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segunda-feira, 4 de março de 2019

A lição do lixo à volta das escamas

           


Era uma vez um ouriço-do-mar que fugiu do oceano onde vivia com a sua família, de muito longe por causa da poluição. Percorreram longos quilómetros à procura de uma casa onde não houvesse lixo. Estava difícil de encontrar, mas finalmente, passaram por uma montanha aquática onde a água era transparente, morna e bem salgada como eles gostavam! Cheirava bem a algas.
           Estavam muito cansados, por isso instalaram-se no primeiro sítio que viram, e caíram num sono como já não se lembravam de ter. Tudo parecia calmo, outros animais que passavam, olhavam para eles, mas não lhes tocavam.
          Mas um acontecimento inesperado, despertou-os de repente, e assustou-os muito. Um violento tremor de terra! Instalou-se a agitação e o terror debaixo de água. Não sabiam bem o que estava a acontecer, mesmo assim, viam todos a correr de um lado para o outro, e um peixinho gritou-lhes:

- Saiam daí. Estão num sítio muito perigoso.

- O que é que está a acontecer, pergunta um ouriço-do-mar.

- Não temos tempo de explicar, agora. Venham atrás de nós! Rápido.

           Os ouriços-do-mar seguem-nos, assustados. Levanta-se um monte de areia que se move a uma velocidade arrepiante, e corre debaixo da água, formam-se centenas de bolhas de água que sobem em redemoinho para a superfície, e quase arrasta tudo o que é animal, mas eles já sabem que quando isso acontece, juntam-se e escondem-se num abrigo que construíram no casco de um navio afundado há muitos anos.
           O caos vai para a superfície, e as água nas profundezas acalmam. Todos respiram de alívio.

- Passou! - suspiram todos

           Um peixe matreiro, muito bonito, mas perigoso, grita:

- Intrusos!

           Estava a falar dos ouriços-do-mar. Como eram todos muito unidos, e todos obedeciam às ordens desse peixe, porque tinham medo dele, o que ele dissesse, tinham de fazer, se não, eram castigados.  Na verdade não gostavam de muitas coisas que ele fazia ou dizia, mas ninguém tinha coragem de o desafiar.

- Óh, não...nós viemos na paz, à procura de um lugar para viver, porque o nosso estava cheio de lixo! Quase não conseguíamos respirar! - explica um deles

- Eu não perguntei nada! - exclama o peixe arrogante

- Ele odeia perguntas... - diz outro peixe 

- Fora daqui. - Grita o peixe

- Mas nós... - tenta outro ouriço-do-mar

- Não quero saber de explicações! Fora... - Grita o peixe

           Os ouriços-do-mar afastam-se tristes. O peixe malvado vai passear todo emperuado e de repente algo se enrola nas suas barbatanas. Não consegue nadar, nem sair do mesmo sítio, e quanto mais tenta libertar-se, mais atado fica.
           Os ouriços-do-mar vêem a aflição do peixe, vão ter com ele, e ele escorraça-os, grita com eles, chama-lhes nomes feios, mas eles não se deixam intimidar.

- Vão-se embora...eu não vos quero aqui. - Grita o peixe 

- Para de te mexer e de gritar! - recomenda um ouriço

- Olha que porcaria que ele tem aqui à volta...

- Como vamos tirar daqui isto?

          Os ouriços-do-mar agem rapidamente, juntam-se e quando encontram uma possível saída do lixo, uns puxam dum lado, outros doutro, cortam com os seus picos partes dos fios, passa um peixe espada e ajuda a cortar os fios, e aos bocadinhos vão libertando o peixe.
          No fim estavam todos completamente exaustos. Respiram fundo, e caem na areia lentamente.Os ouriços agradecem ao peixe espada. O peixe está ofegante e muito nervoso, mas ao mesmo tempo envergonhado, por isso, depois de estar um pouco em silêncio, começa a soluçar e a chorar. Os ouriços-do-mar aproximam-se, olham-no, a medo, recuam.

- Estás bem? - pergunta um ouriço

- Ele odeia perguntas, lembras-te? - relembra o ouriço  

- Vamos... - diz um ouriço com medo

- Óh... esperem! - Diz o peixe a chorar

           Eles param, e olham para o peixe

- Estou muito envergonhado! Desculpem... muito obrigado por me terem tirado aquela porcaria! Ai, quase me acontecia alguma coisa má! Não sei de onde veio aquilo.

- Nós tínhamos toneladas...talvez... dessa porcaria na nossa zona!

- E o que é?

- É lixo... coisas que os humanos já não precisam...

- É que... não devem ter onde pôr.

- Parece que é o que dizem!

- Malditos! - Grita o peixe zangado

- Nós? - perguntam os ouriços assustados

- Não! Aqueles...

- Áh, sim! Tens razão...

- Eu fui muito bruto convosco. Escorracei-vos e vocês ainda me libertaram do lixo! Desculpem.

- Na hora de precisar...

- Pois, eu sei! Não merecia.

- Não foi isso que quisemos dizer!

- Na hora de alguém precisar não pensamos muito. Respondemos!

- Mas eu fui tão estúpido, que vocês deviam deixar-me ali enrolado naquela coisa.

- Porquê?

- Isso ia tirar-te a brutidade?

- Tu realmente não és nada simpático, és arrogante e bruto, mas talvez também tenhas as tuas razões para ser assim!

- Sim, têm razão!

- Toda a gente tem medo de ti.

- Medo de mim? Acham?

- Claro que sim!

- Óh, também não queria isso... é que eu acho que se não for mau, ninguém vai gostar de mim.

- Que disparate!

- Acham?

- Claro. Eles e toda a gente gostam de amigos bons.

- Que vergonha... sou um monstro!

- Não... és bonito, mas podes ser mais suave a falar como os outros.

- Como?

- Queres aprender?

- Quero! É uma forma de vos pedir perdão, e de agradecer!

- Podemos ficar?

- Claro que sim! Por favor!

             Os ouriços-do-mar dão umas verdadeiras aulas ao peixe, de como ser amigo e generoso com os outros, para gostarem dele, sem ser mau. Mas que grande mudança. O peixe mau passou a ser  um verdadeiro doce, cavalheiro, colaborador, educado, delicado, sedutor, brincalhão, divertido... e todos os outros que o rodeavam repararam. Elogiaram-no, chamavam-no sempre que precisavam, ele fazia convívios e divertia-se muito!
            Deixou de ser um chefe mau, e tornou-se no que sempre tinha sido: um peixe amigo, como os outros, que precisava dos outros, e que ajudava quem precisava. Desde esse dia, aquele lugar subaquático nunca mais foi o mesmo. Ao primeiro sinal de lixo, instalava-se a confusão, juntavam-se todos, e devolviam o lixo à superfície, na tentativa que os humanos deixassem de fazer lixo nas praias.

Acham que seria uma boa solução para resolver o problema dos lixos nas praias e nos mares?
               
                                                                         FIM
                                                                         Lálá
                                                                     4/Março/2019 

sexta-feira, 25 de março de 2016

as estátuas do jardim das cascatas (adolescentes e adultos)






Cena 1
Era uma vez um jardim coberto de gelo e de neve, num dia igualmente gelado com sol. Esse jardim tem muitas luzes por todo o lado…candeeiros de vários tipos e luzes de várias cores, luzes de natal a piscar, mas nem tanta luz consegue descongelar o frio do jardim.
Além das luzes e do gelo, há por todo o jardim estátuas de pedra diferentes, com acessórios diferentes…umas estão pousadas na relva (agora coberta de neve), outras pousadas nas fontes de água e nos laguinhos com pedaços de neve e de gelo. Também existem umas cabaninhas de palha com mesinhas e banquinhos e casa de banho.
O jardim está silencioso, parece que tudo dorme…mas…de repente as estátuas ganham vida…e interagem umas com as outras.
A primeira estátua a acordar é uma mulher com um bebé ao colo que está pousada numa fonte. Na mesma fonte está a estátua de um pássaro. As duas estremecem, com o frio, e a mulher e o pássaro trocam impressões:
M – Ui…que frio!
P – Pois está! Não te esqueças que estamos em pleno Inverno. Olha à nossa volta, e a água…cheia de gelo e neve.
M – Sim, isso dá para ver. Aproxima-te mais!
         O pássaro pousa à beira da mulher.
P – Quem é essa criança?
M – Qual criança?
P – Essa que tens no teu colo…!
M – Não sei…puseram-ma aqui, acho eu…não me lembro…
P (murmura) – Coitada…até os miolos dela estão congelados…nem se lembra quem é a criança que traz ao colo. (para a mulher) Não sabes quem é? Eu ouvi dizer que ela ou…ele…essa criança…é teu filho…ou…filha…é rapaz ou rapariga…?
M – É rapaz…tem aqui a arma apontada…
P – A arma…ele tem uma arma…?
M (ri) – A arma…é aquilo que o identifica como rapaz…percebes?
P – Não…que eu saiba o que nos identifica é o nome…!
         A mulher ri-se e mostra ao pássaro o bebé.
P (a rir) – Ááááhhh…percebo! Vocês inventam cada coisa para isso…! (os dois riem) Onde está o pai do rapaz…?
M – Sei lá…nunca o vi.
P – Não és casada…? Nem tens namorado?
M – Que eu saiba…não tenho nada disso, nem sou nada disso!
P – Tu és muito estranha…!
M – Sou uma estátua…! Como tu…não sei onde está a estranheza…!
P – Dizes coisas esquisitas…
         Os dois riem.
M – Olha, porque não vamos procurar alguma coisa para vestir e para comer?
P – Achas que há? Num sítio onde só há gelo?! Pode haver por baixo deste gelo, mas teríamos que esgravatar como as galinhas e os pássaros ou cães…à procura…e se calhar não está em bom estado para consumir.
         Aparece uma rapariga, e estas duas estátuas, voltam a ficar imóveis. A rapariga leva uns grandes sacos com cobertores, olha para as estátuas e fica com pena delas…
R – Coitadas…com este frio, e estas aqui…descobertas…
         Ela tira cobertor por cobertor e cobre cada estátua do jardim. Ela olha para as estátuas cobertas, sorri e murmura:
R – Áááhh…assim está melhor.
         A rapariga sai do jardim a sorrir. As estátuas voltam a acordar. A mulher e o pássaro comentam:
M – Áááhh…agora temos um cobertor?!
P – Sim, parece que sim!
M – Boa!
P – Também acho…vem mesmo a calhar.
M – Pois foi. A menina foi boazinha.
P – Sim, é verdade, foi mesmo. Até parece que nos leu os pensamentos…agora só falta mesmo procurar comida.
M – Vamos ver o que há por aí…
P – Estás muito optimista…quer dizer…sonhadora…!
M – Não sei o que estás a dizer…sei que estou com fome, e que vou procurar comida. Vens comigo?
P – Sim, vou contigo.

Cena 2
As duas estátuas vão enroladas no cobertor, a falar uma com a outra, e as outras estátuas também ganham vida. Duas estátuas de fadas, pousadas na relva, ao ver a mulher e o pássaro comentam uma com a outra baixinho:
F1 – Olha – me esta…
F2 – Conheces?
F1 – Sim, ela é daqui…já está aqui há muito.
F2 – Eu não vou muito com a cara dela…e ele conheces?
F1 – Sim, também é daqui. E a desgraçada já anda com ele…
F2 – Porquê? Ela andava com outro? Não me lembro de a ver com ninguém…
F1 – Há pouco tempo andava com uns rapazes humanos…que frequentavam muito aqui o jardim…
F2 – Aqueles que vinham de garrafas, e que deitavam fumo pela boca…?
F1 – Sim, esses mesmos!
F2 – E ela andava com esses…?! Que esfomeada…não lhe chegava um…?
F1 – Eram…só faziam cenas! Eu nem sei como é que ela era capaz…com a criança ao colo…
F2 – E a criança é filha dela?
F1 – Sim, deve ser…ela está sempre com ela ao colo.
F2 – E quem é o pai?
F1 – Não sei…se calhar é um daqueles humanos com quem ela andou…! Ela era muito pretendida.  
F2 – Que falta de gosto destes homens…eu não a acho assim nada de especial…Mas já a viste alguma vez com o pai do bebé?
F1 – Não. Vejo-a sempre sozinha…!
F2 – Mas…porque é que ele não anda com ela? É o pai do bebé…tinha obrigação de andar com a mãe…
F1 – Pois era…mas nunca vi os dois. Se calhar chatearam-se…ou então, ela nem sabe quem é que fez o bebé…!
F2 – Ui, mas isso é impossível, ela não saber quem é o pai do filho dela.
F1 – Não é impossível…se ela tinha mais que um namorado…pode ter sido um qualquer…!
F2 – Mas quando se tem um namorado…e nasce um bebé…sabe-se de quem é.
F1 – Ai, santa ignorância…! Esquece…ela agora anda com um pássaro…ainda é mais estranho.
F2 – Realmente…não tem nada a haver um com o outro…! Este pássaro tem a mania que é bom! Deve ter muita treta…
F1 – Pois…também acho. E ela está a gostar.
F2 – Que burra…
F1 – Quem? Eu…
F2 – Não…esta…!
         As duas riem, fixam o olhar uma na outra.
F1 – Espera aí…tens uma cobertura…!
F2 – Tu também…
F1 – Foste às compras e não me convidaste, nem me disseste nada…?!
F2 – Mas eu não fui às compras…
F1 – Nem eu…
F2 – Então…quem é que nos pôs isto aqui por cima?
F1 – Não sei…sei que é muito bom…muito confortável…
F2 – Sim. (sorri) E quentinho.
F1 – Sim. Eu fiquei tão entusiasmada com os dois que nem tinha reparado que tinhas essa cobertura…
F2 (ri) – Pois, nem eu…nem tinha reparado que tinha isto sobre mim…
F1 (a rir) – Deve ter sido alguém que teve pena de nós.
F2 – A outra…e o pássaro também tinham uma cobertura…
F1 – Áááhh…pois tinham! Então…se calhar foram eles…
F2 – Hum, não sei…tenho dúvidas de que tenham sido eles.
         As duas fadas continuam a coscuvilhar uma com a outra, riem…

Cena 3
        
         Passa pelas fadas, pela rapariga com o bebé e pelo pássaro uma outra estátua…um atleta masculino, a correr e a saltitar, as fadas olham-no deliciadas e sorriem. Ele cumprimenta por quem passa:
A – Boa noite!
M+P – Boa noite!
P – Então…a correr com este frio? Como é que aguentas? Isto até congela os músculos…!
A – Não…vai uma corridinha comigo para correr com o frio? O frio enrijece os músculos…é bom.
M+P – Não.
M – Nem pensar…eu com este frio, quase não me consigo mexer, quanto mais correr…!
P – Eu também não aguento.
M – Não te deram um cobertor?
A – Deram, mas eu não preciso dele…prefiro mexer-me, e correr…ou fazer exercício físico do que ficar parado.
P – Não devias abusar…devias ficar quietinho com o cobertor…
A – Não…isso é pior…
P – Olha, pronto…tu é que sabes.
M – Olha, por acaso não sabes onde podemos encontrar comida por aqui?
A – Não sei…mas com certeza haverá qualquer coisa…
         Passa uma estátua cozinheiro, com chapéu, avental, e uma colher de pau numa mão e um pote na outra. Cumprimenta.
C – Boa noite, amigos!
Todos – Boa noite.
M – O Sr. É cozinheiro?
C – Sim, sou…não se vê? Com este chapéu…o pote…a colher de pau e o avental…?
M – Pois, tem razão!
P – Mas o que tem esse pote?
C – Ainda não tem nada, mas vai ter…
M – Áááhh…estamos com tanta fome…! Onde vai buscar a comida?
C – Vou por aí…e vou buscar legumes para fazer uma deliciosa sopa!
A – Vai uma corridinha para correr com o frio e com as gordurinhas…óh…senhor simpático…gorducho…?
M – Mas que mal-educado! Eu dava-lhe com a colher de pau…!
C (indignado) – Olhe…eu só não lhe dou com a colher de pau porque não tenho outra para cozinhar…mas na altura certa, vai ter o arroz que merece!
A (ri) – Tinha piada bater-me com a colher de pau…não disse nada de mais, você é mesmo gorduchinho… (p.c) vai cozinhar o quê? Paus, erva e gelo…?!
C (zangado) – Pode ser que te cozinhe a ti, palerma…!
A (ri) - Com tudo congelado, nem o fogo acende!
C (zangado) – Eu faço acendê-lo no teu rabo!
A (ri) – Só se cozinhar legumes de brincar ou de ar e vento…inté…
         Continua a correr e a rir, o cozinheiro responde-lhe a gritar:
C – Ainda vais engolir esse gozo fininho, óh parvalhão…vais ver a sopa que vais ter… bom…não há tempo a perder…vou buscar os legumes e venho já fazer uma bela sopa para quem quiser come-la…com este frio...
M – Quer ajuda para colher os legumes?
C – Não filha, muito obrigada! Eu não demoro… daqui a pouco podem ir ali comê-la, àquela cabaninha e abrigar-se lá do frio.
         Passa uma estátua de uma mulher com uns cântaros de água nas mãos e grita:
M.C. – Quem quer água quente…ou leite…quem quer, quem quer…?
Todas (gritam) – Eu…
         A mulher com o bebé, o pássaro e o cozinheiro acenam à mulher dos cântaros. Ela pousa-os no chão e diz:
M.C. – Boa noite…querem água quente?
Todos – Sim.
         A mulher dos cântaros distribui água quente, eles bebem consolados. O cozinheiro informa:
C – Olha, vou buscar legumes para fazer uma rica sopa, podes deitar-me água no pote para cozinhar mais depressa?
M.C. – Claro! Até te ajudo a fazer a sopa se quiseres!
C – Está bem! Espera aqui por mim…já volto.
M.C. – Está bem.
Cena 4

    Enquanto eles conversam, o atleta parou com as fadas, a conversar animadamente, até que se ouve um casal de estátuas num lago, quase congelados, a tremer de frio e estão a discutir:
Rapariga (grita) – Ai, aquece-me…!
Rapaz – Aquece-me tu também…!
         O atleta ouve e responde:
A – Olhem…enrolem-se um no outro, debaixo do cobertor e façam exercício físico… (ri malicioso). Aquele exercício que conhecem bem…
Rapaz – Com este frio até ela quase desaparece…não dá pá…
A – Não te preocupes…ela daqui a bocado quando começar com o exercício estica outra vez… (rapaz e atleta riem-se maliciosos)
F1 – O quê…? Ele faz ginástica contigo…?
A (sorri e responde baixinho) – Comigo não propriamente…mas com muitas raparigas já o vi fazer ginástica…Xiiiiuuuu…
F2 – Áááhh…que sacanas…então é isso…! Os torneios…!
A (sorri, responde baixinho) – Ele é estátua, e está com esta, mas não é nenhum santo, nem de ferro…!
F1 – Nem os de estátua prestam…!
F2 – Ai coitada…esta deve ter um peso…em cima da cabeça!
F1 – Podes crer…
F2 – Se fosse outra qualquer, ele aquecia logo…
(Riem) 
Rapariga (grita) – Este frio encolhe toda a gente…! De que é que se estão a rir?
Todos (a rir) – Nada, nada…
Rapariga – Não gostei desses segredinhos…!
Rapaz (a rir) – Aquece-me mas é…
Rapariga (grita) – Que grande lata…
A – Óh rapariga…quanto mais gritares, mais gelada ficas…!
Rapariga (nervosa) – Que parvo…! (p.c) Tu é que tens de me aquecer...
Rapaz – Eu…?
Rapariga – Sim, tu…quem mais…? Estás sempre a dizer que és muito quente…!
         As fadas riem e metem veneno:
F1 (a rir) – É quente…teoricamente…na prática, nem para isso serve…!
Rapariga – Pois…estou a ver que sim!
Rapaz – Estás a ser egoísta.
Rapariga (grita) – Eu…a ser egoísta…? Só não te enfio esta bola pela goela abaixo porque não cabe.
Rapaz – Sim, estás a pensar só em ti, porque eu também estou quase regelado, e encostado a ti, não aqueço…como queres que te aqueça mais…?
Rapariga (resmunga) – Mas que raio…quem foi o idiota que me construiu como tua namorada…! Que ódio…apetece-me desfazer-te…
Rapaz (resmunga nervoso) – Vai pastar.
Rapariga (resmunga, nervosa) – Se eu estivesse congelado mandava-te daqui abaixo…
Rapaz (resmunga) – Tu ias também parar lá abaixo…podia ser que aquecêssemos…vamos tentar…?
Rapariga (zangada) – Vai tu sozinho…
F1 (a rir) – Eles amam-se…
F2 (a rir) – Uuiii…loucamente…
F1 (a rir) – Estão juntos para isto?
F2 (a rir) – Olha, estamos muito bem sem ninguém…
A – Meninas…se estivessem comigo, não iam querer outra coisa…
         As duas riem às gargalhadas…
A – Vou continuar a minha ginástica. Até já… (para o casal) vai uma corridinha para aquecerem e para acalmarem…?
Os dois – Não.
Rapaz – Boa viagem…
A – Volto já…vejam se se entendem…
Rapaz – Yá…
Cena 5
         O atleta segue caminho, a mulher dos canecos ouve os dois a discutir, aproxima-se, ajoelha-se, serve-lhes água quente e fala com eles:
M.C. – Então…não precisam de discutir.
Rapariga (a tremer) – O que é isto?
Rapaz – Não é veneno com certeza.
M.C. – É água quente para vos aquecer!
         Os dois bebem seguido, satisfeitos, sorriem, e pedem mais.
M.C. – Bebam…para ver se o amor descongela, e renasce florido! Porque é que não estão abraçados e com os dois cobertores juntos para se aquecerem…?
Rapariga (zangada) – Farta de estar abraçada a este estou eu…que nem me aquece…
Rapaz – Juntar os cobertores…olha…nem pensamos nos cobertores…
M.C. – Pessoal, juntem-se todos aqui. O mais que poderem para nos aquecermos todos!
         A mulher com o bebé e o pássaro sentam-se um de cada lado do casal, a mulher dos cântaros distribui mais água quente. Todos bebem. Passa a estátua de uma bailarina, a estátua de um homem palhaço e a estátua de um casal a dançar. Todos dizem boa noite.
B – Humm, o que há aqui?
Todos – Água quente.
M.C. – E agora, além da água quente, começa a haver algum calor humano. Juntem-se aqui…querem água quente?
Todos – Sim.
         Juntam-se todos, bebem água e juntam-se aos outros na relva abrindo os cobertores. Passa novamente o atleta e grita, a fazer ginástica:
A – Vai uma corridinha para correr com o frio?
Todos – Não.
A – Que bando de pastelões…molengões…
B – Olha – me este…
A – Bailarina…minha beleza rara…queres acompanhar-me…para…uma dancinha…?
B – Não faltava mais nada.
A – Ahhh…que nariz arrebitado…má…
B – Estou gelada demais para te responder à altura…
A – Tinhas muito que subir essa língua, querida…
B – Ai, que ridículo…!
M.C. – Queres água rapaz?
A – Sim, aceito.
F1 – Deste a volta num instante…
A – Pois…não se vê um palmo lá fora…tenho medo de tropeçar em alguma coisa.
F2 – Pois, pois…
B – Cheirou-te a fêmeas no pedaço, ficaste logo louquinho…
A – Mas tu achas que eu sou quem…?
B – Tens a mania que és o melhor…
Palhaço – Então, gente…por favor…dêem-se bem…ao menos para aquecermos…com a amizade.
D1 – Sim, o palhaço tem razão.
Rapariga – Estamos todos tão gelados que é impossível pensar em amizade…!
Palhaço – Não…vocês é que complicam o que é fácil. (p.c) Desculpem, as minhas ideias também estão congeladas…não encontro nada de engraçado para vos fazer rir…
Todos – Não faz mal.
A – Eu já não tenho frio com as corridas que dei.
B – Acredito mesmo!
A – É verdade! Toca-me, vais ver como estou quente…
B – Não querias mais nada…
F1 (a rir) – Estás quente é noutro sítio…
F2 (a rir) – Pois…!
F1 – Mete-te aqui debaixo…à nossa beira…
A – Não preciso!
F2 – Anda lá, não sejas egoísta…pensa em nós…
A (sorri) – Eu já penso muitas vezes em vocês!
F1 – Então pensa outra vez, e junta-te para nos aquecermos.
A (sorri) – Ai querem aquecimento…? E o que é que recebo em troca?
F2 – Ai a amizade precisa de recompensas…?
A – Sim…claro. Eu não trabalho de graça…
         As raparigas abanam as cabeças chateadas.
A – Vou dar outra volta…
B – Vai-se exibir…coitado. Já que ninguém repara nele em estado normal, ao menos se andar a fazer figura de louquinho…a fazer exercício físico com este frio, e sem roupa…toda a gente vai reparar na figurinha triste…
         Todas as raparigas riem e concordam. Ele vira costas frustrado e zangado mas vaidoso. Elas chocam as mãos umas com as outras, a rir, bebem mais água quente.
Cena 6

Passam mais três estátuas de crianças de mãozinhas dadas, a chorar, e a tremer de frio. A mulher dos cântaros chama-os, dá-lhes água quente, acaricia-os, e cada um vai para o colo das raparigas: um para a bailarina, outro para a dançarina, e outro para a fadinha. Juntam os cobertores, abraçam-se, e finalmente chega o cozinheiro com os legumes no pote.
C (sorri) – Olhem, olhem…temos mais gente…? Boa!
M.C. – Sim. Apareceu mais gente!
C – A sopa chega para todos. Venham também lá para dentro! Ficamos mais quentinhos. Levantam-se todos, e refugiam-se numa das cabaninhas…o cozinheiro acende o fogão e a lareira.
C – Quem quiser pode ajudar-me a descascar os legumes.
         Todos ajudam a descascar, menos as crianças que ficam à lareira. Enquanto descascam os legumes falam uns com os outros, riem, e o palhaço faz algumas brincadeiras para entreter os pequenos e os grandes. Há muitas gargalhadas e palmas. Estão felizes e muito mais quentes, enquanto fora da cabana está um frio cada vez mais cortante, e chove tocada a vento. O pobre atleta está muito aflito, regelado, e passa pela cabana. Ele põe-se de joelhos e implora:
A – Por favor…deixem-me entrar!
B – Tu disseste que não precisavas de nós…nem do nosso agasalho, nem da nossa água quente…!
M – Pois foi…disseste que já estavas quente…com o exercício…!
Rapariga – É…tu corrias com o frio, com as tuas corridinhas…
M – É verdade…! E ainda por cima gozaste com o cozinheiro…!
A – Vá lá…não sejam tão mazinhas…
Todas – Mázinhas…? Nós…?
C – É…e o cozinheiro gordo ia cozinhar legumes de ar e vento ou de plástico não era? Olha-os ali…a fervilhar…parecem pedras num vulcão…lindos…já prontos a aquecer-nos e a matar a nossa fome…! (p.c) Agora devias ficar aí fora e procurar tu os legumes, para ti…
A – Eu sei que falei demais…e que o magoei…por favor…perdoe-me… e deixe-me entrar.
B – Gabaste-te demais como sempre…armaste-te em bom…!
A – Sim, está bem, também tens razão.
F1 – Vá lá…deixe o moço entrar…
F2 – Sim, ele portou-se mal, foi muito inconveniente…mas deixe-o entrar…
F1 – Coitado do pobre…
F2 – Está ali a penar.
A – Pode-me bater com a colher de pau, mas por favor deixe-me entrar! Desculpe o que eu disse. A sua sopa cheira mesmo bem, deve estar deliciosa.
C – Com certeza. Bem merecias levar com a colher de pau, mas eu preciso dela para servir esta sopa angelical.
A – Eu…faço o que quiser…mas por favor…não me deixe ficar aqui…
C – Entra pobre diabo…! Miserável…! Ingrato…! Põe a mesa…
A – Sim, Sra. Tudo o que quiser. Muito obrigado, deixe-me aquecer as mãos só um bocadinho, se não ainda deixo cair os pratos… (p.c) Você é um bom homem.
C – Sim, é a tua sorte…eu não ter uma pedra no lugar do coração, se não deixava-te aí fora para aprenderes a respeitar e a engolir essa vaidade que mete nojo. 
         O atleta entra, quase congelado e sem se mexer, bebe água quente, senta-se à beira da lareira para se aquecer um pouco e põe a mesa. Há conversas cruzadas, gargalhadas, brincadeiras, todos já bem confortáveis e quentes sentam-se à mesa e comem deliciados a sopa cheia de legumes feita com muito carinho pelo cozinheiro.
         Depois das barriguinhas atestadas, e bem quentinhos, todos se divertem com as brincadeiras do palhaço, e todos se deliciam com a beleza das danças do casal e da bailarina. Batem palmas, confraternizam a noite toda, mesmo fora da tenda com tudo iluminado.
         E estas estátuas voltam para o seu sítio de dia, continuam a enfeitar o jardim, e quando este fecha ao público passam a reunir-se sempre, o que faz nascer entre eles uma grande amizade.
         Aliás…o calor da amizade, e o calor humano foi o que os salvou daquele gelo cortante…além da sopa do cozinheiro!

FIM
Lálá 

(8/Dezembro/2011) 

terça-feira, 28 de outubro de 2014

O CASTELO DOS GATOS BRANCOS



foto de Lara Rocha 

Era uma vez um castelo abandonado há muitos, muitos anos. Ficava no pico de uma montanha muito alta, onde os seres humanos que viviam na cidade e arredores, nunca tinham conseguido chegar porque o caminho era perigoso. Só os animais tinham facilidade em chegar, graças às suas patas.
        O castelo via-se da cidade, e despertava a imaginação das pessoas, que tentavam imaginar quem viveria lá, se é que vivia alguém. Alguns acreditavam que poderiam viver…fantasmas ou seres misteriosos das histórias que lhes contavam, outros achavam que só haveria ervas daninhas e as paredes…quem sabe, tivessem vivido lá uns reis, mas agora não há nada disso. Mesmo assim, o castelo encantava toda a gente.
        Nos nossos tempos, uma gata de pêlo branco, foi maltratada e escorraçada da casa dos seus donos, quando descobriram que ela ia ter uma ninhada. O pai dos gatinhos era cinzento e branco. Os dois eram muito bonitos.
        A pobre gata percorreu triste e vagarosa a cidade, na esperança que alguém gostasse dela e que a acolhesse, pelo menos para ela ter os seus filhotes.
        Quem olhava para ela tinha pena, mas não podia acolhê-la…ou porque vivia num apartamento, e não tinha condições, ou porque tinha pouco dinheiro, e outras pessoas porque eram alérgicas ao pêlo de gato.
        Uns velhinhos que passeavam pela cidade deram-lhe mimos, comida e bebida, e queriam levá-la para o lar que os acolhia, mas no lar não quiseram ficar com a gatinha.
        Lá continuou a bichinha à procura…triste. Encontra o gato, pai dos filhotes…um vadio, mas sensível e educado…foi por isso que a gatinha se apaixonou.
        Ela contou-lhe que estava à espera de gatinhos, e que tinha sido expulsa e maltratada pelos donos. O gato ficou feliz com os filhos mas não gostou nada de saber que ela foi maltratada e expulsa. Disse à gata que não a ia largar nunca mais.
        Partiram os dois á procura de um lugar onde ficar. Passaram por muitas ruas da cidade, recantos, túneis, pátios, dormiram alguns dias debaixo dos bancos de jardim, outros dias em soleiras das janelas e portas, e em paragens de autocarro. Lá iam arranjando sempre algumas almas caridosas que lhes davam mimos, comida e bebida.
        Mas eles continuaram à procura. Os dois concordavam que a cidade não era um bom sítio para eles, nem para os gatinhos, então decidiram ir para a montanha. Subiram, subiram, subiram…andaram muitos quilómetros e chegaram à grande montanha do castelo arruinado. Estavam muito cansados.

- Gosto deste sítio! – Diz o gato

- Eu também! – Diz a gata

- Não conhecia.

- Nem eu!

- Mas aqui parece-me seguro! E sossegado.

- Sim! Também agora não temos mais para subir.

- Pois não. Só se for…para baixo.

- Aos trambolhões.

- É!
        Os dois riem, instalam-se nas ruínas do castelo, um canto protegido do vento e do frio, e da chuva, muito acolhedor! Enquanto a gata fica a descansar, o gato vai pela montanha à procura de comida, e palas casas. Felizmente, muita gente dá-lhe comida e bebida, e leva para a gata.
        O tempo passa, e os gatos ficam instalados no castelo. A gata tem uma ninhada de oito gatinhos brancos, lindos, de olhos azuis e verdes, pêlo muito branquinho, alguns com manchinhas cinzentas como o pai gato.
        Os dois são uns pais babados, orgulhosos, vaidosos, protectores, cuidadores, atentos e dedicados. Todos são saudáveis e felizes, brincam, correm, rebolam, passeiam, trocam muitos mimos e aprendem a procurar comida.
        Os gatinhos crescem. Num dia de muita chuva, o castelo é invadido por muitas famílias de gatos brancos que vão numa correria louca.

- Por favor… - Pede um gato ofegante

- Desculpem! – Pede outro gato aflito

- Podemos…instalar-nos aqui?

- Só…por esta noite…até…a tempestade passar.

- Claro que sim! – Dizem o gato e a gata

- Fiquem descansados. – Diz o gato

- Fiquem o tempo que for preciso… - Diz a gata

- São família? – Pergunta outra gata

- Somos! – Respondem

- Nós também. – Dizem os gatos em coro

- De onde vem? – Pergunta o gato

- Da cidade! – Respondem todos

- Está impossível lá em baixo…- diz outra gata

- Porquê? – Perguntam os gatos

- Porque está quase tudo debaixo da água. – Descreve uma gata assustada

- É água por todo o lado! – Acrescenta outra gata assustada

- Vimos gatos, cães, pessoas e coisas a afogarem-se, a serem empurrados pela água. – Descreve outra gata assustada

- Mas porque é que isso aconteceu? – Pergunta a gata

- Esta tempestade! – Diz um outro gato

- Se não viéssemos pelo primeiro caminho que nos pareceu ter menos água, tínhamo-nos afogado! – Diz outro gato

- Pois era. – Dizem todos
        Os dois gatos acolhem os outros, dão-lhes de comer e de beber, arranjam-lhes um quarto no castelo e convivem alegremente. Os pequenos tornam-se logo grandes amigos e os crescidos também.
        Nos dias seguintes de tempestade, mais e mais gatos brancos fugiram para esse sítio, e foram ficando. Gostaram tanto uns dos outros que se instalaram todos no castelo, nasceram muitos mais gatinhos, todos brancos e cinzentos.
        Num dia de muito calor, um jovem aventureiro foi com o seu grupo de escalada, subir a montanha até ao castelo que se via da cidade.
        Quando chegaram ao cimo, viram centenas de gatos brancos e cinzentos a vaguear pelo castelo e naquela montanha. Parecia uma comunidade só de gatos brancos do castelo…o castelo era só para eles.
        Os jovens ficaram maravilhados com a paisagem e por ver tantos gatos no mesmo sítio. Fotografaram e na cidade, expuseram as fotos.
        Depois desse dia, muita gente quis ir ver os gatos, e passaram a chamar a essa montanha: a montanha do castelo dos gatos brancos. Os animais conviviam bem com as pessoas, mas às vezes não queriam receber visitas, e punham os lobos brancos, de quem eram grandes amigos, e de quem recebiam muita comida e bebida, nas estrada, a impedir o acesso…porque os lobos não eram maus…mas as pessoas tinham medo deles e fugiam.
        A montanha do castelo dos gatos brancos nunca mais foi a mesma!

FIM
Lálá
      (27/Outubro/2014)