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terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Tudo fechado


    Era uma vez uma aldeia numa montanha muito alta, congelada, cheia de neve, onde se sentia um vento cortante, e os dias pareciam ainda mais pequenos do que são, no Inverno. 

     As pessoas que lá viviam eram tão frias umas com as outras que pareciam não saber sorrir, não viam nada de bonito, mas as estrelas quiseram fazer uma surpresa para ver se essas pessoas saiam daquele gelo. 

  Num dia de sol, quando todos estavam no seu trabalho e em casa, começaram a atirar garrafas de água com arco-íris a girar, rodopiar, fazer redemoinhos. 

    Deixaram uma garrafa à porta de cada um, e espalhadas pelo chão. Outras garrafas tinham plantas com gotinhas de água que brilhavam como diamantes ao sol. 

    Em algumas garrafas havia flores pequeninas, muito mimosas, de muitas cores. Numas garrafas estavam pequeninas luzes, de muitas cores a piscar, noutras lindas borboletas gigantes, de tamanhos variados e cores. 

   Noutras garrafas estavam guardadas palavras bonitas, noutras estrelas, noutras, raios de luz de todas as cores, e noutra, brilhantes. Todas teriam de ser abertas, e tudo o que estava em cada uma delas, queria sair. 

    Quando regressou o primeiro habitante viu as garrafas espalhadas,  muito surpreso, começou a ver o que tinha em cada uma delas. Ficou maravilhado, nunca tinha visto tanta coisa nova e bonita. 

- Quem pôs isto aqui? Que coisas tão bonitas…! - diz com um sorriso aberto 

    Ainda ficou mais surpreso, quando viu na sua porta uma garrafa, com um bilhete: «Abre a garrafa, ou as garrafas, que tocarem mais o teu coração, e que te tenham feito sorrir». 

- Mas… 

    Volta a olhar para todas as garrafas, e a que tinha as florinhas pequeninas mimosinhas, foi a que tocou o coração dele, e fez abrir um sorriso luminoso. 

  Abriu a garrafa e as florinhas saltam felizes da garrafa para o chão, dançam e dão risadinhas. 

- Obrigada! - dizem todos 

   O Sr. ri à gargalhada, deliciado ao ver flores tão pequeninas a dançar, a cantar de forma tão diferente da dele, mas tão encantadora. Chega outro e pergunta o que o amigo estava a ver e a rir à gargalhada. 

   Ele responde que encontrou todas aquelas garrafas no chão, cheias de coisas tão bonitas, que o fizeram sorrir, e tinha um bilhete à sua porta, a dizer para abrir aquela, ou aquelas garrafa (s), que tocasse (m) o seu coração, e o tivessem feito sorrir. 

    O amigo riu, e ficou a apreciar juntamente com ele, as florinhas a dançar, a ouvir as risadinhas que depois se separaram e foram parara em vários sítios, espalhadas pela neve. 

    Esse amigo, também tinha o mesmo bilhete à porta da sua casa, tal como todos os outros que foram chegando. Cada um abriu uma garrafa diferente, os outros dois ainda estavam com um sorriso aberto, e maravilhados. 

    Uma senhora abriu a garrafa das plantas com as gotinhas de chuva que brilhavam como diamantes. Mal saíram da garrafa começaram a cantar em forma de agradecimento, umas vozes fininhas, que parecia o som do vento, a passar pelos pinheiros. A Sra. riu à gargalhada. 

- Obrigada. - disseram elas no fim, e espalharam-se pelo espaço 

    Outra senhora, viu o bilhete e o que mais tocou o seu coração, foi a garrafa de água com arco-íris a girar, rodopiar, e fazer redemoinho. 

- Ááááhhh…que coisa tão bonita! - diz a senhora com um sorriso de orelha a orelha. 

    Quando abre essa garrafa, os arco-íris espalham-se pelo ar, em forma de grandes e leves bolas de sabão, onde se veem todas as suas lindas cores. Todos suspiram de espanto e de encanto, seguindo as bolas de sabão com os olhos e com sorrisos abertos. 

   Os habitantes ficam deliciados com o que veem. Outro casal abriu a garrafa das borboletas gigantes de todas as cores. Todos pareciam hipnotizados com tantas, e tão bonitas, tão grandes a esvoaçar levemente à sua frente. 

    Algumas borboletas pousaram nos cabelos, outras nas bochechas, outras nas mãos, como se estivessem a fazer carinho. Abriram sorrisos como nunca antes visto, e soltaram gargalhadas, palmas, exclamações de encanto. 

    As borboletas ficam por ali, escolhem lugares diferentes para se instalar. Outro casal com  filhos, abriu a garrafa das estrelas, que sopraram e espalharam-se por todo o lado, deixando tudo brilhante e luminoso, todos aplaudem. 

    O outro casal com filhos, abre a garrafa dos raios de luz, de todas as cores, que se tornam enormes, e iluminam todo o espaço, como holofotes que giravam, mudavam de direções, escondiam-se nas nuvens e voltavam a aparecer, todos riram com vontade. 

  Os habitantes nem querem acreditar, nunca tinham visto tanta coisa bonita. A garrafa das palavras bonitas, quase era esquecida, foi ignorada, mas um pequeno cãozinho deu sinal: ladrou sem parar à beira da garrafa, depois de a cheirar. 

  Ficaram todos preocupados, com aquele nervosismo do cão. Quando se aproximaram, perceberam que estava lá uma garrafa e dizia: «palavras bonitas», abram por favor e leiam-nas uns aos outros. 

    Como não estavam habituados a dizer e a usar palavras bonitas, sentiram medo, e ficaram quase congelados sem mexer na garrafa, a olhar uns para os outros. 

  Juntam-se vários cães, dos habitantes, cheiram a garrafa, ladram em coro, sem parar, lambem a garrafa, põem as patas em cima, e tentam abrir. 

- Os cães gostaram dela! 

- Se calhar podemos abrir, e ver o que há. 

- É. Deve ser isso que os cães estão a dizer. 

    Os cães ladram como que a confirmar que é seguro abrir. 

- Quem abre primeiro? - pergunta uma senhora

- Posso abrir eu! - diz outra 

    Ficam todos na expectativa, a ver o que sairia da garrafa. O que estaria escrito? Além de palavras bonitas, dizia: Leiam com o coração, sinceridade, e um sorriso na cara. 

- Que coisa estranha! Vamos tentar. 

    Cada um tira um papel com uma palavra bonita, lê em voz alta, com um sorriso, uns deixam escapar umas lagriminhas de alegria, ternura e gratidão, outros distribuem abraços que se tornam longos, outros elogiam, outros dão as mãos, outros procuram pequeninos mimos e oferecem.

    Outros fazem mimos aos animais. No final combinam uma festa à noite, ao ar livre, onde viram as estrelas, como nunca antes tinham visto, as luzinhas pequeninas por todo o lado, os raios de luz que pareciam auroras boreais a dançar, os arco-íris em forma de milhares de bolas de sabão, que se juntaram à festa, esvoaçando por todo o lado. 

    Gostaram tanto das palavras bonitas, que leram, e transformaram num jogo coletivo, onde baralhavam as palavras na garrafa e cada um tirava uma diferente, e as estrelas enviavam todos os dias, palavras bonitas diferentes, e os próprios procuraram. 

    Aprenderam a sorrir com o coração, a elogiar com sinceridade e a abraçar com muito carinho, a conversar muito mais uns com os outros e a ajudar. Aprenderam a apreciar em conjunto e sozinhos as maravilhas da Natureza, que os fazia conversar uns com os outros sobre isso, iam investigar quando não conheciam o que viam, e adoravam ver as lindas borboletas. 

  À noite, juntavam-se para tomar chá, apreciar as estrelas, a lua, e conviver. Tornaram-se uma grande família, onde havia muita amizade, brincadeiras, festas, respeito, felicidade e apesar do gelo da noite, do frio do vento, havia sol, no céu, calor humano, nos abraços, nos elogios, nos sorrisos abertos, nas mãos dadas, nos carinhos que davam aos animais, e uns aos outros, no amor à Natureza, na beleza que aprenderam a ver em tudo o que até aí parecia não existir. 

   As estrelas não podiam estar mais orgulhosas! 

E vocês? Que palavras bonitas acham que estavam na garrafa que dizia «palavras bonitas»? 

Qual ou quais a (as) garrafa (s) que podem vocês escolheriam? 

Porquê? 

Podem deixar as vossas respostas nos comentários, se quiserem. 

                                                                               Fim 

                                                                        Lara Rocha 

                                                                         31/12/2024   


quinta-feira, 18 de abril de 2024

A surpresa dos pacotes dourados

 A surpresa dos pacotes dourados 


Foto de Lara Rocha 

    Era uma vez um cesto com uns pacotinhos dourados muito atraentes, brilhantes, que apareceram num descampado, onde pastavam animais. 

    Uma alma solitária passeava durante a noite, sobre um céu de lua cheia, e estrelas cintilantes. Essa pessoa já conhecia a zona de trás para a frente, e da frente para trás, todos os esconderijos, todas as árvores, todos os animais.  

    Mas viu uma coisa nova, nesse passeio noturno, que o deixou muito surpreso. Os animais estavam calmos, por isso não seria ameaçador, ficou muito intrigado com uma cesta que continha pacotinhos de luz dourada. 

    Olhou, voltou a olhar, olhou outra vez, rodeou a cesta, ansioso por lhe tocar, até que um esquilo grita de uma árvore: 

- Não mexas aí. 

    O rapaz estremeceu, olhou para o esquilo: 

- É teu? 

- Não! 

- Então porque não posso mexer? Quero ver o que é, se é perigoso para nós. 

- Não, não é perigoso para nós. 

- Como é que sabes? 

- Porque tem uma luz dourada. 

- E o que é que isso garante que é seguro? 

- É. 

- Quem pôs isto aqui? 

- Não sei. 

- Apareceu aqui do nada...? 

- Sim. Bem, quer dizer...do nada não deve ter sido, mas também não sei quem foi, nem para quê! 

- É tão bonito...até apetece tocar. 

- Mas é melhor não tocarmos.

- Porquê? 

- Porque não é nosso. 

- Pois, aí tens razão! 

    Aparece o dono da cesta: 

- Mexeste aí? 

- Não! Estava só a olhar. Porquê?

- Porque vou ser eu que vou distribuir estes pacotinhos pelas portas. 

- Áh! Que lindos, e o que têm? 

- Têm coisas especiais. 

- São de comer? 

- Alguns. 

- E outros? 

- Outras coisas. 

- De onde vieste? 

- Das estrelas! 

- Das estrelas? (ri) Só se for nos teus sonhos. 

- É verdade. Vim das estrelas, são desejos que me pediram. 

- Desejos? (ri à gargalhada) Coitadinhos, santa inocência…!

- O quê? Nunca tiveste desejos? 

- Sim, mas nunca se realizaram, nem foram distribuir pacotinhos dourados pela porta, com os desejos realizados. 

- Porque não eram possíveis de realizar, ou não pediste com o coração. 

- E quem pediu esses? 

- Muita gente. 

- Esses são realizados? 

- São! Com licença, vou ao meu trabalho. 

    Pega na cesta, e começa a distribuir os pacotinhos dourados pelas casas, e põe-nos na beirada da janela. Uns pacotinhos tinham rebuçados com sabor a fruta, outros tinham um pozinho e quando abrissem sairia um animalzinho. 

    Outro pacote tinha sorrisos, que se espalhariam por todo o lado. Outro muito grande, tinha abraços para todos, cada um ia recebê-los quando alguém abrisse o pacotinho. 

    Noutro pacotinho estava um irmãozinho para uma criança que pediu esse desejo, noutro tinha um passarinho, noutros, um lindo boneco que dava luz, para umas crianças que tinham medo do escuro. 

    Noutro muito grande, havia comida, que chegaria para cada um, e outro seria levado para países onde há fome. Outro pacote muito grande, tinha pontinhos de luz, que eram todos os pedidos de cura, para quem sofria, por parte de adultos e crianças, que pediram esse desejo, seriam espalhados por todos os hospitais e casas que precisavam. 

     Outro pacotinho tinha livros, a pedido de uma criança que adorava ler, mas a família não tinha dinheiro para comprar muitos livros, o que o deixava muito triste. 

     Mas o maior pacote dourado de todos, continha o pedido de Paz para o Mundo, era tão grande, que o dono da cesta teve de saltar em cima dele, para o abrir, fez um grande estrondo. 

    A alma solitária que tinha falado com o dono da cesta, estremeceu, e gritou: 

- Mentiroso! A dizer que os pacotinhos não eram perigosos, e tinham desejos. Tinham era bombas. 

    E vai a correr ver se o encontra. Quando o vê, murmura: 

- Afinal…

    Aproxima-se dele: 

- Então disseste que esses pacotinhos dourados não eram perigosos, e ouvi um estouro...têm bombas? 

    O dono da cesta ri: 

- Para de dizer disparates e olha à tua volta, olha para o que está a acontecer diante dos teus olhos, e ali, aquelas partículas douradas a circular. 

    Abriu, e todo o pó espalhou-se no ar, onde era possível ver as partículas luminosas a seguir o seu caminho por toda a atmosfera, e dirigir-se para esses países. 

- É pó tóxico? 

- Não, claro que não. É um pó muito especial, vais já ver qual é. 

    Todos se assustaram com o estrondo, abriram as janelas e as portas, viram os pacotinhos, viram o dono da cesta, e as partículas douradas pelo céu, quase se confundiam com as estrelas. 

- Este é o vosso maior desejo, comum a todos, e lá vai ele… olhem que bonito! E estão aí os de cada um. - diz o dono da cesta. 

    Todos aplaudem, felizes, maravilhados com aqueles pontos de luz dourada, para a paz no mundo, e para a cura de quem estava em sofrimento, por doenças e outras razões. 

    Cada um abre o seu pacotinho e agradece ao dono da cesta, todos ficam com uma lagriminha de felicidade ao ver que o desejo de paz e de cura para quem sofre, ia a caminho, e seria realizado. Esperavam e acreditavam eles. 

- Desculpa. Tinhas razão! É mesmo especial. 

- Nunca pediste esse desejo? 

- Não, mas daqui para a frente vou pedir. 

- Boa! Vais vê-lo assim! 

- Gratidão! - gritam todos, e aplaudem. Abraçam-se, sorriem, ficam a apreciar as viagens das partículas douradas pelo céu. 


                                            FIM 

                                       Lara Rocha 

                                     18/Abril/2024 

    Vamos pedir também esse desejo? 

Todos e cada um de nós, vamos pedir um pacotinho dourado de Paz para o Mundo, o fim do Sofrimento, e da fome, o fim da Guerra, a cura para quem está doente e a sofrer? 

    Vamos acreditar que veremos esse pozinho dourado a cobrir os céus, juntamente com as estrelas, e que esses nossos desejos vão realizar-se? 

    Que desejos pediriam? 

Incluíam esses desejos de paz, e cura? 

Como imaginam essa cestinha? 

E os pacotinhos dourados? Acreditam ou acreditariam, acreditarão que esses desejos podem ser realizados? 

Porque não experimentamos, pedir com o máximo de pessoas com quem nos damos bem, e nós próprios, todas as próximas noites, pedir um pacotinho de paz e cura para o Mundo? 

Podem deixar nos comentários, se quiserem :) 

                                    


sábado, 26 de março de 2016

A toupeira e o mocho



           Era uma vez uma toupeira que vivia debaixo do solo, e um mocho que vivia à superfície. O mocho conhecia a toupeira, mas a toupeira nunca tinha ouvido falar no mocho. Um dia a toupeira quis ir visitar a superfície à noite. Saiu da sua toca e na árvore em frente estava pousado o mocho, atento a tudo, de olhos e ouvidos bem abertos. Ele percebe qualquer movimento. Olha para baixo:

- Boa noite! O que temos aqui? – Pergunta o mocho, apesar de já saber a resposta

- Boa noite! Com quem estou a falar?

- Com o mocho. E tu és uma toupeira!

- Eu chamo-me…

- Toupeira.

- Não sei como me chamo.

- É assim que te chamam!

- Quem?

- Os humanos!

- Quem são esses?

- São os que plantam o que tu comes!

- Raízes?

- Sim, raízes e sementes.

- Áh! Mas que simpáticos. Então tenho de lhes agradecer.

- Acho que não é boa ideia.

- O que é que não é boa ideia?

- Agradeceres aos humanos.

- Porque não?

- Porque eles não vos veem com bons olhos!

- Então que arranjem outros olhos.

- O que eu quero dizer é que eles não gostam de vocês.

- Não?

- Não!

- Porquê?

- Porque vocês dão cabo de tudo!

- Mas então porque é que nos dão alimento? Se fazem isso, estão a cuidar de nós…e se cuidam de nós é porque nos querem bem, certo?

- Não!

- Foi o que sempre nos ensinaram.

- Mas no caso deles não é assim! Vocês destroem tudo, e eles não gostam disso.

- Mas é o nosso alimento! Porque é que põem lá essas coisas? Eles também as comem, é? Se é por isso, partilhamos, não tem problema.

- Não! Eles não comem essas coisas. Vocês é que comem, sem autorização.

- Sem autorização? Como? É preciso autorização para comermos? Nunca vi lá em baixo nenhuma placa!

- Vocês dão cabo do trabalho deles.

- Temos de comer, para sobreviver, como eles! Se não nos querem, não ponham a nossa alimentação!

- Mas eles precisam!

- Então comem isso?

- Não! Comem outras coisas.

- Tudo isto que estás a dizer é muito estranho.

- Sim! É verdade.

- Mas, e tu, quem és?

- Um mocho.

- Vives aqui?

- Sim!

- O que fazes?

- Tomo conta deste espaço, à noite.

- Trabalhas de noite, só?

- Sim!

- E de dia?

- Durmo!

- Conheces bem este espaço?

- Muito bem.

- E como é?

- É bom, sossegado, silencioso.

- Onde estão os que vivem aqui? Vive gente?

- Sim, vive gente e animais. Estão a dormir!

- E tu estás acordado?

- Sim!

- Porque não estás a dormir como eles?

- Porque trabalho de noite! De dia não é preciso vigiar, mas de noite, eles descansam, e alguém tem de garantir a segurança!

- Áh! E é difícil trabalhar de noite?

- Não! Já estou habituado!

- Tu vês bem?

- Vejo, muito bem!

- Eu não! Mais ou menos.

- Não usas óculos?

- Não sei o que é isso!

- Umas coisas para ajudar a ver bem, quem vê mal.

- Áh! Não sei. Nunca nos falaram nisso. Vemos mal, mas cheiramos na perfeição! Tu usas essas coisas?

- Não! Para já não. O que vieste fazer cá fora?

- Vim ver como era!

- Como era o quê?

- Este espaço!

- Ááááhhhhh!

- Posso subir para aí, e ver o que se vê daí?

- Podes.

            A toupeira vai para o ramo do mocho, sobe pelo tronco e quando chega ao ramo…

- Ei…tu és tão grande! Lá de baixo parecias mais pequeno.

(O mocho ri-se)

- Ao longe tudo parece mais pequeno. Até de lá de baixo.

- Já experimentaste?

- Já.

- E também vês mais pequeno?

- Sim.

- Podes dizer-me o que vês, por favor?

            O mocho suspira, e compreende a toupeira que não vê bem. Então, pacientemente, e com o máximo de pormenor, descreve tudo o que consegue ver, em todas as direções. A toupeira ouve, sorri e segue a voz do mocho, maravilhada.

- Áh! Que maravilha que é a superfície! Lá em baixo não temos nada disto! É tudo igual, tudo feio, que tristeza…! Obrigada pelas tuas descrições.

            Ela olha para cima.

- Que pintas são aquelas?

- Onde?

- Ali…no telhado da tua casa.

- Não são pintas, são estrelas, e não estão no telhado da minha casa.

- Áh!

- O telhado da minha casa é de madeira, não tem estrelas! Aquelas estão muito longe daqui.

- E estão sempre ali?

- Estão, mas só se vêm à noite…como está agora!

- E têm outra coisa além da noite?

- Temos…a manhã, a tarde e a noite!

- Tantas coisas. Eu pensei que estava sempre escuro cá em cima, como lá em baixo.

- Não! De manhã e de tarde temos dia, claridade, sol, chuva…

- Sol?

- Sim!

- Nunca vi!

- Um dia vais ver. Mas tens de vir de manhã, quando estiver claro!

- Não sei se consigo! Gostaria! Descreve-me como é o sol, por favor!

- É amarelo, redondo, dá luz, aquece, alegra, faz nascer plantas…é bom!

- Áh! Tantas qualidades. É um candeeiro?

- Não! É um astro!

- O que é isso?

- Está lá em cima, com as estrelas…

- Porque é que ele não está ali com elas, agora?

- Porque é noite! E as estrelas é que aparecem de noite! O sol aparece de dia, e enquanto há sol, não há noite, por isso, não há estrelas. Quando é noite, não há sol, e há estrelas!

- Áh! Não aparecem ao mesmo tempo?

- Não!

- Que giro! Conta-me mais coisas da superfície, por favor!

- O que queres saber mais?

- Estes barulhos, o que são?

- Que barulhos?

- Estes que eu estou a ouvir! Tu não ouves barulhos?

- Ouço! Muitos barulhos.

- Eu também. O que são?

- São cigarras, grilos, sapos, rãs. Há pirilampos a voar, aquelas luzinhas que vês à volta das flores e das árvores, há corujas, cães a ladrar, gatos a miar, carros da cidade, na estrada, há vento a bater nos galhos, há música nas ruas da cidade.

- E aquela claridade?

- São as luzes da cidade!

- Que lindo! Já foste à cidade?

- Não vou há muito tempo. Há demasiado barulho, confusão, luzes, fiquei muito agitado.

- Obrigada pelas informações.

            Os dois conversam mais um bom bocado, riem, e a toupeira fica a conhecer o lugar. Já de madrugada alta, depois de muita conversa, a toupeira fica com sono e volta para a sua toca no solo, com a promessa de voltar. E assim foi. Nos dias seguintes, a toupeira voltou à superfície, e acompanhou no solo, as rondas noturnas do mocho, a conversar de vez em quando, mas não tanto porque o mocho tinha de estar atento, e a toupeira tinha medo de predadores, mesmo assim ela fez bons amigos nesses passeios.

Se vocês fossem o mocho, o que mostrariam à toupeira? Escrevam…


                                               FIM

                                               Lálá

                                   (25/Março/2016)

  

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

as palavras desaparecidas



foto de Lara Rocha 














Era uma vez uma via láctea muito lá em cima, que estava cheia de estrelas, cometas, planetas, o sol, a lua e outros corpos celestes. De um dia para o outro, foi invadida por seres estranhos que nunca tinham sido avistados antes por aquelas zonas. 

- Mas o que é isto? - Pergunta uma estrela 

- Terráqueos? - Perguntam todas 

- Não! - Responde outro grupo 

- São família deles...? - Pergunta um planeta 

- Não me parecem. - Repara uma estrela 

- Têm um cheiro muito desagradável. - Comenta outra estrela 

- Mas que espécie rara... - Repara a lua 

- Será que é uma nova invenção daqueles lá de baixo? - Pergunta outra estrela 

- Vírus...? Ou aquelas coisas para nos tirar fotos...? - Pergunta outro cometa 

- É melhor alguém perguntar-lhes... - Sugere o sol 

Todos olham para o sol e faz-se silêncio. 

- Porque é que estão todos a olhar para mim assim? - Pergunta o sol surpreso, todos sorriem - Já percebi...vou ter de ser eu a perguntar não é? Não acredito. Todos querem saber, mas eu é que pergunto. 

Todos riem. 

- Por favor... - Dizem em coro 

- Ai...que coisa...! Está bem. - Responde o sol 

O sol sorri e pergunta: 

- Vocês desculpem...óhhhhh...desculpem...não sei os vossos nomes. - O sol chama-os 

Eles olham: 

- Está a falar connosco? - Pergunta o ser misterioso

- Sim. - Diz o sol - Eu peço desculpa, mas...são novos aqui. De onde vêm? 

- Lá de baixo. Da Terra. - Responde outro ser 

E chegam aos milhares. Encontram-se, e cumprimentam-se. 

- Mas, mas...o que é que está a acontecer? - Pergunta o sol 

- Fugimos! - Respondem todos os seres 

- Como? - Perguntam as estrelas 

- De onde? - Pergunta a Lua 

- Porque é que fugiram para aqui? - Pergunta um cometa 

- Viemos da terra. - Respondem em coro 

- Fugimos daqueles terráqueos! - Diz outro ser 

- Mas, porquê? - Perguntam todos 

- E porque é que fugiram para aqui? - Pergunta a Lua 

- Porque fomos esquecidas lá em baixo. - Justifica um dos seres 

- Mas...são todos parecidos... - Repara uma estrela 

- Sim. 

- E acham que aqui vão ser lembradas? - Pergunta o sol 

- Talvez! - Respondem os seres 

- Por favor...deixe-nos ficar aqui. - Pede outro ser 

E chegam mais outros tantos. 

- Mas vocês não são perigosos para nós? - Pergunta uma estrela com medo 

- Não! - Garantem todas 

- Desculpem...nem nos apresentamos. - Diz outro ser 

- Nós somos as palavras simples e bonitas que as pessoas deixaram de usar...

- Trocaram-nos por umas mais feias.

- São gostos! 

- Nós somos as OBRIGADAS! - Dizem em coro 

- Nós somos as MUITO! - Dizem em coro outras 

- Nós somos as PAZ! - Dizem outras 

- Nós somos os AMORES! - Dizem outras 

- E eles são os nossos filhos...os AMO-TE! - Acrescenta uma das AMORES 

- Nós somos os GOSTO DE TI... - Dizem outras 

- E eles são os ADORO-TE! - Dizem outras 

- Nós somos os SORRISOS! 

- Nós somos os CARINHOS! 

- E elas são os BEIJOS, e eles os ABRAÇOS. 

- Nós somos as PARTILHAS. 

- Nós somos os TEMPOS.

- Nós somos os BRINCADEIRAS. 

- Nós somos os BONDADES. 

- Nós somos os PREOCUPADOS...

- Nós somos as ATENÇÕES. 

- Nós somos as DEDICAÇÕES. 

- Nós somos a SINCERIDADE. 

- Nós somos os RESPEITOS. 

- Nós somos as AMIZADES. 

- Nós somos os VALORES. 

- E fomos trocadas por palavras horríveis como...a guerra, a fome, as armas, a violência, a falta de respeito, o ódio, o sem tempo, é tudo a correr...

- A vingança, a desconfiança, a indiferença, a mentira, a falsidade, a maldade, o egoísmo. 

- Já não agradecem...

- Já não dão valor a nada, muito menos a ninguém...

- E chegarão muitas mais. 

- Que horror! - Dizem todos os corpos celestes 

- Lá em baixo está o caos. - Diz a palavra PAZ 

- Não se pode viver lá. - Lamenta a palavra VALORES 

- Não pode ser... - Suspiram todos tristes 

- Não admira! - Diz o sol 

- Por isso é que também nós sofremos cá em cima. - Diz a Lua 

- Óh...queria tanto voltar lá para baixo! - Lamenta e choraminga a palavra AMOR

- Desculpa, já sabes que só digo a verdade...mas não te querem lá em baixo. Nem se lembram de ti...trocaram-te por outras. Aquelas que já sabes, e que tiveste oportunidade de ver. - Diz a palavra SINCERIDADE

- Mas será que eles não sentem a minha falta? - Pergunta a palavra AMOR? 

- Infelizmente não! - Diz a palavra SINCERIDADE 

- Não percebem que eu sou boa...? E vocês também? - Pergunta a palavra AMOR? 

- Não! - Respondem todas 

- Será que algum dia vão perceber...? - Pensa alto a Lua

- Andam com os gostos estragados. - Comenta uma estrela 

- Eu sempre os achei muito estranhos... - Comenta um cometa 

- Nunca gostei deles! Principalmente da forma como eles trataram a Natureza. - Desabafa o RESPEITO 

- Que não se tratem bem uns aos outros é problema deles, mas maltratar a natureza... eu ficava a ferver com o que via. - Lamenta a DEDICAÇÃO 

- Eu queria acreditar que as coisas vão mudar, e que vamos voltar lá para baixo. - Diz a palavra ESPERANÇA 

- Acho que é melhor não acreditares muito nisso. Não é fácil... - Diz a SINCERIDADE 

- A natureza está farta de enviar sinais, alertas e ralhetes, lembretes, para ver se mudam...mas só mudam para pior. - Diz a palavra PREOCUPAÇÃO 

- Com certeza! - Dizem todas 

- Quando é que tudo vai mudar para melhor...? - Pergunta a palavra PAZ 

- Essa resposta nem o Universo tem. - Responde o sol 

- Porquê? - Perguntam as palavras 

- Porque não é ele que muda as cabeças dos humanos. - Responde o sol 

- Nem nós! - Responde a Lua 

- Pois não. - Dizem todos 

E chegaram mais palavras que se sentiam esquecidas. O sol autorizou a que ficassem lá instaladas, todas as palavras que eram esquecidas. Chegaram mais, e mais...e houve espaço para todas. Formaram uma bela e enorme família. As palavras que os terráqueos esqueceram, e os habitantes da grande via láctea. Enquanto havia paz, amizade e felicidade, na terra as coisas pareciam rodar de pernas para o ar. Os humanos não entendiam a importância e a maravilha que essas palavras transportavam. Algumas crianças e adultos com  mais idade ainda chamaram algumas palavras que estavam esquecidas e fugidas, mas eram muitas mais as que continuavam esquecidas. E o mundo continuava ao contrário, sem as palavras mais bonitas. Às vezes as palavras ainda iam à Terra mostrar-se, para ver se as pessoas se lembravam delas, mas voltavam tristes, desconsoladas, pois ninguém as via. As palavras bem queriam mudar as mentalidades, mas não conseguiam...eram sempre escorraçadas, ignoradas, maltratadas. Elas ficavam radiantes, felizes e brilhantes quando se lembravam delas, mas pouco tempo depois, voltavam a ficar tristes. 

Muitas destas palavras estão realmente esquecidas...são muito pouco, ou mal usadas. É urgente encontrá-las outra vez!  

FIM 
Lara Rocha 
(8/Janeiro/2016) 

domingo, 13 de dezembro de 2015

O novelo


Era uma vez uma aldeia onde viviam muitas pessoas com bastante idade e jovens. Todos se conheciam de vista porque cruzavam-se quando saiam de casa.
- Bom dia menino, bom dia menina! – Diziam os mais velhos com um sorriso que logo ficava fechado e triste porque não tinham resposta
- Estes jovens estão surdos, ou são mal-educados?
- No nosso tempo levávamos logo um bofetão, e era muito bem dado.
- Bom dia dá-se até a um cão.
- Olhe, hoje esses animais são mais simpáticos que pessoas.
- É verdade. – Dizem todos
- Eu acho que eles são mal-educados!
- Mas também não admira que sejam surdos…vão com aquelas rolhas nas orelhas.
- Eu não sei quem foi o infeliz que inventou aquela bodega.
- Nem eu, mas parece que vão noutro mundo.
- Que coisa horrível.
- É. Parece mesmo…passam por nós, parece que somos um calhau, ou um monte de porcaria.
- É verdade! – Dizem todas
- Esta sociedade está perdida!
- Está mesmo! – Dizem todas
- Os jovens não têm nada na cabeça hoje…
- Pois não! – Dizem todas
                Na verdade, embora se cruzassem, viviam na solidão, cada um nas suas casas, muito raramente conversavam. Andavam sempre numa correria, que até deixava os mais velhos tontos da cabeça…pareciam comboios a passar.
- Olhem para isto…a velocidade com que eles andam.
- Terrível.
- Eu até fico atordoada.
- Eu também. – Respondem todas
- Não sei onde vão com tanta pressa!
- Para quê, tanta pressa?
- Parecem uns robôs ou andróides…ou lá como se chamam aquelas maquinetas dos meus netos…
- Pois é!
- Parece que eles nem sentem o chão.
- Eu não sentiria se fosse àquela velocidade com que eles vão.
- A sociedade já não é sociedade há muito tempo…
- É! É uma tristeza, agora.
- Estes jovens vão enlouquecer…!
- Eu acho que já enlouqueceram.  
                Um dia, uma coruja viu toda esta solidão e agitação, e não gostou nada… então, teve uma ideia: foi falar com uma sábia da floresta e contou-lhe tudo o que viu. A sábia deu-lhe a solução: um novelo feito de estrelas que a coruja deixaria cair das suas patas à porta de uma senhora idosa, que a levaria até outra casa de outra senhora, que se juntaria a outra estrela. 
                Assim fez…logo que saiu de casa da sábia levou o novelo nas patas, e ao passar nas portas onde viviam pessoas mais velhas e deixou cair do novelo uma estrela. Cada habitante via alguma coisa a brilhar, abriam a porta, e era uma estrela.
Quando pegavam na estrela, eram levados para se encontrarem com outro vizinho, que tinha outra estrela…com estes movimentos, formaram um lindo cordão humano, sem dar por isso, construído pelos fios do novelo que a sábia tinha mandado pela coruja.
Quando os mais velhos repararam estavam todos juntos no largo da aldeia, onde no tempo das suas infâncias, tinham feito grandes convívios e festas. Olham à sua volta e viram estrelas por todo o lado.
Deram uma valente gargalhada, trocaram longos e sinceros abraços, beijos, entrelaçaram os fios uns com os outros, brincaram, emocionaram-se, conversaram durante longas horas, reviveram os seus momentos felizes de infância.
Sentiram-se outra vez crianças e Adolescentes. As estrelas deram luz e calor a esse encontro, e a muitos outros que se seguiram. Eram um excelente exemplo para os jovens, um convívio feliz, saudável…nada igual aos de muitos que acontecem agora na sociedade moderna. Mas os jovens não tinham tempo para isso…pelo menos era o que eles diziam quando convidados.
A coruja não cabia em si de orgulho, felicidade e ternura. Sempre que podia, fazia de tudo para juntar as pessoas…discretamente…como ela gostava. Até as noites ficaram mais luminosas, com o seu olhar, ao ver a ternura e a felicidade daqueles encontros que quebravam a solidão, e davam vida à aldeia.
Fim
Lálá
(12/Dezembro/2015)