Número total de visualizações de páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta descoberta. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta descoberta. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

O que temos nos ouvidos

          Era uma vez um grupo de meninos e meninas muito curiosos, que estudavam na escola, e um deles, ao ver orelhas, ficou a pensar no que teria nos seus ouvidos. Perguntou em voz alta:
- Amigos, o que acham que temos nas orelhas?
- Ãh...? - Perguntam todos
- Estava aqui a pensar de que serão feitas as nossas orelhas por dentro.
- Hum, é uma boa pergunta. - Concorda outro menino pensativo
- Não sei! - Diz uma menina
- Vamos perguntar aos nossos pais, aos nossos avós, e a toda a família, de que são feitas as orelhas deles, por dentro, e amanhã trocamos as respostas, para ver se todos somos iguais, dentro das orelhas. Boa? - Propõe o menino
- Boa! - Concordam todos
          Quando chegam a casa cada um pergunta aos pais, aos tios, aos avós, e aos irmãos. No dia seguinte, encontram-se novamente e partilham as respostas.
- Então? Perguntaram de que são feitas as nossas orelhas?
- Sim!
- A minha mãe diz que não sabe de que são feitas as nossas orelhas por dentro, que isso só os médicos é que sabem dizer. Ela diz que são termos muito complicados. O meu pai também não sabia, nem os meus avós. A minha irmã diz que tínhamos um búzio dentro das orelhas.
- Um búzio? - Perguntam todos surpresos
- Sim! Como aqueles da praia.
- Não pode ser.
- Ela diz que sim, até lhe tiraram uma fotografia que aparece nos livros! E diz que todos temos isso.
- Mas, como é que temos uma coisa que costuma estar no mar?
- Não sei. Isso não perguntei, e se calhar isso ela também não sabe.
- Mas eu não oiço o mar, como nos outros búzios que apanhei na praia.
- Eu também não.
- Será que as nossas orelhas por dentro, são a praia, com mar e búzios e conchas?
          Todos riem.
- A minha Tia diz que temos um labirinto dentro das orelhas!
- Um labirinto? - Perguntam todos
- Sim.
- Aqueles que têm vários caminhos e temos de encontrar a saída?
- Isso não sei, nunca entrei lá, e acho que ninguém entrou.
- A minha Avó diz que tem grilos dentro das orelhas!
- Grilos? - Perguntam assustados
- Como é que a tua Avó tem grilos?
- Se calhar ela estava a dormir e eles entraram a pensar que ela uma toca.
- Pois, foi o que aconteceu com as abelhas que entraram nas orelhas do meu Avô!
- O teu Avô tem abelhas dentro das orelhas? Como é que elas entraram?
- Não sei, nem ele sabe.
- Não saem?
- Diz que não!
- E elas não picam?
- Não!
- Será que produzem mel?
- Claro que não, não temos flores dentro das orelhas, acho eu! Pelo menos ele não falou disso. Se tivéssemos flores, elas saiam fora das orelhas.
- A minha Avó diz que os grilos dela também não saem! Diz que às vezes não se calam.
- E como é que os vossos Avós sabem que têm grilos e abelhas? Alguém lhes tirou uma fotografia?
- Não! - Dizem os dois
- A minha Avó sabe que são grilos pelo cri, cri deles, e às vezes cantam tão alto que ela nem consegue dormir, depois tem de tomar um remédio para os pôr a dormir.
- Áh! Eu não sei o que é que o meu Avô faz para calar as abelhas que tem nas suas orelhas.
- A minha mãe diz que tem cigarras dentro das orelhas! Principalmente quando vai para a escola ensinar os alunos, cantam sem parar, quando chega a casa, as cigarras param de cantar.
- Áh! E como é que elas entraram?
- Não sei.
- Então como é que ela sabe que são cigarras?
- Pelo seu cantar.
- E não saem?
- Não, eu acho que elas só vão dormir quando a minha mãe volta para casa, mas não saem de lá porque cantam na escola.
- Áh.
- A minha Avó diz que tem anjos a cantar dentro das orelhas dela.
- Anjos?
- Sim, mas não cantam sempre. Só às vezes.
- E cantam bem?
- Diz que sim.
- O meu Avô diz que tem foguetinhos e bombinhas de Carnaval, a minha Avó diz que tem sininhos a tocar dentro das orelhas, os meus pais não sabem o que têm.
- Os meus Avós dizem que têm cera!
- Cera?
- Sim. É por isso que ouvem mal. Eles ás vezes vão tirá-la ao médico, mas não sei como fazem isso, e depois voltam a ter cera.
- Quem é que as põe lá?
- Não sei!
- A minha mãe também diz que temos um búzio e um labirinto em forma de círculo.
- O meu pai diz que o interior das nossas orelhas é muito importante, e que se ficarmos doentes, ele também fica.
- Será que as abelhas, as cigarras e os grilos também ficam doentes?
- Ficam!
- E continuam a cantar?
- Eu acho que não...quando estamos doentes, não conseguimos cantar, por isso, se calhar eles também não.
- Como é que eles tratam as doenças?
- Não sei!
- Se calhar vão ao médico como nós.
- Será que temos uma aldeia ou uma cidade dentro das nossas orelhas?
- Não.
- A minha tia diz que temos muitas coisas dentro das orelhas, disse nomes muito esquisitos, e todas essas coisas têm o seu papel para nos mantermos de pé sem cair. Quando caímos é porque algum desses com nomes estranhos, está a funcionar mal.
- Então devemos ter um computador dentro das orelhas que comanda tudo.
- É. A minha tia disse que sim, cheio de botões, como a nossa cabeça por dentro.
- Eu não sei o que tenho nas minhas orelhas.
- Vamos perguntar se todos temos as orelhas iguais por dentro, e amanhã trocamos as respostas.
           Perguntam a toda a família se as orelhas são todas iguais por dentro, e no dia seguinte partilham as respostas:
- Então, perguntaram se somos todos iguais, dentro das nossas orelhas?
- Sim!
- A minha mãe diz que devemos ser todos iguais dentro das orelhas, mas por fora, algumas orelhas são mais redondas, outras mais bicudas, umas mais finas outras mais grossas.
- A minha tia disse o mesmo, que dentro das orelhas todos temos a mesma coisa, por fora podemos ser diferentes.
- Os meus pais e os meus Avós também disseram isso.
- A minha irmã também.
            Folheiam um livro grande, e encontram o ouvido.
- Olhem...o búzio que a tua irmã diz! Não temos praia nos ouvidos, nem areia, nem mar, por isso não ouvimos o mar, mas temos um búzio.
- Áh! Que giro! E é mesmo importante.
- A tua tia tinha razão, temos mesmo muitas coisas dentro das nossas orelhas! Parece mesmo um computador.
- Olha o labirinto...! É muito diferentes dos labirintos que conhecemos, este é só em círculo. Uma pessoa que ande por aqui, deve ficar tonta.
- Pois. Este é fácil, mas onde é a saída?
- Este labirinto é muito estranho.
- Mas esperem...aqui não fala nas abelhas, nem nas cigarras, nem nos grilos, nem anjos, nem foguetinhos...
- Nem todos nós temos esses animais nas orelhas!
- Pois não!
- Como é que alguns têm e outros não?
- Vê se diz alguma coisa disso...
            Não encontraram nada nos livros. O que seria? E vocês, ouvem alguma coisa? Querem saber como são as nossas orelhas por dentro? Peçam a um adulto que vos ajude a descobrir! E perguntem aos vossos pais, irmãos, tios e Avós se ouvem algum desses barulhos.

                                                                    FIM
                                                                    Lálá
                                                                8/12/2017 
     

   

sábado, 26 de março de 2016

A toupeira e o mocho



           Era uma vez uma toupeira que vivia debaixo do solo, e um mocho que vivia à superfície. O mocho conhecia a toupeira, mas a toupeira nunca tinha ouvido falar no mocho. Um dia a toupeira quis ir visitar a superfície à noite. Saiu da sua toca e na árvore em frente estava pousado o mocho, atento a tudo, de olhos e ouvidos bem abertos. Ele percebe qualquer movimento. Olha para baixo:

- Boa noite! O que temos aqui? – Pergunta o mocho, apesar de já saber a resposta

- Boa noite! Com quem estou a falar?

- Com o mocho. E tu és uma toupeira!

- Eu chamo-me…

- Toupeira.

- Não sei como me chamo.

- É assim que te chamam!

- Quem?

- Os humanos!

- Quem são esses?

- São os que plantam o que tu comes!

- Raízes?

- Sim, raízes e sementes.

- Áh! Mas que simpáticos. Então tenho de lhes agradecer.

- Acho que não é boa ideia.

- O que é que não é boa ideia?

- Agradeceres aos humanos.

- Porque não?

- Porque eles não vos veem com bons olhos!

- Então que arranjem outros olhos.

- O que eu quero dizer é que eles não gostam de vocês.

- Não?

- Não!

- Porquê?

- Porque vocês dão cabo de tudo!

- Mas então porque é que nos dão alimento? Se fazem isso, estão a cuidar de nós…e se cuidam de nós é porque nos querem bem, certo?

- Não!

- Foi o que sempre nos ensinaram.

- Mas no caso deles não é assim! Vocês destroem tudo, e eles não gostam disso.

- Mas é o nosso alimento! Porque é que põem lá essas coisas? Eles também as comem, é? Se é por isso, partilhamos, não tem problema.

- Não! Eles não comem essas coisas. Vocês é que comem, sem autorização.

- Sem autorização? Como? É preciso autorização para comermos? Nunca vi lá em baixo nenhuma placa!

- Vocês dão cabo do trabalho deles.

- Temos de comer, para sobreviver, como eles! Se não nos querem, não ponham a nossa alimentação!

- Mas eles precisam!

- Então comem isso?

- Não! Comem outras coisas.

- Tudo isto que estás a dizer é muito estranho.

- Sim! É verdade.

- Mas, e tu, quem és?

- Um mocho.

- Vives aqui?

- Sim!

- O que fazes?

- Tomo conta deste espaço, à noite.

- Trabalhas de noite, só?

- Sim!

- E de dia?

- Durmo!

- Conheces bem este espaço?

- Muito bem.

- E como é?

- É bom, sossegado, silencioso.

- Onde estão os que vivem aqui? Vive gente?

- Sim, vive gente e animais. Estão a dormir!

- E tu estás acordado?

- Sim!

- Porque não estás a dormir como eles?

- Porque trabalho de noite! De dia não é preciso vigiar, mas de noite, eles descansam, e alguém tem de garantir a segurança!

- Áh! E é difícil trabalhar de noite?

- Não! Já estou habituado!

- Tu vês bem?

- Vejo, muito bem!

- Eu não! Mais ou menos.

- Não usas óculos?

- Não sei o que é isso!

- Umas coisas para ajudar a ver bem, quem vê mal.

- Áh! Não sei. Nunca nos falaram nisso. Vemos mal, mas cheiramos na perfeição! Tu usas essas coisas?

- Não! Para já não. O que vieste fazer cá fora?

- Vim ver como era!

- Como era o quê?

- Este espaço!

- Ááááhhhhh!

- Posso subir para aí, e ver o que se vê daí?

- Podes.

            A toupeira vai para o ramo do mocho, sobe pelo tronco e quando chega ao ramo…

- Ei…tu és tão grande! Lá de baixo parecias mais pequeno.

(O mocho ri-se)

- Ao longe tudo parece mais pequeno. Até de lá de baixo.

- Já experimentaste?

- Já.

- E também vês mais pequeno?

- Sim.

- Podes dizer-me o que vês, por favor?

            O mocho suspira, e compreende a toupeira que não vê bem. Então, pacientemente, e com o máximo de pormenor, descreve tudo o que consegue ver, em todas as direções. A toupeira ouve, sorri e segue a voz do mocho, maravilhada.

- Áh! Que maravilha que é a superfície! Lá em baixo não temos nada disto! É tudo igual, tudo feio, que tristeza…! Obrigada pelas tuas descrições.

            Ela olha para cima.

- Que pintas são aquelas?

- Onde?

- Ali…no telhado da tua casa.

- Não são pintas, são estrelas, e não estão no telhado da minha casa.

- Áh!

- O telhado da minha casa é de madeira, não tem estrelas! Aquelas estão muito longe daqui.

- E estão sempre ali?

- Estão, mas só se vêm à noite…como está agora!

- E têm outra coisa além da noite?

- Temos…a manhã, a tarde e a noite!

- Tantas coisas. Eu pensei que estava sempre escuro cá em cima, como lá em baixo.

- Não! De manhã e de tarde temos dia, claridade, sol, chuva…

- Sol?

- Sim!

- Nunca vi!

- Um dia vais ver. Mas tens de vir de manhã, quando estiver claro!

- Não sei se consigo! Gostaria! Descreve-me como é o sol, por favor!

- É amarelo, redondo, dá luz, aquece, alegra, faz nascer plantas…é bom!

- Áh! Tantas qualidades. É um candeeiro?

- Não! É um astro!

- O que é isso?

- Está lá em cima, com as estrelas…

- Porque é que ele não está ali com elas, agora?

- Porque é noite! E as estrelas é que aparecem de noite! O sol aparece de dia, e enquanto há sol, não há noite, por isso, não há estrelas. Quando é noite, não há sol, e há estrelas!

- Áh! Não aparecem ao mesmo tempo?

- Não!

- Que giro! Conta-me mais coisas da superfície, por favor!

- O que queres saber mais?

- Estes barulhos, o que são?

- Que barulhos?

- Estes que eu estou a ouvir! Tu não ouves barulhos?

- Ouço! Muitos barulhos.

- Eu também. O que são?

- São cigarras, grilos, sapos, rãs. Há pirilampos a voar, aquelas luzinhas que vês à volta das flores e das árvores, há corujas, cães a ladrar, gatos a miar, carros da cidade, na estrada, há vento a bater nos galhos, há música nas ruas da cidade.

- E aquela claridade?

- São as luzes da cidade!

- Que lindo! Já foste à cidade?

- Não vou há muito tempo. Há demasiado barulho, confusão, luzes, fiquei muito agitado.

- Obrigada pelas informações.

            Os dois conversam mais um bom bocado, riem, e a toupeira fica a conhecer o lugar. Já de madrugada alta, depois de muita conversa, a toupeira fica com sono e volta para a sua toca no solo, com a promessa de voltar. E assim foi. Nos dias seguintes, a toupeira voltou à superfície, e acompanhou no solo, as rondas noturnas do mocho, a conversar de vez em quando, mas não tanto porque o mocho tinha de estar atento, e a toupeira tinha medo de predadores, mesmo assim ela fez bons amigos nesses passeios.

Se vocês fossem o mocho, o que mostrariam à toupeira? Escrevam…


                                               FIM

                                               Lálá

                                   (25/Março/2016)

  

quinta-feira, 24 de março de 2016

a estrela e o planeta

NARRADORA - Era uma vez uma estrela que vivia numa galáxia, que se sentia incompleta, e muito sozinha, apesar de viver com a família e ter muitos amigos. Como já estava crescida, queria encontrar alguém especial, que a completasse, e que a fizesse sentir-se especial. Já há muito tempo que ela esperava, mas não encontrava…ela não queria um qualquer igual a si…isso tinha lá, na sua galáxia, milhões deles, amigos dela, com quem ela era muito feliz, e às vezes até namorava, mas não a preenchiam, porque queriam tudo muito rápido, e ela achava que o amor não era para pressas, nem tinha prazo de começar, muito menos de acabar. Era muito romântica, e sonhadora, como as meninas da sua idade. De há uns tempos para cá, ela sentia-se estranha, sentia qualquer coisa de estranho à sua volta. Andava muito pensativa, e tinha voltado a sonhar com alguém que ela conheceu, e que amou de verdade…não era bem uma estrela, o seu verdadeiro amor…era…um homem, do planeta terra. Esse rapaz com quem ela sonhava, existia mesmo, mas ela ainda não se tinha encontrado com ele. Apenas andava a sentir a sua presença, mas não sabia que era ele, com quem sonhava todas as noites, com quem imaginava de dia e de noite, momentos românticos, com alguém que a completasse. Andava sempre atenta, a olhar para o espaço, à procura dele. Ele não aparecia. Ela esperava, esperava, esperava…suspirava, sonhava, imaginava…e nada…tudo não passava de sonhos, desejos que ela tinha, como tem qualquer outra jovem da sua idade, com um príncipe. Um dia, perdida nos seus sonhos, de olhos abertos, sentiu uma vibração estranha, e assustou-se. Estremeceu e ao seu lado estava um planeta.
PLANETA - Ei…acorda!
ESTRELA - Olá… (sorri) Desculpa…estavas aqui há muito tempo?
PLANETA - Eu estava. Tu é que não!
ESTRELA - Eu também já estou há muito.
PLANETA - A tua mente anda por aí…a vaguear, tipo alma penada…estrela sem rumo…por onde andas…?
ESTRELA - Por aqui mesmo! – Responde um pouco embasbacada.
PLANETA - Pois, claro…já percebi que não me queres contar. Está bem, não faz mal.
ESTRELA – Desculpa…mas há coisas que só a cada um de nós diz respeito.
PLANETA – Não sabia que tínhamos segredo, mas está bem…passamos a ter.
ESTRELA – É…só um sonho…mais nada.
PLANETA – Está bem…então não contes.
ESTRELA – Óh, não fiques chateado comigo.
PLANETA – Eu não estou chateado. Também não te conto os meus sonhos, pelo menos, aqueles mais… especiais.
ESTRELA (sorri) – Vês…? É isso mesmo, não te posso contar, porque é um sonho muito especial.
PLANETA – Sim, sim…e queres que ele se realize…já conheço essas coisas todas. Está bem, respeito-te! Espero, do fundo do meu núcleo que se realize. É um bom sonho, de certeza, para ficares com esse brilho! (Ela sorri embaraçada) Escusas de te denunciar tanto, eu já percebi tudo…ai, ai…!
ESTRELA – Olha…vamos mas é ter com eles…!
NARRADORA – O Planeta sorri, e os dois juntam-se aos amigos. A estrela continua a sentir uma presença…forte. Ela procura, e à noite, quando olha para a Terra murmura…
ESTRELA – Sinto que estás perto…muito perto! Não sei quem és…não conheço o teu rosto, nem sei nada de ti, mas sei que existes…e que…estás perto. Como saberei quem és, se um dia nos encontrarmos?
NARRADORA – Em baixo, no planeta terra está um rapaz jovem a olhar para as estrelas, deitado no solo num descampado.
RAPAZ – Quem me dera que aparecesses! Só te sinto…nos meus sonhos…sei que não existes…ou…talvez existas noutra cidade…não conheço o teu rosto, sei apenas o teu brilho, e sinto apenas a tua presença! Será que um dia nos vamos encontrar…? Ou…estarás entre a multidão de raparigas?
NARRADORA – A estrela fica estarrecida, e brilha intensamente, com o seu coração a bater muito depressa, a olhar para o jovem depois de o ter ouvido.
ESTRELA – És tu…? Serás…?
NARRADORA – O rapaz fixa-se na estrela, maravilhado.
RAPAZ (sorridente) – Áhhh…que linda estrela! Uau! Brilhante…
ESTRELA – Preciso de ter a certeza se és mesmo tu…!
NARRADORA – Enquanto o rapaz fica a olhar para a estrela, encantado, a estrela transforma-se numa mulher linda, e atravessa a atmosfera para a Terra, em forma de estrela cadente. O rapaz sorri e quando fecha os olhos para pedir o desejo, a estrela para em frente a ele, transparente. Ele sente a sua presença.
RAPAZ – Uau, até a pedir o desejo sinto a tua presença. Mas…que coisa estranha…Óóóhhh…acho que tudo não passa da minha imaginação…!
(A Estrela sorri, e o jovem vê um lindo brilho à sua frente, a piscar)
RAPAZ – O que é isto? Estou a delirar…?
ESTRELA – Olá…boa noite!
RAPAZ – Ai…estou mesmo a imaginar coisas…lá está a presença forte, e especial…misteriosa…outra vez…mas onde…? Eu ia pedir-te às estrelas, mas não cheguei a fazê-lo…óhhh, é mesmo só a minha vontade de te ter…mas que brilho lindo é este?
ESTRELA – Estou aqui…
RAPAZ – Espera…eu conheço este brilho…e…a presença está à minha frente…és tu…? Sim…és tu…! És tu… (ri) aparece…! És rapariga?
ESTRELA (sorri) – Sim, és tu…a presença que eu sentia…muito perto!
RAPAZ (feliz) – És tu, a rapariga dos meus sonhos…! Eu sentia esta presença…esta energia…eu não via o teu rosto, mas via este brilho…sim, és tu…és tu…! Tu existes mesmo…!
ESTRELA (sorridente) – Sim, és tu…! Sim, sou eu! Mas sou uma estrela.
RAPAZ – Uma estrela…?
ESTRELA – Sim, era por isso que não vias o meu rosto, e eu não via o teu, mas sentia a tua presença!
RAPAZ – Tu…também sonhaste comigo?
ESTRELA (sorri) – Sim, muitas vezes…mas não te via…assim, como és!
RAPAZ – Óh…não posso acreditar…! Eu só me apaixono por pessoas impossíveis…! Até nos sonhos, e dos sonhos para a realidade…são amores impossíveis…!
ESTRELA – Porquê?
RAPAZ – Porque…eu sou homem, e tu…não existes…quer dizer…existes…em forma de…presença…de luz…!
ESTRELA – Estás a dizer que eu não existo…? Existo, sim…tu viste-me, e tu sentiste-me…tu vês-me, e eu vejo-te…!
RAPAZ – Mas…um homem não pode namorar com uma estrela.
ESTRELA – Ei, que pressa…sentimos a presença um do outro, sonhamos um com o outro, mas não quer dizer que seja para sermos o que chamas de namorados…! A nossa energia cruzou-se, gostamos um do outro, mas só porque nos encontramos, não quer dizer necessariamente que sejamos já namorados…!
RAPAZ – Como assim?
ESTRELA – Então…eu sou estrela, não sou mulher…o amor não nasce assim de um segundo para o outro…de um encontro de energias…! O amor não tem data para começar nem para acabar… começa naturalmente, e não acaba…aliás…foi o que aconteceu comigo e contigo…num tempo indeterminado…apaixonamo-nos, amamo-nos…desaparecemos, mas a energia do nosso amor, não desapareceu! Voltou a encontrar-se…! Vamos deixá-la livre, por favor…como foi o nosso amor…! Assim seremos mais felizes.
RAPAZ – Como é que sabes isso?
ESTRELA – Não sei explicar! Apenas…sinto que foi isso que aconteceu.
RAPAZ – Mas isso não faz sentido nenhum.
ESTRELA – Então como é que tu sonhaste comigo, e não me vias, mas identificaste-me pelo meu brilho, disseste que conhecias o meu brilho, e que era eu…sim, sou eu, aquela com quem sonhaste sem ver o rosto, mas viste e sentiste a minha presença e a minha luz.
RAPAZ – Que mistério…mas assim, eu nunca vou ser feliz no amor…não me correspondes…
ESTRELA – Só queres o amor carnal…! Enquanto quiseres apenas o amor carnal…o desejo…o sentir a pele…não nos encontraremos mais, e é claro que não serás feliz.
RAPAZ – Porquê?
ESTRELA – Porque o amor é luz, é energia, não é só carne, como toda a gente pensa…! Claro que o carinho faz parte, e o contacto físico, mas não é por si só, o amor…! O amor que procuras existe, tens de o conquistar sem pressa. Sem ansiedade…!
RAPAZ – O quê?
ESTRELA – Sim, foi isso mesmo que ouviste…enquanto não te entregares à minha luz, à minha presença, e enquanto tiveres pressa no prazer, na carne…no desejo ardente…não apareço em forma de gente.
RAPAZ – Mas…
ESTRELA – Sim, vou aparecer em forma de gente, mas não é já…
RAPAZ (impaciente) – Mas o que é que eu tenho de fazer…?
ESTRELA – Tens de me conquistar sem pressa…! Tens de me descobrir aos bocadinhos…! Saborear a minha alma…
RAPAZ – Isso não é justo! Andei tanto tempo a desejar conhecer-te, à tua procura…agora…quase te encontro…ou…acho que te encontrei…e tu, já estás a fugir…?
ESTRELA – Eu não estou a fugir…só estou a ajudar-te…!
RAPAZ – Não acredito!
ESTRELA – Se acreditas neste amor…luta por ele…conquista com calma, sem pressa…com delicadeza…explora aos bocadinhos…sente a minha luz, a minha presença…conquista-me…entrega-te…mas é o amor que tens de conquistar…a minha energia… a minha luz…!
RAPAZ – Não sei se vou aguentar…
ESTRELA – Claro que vais…! Eu acredito que sim.
RAPAZ – Estou farto de esperar…! É só esperar, esperar, esperar…
ESTRELA – Vais desistir?
RAPAZ – Acho que sim.
ESTRELA – A escolha é tua…é pena que assim seja, mas se é isso que queres, não posso fazer nada. Quando quiseres, ou se mudares de ideias…basta olhares para lá para cima…
RAPAZ – Mas…espera…
ESTRELA – Sim…?
RAPAZ – Eu…preciso de pensar um bocadinho.
ESTRELA – Faz o que quiseres…! Até breve…!
NARRADORA – A estrela volta triste para a Galáxia, e o rapaz não prega olho nessa noite, a pensar e a olhar para a estrela. Na noite seguinte, e depois de andar todo o dia pela cidade, o rapaz decidiu-se…
RAPAZ – Estrela…vou lutar por ti…vou conquistar a tua luz…ou…o teu amor…como lhe quiseres chamar!
NARRADORA – A estrela desce, feliz, e vai ter com o rapaz, sorridente, brilhante.
ESTRELA (sorridente) – Podes repetir o que disseste…?
(O rapaz pega na mão da estrela, e diz, a olhá-la nos olhos)
RAPAZ – Eu vou lutar pelo teu amor, conquistar a tua luz…
ESTRELA (sorri) – Sem tempo…?
RAPAZ – Sem tempo! Vou deixar que as coisas aconteçam, quando tiverem de acontecer…!
ESTRELA (sorri) – Muito bem! Não imaginas como fico feliz!
RAPAZ (sorri) – Dá para ver pelo teu brilho…mais intenso…e…sinto!
ESTRELA (sorri) – Boa! Também sentirás a minha luz…para me conquistar.
RAPAZ (sorri) – Acredita que sim!
NARRADORA – Nessa noite, os dois tem uma longa e agradável conversa. Desde esse dia, o rapaz torna-se um verdadeiro cavalheiro, muito romântico, sensível, paciente, meigo, educado…oferece pequenas lembranças à estrela…dão longos passeios, e têm longas conversas, riem muito juntos, brincam…ao fim de algum tempo, tornam-se verdadeiros amigos, a estrela aparece em forma de rapariga, que deixa o rapaz completamente apaixonado, e encantado, mas não força nada, nem pressiona, nem obriga a nada…e trocam carinhos… adoram estar juntos, e ao fim de bastante tempo, nasce a paixão, namoro, que rapidamente se transforma em amor. Ambos sentem isso…um no outro, e um pelo outro. A estrela corresponde ao seu amor, e decide viver o seu amor com o rapaz, deixando o espaço, mas os dois vão lá muitas vezes, pois o rapaz também ganha poderes. Numa noite de Lua Cheia, os dois olham para o outro, no local onde se encontraram a primeira vez.
ESTRELA – Estou muito orgulhosa de ti.
RAPAZ (sorri) – Eu, nunca pensei que seria capaz de esperar…mas o meu amor era mais forte que a impaciência, e que a vontade carnal.
ESTRELA (sorri) – Sim, soubeste esperar, e conquistaste-me devagarinho…! Conquistaste o meu amor…a minha luz…
RAPAZ (sorridente) – E tu, conquistaste a minha luz…!
ESTRELA (sorridente) – As nossas luzes…foram mais fortes, encontraram-se, e encantaram-se…!
RAPAZ (sorridente) – Sim, é verdade…Foi difícil…mas valeu a pena, porque estou muito feliz contigo…
ESTRELA (sorridente) – Eu também!
RAPAZ (sorridente) – O amor…faz mesmo milagres! Eu transformei-me numa pessoa muito melhor do que era, depois de te ter conhecido.
ESTRELA (sorri) – A sério…?
RAPAZ (sorridente) – Sim.
ESTRELA (sorridente) – Isso foi porque absorveste a minha luz…conquistaste-a…e deixaste-te conquistar por ela, não tiveste pressa…!
RAPAZ (sorri) – Sim, é verdade! És a minha luz…!
ESTRELA (sorridente) – Tu também és a minha luz.
(Uma voz do céu)
LUA (sorridente, e maravilhada, sorri) – Ai, que lindo…quem me dera ver todos os casais assim…! Com um amor tão sincero entre eles…As vossas luzes encontraram-se, viram-se, e fundiram-se, criando uma só luz! Tão linda como a nossa via láctea…o vosso brilho mostra o vosso amor.
OS DOIS (sorriem) – Madrinha…!
LUA (feliz) – Sim, sou uma madrinha orgulhosa…olhem que estou de olho…!
NARRADORA – E os dois falam alegremente com a Lua que foi a madrinha deles. O amor é mesmo isso…é saber esperar, ser paciente, conquistar sem pressa…respeitar, rir, trocar carinhos, oferecer pequenos carinhos, demonstrar esse amor…ver a luz um do outro, e fundir-se nela.  

FIM
Lálá 
(29/Agosto/2013)





sábado, 30 de janeiro de 2016

A chama e a gotinha


Era uma vez uma chama pequenina que vivia num candeeiro com a sua família e tinha começado a usar óculos no dia anterior. Via muito mal, mas com os óculos já via bem. Estava muito feliz e curiosa para ver como tudo era lindo e saber se era diferente.
Foi passear e estava tão distraída a ver tantas coisas novas que nem imaginava que existiam à sua volta e quase entrava num grande forno. Só não entrou porque uma gotinha de água que vivia no poço ao lado sentiu alguma coisa de estranho, achou que quando estava deitada na sua caminha viu passar uma chama. Foi à superfície e estava certa! Viu mesmo!
As chamas do forno recebera muito mal a chama, não lhe disseram coisas simpáticas e levantaram-se a gritar, preparavam-se para lhe fazer mal, mesmo sendo todas chamas. A gotinha de água não gostou nada e mandou parar as chamas. Como é água, as chamas obedeceram de imediato, porque têm muito medo dela e voltaram a deitar-se.
A chama respirou de alívio.
- Ufa, que susto. Muito obrigada…salvaste-me. Só não te abraço porque não te conheço…!
- (ri) Só não me abraças porque tens medo! Eu sou uma gota de água, e tu és uma chaminha, estou a ver.
- Sim, isso mesmo. Mas tu lês pensamentos é?
- Eu? (ri-se) Não! Porquê?
- Como é que sabes que eu não te abraço porque…
- Tens medo.
- Sim…
- (ri) Não é preciso ler pensamentos. É normal. Todas as chamas têm medo da água. Mas eu não molho, por isso, podes abraçar-me, se quiseres.
- Não molhas?
- A ti, não!
- Porque não?
- Porque és das boas.
- Há chamas boas e más?
- Claro que há. E gotas boas e gotas más.
- Mas como é que sabes que eu sou uma chama boa?
- Percebo pela tua cor.
- Áh…! Que estranho.
- Há muitos mistérios sem resposta…mas é isso que torna tudo mais mágico e especial. Queres experimentar, abraçar-me?
- Eu posso?
- Podes.
A chama abraça a gotinha, com medo.
- Para quê, medo? – Pergunta a gotinha
- Como é que sabes? – Pergunta a chama
- (ri) Abraça-me…simplesmente. Admito que tenhas medo de muita coisa, mas de abraçar…!
- És misteriosa… - Comenta a chama
E as duas dão um longo abraço a sorrir. A chama cresce e a sua luz torna-se mais forte.  
- Ai…que bom! – Diz a gotinha
- Gostaste? – Pergunta a chama
- Adorei. Já há muito tempo que eu não recebia um abraço tão bom.
- Ainda bem…eu por acaso recebo muitos abraços.
- Que sorte! (e muda de assunto) E por falar em sorte…Tiveste sorte! Eu estava acordada e pareceu-me que te vi passar…vim certificar-me que tinha visto mesmo o que achei que vi. E acertei.
- Não percebi o que acabaste de dizer…
- O que eu disse foi que se eu não te visse, elas tinham-te derretido.
- Que medo! Conhece-las?
- Conheço.
- Elas são más?
- São! Horríveis. Mas têm-me respeito…
- Eu dizia…medo.
- Talvez. Mas ainda bem que têm medo.
- Porquê?
- Porquê, o quê?
- Porque é que elas têm medo de ti?
- Porque sou água, e elas são…fogo.
- Ááááhhh…mas onde estavas?
- Na minha casa.
- E onde é a tua casa?  
- No poço.
- No poço?
- Sim. Ali. (aponta)
- Como é que me viste passar?
- Estava deitada e vi-te passar. Elas iam dar cabo de ti. O que fazes por aqui sozinha? É perigoso andar por aqui à noite.
- Nunca me disseram que era perigoso andar por aqui, isto é muito sossegado.
- Como vês, os perigos estão escondidos. É preciso ter muitos pares de olhos e estar com todos os sentidos em alerta.
- Eu só tenho dois…
- Dois olhos? Eu vejo quatro-olhos (diz a gotinha irónica)
- Quatro? – Pergunta a chaminha muito surpresa
- Sim, os teus e essas rodas que tens por cima dos teus olhos.
- Áhhhh…tu queres dizer os óculos?
- Claro…
As duas dão umas valentes gargalhadas…
- Eu estava a ver mal, mas agora com os óculos vejo bem. Foi por isso que sai agora de casa, para ver como eram as coisas à noite, se eram muito diferentes com óculos e sem óculos.
- E a que conclusão chegaste?
- Sim, são muito diferentes. Tudo é muito mais especial com óculos. Tu vês bem?
- Sim, felizmente. Muito bem. A noite pode ter as suas belezas, mas o dia é muito melhor. Tudo se torna muito mais bonito, e vês muito melhor todas as belezas. Eu recolho muito cedo, porque já sei como são as coisas à noite.
- Eu não sabia.
 - Queres ir dar uma voltinha?
- Sim.
- Posso acompanhar-te?
- Podes.
As duas passeiam sem pressa, conversam, e a gotinha mostra muitas coisas bonitas. Param várias vezes para apreciar encantadas, o bailado com coreografias dos pirilampos, acompanhados pelos cantos das cigarras e dos grilos, e aplaudem. Vêem fadas a repousar debaixo de cogumelos, e borboletas a dormir em flores, cobertas com as suas pétalas.
Mais à frente, num enorme campo encontram-se com mochos e corujas, amigos da gotinha, que recebem carinhosamente a chaminha, e mostram as sombras deles no chão, provocadas pelo reflexo da enorme Lua cheia, que parece dia.
Começam a voar e a pisar as sombras, uns dos outros, a correr, a fugir, a tentar apanhar e a rir às gargalhadas. A chaminha nunca tinha brincado assim, e está muito feliz, divertida.
Mas os seus pais estão muito preocupados, e saem de casa à procura dela. Andam vários metros, e encontram-na. Respiram aliviados, e vêem-na tão feliz que deixam-na estar…rapidamente ficam também contagiados e entram na brincadeira.
- Mamã…Papá…?
- Continua! – Dizem os pais
E juntam-se mais sombras, mais brincadeira e muitas gargalhadas. Depois, um dos mochos leva-os ao riacho grande, com uma cascata, onde ouvem deliciados, os cantares das águas a passar nas pedrinhas, e a cair das cascatas.
Vêem e ouvem um delicioso espectáculo das fadas aquáticas, onde estão muitos outros animais a ver, quase hipnotizados com tanta beleza, e aplaudem.
Terminado o espectáculo, que vai pela madrugada, tudo fica em silêncio…e como perderam a noção do tempo, e o sono nessa noite, assistiram a um nascer do sol como nunca antes tinham visto…pelo menos que se lembrassem.
Para os mochos e corujas já não era novo, pois eles vêem todos os dias, mas até para eles, todos os dias em que nasce o sol, são diferentes, lindos e especiais. Não há um único nascer do sol igual ao outro, porque também o vêem sempre de lugares diferentes, e reparam em pormenores nunca antes vistos.
Trocam agradecimentos, carinhos e cada um vai descansar para a sua casa, feliz. A gotinha e a chaminha, e as suas famílias tornaram-se grandes amigas, quase família, encontraram-se todos os dias para brincar, passear, conversar e ver coisas novas.
Às vezes a amizade nasce do inesperado…da surpresa…em momentos de aflição, e pode durar para sempre, se for bem tratada.
FIM
Lálá

(30/Janeiro/2016)