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terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Tudo fechado

    Era uma vez uma aldeia numa montanha muito alta, congelada, cheia de neve, onde se sentia um vento cortante, e os dias pareciam ainda mais pequenos do que são, no Inverno. 

     As pessoas que lá viviam eram tão frias umas com as outras que pareciam não saber sorrir, não viam nada de bonito, mas as estrelas quiseram fazer uma surpresa para ver se essas pessoas saiam daquele gelo. 

  Num dia de sol, quando todos estavam no seu trabalho e em casa, começaram a atirar garrafas de água com arco-íris a girar, rodopiar, fazer redemoinhos. 

    Deixaram uma garrafa à porta de cada um, e espalhadas pelo chão. Outras garrafas tinham plantas com gotinhas de água que brilhavam como diamantes ao sol. 

    Em algumas garrafas havia flores pequeninas, muito mimosas, de muitas cores. Numas garrafas estavam pequeninas luzes, de muitas cores a piscar, noutras lindas borboletas gigantes, de tamanhos variados e cores. 

   Noutras garrafas estavam guardadas palavras bonitas, noutras estrelas, noutras, raios de luz de todas as cores, e noutra, brilhantes. Todas teriam de ser abertas, e tudo o que estava em cada uma delas, queria sair. 

    Quando regressou o primeiro habitante viu as garrafas espalhadas,  muito surpreso, começou a ver o que tinha em cada uma delas. Ficou maravilhado, nunca tinha visto tanta coisa nova e bonita. 

- Quem pôs isto aqui? Que coisas tão bonitas…! - diz com um sorriso aberto 

    Ainda ficou mais surpreso, quando viu na sua porta uma garrafa, com um bilhete: «Abre a garrafa, ou as garrafas, que tocarem mais o teu coração, e que te tenham feito sorrir». 

- Mas… 

    Volta a olhar para todas as garrafas, e a que tinha as florinhas pequeninas mimosinhas, foi a que tocou o coração dele, e fez abrir um sorriso luminoso. 

  Abriu a garrafa e as florinhas saltam felizes da garrafa para o chão, dançam e dão risadinhas. 

- Obrigada! - dizem todos 

   O Sr. ri à gargalhada, deliciado ao ver flores tão pequeninas a dançar, a cantar de forma tão diferente da dele, mas tão encantadora. Chega outro e pergunta o que o amigo estava a ver e a rir à gargalhada. 

   Ele responde que encontrou todas aquelas garrafas no chão, cheias de coisas tão bonitas, que o fizeram sorrir, e tinha um bilhete à sua porta, a dizer para abrir aquela, ou aquelas garrafa (s), que tocasse (m) o seu coração, e o tivessem feito sorrir. 

    O amigo riu, e ficou a apreciar juntamente com ele, as florinhas a dançar, a ouvir as risadinhas que depois se separaram e foram parara em vários sítios, espalhadas pela neve. 

    Esse amigo, também tinha o mesmo bilhete à porta da sua casa, tal como todos os outros que foram chegando. Cada um abriu uma garrafa diferente, os outros dois ainda estavam com um sorriso aberto, e maravilhados. 

    Uma senhora abriu a garrafa das plantas com as gotinhas de chuva que brilhavam como diamantes. Mal saíram da garrafa começaram a cantar em forma de agradecimento, umas vozes fininhas, que parecia o som do vento, a passar pelos pinheiros. A Sra. riu à gargalhada. 

- Obrigada. - disseram elas no fim, e espalharam-se pelo espaço 

    Outra senhora, viu o bilhete e o que mais tocou o seu coração, foi a garrafa de água com arco-íris a girar, rodopiar, e fazer redemoinho. 

- Ááááhhh…que coisa tão bonita! - diz a senhora com um sorriso de orelha a orelha. 

    Quando abre essa garrafa, os arco-íris espalham-se pelo ar, em forma de grandes e leves bolas de sabão, onde se veem todas as suas lindas cores. Todos suspiram de espanto e de encanto, seguindo as bolas de sabão com os olhos e com sorrisos abertos. 

   Os habitantes ficam deliciados com o que veem. Outro casal abriu a garrafa das borboletas gigantes de todas as cores. Todos pareciam hipnotizados com tantas, e tão bonitas, tão grandes a esvoaçar levemente à sua frente. 

    Algumas borboletas pousaram nos cabelos, outras nas bochechas, outras nas mãos, como se estivessem a fazer carinho. Abriram sorrisos como nunca antes visto, e soltaram gargalhadas, palmas, exclamações de encanto. 

    As borboletas ficam por ali, escolhem lugares diferentes para se instalar. Outro casal com  filhos, abriu a garrafa das estrelas, que sopraram e espalharam-se por todo o lado, deixando tudo brilhante e luminoso, todos aplaudem. 

    O outro casal com filhos, abre a garrafa dos raios de luz, de todas as cores, que se tornam enormes, e iluminam todo o espaço, como holofotes que giravam, mudavam de direções, escondiam-se nas nuvens e voltavam a aparecer, todos riram com vontade. 

  Os habitantes nem querem acreditar, nunca tinham visto tanta coisa bonita. A garrafa das palavras bonitas, quase era esquecida, foi ignorada, mas um pequeno cãozinho deu sinal: ladrou sem parar à beira da garrafa, depois de a cheirar. 

  Ficaram todos preocupados, com aquele nervosismo do cão. Quando se aproximaram, perceberam que estava lá uma garrafa e dizia: «palavras bonitas», abram por favor e leiam-nas uns aos outros. 

    Como não estavam habituados a dizer e a usar palavras bonitas, sentiram medo, e ficaram quase congelados sem mexer na garrafa, a olhar uns para os outros. 

  Juntam-se vários cães, dos habitantes, cheiram a garrafa, ladram em coro, sem parar, lambem a garrafa, põem as patas em cima, e tentam abrir. 

- Os cães gostaram dela! 

- Se calhar podemos abrir, e ver o que há. 

- É. Deve ser isso que os cães estão a dizer. 

    Os cães ladram como que a confirmar que é seguro abrir. 

- Quem abre primeiro? - pergunta uma senhora

- Posso abrir eu! - diz outra 

    Ficam todos na expectativa, a ver o que sairia da garrafa. O que estaria escrito? Além de palavras bonitas, dizia: Leiam com o coração, sinceridade, e um sorriso na cara. 

- Que coisa estranha! Vamos tentar. 

    Cada um tira um papel com uma palavra bonita, lê em voz alta, com um sorriso, uns deixam escapar umas lagriminhas de alegria, ternura e gratidão, outros distribuem abraços que se tornam longos, outros elogiam, outros dão as mãos, outros procuram pequeninos mimos e oferecem.

    Outros fazem mimos aos animais. No final combinam uma festa à noite, ao ar livre, onde viram as estrelas, como nunca antes tinham visto, as luzinhas pequeninas por todo o lado, os raios de luz que pareciam auroras boreais a dançar, os arco-íris em forma de milhares de bolas de sabão, que se juntaram à festa, esvoaçando por todo o lado. 

    Gostaram tanto das palavras bonitas, que leram, e transformaram num jogo coletivo, onde baralhavam as palavras na garrafa e cada um tirava uma diferente, e as estrelas enviavam todos os dias, palavras bonitas diferentes, e os próprios procuraram. 

    Aprenderam a sorrir com o coração, a elogiar com sinceridade e a abraçar com muito carinho, a conversar muito mais uns com os outros e a ajudar. Aprenderam a apreciar em conjunto e sozinhos as maravilhas da Natureza, que os fazia conversar uns com os outros sobre isso, iam investigar quando não conheciam o que viam, e adoravam ver as lindas borboletas. 

  À noite, juntavam-se para tomar chá, apreciar as estrelas, a lua, e conviver. Tornaram-se uma grande família, onde havia muita amizade, brincadeiras, festas, respeito, felicidade e apesar do gelo da noite, do frio do vento, havia sol, no céu, calor humano, nos abraços, nos elogios, nos sorrisos abertos, nas mãos dadas, nos carinhos que davam aos animais, e uns aos outros, no amor à Natureza, na beleza que aprenderam a ver em tudo o que até aí parecia não existir. 

   As estrelas não podiam estar mais orgulhosas! 

E vocês? Que palavras bonitas acham que estavam na garrafa que dizia «palavras bonitas»? 

Qual ou quais a (as) garrafa (s) que podem vocês escolheriam? 

Porquê? 

Podem deixar as vossas respostas nos comentários, se quiserem. 

                                                                               Fim 

                                                                        Lara Rocha 

                                                                         31/12/2024   


domingo, 5 de novembro de 2023

A verdadeira união

A verdadeira união entre duas pessoas é algo muito mais do que o contacto físico, e troca de olhares...aliás, começa com quando os olhos falam, a boca cala-se, e as palavras flutuam ao sabor do diálogo que se estabelece entre os dois corações. 
União significa a fusão de dois corpos que se ligam emocionalmente, numa só energia vibratória, numa linguagem sem palavras, com uma conversa que só eles têm e sabem o que dizem. 
Os corpos não ouvem, mas os olhos falam, o toque das mãos um no outro falam, os sorrisos espontâneos sem motivo aparente falam, os abraços falam, tudo fala na sua linguagem própria, secreta. 
União é paciência, carinho, sorriso, é o que fica depois da ilusória e fugaz paixão. Paixão, aquilo que agrada aos olhos, mas nem sempre fica depois desse fogo...Na união, permanece um encantamento diário, o apreciar, o contemplar o outro, a vontade de descobrir o outro, lentamente, sem pressa, a saborear, e percorrer todos os labirintos do outro. 
A verdadeira união entre duas pessoas tem amizade, lembrança, a sensação de pertença sem posse, a troca de carinhos não forçada, natural, recíproca, com a aceitação do outro, e resposta. 
União é mimos, pequenos gestos, rir, brincar, conversar sem medo, beijar com respeito, é estar presente e dar espaço, é confiar! 

                                Fim 
                           Lara Rocha 

E para vocês? O que é união, namoro? Amizade? 
 

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Aquele sorriso de criança

desenhada por Lara Rocha 
    

    Às vezes a vida brinca connosco. Junta-nos e separa-nos. Umas vezes aceitamos bem, outras nem tanto, dependendo da pessoa que é, do que tivemos com ela. Algumas felizmente afastaram-se de nós, outras, lembramos de vez em quando mas achamos que nunca mais as vemos, temos apenas recordações fugazes, que se perdem no espaço rapidamente. 

        Mas o destino às vezes volta a juntar-nos passados uns anos, de forma inesperada, como aconteceu ontem. Ontem passeava-me pelos Jardins do Palácio de Cristal, e apanhava sol sentada no banco, perdida na paisagem. (p.c) Uma paisagem para a Ribeira…com águas cristalinas e rastos de brilho do sol… (p.c) Que lindo! (p.c) Pelo canto do olho vejo um rapaz, mais ou menos da minha idade, que me olhava fixamente. 

        À primeira vista não o conhecia, até que ele sorriu, e cumprimentou-me, sorriu-me. Com aquele sorriso…acendeu-se um pequeno flash na minha cabeça…eu já tinha visto aquele sorriso lindo, de malandreco, mas cheio de meiguice em algum lado, mas agora, num corpo de homem. 

        Ele percebeu que eu não estava a reconhece-lo, e começou a falar comigo…fiquei boquiaberta…afinal conhecíamo-nos tão bem…! Tínhamos estado juntos no hospital, ainda muito pequenos, há uns bons anos atrás…! Por causa de familiares nossos…eu tinha lá a minha Avó internada, e ele tinha lá o Avô dele. 

        Nós os dois tínhamos brincado juntos, e tínhamo-nos tornado amigos…mesmo depois dos nossos familiares terem saído do hospital, trocaram contactos, e ainda nos encontramos várias vezes. Mas entretanto, crescemos, e cruzávamo-nos de vez em quando… na rua, ou nos centros comerciais…sorriamos um ao outro, mas nada demais…Até que ontem…ele reiniciou as nossas conversas. 

        Falamos essa tarde toda, trocamos contactos, rimos muito, recordamos as nossas brincadeiras…foi tão engraçado! Há coisas que ele ainda mantém…os cabelos aos caracóis, castanhos…que lhe ficam lindamente… e um sorriso…aquele sorriso que tinha em criança! E que lindo que está! Um homem…elegante, simpático, meigo…com um sorriso de criança! 

        Hoje…daqui a bocado…sairemos outra vez juntos. Foi tão bom! E ele disse que eu estou na mesma, os traços da cara, que ele se lembrava de mim, ainda são os mesmos. O Mundo é mesmo pequeno! 

        E há características nossas, físicas e mesmo psicológicas, que por mais que os anos passem, não mudam. Como aconteceu com o sorriso daquele rapaz…agora homem…com um lindo sorriso de criança.  

        Fica tão atraente…! Pude perceber que nele, tal como em mim, a criança interior que fomos, mantém-se bem viva ainda hoje, e que tanto a minha criança, como a dele, reconheceram-se através dos nossos olhos, ou do sorriso. 

        E ontem…as duas crianças voltaram a rir, a brincar uma com a outra, a chorar, a trocar carinhos e a relembrar momentos felizes que passaram juntas. É por isso que hoje, os dois na casa dos 30…ainda somos as crianças que fomos, num corpo maior, transformado. 

        Que saudades de quando éramos inocentes…quando não tínhamos maldade, nem más intenções. Foi tão boa a nossa infância. Quem sabe, se as nossas crianças interiores, não olham uma para a outra, e não se descobrem, com os olhos do coração! 

        Estamos os dois solteiros…livres…descomprometidos…Pode ser o destino a juntar as duas crianças que um dia se encontraram, para continuarem a ser crianças, numa só alma…juntas num amor sincero, puro, verdadeiro e inocente. A minha criança espera pela tua, e a tua espera pela minha. 

                                                                    Fim 

                                                                Lara Rocha 

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

O espantalho muito pretendido




Era uma vez um espantalho que vivia num campo onde havia muitas abóboras, carnudas, grandes e enormes, lindas, que dava mesmo vontade de comer. Os cães tomavam conta dele, e não deixavam ninguém tocar-lhe ou roubá-las. Ladravam sem parar, rosnavam e atiravam-se se fossem teimosos. Uma vez, uns pássaros tentaram comer uma abóbora, e tirar palha do espantalho para construir ninhos.
- Fora daí…! Au…Au…au… - Gritavam os cães
- Deixa o espantalho! – Gritava outro cão
- As abóboras não são para vocês…ponham-se a voar daqui para fora. – Rosnou outro cão.
- Óh…por favor…eu preciso de palha e erva para fazer um ninho! – Pediam os passarinhos
- E eu preciso de palha para cobrir os meus filhos nos ninhos, aquecê-los…por favor…deixem-nos levar daqui um bocadinho de palha! – Implora outro passarinho.
- Não pensem que essa vossa história nos comove. Fora! – Gritou outro cão
- Há muita palha e erva por aí! Nesta não tocam! – Acrescenta outro cão.
Os passarinhos levantavam voo, tristes, e tentavam voltar para roubar palha, mas os cães estavam sempre atentos e rosnavam e ladravam, perseguiam-nos até que eles saíssem do campo.
- Teimosos! – Resmungavam os cães.
- Voltaram? – Pergunta um cão a rosnar
- Querem ser a nossa refeição? – Pergunta outro cão
- Vá lá! Só um bocadinho…por favor! – Pediam os passarinhos
- Não! – Gritam os cães
- Da próxima vez que voltarem, vão ser o nosso jantar, ou dos nossos donos. – Resmunga outro cão ameaçador
Os passarinhos lá iam procurar palha para outro lado, mesmo assim às vezes ainda tentavam aproximar-se, só que rapidamente eram corridos. Mas não eram só os passarinhos que queriam comer a palha do espantalho.
Os burrinhos e os cavalos também tentavam comer a palha mais baixa, a dos pés e pernas do espantalho, que era onde chegavam melhor. Os cães não deixavam. Ladravam, rosnavam e corriam atrás dos cavalos e dos burrinhos, que fugiam muito assustados e só paravam quando sentiam que estavam seguros, longe dos cães.
Às vezes a vontade dos cavalos e dos burrinhos comerem a palha do espantalho era maior do que o medo e do que os cães, por isso, voltavam a tentar várias vezes, mas os cães não deixavam.
- Fora daqui! – Gritavam os cães a ladrar muito irritados
- Teimosos. – Resmungavam
- Esta palha não é para comer… - Relembrava outro cão
Os burrinhos e os cavalos tentavam de várias maneiras conquistar a amizade dos cães, para ver se tinham sorte, e se estes os deixavam comer a palha que eles tanto queriam, mas não adiantava nada…! Os cães não caiam!
Numa noite, uma bruxa sobrevoou o campo na sua vassoura:
- Áh! Mas que beleza de espantalho! Vais ser meu…ih, ih, ih, ih, ih, ih, ih…ih, ih, ih… - comenta a bruxa
Os cães ficam muito atentos, e agitados:
- Que coisa é aquela que está ali parada? – Pergunta um cão
- Acho que…não sei…! – Responde outro cão
- Tem um aspeto assustador! – Diz outro cão
- É uma bruxa! – Reconhece o espantalho
Os cães ficam muito agitados e assustados, juntam-se mais à volta do espantalho com os dentes de fora, a rosnar, mas a bruxa não teve medo, deu umas sonoras gargalhadas e adormeceu os cães agitando a sua vassoura, antes que eles tivessem tido oportunidade de defender o espantalho.
- Óh! Não acredito! O que aconteceu aos bichos? Costumavam proteger-me e agora deixam-me ir com este ser que não conheço! Ai…ela vai dar cabo de mim! Maldita. – Diz o espantalho muito assustado
A bruxa leva o espantalho consigo, levantando voo às gargalhadas, toda satisfeita. Já no seu buraco onde vivia, a bruxa tinha algumas dezenas de espantalhos.
Ela tentou destrui-lo e transformá-lo em mau, mas os outros espantalhos que ela já tinha lá, gostaram tanto deste que não deixaram que ela lhe fizesse mal.
Um dos espantalhos adormeceu a bruxa com um sopro muito mal cheiroso, que ela própria lhe tinha dado, e assim conseguiram todos fugir para o campo de onde tinha sido levado o espantalho, que estava cheio de abóboras iluminadas, e onde todos festejaram toda a noite.
De manhã todos dormiram no campo, em cima de molhos de palha, sem ninguém dar por eles. A bruxa não desistiu, estava louca de fúria, tentou várias vezes atacar o campo e destruí-lo, mas a união dos espantalhos que tinham ganho alguns poderes, evitou que a bruxa conseguisse vencer as suas maldades.
Ela ficou muito irritada, frustrada, e surpresa, porque achava que era muito poderosa e afinal estava a ser vencida por espantalhos que tinha transformado para serem seus escravos.
E as festas continuaram!
Fim
Lálá
(30/Outubro/2016)


O espantalho medroso


        Era uma vez um espantalho que vivia num campo de produtos alimentares, em cima de um pequeno armário onde se guardavam os cereais como milho, trigo, centeio e outros. Além dos produtos, o campo tinha enormes girassóis.
O espantalho era de palha, estava vestido, calçado e tinha sido levado para o campo há muitos pouco tempo. De dia gostava de estar lá, do sol, das cores, tinha sempre a companhia das pessoas, ouvia muitos barulhos diferentes, mas logo que escurecia e as pessoas voltavam para casa, ele ficava mais triste, e quando era noite, ficava muito triste.
Sentia-se muito sozinho, o mais pequeno barulho assustava-o, porque todos lhe eram desconhecidos, e não conseguia ver nada. Ele quase nem se mexia com medo. Não segurou mais as lágrimas, e soluçou, mas parou quando um gato foi com as suas patinhas de lã, muito levezinho pelo campo fora a farejar.
Quando encontrou o espantalho ele já tinha visto, disse-lhe:
- Boa noite!
O espantalho estremece, fica gelado e responde a medo:
- Ai que susto! Boa noite! Quem está aí? Vai-te embora…não podes comer os cereais aqui do armário…xôôô…
- Ei…! Não estás a ser nada simpático! – Diz o gato
- Não tenho que ser simpático! Tenho de proteger os produtos dos meus donos
- Entendo! Mas comigo não precisas de falar assim…eu sou da casa! Sou um gato, um dos muitos que foram acolhidos por estas pessoas queridas!
- Não foram muito queridas, pelo menos comigo, deixaram-me aqui sozinho, nesta escuridão! – Lamenta o espantalho
- Tu és um boneco de palha, certo?
- Certo!
- Então, a tua função não é assustar ou afastar vadios que queiram roubar ou comer os cereais e essas coisas deliciosas?
- É!
- E tens medo?
- Sim. Está muito escuro aqui! Acho que não me deviam deixar cá fora de noite.
- Mas de noite é que é preciso tomar conta…!
- Porquê?
- Porque de noite é mais fácil roubar ou comer…
- E tu, não tens medo?
- Não! Já estou habituado! Mas diz-me do que tens medo?
- Não há luz aqui! Eu gostava de ter luz! Está muito escuro. E estes barulhos que não conheço!
- Não está tudo escuro; se não eu não te tinha visto, e vejo-te!
- Se calhar já conheces o terreno!
- Sim, mas não é só por isso! Olha para a tua frente…
- Áh! Estou a ver alguma coisa.
- Claro! No sítio onde estás é escuro, mas por cima de ti, e à tua volta há luzes. As da rua, as da casa, a da lua e das estrelas…olha! Ali em cima…aquela bola enorme e as pintinhas todas à volta!
- Áh! Que lindo! Pois é! Nunca tinha visto aquilo.
- Claro! Só se vê de noite. E se tens medo, tudo à noite parece muito mais assustador, há muitas sombras, as coisas parecem transformar-se em gigantes, monstros, criaturas horríveis…tudo fica mais inspirador para a criatura medricas.
- Como é que sabes isso?
- Já passei pelo mesmo.
- Então também já tiveste medo?
- Claro! Toda a gente, e animais incluídos, têm medo! Enquanto não conhecemos os espaços, e as coisas que nos rodeiam, temos medo.  
- E quem é aquela de que falaste? Mora aqui?
- Aquela quem?
- A criatura de que me falaste.
- A criatura medricas?
- Sim!
- É uma criatura que está por todo o lado.
- Como é que ela é?
- Ela está aqui agora. É difícil descrevê-la.
- Onde está? Não vejo ninguém.
- Pois. Mas está!
- Então como consegues vê-la?
- Ela vive na nossa cabeça! É ela que nos faz ter medo! É ela que transforma tudo o que vemos, em coisas horríveis!
- Como é que sabes?
- Também vive na minha…quer dizer…já viveu, mas depois saiu.
- E para onde foi?
- Não sei! Sei que às vezes ainda me vem visitar, mas por pouco tempo.
- Quando tens medo?
- Isso mesmo!
- E de que tens medo?
- De algumas coisas.
- Quais?
- Do que não conheço, de alguns sítios, e de alguns animais.
- Áh! Mas…e estes barulhos?
- Estes barulhos sempre estiveram aqui. São pequenos insetos que cantam! E outros brilham, dão luz. Tu não estás sozinho…
O gato explica-lhe tudo e convida o espantalho a ir dar uma volta pelo campo, para o conhecer, enquanto conversam alegremente um com o outro. O espantalho vai muito assustado, e pára muitas vezes, vai com os olhos muito abertos, e o corpo muito preso.
O gato ri-se e diz-lhe:
- Não precisas de abrir tanto os olhos, deixa-te ir…confia em mim. Aqui não há perigo, podes andar à vontade! Olha os meus amigos…Olá boa noite, malta.
Os outros gatos aproximam-se, o gato apresenta-os, e criam logo uma linda amizade com o espantalho. O espantalho aprende a conhecer muito bem o terreno e fica deliciado a ouvir os barulhos das cigarras e grilos a cantar.
Depois, um outro espantalho, do campo vizinho, também se torna amigo dele, e os dois começam a ter longas conversas um com o outro, e a juntar-se para ver as estrelas, passear pelos campos com os gatos.
Uns dias depois, uma fada dos campos ofereceu uma luzinha a cada espantalho, pendurando-a no seu pescoço, e pôs outra luz maior aos pés de cada um.
O espantalho vizinho apresenta outros espantalhos, de outros campos, e encontraram-se muitas vezes para conviver. Com a amizade que o espantalho criou, com os gatos e com os espantalhos, nunca mais se sentiu sozinho, e perdeu alguns medos.
Quando todos tinham medo de alguma coisa nova, ou barulho estranho, rapidamente deixavam de o ter, porque abraçavam-se uns aos outros, ou davam as mãos, e iam todos juntos, ver o que era.
Quando percebiam que não era nada de tão assustador quanto imaginavam, respiravam de alívio e riam-se.  
Eles sabiam que o medo muitas vezes não existia mesmo, e alguns eram só da sua imaginação, que se desfaziam quando viam que não era nada de tão perigoso…o medo ajuda-nos a proteger, e a ter mais atenção!
O medo faz parte de nós, e todos nós temos medos! Uns podem ser mais reais do que outros, uns desaparecem rápido, outros demoram mais tempo.
Uns aprendemos, outros criamos e outros não sabemos como nascem…quer dizer…imaginamos.

E vocês, do que têm medo? Peçam a um adulto para vos falar dos medos. Eles também os têm!
Fim
Lálá
(30/Outubro/2016)


            

sexta-feira, 25 de março de 2016

A lenda da fonte do sol (adultos e adolescentes, crianças)


NARRADORA - Era uma vez um lago com uma fonte perdido no cimo de uma montanha muito alta, muito ventosa e verdejante, que pertencia a um castelo desabitado e em ruínas. Várias pessoas já tinham tentado entrar, mas nunca tinham conseguido. Todos tinham muito medo de lá entrar, pois diziam que ouviam coisas estranhas, e viam. Apesar disso, a fonte era misteriosamente bonita, e servia de inspiração para pintores, poetas, escritores e gente ligada às artes. Um dia, um grupo de mulheres maltratadas fez uma peregrinação a essa montanha, quase arrastando-se e chorando de dores. Elas iam pedir ajuda, e mesmo maltratadas, sentiram uma força extra, muito estranha, como nunca antes tinham sentido, e aceleram o passo, chegando rapidamente ao topo. Dentro do castelo está uma mulher prisioneira, que vivia lá escondida, refugiada, e com um coração enorme, muito bondosa, mas eternamente aprisionada a um desgosto de amor que não tinha ultrapassado, jurando a si mesma que nunca mais olharia para homens, e que defenderia todas as mulheres que dela precisassem. Ninguém sabia desta sua vida misteriosa, e ela tinha poderes. As mulheres ajoelham-se no chão.
MULHERES (gritam em coro, ofegantes) - Chegamos! (abraçam-se)
MÁRCIA - Não sei o que aconteceu, como chegamos tão rápido…! – Diz Márcia.
(Olham em volta e assustam-se com a altura)
CARLA (assustada) - Ai…! Onde estamos…?
MÓNICA – No cimo da montanha.
PRISIONEIRA – O que temos aqui…? (Ouve vozes e espreita pela janelinha) A força vem daqui…mulheres…! Como estão…! Mais umas marionetas nas mãos de…homens…! (estremece)
NARRADORA – A prisioneira levanta os braços, roda-os em direcção ao sol e lança bolinhas de fogo para a água da fonte. As mulheres olham para a fonte, assustadas.
PRISIONEIRA – Não tenham medo. Molhem-se na fonte!
NARRADORA – Elas assustam-se com a voz, estremecem, e olham para o castelo, onde vêem uma sombra de mulher na janela.
FILIPA – Já estou a ver coisas…?
DORA – Deve ser do cansaço…
MARIANA – Eu também estou a ver…
JULIA – Ouviram uma voz?
TODAS – Sim.
SOFIA – A água tem bolinhas…de fogo.
PRISIONEIRA – Não tenham medo. Molhem-se na fonte!
NARRADORA – Elas molham-se a medo, e as suas feridas cicatrizam.
PRISIONEIRA – Entrem no castelo.
NARRADORA – Elas entram a medo e abraçadas umas às outras.
PRISIONEIRA – Entrem! Deixem o medo fora da porta…aqui dentro já há que chegue.
TODAS – O quê?
PRISIONEIRA – Medo…! Entrem e subam as escadas…até onde virem luz.
SARA – Que medo…está tudo escuro.
PRISIONEIRA – Confiem na vossa luz! Deixem que ela vos guie.
SOFIA – A minha luz não existe.
TODAS – A minha também não.
PRISIONEIRA – Existe sim! Se não existisse não teriam chegado cá cima.
LUANA – Não sei se alguma vez tive luz.
DINORA – Por favor acende a luz.
PRISIONEIRA – Não há. Está na hora de reacender a vossa luz. Vamos, mulheres! Vocês têm-na…
NARRADORA – E elas sobem cheias de medo, agarradas, a olhar para todo o lado, e devagar.
PRISIONEIRA – Podem vir devagar…eu espero.
NARRADORA – Elas sobem mais depressa, e encontram uma claridade debaixo da porta.
PRISIONEIRA – Sim, é aqui mesmo. Entrem! Não sou uma visão…sou uma mulher como vocês!
NARRADORA – Elas abrem a porta, e vêem uma linda mulher, elegante, atraente, de longos cabelos escuros, e olhos verdes, vestido verde e capa preta.
PRISIONEIRA – Boa noite! Fiquem à vontade.
NARRADORA – As mulheres estão fascinadas. Ela sorri-lhes.
PRISIONEIRA (sorri) – Que lindas!
TODAS (sorriem) – Tu ainda és mais.
MÓNICA – Há quanto tempo não recebia um elogio.
PRISIONEIRA – Este é sincero, a cada letra que disse.
MÓNICA (sorri) – Sim, senti.
PRISIONEIRA – Vieram aqui pedir ajuda não foi?
TODAS – Sim.
ANA PAULA – Como é que sabes…? Ainda não falamos…
PRISIONEIRA – A fonte curou as vossas feridas…já viram? Vejam-se ali no espelho.
TODAS (gritam) – Espelho não…!
PRISIONEIRA – O espelho não é homem…é espelho. Vejam-se.
CAROLINA – Ai, não quero ver-me…
FILIPA – Nem eu…
GRAÇA – Sou demasiado feia…
PRISIONEIRA (ri) – Acordem meninas…olhem para o espelho. Não entraram aqui por acaso, e entraram…nem todos entram.
RITA – Isso foi o que ouvimos dizer…mas ouvimos dizer que esta fonte faz milagres.
PRISIONEIRA – Sim, e já se molharam na fonte…vejam o milagre que aconteceu…
NARRADORA – Elas olham a medo para o espelho. Ficam boquiabertas.
TODAS – Uau! Foi mesmo um milagre! Não temos nada…
LÚCIA – Realmente…!
PRISIONEIRA – Estão a ver?!
GRAÇA – Porque é que nós entramos?
PRISIONEIRA – Porque estão em sofrimento…com os mesmos sentimentos que eu!
TÂNIA – Mas…tu vives aqui?
PRISIONEIRA – Vivo. Desde que tive um grande desgosto de amor.
NARRADORA – Ela conta a sua história. Todas choram.
PRISIONEIRA – Não tenham pena! Nem fiquem tristes! Esta é uma oportunidade para vocês conhecerem a vossa força de vulcão! Amanhã, quando o sol nascer…serão umas novas mulheres! Esta madrugada…antes do sol nascer…mergulhem na água do lago, e recebam os raios de sol. Mas agora…descansem! Há aqui muito espaço.
SARA – Acho que esta dor nunca vai passar…
PRISIONEIRA – Minha querida…o que restará amanhã…será apenas uma cratera adormecida, que só com o tempo, e quando as lágrimas secarem, é que se transformará numa cicatriz. Mas vai passar! Quanto tempo…tudo depende da vossa força…da forma como se virem no espelho. Uma coisa é certa: não voltarão a ser marionetas nas mãos de homens! O vosso coração ficará adormecido, até que um amor verdadeiro o desperte novamente, e outra cratera se abrirá se esse amor acabar…e voltará a cicatrizar…! Mas tudo será diferente…a dor será diferente…a cicatrização será mais rápida…basta nunca deixar esmorecer ou petrificar a vossa força. Libertem amor por quem está disposto a recebê-lo. Não entreguem o vosso tesouro maior, para o primeiro que vos conquista com palavras bonitas.
ANA PAULA – Mas como vamos prever se as coisas vão dar certo ou não…? Se soubéssemos isso, não nos tínhamos entregue àquelas bestas.
PRISIONEIRA – A partir de agora saberão. Confiem na vossa luz, e na vossa sensibilidade.
GRAÇA – Não tenho sensibilidade nenhuma. Ele acabou com tudo.
PRISIONEIRA – Amanhã, com os raios de sol, tudo voltará…uma nova força…uma nova sensibilidade, uma nova luz…! Estarei convosco, amanhã. Boa noite…!
TODAS – Boa noite!
NARRADORA – Elas estão mesmo exaustas. Deitam-se e dormem. A prisioneira também dorme, e ao amanhecer, ela desperta as outras. Todas seguem para a fonte, e as mulheres mergulham na fonte. A prisioneira levanta as mãos viradas para os primeiros raios de sol, e condu-los para a água. A água começa a fervilhar, e fica amarela. Os raios de sol atravessam a pele das mulheres, e estas sofrem uma grande transformação interior, enquanto gritam e choram, giram na água, mergulham, e desaparecem.
PRISIONEIRA (sorridente) – Umas novas mulheres…! Com a força de um vulcão, para que não vivam eternamente prisioneiras, mesmo que uma parte do vosso coração tenha de ficar aprisionado, que seja temporário, e que o resto esteja livre para amar quem vos merece, para distribuir carinho. E saberão quem são!
NARRADORA – E a prisioneira tinha toda a razão. Elas transformaram-se numas lindas e poderosas mulheres, atraentes, com amor-próprio, respeitadas, independentes, felizes, orgulhosas, e livres. Todos nós temos na nossa vida, alturas em que desaparecemos de nós mesmos, fugimos, destruímo-nos, entregando-nos demais, e amando demais, a ponto de deixarmos de saber quem somos. Com isso abrimos crateras no coração que custam muito a fechar. O importante é que deixemos que os raios de sol do amanhecer, entrem no nosso coração e adormeçam a cratera da dor, até que outra se abra, sem nunca perdermos a força de vulcão que há em cada uma de nós. Que tenhamos sempre uma fonte do sol em nós.  

FIM
Lálá 
                                                                12/Outubro/2013