Tenho as patas todas empenadas! Devo ter dormido mesmo muito…espera aí, onde estão os meus donos? Esta não é a minha casa! (Inspira e expira) Agora tenho a certeza que não estou onde estava. Na outra casa estava dentro de água, num sítio pequeno, até nem tinha grande luz…aqui…tenho muito espaço e não tenho água. Mas os meus donos? Onde estão? Onde foram? Foram eles que me mandaram para aqui? Mas porquê?
De repente ouve uma buzina de um carro. Dá um grito, fica gelada, arregala os olhos, e anda de um lado para o outro, sem saber o que é aquilo, ou para onde fugir.
São os donos da casa do portão onde ela bateu que chegaram com os filhotes das compras. O cão da família sente alguma coisa diferente, e logo que lhe abrem a porta, ele salta e vai atrás da tartaruga.
- Só faltava este também…ai…socorro!
O cão detecta a tartaruga e cheira.
- Áh, que nojo. Vai-te embora! Xô. – Ordena a tartaruga cheia de medo
Mas o cão insiste, e começa a ladrar sem parar.
- Cala-te! Estás a irritar-me! – Pede a tartaruga
Os pequenos vão ver o que se passa, porque é que o cão ladra sem parar. Quando chegam ao pé dele gritam em coro:
- Uma tartaruga!
- Áh! Que gira… - Diz a menina
- Como é que ela veio ter aqui? – Pergunta o menino
- Óh mãe…óh pai… - Gritam os meninos
O cão vai ter com os donos a ladrar. Os adultos vão ver.
- Olhem…uma tartaruga. – Diz o pai
- Hum…é muito estranho, uma tartaruga por aqui. - Comenta a mãe
- Se calhar fugiu de alguma casa.
- Ou foi largada…deitada fora. Às tantas ela estava a hibernar, e pensaram que ela estaria doente ou algo assim. – Diz o pai
- Coitadinha! – Diz a menina
- Óh mãe…vamos levá-la connosco! – Pedem os dois
- Não me parece boa ideia. – Diz a mãe
- Isto não dá trabalho nenhum nem suja a casa. – Diz o pai
-E onde a vais pôr? Tens que a alimentar, sabes o que é que ela come…? – Pergunta a mãe
- Vá lá, mamã…não a deixes aqui fora. – Diz a menina
- Pomo-la na piscina e num aquário. – Sugere o menino
- Isso mesmo. – Diz o pai
A mãe não quer, o pai e os filhos começam todos a protestar e a arranjar argumentos para acolherem a tartaruga. Discutem, negoceiam, resmungam, e tentam de todas as maneiras convencer a mãe a autorizar que levassem a tartaruga para casa.  
- Acho que é melhor fugir daqui…já está muita confusão! Antes que dêem cabo de mim! – Murmura a tartaruga.
A mãe para não se chatear mais autoriza a que levem a tartaruga para casa.
- Mas porque é que vocês ganham sempre! – Resmunga a mãe
- Porque tu és a melhor… - Dizem as crianças em coro
- Tu também gostas de animais. – Comenta o filho
- Vocês é que vão ter essa responsabilidade de tomar conta dela, eu já tenho muito que fazer. – Lembra a mãe
- Sim! – Dizem todos
Por isto, eles enchem a mãe de mimos.
- Boa! Estou salva…obrigada miúdos, obrigada senhor. - Diz a tartaruga aliviada e feliz.
Em casa, metem a tartaruga na piscina, e ela nada feliz, livre, enquanto o pai vai comprar um aquário e comida para ela.
- Áh! Este sim, é o meu meio…o meu mundo! Uau! Está fresquinha a água. Valeu a pena ter batido contra o portão, e ainda bem que aquele farrusco veio atrás de mim. Já nem sabia o que era água. Áh! Tanto espaço…
As crianças deliciam-se a ver a tartaruga na piscina, entram na piscina e brincam com ela felizes. O pai chega e mudam-na para o aquário com um cenário de fundo do mar e água. Ela fica encantada.
- Isto sim…é um aquário. Aqui não me importo de ficar! Gosto deste sítio. (ri) Parece que estou no fundo do mar…um sítio onde gostava de ir com certeza! Pode ser que estes donos vão à praia um dia destes e que me levem.
E o sonho da tartaruga realizou-se! Uns dias depois de se ter instalado na casa, os donos levaram-na no aquário para a praia, onde passaram uns belos dias, e a tartaruga teve a grande felicidade de experimentar com a sua família de humanos, a praia, o mar, e o mergulho.
A diferença é que a tartaruga não precisava de máscara de oxigénio para mergulhar como os seus donos, mas nunca se afastou deles…e quando eles voltavam à superfície, ela também voltava e instalava-se no seu aquário.
A tartaruga estava mesmo feliz, teve muita sorte, e sentia-se como se fosse mesmo parte da sua nova família. Davam-lhe carinho, atenção, e levavam-na para todo o lado onde fossem.
FIM
Lálá
(21/Junho/2015)

      

terça-feira, 12 de maio de 2015

O mar dentro de uma caixa

         Era uma vez uma menina que foi pela primeira vez a uma praia com os seus pais. Levou um vestido fresco, leve e colorido por cima do fato-de-banho, chapéu na cabeça, óculos de sol na cara, e chinelos.
Os pais carregaram a lancheira com o almoço e as bebidas frescas e o guarda-sol. Ela levou os baldes, as pás e moldes para brincar na areia.
Que sorte…quando chegou à praia, começou logo a saltitar de felicidade e um sorriso aberto.
- Áh! A praia é isto? – Pergunta ela
- Sim! – Respondem os pais
- Que grande…tem muita areia e ali está o mar, com os seus carneirinhos. Posso ir?
- Ainda não. – Diz a mãe
- Primeiro vamos instalar-nos e pôr protector solar. – Acrescenta o pai
A menina estica a sua toalha e ajuda os pais a estender as deles. Os pais acomodam as coisas, abrem o guarda-sol, põem protector solar.
- Mãe…posso ir? – Pergunta a menina
- Vai. Mas não saias da nossa vista. – Recomenda a mãe
- Está bem. – Responde a menina
- O pai ou a mãe já vai ter contigo. – Diz o pai
- Boa! – Diz a menina
- Entra devagar…! – Recomenda a mãe
A menina vai para as possecas, feliz, a correr com um balde e uma pá. Mas com o entusiasmo de ver o mar tão perto que lhe tinham falado, entrou rápido e deu um grito.
- Ai…que fria!
E volta para a areia. Senta-se e enche o balde. O pai vai ter com ela.
- Pai. Está fria a água.
- Está? Ainda é cedo. – Diz o pai
E o pai fica a brincar com a menina. Constroem um lindo castelo, e inventam uma história, divertidos. Na hora de mais calor, os dois vão para a sombra do guarda-sol, almoçam e de tarde dormem uma sesta.
Quando acorda, a menina brinca alegremente nas possecas que não foram embora, brinca com os baldes e as pás e com os moldes. Os pais brincam com ela e aproveitam para se refrescar na água do mar.
Ao fim do dia:
- Princesa…vamos embora. – Informa a mãe
- Óh não! – Diz a criança triste
- Tem de ser. – Diz o pai
- Eu quero ficar aqui…gostei tanto da praia e do mar…- Reclama a menina
- Voltamos noutro dia! – Diz a mãe
- Este foi só o primeiro. – Diz o pai
- E o mar não foge! – Reforça a mãe
- Não?
- Não! – Respondem os dois
- Mas eu quero levar o mar e a areia numa caixa. – Pede a menina
- Está bem…- Diz o pai
E vai buscar uma garrafa vazia que ficou do almoço. Põe um pouco de areia no fundo e enche o resto com água do mar.
- Aqui está! Vês? – Diz o pai
- Boa Papá! Conseguiste meter o mar e a areia numa garrafa? És o maior… - Elogia a menina
- Isto é só um bocadinho. – Diz o pai a sorrir
- Claro. A praia é muito, muito grande! Tem muita, muita areia…e tem muita, muita água. – Diz a menina
- Pois tem. – Dizem os pais
- Até amanhã, praia. Até amanhã areia…até amanhã mar. – Diz a menina
A menina sorri, e volta para casa com os pais, muito feliz, com a garrafa cheia de areia e de água do mar. O pai mete a garrafa numa caixa dela.
- Pai…onde está a garrafa?
- Está aí, em cima da mesa.
- Eu quero-a à minha beira. A minha praia. Quero dormir na minha praia.
O pai faz-lhe a vontade. No dia seguinte a menina vai para o colégio e conta aos amigos que tinha levado a praia para casa com ela, que tinha dormido na praia e com a praia, e a areia e o mar estavam guardadas numa caixa durante o dia, enquanto ela ia para o colégio.
Os seus amiguinhos quiseram ver a sua praia. Pediu ao pai a caixa onde estava a garrafa com a areia e a água, e levou-a para o colégio. Mostrou aos amiguinhos, e todos adoraram.
Quando todos os meninos foram à praia com o colégio, fizeram o mesmo: também guardaram a praia na caixinha das recordações, a areia e o mar dentro de uma linda garrafa de vidro, tapada, com pedrinhas pequeninas e conchas que cada um apanhou.
A menina passou a ter duas praias: a dela que já tinha na sua garrafa e na sua caixinha, e agora a praia dos meninos do colégio, guardada na caixinha das recordações dos meninos, juntamente com as muitas fotografias que tiraram.
Não podemos guardar a praia toda, porque não cabe…é enorme, nem o mar…mas podemos ter um bocadinho de areia e um bocadinho de mar junto de nós, na nossa casa…num frasco e, ou, numa caixinha das recordações, para sempre que quisermos vê-la ou visitá-la, mesmo se estiver a chover. A praia e o mar são de toda a gente, mas também podem ser um bocadinho só nossas.

E vocês? Também têm alguma caixinha das recordações? O que é que já guardaram lá? Já alguma vez guardaram a praia ou o mar dentro de um frasco ou caixa?

FIM
Lálá
(12/Maio/2015)
    

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

AS BOLINHAS NA ÁGUA

(foto tirada por Lara Rocha) 

Era uma vez uma praia que tinha areia, e mar. No mar viviam muitas espécies de peixes e algas. Um dia, um ser muito estranho entrou no mar. Nunca ninguém o tinha visto por ali, nem sabiam quem era.
Era uma mistura de peixe, com elfo, tinha escamas nas enormes orelhas bicudas, e salpicos de cores brilhantes por toda a cauda. Os cabelos eram compridos e pareciam algas. Trazia alguma coisa às costas…um saco grande.
Nadou debaixo da água à procura de um espaço. Olhou para todo o lado, e cruzou-se com uma sereia. A sereia ficou assustada com o seu aspecto.
- Menina, desculpe… - Diz a criatura estranha
            A sereia responde a medo:
- Diz…
- Estou à procura de um espaço! Sabe dizer-me onde posso ficar?
- Um espaço, para quê?
- Para dormir, e tocar.
- Dormir e tocar? Mas, vai dormir ou vai tocar…?
- As duas coisas.
- Então quer um espaço para viver?
- Sim, isso mesmo!
- O que aqui não falta é espaço, agora depende do que quiser…dos seus gostos…
- Posso ficar em qualquer sítio destes?
- Sim, claro. Onde gostar mais.
- Áh! Que bom! Obrigada.
- De nada.
            Ela dá uns passos, e pára pensativa.
- Mas que criatura tão…estranha!
- Sim, sou estranho! – Responde o misterioso ser
            A sereia encolhe-se assustada
- Lê os meus pensamentos? – Pergunta a sereia
- Não. Sinto as tuas vibrações dos pensamentos que estás a ter. Eu sei que estás a pensar que sou uma criatura muito estranha. Não te preocupes… toda a gente pensa isso. Sim, sou estranho…eu sei. Mas podes ficar descansada, que não faço mal.
- (ela sorri embaraçada) É que… nunca o tinha visto por aqui antes.
- Claro que não. Nem eu a ti. Vim de outro sítio.
- Áh! Por isso é que não nos conhecemos.
- Exactamente. Mas olha, aproveito para te convidar, se gostas de música, para assistires ao meu concerto esta noite…na praia.
- És músico?
- Sim! Bem…não sei se sou, sei que vivo da música e adoro música. É assim que ganho a vida. Faço muitas coisas.
- Então se eu puder, apareço.
- Isso. Até logo.
- Até logo.
            A sereia volta atrás:
- Vais fazer-me uma pergunta…! – Diz a criatura
- Sim…se não se importar.
- Não, não me importo nada! Eu sei qual é, mas manda…
- Eu queria saber, de onde veio?
- Eu sabia! (ri) Vim de um mar onde já quase não se respirava. As bolinhas de água eram de cor branca e preta, e não subiam para a superfície. Por sinal, muito mal cheirosas.
- Lhec. Onde era?
- Longe daqui, não sei a quantos quilómetros, mas era muito longe! Aqui respira-se, lá não. Já não havia espaço com tanto lixo debaixo da água.
- Ui. Que filme de terror.
- Não era um filme, era a vida real.
- E que bolas eram essas de cor preta e branca…que não subiam para a superfície?
- Não eram coisa boa.
- Então?
- Era…petróleo, tintas, detergentes…
- Ai…acho que estou mal-disposta só de ouvir.
- Imagina se estivesses mesmo lá! Eu estava a ficar intoxicado, foi por isso que saí.
- Fez bem, aqui é tudo limpo.
- Para já!
- Acha que essa porcaria pode chegar cá?
- Bem…espero muito sinceramente que não! Mas nada é garantido!
- Aqui vai sentir-se muito bem.
- Tenho a certeza que sim!
- Bem…se precisar de alguma coisa de nós, estamos sempre por aqui. Passa sempre aqui algum ser bondoso.
- Muito obrigado.
- Até logo.
- Até logo.
            A sereia segue o seu caminho ainda um pouco assustada com aquele misterioso ser. Ele experimenta vários cantos, instala-se no que gosta mais, e onde se sente melhor.
            Tira do grande saco vários instrumentos musicais, e começa a ensaiar para o espectáculo da noite. Debaixo da água e à sua volta formam-se milhares de bolinhas de água, umas maiores outras mais pequenas, conforme a intensidade com que toca.
            De noite, o jovem vai para a superfície, e começa a tocar na água. Centenas de pessoas invadem a praia, e passado algum tempo, ele sai da água com pernas, em vez da cauda.
Fica sentado num palco que tem um grande tanque de água. Ele entra para o tanque, e ganha novamente cauda, sempre a tocar os instrumentos. A sua cauda brilhante dá luz, e todos aplaudem maravilhados.
Todas as sereias assistem ao concerto dentro da água. O jovem atira-se para o mar, e toca dentro da água. À volta dele formam-se milhares de bolinhas de água, que voam como bolas de sabão para o público, à medida que ele vai tocando. Os sons é que fazem as bolas.
O público aplaude, e vibra, agarram as bolinhas e sopram. O rapaz toca músicas de todo o tipo, o público salta, canta e dança com ele. Ele anda de um lado para o outro, em cima do palco, sempre a tocar e a cantar, depois salta para o tanque, e para o mar, tanto aparece com pernas, como com cauda.
No final do concerto, dá muitos autógrafos, e tira fotografias com os admiradores. E repousa feliz, adormecendo logo que se deita. Enquanto dorme, uns peixinhos pequeninos, quiseram experimentar os instrumentos, e tocam sem ele se aperceber. Formam-se mais centenas de bolinhas na água.
Uma sereia vê tantas bolinhas na água que se aproxima e vê que são os marotos dos peixinhos a tocar sem autorização. Ela chuta-os, e eles desatam a fugir.
O ser estranho acorda.
- Quem mexeu nos meus instrumentos? – Pergunta ele
- Desculpe…foram uns peixinhos traquinas. Mas já os mandei embora. Fizeram barulho para si? – Responde e pergunta a sereia
- Não! Não te preocupes.
- Estava a dormir?
- Sim, mas senti a vibração deles a mexer nos meus instrumentos…mas sabia que não estavam a estragá-los, e que não era por mal. São curiosos, é normal. Foi por isso que também não lhes disse nada.
- Áh!
- A água ainda está cheia de bolinhas…tocaram forte!
- É.
- Não, não leio pensamentos…sinto vibrações. Sou um ser estranho não sou? 
            A sereia sorri.
- Não. É diferente.
- Somos todos.
            Os dois conversam alegremente, e nos dias seguintes, sempre que viam bolinhas na água, já sabiam que era ele que estava a tocar. Sentia-se tão bem naquele sítio, que nunca mais foi para outro.
Todos os habitantes se conheciam e ajudavam-se sempre que precisavam, faziam muitas festas e bailes, eram amigos, e cuidavam muito bem do seu espaço. Não se via um único sinal de poluição de águas, nem lixo. Era por isso que as bolinhas na água, dos instrumentos, flutuavam. Toda a gente gostava muito dele e das suas músicas.
            A sereia e o ser misterioso tinham toda a razão! Ali naquele mar, respirava-se bem, a água era limpa, e todos eram saudáveis. Muito diferente do sítio de onde ele tinha vindo.
E vocês? Já viram algum ser estranho como este? Se vivessem no mar, esse mar era limpo ou cheio de lixo como o nosso? Limpavam-no? Como? E as praias perto de vocês, como são?
                                                          
                                                           FIM
                                                           Lálá

                                               (23/Fevereiro/2015)