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terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Tudo fechado


    Era uma vez uma aldeia numa montanha muito alta, congelada, cheia de neve, onde se sentia um vento cortante, e os dias pareciam ainda mais pequenos do que são, no Inverno. 

     As pessoas que lá viviam eram tão frias umas com as outras que pareciam não saber sorrir, não viam nada de bonito, mas as estrelas quiseram fazer uma surpresa para ver se essas pessoas saiam daquele gelo. 

  Num dia de sol, quando todos estavam no seu trabalho e em casa, começaram a atirar garrafas de água com arco-íris a girar, rodopiar, fazer redemoinhos. 

    Deixaram uma garrafa à porta de cada um, e espalhadas pelo chão. Outras garrafas tinham plantas com gotinhas de água que brilhavam como diamantes ao sol. 

    Em algumas garrafas havia flores pequeninas, muito mimosas, de muitas cores. Numas garrafas estavam pequeninas luzes, de muitas cores a piscar, noutras lindas borboletas gigantes, de tamanhos variados e cores. 

   Noutras garrafas estavam guardadas palavras bonitas, noutras estrelas, noutras, raios de luz de todas as cores, e noutra, brilhantes. Todas teriam de ser abertas, e tudo o que estava em cada uma delas, queria sair. 

    Quando regressou o primeiro habitante viu as garrafas espalhadas,  muito surpreso, começou a ver o que tinha em cada uma delas. Ficou maravilhado, nunca tinha visto tanta coisa nova e bonita. 

- Quem pôs isto aqui? Que coisas tão bonitas…! - diz com um sorriso aberto 

    Ainda ficou mais surpreso, quando viu na sua porta uma garrafa, com um bilhete: «Abre a garrafa, ou as garrafas, que tocarem mais o teu coração, e que te tenham feito sorrir». 

- Mas… 

    Volta a olhar para todas as garrafas, e a que tinha as florinhas pequeninas mimosinhas, foi a que tocou o coração dele, e fez abrir um sorriso luminoso. 

  Abriu a garrafa e as florinhas saltam felizes da garrafa para o chão, dançam e dão risadinhas. 

- Obrigada! - dizem todos 

   O Sr. ri à gargalhada, deliciado ao ver flores tão pequeninas a dançar, a cantar de forma tão diferente da dele, mas tão encantadora. Chega outro e pergunta o que o amigo estava a ver e a rir à gargalhada. 

   Ele responde que encontrou todas aquelas garrafas no chão, cheias de coisas tão bonitas, que o fizeram sorrir, e tinha um bilhete à sua porta, a dizer para abrir aquela, ou aquelas garrafa (s), que tocasse (m) o seu coração, e o tivessem feito sorrir. 

    O amigo riu, e ficou a apreciar juntamente com ele, as florinhas a dançar, a ouvir as risadinhas que depois se separaram e foram parara em vários sítios, espalhadas pela neve. 

    Esse amigo, também tinha o mesmo bilhete à porta da sua casa, tal como todos os outros que foram chegando. Cada um abriu uma garrafa diferente, os outros dois ainda estavam com um sorriso aberto, e maravilhados. 

    Uma senhora abriu a garrafa das plantas com as gotinhas de chuva que brilhavam como diamantes. Mal saíram da garrafa começaram a cantar em forma de agradecimento, umas vozes fininhas, que parecia o som do vento, a passar pelos pinheiros. A Sra. riu à gargalhada. 

- Obrigada. - disseram elas no fim, e espalharam-se pelo espaço 

    Outra senhora, viu o bilhete e o que mais tocou o seu coração, foi a garrafa de água com arco-íris a girar, rodopiar, e fazer redemoinho. 

- Ááááhhh…que coisa tão bonita! - diz a senhora com um sorriso de orelha a orelha. 

    Quando abre essa garrafa, os arco-íris espalham-se pelo ar, em forma de grandes e leves bolas de sabão, onde se veem todas as suas lindas cores. Todos suspiram de espanto e de encanto, seguindo as bolas de sabão com os olhos e com sorrisos abertos. 

   Os habitantes ficam deliciados com o que veem. Outro casal abriu a garrafa das borboletas gigantes de todas as cores. Todos pareciam hipnotizados com tantas, e tão bonitas, tão grandes a esvoaçar levemente à sua frente. 

    Algumas borboletas pousaram nos cabelos, outras nas bochechas, outras nas mãos, como se estivessem a fazer carinho. Abriram sorrisos como nunca antes visto, e soltaram gargalhadas, palmas, exclamações de encanto. 

    As borboletas ficam por ali, escolhem lugares diferentes para se instalar. Outro casal com  filhos, abriu a garrafa das estrelas, que sopraram e espalharam-se por todo o lado, deixando tudo brilhante e luminoso, todos aplaudem. 

    O outro casal com filhos, abre a garrafa dos raios de luz, de todas as cores, que se tornam enormes, e iluminam todo o espaço, como holofotes que giravam, mudavam de direções, escondiam-se nas nuvens e voltavam a aparecer, todos riram com vontade. 

  Os habitantes nem querem acreditar, nunca tinham visto tanta coisa bonita. A garrafa das palavras bonitas, quase era esquecida, foi ignorada, mas um pequeno cãozinho deu sinal: ladrou sem parar à beira da garrafa, depois de a cheirar. 

  Ficaram todos preocupados, com aquele nervosismo do cão. Quando se aproximaram, perceberam que estava lá uma garrafa e dizia: «palavras bonitas», abram por favor e leiam-nas uns aos outros. 

    Como não estavam habituados a dizer e a usar palavras bonitas, sentiram medo, e ficaram quase congelados sem mexer na garrafa, a olhar uns para os outros. 

  Juntam-se vários cães, dos habitantes, cheiram a garrafa, ladram em coro, sem parar, lambem a garrafa, põem as patas em cima, e tentam abrir. 

- Os cães gostaram dela! 

- Se calhar podemos abrir, e ver o que há. 

- É. Deve ser isso que os cães estão a dizer. 

    Os cães ladram como que a confirmar que é seguro abrir. 

- Quem abre primeiro? - pergunta uma senhora

- Posso abrir eu! - diz outra 

    Ficam todos na expectativa, a ver o que sairia da garrafa. O que estaria escrito? Além de palavras bonitas, dizia: Leiam com o coração, sinceridade, e um sorriso na cara. 

- Que coisa estranha! Vamos tentar. 

    Cada um tira um papel com uma palavra bonita, lê em voz alta, com um sorriso, uns deixam escapar umas lagriminhas de alegria, ternura e gratidão, outros distribuem abraços que se tornam longos, outros elogiam, outros dão as mãos, outros procuram pequeninos mimos e oferecem.

    Outros fazem mimos aos animais. No final combinam uma festa à noite, ao ar livre, onde viram as estrelas, como nunca antes tinham visto, as luzinhas pequeninas por todo o lado, os raios de luz que pareciam auroras boreais a dançar, os arco-íris em forma de milhares de bolas de sabão, que se juntaram à festa, esvoaçando por todo o lado. 

    Gostaram tanto das palavras bonitas, que leram, e transformaram num jogo coletivo, onde baralhavam as palavras na garrafa e cada um tirava uma diferente, e as estrelas enviavam todos os dias, palavras bonitas diferentes, e os próprios procuraram. 

    Aprenderam a sorrir com o coração, a elogiar com sinceridade e a abraçar com muito carinho, a conversar muito mais uns com os outros e a ajudar. Aprenderam a apreciar em conjunto e sozinhos as maravilhas da Natureza, que os fazia conversar uns com os outros sobre isso, iam investigar quando não conheciam o que viam, e adoravam ver as lindas borboletas. 

  À noite, juntavam-se para tomar chá, apreciar as estrelas, a lua, e conviver. Tornaram-se uma grande família, onde havia muita amizade, brincadeiras, festas, respeito, felicidade e apesar do gelo da noite, do frio do vento, havia sol, no céu, calor humano, nos abraços, nos elogios, nos sorrisos abertos, nas mãos dadas, nos carinhos que davam aos animais, e uns aos outros, no amor à Natureza, na beleza que aprenderam a ver em tudo o que até aí parecia não existir. 

   As estrelas não podiam estar mais orgulhosas! 

E vocês? Que palavras bonitas acham que estavam na garrafa que dizia «palavras bonitas»? 

Qual ou quais a (as) garrafa (s) que podem vocês escolheriam? 

Porquê? 

Podem deixar as vossas respostas nos comentários, se quiserem. 

                                                                               Fim 

                                                                        Lara Rocha 

                                                                         31/12/2024   


terça-feira, 4 de outubro de 2022

sol vs. Lua - poema

 SOL VS. LUA (poema) 










foto de Lara Rocha 




Ao fim de um dia de trabalho intenso,

O sol foi descansar e deu lugar à noite.

Ela vestiu o seu vestido de gala

Com milhões de estrelas brilhantes,

E veio acompanhada da sua vizinha LUA,

Vestida de cor clara,

Como é muito feminina

Pôs uma base luminosa forte,

Para que todos reparassem nela!

Estava cheia porque...

Todos dizem que está apaixonada e feliz.

Nesta noite de Verão,

A estrela da noite foi a Lua…

Que como acontece a algumas mulheres,

Foi-se mostrando timidamente,

Até que apareceu toda,

Para partilhar com todos a sua beleza,

Sensualidade,

Paixão

E felicidade!

                                                         Lara Rocha 

                                           (19/ JULHO/ 2008 ÀS 06H10)

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

A borboleta tímida

      


             Era uma vez uma borboleta enorme, espetacularmente linda, nas suas cores, e elegância dos seus voos. 

            Mas ela era muito envergonhada, estava na adolescência, e achava que era feia, desajeitada, não merecia ser vista. 

           Tudo isto era falso, mas foi por causa de um bando de abelhas, em especial uma que tinha a mania que mandava, também na adolescência, muito maldosas com todos, menos com quem as seguia. 

           Com a mania que eram as melhores, achavam-se as rainhas do mundo animal, eram demasiado vaidosas, arrogantes e invejosas. 

        Na prática, estes comportamentos eram só para disfarçar a sua auto-estima baixa. Pensavam que precisavam de se armar em poderosas, de ser más, para repararem nelas.                

        Eram mais venenosas do que os seus ferrões, sempre em punho, prontas a atacar quem achavam ser inferiores a elas. Achavam que era assim que conquistavam amizades, mas estavam muito enganadas. 

        A borboleta tímida, era das suas presas preferidas para envenenar. Quando viam que alguém se aproximava da borboleta, iam ter com elas e enchiam-lhes os ouvidos de coisas más, o que fazia com que se afastassem. 

        A borboleta ficava cada vez mais solitária e triste. Escondia-se, chorava, via-se ao espelho e não gostava.  

        Um dia, uma das abelhas que pertencia ao grupo das venenosas, recebeu um aviso de uma abelha rainha, sua madrinha, que não gostava nada desses comportamentos dela. 

        Ouviu um grande ralhete, incluindo a ideia que a borboleta que elas perseguiam não era nada do que aquela venenosa dizia. 

        A abelha rainha explicou porque é que a que se dizia chefe tinha esses comportamentos. Era muito feio, fazia a borboleta sofrer muito, e essa abelha que ela seguia não era de confiança! 

        Aconselhou-a a afastar-se dessa criatura que se achava rainha, porque ela era perigosa, falsa, invejosa, maldosa. 

         Estes não eram os bons valores que os seus pais e os avós, lhe tinham ensinado. Se eles descobrissem iriam com certeza ficar muito tristes, porque pensavam que a filha tinha boas amigas. 

        Conheciam-nas e até tinham boa impressão delas, mas na verdade, não suspeitavam como era realmente a que comandava. A própria abelha madrinha estava desiludida com a afilhada. 

- Desculpe, madrinha! Não sabia que ela era assim. 

- O que ela faz é muito grave! Sabias sim, achavas bonito e que era daquela maneira que iam conseguir conquistar amigas? A dar cabo de uma inocente? A acreditar nas palavras falsas e invejosas de uma, que nem sequer conhece realmente a borboleta? Inventa falsidades contra outros, para ter amigos...quem é que vai gostar ou querer amizade com um pequeno diabo? Só quem for igual a ela, ou não tiver nada na cabeça. Eu pensei que tinhas alguma coisa nessa cabeça, mas afinal também te deixaste levar. Que coisa mais feia...inveja! 

- Mas é que eu...também gosto de ter amigas! 

- Ora essa...isso não é justificação. Ela também gosta, e eu também, mas não temos de ser amigas de todos da nossa espécie. Era só o que faltava, mas pelo menos devemos ter respeito e ser educados com todos, a não ser que nos ofendam, e mesmo nessas situações, é melhor nem responder à letra, porque o que querem é mesmo isso. 

- Mas se eu não ando com elas, fico sem ninguém. 

- Que disparate! Ficas sem ninguém se continuares com essa criatura. Tu por acaso alguma vez falaste com a borboleta? 

- Não! Porque ela diz que ela... 

    A madrinha interrompe: 

- Ela diz...ela diz...e o que ela diz é sagrado, não? Ela também a conhece, por acaso? 

- Acho que...

- Claro que não conhece! Tem inveja dela, por ser tão bonita! Quem lhe dera ser como ela. Como a borboleta não fala com ela, nem a segue, ela inventa uma maneira de ser da borboleta que não existe, porque não a conhece. É tudo baseado na inveja. Achas que esse tipo de amigas serve? Para mim nunca serviu, e para ti também não, aliás, não te ensinamos a ser assim. Não faltam abelhas boas, que talvez não se tenham aproximado de ti porque andas com aquela maldosa, por isso, antes que eu vá contar aos teus pais e avós que andas com más companhias afasta-te dessa miserável. Vai ter com a borboleta, conversa com ela. Ela é muito tímida, passeia com ela, diz-lhe que a queres conhecer, e ser amiga dela. Fala-lhe de ti e pergunta-lhe coisas sobre ela. Mostra-lhe coisas boas e bonitas, brinca com ela, mostra-lhe como ela é bonita. Preocupo-me contigo, é por isso que te estou a dizer isto, antes que seja muito pior, entendido? 

- Entendido! Mas, óh madrinha, o que é que eu digo à rainha abelha? 

- Ora...não tens que lhe dar satisfações, não somos obrigados a andar com quem não gostamos, nem temos de ter amigas só da mesma espécie. Se ela meter veneno, não acredites no que ela diz até porque quando conheceres realmente a borboleta, vais ver que ela não tem razão. Deixa-a falar. 

- Está bem! 

- Olha que eu estou a ver! 

- Madrinha, acompanhe-me por favor, e vá-me dando ideias para conversar com ela. 

- Está bem, eu estou próxima, mas sê tu mesma, como és, connosco por exemplo, na família, 

- Está bem, entendi. 

        As duas vão ter com a borboleta que estava muito chorosa, sentada na beirada da sua janela, encolhida. A abelha aproxima-se a medo. 

- Olá como estás? Precisas de alguma coisa? 

- Quem és tu? - pergunta a borboleta? 

- Não tenhas medo de mim. Sou uma abelha, mas... pareces-me muito triste! Queres...conversar comigo? 

- Senta-te!     


A abelha senta-se à beira da borboleta, olha para ela.

- Adoro as cores das tuas asas! Como és bonita!

- Achas? Obrigada... eu acho que não... quer dizer...dizem que não!

- Ui, quem é que diz que não?

- Umas que andam para aí.

- Óh, não lhes ligues.

        A borboleta conta-lhe tudo, falha-lhe da sua tristeza e solidão, de se achar feia, das coisas más que ouve

sobre ela, A abelha ouve-a sem interromper, e até deixa escapar umas lágrimas.

- Mas isso é muito mau! Eu sei quem faz isso para te magoar.

- Sabes?

- Sei. É a abelha que se dizia chefe, com quem eu andava. Eu, e muitas outras. Eu não sabia que ela era assim tão má!

Juntei-me a ela porque também tinha medo de ficar sozinha, medo que ela dissesse coisas más sobre mim.

Mas a minha madrinha avisou-me, sobre como ele é realmente! Aconselhou-me a afastar-me dela.

A minha madrinha disse-me que ela faz isso porque tem inveja de ti, por não ser bonita como tu. e porque

quer ter toda a gente do lado dela, para se achar importante, e poderosa!

Algumas das minhas amigas, tal como eu, tinham medo dela, seguiam-na para ele não dizer coisas más.

Mas não temos que seguir alguém, só por medo de ficarmos sozinhas! Se não for aquela...há certamente

muita mais gente que gosta de nós. Vamos passear?

- Vamos.

- Posso dar-te um abraço?

- Claro que sim.

        As duas dão um abraço, e vão passear. Conversam durante longas horas, apreciam a paisagem, dão umas

boas gargalhadas, brincam, a borboleta ensina a abelha a dançar, e aplaude. A madrinha está orgulhosa, mas a

abelha rainha invejosa não acha piada nenhuma.

        Ao ver aquilo, vai envenenar as outras contra a abelha que se tornou amiga da borboleta, e tentam várias vezes

envenenar as outras contra as duas, mas a abelha não lhe dá ouvidos e ainda lhe grita:

- Falsa! Um dia vais estar sozinha, quando as outras perceberem quem és realmente! Não é com esse veneno todo

que vais ter amigos, a não ser que sejam como tu! Também podes ser amiga de quem quiseres!

Até da borboleta que não é nada do que tu disseste.

- Odeio-te! - grita a abelha rainha

- Não faz mal. Há quem me ame, e chegam, não preciso de mais. - responde a abelha

- Borboleta estúpida, feia! - diz a abelha rainha furiosa.

- Não sabes nada, sua ignorante! Vai, vai lá para a tua comandita de veneno, e sê muito feliz.

Duvido que sejas, com essa maldade toda, mas tu é que sabes! - responde a abelha

        Esta abelha aprendeu bem a lição, e tornou-se amiga da borboleta. A amizade entre as dois cresceu, a

abelha ensinou a borboleta a gostar dela própria, a achar-se bonita como era realmente, e a mostrar como era especial.

Aos poucos, outras abelhas do grupo, começaram a sentir curiosidade em conhecer a borboleta, porque a viam tão feliz

e tão animada com a sua amiga abelha, e perceberam que realmente, a que se dizia amiga delas, era um grande veneno,

maldosa, arrogante e convencida.

        Todas se afastaram dela, e ela acabou por aprender a mudar o seu mau feitio, só assim conseguiu conquistar alguns amigos.

A própria abelha rainha percebeu que afinal estava errada sobre a borboleta, pediu desculpa, mas não se aproximava muito.

Mas não precisava de fazer isso, pois não? Não! Também há pessoas assim, por isso é importante gostarmos

de nós, como somos, aceitar o que somos, e quem somos! E antes de nos deixarmos levar «abelhas venenosas»,

devemos procurar conhecer as pessoas, por nós, tirar as nossas próprias conclusões, e perceber se gostamos da pessoa ou não.

        Claro que não gostamos de todos, nem todos têm de gostar de nós, mas não devemos influenciar os outros,

nem dizer que não gostamos de alguém só porque outro disse mal, coisas que nem sabemos se são verdadeiras ou falsas.

Antes de sermos todos «abelhas venenosas», podemos e devemos ser abelhas e borboletas.

Cada um é diferente, até nos gostos.


                                                                               FIM

                                                                            Lara Rocha

                                                                        10/Fevereiro/2021


 

quinta-feira, 24 de março de 2016

os olhos do coração



Personagens:
- Príncipe
- Princesa
- Rei
- Rainha
- Monstro
- Velha
- 2 Fadas
- 1 Árvore falante
- 1 Boneco falante
- 1 Menina

Cenário: Floresta

Cena 1
Música, abrem-se as cortinas, luz amarela para o palco, em cena já está a árvore falante e no fim da música entra a princesa com uma cesta na mão e o boneco dentro da cesta, entra aos saltinhos e a cantarolar.
MENINA – Lá, lá, lá, rá, lá, lá, lá, larararara…!
ÁRVORE – Isso, minha linda canta…canta enquanto podes…
MENINA – Bonequinho lindo…ouviste alguma coisa?
BONECO – Acho que… (frase interrompida)
ÁRVORE – Xiu! Está calado! Faz de conta que não ouviste nada.
(O boneco fica admirado a olhar para a árvore)
MENINA – Então, meu lindo?
ÁRVORE – Diz que não ouviste nada! Não me ouviste a falar.
BONECO – Mas vou mentir-lhe…e não posso fazer isso com a minha mãe!
ÁRVORE – Cala-te…não me faças perguntas e diz que não ouviste nada…!
BONECO – Não…não…não ouvi nada! Quer dizer…ouvi só…os passarinhos, os grilos, os sapos, os macacos…! E tu?
MENINA – Eu…também ouvi esses, mas acho que ouvi qualquer coisa…de…diferente desses animais!
BONECO – Hummm…eu…acho que não ouvi nada de estranho…pelo menos…que me apercebesse…ouvi os sons do costume! Deve ser a nossa imaginação.
MENINA – Estás com medo?
BONECO – Bem…tenho que ser sincero…sim…algum medo! E tu?
MENINA – Bem…eu não muito…já conheço esta floresta há muito, sei que não há nada de mal…mas às vezes há barulhos um bocadinho assustadores. Mas fica descansado…estás comigo! (p.c) Estamos juntos, não temos medo, certo?
BONECO (sorri) – Certo.
MENINA – Pareceu-me ouvir alguém a falar.
(O boneco volta a olhar para a árvore)
ÁRVORE – O que é que estás a olhar, com essa cara de pateta...já te disse para não dizeres nada, senão quem paga é ela.
BONECO – (para a árvore) Mas estou a mentir…que horror…que maldade…! (para a menina) Alguém a falar…? Só…só falei e tu…! Acho eu.
ÁRVORE – Pára de olhar para mim, estás a pôr-me envergonhada.
BONECO – Mas o que é que tu vais fazer?
ÁRVORE – Cala-te…fala com essa…a tua mãe ou lá o que é…!
MENINA – O que é que eu vou fazer…?
BONECO (sorri) – Sim…! O que é que tu vais fazer agora, aqui?
MENINA – Vou passear! Acho que vou apanhar umas flores para a minha Avó. O que é que achas?
BONECO – Eu acho que ela vai ficar muito feliz. Mas temos de ter cuidado com os grandes animais que habitam por aqui.
MENINA – Mas que grandes animais é que há aqui?
ÁRVORE (gargalhadas) – Ai…valha-me Deus…a tua dona é estúpida que nem uma porta (p.c) Tens que lhe ensinar o que são os grandes animais…e os bichos pequenos!
Cena 2
(A menina segue caminha a falar com o boneco, dá uma volta ao palco, olha para a paisagem, apanha algumas flores, com música, e anda ao som da música. rápido blackout, o lobo esconde-se atrás da árvore).
MENINA – Ai, estou cansada. Acho que me vou sentar à sombra.
(A árvore faz uma careta ao boneco e à menina, e o lobo faz cócegas à árvore, ela abana-se toda e ri-se).
MENINA – Boneco, será que está a chover?
ÁRVORE (a rir) – Ela é mesmo um soco…burra que nem uma porta.
BONECO (grita à árvore, zangado, a menina não ouve) – Pára de dizer essas coisas à minha mãe…! Estás a ofende-la e a ofender-me…! (para a menina) Não está a chover, olha para o céu…está limpíssimo. Não há uma nuvem para amostra… (riem).
MENINA – Deu-me a impressão que caiu qualquer coisa.
BONECO (sorri) – Não deve ter sido nada…! Descansa…tu tomas conta de mim, e eu tomo conta de ti.
(O lobo manda um grande espirro, a árvore abana toda e começam todos a gritar…estátuas com o susto).
ÁRVORE (resmunga) – Que porco que tu és…! Não sabes pôr a pata na frente dessa bocarra…?!
LOBO – Porco…eu…? Houve um porco que espirrou além de mim?
ÁRVORE – Não…estou a falar contigo!
LOBO – Desculpa…então não me estás a reconhecer…? Sou o teu amigo Lobo…!
ÁRVORE – Isso é maneira de espirrar…? Acho que nem os porcos animais fazem isso…! Cruzes…!
(O lobo dá outro espirro espalhafatoso. A árvore abana toda outra vez, gritam outra vez, e a menina desata a correr e sai do palco. O lobo espirra de forma escandalosa, mais duas vezes. A árvore ri-se).
LOBO – Olha lá minha desgraçada…que raio é que tu tens…ou puseste nos teus ramos para eu espirrar desta maneira…?
ÁRVORE (ri, às gargalhadas) – Eu…? Nada…! (p.c) Achas que eu ia perder tempo a pôr coisas nos meus ramos para apanhar com esses teus chuveiros de espirros…? (p.c. gargalhadas) Pode ter sido um mosquito que pousou no teu nariz e entrou-te para ele… (ri)
LOBO (chateado) – Fizeste de propósito! Que mazinha…!
ÁRVORE (ri) – Eu…? De propósito…? Achas…?! Claro que não.
LOBO (chateado) – O que é que eu te fiz, para me fazeres espirrar?
ÁRVORE (ri) – Nada…és meu amigo.
LOBO – Pois…também acho. Se não querias que eu me encostasse a ti, dizias logo. Escusavas de pôr coisas nos teus troncos para eu espirrar…ainda por cima chamaste-me porco…coisa que eu não sou!
(A árvore ri)
ÁRVORE (ri) – Desculpa…! Não te queria ofender…mas não gostei daquele teu espirro. (p.c) Garanto-te que não pus nada nos meus troncos para te afastar. (p.c) Não precisava disso…sei que se te dissesse directamente, tu respeitavas-me. (p.c) Além disso, gosto dos teus abraços...são…quentinhos…e felpudos…quer dizer…macios… (riem).
LOBO (ri, vaidoso) – Sua atrevida…ai, se não fosses de madeira…!
(Os dois dão uma gargalhada)
ÁRVORE - Olha à tua volta, e encontrarás a resposta…vais ver como tenho razão.
(Ouve-se o som de um mosquito…o lobo segue o barulho com os olhos e de repente para por uns segundos e o lobo dá uma grande estalada nele próprio, ouve-se o som de uma estalada sonora…o lobo cai, e o mosquito conseguiu escapar. Ri-se na cara do lobo).
ÁRVORE (às gargalhadas) – Estou rodeada de idiotas…o careca parecia um paspalho a olhar para mim… (p.c) a mãe dele…coitada…parecia que não tinha miolos…nem parecia deste planeta…só dizia disparates…! (p.c) E agora…este grandalhão…só tem tamanho grande, de resto…põe-se a andar atrás de um ser minúsculo que o fez espirrar...e acha que com um estaladão destes vai matar o mosquito…! (p.c) ai…que ignorância.
LOBO (ainda deitado, uiva) – Aaaaaaaaaaaaaaaaúúúúúúúúúúúú…! (p.c) Tu hoje…estás…aii…nem sei o que dizer…só…dizes coisas…más…! (p.c) Ainda por cima…ris-te na minha fuça…eu aqui todo amassado…e tu aí a gozar de fininho…e a chamar-me coisas…!
ÁRVORE (a rir) – Estás a queixar-te…? Ninguém te manda ser pateta.
LOBO – Aaaaiii…ajuda-me a levantar, por favor…! (p.c murmura) Deve ser mudança de Lua, hoje…o teu veneno está refinado…! À flor da casca…! (p.c) Desgraçada…!
ÁRVORE (ri) – Levanta-te, seu fiteiro…!
LOBO – Anda lá…deixa-te de bruxices e ajuda-me…!
ÁRVORE (a rir) – Dá outra chapadona em ti, outra vez…a ver se ganhas juízo. (p.c) Olha, vem aí a bombeira de duas patas…a velhota do costume…! Ela gosta tanto de ajudar, pede-lhe com jeito que te levante.
LOBO – Estás tola…? Ainda a mato de susto.
ÁRVORE – Se pedires com jeito ela ajuda-te…tenho a certeza.
LOBO – Tu deves ser bem mais velha que ela…!
                                            Cena 3
(A árvore dá-lhe com um cano no lombo. Ele grita, mas deixa-se estar deitado. Rápido blackout, música, e som de animais e de vento. Entra a velha, o lobo continua no chão a uivar). 
VELHA – Óh, pobre bichinho…estás ferido?
(A velha vê-o de cima a baixo, passa-lhe a mão pelo pêlo, o lobo uiva)
VELHA – Coitadinho!
(A velha ajuda-o a levantar e ele deita a língua de fora em sinal de agradecimento).
VELHA (sorri) – Ora…não precisas de agradecer…!
(Ouve-se outra vez o barulho do mosquito, o lobo segue outra vez o som com os olhos e a velha sacode-o).
VELHA – Sai, bicho chato…!
LOBO – Aaaaaúúúúú…!
VELHA – Não és tu, meu bichinho, lobinho. Estou a falar do chato do mosquito.
(A velha acaricia-o, dá-lhe beijinhos no pêlo…)
ÁRVORE – Estás a ver, desgraçado? Tiveste sorte…a velha vai com a tua fuça…! Se fosse eu a pedir…podia estar totalmente careca, seca, a morrer de sede, que a velha pouco se importava…deixava-me tal e qual como eu ficava!
(O lobo ri-se)
LOBO (para a árvore) – Ela pode ser velha, mas tem coração, de carne como eu…e tu…se tens coração…é de pau…é por isso que és tão má.
ÁRVORE (indignada) – Há animais com sorte! Os vegetais…que são os mais importantes para a vida das pessoas, tratam-nos assim. Não gostam de nós, mas esquecem-se que nós, de madeira é que lhes damos o ar que respiram, e aquecemo-los, no frio…quando nos cortam pedaços e atiram para o fogo…! E servimos de sombra…no calor… (p.c) Da bicharada…toda a gente gosta, e cuida… (p.c) estão capazes de os enfiar nas camas onde dormem só para não apanharem frio… (p.c) o lobo…como tem olhos lindos…um pêlo saudável, bonito, viçoso, macio…toda a gente o louva, (p.c) e nós, desgraçadas das árvores…que sofremos com todas as intempéries… (p.c) os nossos troncos…servem de sanita para os cães… (p.c) levamos com o xixi deles…e outras coisas… (p.c) suportamos fedores…porque também o raio dos pássaros usam-nos para casa de banho, e fazem outras judiarias connosco… (p.c) temos de aguentar tudo, e toda a gente passa indiferente…! (p.c) Na época de incêndios, levamos com fogo…não temos hipóteses de fugir…como os outros animais…e mesmo assim…toda a gente nos ignora. (p.c) Há tanta injustiça…!
VELHA – Anda meu lindo, vou cuidar de ti.
(A velha sai com o lobo de braço dado. A árvore sai do palco. Blackout, fecha-se a cortina, abre-se a cortina, música e aparecem no palco: o rei, a rainha e a princesa). 
Cena 4
(A princesa está muito assustada, pensativa, o rei e a rainha estão a falar um com o outro, e estranham o silêncio da filha).
RAINHA – Então, filha…estás muito calada.
REI – Aconteceu alguma coisa…?
PRINCESA (assustada) – Aiiii…papá e mamã…estou muito assustada!
REI – O que foi…? Sonhaste outra vez…ou imaginaste outra vez o lobo mau…? Querida…já te dissemos que ele não existe.
PRINCESA – Há bocado ouvi a Mariana, a filha da nossa empregada, a contar o que lhe aconteceu na floresta. Ela estava muito assustada.
REI – Óh, não acredites nela…Ela também deve ter imaginado…
RAINHA – O que é que assustou tanto a Mariana?
REI – Com certeza foi algum animal que apareceu de repente.
PRINCESA – Não, papá…ela estava a contar que foi à floresta apanhar algumas flores e que uma árvore espirrou, riu-se, deu-lhe banho…que parecia uma pessoa, mas não estava ninguém.
REI (gargalhadas) – Óh, óh…óh minha filha, que disparate! (p.c) E tu acreditas nisso?
RAINHA – Também acho querida! Não deves acreditar nessas histórias, ela se calhar é que inventou essa história toda só para chamar a atenção de toda a gente…e porque estava com medo…! (p.c) Nós já te dissemos que quando estamos com medo…às vezes…até imaginamos coisas que não existem.
REI – Claro…ou até…pode ter-se deitado na floresta e sonhou isso…depois…achou que isso aconteceu mesmo.
PRINCESA – Mas…
RAINHA – Não penses mais nisso…vai brincar. E não te ponhas a ouvir atrás das portas…além de ser feio…só ouves mentiras.
PRINCESA – Achas que a Mariana mente?
RAINHA – Não…mas é criança, e imagina coisas, como tu, quando estão com medo, por isso, não deves ligar a tudo o que ela te diz. Vai lá brincar.
REI – E fica descansada, que não há lobos, pelo menos aqui no castelo. (p.c) Nós conhecemos esta nossa floresta desde que nascemos…de trás para a frente, e da frente para trás…e para o lado direito…e para o lado esquerdo…e em todos os sentidos…até de pernas para o ar…quando subimos às árvores… (riem) Este nosso sítio é maravilhoso, sossegado, agradável…como todas as florestas…
RAINHA – O teu pai tem razão, filha. Podes acreditar em nós. Tudo o que as pessoas dizem ao contrário do que tu conheces…essas histórias de príncipes transformados em monstros…e outras coisas…é tudo inventado.
PRINCESA (entusiasmada) – Príncipes transformados em monstros e que se lhe dermos um beijo apaixonado, voltam a ser príncipes?
REIS – Sim.
RAINHA – Mas mete na tua cabecinha que isso só acontece mesmo nas histórias encantadas. Nós vivemos na vida real, e na vida real não acontece nada disso.
PRINCESA – É. Acho que ainda não parei de sonhar!
RAINHA (sorri) – Nem precisas de parar de sonhar, filha…sonhar é bom e faz bem à saúde…mas não te envolvas demasiado…senão…quando acordas, cais de cabeça.
PRINCESA – Ai, não quero cair de cabeça…é muito perigoso…quero sonhar, mas não quero cair de cabeça…posso…?
REIS (sorriem) – Sim, podes.
(Os três continuam a falar e a rir. Blackout, música, acende-se a luz amarela e em palco está a menina sentada no chão, em cima de duas grandes almofadas a brincar com o boneco. A princesa ver ter com ela).
PRINCESA (a sorrir) – Olá Mariana.
MENINA (sorri) – Olá. Brinca um bocadinho comigo e com o boneco.
PRINCESA (a sorrir) – Está bem.
(As duas começam a brincar uma com a outra, e com o boneco).
MENINA – Sabes, há bocado eu fui à floresta e a árvore onde eu estava deitada espirrou, riu-se e gritou…!
PRINCESA – A sério…? (p.c) Ui…que medo!
MENINA – Sim, pois foi. Eu também tive muito medo.
PRINCESA – Mas tens a certeza que foi a árvore, ou…será que foi algum animal que estava por trás da árvore e espirrou…?
MENINA – Era a árvore, eu tenho a certeza. E o meu amigo viu…! Não foi, boneco?
BONECO – Sim. Foi mesmo a árvore.
MENINA – Tu não viste nenhum animal atrás dela, pois não?
BONECO – Não. E a árvore falava.
PRINCESA – Não era um cavaleiro que estava por trás da árvore, ou algum viajante…ou caçador malvado?
BONECO – Não. Era mesmo a árvore.
MENINA – Ela falou contigo?
BONECO – Sim. Logo no inicio, quando disseste que achavas que tinhas ouvido alguma coisa mais além dos bichos…era verdade…eu é que fui obrigado pela árvore a dizer-te que não tinhas ouvido nada! Ela já tinha falado comigo, mas disse-me para eu não te dizer nada. (p.c) Óh, desculpa…eu menti-te…e não gostei nada de fazer isso…foi…quando tu perguntaste se eu estava com medo…!
MENINA – Mas…porque é que ela não queria que me dissesses que falava?
BONECO – Não sei. Ela só me disse para eu fazer de conta que não sabia de nada…que ela falava!
PRINCESA – Mas, então…se ela falava…também…pode muito bem ter espirrado…! Não…?
BONECO – Sim…! (p.c) Não estava lá mais ninguém. Só pode ter sido a árvore.
MENINA – Não sei…nós fugimos. Apanhamos um grande susto.
PRINCESA – Nunca pensei ter uma árvore falante na nossa floresta.
MENINA – Vamos lá as duas agora, queres?
PRINCESA – Sim, vamos…quero ver essa árvore, e ouvi-la.
BONECO – É melhor não.
MENINA – Porquê?
BONECO – Os Reis não vão deixar…! E eles têm razão, é muito perigoso.
PRINCESA – Nós saímos pelo jardim…eles nem vão reparar.
BONECO – Eu não a achei nada simpática…mas pode ser que convosco seja simpática.
MENINA – Mas nós vamos lá agora…se perguntarem alguma coisa…dizemos que…vamos passear…ou…apanhar flores.
BONECO – Vão mentir?
PRINCESA – Não é mentir…! (p.c) Vamos ver a árvore, e apanhamos flores para as mães e Avós.
MENINA – Mas não precisamos de dizer que vamos ver a árvore…e que fala…!
PRINCESA – Pois.
BONECO – Mas é perigoso!
MENINA E PRINCESA – Não é nada.
MENINA – A árvore pode ser falante, mas não nos vai comer, tenho a certeza!
BONECO – Eu…não tinha tanta certeza disso.
PRINCESA – Se ela nos meter medo, fugimos…de certeza que não vem atrás de nós. 
MENINA – Pois não…está pregada ao chão…com aquelas raízes enormes…
PRINCESA – Claro. (p.c) Vamos.
BONECO – Deixem-me ir convosco.
MENINA – Está bem.
(As duas levantam-se, e o boneco ao colo. Blackout, música, saem as duas, e volta a entrar o lobo e a Árvore).
Cena 5
(O lobo está atrás da árvore. A menina e a princesa caminham pela floresta, calmamente, e contentes. O lobo faz cócegas à árvore, e abana-se toda a rir).
ÁRVORE – Pára quieto, pateta…! (p.c) Xiu…vem aí gente.
(O lobo levanta o nariz, e as orelhas. Olha atentamente. Elas apanham mesmo umas flores, riem-se).
LOBO (baixinho) – Huuummm…que cheirinho…meninas…huuummm…menhã…menhã…
ÁRVORE (ralha) – Nem penses…ficas aqui quieto.
LOBO – Óh, não…não faças isso comigo.
ÁRVORE – Cala-te…ou queres que te espete já com uma troncada…!?
LOBO – Pronto…está bem…eu fico quieto…
(Mas salta mesmo, e para em frente às meninas. Elas assustam-se, estremecem e ficam estáticas).
LOBO – Olá, bela princesa! Não tenham medo…não vos vou fazer mal.
(Elas desmaiam assustadas, o lobo segura-as, aparece a fada e diz).
FADA – Olha, olha…duas…nas tuas patas… (ri)
LOBO – Óh…e agora?
FADA (ri) – Agora…vais ter que escolher…uma apenas.
LOBO – Mas…como? Se elas fogem de mim…! Com este meu ar…!
FADA (sorri) – Agora…acorda-as e conversa com elas…e só podes escolher…uma.
LOBO – Mas…como é que eu vou escolher uma só…se são as duas tão bonitas…e se…elas fogem…?
FADA – Fala com elas…torna-te primeiro…amigo das duas…sê cavalheiro…e depois…o teu coração vai escolher a que for melhor para ti.
LOBO – Óh, mas se for assim…uma vai ficar triste…
FADA (ri) – Mas quem é que te garante que as duas vão apaixonar-se por ti, seu convencido…?
LOBO – Ai…não?
FADA (ri) – Claro que não!
LOBO – Mas…caíram as duas nas minhas patas.
FADA (ri) – Isso não significa que se apaixonem as duas por ti. Até pode não se apaixonar nenhuma.
LOBO – Mas e se for a outra que se apaixona por mim, e não a que o meu coração escolher? Como é que eu faço?
FADA (sorri) – Se isso acontecer…não podes obrigá-la a gostar de ti…só tens de a respeitar, e ser amigo dela…não precisas de te afastar. Ou então…és amigo das duas, e não ficas com nenhuma, como amor da tua vida.
LOBO (triste) – Mas…a outra vai ficar triste…
FADA (ri) – Na hora…saberás o que fazer…agora…conquista primeiro a amizade das duas, que é muito mais importante.
LOBO (triste) – Eu não quero magoá-las, nem vê-las tristes.
FADA (sorri) – Se fores amigo das duas, isso não vai acontecer. (p.c) Mostra-lhes o teu coração de carne…elas vão mostrar os delas, também…e depois…o resto vês…podes achá-las bonitas, e no fim, não gostar de nenhuma, para amares…mas podes continuar sempre com a sua amizade. O teu feitiço quebrar-se-á!
(O lobo dá-lhes um beijo na cara, cheio de encanto, meiguice e carinho, ouve-se um trovão…blackout rápido, e aparece o lobo transformado em príncipe, com as duas meninas de mão dada, sorridentes e felizes).
PRINCESA E MENINA – Tu…és o lobo?
PRÍNCIPE (sorri) – Eu…lobo…? (p.c ri) Isso…é um elogio, ou um insulto?
(Elas riem)
PRINCESA (ri) – É um elogio…!
PRÍNCIPE (ri) – Esqueçam o lobo…! Vamos dar uma voltinha…?
PRINCESA E MENINA (sorriem) – Vamos.
(Os três caminham pela floresta, sorridentes, felizes, falam uns com os outros, brincam, correm, rebolam felizes pela relva, escondem-se e trocam carinhos…e tornam-se amigos inseparáveis).
FADA – Não olhem para as outras pessoas com os olhos exteriores, mas sim, com os olhos interiores, os do coração…pois é aí que se encontra a verdadeira beleza das pessoas.

FIM !
Lara Rocha 
(Dezembro/2000)